
<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>José Eduardo MartinsImpressões de Viagens &#187; José Eduardo Martins</title>
	<atom:link href="http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/Categoria/impressoes-de-viagens/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://blog.joseeduardomartins.com</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Sat, 30 May 2026 03:05:03 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=</generator>
		<item>
		<title>&#8220;Viagem à Itália &#8211; Peregrinação Ano Santo 1950”</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2025/02/15/viagem-a-italia-peregrinacao-ano-santo-1950%e2%80%9d/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2025/02/15/viagem-a-italia-peregrinacao-ano-santo-1950%e2%80%9d/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 15 Feb 2025 03:05:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=14882</guid>
		<description><![CDATA[A redescoberta de um longo relato À pergunta para saber se sou feliz, otimista ou pessimista, respondo que, com o meu conhecimento, sou pessimista, mas pela minha vontade e inspiração, sou otimista. Albert Schweitzer (1875-1965) Carolina Ramos (1924-), professora, escritora, trovadora, poetisa, contista, musicista e artista plástica, esteve por duas vezes presente neste espaço através [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A redescoberta de um longo relato</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/950.capa-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/950.capa-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>À pergunta para saber se sou feliz, otimista ou pessimista,<br />
</em><em>respondo que, com o meu conhecimento, sou pessimista,<br />
</em><em>mas pela minha vontade e inspiração, sou otimista.<br />
</em>Albert Schweitzer (1875-1965)</p>
<p style="text-align: justify;">Carolina Ramos (1924-), professora, escritora, trovadora, poetisa, contista, musicista e artista plástica, esteve por duas vezes presente neste espaço através de dois livros: “Canta Sabiá” e “Feliz Natal”. Surpreende novamente ao publicar “Viagem à Itália – Peregrinação Ano Santo 1950” (Santos-Comunicar, 2024).</p>
<p style="text-align: justify;">No acervo acumulado durante a existência, quantos não são os itens que permanecem ocultos durante décadas e que podem ser resgatados, tantas vezes por mero acaso? Foi justamente isso que ocorreu com Carolina Ramos ao reencontrar pormenorizado relato de uma peregrinação que realizou com um grupo no desiderato de vivenciar, como católica praticante, a atmosfera plena do Ano Santo no Vaticano em 1950. Na contracapa há a imagem das folhas amareladas, algumas semidestruídas, devido ao distanciamento de quase três quartos de século! No prólogo Carolina Ramos justifica: “Com grata surpresa, setenta e quatro anos depois, ou seja, no final de 2023, releio páginas perdidas, quase esquecidas e, agora, prazerosamente encontradas”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/950.contracapa-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/950.contracapa2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Ter redescoberto, após tantas décadas, relatos escritos com o fim de documentar visitas a algumas cidades portuguesas e inúmeras cidades e vilas italianas, colocou à luz aquelas folhas, à maneira de um diário, e que, num hipotético futuro, poderiam ser publicadas sob o título “Viagem à Itália”. Centenária, Carolina comenta: “E foi assim que me dispus a arregaçar as mangas, decidindo defender a árdua, mas extremamente agradável tentativa de recompor o que naquelas desordenadas páginas fora esboçado, facultando a mim mesma o prazer de bisar gratas emoções adormecidas ao longo do tempo e sem querer tirar os pés de casa”. A autora revisou aqueles textos sequenciais, tendo a colaboração preciosa de Cida Micossi.</p>
<p style="text-align: justify;">Preliminarmente, “Viagem à Itália” não é uma obra de erudição e nem seria esse o objetivo. Assim não sendo, pois desprovida do “jargão” acadêmico, Carolina Ramos desfila a apreciação, a pormenorizar a transcrição de tudo o que observa e que lhe provoca emoção ou espanto. A peregrinação de cunho religioso, mas a propiciar o olhar da jovem turista atenta à geografia e à arte, possibilita ao presente leitor dessas folhas “esquecidas” no tempo degustar apreciações de temas voltados às ramificações da cultura humanística, seja na arquitetura, ou na estatuária e na pintura, seja na interpretação da natureza durante o itinerário percorrido. Extasia-se. É Carolina que, por vezes, interfere no texto original, a argumentar finalidades: “O que vai descrito foi captado, face a face, por olhos ávidos e comprovado pela emoção que trouxe de volta. Tentar inflar com pesquisas o que está além do que foi visto seria fugir à finalidade destas notas, por tantos anos perdidas e encontradas, quase que miraculosamente, setenta e tantos anos depois, como convém relembrar. Assim, o que aqui vai nada mais é do que a cópia fiel do que foi captado naqueles dias de deliciosa euforia. Muita coisa já foi esquecida e em parte reativada pelas fiéis anotações daquela jovem peregrina que, se muito viu, bem mais gostaria de ter visto naquele longínquo e abençoado Ano Santo de 1950”.</p>
