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	<title>José Eduardo MartinsCotidiano &#187; José Eduardo Martins</title>
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		<title>Ecos de “Coletores de resíduos frente à árdua atividade”</title>
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		<pubDate>Sat, 16 May 2026 03:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Quatro mensagens significativas Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmamos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros. Agostinho da Silva (1906-1994) Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quatro mensagens significativas</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1014.detritos-big.jpg" target="_blank"><img title="Caminhão preparado para a recolha de detritos. Foto: Maria Fernanda. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1014.detritos-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;<br />
</em><em>mas é nessa mesma maldade que devemos procurar<br />
</em><em>o apoio em que nos firmamos<br />
</em><em>para sermos nós próprios melhores<br />
</em><em>e, como tal, melhorarmos os outros.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)</p>
<p style="text-align: justify;">Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre os coletores de resíduos, orgânicos ou não. Elas apreendem o âmago da árdua profissão, fundamental em todas as cidades, independentemente do tamanho. Transcrevo-as, pois não apenas captam a função do coletor como expandem o tema para os não oficiais, representados pelos catadores que, puxando suas pequenas carroças ou em velhos veículos motorizados, recolhem igualmente caixotes, garrafas e outros descartáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> Maria Stella Orsini, </strong>professora titular jubilada da Eca-USP, escreve: “Confesso que tenho grande preocupação com o lixo que se acumula na nossa cidade. Quando estudante, eu e minhas colegas da Caetano de Campos fazíamos longas caminhadas pela famosa rua Barão de Itapetininga. Hoje, além de muito suja, essa rua tem cheiro insuportável. Tenho o hábito de doar o material que pode ser aproveitado para os que empurram esses carrinhos superpesados. Frequento um supermercado que tem ótimas embalagens. Não uso mais plásticos, mas eles podem ser aproveitados pelos que não possuem nenhuma embalagem. Ainda coloco um pacotinho de Miojo. Não gosto e nem como, mas para eles o sal desse alimento pode ser o único que estão comendo nesse dia. Felizmente o curso de Ciências Sociais permitiu que eu e meus colegas recebêssemos<strong> </strong>uma ótima formação em Política. Na verdade, nosso país é muito mal administrado. Presenciei em inúmeras cidades europeias a lavagem das cidades, ao raiar o dia. Como as cidades japonesas são impecavelmente limpas?”</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro4-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Carroceiro em plena atividade. Fonte&gt; Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro4-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Marisa de Jesus Martins da Costa </strong>envia-me um poema inserido em seu livro “A menina que consertava o mundo”:</p>
<p style="text-align: center;">“<strong>O carroceiro</strong></p>
<p style="text-align: center;">- Bom dia, senhor carroceiro!<br />
- Bom dia, menina bonita!<br />
- O que carrega aí?<br />
- Carrego reciclável.<br />
- O que é reciclável?<br />
- É latinha, papelão, madeira, vidro&#8230;<br />
- O que vai fazer com isso?<br />
- Vou vender! Comprar comida pra distrair o estômago.<br />
- Cadê o cavalo?<br />
- Não necessito, não! Tenho pernas e braços fortes e Deus na cabeça.<br />
- Minha mãe mistura tudo. Comida com o tal reciclável.<br />
- Ensina pra ela, então! &#8211; Outro dia achei um livro no lixo.<br />
- Livro não se joga no lixo, não!<br />
- Quem faz isso?<br />
- É o homem que não gosta das letras.<br />
- Eu sei ler e escrever. Escrevo pra minha família em Massarandupió.<br />
- Massarandupió? Onde fica?<br />
- É longe. Fica atrás do mapa. Um dia volto pra lá.<br />
- Vou perder meu amigo carroceiro?<br />
- Perde, não! Amigo é para sempre. Esteja onde estiver”.</p>
<p style="text-align: justify;">O Professor titular jubilado da FFLECH-USP, <strong>Gildo Magalhães</strong>, presente em tantos posts, o que muito me alegra, envia a mensagem:</p>
<p style="text-align: justify;">“Ainda sob o impacto agradável da sua execução brilhante de música russa, concordo integralmente com suas observações sobre os trabalhadores da coleta de lixo. Quando vivi na Alemanha, na década de 1980, só os imigrantes se sujeitavam a esse trabalho árduo e ao salário,  mas com uma atenuante: era facilitado pela mecanização, que obrigava todos a usarem o mesmo modelo de lata de lixo, que era pega por braços mecânicos, despejada e devolvida automaticamente. Idem para a varrição de ruas, completamente mecanizada. Enfim, coisas de sociedade mais desenvolvida&#8230;”</p>
<p style="text-align: justify;">Em um outro contexto, diria “oficial”, recebi mensagem substanciosa e esclarecedora da minha dileta sobrinha <strong>Ângela Gandra Martins</strong>, advogada, jurista, com Doutorado e Pós-Doutorado em Filosofia do Direito pelas Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, respectivamente, sendo hoje Secretária de Assuntos Internacionais da Prefeitura de São Paulo, possivelmente convidada, <em>in addendum</em>, por dominar sete idiomas.</p>
<p style="text-align: justify;">“A cidade de São Paulo possui uma das maiores estruturas públicas de gestão de resíduos sólidos da América Latina, combinando coleta seletiva, infraestrutura urbana e inclusão produtiva de cooperativas de catadores. Nos últimos anos, a Prefeitura ampliou significativamente a cobertura da coleta seletiva porta a porta, alcançando atendimento em todos os 96 distritos da capital. Atualmente, são recolhidas diariamente cerca de 324 toneladas de materiais recicláveis, encaminhadas para uma rede de 29 cooperativas habilitadas pelo município, envolvendo mais de 1.500 cooperados diretamente vinculados ao sistema público de reciclagem. Além disso, a cidade opera duas modernas centrais mecanizadas de triagem – Carolina Maria de Jesus e Ponte Pequena – com capacidade conjunta para processar aproximadamente 500 toneladas de resíduos recicláveis por dia, consolidando São Paulo como referência em infraestrutura de reciclagem urbana na América do Sul.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro eixo estratégico da política municipal é a ampliação dos equipamentos de descarte voluntário e logística reversa. A cidade conta com mais de 100 ecopontos distribuídos pelo território, além de milhares de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), contêineres verdes e equipamentos específicos para vidro, óleo e resíduos recicláveis. Esses espaços permitem que a população descarte corretamente resíduos da construção civil, móveis, eletrodomésticos, recicláveis secos e outros materiais que normalmente acabariam em vias públicas, córregos ou áreas ambientalmente vulneráveis. Paralelamente, programas de compostagem e aproveitamento de resíduos orgânicos de feiras livres vêm sendo utilizados para transformar resíduos alimentares em adubo, reduzindo a pressão sobre os aterros sanitários e incentivando práticas alinhadas à economia circular e à mitigação das mudanças climáticas.</p>
<p style="text-align: justify;">No campo da inclusão produtiva, a Prefeitura também, vem fortalecendo programas voltados ao cooperativismo e à profissionalização dos catadores. Por meio do programa SO Coopera, coordenado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o município promove oficinas, capacitações, mapeamento de cooperativas e articulação com parceiros públicos e privados para ampliar oportunidades econômicas no setor de reciclagem. Outro destaque é o programa “Reciclar para capacitar”, que já profissionalizou mais de mil catadores na cidade, oferecendo cursos, apoio operacional e incentivo à organização produtiva das cooperativas. Além das políticas estruturantes, ações temporárias como o ‘Bloco de Reciclagem’, realizado durante o carnaval paulistano, demonstram o impacto econômico e ambiental da atuação dos catadores: somente na edição de 2026 foram recuperadas mais de 32 toneladas de recicláveis, movimentando cerca de R$120 mil em renda para cooperativas participantes. Essas iniciativas reforçam como a política de resíduos sólidos de São Paulo vai além da limpeza urbana, atuando também como ferramenta de geração de renda, redução das desigualdades e promoção da sustentabilidade nas cidades”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro5-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Carroceiro em árdua atividade. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro5-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>I have selected four messages among many received about the blog dedicated to the so-called refuse collectors, indispensable figures who are sorely undervalued.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Coletores de resíduos frente à árdua atividade</title>
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		<pubDate>Sat, 02 May 2026 03:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Trabalho extenuante realizado com dedicação Escuta, escuta, tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Trabalho extenuante realizado com dedicação</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1015.coleta-big.jpg" target="_blank"><img title="Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1015.coleta-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Escuta, escuta, tenho ainda<br />
uma coisa a dizer.<br />
Não é importante, eu sei, não vai<br />
salvar o mundo, não mudará<br />
a vida de ninguém – mas quem<br />
é hoje capaz de salvar o mundo<br />
ou apenas mudar o sentido<br />
da vida de alguém?</em><br />
Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005)</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o início da publicação dos blogs, vários posts foram dedicados àqueles que ou ficaram à deriva na sociedade ou em atividades laboriosas exaustivas. Uma das mais importantes funções na organização das cidades, a coleta de resíduos, não merece por parte dos governos a atenção desejável. Trata-se de um serviço público, contudo majoritariamente é realizada por empresas terceirizadas, logicamente contratadas pelas prefeituras. Os salários daqueles responsáveis pela coleta são baixos, mas eles são figuras fulcrais na manutenção da limpeza das cidades, pois têm de manter para a difícil atividade, em acréscimo, preparo físico, disposição para a função e redobrada atenção com o material coletado, inclusive com a possibilidade de contaminação. Na realidade, são eles os responsáveis para que inúmeras pragas sejam minimizadas, que produtos químicos, material descartado de hospitais e outros mais sejam retirados, assim como corroboram para a limpeza das áreas públicas, dando finalmente destino ao imenso material coletado.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1014.carroção4-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fonte: Google. Foto do livro 'Vila Prudente, do Bonde a Burro ao Metrô', Zadra, Newton. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1014.carroção4-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar da infância vivida na Vila Mariana. Coletores de resíduos recolhiam os dejetos das casas deixados nas calçadas em caixas de papelão ou latões grandes com tampas, estes não descartáveis. Os catadores jogavam esse material nas caçambas grandes de um carroção puxado por dois cavalos ou burros e devolviam o recipiente. Nossa mãe por vezes distribuía café com pãezinhos aos trabalhadores. Após décadas morando em uma casa no Brooklin, por vezes igualmente interagi rapidamente com os coletores de detritos, pois o contato com esses profissionais nesse tipo de moradia torna-se mais direto e frequente. Quantas não foram as vezes em que, ao  esquecer de colocar os sacos de resíduos na calçada,  após ouvir o ruido do caminhão e as vozes dos coletores corria até o portão, chamava-os e sempre, cordialmente, eles voltavam e retiravam os sacos. Em outras oportunidades, ao lhes oferecer uma garrafa de refrigerante e um pacote de biscoitos, comovente era a recepção desses verdadeiros especialistas. Ao longo, sabia o nome de diversos.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente tivemos de mudar da casa para um apartamento &#8211; fato inserido em blogs no início de 2025 &#8211; devido à sanha avassaladora das construtoras, que estão a demolir determinados bairros para a edificação de prédios, Brooklin e Campo Belo numa lista prioritária. A minha percepção da atividade dos coletores de resíduos teve um outro <em>approach</em> que, na realidade, só ampliou a minha admiração pelos laboriosos cidadãos. Vejo-os do apartamento, no início da noite, em posição logicamente distinta daquela visão tão próxima quando na residência anterior. Funcionários dos prédios colocam os enormes sacos de resíduos nas calçadas ou em pequenos recintos nas laterais das edificações. Os caminhões param por pouquíssimo tempo, o necessário para esses coletores, numa rapidez que impressiona, segurarem um ou dois sacos pesados, arremessando-os com precisão na caçamba do veículo. Este, finda a coleta do volumoso material, roda os metros necessários para a continuação da saga. Certamente são centenas de sacos arremessados e os dois ou três coletores incumbidos da tarefa ainda têm de dar pequenas corridas a fim de acompanhar o caminhão de recolha. Faça frio ou calor, chuvisco ou chuva forte, esses coletores desempenham exemplarmente a função. Infelizmente, eles têm de ouvir buzinadas de motoristas de carros impacientes, que sequer entendem que o sacrifício evidente dessa atividade fulcral na sociedade mereceria acima de tudo o respeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Num país onde os absurdos proliferam, a função desses coletores de resíduos, figurantes basicamente inexistentes no cotidiano das narrativas, sofre com a omissão da sociedade e o termo abjeto, lixeiro, é habitualmente propalado. Sob outra égide, há a perplexidade do cidadão cumpridor de seu labor diário, seja nas mais diversas atividades, seja na vida familiar, ao se deparar com a discussão sobre tema que deveria ter sido abortado sumariamente na origem, o penduricalho, algo que persiste e se avoluma nos três poderes e nas inúmeras instituições estatais. Esses membros dos três poderes teriam a devida atenção a determinadas profissões “subalternas”, mas que, sob outra égide, são igualmente essenciais para a sociedade? Com baixíssimos salários, os coletores de toda espécie de detritos estão a mostrar diuturnamente que, sem eles, no passar de poucos dias as cidades estariam expostas ao caos absoluto.</p>
<p style="text-align: justify;">Considero-os verdadeiros heróis. Nem as homenagens a eles consagradas sensibilizam os poderosos: 1º de Março – Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis; 7 de Junho – Dia Nacional de Luta dos Catadores de Materiais Recicláveis; 21 de Outubro – Dia Nacional do Coletor de Lixo, 22 de Novembro – Dia do Reciclador e da Reciclagem do Lixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The work of waste pickers – also pejoratively referred to as ‘scavengers’ – is just critical for a city. They are true environmental workers, playing a vital role in maintaining urban cleanliness.</em></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Reflexões sobre compositores do passado, suas missivas e a atualidade (VIII)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/04/25/15911/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/04/25/15911/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 25 Apr 2026 03:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta? Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo, de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo, da plena criação em todos os domínios, arte, ciência, filosofia, porventura vida também. Agostinho da Silva (1906-1994) “Só Ajustamentos” Ao longo das décadas realizei a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta?</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-big.jpg" target="_blank"><img title="Auguste Rodin (1840-1917), O Pensador. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-small.jpg" alt="" /></a></strong></p>
<p><em>Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo,<br />
</em><em>de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo,<br />
</em><em>da plena criação em todos os domínios,<br />
</em><em>arte, ciência, filosofia, porventura vida também.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)<br />
“Só Ajustamentos”</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo das décadas realizei a leitura parcial da atividade epistolar de alguns dos mais conceituados compositores, apreendendo essencialidades que vão além da própria composição, abrangendo igualmente o cotidiano, os afetos e as dificuldades frente à vida e seus desdobramentos, saúde, finanças, esperanças ou desalento. Graças à carta manuscrita, preservou-se o pensar do compositor, essa interioridade não revelada em escritos teóricos no caso específico de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositor e teórico, magistral nas duas atividades.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Air pour Borée et la Rose”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA">https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA</a></p>
<p style="text-align: justify;">O vastíssimo patrimônio da música com várias designações, clássica, erudita ou de concerto, permanece através dos séculos, é executado pelas gerações de intérpretes e integra o vasto universo da Cultura Humanística. Tardiamente penetrou no Extremo-Oriente e hoje alguns dos mais relevantes pianistas são oriundos dos Conservatórios do Japão, China, Coréia do Sul&#8230;, evidência clara, apesar de culturas distantes das ocidentais sob tantos aspectos, da aceitação da música clássica em seus múltiplos modelos. No 19º Concurso Internacional Frederic Chopin (2025), em Varsóvia, os três primeiros  colocados eram orientais ou descendentes e os dois outros prêmios foram outorgados <em>ex-aequo </em>(empatados), tendo igualmente orientais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mormente neste século, de maneira mais acentuada verifica-se uma diminuição sensível da divulgação mais exequível da atividade musical erudita em nossas terras. Observei em blogs, anos atrás, o papel da imprensa relacionada à música de concerto. Rememoro que São Paulo, na década de 1950, tinha uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes. Os concertos nos vários teatros, máxime o Teatro Municipal, tinham frequência quase sempre plena.  Quando nos visitavam nomes referenciais do piano, violino, violoncelo ou canto, filas de jovens aguardavam a abertura das galerias – preços irrisórios – para não perderem os eventos. Após uma determinada apresentação, leitores tomavam conhecimento de críticas em vários jornais. Mencionaria O Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite, Diário de São Paulo, Diário da Noite, A Gazeta, O Tempo, Correio Paulistano, Jornal Alemão, Fanfulla, Giornali degli italiani, Shopping News. Todos esses periódicos tinham críticos, a maioria deles com pleno conhecimento musical.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/800.Cáustico-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Cáustico. Desenho de Luca Vitali (1940-2013). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/800.Cáustico-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar das muitas diferenças entre a música clássica e a música não compromissada com a forma e destinada às multidões, máxime na atualidade, considerações podem ser feitas a partir da efemeridade da música voltada aos shows e pertencente a várias modalidades, megashows vindos do Exterior, eventos outros no Brasil direcionados ao axé, funk e ao sertanejo, totalmente descaracterizado se comparado às duplas que se apresentavam muitas décadas atrás &#8211; Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana e alguns outros, sem esquecer Inezita Barroso -, que buscavam traduzir autênticos sentimentos e anseios do homem do campo. Mercê do marketing bem estruturado, hodiernamente não mais é a qualidade que importa, mas a popularidade dos eleitos por n razões.</p>
