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	<title>José Eduardo Martins</title>
	<link>http://blog.joseeduardomartins.com</link>
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	<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 04:08:49 +0000</pubDate>
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	<language>en</language>
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		<title>Reflexões sobre o Amanhã</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 03:27:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Literatura</category>

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		<description><![CDATA[Saint-Exupéry e Aspectos Ligados ao Futuro

La pierre n’a point d’espoir d’être autre chose que pierre.
Mais, de collaborer, elle s’assemble et devient temple.
Saint-Exupéry
Quão impossível se possa prever, o futuro, palavra impregnada de mistério está perene durante toda nossa trajetória. O termo adquire metamorfoses na medida em que o afunilamento etário delimita fronteiras. Mas a palavra se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Saint-Exupéry e Aspectos Ligados ao Futuro</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/169.Futuro-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/169.Futuro-small.jpg" alt="Clique para ampliar." /></a></p>
<p><em>La pierre n’a point d’espoir d’être autre chose que pierre.<br />
Mais, de collaborer, elle s’assemble et devient temple.</em><br />
Saint-Exupéry</p>
<p>Quão impossível se possa prever, o futuro, palavra impregnada de mistério está perene durante toda nossa trajetória. O termo adquire metamorfoses na medida em que o afunilamento etário delimita fronteiras. Mas a palavra se adapta a todas as situações previstas: família, comunidade, profissão e almejos os mais variados. Estamos sempre a delinear projetos de toda a ordem, neles acreditando ou até sonhando, e revés ou desiderato atingido farão parte desse caminhar olhando o passo à frente ou o final da senda. Porvir imediato ou longínquo são salvaguardas para aspirações e aprimoramentos ou,<em> hélas</em>, desejos menos nobres. Faz parte do gênero humano pensar naquilo que virá, esse vir a ser que tantas vezes pode ser obliterado pelo inesperado. E ele acontece sem que o queiramos.<br />
A noção que se tem do futuro é elástica e mais será encolhida à medida que as décadas se acumularem. Outra configuração, essa transcendental, pode dirigir o homem às reflexões espirituais. É absolutamente normal, pois tensões, provocadas pelas vontades de toda ordem nas fases que precedem a idade mais serena, estimulam eflúvios para que o futuro possa acontecer e que intenções se realizem.<br />
Estava a folhear <em>Citadelle</em>, de Saint-Exupéry, obra de constantes visitas, mormente nos momentos voltados à meditação. Há precisões do autor quanto ao tema a envolver o futuro. Ele, que nos voos noturnos nos céus da África do Norte, do Atlântico e da América do Sul, previa sempre chegar bem, a ter como bálsamo a atividade cumprida e as correspondências distribuídas pelas casas e empresas, levando toda espécie de mensagem. Em pleno voo, ao sobrevoar o sul do continente americano, ficava a imaginar guaridas para a correspondência esperada. Visão do alto, a pensar em anseios acalantados em terra. Pensamentos que ocorriam ao piloto escritor quando se aproximava da temível aterrissagem, naqueles tempos históricos em que tantos monomotores soçobraram sem missão cumprida.<br />
Saint-Exupéry entendia que o futuro se constrói. Não haveria em <em>Citadelle</em> a visão do progresso material, esse encaminhamento na busca de um bem-estar sem a presença humanística, responsável e ética. Seu ceticismo quanto à preocupação do homem voltado preferencialmente ao ganho é notório. Há nítida preocupação moral que perpassa <em>Citadelle</em>, obra que teria sido citada como uma Bíblia do século XX. Abundam metáforas nesse reino imaginado por Saint-Exupéry e poder-se-ia considerar tantas delas como verdadeiras parábolas.<br />
Os textos reunidos que compõem a obra têm, inclusive, apesar de não sequenciais, um norteamento seguro. O futuro lá está, exemplificado em vários segmentos, mas a obedecer apreensão humanística. A presença, nesse Império imaginário representado por <em>Citadelle</em>, do velho jardineiro que estava a regar com carinho uma pequena muda de carvalho não transcende expectativas? Ao ser perguntado do porquê de tanta devoção a cuidar de uma árvore que teria lento crescimento, a durar décadas somadas, se a vida estava a se estiolar, o homem respondeu que pensava nas gerações que desfrutariam da sombra do cedro quando crescido. Em outro segmento, nessa alegoria à vida vegetal, Saint-Exupéry observa que “nada significa para ele a primavera que não desenvolveu flores”, numa referencia à ilusão do almejar se não houver a expressão verdadeira do presente, ou ainda na menção a outra árvore que vê crescer pouco a pouco os seus ramos: “De presente em presente a árvore terá crescido e chegará, ciclo concluso, à morte”.<em> Citadelle </em>leva-nos a surpresas, e apreende-se que preparar o futuro nada mais é do que fundamentar o presente, “pois a única invenção verdadeira é a decifração do presente sob seus aspectos incoerentes e sua linguagem contraditória”. E em seu idiomático literário surge a metáfora “criar um navio é exclusivamente fundamentar a rampa em direção ao mar”. Para Saint-Exupéry, sonhar o amanhã pode implicar antevê-lo sem bases concretas, o que levaria ao equívoco: “ O futuro não se pode prever, mas permitir”. Ou ainda, recorrente: “Construir o futuro é construir o presente. É criar um desejo pertinente ao hoje. Que é hoje em direção ao amanhã.”  Estar focalizado no presente destrói a antevisão que poderia configurar o sonho, a idealização sem bases, a vontade sem esforço. Esse presente de que nos fala Saint-Exupéry não seria o <em>stress</em> preocupante em direção ao amanhã perturbado, mas a construção pedra por pedra, que se realiza no hoje “O passado é irreparável, mas o presente nos é apresentado como material a granel aos pés do construtor. Compete a você forjar o futuro”.<br />
Através de constantes imagens, muitas delas repetitivas, mas sob outra vestimenta, Saint-Exupéry constrói e solidifica seu pensamento. Explicam seus escritos a insistência da pedra que, trabalhada, tornar-se-á templo, da semente que será cedro. Essas metáforas servem à explicação de seu edificar um mundo responsável, amoroso e solidário.<br />
No reino imaginado por Saint-Exupéry não há acolhida para o pragmatismo voltado à exatidão dos números, a geometria a serviço da construção sem fervor, o general que entende a guerra pela guerra. O futuro idealizado com alicerces no presente consciente, mas não direcionado ao determinismo imediatista do amanhã, revaloriza o estado do homem, posiciona-o como ente a entender o desenvolvimento natural em direção ao aperfeiçoamento. O ser humano e seus valores, preocupação constante do autor. Esse futuro entranhado no presente estabelece a relação que liga o homem a Deus. Valores como a família – prioritário –, o semelhante, a profissão amorosa, a casa onde tudo acontece e a comunidade como entidade onde todos devem ser responsáveis. A responsabilidade como respiração. Cresce o homem. A grandeza se edifica lentamente, e a força e o fervor, concentrados nesse dia a dia com pleno sentido, estabelecerão as bases em que o futuro será consequência. Se o inesperado acontecer, a obliterar aspirações, haverá outro comungante a levar o estandarte. A metáfora dos galhos de uma árvore, tema caro ao autor de <em>Vol de Nuit</em>.<br />
Poder-se-ia pensar em utopia. Tantas décadas se passaram após <em>Citadelle</em> e vê-se que o homem permanece basicamente voltado aos seus princípios egoístas e direcionados à auto satisfação. A legião operante e trabalhadora continua à mercê de interesses de uma minoria. Pensar o futuro? Infelizmente, parte considerável dos povos mal pode “prever” o presente, mas os poderosos, tantas vezes em ligações espúrias lobby-empresa-poder, levam àqueles que ainda acreditam o gosto amargo ao ver o homem, que deveria ter como aspiração maior a semelhança com Deus, corrompido em suas entranhas. Todas as decorrentes quedas em direção ao abismo mostrar-se-ão evidentes. Todo o mal estará perpetrado. E a degradação do planeta, nesse permanente,  denunciador e lamentável <em>day after </em>ocorrido pós Kyoto e Kopenhagen, persistirá, pois os poderosos teimaram e teimam em não ouvir os lamentos da Terra. E o planeta reage nos limites da agonia. Não foram as desmesuradas enchentes que invadiram São Paulo nestes dois últimos meses, a imprevisão do amanhã? A incúria de governantes e  empresários gananciosos não seria a causadora de desordenada construção de prédios cada vez mais altos – lucros igualmente – e da incorporação de cerca de 1.000 carros novos à frota da cidade, diariamente? Ouvi há poucos dias especialista na área viária dizer que, em determinadas horas, não mais se vê asfalto num sobrevoo sobre a urbe, apenas um mar de tetos metálicos, em alusão aos carros que trafegam, ou tentam fazê-lo, ao menos. <br />
Aos que acreditam na integridade do homem, o tempo que está por vir alicerçado no presente poderá ser menos caótico, na medida em que consciências ajam em defesa de um Bem que o Sistema tenta sempre escamotear, a confundir as mentes. Futuro, está ele aí, no amanhã que poderá apresentar, ao alvorecer, a luz de um céu de esperanças  – oxalá isso ocorra. Em metáfora outra, a sombria manhã sem brilho, apenas a mostrar no cerceamento de nuvens e terra sem luminosidade, a névoa das poluições físicas e, sobretudo, morais.
</p>
<p><em>Worried about the future and about our planet at risk thanks to men’s greed for power and wealth, I took refuge in Saint-Exupéry’s masterpiece Citadelle (The Wisdom of the Sands), in which he demonstrates his personal philosophy, stressing the importance of  individual responsibility and moral soundness as our only safeguard for the future.</em>
</p>
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		<title>Ecos de &#8220;Carta a um Jovem Pianista&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Feb 2010 04:21:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Música</category>

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		<description><![CDATA[Quando mensagem tem guarida