<p style="text-align: justify;">Torna-se evidente que as incontáveis interpretações que Carolina apresenta daquilo que viu e sentiu têm a naturalidade do deslumbramento pessoal. Das inúmeras observações sobre as cidades italianas visitadas, Florença pontifica, máxime suas famosas galerias, a do <em>Pallazzo Pitti</em> e a do <em>Palazzo degli Uffizzi</em>, que são pormenorizadas em suas coleções de telas realizadas por grandes mestres, comentadas não com a verve tão comum do especialista, mas com a emoção de uma moça sensível que se emociona frente à magnificência da obra de arte, algo raro na juventude atual. Nessa apreciação da peregrina encantada pela arte, mencionaria um pequeno segmento sobre a Galeria <em>degli Uffizzi</em>: “A exemplo do que acontecia na Galeria <em>Pitti</em>, repetiram-se as salas repletas de telas preciosas, onde a expressão de um momento perdura através dos séculos, imortalizada pelo pincel de insuperáveis mestres. A presença de Rafael continuava, sensivelmente viva. A cada passo nos deparávamos com frutos da sua fecunda vida artística, tais como <em>S.Giovanni nel Deserto</em> e <em>Madonna del Cordellino</em>, obras dignas de tal talento. Também Tizziano ali estava, graças à admirável ‘Flora’ e dois nus artísticos – <em>Venere del Cagnolino</em> e <em>Venere detta dell’Amorino</em>. Magnífica, a famosa Anunciação – obra de Da Vinci, dispensa maiores comentários – assim como O nascimento de Vênus, <em>Madonna Magnificat</em> e Primavera, de Sandro Boticelli, obras também resguardadas no Palazzo degli Uffizzi, entre outras preciosidades”.</p>
<p style="text-align: justify;">Apreciações pertinentes de uma peregrina turista aos 26 anos, <strong>o</strong> detalhamento de cada obra de arte faz-me lembrar da antítese que presenciei em 1959 em uma das tantas visitas ao Musée du Louvre, quando dos meus estudos pianísticos em Paris. Estava pela primeira e única vez a olhar a célebre Mona Lisa (pintura a óleo sobre madeira, 77cm x 53cm), certamente a obra mais conhecida de Da Vinci, quando ouvi barulho rápido de passos que se agigantava. Eram turistas japoneses. Àquela época ainda era possível o flash. Diante da pintura, dispararam incontáveis flashes e, imediatamente após, deram meia volta e desapareceram. As criações extraordinárias ao longo do extenso corredor sequer tiveram um mísero olhar. Não é essa a mentalidade da grande maioria dos turistas de todos os rincões?</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/950.Basílica-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Basílica de São Pedro - Vaticano. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/950.Basílica-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">“Viagem à Itália no Ano Santo de 1950” é livro a ser degustado por inteiro. A finalidade essencial, o jubileu do Ano Santo e as comemorações no Vaticano, Carolina Ramos, jovem de fé intensa, degusta cada instante e descreve o impacto vivido: “Afinal, chegamos à Basílica, ansiosos e transpirando por todos os poros. Dali para frente, entretanto, acabaram-se as torturas físicas. Não que deixassem de existir, mas porque foram esquecidas, ignoradas, sobrepujadas por um interesse maior, absolutamente monopolizador e que não dava margem a dispersões. Acomodados num alto patamar, tínhamos ampla visão do templo, embora situados por detrás do palanque papal&#8230; Lá embaixo, derramada pelas diversas naves, fervilhava multidão incalculável de fiéis de todas as raças, vindos de todos os lados, numa emocionante comunhão de preces e anseios”.</p>
<p style="text-align: justify;">Se um ou outro parágrafo traz algo depreciativo, isso não se dá com o que Carolina Ramos estava a viver através do olhar ávido da descoberta. Salta, o “ex-transporte de tropas americano que levou o grupo à Europa, ora adaptado à marinha mercante argentina”, teve inúmeros problemas mais ou menos graves durante quase todo o trajeto. Em terra, mínimos dissabores que serviram de lição para o grupo, particularmente para a “escriba”. Quanto à experiência como um todo captada no delicioso “diário”, maravilhamento para Carolina e agradabilíssimos momentos para o leitor ao “participar” daquela excursão tão marcante.</p>