<p style="text-align: justify;">Menções da imprensa testemunham somas rigorosamente elevadas repassadas pelos governos a personagens bem conhecidos da denominada música de cunho popular. É um fato que se repete nas várias esferas oficiais, do poder central às prefeituras de cidades pequenas, que inúmeras vezes dão maior atenção à essas apresentações do que àquela destinada aos serviços básicos das cidades ou, então, à segurança e à educação. Mormente nos megashows, a mudança de repertório se dá virtualmente a cada temporada e as músicas antes apresentadas estiolam-se em pouco tempo, basicamente esquecidas para sempre nas turnês vindouras. Os meios de comunicação, quase como um todo, divulgam <em>ad extremum es</em>sas apresentações, amparadas por publicidade de peso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesses posts dedicados às cartas de compositores que se eternizaram através dos séculos, veio-me à mente a perenidade frente ao efêmero. Numa elucubração, se considerarmos compositores que morreram pobres ou com problemas financeiros graves, mas que tiveram suas obras glorificadas, e atentando, sob outra égide, ao que um <em>pop star</em> recebe num único megashow, cantando músicas de valor bem discutível, não estaria distante da realidade afirmar que o cachê desse <em>pop star</em> internacional para uma única apresentação, frise-se, é infinitamente superior ao que compositores sacralizados sequer puderam amealhar durante toda a existência, guardando-se as proporções monetárias históricas. Antônio Vivaldi (1678-1741) morreu pobre, assim como Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828).</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Franz Schubert, Fantasia em fá menor, na interpretação de Paul Badura-Skoda (1927-2019) e Jörg Demus (1928-2019). Infezimente essa gravação realizada na Sala Gaveau, em Paris, é interrompida no minuto 8:56:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Dp8W7pSTBmw">Paul Badura-Skoda et Jörg Demus, pianos | Fantaisie en fa mineur, D.940 de Franz Schubert</a></p>
<p style="text-align: justify;">Richard Wagner (1813-1883) teria falido não fosse o apoio incondicional de Luís II da Baviera (1845-1886). Modest Mussorgsky (1839-1881) é o exemplo tipificado do compositor que faleceria no completo infortúnio. O <em>robe de chambre</em> que Mussorgsky veste poucos dias antes da morte, na magnífica pintura de Ilia Répine, foi-lhe dado por Rimsky Korsakov (1844-1908) para a famosa tela.  Claude Debussy (1862-1918) morreu em situação financeira difícil, mercê sobretudo causada por câncer que o acometera anos antes. Outros tantos faleceram beirando a pobreza.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a comparação estabelecida poderia parecer dicotômica quanto aos gêneros. Não obstante, transcende uma simples apreciação. As transformações tecnológicas necessárias, mas, sob outra égide, verdadeiros tsunamis, têm acarretado uma série de desvirtuamentos dos princípios “outrora” consagrados: costumes, moralidade, lhaneza, honestidade, gostos e educação. Inversamente à perenidade mencionada acima, mercê da qualidade insofismável das obras de compositores perenizados, os montantes aferidos nas hodiernas apresentações para multidões, com astros superventilados pela mídia, evidenciam, na área musical, a aparência da verdade, pelo sentido efêmero do que é revelado. Mencionei recentemente que, ao auscultar jovens frequentadores dos megashows com personagens estrangeiros ou nacionais a respeito de músicas apresentadas um ou dois anos antes, não mais se lembravam, mas sim as do último show a que assistiram.</p>
<p style="text-align: justify;">As transformações sociais têm sido avassaladoras. Certamente, dentro de algumas décadas os compositores mencionados acima estarão presentes nas programações musicais pelo mundo, com público específico, é certo, se comparado aos gêneros outros mencionados. Para estes, a efemeridade é dramática. Quem será lembrado futuramente dessa plêiade de <em>pop stars</em> que são glorificados por multidões? Que músicas ficarão na memória dos que frequentam esses megashows? O legado só acolhe a criação musical qualitativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Just some reflections on the legacy left by the great composers of the past, and the overwhelming presence today of mega-concerts that draw crowds to glorify names that are hyped up by the media.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ecos de blogs recentes</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Jan 2026 03:05:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[A recepção prazerosa das opiniões dos leitores Uma ação que tenha o pensamento por origem será sábia e justa se este pensamento se fundou sobre realidades e não sobre erros. Curuppumullage Jinarajadasa (1875-1953) As festividades de fim do ano impediram-me de salientar mensagens que corroboram o estímulo que persiste há quase duas décadas. Da recepção dos inúmeros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A recepção prazerosa das opiniões dos leitores</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/709.PCL3-big.jpg" target="_blank"><img title="J.E.M. Desenho do artista belga Jan de Wachter (1960-). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/709.PCL3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Uma ação que tenha o pensamento por origem será sábia e justa<br />
</em><em>se este pensamento se fundou sobre realidades e não sobre erros.<br />
</em>Curuppumullage Jinarajadasa (1875-1953)</p>
<p style="text-align: justify;">As festividades de fim do ano impediram-me de salientar mensagens que corroboram o estímulo que persiste há quase duas décadas. Da recepção dos inúmeros e-mails e whatsapps à inserção no segmento Ecos tenho de fazer escolhas, pois a maioria dos envios é bem curta, resumindo-se tantas vezes em uma só frase ou uma ou duas palavras. Todas, insisto, são recebidas com enorme prazer. Selecionei algumas mais extensas que recebi desde Dezembro, abordando individualmente os temas publicados.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Data maior da cristandade </strong>(20/12/2025)</p>
<p style="text-align: justify;">Não só o conceito do Natal está indo embora, como também a perspectiva de um ano novo renovado, pois, como dizia Krishnamurti, estamos aqui na Terra para realizar uma viagem com nós mesmos, em busca do aperfeiçoamento e da evolução interior. Mas como vemos no materialismo crescente, essa missão está cada vez mais distante do ser humano, pois na busca da satisfação do corpo, o espírito é esquecido, empurrando a consciência humana para áreas cada vez mais densas, obscurecidas pela escuridão de uma crescente ignorância. Mas como essa viagem interior é individual e não coletiva, façamos essa viagem com nós mesmos, pois ela se realiza dentro de nós, independente do mundo lá fora.<br />
<strong>Eliane Ghigonetto Mendes </strong>(Viúva do notável compositor, Gilberto Mendes) &#8211; Santos</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Um ano que se anuncia preocupante </strong>(27/12,2025)</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente será uma realidade preocupante. A gula, a ambição vampiresca, o ódio e o poder material, alcançado à custa do empobrecimento da grande maioria de quem lhes proporciona a riqueza, irão continuar a fomentar guerras, mortes, feridos e sem abrigo. Obrigada pelos seus contactos musicais e fraternos.<br />
<strong>Maria Celestina Leão Gomes </strong>(Portugal)</p>
<p style="text-align: center;"><strong style="text-align: center;">Série “Vidas em paralelo”, Precioso Podcast </strong><span style="text-align: center;">(03/01/2026)</span></p>
<p>Querido Amigo,<br />
Muitíssimo obrigado, já vi e está excelente, como sempre. Muito bem construído e apelativo. Adorei re-ouvir a sua sonata de Carlos Seixas! É bom ter esta nossa viagem pela História divulgada no país irmão. Acredito que muitos se interessarão! Consequência ou não do seu blogue, o último podcast arrancou muito bem e já acusa 1,3 mil visionamentos longos, só no Youtube. De novo, agradeço muito a sua gentileza e grande ajuda.<br />
<strong>João Gouveia Monteiro, </strong>professor catedrático de História Medieval (Universidade de Coimbra)</p>
<p style="text-align: center;"><strong>“O Náufrago” </strong>(10/01/2026)</p>
<p>Não li o livro, mas, após sua instigante resenha, gostaria de lê-lo. Bernhard me parece mais um pessimista à Schopenhauer do que um niilista <em>à la </em>Nietzsche. Teve uma vida pessoal e familiar muito negativas, e estudou violino, de onde possivelmente veio sua visão sobre músicos e intérpretes.<br />
<strong>Gildo Magalhães, </strong>professor titular de História da Ciência, (USP)</p>
<p>Variações Goldberg maravilhosas: iluminaram meu domingo!<br />
<strong>Aurora Bernardini, </strong>professora titular de literatura (USP).</p>
<p style="text-align: justify;">Professor  querido, ler sua crônica sobre o livro “O Náufrago”, de  Thomas Bernhard, nos leva à dimensão da vida e dos sonhos. Incrível, mas as suas reflexões  sensíveis vão além  da resenha. E quando sugere ouvir seu irmão &#8220;João Carlos Martins&#8217; Bach &#8211; Variações Goldberg”, o leitor transcende&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Seu blog é  um  espaço de buscas e encontros. Uma lição de vida. E também  de reflexão  sobre o cotidiano, como em &#8220;Um ano que se anuncia preocupante&#8221;, onde o senhor, quase como um jornalista / repórter,  observa e ouve a dedicada moça  do supermercado, fazendo considerações que tecem com profundidade  e conhecimento  a atual situação política do País.</p>
<p style="text-align: justify;">Professor, o senhor nem pode imaginar como as lições de vida e arte que transmite em seu blog são importantes, ainda mais neste momento conturbado, onde é  difícil ler e ouvir comentários  com sensatez e sem ideologias políticas.<br />
<strong>Leila Kyomura, </strong>jornalista do Jornal da USP.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/848.JE1-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Mãos de J.E.M. Desenho de Maria Fernanda. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/848.JE1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong>1.000 blogs publicados aos sábados, ininterruptamente</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Entre as muitas facetas que você mencionou ontem, há uma que poderia ser um subconjunto daquela de &#8220;observador&#8221;, mas que eu gostaria de realçar: a de cronista. Quando você fez crônicas do bairro e de personagens que nele habitam ou transitam, tenho a convicção de que você foi um ótimo escritor dessa difícil e sutil arte da crônica, com alta qualidade literária e profunda empatia pelo ser humano e aquilo que o cerca. Cada pessoa tem o potencial de ser muitos, e se você já não excelesse na arte do piano, sei que teríamos um literato de vulto.<br />
<strong>Gildo Magalhães</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Quase citando-te, “eu, leitor, estou convidado a realizar essa viagem. Que sejamos cúmplices. Bem  haja”!<br />