Na estrada por que vou
Não fujo do meu norte.
Edmundo Bettencourt
A carta ao jovem pianista (vide post de 13/02/10) propiciou número inusitado de acessos. Muitos leitores se interessaram pela problemática do amadurecimento artístico. Friso sempre que a idade não significa aprioristicamente status mais adequado para que a compreensão se dê. Se vícios adquiridos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quando mensagem tem guarida</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/168.sonhador-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/168.sonhador-small.jpg" alt="Clique para ampliar." /></a></p>
<p><em>Na estrada por que vou<br />
Não fujo do meu norte.</em><br />
Edmundo Bettencourt</p>
<p>A carta ao jovem pianista (vide post de 13/02/10) propiciou número inusitado de acessos. Muitos leitores se interessaram pela problemática do amadurecimento artístico. Friso sempre que a idade não significa aprioristicamente <em>status</em> mais adequado para que a compreensão se dê. Se vícios adquiridos em quaisquer atividades artísticas se enraizarem, natural supor que eles recrudesçam com o decorrer do tempo, o que compromete o aprimoramento. Não obstante, se houver equilíbrio no todo de um desenvolvimento, certamente o amadurecer será fato real.<br />
Após a publicação do blog, o jovem respondeu-me e, dias após, inseri no post a missiva eletrônica por ele enviada. Outras mensagens chegaram ao meu correio eletrônico e seis, entre inúmeras significativas considerações de leitores, transcrevo a seguir.<br />
Um dos maiores músicos brasileiros, Roberto Duarte, regente e pesquisador, gravou inúmeros CDs no Leste da Europa contendo a obra sinfônica de Villa-Lobos. Escreveu-me a relatar sua arguta compreenção desse ato mágico, a gravação competente: &#8220;Notas na pauta, ritmos assinalados, sinais de agógica, indicações de dinâmica e instruções para a execução não bastam para que uma música exista. Falta o elemento básico: o som. Sem ele tudo aquilo que está ali escrito será apenas um lembrete, uma representação muda e sem vida do que aquela obra de arte poderá ser. Para produzir o som é necessária a figura, a presença do intérprete cantor, instrumentista ou regente. É o mediador.  Sua posição, extremamente importante, entre o compositor, através da partitura (texto musical escrito), e o ouvinte (público) é difícil e delicada. Torna-se cada vez mais complexa à medida que o autor e o intérprete se distanciam no espaço e no tempo. O significado dos sinais gráficos vai se alterando com o passar das décadas e aos poucos esses sinais vão perdendo o sentido original. O artista é obrigado a um estudo cada vez mais profundo sobre a maneira de escrever dos diferentes compositores e das diversas épocas em que as obras foram criadas.<br />
As coisas se complicam ainda mais quando o intérprete moderno (dos últimos 50 anos, pelo menos) entra em um estúdio de gravação para perpetuar as suas interpretações. É uma enorme responsabilidade, mesmo para um artista experiente. Hoje, com a fantástica difusão da internet em todas as camadas da sociedade, ouve-se de tudo: desde os grande mestres do passado até aos inconsequentes jovens talentosos, mas sem o devido preparo que se lançam ao mundo de forma completamente impensada&#8221;.<br />
Da Califórnia (U.S.A), o leitor Paulo de Matos Machado demonstra a extensão do tema. Escreve: “Soube dos blogs do senhor professor através de um amigo que vive em São Miguel nos Açores. Dizia-me lá ele que está a ler seus textos desde o ano que passou. Acompanhei o conselho e tenho seguido semanalmente a diversidade dos posts do senhor professor. Calou-me muito ‘Carta a um Jovem Pianista’, pois o senhor professor transmite ao novel artista toda a experiência vivida, inclusive a comentar ocorrências não muito alvissareiras. Reporto-me à investida dos mosquitos durante gravações e a ganância de colega que não teve a decantação que se faz necessária para um amadurecer, a trocar a exatidão pela pressa em ‘aprender’ material para registo de Lp em apenas três dias ! O texto acabou por ser a resposta ao questionamento interior que me faço ultimamente sobre a decantada ‘idade madura.&#8217; Acompanho integralmente o posicionamento do senhor professor quando pormenoriza a qualidade como meta maior a ser atingida, a única na verdade. Numa visão mais pragmática, ao mencionar gravações sem zelo, talvez mais não pretendesse o senhor professor do que alertar gerações em todas as áreas do conhecer. Quero parabenizar o senhor professor Martins pelos ensinamentos transmitidos”.<br />
Idalete Giga, professora e regente coral, especialista em canto gregoriano envia-me e-mail de Lisboa, a pormenorizar a qualidade da epígrafe escolhida e a problemática do YouTube: “Quanto à ‘Carta a um Jovem Pianista - A qualidade como Destino’ a quadra do querido e saudoso Prof. Agostinho da Silva, a coroar o texto, é a síntese das sínteses do maior Tratado de Filosofia ! Que lucidez, que sabedoria ela contém ! Olhe esta, também de Agostinho da Silva, que é um hino à humildade: <em>Descobri um novo título/ E espero que o céu mo assuma/ É ser Honoris Causa/ Em coisa nenhuma</em>. A pintura de Deleener vem completar a quadra de Agostinho da Silva: <em>mas vejo mais do que via/ E sonho mais que sonhava</em>&#8230; Infelizmente, o YouTube transformou-se numa espécie de Feira da Ladra, onde aparecem pequenas preciosidades ao lado de montes de lixo. Para os jovens que ainda pulam muito e saltam muito, mas pouco vêem e menos sonham, o YouTube é uma miragem”.<br />
De Belo Horizonte escreve-me a professora e juíza Mônica Sette Lopes: “Meu caro amigo, gostei imenso do post de hoje, por várias razões. Porque fala do tempo e de como ele nos constrói, porque fala do que é importante, dos rastros que se deve deixar, porque fala da nossa relação com os mais jovens.”<br />
Rosana Costa, de São Paulo, comenta: “Quando você diz: <em>A vaidade humana é incomensurável</em>; toca-me profundamente, pois tenho notado o quanto uns se julgam superiores ao outros, a mania de subjulgar a capacidade alheia. Sua delicadeza em dizer ao Jovem Pianista que não podemos ‘atropelar’ o tempo, há sabores que necessitam do processo de maturação, o tempo sempre sábio, embora a nossa impaciência teime em querer burlar a sabedoria do mesmo”.<br />
José Bezerra Medeiros, de Pernambuco, tem visão cética, e considera que as: “&#8230; atividades culturais dependem de um complexo envolvendo economia, estágio da sociedade, saúde e formação do povo. A cada dia, crescentemente, a massa dirigida perde o contato com o passado. Discutir qualidade não seria elitismo? Muitos dos jovens que ouvem  ‘música’ imediata, mas esquecida depois de nova gritaria de sucesso, tomam sua água de coco, fumam sua maconha, fazem sexo livre, cobrem o corpo com tatuagens extravagantes e se vestem como maus palhaços. O cidadão que vê notícias sobre manifestações coletivas desse tipo de música percebe a total alienação desse povo. Professor, esse povo que vai a todo show com a participação de &#8216;cantores&#8217; berrantes não pensa nem no passado e nem na qualidade. É só o presente alienado que provoca adrenalina nesse mundão de gente, e parte do povão alucinado saiu da universidade ou ainda continua nela. O Professor luta e acredita. Eu não creio em mais nada. Estamos indo para o caos dos costumes. Essa é a realidade”.<br />
Outros mais abordaram o fulcral amadurecimento; a incógnita quanto ao tempo em que ele ocorre e se sedimenta; as cargas de toda ordem que acompanham o amadurecer; os frutos consequentes; o aprimoramento espiritual que pode surgir, a levar ao recolhimento individual sem contato com o exterior. Neste último caso, foram citados eremitas, anacoretas, carmelitas, trapistas, budistas e tantos outros, que intensificam a prática do auto conhecimento e a comunicação por meio da prece com o Poder Maior. Tornou-se evidente que as mensagens concentraram-se preferencialmente nessa busca incessante do aprofundamento, e a gravação, que foi motivo central, motivou tantas interessantes observações dela derivadas.   </p>
<p><em>Many readers of my last post (Letter to a Young Pianist) deemed it noteworthy and wrote me to share their thoughts on the subject. I selected only a few of such messages – for space reasons – and they are the post of this week.</em> </p>
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		<title>&#8220;A Voz de um Livro&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 02:27:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Literatura</category>

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		<description><![CDATA[Abrir a Mente para Poder Compreendê-lo
( Clique na imagem para ampliá-la )