<p><em>Carolina Ramos (1924-), a writer and poet, has once again given us an extensive account, recently rediscovered, of a pilgrimage to the Vatican on the occasion of the Holy Year of 1950.</em><em>. </em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2025/02/15/viagem-a-italia-peregrinacao-ano-santo-1950%e2%80%9d/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Das visitas à Europa ao day after (IV)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/07/01/das-visitas-a-europa-ao-day-after/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/07/01/das-visitas-a-europa-ao-day-after/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 01 Jul 2023 03:05:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=13378</guid>
		<description><![CDATA[A passagem natural direcionada à renovação Qual é esta sensação nova? Que nasce em nós? Que misteriosamente Em nós desperta? Alexander Scriabine (1872-1915) (“L’Acte Préalable”) Foram muitas as mensagens salientando com ênfase e simpatia a minha continuação na atividade pianística em solo europeu, continente dezenas de vezes visitado para recitais e outras vertentes musicais. Agradeço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A passagem natural direcionada à renovação</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/285.Fê-big.jpg" target="_blank"><img title="Gaivota sobre o rio Douro. Foto Maria Fernanda Martins. 2008. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/285.Fê-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Qual é esta sensação nova?<br />
</em><em>Que nasce em nós?<br />
</em><em>Que misteriosamente<br />
</em><em>Em nós desperta?<br />
</em>Alexander Scriabine (1872-1915)<br />
(“L’Acte Préalable”)</p>
<p style="text-align: justify;">Foram muitas as mensagens salientando com ênfase e simpatia a minha continuação na atividade pianística em solo europeu, continente dezenas de vezes visitado para recitais e outras vertentes musicais. Agradeço a todos pelos gestos de solidariedade. Não obstante, esse término europeu foi longamente gestado durante a pandemia. Estou a me lembrar de ter lido em sites e periódicos que muitos artistas de teatro já idosos encerraram naquele triste período as suas atuações frente ao público. Várias vezes neste espaço teci comentários sobre a dádiva da ação artística, pois, diferentemente dos esportes que sinalizam já na terceira ou quarta década o caminho final, nós que trabalhamos com a arte não temos cronologia determinada. Há variações, mas prioritariamente depois de se adentrar largamente a terceira idade.</p>
<p style="text-align: justify;">A preponderar sobre todas as possibilidades, vem o sentimento de gratidão a todos os amigos, mormente em Portugal, Bélgica e França, que jamais deixaram de me apoiar em projetos por vezes não desbravados. Interpretar o extraordinário repertório do passado, verdadeiro culto ao sagrado, é venturoso, mas pode dar ao intérprete a sensação da perene reprise. Tantos não têm consciência dessa situação, pois, ao adentrarem o circuito de concertos com exigências específicas, obliteram reflexões. A grande pianista Marta Argerich, que forjou sua carreira no repertório tradicional, teceria comentário fulcral a respeito da atividade de concertista consagrada: “O prazer é raro. No palco, encontramo-nos diferentemente do que em casa, não realizamos os mesmos gestos com as mãos frias, os joelhos tremem, a coriza se instala. A interpretação se modifica. Após, o peso dos olhares sobre você&#8230; O efeito do ouvinte sobre você&#8230; e que julga. Não suporto ser prisioneira de uma programação, eu que hesito&#8230; Hoje, quando a admiram, fixam a sua agenda para daqui a três anos. De pensar, tenho pesadelos” (1997, apud, Jean-François Arcier, &#8216;Le Trac – stratégies pour le maîtriser&#8217;, 2004). Sviatoslav Richter, na sua monumentalidade interpretativa, não chegaria no final da existência a dizer que, num balanço geral, não estava feliz com o todo da carreira? Guardando as devidas proporções desses mestres, apesar do prazer em tocar obras pertencentes ao grande repertório que estudei com afeto, foi principalmente nas redescobertas de tesouros ocultos, no estudo do repertório pouco frequentado e nas interpretações de segmento da música contemporânea que eu mais me identifiquei. De Johan Kuhnau (1660-1722) a François Servenière (1961-), Eurico Carrapatoso (1962-) e Maury Buchala (1967-), os três últimos entre os mais recentes, encontrei