E<strong>urico Carrapatoso</strong>, compositor (Portugal)</p>
<p style="text-align: justify;">Que simpática esta mensagem do Gildo para você. É a pura verdade. Está ao lado de meu cronista favorito, Fernando Sabino<br />
<strong>Maria Beatriz Martins Lazarini </strong>(filha – posição suspeita)</p>
<p style="text-align: justify;">Neste espaço deixo minha profunda gratidão aos leitores seletivos (<em>circa </em>3.500 semanais). As suas visitas aos blogs, sensibilizam-me profundamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>I appreciated the numerous messages from readers regarding the latest blogs. Due to space constraints, I have selected only a few, but I am happy to receive comments and suggestions for topics that will certainly be converted into future posts.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>1.000 blogs publicados aos sábados, sem interrupção</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Jan 2026 03:05:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando a escrita se torna respiração Porque ser fiel, em primeiro lugar, é ser fiel a si mesmo. Saint Éxupéry (1900-1944) &#8220;Citadelle&#8221; (cap. CLXXV) Foi aos 2 de Março de 2007 que, após uma conversa na qual relatava alguma lembrança de décadas passadas, meu ex-aluno e amigo Magnus Bardela me perguntou qual a razão de eu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quando a escrita se torna respiração</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1000.Parker-big.jpg" target="_blank"><img title="Caneta tinteiro Parker Junior. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1000.Parker-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Porque ser fiel, em primeiro lugar, é ser fiel a si mesmo.<br />
</em>Saint Éxupéry (1900-1944)<br />
&#8220;Citadelle&#8221; (cap. CLXXV)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Foi aos 2 de Março de 2007 que, após uma conversa na qual relatava alguma lembrança de décadas passadas, meu ex-aluno e amigo Magnus Bardela me perguntou qual a razão de eu não ter um blog. Frequentador de nossa casa àquela altura, Magnus foi ao computador a fim de verificar algo e me chamou logo após. “Criei um blog em seu nome e é só começar a escrever”, disse ele. Atônito, sem conhecer nada desse “mecanismo”, escrevi um curto texto que nomeei “Preambulum”, a pensar na introdução da </span><em style="text-align: justify;">Partita </em><span style="text-align: justify;">nº 5, de J.S.Bach, que integrava meu repertório. Como ilustração, coloquei a foto da primeira caneta tinteiro que ganhei de meus pais quando completei 14 anos, uma Parker Júnior. Finalizava o primeiro </span><em style="text-align: justify;">post </em><span style="text-align: justify;">com uma frase que se tornou grata realidade: “Doravante, você leitor está convidado a realizar essa viagem. Que sejamos cúmplices. Bem haja”!</span></p>
<p style="text-align: justify;">Passaram-se quase 19 anos e com entusiasmo escrevi blogs publicados sempre no minuto cinco dos sábados e desde aquela data jamais deixei de inserir um <em>post </em>ao final da semana. Chegamos ao milésimo e o fato me faz rememorar. Ausente do país inúmeras vezes para atividades musicais, ainda nessas temporadas não deixava de publicar o blog, assim como logo após algumas cirurgias. Depois do primeiro ano tive a nítida sensação de que, instintivamente, o blog apreendia tema de qualquer ordem que me causara impressão maior. Sob outra égide, cerca de trezentos livros resenhados se tornaram parte natural das leituras que me marcaram (vide menu: Livros: Resenhas e comentários &#8211; lista). Reiteradas vezes mencionei em meus blogs que a respiração não pede férias, assim como minha prática pianística e os escritos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os blogs, de Março de 2007 a Março de 2011, resultaram em três livros, “Crônicas de um observador”, publicados pela <em>Pax e Spes </em>do meu dileto amigo Claudio Giordano. Deixei de publicá-los por múltiplas razões. Hoje teríamos 16 livros. Alguns leitores fiéis me escreveram ao longo dos anos dizendo que imprimem e guardam em pastas os blogs publicados, fato que muito me sensibiliza.</p>
<p style="text-align: justify;">Relendo <em>posts </em>ao longo dos anos, verifiquei certas flutuações em termos de temática. A palavra “observador”, utilizada no conjunto de textos nos quatro primeiros anos e que se estenderia ainda por certo tempo, teve como motivo o olhar mais voltado a muitos episódios do cotidiano, tantos deles que me encantaram. Houve uma fase em que as altas montanhas, a pontificar a cordilheira do Himalaia, me fascinaram e sintetizei em <em>posts </em>uma série de livros sobre o assunto. Assim também o fiz ao ler mais de 10 livros do intrépido aventureiro francês Sylvain Tesson (1953-). Com o passar dos anos, o aumento das viagens ao Exterior, a fim de atividades musicais mais acentuadas, sem declinar do cotidiano, voltei-me às experiências vividas nessas turnês, aos músicos excelentes com quem tive o privilégio de conviver, à Música e à eterna leitura seletiva, sempre a pensar na transmissão ao meu leitor. Houve um período em que me pormenorizei na série de extraordinários pianistas do passado, muitos deles hoje pouco acessados no Youtube ou no Spotify, assinalando sempre que, sem o conhecimento de suas gravações históricas, pode se perder o fio condutor que nos leva, como prioridade, ao respeito à mensagem do compositor e à imaginação extraordinária daqueles intérpretes unicamente voltados à essência musical. Fazia a crítica a determinadas performances atuais, tantas delas excepcionais sob o aspecto técnico-pianístico, mas, em inúmeros casos, sem a aura poético-espiritual. Insisti em vários posts a respeito de outro fator dominante nos dias de hoje: holofotes possantes, indumentária inúmeras vezes chamativa, tudo a fazer parte do espetáculo, algo não existente no passado, quando o objetivo do intérprete era tão somente o conteúdo musical a ser transmitido. Se o leitor acessar gravações daqueles mestres excelsos do passado interpretando determinada obra, verificará o pouco número de ouvintes na atualidade, diferentemente dos efeitos de performances hodiernas que, chamativas, atingem visualizações elevadíssimas para certos intérpretes mais ventilados.</p>
<p style="text-align: justify;">Paradoxalmente, a quase absoluta ausência da crítica musical nos últimos tempos é uma trágica realidade. Por volta de 1955 havia em São Paulo (3 milhões de habitantes) 12 críticos que pautavam os concertos realizados na cidade, de celebridades ou daqueles que se apresentavam no início de suas trajetórias. Na maioria, os críticos eram músicos atuantes ou teóricos. Hoje, a cidade tem 12 milhões. Críticos desses eventos? Comentei ao longo dos anos essa situação de queda que se estende, diga-se, a outras áreas da Cultura.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1000.200acessos-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Arte do meu saudoso amigo, Luca Vitali (1940-2013), relativa aos 200.000 acessos do blog em 2012. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1000.200acessos-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quanto aos Costumes, a temática se acentuou nos blogs publicados nesses últimos anos, pois não há mais barreiras para a divulgação de toda espécie de conteúdo adulto à disposição em sites de grande divulgação. Realmente, um total absurdo. Infelizmente, essa nefasta “abertura” não recebe o olhar mais atento das nossas autoridades.</p>
<p style="text-align: justify;">Após encerrar minhas atividades pianísticas públicas na Bélgica e em Portugal em 2023, assim como as gravações de CDs na região flamenga (1999-2019), finalizei no Brasil com um recital na cidade de Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Agosto do mesmo ano. Não obstante, continuo a praticar como sempre e sete foram os Encontros privados que Regina e eu realizamos desde o término das minhas apresentações oficiais. Continuo, pois, a comparar a prática diária pianística à respiração, que nunca esmorece. Não apenas rememoro repertório interpretado ao longo das décadas, como incorporo composições que sempre tive vontade de estudar e circunstâncias várias me impediram de fazê-lo. As récitas resultaram em blogs sobre os repertórios apresentados.</p>
<p style="text-align: justify;">Infelizmente, a morte de tantas figuras ilustres e amigos fiéis fez parte dos meus escritos hebdomadários. Prestei um singelo tributo a mais aos que partiram: François Lesure (1923-2001), Serge Nigg (1924-2008), Álvaro Guimarães (1956-2009), Giovanne Aronne (1937-2009), Almeida Prado (1943-2010), Roberto Szidon (1941-2011), Luca Vitali (1940-2012), Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012), Mario Ficarelli (1935-2014), Gilberto Mendes (1922-2016), Sequeira Costa (1929-2019), Fernando Lopes (1935-2019), Jorge Sampaio (1939-2021), José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), Tânia Hachot (1937-2022). Nossos saudosos pais, de Regina e os meus, também foram lembrados com emoção. Inexorabilidade que deve ser cultuada.</p>
<p style="text-align: justify;">Este olhar o passado me fez considerar determinadas mutações, mercê da trajetória do país. O leitor que me segue desde os primeiros tempos bem sabe que eu me posicionava mais otimista, no que concerne ao Brasil, nos talvez dez primeiros anos de <em>posts </em>publicados. Sabe também que não penetro em temas sobre política, pois articulistas especializados e de ideologias diferenciadas o fazem com maior conhecimento. Todavia, não deixo de perceber o país à deriva em tantos aspectos. Verificamos, em vários índices mundiais abrangendo categorias diferenciadas, o nosso recuo, fato lamentável. Sob outra égide, o receio do cidadão comum de se pronunciar mais veementemente a defender suas convicções políticas, outrora amplamente livre, intensificou-se. A espontaneidade, típica do povo brasileiro, foi substituída pela cautela com palavras e textos. A charge de cunho político, tão comum nos meios de comunicação décadas atrás, estiolou-se. Esvaiu-se a espontaneidade e toda charge dos nossos dias tem de ser bem pensada antes de vir a público&#8230; O tão apregoado bordão “censura nunca mais” mereceria ser entendido na sua essência essencial.</p>