Le tombe non giovane ai morti,
perché non restituiscono la vita.
L&#8217;aldilà non esiste&#8230;.
Ugo Foscolo (I Sepolcri)
Estava a tomar um curto com velho e dileto amigo. Cláudio Giordano é editor. Presidente da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, doou toda a coleção, constituída de livros, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Abrir a Mente para Poder Compreendê-lo</strong></p>
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<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/167.Livro-big.jpg" target="_blank"><br />
<img src="http://www.joseeduardomartins.com/167.Livro-small.jpg" alt="Desenho de Luca Vitali a partir do livro Ultime Lettere di Jacopo Ortis de Ugo Foscolo. Clique para ampliar." /></a></p>
<p><em>Le tombe non giovane ai morti,<br />
perché non restituiscono la vita.<br />
L&#8217;aldilà non esiste&#8230;.</em><br />
Ugo Foscolo (<em>I Sepolcri</em>)</p>
<p>Estava a tomar um <em>curto</em> com velho e dileto amigo. Cláudio Giordano é editor. Presidente da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, doou toda a coleção, constituída de livros, jornais e revistas (circa 30.000), à UNICAMP, que a acolheu em sua Biblioteca Central.  Generosidade, altruísmo e amor à atividade marcam a sua existência. Editou três de meus livros. Na conversa sempre enriquecedora com Giordano surgiu o nome do escritor italiano Edmondo de Amicis (1846-1908), o célebre autor de <em>Cuore</em>, que encantou gerações. Na juventude, ambos lemos a preciosa obra e nunca mais a esquecemos. Igualmente perdemos o contato com o livro primeiro, percorrido com quase devoção. Extravios ou destruições? Não soubemos dizer. A permanência de um livro pode ter motivos tão díspares&#8230;<br />
Giordano, em suas andanças por alfarrábicos da cidade, encontrara edições da obra em italiano e em português, e presenteou o amigo. Já estou a reler, movido por nostálgico prazer, após mais de meio século de uma primeira visita. Será motivo de blog futuro. Regalou-me ainda Giordano com <em>A Voz de um Livro</em>, do autor de <em>Cuore</em>, em que de Amicis narra a saga de um livro e as inúmeras mãos por que passou ao longo de sua existência. Causou o artigo profundo impacto em Giordano, que o traduziu para o português (Revista Bibliográfica e Cultural, Julho 2000, nº 2, pgs. 20-25). Tive a mesma reação frente às elucubrações contidas na narrativa. Escrevi o post a comentar o hipnótico, longo e instigante  <em>A Voz de um Livro</em>. Em <em>curto</em> posterior, no mesmo lugar, li o presente texto ao amigo e artista plástico Luca Vitali, que igualmente  emocionou-se. E surgiria em sua mente criativa a imagem a ilustrar o post da semana.<br />
De Amicis, ao ter em mãos um exemplar da 1ª edição de <em>Ultime Lettere di Jacopo Ortis</em>, romance epistolar do escritor e poeta italiano Ugo Foscolo (1778-1827), cria um interessantíssimo texto a partir daquilo que ele denomina “singularíssima alucinação”. O livro ganha nesse devaneio estranhas formas, e aparências humanas de expressão, como rosto, olhos, boca,  dimensionam-se na imaginação de De Amicis. Adquire vida e o exemplar, agora personagem, conta sua saga. O autor escreve, a anteceder o resultado da alucinação: “Existe coisa inanimada – afora a foto de nossos semelhantes – que nos possa dar tal ilusão melhor do que um livro?”  O calvário se inicia em 1802, logo após o nascimento da edição de Foscolo, e prosseguirá décadas após a morte do criador de <em>Jacopo Ortis</em>. O autor de <em>Cuore</em> segue os caminhos tortuosos a que foi submetido o livro nas suas mais variadas moradas. A sua permanência, essa “coisa inanimada”, pode merecer carinho ou desprezo daquele que o possui, mas tantas vezes desconhecemos sua trajetória. Penetrar nesse mundo imaginário, mas a conviver conosco, sugere outras elucubrações.<br />
No desenrolar da narrativa, o exemplar passa pela leitura de amigas de senhora piemontesa que o adquirira. Prossegue, mais tarde, nas mãos de Comissário austríaco que fazia inspeção na casa da adquirente e viverá, após, sete anos em estante. Ao morrer a senhora, seu irmão leva o espólio, e o livro sentirá a censura de um padre, permanecendo recluso “com outros livros excomungados, em um cubículo morto”. Lido, posteriormente, por soldados na Guerra da Criméia. A seguir “ fui molhado pelas  águas do Mar Egeu, a bordo do navio inglês que transportou o 4º Regimento Provisório da Divisão de Alexandre Lamarmora”; esteve em tendas turcas onde grassava a cólera; amargaria em hospital; um dono seu foi morto na batalha de Cernaia. Seria vendido posteriormente a “revendedor que tinha banca na Praça Castelo. Lá fiquei vários meses, exposto ao sol e ao vento, banhado às vezes por chuvas inesperadas, aberto e manuseado por centenas de ociosos”. O drama continua e um comprador “jovem, pobre e triste” o leva, mas o infortunado teria como destino o suicídio, e gotas de sangue respingaram sobre o exemplar. Foi ter a seguir a um Gabinete de Leitura “com taxa de dez soldos mensais e eu, marcado com um número como objeto de bazar, passei de sócio a sócio; no bolso de um deles, que fugia, fui desmantelado por uma bala dos carabineiros, no funesto tumulto da Praça Castelo pela Convenção de Setembro”. Em 1864 vai ter às mãos de açougueiro, que o mantém durante sete anos em caixote. O que segue tem aguçado humor: “Em 1871, soando na boca de todos o nome de Foscolo, por causa da remoção de suas cinzas para Santa Cruz, o açougueiro me retirou do sepulcro e me deu de presente ao dono de sua casa, que era um velho bibliófilo. Este me dedicou grandes cuidados, fazendo crer aos amigos que as marcações de algumas frases minhas eram do punho do meu autor. Depois de sua morte, por uma série de empréstimos, presenteamentos e trocas, passei de um professor a um advogado, a um estudante, a um dono de pensão, a uma atriz dramática e, por fim, a uma criada romântica, que me trocou por<em> Mon voisin Raymond</em>, de Paul de Kock, com um revendedor da Porta Palazzo, onde você me encontrou sobre uma esteira estendida no chão, entre uma antiga espada da Guarda Nacional e um São Roque de terracota. Eis a minha história de cento e cinco anos, desde o Consulado de Napoleão até o Reinado de Vitor Emanuel III. Meu autor tinha 28 anos quando vim à luz e há oitenta anos está sepultado! Mas, o meu fim também se aproxima, como você vê.”<br />
Após a exposição da saga geográfica, De Amicis percebe a boca aludida reabrir-se, e uma segunda etapa, introspectiva, a penetrar o âmago das percepções, é revelada: “Quantas coisas não vi ! Nada há mais respeitado e mais maltratado no mundo do que um livro”. O exemplar narra essas apreensões, que se estendem desde estar presente em bibliotecas arrumadas e envidraçadas até aquelas onde os escaninhos imundos fizeram-no estar misturado a trapos e teias de aranha. Se pessoas respeitadas trataram-no bem, outros o usaram para apagar velas, espantar insetos, pregar tachinhas, cobrir cafeteira e até servir como raquete em folguedo infantil. Torna-se de vivo interesse a descrição do autor a respeito de marcadores. O exemplar do livro <em>Jacopo Ortis  </em>revelaria que fitas douradas, espátulas artísticas, chaves enferrujadas e palha de cigarro serviram de sinalizadores para o estágio da leitura, assim como lágrimas vertidas, fios de barba, rapé de nariz caíram sobre páginas indefesas de maneira aleatória. A contrapor, cabelos de belas jovens permaneceram “e adormeci na tepidez perfumada de seus travesseiros”.<br />
Descreve conformado a qualidade de outros leitores. Daqueles interessados que chegavam à emoção, aos que percorriam o livro sem quaisquer reações fisionômicas, aos indiferentes que abandonam a leitura, ou até aos que o lêem para provocar o sono  deixando-o cair, o que o obrigou a dormir ao lado de chinelos e sapatos. Bilhetes e fotos tantas e tantas vezes estiveram entre suas páginas. Nesse passar de mãos em mãos, o exemplar fala dos “carregadores que me encaixotaram para mudanças; encadernadores que me deram vestes novas. Três vezes mudei de revestimento; três vezes fui desfeito, refeito, costurado, colado, dourado e devolvido rejuvenescido aos meus donos.”<br />
O exemplar não deixa de comentar sua vizinhança em tantas estantes: “Quantos e quão diversos vizinhos tive ao longo da vida! Em estantes organizadas por ordem alfabética, estive entre Fedro e Franklin” e outros mais com a letra F. Em outra organização, essa familiar, cercou-se de diversas outras obras de Foscoli, “outros filhos de meu pai”.  Sob  contexto diferente, esteve ao lado de “grossos volumes austeros, revestidos de pergaminho, tratados de moral e teologia com mais de cem anos de idade, os quais, percebendo quem eu era e as aventuras que vivera, trataram-me como malfeitor e vagabundo. Tinham mais de um século, mas estavam mais conservados do que eu; há tempos imemoriais ninguém os abrira, eu vivera, vira e conhecera mais mundos em cinquenta anos do que eles em trezentos, e sentia-me mais velho, mais cansado, mais próximo da morte do que eles”.<br />
Um outro aspecto curioso nesse segmento refere-se ao tratamento dado às páginas, antes imaculadas. O exemplar, através de seu escriba De Amicis, considera que ninguém ousava escrever sobre suas páginas nos primeiros anos. Com o tempo, passaram a fazer anotações a lápis ou a caneta e todo tipo de comentário surgiu, dos elogiosos às injúrias contra a obra. E profeticamente “Serão estes os juízos definitivos do porvir? Não posso acreditar nisso. Mudou o coração humano ou a linguagem da paixão? Que língua se fala hoje aos homens para comovê-los? Que estranha reviravolta ocorreu nos ânimos e nas idéias para que aquilo que comovia profundamente a geração em que nasci deixe frios ou faça sorrir ou irrite os leitores dos novos tempos? Pode então estar sujeita uma obra de talento, em sua beleza e em sua eficácia, à mesma decadência a que estão condenadas a substância e a forma em que essa obra se materializou? Vede a que estou reduzido ! Que miséria e que tristeza !”<br />
É o autor que, ao sair temporariamento do devaneio, considera o estado do exemplar de <em>Jacopo Ortis </em>de Ugo Foscoli: “De fato, nenhuma coisa inanimada é mais triste de se ver do que um livro estragado pelo tempo e pelo abandono&#8230;”. Com amargor menciona as vicissitudes a que foi submetido o livro, no mais profundo estado valetudinário. Moscas, traças e ratos, pó e umidade deixaram suas marcas. Manchas de toda ordem, “páginas inteiramente amareladas como faces de ictéricos”, dobras em outras folhas, furos provocados por cigarros, tintas várias, remendos grotescos por todo o livro e páginas “que se soltaram, foram enquadradas em papel mais branco, de sorte que têm a aparência de rostos de feridos, enfaixados com uma tira de pano, que cobre o crânio e ata-se sob o queixo”. E continua: “A capa de papelão soltou-se do volume como couraça desprendida; há páginas pela metade: alguns cadernos não se prendem aos demais senão por um fio frouxo, como se prende ainda ao tronco por um nervo um braço amputado”.<br />
No epílogo do texto, um diálogo sombrio se produz entre De Amicis e o exemplar. “Estou no fim – suspirou”. A cada alento do autor de <em>Cuore</em>, o livro responde ceticamente. Não acredita na perenidade e à afirmação de De Amicis “Mas existem irmãos imortais. As odes, os sonetos, <em>I sepolcri </em>renascerão eternamente”, a voz do livro responde “Não. Também esses acabarão destruídos um dia, sem deixar sucessores, e os últimos não serão mais compreendidos”. À insistência do autor em buscar uma luz de esperança, “Que seja para os teus irmãos, mas os filhos dos supremos entre os supremos, pouquíssimos ao longo dos séculos, apenas os que se possam nomear num só fôlego, salvar-se-ão”, combalido, o livro responde com voz ainda mais distante “Nenhum”. E, com ironia e compaixão, ainda diria “Só resta resignar-se, meu caro”. A servir de reflexão, De Amicis ouve voz bem fraca que advém de uma livraria “À infinita vaidade de tudo”.<br />
O texto de Edmundo De Amicis ultrapassa gerações. A tecnologia que levou às fotocópias e à internet, que tudo revela instantaneamente, não teria provocado abalo crucial no culto ao livro? Perdurariam o afeto mantido pelos livros e suas moradas, as estantes a abrigá-los, perpetrado por gerações precedentes e o entusiamo evidente a cada novo tomo ou compêndio que vinha somar ao que era percorrido avidamente pelos olhos? Parcela imensa dos que nasceram nessas últimas décadas não estaria fixada na rica informação que a internet oferece, mas geralmente esquecida após consultas feitas? A biblioteca física, amorosa, que permanece e que um dia é transferida para destinos vários, não teria perdido para legiões a aura do conhecimento a ser retido pela razão, coração e fisicamente? Não perde o homem uma raiz essencial? Àqueles que ainda acreditam, o texto sombrio e profético de De Amicis apenas ratifica afeições. Para tantos outros, um texto perdido no tempo. Prefiro ainda ter lá minhas nostálgicas esperanças, <em>à la manière </em>do cronista português António Menéres: “Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir adivinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para me facilitar outros e novos convívios”.</p>
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		<title>Carta a um Jovem Pianista</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/2010/02/13/carta-a-um-jovem-pianista/</link>
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		<pubDate>Sat, 13 Feb 2010 02:30:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Música</category>

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		<description><![CDATA[A Qualidade como Destino