o caminho a ser percorrido, fosse ele pouco trilhado ou inédito. Logicamente houve o tributo a saldar, pois jamais tive empresário, essencialmente por motivos repertoriais. A agenda se tornou forçosamente escassa, fator que me possibilitou a liberdade de desvendar um universo de criações quase jamais visitadas ou brotadas nestas últimas décadas de mentes privilegiadas. Estou a me lembrar do notável compositor e ensaísta cubano-norte americano Aurelio de la Vega (1925-2022) que me honrou com bela composição “Homenaje” (1987), por ocasião do centenário de Villa-Lobos. Gravei-a em Sófia na Bulgária para o CD “Music of Tribute”, juntamente com obras do nosso grande compositor e de outros que prestaram homenagem a ele. Foi lançado pelo selo Labor nos Estados Unidos. Posteriormente, Aurelio enviou-me várias mensagens, sempre que “Homenaje” era interpretada pelo planeta por vários pianistas. Nos programas vinha a menção do meu nome como dedicatário. Escrevi-lhe para agradecer e lhe indagar o porquê da permanente menção nessa obra realmente singular. Respondeu-me que jamais a teria escrito se não tivesse sido provocado. Ao longo das décadas provoquei, chegando às minhas mãos cerca de 150 músicas, a maioria apresentada em público, compostas por muitos compositores relevantes do mundo. Como dizia sempre meu padrinho de crisma, que oficiou em 1963 meu casamento com Regina: sentir o “santo orgulho”.</p>
<p style="text-align: justify;">O ato voluntário de não mais retornar à Europa e já salientado neste espaço não poucas vezes poderá trazer saudosismo, mas não sentimento de tristeza. O momento chegou, como também chegaria em 2019 ao gravar meu último CD na Bélgica.</p>
<p style="text-align: justify;">O cotidiano se apresenta mais difícil para o idoso. Uma funcionária de uma Companhia aérea, ao passar por mim nessa derradeira viagem ao Exterior, apesar de me sentir bem, perguntou se eu necessitava de uma cadeira de rodas. Declinei a sorrir. A impressão que me ficou dos aeroportos atuais é a mesma que senti ao ver em Barretos, uns bons quarenta anos atrás, após recital e visita a um frigorífico não mais existente que patrocinou o evento, o gado subindo uma ladeira e sendo empurrado. Superlotados, aqui e alhures, os aeroportos internacionais europeus, contudo, são fonte para a observação das raças, vestuários e costumes de viajantes de todas as procedências. Esse, acredito, é possivelmente o único prazer que proporciona ao observador nato. O dom da observação foi levado ao extremo da excelência através do olhar agudo de Dostoiewsky ou de Debussy, aquele atento às reações humanas, este extasiado frente às oscilações da natureza, do vento tenebroso ao oscilar das folhas que fenecem.</p>
<p style="text-align: justify;">Gand, na Bélgica flamenga, Paris e inúmeras cidades portuguesas estarão indelevelmente presentes através da memória, mormente quatro: Lisboa; Coimbra, berço de Carlos Seixas (1704-1742); Tomar que viu nascer Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e Évora. Nesses três países vivi os melhores momentos de minha vida musical, tendo o privilégio de manter amizades perenes. Se os aprofundamentos, alicerces para os resultados, deram-se em São Paulo, mercê de essencialidades, formação com o nome maior do ensino voltado ao piano no Brasil, o russo José Kliass (1895-1970), e bem posteriormente estudos pianísticos e teóricos em Paris, foi principalmente na Bélgica, que tive o privilégio de realizar cerca de duas dezenas de recitais solo e camerísticos, assim como gravações divulgadas em CDs. Profético, meu dileto amigo-irmão gantois, André Posman, Diretor do selo belga De Rode Pomp,  já dizia em 1998: “é necessário deixar a sua herança musical”. Dos 25 CDs gravados no Exterior, a maioria se deu na mágica capela Saint-Hilarius (século XI), não distante de Gand, com  o magistral Johan Kennivé como engenheiro de som. Pouco mais de 100 peças estão presentemente no Youtube.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/722.STHilarius-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Capela Saint-Hilarius em Mullem. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/722.STHilarius-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Vários leitores me perguntaram qual a sala que mais me causou impacto no longo caminho. Respondi-lhe que foi a Biblioteca Joanina em Coimbra, uma preciosidade do século XVIII, situada no Paço das Escolas da Universidade de Coimbra. Ao longo dos anos, inúmeras vezes, tive o privilégio de apresentar recitais naquele espaço único.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/807.Joanina2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Biblioteca Joanina, Coimbra. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/807.Joanina2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p>Clique para ouvir, de Carlo Seixas, Sonata nº 68 in A minor, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=xMfY0S0pBH8">(315) Carlos Seixas &#8211; Sonata nº 68 in A minor &#8211; José Eduardo Martins &#8211; piano &#8211; YouTube</a></p>