<p style="text-align: justify;">Há quase um ano tivemos uma abrupta mudança, após 60 anos morando na mesma casa. A sanha avassaladora de uma construtora nos levou a<strong> </strong>mudar. Continuamos na mesma rua, mas doravante em um apartamento e as relações humanas, fator fundamental, continuam. Página virada e a normalidade de volta.</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho o hábito de redigir os blogs durante as madrugadas. Pela manhã realizo uma leitura pormenorizada e envio à minha amiga-irmã, Regina Maria, nossa vizinha desde os anos 1980, que desde o primeiro <em>post, </em>de Março de 2007, realiza uma revisão acurada, pois as denominadas gralhas acontecem: acentuações, falhas na digitação e outros pequenos tropeços. Faz-se necessária a revisão. Estou a me lembrar de um chiste do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), que, ao enviar ao ilustre organista Furio Franceschini (1880-1976) a sua Sonata para órgão, a fim de que o mestre a revisasse, escreveu que, entre os maus revisores, sentia-se o pior. Certamente um jocoso jogo de palavras, pois seus manuscritos contêm pouquíssimos equívocos<strong>. </strong></p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Henrique Oswald, &#8220;Il Neige!&#8221;, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=n0RxYeQbBbo&amp;t=5s">https://www.youtube.com/watch?v=n0RxYeQbBbo&amp;t=5s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Continuarei a escrever meus posts, embora os temas nascessem durante os meus treinos correndo. Aos 87 anos, infelizmente, não mais tenho esse prazer, a conselho do notável ortopedista Heitor Ulsson, convertendo as corridas em andadas, mas cumprindo basicamente as mesmas distâncias. A frase “o tempo insubornável”, do grande poeta Guerra Junqueiro (1850-1923), tem a amenizá-la o desenvolvimento de outras alegrias, entre elas o mavavilhamento de hoje, uma extensa família, lentamente acrescida nestes 62 anos de casamento, e curtida por Regina e por mim. Música, literatura e artes em geral se tornaram ainda mais frequentes e continuarão a impulsionar o blog, até quando a frase latina ser efetivada, “Mors certa, hora incerta”. Contudo, prezado leitor, continuo a ter esperanças.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>We have reached our thousandth consecutive post, published every Saturday since 2 March 2007. A significant milestone, since there has not been a single hiatus in this long period of almost 19 years.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um ano que se anuncia preocupante</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Dec 2025 03:05:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando o pluralismo de ideias está a ser olvidado Cada um de nós emergirá, ao fim do Ano Novo, ou maior ou menor; ou então, absolutamente não teremos crescido, permanecendo em completa inércia, exatamente aquilo que agora somos. Porém, para aqueles dentre nós que sentem fervor, o que um Novo Ano representa? Não pode ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quando o pluralismo de ideias está a ser olvidado</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/997.NonaOnda2-big.jpg" target="_blank"><img title="Ivan Aivazovsky (1817), Nona Onda (1850). Museu Estatal - S. Petersburgo, Rússia. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/997.NonaOnda2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Cada um de nós emergirá, ao fim do Ano Novo, ou maior ou menor;</em><br />
<em> ou então, absolutamente não teremos crescido,</em><br />
<em> permanecendo em completa inércia, exatamente aquilo que agora somos.</em><br />
<em> Porém, para aqueles dentre nós que sentem fervor,</em><br />
<em> o que um Novo Ano representa? Não pode ter essa significação?</em><br />
<em> Somos semelhantes a viajantes, penetrando, em nossa longa jornada,</em><br />
<em> por um país novo e desconhecido,<br />
onde fados estranhos e estranhas aventuras nos esperam.<br />
Nesta terra, à medida que o peregrino observador a percorre,<br />
oportunidades se acumulam sob seus passos.<br />
Porém, para as utilizar, necessita ser sábio e estar alerta.<br />
Pois de uma coisa deve lembrar-se,</em><br />
<em> &#8211; que é um viajante e que o que lhe compete é, não se deter,<br />
mas passar adiante.</em><br />
Jiddu Krishnamurti (1895-1986)</p>
<p style="text-align: justify;">A volúpia voltada ao sufrágio deverá concentrar as atenções, máxime nas sedes dos três Poderes, território das decisões. Estas se expandem pelo país em processo rápido e por vezes avassalador. Não estou a me lembrar de um período tão conturbado pré-eleições entre as tantas das quais me lembro, desde os anos 1950. As mentes dos agentes políticos e algumas das decisões tão questionáveis advindas do nosso Judiciário configuraram um clima não propenso à serenidade, termo que deveria ser chave no ano que está para nascer, já contaminado pelo embate. A serenidade leva ao bom senso, dirime excessos, pacifica mentes conturbadas pelas disputas ideológicas conduzindo-as à tranquilidade, estimula a moderação, uma das grandes qualidades, hoje basicamente negligenciada.</p>
<p style="text-align: justify;">Rigorosamente certo é o roteiro político que se avizinha. Desgraçadamente ele impedirá o transcurso habitual de um ano. Tantos temas que afligem a população estarão esquecidos pela intensa polarização. Àqueles que têm outras preocupações, profissionais, do cotidiano salutar, da família a preponderar, as mazelas das disputas ideológicas preocupam, sem que nada individualmente possa ser feito para uma pacificação. A insistência do mandatário-mor, no sentido de que adversários jamais voltarão ao poder, evidencia uma posição, antítese da democracia. Nosso vizinho, o Chile, tem demonstrado salutarmente a alternância do poder. Infelizmente, o desinteresse, ou melhor, a certeza da impossibilidade de que roteiros sejam modificados a partir das decisões de dois Poderes bem afinados perpassa as mentes do cidadão laborioso.</p>
<p style="text-align: justify;">31 de Dezembro, fronteira final que separa a data festejada do incógnito ano a nascer, sem que as mínimas salvaguardas da serenidade sejam cumpridas. A delicada situação econômica do país, a insegurança mercê de um nascedouro ideológico que acarinha o malfeitor, a derrocada visível dos costumes, da moralidade e a permissividade presente anunciam dias cinzentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos estertores do ano fiz uma pergunta a uma dedicada moça que trabalha no caixa de um dos supermercados que frequento, repetindo a formulação que fizera 15 anos antes a uma outra funcionária que desempenhava as mesmas funções (vide blog: “Considerações sobre a Passagem do Ano – A esperança como estímulo”, 31/12/2010). A resposta de 2010 foi precisa, e estava focada na sua família. Redigi àquela altura: “a primeira felicidade será a de ver sua filhinha sem qualquer problema; a segunda relacionava-se à segurança de seu marido que trabalha em carro forte, o que a preocupa; a terceira, ver todos que a circundam em harmonia. Propósitos transcendentais na abrangência da essência do ser humano”. Indagada nesses últimos dias, a rapariga do caixa, logo após a finalização das compras, respondeu-me que pensava em sua mãe adoentada, rezava para que não fosse assaltada ao sair bem cedo para o trabalho e que gostaria que todos vivessem em harmonia, estas, as últimas palavras que ouvi em 2010.</p>
<p style="text-align: justify;">Busquei outros interlocutores nestas cercanias onde habitamos há mais de 60 anos, tempo necessário para se conhecer tantas pessoas amistosas. Muitos já partiram, mas a renovação estimulante é constante, o que é salutar. Há uma desesperança na maioria dessas figuras que deveras estimo. Acredito que, apesar da grave crise econômica do país, com uma dívida de vários trilhões e gastos excessivos que não dão trégua, assim como o problema insolúvel da segurança pública, o cidadão comum ao menos almejaria ter esperanças.</p>
<p style="text-align: justify;">Após ter encerrado a atividade pianística pública em 2023, continuo a estudar e a apresentar, nos recitais privados, programas que me acompanharam ao longo das décadas, introduzindo sempre obras que não estudei anteriormente. A revisita e o descortino trazem uma surda alegria e a certeza de que a música e a dedicação ao piano ao longo da existência sofreram forte influência da leitura dos livros percorridos na juventude, graças ao meu saudoso Pai. Entre esses, “Atitude Vitoriosa” e “A Alegria de Viver”, de Orison Swett Marden (1848-1924), escritor e médico, autor de inúmeros livros a estimular a autoconfiança. Meus três irmãos seguiram o mesmo roteiro e Marden foi um dos autores mais frequentados por nós quatro durante a adolescência.</p>
<p style="text-align: justify;">Na atualidade, o jovem pouco ou nada lê em se tratando de livros impressos. Ficam na penumbra obras essenciais que fazem parte da Cultura Humanística, hoje frequentada por uma minoria. Independentemente da invasiva disputa ideológica <em>ad nauseam</em>, o denominado “besteirol” domina segmento prioritário dos sites informativos, devassando intimidades dos propalados “famosos”. Busca-se uma notícia relevante e surge a imagem de um desses personagens. Até quando? Essa atualidade parece ter vindo para ficar e seus efeitos fatalmente já se apresentam irreversíveis. Milhões buscam, numa outra fonte, a telinha, as notícias que surgem sem o espírito crítico, mas pulverizadas e tendenciosas. A escrita é preferencialmente abreviada e mal redigida, pois a preocupação com a redação correta inexiste. Graves as consequências: a leitura imediata, descartável, não se fixa na memória, mas atinge algo sensível, o comportamento; a superficialidade destes textos contamina o pensar não reflexivo. O resultado só pode ser a alienação.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, Nocturne op. 63 nº 6, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JIWPoPmGrvw">Gabriel Fauré &#8211; Nocturne nª 6 Opus 63 &#8211; José Eduardo Martins &#8211; piano</a></p>