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava
Agostinho da Silva
Estava para colocar o post da semana, a abordar o instigante texto A Voz de um Livro, de Edmundo De Amicis, quando respondi a um e-mail de promissor pianista que ainda não tive o prazer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A Qualidade como Destino</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/165.carta-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/165.carta-small.jpg" alt="H.Deleener. Técnica mista. Clique para ampliar" /></a></p>
<p><em>Não corro como corria<br />
nem salto como saltava<br />
mas vejo mais do que via<br />
e sonho mais que sonhava</em><br />
Agostinho da Silva</p>
<p>Estava para colocar o post da semana, a abordar o instigante texto <em>A Voz de um Livro</em>, de Edmundo De Amicis, quando respondi a um e-mail de promissor pianista que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente. Ao reler o que acabara de escrever, optei por publicar os comentários sobre <em>A Voz&#8230;</em> na semana vindoura. Torno pública a carta eletrônica endereçada ao jovem, guardando o anonimato do remetente que estará a ler via blog.<br />
O pianista em formação escreveu-me a dizer que colocara no <em>YouTube</em> gravações a apresentar suas performances. Dias após, dele recebi nova mensagem: “Quero informar que retirei do ar os clipes que havia postado no youtube.com. Decidi esperar mais um tempo e postar vídeos com qualidade mais perfeita.” A notícia fez-me lembrar situações que diariamente afligem jovens aspirantes idealistas, mas também outros, estes, irresponsáveis. </p>
<p>Meu jovem pianista,<br />
O seu e-mail levou-me à reflexão. Inicialmente, acredito que você agiu bem ao retirar os vídeos do <em>YouTube</em>. Tem o amigo consciência do que deve ser preservado. É sinal evidente de que o jovem pianista promete ser um músico que não desmerecerá a atividade. Se de um lado há gravações extraordinárias e históricas de tantos intérpretes que permanecem como parâmetros, há também muito entulho nesse veículo de tão grande acesso. Tudo lá está. O bem e o mal sem fronteiras. O bem lá está a causar admiração, o mal também, mas a desvelar o encantamento único do irresponsável que se permitiu auto promover. Com que fim? A vaidade humana é incomensurável, meu jovem. Sob outra égide, para muitos daqueles que vêm e ouvem, público tantas vezes sem convicções precisas, essa mistura sem amálgama possível entre o que tem valor e o absoluto amadorismo passa desapercebida. E todo o mal está feito. O <em>YouTube</em> presta serviço inestimável ao ter em sua listagem interpretações extraordinárias, mas também um desserviço abominável quando permite a inclusão de qualquer “produto” voltado à <em>&#8220;performance&#8221;</em>.<br />
O fato de deixar registros de áudio ou imagem pode camuflar um tipo comportamental que nem sempre é salutar. Li inúmeros relatos de grandes intérpretes que se arrependeram de gravações realizadas na juventude. Entenda o meu jovem amigo que nem sempre isso acontece. Há precocidades, e aí estão tantos compositores que produziram na mocidade obras definitivas, ou intérpretes que não conseguiram mais tarde as <em>performances </em>impecáveis do início da carreira. Mas também há incontáveis músicos que gravaram extraordinariamente do começo da atividade às fronteiras da desativação. Existem, pois, <em>nuances</em> quanto ao tema. Contudo, frise-se, não por outro motivo, a idade madura – seja em qual período, a abranger aproximadamente uma ou duas décadas após os quarenta anos – leva à conscientização do que deve ser levado à definitiva captação dos sons representada pela gravação. Lembre-se, ela não permite o retorno, pois representa aquilo que o intérprete transmite e deverá permanecer assim.<br />
Estou a me lembrar dos anos 80. Gravei “historicamente” alguns LPs para a Funarte, Basf e Studio, a preservar a obra camerística e para piano solo de Henrique Oswald que estava a estudar. Momento até heróico, em que aceitei pianos em condições razoáveis, tecnologia difícil, estúdios ou salas com problemas – em um deles, durante gravações, fui devorado por pernilongos. Fez parte de minha vida. Diria que aconteceu na juventude da idade madura, pois estava lá eu com os meus quarenta e poucos anos e as gravações atendiam a período preciso, quando não faltava a determinação de apreender esse aspecto de resgate histórico.<br />
O tempo passou. Dessas gravações não tenho saudades e nem mais as ouço, apesar de históricas, mercê das importantes obras. Deixei o tempo passar e apenas na fronteira dos sessenta anos comecei a deixar as pegadas que, entendo, mereceriam ficar registradas. O Diretor da De Rode Pomp da Bélgica, após um recital meu em Gent, disse-me que deveria começar a fixar a minha herança musical. A casa tem selo seletivo com pouquíssima tiragem, mas muito conceituada em meio específico musical. Entre gravações na Bélgica e outras na Bulgária e Portugal, lá estão 20 CDs. <br />
Em que condições aconteceram as gravações, poderia meu jovem amigo questionar? Responderia em compartimentos. Possivelmente, a idade madura tenha proporcionado um tipo de aferição quanto à necessidade da impecabilidade em todos os sentidos – perfeição é sempre inatingível –, a obedecer os limites individuais. Há que se ter consciência plena do estágio em que as obras se situam, do repertório escolhido e das condições as melhores, a fim de que a comunhão se dê. Torna-se evidente que nem sempre o ambiente ideal de gravação é obtido. Não obstante o fato, algo deve ser preciso, ou seja, a busca pela qualidade. Essa se consegue através de denodo, disciplina e afeto em relação às obras que serão gravadas.<br />
Estou a me lembrar de colega, pianista de méritos incontestáveis, que na década de 70 me disse que estudara três dias obras que seriam gravadas na manhã seguinte à nossa conversa. Possuidor de uma leitura absoluta, questionado por mim, respondeu-me que interesses financeiros obrigaram-no a tal façanha. Torna-se evidente que o pianista, que gravou no Exterior CDs referenciais, cedera às pressões. É aí que reside uma das encruzilhadas da atividade pianística. A concessão tem seu preço, e este é amargo ao longo da trajetória. Se você pingar uma gota de material líquido agressivo no mais requintado vinho em envelhecimento num tonel de carvalho, ele estará estragado por completo. Devemos ter sempre em mente a qualidade, pois o trigo não pode  confundir-se com o joio.<br />
De minha parte, meu jovem colega, encontrei o lugar de meus sonhos, que poderá muito bem não ser aquele de outros intérpretes. Temos de ter empatias. Um estúdio será sempre um estúdio, um teatro igualmente permanecerá a cena onde o espetáculo se dá. O local onde gravo, perdido na planura flamenga, é uma capela do século XI. Já escrevi vários textos sobre Sint-Hilarius ao longo destes três anos . O piano Steinway, vindo diretamente de Hamburgo, representa o que uma Ferrari Fórmula 1 pode significar para um corredor. Colocado em baixo da torre de pedra, sob as lápides de eclesiásticos e nobres sepultados desde o início do milênio anterior, funde-se nesse amálgama físico e espiritual com as milenares pedras irregulares. Desde o cantochão até as gravações atuais, Sint-Hilarius lá está a abrigar sons dos intérpretes. Nós passaremos, mas a capela deverá continuar a ouvir tantos outros instrumentisatas e generosamente oferecer-lhe as ressonâncias. Serve para reflexão sobre a temporalidade do intérprete. A ilusão do canto das sereias. Num aspecto outro, Johan Kennivé, engenheiro de som e psiquiatra, é um dos mais importantes da Europa e sabe cuidar de maneira impecável de toda a tomada de som. Nosso relacionamento estende-se para lá de uma década, e cada projeto recebe o carinho necessário. Tornou-se amigo diletíssimo, a captar sons e reações que surgem durante as gravações.<br />
Cada músico tem seus propósitos. Por eles será responsável. Cabe ao indivíduo encontrar o seu caminho. A única coisa que não se pode trair é a essência essencial da música. E nela, só a qualidade importa. Tenha fé em seu trabalho. Certamente resultará, pois você, além do talento, tem orientação segura. Coragem, disciplina, concentração, dedicação, humildade, gratidão aos mestres são qualidades que o ajudarão a vencer barreiras. Vá em frente, meu jovem. </p>
<p>No dia seguinte à publicação do post recebi e-mail do jovem pianista. Transcrevo-o:</p>
<p>Prezado José Eduardo Martins,<br />
sinto-me muito honrado com suas palavras e atenção em dedicar tempo para escrever-me tão longamente uma resposta. Muito obrigado.<br />
Concordo com tudo o que escreveu.<br />
Realmente, o registro é algo &#8220;eterno&#8221;, que deve ser pensado e repensado, com responsabilidade. Com certeza, o Youtube está repleto de exemplos de falta de profissionalismo.<br />
Alguns são exemplos de pura vaidade, a qual, em minha opinião, constitui a principal armadilha para um artista, pois a soberba precede a queda (como, aliás, está escrito na Bíblia Sagrada). Isso, para mim, é algo que literalmente &#8220;afeta&#8221; os artistas comprometendo a dignidade intelectual, a honestidade e a seriedade do trabalho.<br />
Enfim, concordo com exatamente tudo o que escreveu.<br />
Mais uma vez agradeço pela consideração e atenção.<br />
Forte abraço.</p>
<p><em>I received an e-mail from a young pianist saying he had posted videos of his performances on YouTube, but chose to remove them a few days later and wait until the quality of his playing improves. His message was the starting point of this post, a reflection on how difficult it is to sift the wheat from the tares on a video sharing website and on how strong for an interpreter is the temptation of posting amateur videos – or even professionally made ones - of doubtful quality that potentially could be watched by a worldwide audience within a few minutes.</em></p>
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		<title>Encontro Fortuito</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/2010/02/06/encontro-fortuito/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Feb 2010 02:59:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Cotidiano</category>

		<category>Música</category>

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		<description><![CDATA[Divagações sobre Arte

A mais linda flor
permanece oculta.
Adágio vietnamita 
Peguei o ônibus para ir ao centro da cidade, o meio mais rápido neste trânsito complexo. Há os corredores, que raramente travam. Fora dos horários de pico encontram-se sempre lugares. A terceira idade ainda tem seus poucos privilégios, e os motoristas geralmente são amáveis para com idosos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Divagações sobre Arte</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/zanini-bonde-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/zanini-bonde-small.jpg" alt="Mário Zanini. Vagão de segunda classe. Óleo sobre tela, 1969, coleção particular." /></a></p>
<p><em>A mais linda flor<br />
permanece oculta.</em><br />
Adágio vietnamita </p>
<p>Peguei o ônibus para ir ao centro da cidade, o meio mais rápido neste trânsito complexo. Há os corredores, que raramente travam. Fora dos horários de pico encontram-se sempre lugares. A terceira idade ainda tem seus poucos privilégios, e os motoristas geralmente são amáveis para com idosos. Peço licença e sento-me ao lado de um cidadão a beirar os 40 anos. Começo a ler. “Professor, o senhor não se lembra de mim?”, indagou-me. Olhei-o e o reconheci. Após mútuas saudações e real prazer nesse reencontro, perguntei-lhe a respeito de seus caminhos após se formar. Estudara comigo durante a graduação na Universidade, no primeiro lustro de 80. Continuou seus estudos musicais na Europa durante muitos anos. Voltava de aulas que ministra junto a uma escola de música, não distante de minha casa. Há tempos gostaria de conversar com seu antigo mestre a respeito de repertório pianístico, pois é professor de piano e de matérias teóricas. Culto, contou-me a respeito de suas últimas leituras, assim como de partituras que gostaria de conhecer, distantes daquele repertório super frequentado. Lembrava-se ainda de minha insistência na busca de obras pouco conhecidas, mas importantes. Marcamos um encontro que se dará oportunamente, ocasião em que mostrarei composições a meu ver fundamentais e raramente visitadas por nossos intérpretes. Foram muitos os posts em que insisti nessa necessidade de redescobrir autores. Portanto, pouparei o leitor nesse quesito.<br />
Contudo, a nossa conversa enveredou para o caminho da obra ignota do grande público, seja ela de qualquer ordem. Comentei que nos últimos meses recebera e-mails contendo anexos que exibiam belas fotos de quadros de pintores da Rússia Imperial, do romantismo europeu como um todo e de escultores franceses do século XVIII. Fiquei realmente impressionado pela singular qualidade desses artistas absolutamente dotados, mas desconhecidos do cidadão que aprecia tradicional e socialmente as artes. E-mails que me fizeram pensar nessa absurda situação que faz proliferar apenas o conhecido ou hiperconhecido, ou seja, na essência, a redundar no empobrecimento cultural. Frisei ao ex-aluno que a arte que nos é dada conhecer assemelha-se a um leque apenas entreaberto. Sequer imaginamos toda a beleza, estivesse ele a apresentar a pintura integral. Nesses exemplos incluiria a qualidade precisa de tantos compositores belgas entre os séculos XIX e XX, a riquíssima música portuguesa desde o barroco, a culminar, como excelência, nesse grande Fernando Lopes-Graça (1906-1994) - a meu ver, um dos maiores compositores do planeta no transcorrer do século XX,  infelizmente ainda não divulgado à altura de sua genialidade, apesar de esforços particularizados em Portugal. À sua obra valiosa tenho-me dedicado ultimamente. Quatro de suas extraordinárias criações deverei gravar em Maio na Bélgica, perfazendo dois CDs. E quantas mais preciosidades artísticas não há submersas por toda parte  pelo esclerosamento de um Sistema ! Quantos artistas de todas as áreas permanecem sepultos ! Raras exumações acontecem: “E tudo isto a morte / Risca por não estar certo /  No caderno da sorte / Que Deus deixou aberto”, como reza Fernando Pessoa.  <br />
Perguntou-me se a mesmice tinha origem precisa. Disse-lhe que marchands, empresários, editores, mídia e público, acostumados a ver, ouvir e ler o que tem circulação e o conhecido, fazem parte de um todo responsável pela situação. Comentei que sub-repticiamente autores respeitados, ao citarem exemplos nas artes, mencionam o óbvio, e a quantidade de textos sobre pintura abordando determinadas obras nos deixaria pasmos. Estariam eles cônscios desse posicionamento? Não atenderia a menção ao superdivulgado à necessidade da inteligibilidade frente ao leitor acostumado ao conhecido e perenemente repetido?<br />
Ao sentar-me, iria continuar a leitura de <em>A origem da obra de arte</em>, um dos seis ensaios constantes da obra <em>Holzweg</em> do  pensador alemão Martin Heidegger (1889-1976), na tradução francesa (<strong>Chemins</strong> <em>qui ne mènent nulle part</em>, France, Gallimard, 1980). Em determinado segmento, Heidegger recorrerá a uma tela de Vincent Van Gogh (1853-1890) a fim de, através de velhos sapatos de um camponês, explicar seu pensamento sobre o ser-produto do produto, passando pela sua utilidade e solidez, e chegar à transcendência a partir do desgastado par de sapatos do lavrador “Através desses sapatos passa o apelo silencioso da terra&#8230; a muda inquietude pela segurança do pão, a alegria silenciosa de sobreviver novamente à necessidade, a agonia do nascimento iminente, o arrepio sob a morte que ameaça&#8221;. Se não houver o símbolo por todos conhecido, a imaginação do leitor poderia não saber se fixar. Todavia, se outro par estivesse em hipotética obra igualmente importante, mas de pintor que, por motivos os mais díspares não teve divulgação, como passar ao leitor a carga necessária?  Numa outra direção, quantos estudos, teses, artigos já não foram feitos para explicar, como exemplo entre tantos, o célebre quadro <em>O Casal Arnolfini </em>do pintor flamengo Jan van Eych (1390-1441)? O quadro é uma obra-prima insofismável.  Contudo, qual a razão dos pesquisadores em arte fixarem-se tanto no Casal Arnolfini, analisado e dissecado de todas as maneiras ainda possíveis? “Professor, o trânsito emperrou, mas de um lado é bom conversarmos”, interrompeu-me. Continuei, pois, as divagações. Quantas extraordinárias criações de pintores do período jamais mereceram uma linha de um estudioso. Milhares de milhares de turistas ao adentrarem o Louvre correm – esse é o termo – para ver a <em>Mona Lisa</em>, ou <em>La Gioconda</em>, de Leonardo da Vinci.<br />
Primeiramente haveria a necessidade de se partir de pesquisa virgem, o que requisitará a busca às fontes primárias e à bibliografia mais complexa. Sob aspecto outro, pelo fato da falta de comparação, a mídia silencia, pois seus modelos são basicamente os mesmos desde sempre, e marchands, agentes de programação musical ou editores, em grande maioria, preferem que assim continue. Mortos propalados efusivamente têm público cativo. Observe as programações de nossas sociedades musicais. <em>Ad nauseam </em>os mesmos concertos para piano e orquestra ou violino e orquestra são executados anualmente em todas as temporadas pelo país. Extraordinários? Sim. Únicos, realmente não. Num aprofundamento, não acredita você que se o público leigo soubesse que há quantidade extraordinária de concertos outros escritos também por grandes compositores, basicamente ignotos, não poderia sentir-se desapreciado, autêntico <em>capititis diminutio </em>de sua possibilidade de aferição? Se assim não entender, pois ele representa o elo final receptivo, nada a fazer, pois a atitude de renovação não virá nem dos agentes, tampouco dos músicos envolvidos. Sob outra égide, o público é sempre conduzido, pois não será ele a procurar o inusitado. Se a globalização tendeu para a ampliação – não entremos no quesito qualidade -, e o conhecimento se colocou à disposição de todos e de maneira veloz, paradoxalmente os mesmos arquétipos são venerados em todas as artes. Mas estes são relativamente poucos se comparados à quantidade qualitativa mantida em baús. Não creio que possa haver um ressurgimento de todos os bons autores. É impossível e, se parcela destes renascesse dos arquivos, o cidadão comum poderia desnortear-se pelo aumento excessivo da comparação. Música, literatura e outras artes sofrem o mesmo e, homeopaticamente, como que por uma quase benevolência  do Sistema, um desconhecido já sepultado há muito ou pouco tempo tem exumada sua obra. Quando isto acontece, os pais da redescoberta são momentaneamente glorificados, e a mídia e os interessados se precipitam e ao tecerem elogios rasgados, sentem-se prepotentemente mais cultos. O esnobismo é uma das categorias do verniz cultural. Retirada a camada, pouco sobra. Essa é a realidade que o homem enfrenta desde séculos. E tudo indica que assim continuará.<br />
Meu ex-aluno, hoje profissional que demonstra amar a música, reagiu bem. No íntimo, pensa aproximadamente a mesma coisa, mas como me afirmou, falta-lhe a coragem para mudar as mentalidades voltadas a um aprendizado super tradicional. A esperança veio pouco antes de chegar ao seu destino, duas ou três paradas a anteceder o centro. “Professor, passarei em sua casa” disse-me ele. “Gostaria de uma lista dessas obras que o senhor considera essenciais, mas pouco divulgadas”. Aquiesci com alegria, pois sempre acreditei nessa imensidão criativa que teimosamente o Sistema não revela. Ele desceu e segui até o ponto final a pensar que ainda poderemos fazer algo a favor do inusitado. Deixarão? O tempo dirá.   </p>
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		<title>Carlos do Carmo e a Magia do Fado</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/2010/01/30/carlos-do-carmo-e-a-magia-do-fado/</link>
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		<pubDate>Sat, 30 Jan 2010 02:30:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Música</category>