<p style="text-align: justify;">Como assinalado em blogs anteriores, encerro definitivamente a atividade pianística pública em Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto (24/08/2023), um dos espaços que elegi ao longo das décadas, mormente pela presença do meu  saudoso e diletíssimo amigo, o imenso compositor Gilberto Mendes (1922-2016), sempre presente com sua esposa Eliane aos meus recitais na bela cidade praiana. A pedido do meu estimado amigo santista Flávio Amoreira, escritor, poeta e crítico literário do maior quilate, devo inserir não apenas obras de Gilberto Mendes, mas igualmente criações de outro santista, o também saudoso Almeida Prado (1943-2012), que estaria a completar neste ano o seu 80º aniversário. Debussy e Liszt completarão o programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ainda tantas obras que gostaria de apresentar. O repertório pianístico é oceânico e quantidade imensa de composições do passado estão ainda submersas! Haverá tempo de estudar algumas e apresentá-las na intimidade para as poucas amizades que me enriquecem o cotidiano. O blog seguirá seu curso e dois livros começam a ferver em minha mente. Quiçá os escreva, se o Tempo me for concedido.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Some reflections on the end of my performances in Europe, in Belgium and Portugal. I will continue to play in private, just for my family and a closed circle for friends.</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/07/01/das-visitas-a-europa-ao-day-after/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Palestras em Évora e Coimbra</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/06/24/palestras-em-evora-e-coimbra/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/06/24/palestras-em-evora-e-coimbra/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 24 Jun 2023 03:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=13346</guid>
		<description><![CDATA[Encerra-se a breve e derradeira turnê O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência, mas somente a falta de curiosidade. Agostinho da Silva (”Pensamento em Farmácia da Província”) Após os recitais em Gand e Lisboa, que marcaram o encerramento da minha atividade pianística na Europa, dei duas palestras, em Évora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Encerra-se a breve e derradeira turnê</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/864.LivroIUC-big.jpg" target="_blank"><img title="Apresentação do livro na sala nobre da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. J.E.M., Professor João Gouveia Monteiro e Professora Carlota Simões.  " src="http://www.joseeduardomartins.com/864.LivroIUC-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>O que impede de saber não são</em><br />
<em> nem o tempo nem a inteligência,</em><br />
<em> mas somente a falta de curiosidade.</em><br />
Agostinho da Silva<br />
(”Pensamento em Farmácia da Província”)</p>
<p style="text-align: justify;">Após os recitais em Gand e Lisboa, que marcaram o encerramento da minha atividade pianística na Europa, dei duas palestras, em Évora e Coimbra.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/864.cartaz-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/864.cartaz-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Desde o início do século apresento-me no Eborae Musica, prestigiada Escola de Música de Évora, sempre tão bem conduzida pela Professora Helena Zuber. Convidou-me para uma palestra com exemplos musicais para um público preferencialmente constituído por jovens estudantes de música do estabelecimento. Sempre que estive em Évora, os recitais se deram no Convento dos Remédios, na bela Igreja Nª Senhora dos Remédios, joia da arte barroca, hoje não mais destinada ao culto religioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar de um enigmático conceito do jornalista e historiador Joaquim Palminha Silva (1945-2015), que tive o prazer de conhecer na bela cidade, exposto em seu instigante livro “Évora cidade esotérica e misteriosa” (Europress, 2005): “&#8230;a cidade de Évora hipnotiza ainda hoje de forma intensa todos e cada um, graças à existência duma velada força magnética, espiritual, praticamente indecifrável”.</p>