<p style="text-align: center;">Apesar da exposição sombria, auguro a todos os leitores um Ano Novo promissor.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/997.Gaivota-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Gaivota sobre o Rio Douro, Portugal. Foto: Maria Fernanda. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/997.Gaivota-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>New Year. The country, divided by differing ideologies, faces numerous fundamental problems. The media either addresses this duality or delves into topics of extreme triviality. However, there is still a faint hope that the country will find a safe path to the future.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Data maior da cristandade</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Dec 2025 03:05:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Natal deste ano em período complexo no país De todas as histórias que nos contava guardei apenas uma vaga e imperfeita lembrança. Porém, uma delas ficou tão nitidamente gravada em minha memória, que sou capaz de repeti-la a qualquer momento – a pequena história do nascimento de Jesus. Selma Laferlöf (1858-1940)  Prêmio Nobel de Literatura [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Natal deste ano em período complexo no país</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/996.Marfim-big.jpg" target="_blank"><img title="Nª Senhora com menino Jesus. Marfim. Arte sino-portuguesa, século XVII.  Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/996.Marfim-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>De todas as histórias que nos contava<br />
</em><em>guardei apenas uma vaga e imperfeita lembrança.<br />
</em><em>Porém, uma delas ficou tão nitidamente gravada em minha memória,<br />
</em><em>que sou capaz de repeti-la a qualquer momento<br />
</em><em>– a pequena história do nascimento de Jesus.<br />
</em>Selma Laferlöf (1858-1940)  Prêmio Nobel de Literatura (1909)<br />
(“Lendas Cristãs”)</p>
<p style="text-align: justify;">O ano conturbado que se escoa não propiciou o clima natalino de tempos passados.<strong> </strong>Vê-se inclusive num pormenor, a diminuição sensível da iluminação natalina nos prédios da cidade, apesar dos esforços da Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultura e da Secretaria de Relações Internacionais, no que concerne ao Centro Histórico da capital do Estado. Sob aspecto outro, noticiários televisivos e jornalísticos se concentram nas disputas ideológicas exacerbadas no Brasil, o relacionamento difícil entre os Poderes e, talvez, a maior chaga que acomete o país na atualidade, a insegurança do cidadão frente à<strong> </strong>violência que se instalou em todos os recantos do imenso território, sem que ações decisivas sejam tomadas.</p>
<p style="text-align: justify;">Décadas atrás, consagrava-se<strong> </strong>majoritariamente, neste período a anteceder o Natal, noticiário à própria relevância do nascimento de Cristo e à confraternização a festejá-lo, nela contidos os presentes aos miúdos e a ceia a unir as pessoas. Ouve-se e lê-se, neste período tão caro para a cristandade, noticiário a contrapor as mazelas políticas, a contenda acentuada entre os Poderes e as posições antagônicas de jornalistas, a depender dos canais de comunicação. Está a parecer que o Natal, com toda a sua mística e significado para milhões de brasileiros, passou a ser um pormenor na mídia. Se mais acentuadamente o Natal é invocado neste exato período pelos meios de comunicação, é-o mercê do comércio, que recebe um número acentuado de compradores.  Acrescente-se que, nas comunidades religiosas, igrejas, capelas e sobretudo nos lares cristãos, a chama natalina está presente, mas o pensamento da mídia volta-se polarizado para essa disputa ideológica interminável e insana. Mormente neste Natal tem ficado transparente a opção da maioria<strong> </strong>da imprensa escrita e falada. Contenda traz audiência e a mídia atenta a tem como sustentáculo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/735.Pèlerins-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Peregrinos. Catedral Saint-Lazare, Autun, França, séc. XII. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/735.Pèlerins-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Sob outra égide, o quase que absoluto desaparecimento da troca de cartões de Natal assinala uma realidade. Mensagens de paz vinham acompanhadas de figuras pertencentes ao universo natalino. Tantos desses cartãoes continham votos de Natal redigidos a mão e assinados, diferentes daqueles das inúmeras empresas que também enviavam cartões, esses impessoais, com frases padronizadas e rubricadas pelas organizações. Pondere-se que a internet é uma das responsáveis pela descontinuidade dos cartões, assim como os Correios em pleno declínio.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir,<strong> </strong>de J.S.Bach-Kempff, o coral “Acorde, a voz está soando”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0nQUzeqdu4s">https://www.youtube.com/watch?v=0nQUzeqdu4s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Independentemente dessa situação, os que professam a fé cristã nas suas diversas ramificações cultuam com intensidade o período natalino. Certamente a Praça de São Pedro, no Vaticano, estará lotada durante a célebre Missa do Galo. Catedrais, igrejas e capelas em todo o mundo cristão deverão receber os fiéis. Templos evangélicos receberão os seus seguidores, que cultuarão a data. Todavia, será no interior dos lares que, singelamente, o nascimento de Jesus será celebrado, a partir, na realidade, do que reza o versículo 20 do capítulo 18 do Evangelho segundo São Mateus: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles”.<strong> </strong>Creio ser este um dos mais expressivos versículos dos evangelhos, a dar a dimensão da presença do Cristo, do berço à maturidade, acompanhando a saga humana&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/996.Sagrada-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Catedral Saint-Lazare em Autun, França, séc. XII. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/996.Sagrada-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Na Catedral de Autun (séc. XII), em França, há em uma das magníficas esculturas, a representação da oferenda dos três Reis Magos à Sagrada Família, na qual São José está com a mão direita apoiada no queixo e o cotovelo sobre a perna dobrada (<em>Saint Joseph pensif</em>). Em 1974, encontrei, em uma feira popular em Minas Gerais, a Sagrada Família em terracota. São José está com o punho direito a sustentar o queixo. Surpreendi-me ao lembrar de <em>Saint Joseph Pensif</em>, quando visitei a Catedral francesa em 1959. Era a segunda e última vez que presenciava a mesma postura.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/996.Presépio-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Sagrada Família. Terracota. Arte popular do Sul de Minas Gerais. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/996.Presépio-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de J.S.Bach-Myra Hess, o coral “Jesus alegria dos homens”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ">https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>The most important date in Christianity, due to the insane ideological polarisation prevailing in the country, received little coverage in the media in general. However, authentic Christians celebrate the birth of Christ with faith, intensity and hope.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um post que motivou outras abordagens preocupantes</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Dec 2025 03:05:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[A comunicação televisiva A degeneração de um povo, de uma nação ou raça, começa pelo desvirtuamento da própria língua. Ruy Barbosa (1849-1923) Saudaram o talento de Dori Caymmi. Alguns leitores não conheciam suas canções e foram buscá-las no Youtube. A concordância foi quase plena com a alienação de uma juventude presa ao “fascínio” dos megashows, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A comunicação televisiva</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/672.Luca1-big.jpg" target="_blank"><img title="Luca Vitali, 1940-2013. Les oiseaux qui s'en vont pour toujours. Esperanças que partem. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/672.Luca1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>A degeneração de um povo, de uma nação ou raça,<br />
</em><em>começa pelo desvirtuamento da própria língua.<br />
</em>Ruy Barbosa (1849-1923)</p>
<p style="text-align: justify;">Saudaram o talento de Dori Caymmi. Alguns leitores não conheciam suas canções e foram buscá-las no Youtube. A concordância foi quase plena com a alienação de uma juventude presa ao “fascínio” dos megashows, seus decibéis elevadíssimos e o espetáculo que, sob o aspecto musical, é extremamente discutível.</p>
<p style="text-align: justify;">Quase todos os leitores concordaram com as nossas posições, uns poucos foram benevolentes quanto a essa juventude e, outros mais, partiram para a possibilidade de novas reflexões, máxime voltadas ao sistemático empobrecimento da nossa língua mater no cotidiano e, bem mais grave, em quase todos os meios de comunicação, assim como à deterioração sensível dos costumes.</p>
<p style="text-align: justify;">A maioria das mensagens foi curta, mas precisa. Eliane Ghigonetto Mendes, viúva do notável compositor Gilberto Mendes (1922-2016) se estende e capta com clareza a triste realidade atual: &#8220;Quando era criança eu já adorava o Dorival Caymmi, com toda a sua elegância e voz tão especial. Portanto, não é à toa que o Dori Caymmi tenha essa postura com relação à música popular. Mas, na realidade, o ser humano cada vez mais está mergulhado no vazio, obedecendo a mídia como gado que é conduzido ao matadouro da morte espiritual pela ausência total de valores maiores em contraposição a toda a pobreza de espírito e de intelectualidade tão presentes hoje em dia, em todas as áreas do convívio humano. E quanto mais mudamos nossos velhos valores mundanos, mais sensíveis nos tornamos a toda baixeza humana, da qual fizemos parte um dia, de alguma maneira, quando ainda estávamos tão fracos sujeitos à moda, aos velhos valores familiares herdados geneticamente, e aos tradicionais velhos valores materiais da sociedade. Mas, por outro lado, graças a essa compreensão nos dando uma visão mais alta da Vida, é que fazemos toda diferença, nos tornando o chamado &#8216;louco&#8217; do Aleph, com a sociedade julgando como &#8216;loucos&#8217; aqueles que não fazem parte da massa, assim como eles, quando, na realidade, loucos são eles.<br />