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		<description><![CDATA[Gestual Econômico a Valorizar Texto-Música
(clique nas imagens para ampliá-las)


Sou trova da madrugada,
Poema do Sol desperto
Numa guitarra trinada.
E o jeito seguro e certo
Que foi raiz encontrada:
Memória de mim tão perto.
João Manuel Mendes (Fado dos meus Fados)
Reiteradas vezes comentei a respeito do gesto e de seu impacto. Quando entrevistado por Joseph Horowitz, o grande pianista Claudio Arrau [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Gestual Econômico a Valorizar Texto-Música</strong></p>
<p>(<em>clique nas imagens para ampliá-las</em>)</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/164.Carmo1-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/164.Carmo-small.jpg" alt="Carlos do Carmo na Casa de Portugal de São Paulo. Foto JEM. Clique para ampliar." /></a></p>
<p></a></p>
<p><em>Sou trova da madrugada,<br />
Poema do Sol desperto<br />
Numa guitarra trinada.<br />
E o jeito seguro e certo<br />
Que foi raiz encontrada:<br />
Memória de mim tão perto.</em><br />
João Manuel Mendes (Fado dos meus Fados)</p>
<p>Reiteradas vezes comentei a respeito do gesto e de seu impacto. Quando entrevistado por Joseph Horowitz, o grande pianista Claudio Arrau (1903-1991) abordaria o tema. Aos cinquenta e tais anos percebeu que seus gestos ao tocar em público eram excessivos. Refletiu muito e chegou à conclusão de que haveria a necessidade de diminuí-los sensivelmente. Para o insigne pianista estava em causa a própria música. Arrau doravante transmitiria apenas a essência sonora  e o gestual tornou-se econômico. Suas interpretações ganhariam, a partir de determinada idade, a aura da inefabilidade.<br />
Haveria duas básicas categorias de intérpretes frente ao gesto e, nessas, <em>nuances</em> quanto à flexibilização dos movimentos corporais como um todo. A ausência do gesto supérfluo pode levar à síntese da exteriorização, a estar o processo inteiramente voltado à carga integral que emana da mensagem musical. Sob outra égide, movimentos excessivos, quando voluntários, estariam a evidenciar a atração nítida do intérprete pelo palco no intuito de obter o delírio da platéia. E a música em sua essência, onde realmente ela se situa, neste último caso?<br />
Convidado pelo distinto amigo António Júlio Machado Rodrigues, dinâmico Presidente da Casa de Portugal, minha mulher e eu assistimos, após a belíssima ceia de Natal na tradicional sede da comunidade lusíada, a uma extraordinária apresentação de Carlos do Carmo, o nome mais representativo do fado desde a morte da inesquecível Amália Rodrigues. Louve-se a sensibilidade do Presidente da Casa ao trazer a São Paulo, mais uma vez, o extraordinário artista. O recital do fadista, que se fez acompanhar por excelentes guitarristas, deu-se logo após a música circunstancial e descartável que tivemos de ouvir, quando um conjunto “musical” entendeu que o limite auditivo tinha de ser transposto, e os decibéis estratosféricos fizeram-me recorrer a tampões nos ouvidos. Infelizmente, essa prática “sonora” invadiu quase todas apresentações em festas, casamentos, formaturas&#8230;<br />
Ao adentrar o palco, Carlos do Carmo dirigiu-se ao público e calmamente pediu silêncio absoluto durante sua apresentação. Foi atendido e, somente após cada fado, portugueses e descendentes aclamavam o cantor. Conhecia-o através de vários CDs que conservo com carinho, mercê de meu afeto pelo gênero fado, mormente cantado com qualidade ímpar. Carlos do Carmo emociona cidadãos de todas as classes e músicos eruditos submetem-se ao seu fascínio. O musicólogo Rui Vieira Nery já me havia, bem anteriormente, mencionado as qualidades excepcionais do artista, presenteando-me com CDs do cantor. Em seu excelente livro sobre o fado (vide <em>Para uma História do Fado </em>– <em>Origens e Trajetória</em>, 23/02/08), Vieira Nery escreve: “Será, depois de Amália, o primeiro fadista a assumir de forma inequívoca uma vontade de passagem do Fado do recinto ‘típico’ exclusivo para os espaços de difusão ocupados pelos demais gêneros da canção urbana”. Por sua vez, o compositor António Victorino D’Almeida, em entrevistas a Paulo Sérgio dos Santos, insiste sobre suas virtudes inalienáveis, comparáveis aos nomes referenciais do canto. Seus comentários dão a dimensão do grande fadista: “E cito-lhe desde a Maria Callas, ao Frank Sinatra, ao Carlos do Carmo&#8230; São vozes incríveis. O Placido Domingo, o [José] Carreras, a Amália Rodrigues, a Edith Piaf&#8230; Coisas assim&#8230; Mas a Edith Piaf não era tanto a voz, a Edith Piaf estava sempre um pouco desafinada. Ao Sinatra compreendo que lhe chamassem ‘The Voice’. O Carlos do Carmo é outra voz assim, não é? E dentro duma certa forma de cantar, com a voz não preparada, são das maiores vozes que alguma vez ouvi” (<em>António Victorino D’Almeida conta 50 anos na Música a Paulo Sérgio dos Santos.</em> Portugal, Quimera, 2005, 340 pgs.). Acrescentaria, entre cantores da música popular, Bing Crosby, Nat King Cole, Charles Aznavour, Tony Bennett e Elis Regina. </p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/164.Carmo2-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/164.Carmo2-small.jpg" alt="Carlos do Carmo na Casa de Portugal de São Paulo. Foto JEM. Clique para ampliar."/></a></p>
<p>Ainda não tinha visto Carlos do Carmo em cena. Vários impactos se produziram.<br />
Primeiramente, a escolha do repertório. Impecável. Fados primorosos, muitos deles com textos de grandes poetas portugueses e alguns de autores brasileiros. Uma garantia. Em outra percepção, musical preferencialmente, observa-se no tratamento da composição um esmero absoluto. Nada é supérfluo e a frase musical e o texto, num perfeito amálgama, associam-se irremediavelmente. Carlos do Carmo, nesse trato da melodia, consegue transmitir a respiração texto-música e tantas vezes recorre a suspensões – momentos inefáveis em que apenas as ressonâncias são “subjetivamente” entendidas. Essas pausas ou silêncios vêm sempre precedidas da preparação adequada e da sequência que faz entender métrica, sentido do texto e a frase musical em sua elasticidade agógica. Diria que, em termos musicais, tem Carlos do Carmo o sentido pleno daquilo que na música é denominado <em>rubato</em>, liberdade que se dá ao movimento de uma frase, sem contudo perder-se a essência do ritmo. Sob aspecto outro, possui o artista o domínio das gradações sonoras, e finais de fados arrebatadores têm a precedê-los a ascensão calculada, bem cuidada, de um mestre. À medida que me encantava com a bela récita do fadista, observei  que a palavra distração – possível em apresentação de mais de uma hora ininterrupta -  não teria nenhum sentido, mercê da força da transmissão. O público irmanou-se e, a pedido do cantor, quase que em sua totalidade acompanhou-o no refrão de <em>Lisboa, menina e moça</em>.<br />
Nos intervalos entre os fados, comentava com meu dileto amigo Vital Vieira Curto a respeito daquilo que é essencial. Quem realmente é não necessita de artifícios. O gestual tão comum e exagerado em tantos cantores populares, que não poucas vezes se utilizam de vestimentas  extravagantes, dá lugar à sobriedade, à economia dos gestos, à elegância no trajar. Diria que a atitude de artistas que entendem a mensagem musical como prioridade reflete o mais absoluto respeito ao público. Carlos do Carmo apresenta-se com gestual parcimonioso. Por vezes, as mãos indicam intenções relativas à tradução texto-música, outras vezes o colocá-las nos bolsos evitaria movimento desnecessário. Mesmo quando desce do palco, a fim de melhor se identificar com a platéia, permanece sóbrio na gesticulação. Todos se concentram naquilo que é transferido com total competência. </p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/164.Carmo3-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/164.Carmo3-small.jpg" alt="Júlio Rodrigues, Presidente da Casa de Portugal de São Paulo, JEM e Carlos do Carmo. Foto Regina Martins. Clique para ampliar."/></a></p>
<p>Ao findar o belo espetáculo, Júlio Rodrigues levou-me até Carlos do Carmo. Externei-lhe minha admiração, a ratificar-lhe essas suas qualidades, raras na música erudita, raríssimas na  popular. O excepcional fadista asseverou-me que era assim que entendia a transmissão da música. Noite para não ser esquecida.</p>
<p>Ao acessar o <em>Youtube videos Carlos do Carmo</em>, o leitor poderá ouvir fados de seu repertório.</p>
<p><em>Some days ago I attended a show of the great fado singer Carlos do Carmo in São Paulo. Charmed by his elegance, the restraint of his gestures, his impeccable choice of repertoire and subtle control of tempo for expressive purposes, I was led to reflect on the issue of the essential and the superfluous in art. Carlos do Carmo is outstanding in a casual and effortless way, holding the audience in the palm of his hand without theatrical performances. His priority is to convey his musical message with competence, not to display extravagant versions of himself. A quality rarely found in classical music performers, even rarer in pop singers. A night not to be forgotten.</em></p>
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		<title>Novas Leituras</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Jan 2010 02:26:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Literatura</category>

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		<description><![CDATA[A Pureza de um Autor 