<p style="text-align: justify;">O propósito da palestra era claro, transmitir à juventude princípios que norteiam uma existência voltada à Música. Fi-lo, a compreender as intenções da Profª Helena Zuber. Enumerei alguns pontos que acredito basilares: disciplina; concentração; compromisso efetivo; dedicação; respeito às intenções dos ilustres compositores; desviar-se das concessões que deturpam desideratos precisos; distanciar-se dos holofotes, tantas vezes o canto das sereias; ater-se a dois fundamentos fulcrais, amor à Música e ser curioso. Creio que uma frase do grande músico francês Pierre Boulez (1922-2016) traduz o alcance conceitual do músico: “É necessário ter, diante da obra que escutamos, interpretamos e compomos, um respeito profundo como diante da existência, como uma questão de vida ou de morte”. Ao longo das décadas, mais e mais me convenço de que a Música requer determinados sacrifícios, diferentes certamente de tantas outras atividades. O intérprete, no caso, não pode prescindir do estudo do instrumento escolhido, num labor diário que o faz crescer. Esse “sacrifício” não se concretiza como tal não fosse o amor pela Música. A cada conquista do instrumentista há um prazer indizível, próprio dessa mágica dedicação.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/864.Palestra-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Évora. Igreja Nª Senhora dos Remédios. 31/05/2023. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/864.Palestra-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Após a palestra interpretei algumas peças de compositores portugueses e também uma transcrição extraordinária, o “Prelúdio e Fuga em lá menor” de Bach-Liszt que, gravado pelo técnico Gavela, da equipe do Eborae Musica, brevemente estará no Youtube. Vários alunos vieram ter comigo após o evento, a fim de questionar-me sobre temas voltados à nossa área de atuação.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/864-I.JFN.JE-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Idalete Giga, João Francisco Nascimento e J.E.M. Eborae Musica. 31,05,2023. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/864.I.JFN.JE-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Esteve presente no Eborae Musica o compositor e professor João Francisco Nascimento. Uma alegria. Dele interpretei, já no longínquo 2012, um instigante e precioso Estudo que muito me agrada: “Fúria, Volutas e Saraivadas”. Seu colega, o ilustre Eurico Carrapatoso, recomendou-me essa peça, que tive imenso prazer em interpretar.</p>
<p>Clique para ouvir, de João Francisco Nascimento, Estudo “Fúria, Volutas e Saraivadas”, gravado na Igreja Nª Senhora dos Remédios, em Évora, na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=AWyITgFlKZI">https://www.youtube.com/watch?v=AWyITgFlKZI</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Como nas tantas outras oportunidades, fomos conduzidos até Évora pela dileta amiga, gregorianista impecável e regente coral, Professora Idalete Giga.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Coimbra. Estou a me recordar das viagens que fiz de comboio nas décadas de 1980-1990, a sair de Lisboa para o Norte de Portugal a fim de recitais programados. Habitualmente há rápida parada em Coimbra, antecedida pelo lento deslizar do comboio ao atravessar o rio Mondego, momentos para o vislumbre da torre da Universidade fundada em 1290. Foi em 2004 o convite do Professor Catedrático João Gouveia Monteiro, notável medievalista, e do saudoso Professor Doutor José Maria Pedrosa Cardoso, musicólogo ilustre, para recital de piano e palestra no Colóquio “Carlos Seixas de Coimbra”, a festejar o tricentenário de nascimento do grande músico conimbricense. Apresentei-me num recital inteiramente dedicado ao compositor na magnífica Biblioteca Joanina. Ao longo dos anos, cerca de uma dezena de vezes lá me exibi com repertórios vários, mas sempre a inserir no programa criações de Seixas e de outros autores portugueses. Certamente o mais belo cenário que vivenciei durante a minha atuação como pianista.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Carlos Seixas, Sonata nº 50, na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=uIUhQc_giNs">https://www.youtube.com/watch?v=uIUhQc_giNs</a></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/849.Impressões-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/849.Impressões-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O convite do Professor Gouveia Monteiro para a apresentação do meu segundo livro publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra resultou na palestra de apresentação que proferi na belíssima sala nobre da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, não sem antes as intervenções da atual Diretora da BGUC, Professora Carlota Simões, e do Prof. Gouveia Monteiro, que fez a leitura de substancioso texto de sua lavra, a historiar a importância da Música dos tempos de Confúcio (m. 479 a. C) à Grécia Antiga, Roma, Idade Média, levando-nos até a contemporaneidade.  