Com muita calma, paz, paciência e misericórdia&#8230;&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Fala-se mal, erros se acumulam e, se décadas atrás, a figura do ombudsman estava atenta aos equívocos linguísticos, televisivos e jornalísticos, verifica-se hoje que quase todos os canais de noticiários acumulam erros relativos à nossa língua portuguesa, sem que providências sejam tomadas. Alguns desses escorregões poderiam ser sanados com apenas uma observação àqueles que cometem sistematicamente os mesmos erros. Essas informalidades e abreviações penetraram decididamente na comunicação televisiva. Considere-se a avalanche dos celulares, hoje em todos os rincões abrangendo as mais variadas faixas etárias, presença hoje a simplificar para pior a escrita correta, assim como os pilares dos costumes.</p>
<p style="text-align: justify;">“Né” e “tá” substituíram, infelizmente, “não é” e “está”; “levar ela” é largamente empregada ao invés da norma culta “levá-la”, pois repetida <em>ad nauseam</em> por apresentadores. Uma outra palavra tem perdido o seu sentido etimológico, pois, após entrevistarem convidado, apresentadoras diversas agradecem não mais a dizer “obrigada”, mas apenas “brigada”, que, segundo o Diccionário Moraes da Língua Portuguesa (Rio de Janeiro, Lisboa, 1889), refere-se a “certo número de batalhões, ou esquadrões, dois, três, ou mais (conforme o reg. Mil.), comandados por um brigadeiro ou general de brigada: brigada de infantaria, de cavalaria”. Apresentadores dizem&#8221;brigado&#8221;, poder-se-ia acrescentar, &#8220;com quem&#8221;?</p>
<p style="text-align: justify;">Em blog bem anterior inseri o posicionamento do poeta açoriano Heitor Aghá Silva (1954-), que escrevera artigo a respeito da contaminação que se verificava na linguagem dos Açores, mercê das telenovelas brasileiras (Vide “A Voz e o Eco” captados além mar – Quando há irmanação no pensar”, (20/03/2010). Abordei naquele post a preocupação nítida do poeta com a degradação da língua portuguesa vinda d’além mar. Durante uns poucos anos colaborei para o Suplemento Cultural “Antília” de “O Telégrafo”, da Horta, capital da Ilha Faial do Arquipélago dos Açores.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que mais acentuadamente está a se viver no país um desmonte progressivo da língua portuguesa. Erros sem correções resultam em acomodação linguística e todo o mal está feito.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto aos costumes, objeto igualmente de ponderações de leitores que apreciaram o blog sobre Dori Caymmi, o cenário é grave, pois atinge o cerne da formação das novas gerações. Importante site apresenta em sua página primeira, sistematicamente, pequeno quadro explicitamente pornográfico (só para assinantes). A imagem já diz tudo e o aprofundamento dependerá de o leitor ser ou não assinante. Não é um pleno sinal de decadência moral e dos costumes? O fato de persistirem significa que há anuências inconfessáveis. Estaria o Judiciário empenhado com foco preciso nessas aberrações que estão levando a sociedade brasileira a confundir valores?</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/995.Sol2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Nuvens encobrindo o espelho celeste. Foto: JEM. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/995.Sol2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Confesso que, aos 87 anos, jamais assisti a um esgarçamento tão pronunciado dos valores antes cultuados e que mereciam o respeito da sociedade. Hoje são preservados pelos que resistem a toda essa banalização. Resistência preserva, sinal tênue de esperança?</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The previous post about singer-songwriter Dori Caymmi&#8217;s harsh criticism of tasteless, high-consumption music led readers to mention the progressive deterioration of the Portuguese language and decline of morals.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Paz, palavra sempre evocada e tão desvirtuada</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Oct 2025 03:10:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Distanciamento do sentido etimológico Mas quem pretende prever o destino do cedro que, de semente em árvore e de árvore em semente, de crisálida em crisálida se transforma? Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) (“Citadelle”, cap. XX) Torna-se evidente que o mundo está a viver uma fase acelerada em direção contrária ao significado preciso da palavra Paz. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Distanciamento do sentido etimológico</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/984.Gaivota1-big.jpg" target="_blank"><img title="Gaivota sobre o rio Douro. Foto: Maria Fernanda Martins. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/984.Gaivota1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Mas quem pretende prever o destino do cedro que,<br />
</em><em>de semente em árvore e de árvore em semente,<br />
</em><em>de crisálida em crisálida se transforma?<br />
</em>Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)<br />
(“Citadelle”, cap. XX)</p>
<p style="text-align: justify;">Torna-se evidente que o mundo está a viver uma fase acelerada em direção contrária ao significado preciso da palavra Paz. Lideranças não se entendem, voltadas preferencialmente a egos exacerbados. Se alhures guerras entre países e conturbações ocorrem, no Brasil é o esgarçamento das relações entre os Poderes, impulsionado pela acelerada disputa político-ideológica, que contamina mentes e decisões. Não mais temos harmonia entre os três Poderes, disposta na nossa Constituição de 1968, esvaiu-se, poder-se-ia dizer, quase que por completo. Reza a nossa Constituição, em seu artigo 2º: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. Subentende-se autonomia de cada Poder e respeito entre eles. É tão claro esse artigo, assim como o conteúdo da nossa Magna Carta criteriosamente gestada. Em sendo pianista, comparo-a com as partituras dos grandes mestres. Podemos interpretá-las, mas jamais maculá-las.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas premissas se fazem necessárias, máxime após a leitura recente do pensamento de Antoine de Saint-Exupéry sobre a paz em <em>Citadelle </em>(cap. XVII), que confesso ser o meu livro de cabeceira há décadas. Na opinião de uma das responsáveis pela edição do livro, sua irmã Simone de Saint-Exupéry, trata-se de “&#8230;obra densa e profunda que aborda todos os problemas do destino humano e do condicionamento do homem”.</p>
<p style="text-align: justify;">No que concerne à Paz, o escritor e piloto Saint-Exupéry, distante daquilo que hodierna e vulgarmente se apregoa sobre o termo, interpreta-a idealisticamente, com parcimônia, sem arrogância. <em>Citadelle</em> compreende uma experiência de ordem moral e seu personagem central é alegórico, um Senhor, verdadeiro guia espiritual, que transmite em monólogos seus conhecimentos existenciais, onde respeito, humanismo e justiça estão voltados à construção de uma sociedade ideal.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/686.SaintEx1-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Antoine de Saint-Exupéry. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/686.SaintEx1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Recolhi alguns trechos que entendo essenciais para a compreensão do pensar de Saint-Exupéry sobre o tema:</p>
<p style="text-align: justify;">«Não imponho a paz. Se me limitar a subjugar o meu inimigo, estou a alimentar o seu rancor. Trata-se de oferecer a cada um, para que se sinta à vontade, uma roupa à sua medida. E a mesma roupa para todos. Pois toda a contradição não passa da ausência de gênio”.</p>
<p style="text-align: justify;">“A paz é árvore que demora a crescer. Tal como o cedro, precisamos absorver muitos nutrientes para construir sua unidade&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Edificar a paz é construir um estábulo grande o suficiente para que todo o rebanho possa nele dormir. É construir um palácio vasto o necessário para que todos os homens possam nele se reunir, sem abandonar nada de suas bagagens. Não se trata de amputá-los para que caibam nele. Construir a paz é conseguir que Deus empreste o seu manto de pastor para receber os homens em toda a extensão dos seus desejos. Assim como a mãe que ama seus filhos. Um deles tímido e terno. O outro, ardente por viver. E o outro talvez corcunda, frágil e indesejado. Mas todos, na sua diversidade, comovem o seu coração. E todos, na diversidade do seu amor, servem à sua glória. Mas a paz é uma árvore que demora a crescer. É preciso mais luz do que eu tenho. E nada ainda é evidente. E eu escolho e recuso. Seria demasiado fácil fazer a paz se os três fossem semelhantes”.</p>
<p style="text-align: justify;">Está-se a viver no Brasil um clima de incertezas, incompreensões e falta de entendimentos, dir-se-ia chaga que se instalou e que destrói quaisquer possibilidades de que a paz e a harmonia prevaleçam. Será impossível chegarmos a uma paz que perdure se em nosso país persistir um clima realmente beligerante extremado. Artigos em jornais e revistas, assim como programas televisivos e redes sociais, estão eivados de posições antagônicas, tantas delas fora dos limites ponderáveis. Homens públicos nos três Poderes se exacerbam em suas colocações. Em entrevistas, determinados “líderes” destilam ódio em relação aos seus opositores. Péssimo exemplo, mormente para as novas gerações, que apreendem o que de pior pode haver para as suas formações cívicas. A moderação e a temperança parecem ter perdido a validade. Sem elas, continuaremos num caminho destinado ao impasse. Falta-nos a observância interpretativa desses termos, tão bem expressa em um Dicionário referencial: “Temperança é a virtude que em todas as acções da nossa vida reprime o excesso, e nos contém dentro dos limites da razão, e da lei: é propriamente o <em>ne quid nimis</em> do antigo oráculo. A moderação rege e governa as nossa acções; faz que vamos pelo justo e direito caminho, não nos desviando para os extremos; indica-nos os limites que não devemos transgredir. E a temperança retifica os desvios, cohibe os excessos, reduz-nos ao caminho, à linha do nosso dever” (“Diccionario da Língua Portugueza”, por Antonio de Moraes Silva, Rio de Janeiro, Litteraria Fluminense, 1891).</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The world, troubled by wars and misunderstandings,  is going in the opposite direction to the meaning of the word peace.<strong> </strong></em><em>Brazil is experiencing a period of ideological exacerbations and fierce disputes. When will we return to Harmony between the three Powers, as stated in our Magna Carta of 1968? The present circumstances brought back to my mind Saint-Exupéry&#8217;s ideas on peace expressed in his greatest work, &#8220;Citadelle&#8221;.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Ecos de &#8220;Comandante César Sfoggia&#8221;</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2025/09/06/ecos-de-comandante-cesar-sfoggia/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Sep 2025 03:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Admiração pela bela carreira na aviação comercial internacional Do homem, não me pergunto «qual é o valor das suas leis», mas sim «qual é o seu poder criativo»? Antoine de Saint-Exupéry (“Carnets”) Recebi muitas mensagens que me sensibilizaram, pois entenderam que, no post anterior dedicado ao impecável comandante César Sfoggia Júnior, eu homenageava in adendo toda [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Admiração pela bela carreira na aviação comercial internacional</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/980.César-big.jpg" target="_blank"><img title="Comandante César Sfoggia Júnior. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/980.César-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Do homem, não me pergunto «qual é o valor das suas leis»,<br />