Posso afirmar que envelhecer assim
‘combatendo o bom combate’
não é ruim&#8230;
Envelhecer com vida e garra
é para quem merece !
Norberto de Moraes Alves
Torna-se mais acentuada a diferença entre o que deve ser lido, ouvido, visto pelo cidadão no entender da mídia, em comparação ao que pensa parcela surda e operosa que produz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A Pureza de um Autor</strong> </p>
<p><img src="http://www.joseeduardomartins.com/163.Norberto1-small.jpg"/></p>
<p><em>Posso afirmar que envelhecer assim<br />
‘combatendo o bom combate’<br />
não é ruim&#8230;<br />
Envelhecer com vida e garra<br />
é para quem merece !</em><br />
Norberto de Moraes Alves</p>
<p>Torna-se mais acentuada a diferença entre o que deve ser lido, ouvido, visto pelo cidadão no entender da mídia, em comparação ao que pensa parcela surda e operosa que produz e assimila à margem da divulgação. Quando a mídia incensa determinado autor, seja qual for o seu valor, imediatamente o cidadão que lê, ouve e assiste a teatro, filmes ou TV corre para sentir o odor do incenso, seja este especiaria ímpar, ou simples resina qualquer a queimar. Foi assim no passado e perpetua-se em ascensão geométrica no presente. Basta uma excentricidade ou inovação, duvidosa ou não, e determinado autor é eleito pelo público. Todavia, espalhados pelo planeta, escritores, poetas, pintores, escultores e compositores ainda reverenciam modelos execrados pela modernidade “criativa” ou pelos adeptos do  modismo forjado.<br />
Por serem menos conhecidos, autores “ocultos” pareceriam entender situações. Uns se conformam, outros retêm uma tristeza notória e outros mais convivem com a realidade e continuam a produzir no mais autêntico sentido vocacional. Entre tantos, há inúmeros com real valor e que pelas mais variadas razões jamais foram procurados pelos meios de comunicação. Esse fenômeno não acontece só sob a guarida do cada vez mais inclemente sol tropical. Autores que se notabilizam - tantas vezes ungidos artificialmente - aqui e alhures acham-se no direito de tudo dizer, de opinar como arautos, e infinidades de absurdos e arbitrariedades são proferidos em entrevistas, sob a égide de mitos reais ou forjados. Mais deprimente quando a “fama” veio outrora e, durante o resto da existência, o autor prossegue em obras recorrentes. Em todas as categorias da Cultura. O grande público, sem captar o engodo, tem a certeza de estar diante da &#8220;verdade&#8221;.<br />
Em nosso país, figuras notáveis estão a produzir cultura ainda à &#8220;antiga&#8221;, mas num universo criativo sensível, distante de modismos efêmeros. O tema surgiu após novas visitas a Bragança Paulista. Tenho conhecido figuras que me sensibilizam. Durante aproximadamente duas décadas permaneci quase que  isolado nos “meus” bancos da Praça José Bonifácio, ou no quarto no Grande Hotel Bragança, a fim de escrever artigos para publicações arbitradas no Exterior, ou ouvir material gravado na Bélgica que seria convertido em CDs, respectivamente. Pouco a pouco, figuras humanas extraordinárias cruzaram meu caminho e, se continuo a visitar Bragança Paulista, basicamente pelos mesmos motivos, haverá sempre o congraçamento com essa gente generosa da cidade.<br />
Os bons amigos, Hugo e Rosana, da <em>Hughes Mens Wear</em>, estabelecimento junto à praça mencionada, apresentaram-me a Norberto de Moraes Alves, escritor e poeta de Bragança Paulista. Iria dar um recital na cidade, mas previamente o querido casal presenteou-me com um livro de Norberto. Sensível dedicatória do autor enriquecia a obra. Após o recital, o escritor e poeta oferece-me outros dois livros. O simples folhear, já no Hotel, causou-me interesse. Após a leitura das três obras contendo contos, poesias e crônicas, tive a sensação de leveza. Norberto é um puro e escreve amorosamente. Percebe-se que o autor tem prazer em narrar suas experiências, fértil imaginação na criação de contos diversificados em seus temas e uma veia poética sensível e inteligível.<br />
Acompanhá-lo em três livros que se estendem pela primeira década deste século é apreender a vocação autêntica dirigida aos textos curtos, de síntese, que captam a própria essência do episódio. A condução dos contos é realizada com maestria e os personagens integram a narrativa de maneira homogênea. São participantes efetivos durante o desenrolar da trama.<br />
 <em>As Flores da Lua </em>(Piracicaba, Degasperi, 2001, 140 p.) tem prefácio da filósofa Marilena Chauí que, ao comentar dois contos, entre outros, escreve: “Se sorrimos, às vezes, e nos emocionamos, outras vezes, também não podemos deixar de perceber a crítica social que se desenha em filigrana em contos como ‘Bicho de pé’ – o mundo feito e desfeito num intervalo eleitoral – e ‘Momento de decisão’ – a vida destroçada por uma economia que despreza a terra e sua gente”. Acrescentaria o conto <em>A Herança</em>, nítida posição frente à vida e à posição social, mormente entre membros de uma mesma família.<br />
Norberto de Moraes Alves tem o dom de fazer crítica sem perder a elegância da escrita ou o controle dos personagens. Bons e maus, justos e injustos, nesses breves contos não se degladiam ferozmente. Permanecem num antagonismo quase que discreto, exceção ao conto <em>Fidelidade</em>, que tem como cenário fazenda do século XIX e onde a tragédia vai  impor-se de maneira absoluta, mercê de trama a envolver paixão, adultério, brancos e negros. Em outros contos, o autor, que ao ingressar no magistério público em plena Serra da Bocaina, precisamente em São José do Barreiro (Vale do Paraíba), sofreria efeitos do linguajar do povo simples existente nessa extensa região, entrega aos personagens essa fala do caipira e do caboclo. Demonstra virtuosidade nessa configuração que perpassa alguns contos. Em outros, como <em>Capaiz !!!, </em><em>Um fato insólito </em>e <em>O Cordeiro de Deus</em>, Norberto de Moraes Alves trata de maneira hilariante as narrativas, e um humor incisivo seduz o leitor. Há por vezes, na condução dos contos presentes nesse livro e em <em>Sopro de Ternura</em>, certa proximidade com os <em>Contos da Montanha</em>, do extraordinário escritor português Miguel Torga. Se em Torga as descrições que envolvem humor ou tragédia estariam a revelar densidade na escrita - peculiaridade do autor - e estilo a proporcionar ao leitor a sua detectação, em Norberto Moraes Alves uma descontração, um quase divertir-se ao escrever, percorre os textos. Mas é a presença, nesses breves escritos de ambos, do homem da pequena aldeia ou do campo em seus afetos e idiossincrasias que merece ser apreendida.</p>
<p align="center"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/163.Norberto2-small.jpg"/></p>
<p>Em <em>Quintal dos Sonhos </em>(Bragança Paulista, Barletta, 2007, 112 p.), o poeta cria imagens líricas plenas de singeleza. Tocam fundo. Distante de qualquer tendência modernista, Norberto prefere falar direto à sensibilidade de cada leitor. Poemas expressivos, diáfanos, diria até puros na plena acepção da palavra, revelam o que o autor é na realidade. Se em <em>Insegurança</em> versos captam esse estado: </p>
<p align="center">“Quando quero falar de amor<br />
e não encontro a palavra exata,<br />
navego em pensamentos<br />
qual indecisa fragata,<br />
enfrentando o mar revolto<br />
a ponto de naufragar” ;</p>
<p>se em <em>Pesadelo</em>: </p>
<p align="center">“A dor se fez sofrimento<br />
sem tempo de despertar” ;</p>
<p>ao versar <em>Sobre a Inspiração</em>, a luminosidade se dá: </p>
<p align="center">“Inspiração<br />
é qual arpejo,<br />
de melodia<br />
que atravessa<br />
as nuvens<br />
de um sonho.<br />
São acordes<br />
de um lamento<br />
de saudade<br />
e de desejos.<br />
Entregue-se,<br />
navegue por ela<br />
mesmo que<br />
por um só<br />
momento&#8230;”</p>
<p align="center"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/163.Norberto3-small.jpg"/>
</p>
<p>Ao escrever <em>Sopro de Ternura </em>(Bragança Paulista, ABR, 2009, 126 p.), Norberto retorna aos poemas e contos, a criar novas imagens e personagens. Os belos versos de <em>A Rosa e a Eternidade </em>são exemplos: </p>
<p align="center">“A rosa não se perpetua<br />
pela forma, pela cor<br />
ou pela nobreza da flor<br />
da qual é revestida,<br />
mas pela pétala<br />
que flutua,<br />
deixando que o aroma,<br />
aos poucos, no tempo se dilua<br />
e busque no infinito<br />
a semente&#8230;<br />
de todo o sempre.”</p>
<p>Humor e tragédia se intercalam no segmento destinado aos contos, e <em>Le Due Sorelli </em>e <em>O Anjo de Asa Quebrada </em>são exemplos, respectivamente. Algumas breves crônicas, geralmente a homenagear entes queridos que partiram para a outra margem, encerram o livro.<br />
Norberto de Moraes Alves é esse puro que encontra na pena o exteriorizar sentimentos que as novas gerações estão sendo induzidas a sufocar. Sua escrita fica como um farol  que, ao ser visto, proporciona ainda salvaguardas para a existência.</p>
<p><em>On one of my visits to the city of Bragança Paulista I had the privilege of knowing the writer Norberto de Moraes Alves, who lives in the city and offered me three of his books. In this post I give an account of my reading, completely captivated by the lyricism of his poems and the simple elegance, conciseness and imagination of his short stories.</em></p>
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		<title>Barbeiro</title>
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		<pubDate>Sat, 16 Jan 2010 02:29:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Cotidiano</category>

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		<description><![CDATA[Visitá-lo em Prazo Certo
(Clique nas imagens para ampliá-las)