Guardarei no coração as palavras do Profº Gouveia Monteiro ao se referir a este músico. Na minha fala, salientei o meu apreço incondicional à Cultura Portuguesa. O segundo livro, ora publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, IUC, &#8220;Impressões sobre a Música Portuguesa&#8221; e outros temas (II), apresenta 63 textos extraídos do meu blog, a grande maioria direcionada à Música Portuguesa, mas a abarcar olhares lançados a outras áreas da Cultura  de Portugal: literatura, poesia, aventura e personalidades.</p>
<p style="text-align: justify;">Docentes relevantes da Universidade estiveram presentes. Entre eles: “Prof. Alexandre Dias Pereira, ex-Diretor da Imprensa da Universidade de Coimbra, a sua Diretora-Adjunta, Dra. Maria João Paez, e integrantes da IUC, entre os quais a Dra. Maria de Lurdes Leston. Presente também à sessão, o Prof. Manuel Portela, atual Diretor das Bibliotecas da Universidade e que fez a primeira saudação no evento. Após a palestra, a convite do Prof. Gouveia Monteiro e da esposa Leonor, minha filha Maria Beatriz e eu vivemos momentos inefáveis na morada do casal.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/864-JoãoNonô-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="J.E., Leonor e João Gouveia Monteiro. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/864.JoãoNonô-small.jpg" alt="" /></a><br />
De regresso a Lisboa, convidado pelo competente escritor e jornalista Joaquim Vieira, assisti em sua morada ao documentário que brevemente será lançado sobre o grande compositor Fernando Lopes-Graça. Joaquim Vieira colheu material precioso através de entrevistas com músicos relevantes que cultuam a obra do mestre nascido em Tomar. Honra-me ter participado do documentário com breves comentários.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/864.voo-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Derradeiro olhar sobre Lisboa nesse ciclo que ora finda. Foto de Maria Beatriz. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/864.voo-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Ao alçar voo em direção ao Brasil, Maria Beatriz tirou bela foto. Encerra-se o ciclo que me levou mais de cinquenta vezes a Portugal. Há décadas me manifesto a dizer que jamais diferenciei meu afeto entre os dois países. Se a influência paterna foi decisiva desde a infância, a consolidação se deu através do convívio privilegiado que mantive em terras lusíadas com figuras que permanecerão no meu <em>de profundis</em>. Tenho certa idiossincrasia pela inteligência artificial, mercê de avanços que se processam com velocidade a não dar tempo para a assimilação, mormente nos meus 85 anos. Contudo, o WhatsApp permite a perenização dos afetos através dos contatos imediatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Haverá mais um recital, que se dará em Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto no dia 24 de Agosto. Escolhi a cidade praiana para a derradeira apresentação pública. A fidelidade de uma amizade em torno da música é a responsável. O insigne compositor da segunda metade do século XX, saudoso amigo Gilberto Mendes (1922-2016), nasceu em Santos e foram várias as apresentações no Museu, sempre com a presença de Gilberto Mendes e a esposa Eliane.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>My musical activity in Europe comes to an end. Lectures were given in Évora and Coimbra, the city that launched my second book, “Impressões sobre a Música Portuguesa e outros temas” (Impressions on Portuguese Music and other subjects). I will continue to play, but privately for a small circle of friends. Research will continue and two books are in mind. The 70 years of public performances, usually in small rooms (my preference), with a repertoire that preferably includes rediscovered or contemporary works of value, have been a gift in my already long existence.</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/06/24/palestras-em-evora-e-coimbra/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Recital em Lisboa e os extremos do Tempo (II)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/06/17/recital-em-lisboa-e-os-extremos-do-tempo-ii/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/06/17/recital-em-lisboa-e-os-extremos-do-tempo-ii/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 17 Jun 2023 03:05:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=13319</guid>