</em><em>mas sim «qual é o seu poder criativo»?<br />
</em>Antoine de Saint-Exupéry<br />
(“Carnets”)</p>
<p style="text-align: justify;">Recebi muitas mensagens que me sensibilizaram, pois entenderam que, no post anterior dedicado ao impecável comandante César Sfoggia Júnior, eu homenageava <em>in adendo</em> toda uma extensa classe de pilotos que desafiam as alturas com destemor e profissionalismo. Alguns jamais pensaram no piloto e em suas atribuições, mas apenas nas viagens. Aqueles que assim pensaram, felizmente, escreveram que abrirão as mentes para a missão do piloto e, ao que tudo indica, serão leitores dos livros preciosos de Saint-Exupéry. Oxalá isso ocorra.</p>
<p style="text-align: justify;">Confesso que, sempre que atravessava o Atlântico, pensava nessa proteção inequívoca de profissionais responsáveis que escolheram a profissão, majoritariamente por vocação. Vinha-me a imagem do meu primeiro voo, quando, após recital de piano em Botucatu no segundo lustro dos anos 1950, a convite do Arcebispo Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), regressei a São Paulo num avião Paulistinha com apenas dois lugares, do piloto e do passageiro, e cujas portas eram de uma espécie de lona. Lentamente chegamos à cidade. Verdadeiro deslumbramento.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/980.Paulistinha-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Pequeno monomotor conhecido como Paulistinha. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/980.Paulistinha-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Eliane Ghigonetto Mendes, inúmeras vezes presente neste espaço, escreveu: “Fascinante todo esse relato do Comandante César Sfoggia. ‘Voei’ com vocês dois, ‘planando’ a cada momento&#8230;”. O professor titular da FFLECH-USP, Gildo Magalhães ponderou: “Realmente, o tema pode surpreender, mas não é insólito, para quem conhece o interesse do amigo pela experiência humana e talvez haja mais de um ponto em comum entre atravessar o céu e atravessar um concerto. Muito bom”.</p>
<p style="text-align: justify;">Reuni alguns questionamentos dos leitores que prestigiam o blog semanal e os transmiti ao comandante César Sfoggia.</p>
<p style="text-align: justify;">Q. “Nas importantes empresas aéreas internacionais, qual o papel do comandante em relação ao comportamento indevido de determinados passageiros?”. R. “A tripulação de comissários tem treinamento para esses casos. O comandante em hipótese alguma sairá da cabine de comando. Em situações extremas será feito pouso não programado para desembarque do passageiro pelas autoridades policiais. Existem empresas que exigem ressarcimento nesses casos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Q. “Qual a autoridade do comandante frente a toda a tripulação?” R. “Ele é o responsável com plenos poderes pela operação e segurança da aeronave e é também o representante da Empresa/Empregador. Todas as decisões finais estão sob seu cargo. Autoridade outorgada pelo código brasileiro de aeronáutica (Lei 7565/1986)”.</p>
<p style="text-align: justify;">Q. “Qual a idade limite para a atividade de um comandante nesses voos internacionais? R. “O limite de idade do comandante para voos internacionais é de 65 anos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Q. “Num voo transoceânico, qual o período de descanso da tripulação para o retorno ao aeroporto inicial?”. R. “Está tudo relacionado na Lei 13.475/2017. Jornada de trabalho de até 15 horas, 16 horas de repouso, este começando após o corte dos motores mais 45 minutos. Jornada de mais 15 horas, idem para o início do repouso, ou seja, no caso, 24 horas. No retorno ao Brasil serão acrescidas mais duas horas por fuso horário cruzado”.</p>
<p style="text-align: justify;">Q. “Tem o comandante desses longos trajetos a possibilidade de prolongados cochilos reparadores? R. “Varia de acordo com as políticas das Empresas, obedecendo as normas da agência de aviação do país da matrícula da aeronave. Uma Empresa do Oriente permite, quando em voo de cruzeiro, cochilo máximo de 30 minutos de duração. Há normas diferenciadas das agências reguladoras de cada país. No Brasil temos a Anac”.</p>
<p style="text-align: justify;">Q. “Às vezes, acidentes aéreos com sobreviventes acontecem em locais inóspitos, como florestas densas, montanhas geladas e mesmo na água. Será que a tripulação, comandante incluso, recebe treinamento para sobreviver em tais condições enquanto espera por resgate? Em caso afirmativo, esse treinamento é prático ou apenas teórico? R. “As aeronaves dispõem de equipamentos de sobrevivência e a tripulação tem treinamento para pouso na água. Possuem as aeronaves kits de sobrevivência no mar. Há botes e coletes para todos a bordo. É dado treinamento para evacuação de emergência e fogo a bordo, assim como para emergências médicas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Q. &#8220;Como é feita a avaliação psicológica de um piloto? Existe uma reavaliação periódica?&#8221;. R. Sim, para cada grau da licença de piloto, a saber, piloto privado, piloto comercial e piloto de linha aérea, são feitas avaliações psicológicas. Quando do ingresso em companhias aéreas esses exames também são realizados. Há uma preocupação quanto à saúde mental dos tripulantes e, para isso, cada empresa tem seus processos de avaliação.</p>
<p>O comandante César Sfoggia complementa que “as Cias. Aéreas do mundo todo são obrigadas a seguir as normas das autoridades aeronáuticas do país de registro/matrícula da aeronave. Exemplificando: Europa &#8211; Agência EASA, Brasil – ANAC, China-CAAC, Inglaterra – CAA, Qatar – QCAA. O Brasil segue as normas da Agência da ONU para a aviação, a ICAO, sede em Montreal”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob outra égide, os diálogos com o comandante César fluíram constantemente intermediados pela aura de Saint-Exupéry e seus extraordinários relatos. Bastou ter mencionado o nome do piloto-escritor para, de imediato, César confessar o pleno conhecimento de seus livros, fato que me levou a entender que a escolha do amigo pela aviação foi motivada pela vocação. Não lhe bastaram os difíceis cursos necessários, havia em sua mente essa centelha voltada ao passado da aeronáutica, suas histórias, seus relatos, sua literatura. As menções no blog anterior aos pilotos que marcaram época apenas comprovaram a destinação precisa que levou César Sfoggia Júnior à brilhante carreira internacional durante as 30.500 horas de voo. Sua trajetória não é apenas a do piloto que se tornaria comandante, mas de alguém que vive nas alturas, cultuando o maravilhamento que a aviação proporciona.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/980.SaintEx-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Antoine de Saint-Exupéry. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/980.SaintEx-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Quando mencionei a obra maior de Saint-Exupéry, “Citadelle”, César e eu trocamos ideias confluentes. Mencionaria uma frase que sintetiza aquilo que o livro contém, redigida por sua irmã, Simone de Saint-Exupéry (1898-1978), que tive o imenso privilégio de conhecer nas tantas tertúlias literomusicais no apartamento do seu primo diplomata, Baron André de Fonscolombe, há mais de sessenta anos, como expressei no post anterior. Responsável pela edição de “Citadelle”, Simone de Saint-Exupéry escreve sobre a obra “densa e profunda que aborda todos os problemas da destinação humana e do condicionamento do homem”.  Toda a maturação do piloto escritor, seu pensar humanista estão concentrados na sua criação maior, apesar “de não ser uma obra acabada. No pensamento do autor ela deveria ser abreviada e remanejada seguindo um plano rigoroso que, no estado atual, dificilmente se reconstitui. Saint-Exupéry frequentemente retomava os mesmos temas, seja para expressá-los com mais precisão, seja para esclarecê-los com uma daquelas imagens de que só ele tinha o segredo”, escreveu sua irmã. Acredito que o conteúdo de “Citadelle,” através dos inúmeros escritos que iriam compô-lo, teria origem mormente após a experiência marcante que o piloto viveu em seus voos solitários ou acompanhado por um copiloto ou mecânico. Nas conversas com o comandante César, que realizou incontáveis voos com aviões pequenos e desprovidos da tecnologia atual, mas igualmente com o poderoso Boeing B747-400F,<strong> </strong>depreende-se que o pensar do piloto também atinge outras dimensões, se assim o quiser. Saint-Exupéry conseguiu alcançar um nível transcendente e a sua herança resultou perene.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao finalizar o post atual, repensei a frase do professor Gildo Magalhães, mencionada acima: “talvez haja mais de um ponto em comum entre atravessar o céu e atravessar um concerto”. Sim, se há alguma possível relação, ela se situa naquilo que o filósofo e musicólogo Vladimir Jankélévitch (1903-1985) conceitua, o inefável, que leva, máxime para o intérprete, às esferas não tangíveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>In the previous post, the airplane commander César Sfoggia Jr. shared some interesting details of his career in commercial aviation in Brazil and abroad. His report has sparked many questions from readers, which he answers in the current post.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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