Barba ensaboada,
meio rapada.
Adágio açoriano – S. Miguel
 Um de meus primeiros posts para o blog abordou o livro Postais Paulistas, de Frederico Branco (vide Frederico Branco – A Revisitação das Imagens Perdidas, 09/03/07). Em uma das crônicas, Muito além do Vesúvio, o autor descreve velha barbearia que  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Visitá-lo em Prazo Certo</strong></p>
<p>(<em>Clique nas imagens para ampliá-las</em>)</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro5-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro5-small.jpg" alt="Gil na tarefa de desbastar cabelos. Clique para ampliar." /></a></p>
<p><em>Barba ensaboada,<br />
meio rapada.</em><br />
Adágio açoriano – S. Miguel</p>
<p> Um de meus primeiros posts para o blog abordou o livro <em>Postais Paulistas</em>, de Frederico Branco (vide <em>Frederico Branco – A Revisitação das Imagens Perdidas</em>, 09/03/07). Em uma das crônicas, <em>Muito além do Vesúvio</em>, o autor descreve velha barbearia que  costumava frequentar. Não esquece nenhum pormenor e, bem mais tarde, ao referir-se a uma mais moderna, observa com certa nostalgia que “não se fazem mais barbeiros nem salões como os de antigamente. Nem clientes, como verifiquei há dias”. A descrição que Frederico Branco faz é exata se comparada àquela que mensalmente frequentava minha mente na infância. Tratava-se de uma garagem adaptada com azulejos brancos, situada bem próximo de nossa casa na Avenida Rodrigues Alves, na Vila Mariana, onde vivemos até o final da juventude.</p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro4-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro4-small.jpg" alt="Oficina de peruqueiro-barbeiro. França, século XVIII. Enciclopédia Diderot." /></a></p>
<p>A profissão de barbeiro é muito antiga e foi-se transformando com o passar do tempo. Teve requintes no século XVIII em França. O ofício popularizou-se com o passar das décadas, a fazer parte do cotidiano. Curiosamente, no interior do Brasil, aquele que fazia o corte de cabelos e barba exercia, quando necessário, a função de “dentista”. Um boticão ajustado a um dente que estava a provocar dor, e a extração se dava. Quando de minhas incursões em busca da imaginária paulista nos anos 70-80, na região que se estende de Santa Isabel a Nazaré Paulista, no Estado de São Paulo, encontrei em um chiqueiro uma estranha cadeira completamente partida. Como andava sempre de botas naquelas ocasiões, adentrei o velho galpão, chafurdando naquela massa mole e informe, e retirei todas as partes dessa cadeira. Observei que havia resquícios de palhinha da India. A anciã, que habitava a casa simples coberta por sapé e bem próxima ao chiqueiro, disse-me que seu pai e seu avô haviam sido barbeiros e extraíam dentes. Quis saber mais e a idosa contou-me que, antes da extração, jovens ou velhos tomavam uma caneca de pinga e que, ainda menina, era a encarregada, quando ouvia o seu nome, de levar a aguardente já preparada para ser engolida de um só trago. Disse-me ainda que o pai de uma de suas comadres, que morava a tantas léguas de sua casa, desempenhara igualmente a profissão de barbeiro. Naquele mesmo dia encontrei, pois, duas cadeiras, sendo que a última estava inteira, sem palhinha, mas com uma tábua qualquer pregada, a fim de que se pudesse sentar.  Serviu contudo como modelo para as restaurações que foram realizadas em São Paulo por um excelente especialista que conheci nos anos 70, Luca Miranda. Verificamos tratar-se de cadeiras de barbeiro da segunda metade do século XIX. Elegantes e funcionais, possuem  um encosto regulável para a cabeça, o que proporcionava maior conforto para o freguês.</p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro3-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro3-small.jpg" alt="Cadeiras de Barbeiro. Século XIX. Clique para ampliar." /></a>
</p>
<p>Todavia, foi no século XX que entre nós surgiram essas pequenas barbearias que cuidavam rotineiramente do corte de cabelos e do cuidado com a barba. Barbeiros tinham rara habilidade, nesse último caso, no manuseio da afiadíssima navalha, que ao menor descuido causava estragos, só não maiores graças ao álcool Zulu sempre à mão do profissional. Imperava a cadeira Ferrante, alta, confeccionada em ferro fundido e com a marca em letras grandes no repouso para os pés, também em ferro. Presentemente elas têm <em>design</em> bem diferente. Até hoje lembro-me do instrumental do barbeiro de minha infância, um descendente de imigrantes portugueses. Na minha memória ficaram tesouras comuns ou de desfiar da famosa marca Solingen; pentes de osso; bombinha a servir como vaporizador humidificante; pequena máquina manual que chegava a arranhar o pescoço e que servia para cortar com precisão pêlos os mais recalcitrantes; loção Sandar com perfume bem popular que, quando sobre a mesinha do profissional, tinha três camadas coloridas e que, antes de ser utilizada, era agitada pelo barbeiro, ficava turva e servia para o cidadão aplicar  vigorosa massagem capilar; e finalmente, o talco. O corte para o miúdo, adolescente e jovem daqueles tempos era bem comum, sem nenhum sentido de esmero maior. Importava ao barbeiro desbastar o que crescera rapidamente em um mês e receber o que lhe era devido. Quando aguardávamos  atendimento, revistas bem velhas serviam para fazer passar o tempo e um jornal esportivo estava à disposição. A conversa tinha como temas política e futebol, e já àquela altura a corrupção grassava. O aparelho de rádio permanecia ligado, ou dando notícias ou a tocar música popular brasileira do período.<br />
Pertencente à classe dedicada ao trabalho que pode variar na intensidade, mercê da frequência dos clientes, geralmente o barbeiro é muito bem informado. Ouve, bem mais do que lê, e dificilmente não está atualizado quanto ao cotidiano, graças à diversidade cultural dos fregueses. Esse barbeiro de antigamente é cada vez mais raro e subsiste nos bairros, na periferia e nas cidades do interior. Profissional geralmente bem estimado pelos frequentadores. Infelizmente, o termo barbeiro, com a chegada das casas especializadas que atendem homens e mulheres, passou a ser quase que pejorativo. Atualmente nas grandes cidades, os barbeiros preferem ser denominados <em>hairdressers</em> ou <em>hairstylists</em>, e os estabelecimentos aos quais pertencem têm fachadas atraentes. Redes existem em que é notória a presença desses especialistas, não apenas mais jovens, mas também  uniformizados.  Como ainda pertenço às tradições, frequento os mesmos barbeiros e tanto Samuel como Gil conservam o estilo à antiga no corte e no trato. Isso me reconforta quando vou à poda dos cabelos, que teimosamente ainda cismam em crescer. Lembro-me que durante a quimioterapia, quando quase tudo veio abaixo, Samuel podava uns poucos fios desorganizados e insistia em receber apenas metade do preço tabelado.</p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro2-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro2-small.jpg" alt="Instrumentos de trabalho do Sr. Gusmão, pai de Uyara. Clique para ampliar." /></a>
</p>
<p>O tema veio a propósito de uma conversa com meu amigo e vizinho Uyara. Disse-me que encontrara os instrumentos que seu pai  utilizou  durante décadas, pois barbeiro em São Sebastião do Paraíso (MG). Daí a estendermos recordações foi fácil. Frisou que seu Gusmão lhe dizia que o melhor couro para afiar navalhas era o de Anta, pois a lâmina deslizava com maciez. Meu saudoso pai também desempenhara a função de barbeiro durante a mocidade na cidade de Braga, em Portugal. Um de seus fregueses, Lourenço dos Santos, que mantinha uma casa comercial importante - Casa das Novidades -, convidou-o a vir morar e trabalhar em seu estabelecimento, o que ocorreu entre 1918-28, quando nosso progenitor veio tentar a vida no Brasil, amando Portugal, mas sem jamais retornar ao torrão natal. No entanto, durante toda a existência manteria correspondência com Lourenço e descendentes, a demonstrar gratidão eterna.</p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro1-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/162.Barbeiro1-small.jpg" alt="JEM a cortar cabelos de um menino. La Querye, França, 1960. Clique para ampliar." /></a></p>
<p>Em texto bem anterior já mencionara minhas incursões no corte de cabelos, difícil tarefa para um leigo (vide <em>La Querye - Férias Inesquecíveis</em>, 09/02/08). Naqueles sempre lembrados 1960-61, quando das férias no departamento de Allier, na França, “exerci” a função de barbeiro à antiga, e miúdos filhos de meus amigos submeteram-se ao <em>coiffeur</em> improvisado. Se pratiquei calamidade em um dos cortes, a provocar um caminho de rato que consegui nos dias subsequentes, a duras penas, tornar menos evidente, safei-me razoavelmente nesse mister que era praticado ao ar livre. A foto, não publicada no post <em>La Querye</em>, foi encontrada recentemente dentro de um livro que estava a consultar. De jaleco típico, estou cuidando de um dos cortes. DNA? Só bem mais tarde soube dos predicados profissionais de meu pai, como barbeiro que foi durante alguns anos da sua mocidade.<br />
Se incontáveis profissões podem jamais cruzar a vida dos cidadãos, a de barbeiro é uma das que o homem não pode prescindir, mesmo quando a devastação capilar se apresenta evidente. Subsistirá, e é motivo a mais, simples e tranquilo, para uma boa conversa descompromissada e periódica. Após a poda, a visualização através do espelho será a prova de que o barbeiro, geralmente mantido na fidelidade durante anos, trabalhou bem e  merece o nosso agradecimento.  </p>
<p><em>On Barbering and Barbers:<br />
The starting point of this post was a chat with a friend, who mentioned his father had been a barber. It made me think about the ancient profession of barbering, the barbershops of my youth - walk-in salons with their arsenal of razors, scissors, brush, bone combs, after-shave lotions, antique barber chairs - and the high-end salons of today, with their teams of usually young uniformed professionals trying to accommodate tradition with modern practices, as fashion and trends evolve.</em></p>
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		<item>
		<title>Novas Considerações sobre a São Silvestre</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/2010/01/09/novas-consideracoes-sobre-a-sao-silvestre/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/2010/01/09/novas-consideracoes-sobre-a-sao-silvestre/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 09 Jan 2010 02:37:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Cotidiano</category>

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		<description><![CDATA[Menções de um Amigo
(Clique nas imagens para ampliá-las)

Por vezes  olho na água meu rosto e minhas têmporas.
Não vejo cores vivas mas cabelos brancos.
Juventude perdida não se busca em nenhum lugar,
Haveria razão para turvar a água do lago?
Pai Chu Yi (772-846) 
Prometi estender-me um pouco mais sobre a São Silvestre. Realmente, ela se torna a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Menções de um Amigo</strong></p>
<p>(<em>Clique nas imagens para ampliá-las</em>)</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/161-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/161-SS09-small.jpg" alt="Corrida de São Silvestre 2009. Poucos metros antes da chegada. Foto www.webrun.com.br . Clique para ampliar." /></a></p>
<p><em>Por vezes  olho na água meu rosto e minhas têmporas.<br />
Não vejo cores vivas mas cabelos brancos.<br />
Juventude perdida não se busca em nenhum lugar,<br />
Haveria razão para turvar a água do lago?</em><br />
Pai Chu Yi (772-846) </p>
<p>Prometi estender-me um pouco mais sobre a São Silvestre. Realmente, ela se torna a maior distância a que me proponho. Ser razoável é resultado de reflexão e, apesar da insistência de amigos corredores, não ousaria uma meia maratona, o que acarretaria treinos bem mais pronunciados e, com certeza, desgaste exagerado. Não estou eu a buscar apenas o prazer de correr e sua irmã gêmea, a qualidade de vida? Sob aspecto outro, a prova de 10 km, considerada clássica, torna-se para mim distância com a qual me sinto bem. São muitas espalhadas durante o ano e organizadas por várias entidades. Quanto às maratonas de revezamento, tem-se o congraçamento pleno e pertencer à equipe TA LENTOS reveste-se de uma alegria enorme. Somos oito a percorrer, cada um, 5 km e tantos metros. Se um faltar por motivo imprevisível, qualquer um de nós está apto a correr os 10.5 km. Uma energia só.<br />
Tendo saído o resultado da São Silvestre 2009, verifiquei ter diminuído sensivelmente meu tempo pessoal, pois percorri a do ano de 2008 no tempo líquido de 02:10:34, sendo que na presente tive o desempenho em 01:48:07 (tempo bruto 02:05:06). Treinos mais acentuados, estratégia de corrida, dosagem e qualidade dos líquidos ingeridos, conselhos de diletos amigos corredores e conhecimento prévio do percurso ajudaram-me na <em>performance</em>.<br />
Tive certa decepção ao procurar o resultado dos veteranos. Como a organização publica <em>on-line </em>a lista completa dos corredores e mais classificação, número afixado na camisa,  idade, tempo bruto e tempo líquido, alguns da “terceira idade” não são idosos e há estranho conluio. No futebol há o caso dos denominados “gatos”, jogadores mais velhos que são registrados como sendo mais jovens. No caso da São Silvestre, ao contrário, figuras exibindo décadas a menos estão a correr com números originalmente atribuídos a cidadãos da terceira idade. É só confrontar resultados e fotos divulgadas com os números afixados no peito, sobretudo naqueles das últimas faixas etárias masculinas. Sempre serve de alerta a menção para que, no futuro, haja uma fiscalização à altura do magnífico evento. Há também aqueles que entram no meio da prova, ou quase no término, sem o número de inscrição, apenas para diversão. Não são poucos os que assim procedem.<br />
Sob outra égide, foi uma surpresa receber via e-mail o belo texto do grande locutor esportivo das décadas de 60-80, hoje jornalista de sensível percepção, Flávio Araújo. Comove-me sua generosidade à flor da pele. Ao descrever a participação se seu filho caçula, Sílvio Américo, faz menções ao amigo igualmente septuagenário. Já o fizera anteriormente (vide <em>Ecos da São Silvestre</em>, 09/01/09). Transcrever o sensível texto traz-me felicidade e é um tributo a Flávio Araújo, inesquecível narrador esportivo. Agradeço ao dileto amigo ter permitido a publicação de sua crônica (04/01/10), originalmente destinada ao site www.ribeiraopretoonline.com.br para a Coluna Flávio Araújo.</p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/161.webrun-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/161.webrun-small.jpg" alt="A chegada. Tempo bruto: 02:05:06. Foto www.webrun.com.br . Clique para ampliar." /></a></p>
<p align="center"><strong>A São Silvestre tinha um toque de magia que<br />
dominava a todos: do narrador ao público e aos atletas.</strong> </p>
<p>“Meu caçula correu a São Silvestre no último dia de 2009.<br />
Estava lá desfilando sua juventude (de quarentão, diga-se, que para mim todos os que tem menos de 50 são jovens) pelas ruas quase sempre molhadas de São Paulo.<br />
Realizou um sonho não apenas seu, mas alimentado ao longo dos anos por praticamente todos os seus irmãos mais velhos.<br />
Que sonharam, mas não chegaram, como ele, às vias do fato.<br />
Sílvio Américo materializou o desejo onírico dos demais.<br />
Ao lado, ou próximo o quanto foi possível na imensa nebulosa humana  que se formou, na condição de estrelas naturais do percurso, estava o meu querido amigo José Eduardo Martins, um dos maiores pianistas deste país e já veterano da competição, a que compareceu no ano passado com uma mensagem significativa, humana, emocionante.<br />
E invulgar.<br />
José Eduardo é uma figura admirável de brasileiro que não esconde seu DNA lusitano e o dignifica subindo com o mesmo aos cumes da altanaria e civilidade.<br />
Contou-me Zé Eduardo que seus devaneios de correr a São Silvestre nasceram quando, bem jovem, ao lado do pai, o sábio José da Silva Martins, dois pares de bons ouvidos colados a um aparelho de rádio ouviam as transmissões que o locutor  - transmudado pelo tempo em redator – levava até eles na última noite do ano.<br />
Essa citação me remete aos tempos da São Silvestre noturna com saída e chegada na Avenida Cásper Líbero, pertinho das Estações ferroviárias da São Paulo de então.<br />
Saia na frente da vanguarda que deixava a parte fronteira do Edifício onde ficavam a Rádio Gazeta e a flamante A Gazeta Esportiva, a patrocinadora e organizadora da competição.<br />
Literalmente amarrado por cordas à carroçaria de uma das viaturas da emissora.<br />
Era dessa forma que via, por um largo e sequente período, um Novo Ano raiar.<br />
Não havia televisão e com a ausência de suas muitas câmeras não se podia, como os colegas da atualidade, fazer uma transmissão plena de detalhes de um estúdio abrigado e confortável.<br />
Havia a necessidade de ir a campo e se ombrear aos participantes e às indefectíveis motocicletas da Polícia Militar de São Paulo para que meus  olhos pudessem visualizar algo e transformar essa parca visão em sons entusiásticos.<br />
A SS tinha algo de magia para o jovem locutor e para o público que lotava as ruas onde passavam os participantes.<br />
Bem amarradinho ao meu posto, eu me considerava um deles.<br />
E a narração que o microfone filtrava era distribuída generosamente para todo o hemisfério, creiam.<br />
O por quê ?<br />
Acontece que a prova de então não era uma disputa de brasileiros contra quenianos ou até mesmo de africanos contra africanos, como aconteceu na última quinta-feira.<br />
O primeiro brasileiro só surgiu depois de sete estrangeiros.<br />
Não havia reserva de mercado e, no caso, só se esse preceito se estendesse aos países participantes e não às individualidades.<br />
Além dos europeus, competiam sempre atletas do México, da Colômbia, do Equador, do Chile, Argentina, Uruguai e vai por aí afora.<br />
Como as transmissões em Ondas Curtas eram mesmo potentes, tornava-se comum a cadeia que conosco faziam diversas emissoras de países que tinham competidores correndo pelas ruas de São Paulo.<br />
Pela dificuldade nas comunicações, nosso som era aleatoriamente colocado no ar nos mais diversos países da Costa do Pacífico.<br />
Depois de dois ou três dias começavam a chegar os telegramas da All América Cables com as informações dessas emissoras dando conta (além das saudações costumeiras) de como a transmissão fora recebida.<br />
Quase sempre, um ‘canhão’.<br />
Hoje, mudou a São Silvestre?<br />
Ou mudamos nós?<br />
Como o Natal de Machado de Assis, no seu célebre conto ‘A Missa do Galo’, creio que é &#8217;sim&#8217; a resposta para ambas.<br />
Ante a força do progresso a minha voz, ou minha escrita, como nos versos  de Noel Rosa, silencia.<br />
Que ressoem em mim apenas as lembranças e que estas possam servir aos mais jovens sem nenhum sentido de dicotomia entre uma e outra época ou de que o ontem foi melhor do que o hoje e vice-versa.<br />
Só reforçando a frase que diz que recordar é viver.<br />
Ainda me recordo, logo &#8230;<br />
E se estou vivo, aproveito para desejar um FELIZ ANO NOVO a todos vocês que me acompanharam até aqui, desejando que estejamos juntos também em 2010.”</p>
<p>Junto-me aos votos de Flávio Araújo: paz, saúde, convívio humano e realização neste 2010.</p>
<p><em>The impact of the Saint Silvester on the runners is strong. Going on with the subject of my previous post, I give more details of my performance in the 2009 race and also transcribe here the article of my friend and journalist Flávio Araújo posted on Ribeirão Preto online sports section. He gives his view of the race as it is today and as it was in the past, when it was held at night, and does not hide his enthusiasm with the participation of one of his sons in last year’s race.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Corridas de Fim de Ano</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/2010/01/02/corridas-de-fim-de-ano/</link>
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		<pubDate>Sat, 02 Jan 2010 02:19:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
		
		<category>Cotidiano</category>

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		<description><![CDATA[Dezembro e a Preparação

(Clique sobre as imagens para ampliá-las.)

A conjunção corpo-espírito-emoção
é impossível sem passarmos pela ponte
da mente – a grande porta
para o território das sensações.
Nuno Cobra
Entre aqueles corredores amadores que amam a prática esportiva, mormente no Estado de São Paulo, Dezembro é mês especial. A preparação se torna mais acurada, a visar à lendária São [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Dezembro e a Preparação</strong><br />
<em></p>
<p>(Clique sobre as imagens para ampliá-las.)</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/160.Elson-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/160.Elson-small.jpg" alt="85ª Corrida de São Silvestre 2009. Após a chegada: Américo Umeda, Elson Otake, JEM, Sérgio Yuji Yokoyama. Clique para ampliar." /></a></p>
<p>A conjunção corpo-espírito-emoção<br />
é impossível sem passarmos pela ponte<br />
da mente – a grande porta<br />
para o território das sensações.</em><br />
Nuno Cobra</p>
<p>Entre aqueles corredores amadores que amam a prática esportiva, mormente no Estado de São Paulo, Dezembro é mês especial. A preparação se torna mais acurada, a visar à lendária São Silvestre. Treinamentos mais intensos e uma adrenalina que pouco a pouco invade participantes. Reitero sempre que uma das maiores felicidades de minha vida foi começar a correr e, sobretudo, só conhecer gente saudável, comunicativa, partícipe e solidária. Diria que, mesmo tendo hoje uma relação ainda mais intensa com a música e com a escrita após a aposentadoria, o esporte representado pelas corridas tornou-se realmente o maravilhamento, sem contar outra categoria, essa saudável, das batidas cardíacas metronômicas a partir dessa atividade.<br />
Dezembro e o aperfeiçoamento físico. Lá está a São Silvestre a pontificar no último dia do mês, como um cume a ser atingido. Mesmo aqueles habituados às provas mais longas, como a meia maratona e a maratona gostam da São Silvestre em seu percurso de 15 km. Não se trata de um desafio para esses super atletas, mas o pleno congraçamento. Para os frequentadores dos percursos menores de 5, 6, 8, 10 e 12 km – existentes no calendário das várias e ótimas organizadoras de eventos -, a São Silvestre é um desafio. Na minha faixa etária, aos 71 anos, um objetivo a mais e um super prazer nessa segunda participação.</p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/160.Treino-SS-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/160.Treino-SS-small.jpg" alt="Trajeto integral da São Silvestre. Treino, 06/12/09. JEM e Elson Otake. Clique para ampliar" /></a></p>
<p>No início de Dezembro, meu vizinho e maratonista de fato, Elson Otake, convidou-me para participar de um simulado da São Silvestre, pois 20 companheiros seus iriam fazê-lo. A minha ligação com os nisseis é intensa depois do ingresso na equipe de revezamento TA LENTOS. Generosamente, Elson correu ao meu lado os 15 km do percurso total e exato da São Sivestre, nesse simulado em um domingo pela manhã. Sem o querer acabei indo mais rápido e realizei o trajeto em 01:55:00, quinze minutos a menos do que na São Silvestre de 2008. Como o estímulo é importante ! </p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/160.Bragança09-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/160.Bragança09-small.jpg" alt="Recital em Bragança Paulista. 13/12/09. Clique para ampliar." /></a></p>
<p>Aos 20 de Dezembro, lá fui eu correr os 8km da corrida de São Silvério, em Bragança Paulista. Duas voltas pelo belíssimo lago e uma íngreme subida às colinas que levam ao bairro de Santa Helena. Uma só alegria. Meu bom amigo José Aparecido Cenciane, dez anos mais novo, também amistosamente abdicou de seu tempo e correu ao meu lado. Era eu o menos jovem de todos os participantes, mas chegamos a correr em 52’41”, quatro a menos do que levaria se estivesse só. Creio que em qualquer atividade essa mão amiga e solidária nos impulsiona para um melhor desempenho. Naturalmente. </p>
<p align="center"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/160.Silvério-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/160.Silvério-small.jpg" alt="Corrida de São Silvério. Bragança Paulista. 20/12/09. À minha direita o Prefeito da cidade João Afonso Sólis (Jango). De camisa verde, o vice-prefeito Luiz Gonzaga Pires Mathias. Foto: Divisão de Imprensa da Prefeitura do Município de Bragança Paulista. Clique para ampliar." /></a>
</p>
<p>Quando do congraçamento, ouvi a voz do atuante Prefeito de Bragança Paulista, João Afonso Sólis (Jango), que me chamava para o pódio. Lá estava a receber uma premiação, oferecida pela autoridade, que me deixou bem emocionado, principalmente por suas belas palavras. Uma semana antes o alcaide da cidade assistira ao meu recital de piano na Casa de Cultura de Bragança Paulista. Presente à premiação outra simpatia, o vice-prefeito Luiz Gonzaga Pires Mathias. É possível que João Afonso Sólis tenha se baseado mais na velocidade dos meus dedos sobre o teclado do que nas pernas septuagenárias, que encontraram uma felicidade ímpar com as corridas de rua.<br />
E chega a São Silvestre. Elson Otake obteve permissão para estacionar no Sesi, no belo prédio da FIESP da Av. Paulista. Muitos convidados tinham regalias. Tivemos até direito às massagens realizadas por profissionais competentes. Quando disse minha idade, a massagista caprichou e cheguei a cochilar. Se em 2008 corri com camiseta temática, <strong>Câncer x Vida</strong>, neste ano fui com a do glorioso Sporting de Braga, cidade que viu meu pai nascer. Meu atencioso amigo Teotónio dos Santos já me presenteara com a camiseta principal, vermelha e branca, sendo esta ora utilizada a segunda da agremiação. Para tanto, testei-a no treino do início de Dezembro.<br />
Novamente uma multidão a participar do evento. 21.000 corredores vindos de todos os rincões do país, sem contar a elite estrangeira, mormente africana. Uma grande festa. Mais prudente, desta vez preferi sair lá dos fundões, perto do metrô Brigadeiro. Só para chegar ao tapete de aferição de tempo em frente ao MASP, uma eternidade parado e a andar, mas na maior das alegrias e também certa ansiedade motivada pela adrenalina.<br />
 Como planejei melhor a corrida, levei comigo gel com ingredientes restauradores que ingeri, em duas oportunidades. No final do minhocão, após beber uma garrafa de 500ml de água durante esses primeiros 6 km, lá estava minha filha Maria Beatriz com encantador sorriso a entregar-me uma garrafa de Repositor Hidroeletrolítico. Com maior experiência do percurso, preparo mais científico mercê de conselhos pontuais dos vizinhos maratonistas, Elson e Nicola, baixei naturalmente meu tempo de corrida e, poucos metros antes de cruzar a linha, as netas a gritar vovô fizeram aumentar a emoção. Após o recebimento das medalhas de participação, o encontro com participantes de nossa equipe TA LENTOS selou um congraçamento realmente fraterno. Esses nisseis&#8230;<br />
No próximo post pormenozarei o que o olhar percorreu em 2009 amalgamado às passadas cadenciadas. E teremos os tempos oficiais que serão divulgados pela organização da São Silvestre.</p>
<p><em>In December amateur runners in São Paulo prepare for the St. Silvester Road Race, held yearly in the streets of the city on December 31. As part of my practice, on a Sunday morning by the beginning of the month I was with a group of 20 runners who ran a “private” St. Silvester following the exact course of the race. Last 20 December I went to the neighboring city of Bragança Paulista for an 8-kilometer run that I finished in 52’41”. My time did not prevent me from standing on the podium at the end of the race to receive a plaque generously offered to me by the city mayor. And the grand finale: the 15 kilometers of the St. Silvester on New Year’s Eve through São Paulo’s skyscraper-lined avenues and twisting streets.</em></p>
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