		<description><![CDATA[1959-2023: os limites da atuação pianística no Exterior Pouco a pouco recuperei a memória. Talvez a ela tenha retornado, encontrando a lembrança que estava à minha espera. Albert Camus (1913-1960) Aos 14 de Julho de 1959 realizava o primeiro recital na Europa, a convite do insigne compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994). A récita se deu na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>1959-2023: os limites da atuação pianística no Exterior<br />
</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/863.MNMJE-big.jpg" target="_blank"><img title="Recital no Museu Nacional da Música. 30/05/2023. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/863.MNMJE-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Pouco a pouco recuperei a memória.<br />
Talvez a ela tenha retornado,<br />
encontrando a lembrança que estava à minha espera.</em><br />
Albert Camus (1913-1960)</p>
<p style="text-align: justify;">Aos 14 de Julho de 1959 realizava o primeiro recital na Europa, a convite do insigne compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994). A récita se deu na Academia dos Amadores de Música em Lisboa. Por lá passaram músicos notáveis e alguns dos ilustres escritores e poetas portugueses. Entre os presentes ao recital, Dr. João Couto (1892-1968), Diretor do Museu de Arte Antiga (Janelas Verdes), o grande pianista Sequeira Costa (1929-2019) e sua futura esposa, a também ótima pianista Tânia Achot (1937-2022), o escritor e crítico musical João de Freitas Branco (1922-1989), que escreveria em “O Século” impressões a respeito da apresentação. Ficaria indelével no meu <em>de profundis </em>aquela noite significativa para o jovem intérprete.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/863.-AAM2.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Convite da Academia de amadores de Música para o recital aos 14/07/1959. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/863.AAM2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Meu último recital na Europa só poderia ser em Lisboa, desta vez no Museu Nacional da Música, dirigido por Edward Ayres de Abreu, músico respeitado e incentivador das qualitativas publicações de partituras e textos sobre músicos portugueses.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/863.Guerra-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Entrevistado pelo renomado jornalista Paulo Guerra para o programa Antena2 da RDP. 29/05/2023. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/863.Guerra-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>No dia anterior ao recital, que se daria em 30 de Maio, dei entrevista para o consagrado programa Antena 2 da RDP, tão bem conduzido por Paulo Guerra. No longo diálogo, perguntas argutas do competente jornalista me fizeram recordar as mais de 50 visitas a Portugal para recitais, palestras e alguns júris acadêmicos. Antena 2 tem um grande alcance e, sempre após outras tantas entrevistas com Guerra ao longo dos anos, ao me apresentar em diversas cidades havia melómanos que tinham ouvido os diálogos a versar sobre música e outros temas.<br />
No dia do recital no Museu da Música Portuguesa caminhava com minha filha Maria Beatriz, que tão bem me acompanhou, e a memória esteve a apontar as tantas amizades que já partiram. Incentivo a mais para a derradeira apresentação. Como não lembrar da imensa gregorianista Júlia d’Almendra (1904-1992), especialista igualmente em Claude Debussy? Mais de uma década de convívio em torno do compositor francês, sem contar com o fato de que, nas minhas visitas a Portugal, acolhia-me em sua morada, 25, Rua d’Alegria, 1º andar. Paulatinamente apresentei a integral de Debussy, tanto no Instituto Gregoriano de Lisboa dirigido pela mestra, como na Biblioteca Nacional. Estou a me recordar de Humberto de Ávila (1922-2006), renomado crítico e musicólogo do Diário de Notícias naqueles anos e que me privilegiou com vários comentários sobre as apresentações em Lisboa no conceituado jornal; Jorge Peixinho (1940-1994), compositor notável, amigo-irmão do nosso ilustre Gilberto Mendes (1922-2016) e meu dileto amigo também. Foi uma alegria interpretar em primeira audição duas de suas criações, sendo que o magnífico <em>Etude V – Dei Reihe Courante</em> me foi dedicado. O regente e musicólogo Manuel Ivo Cruz (1935-2010), com o qual mantive contatos expressivos sempre que em Lisboa. Sob sua batuta, toquei o Concerto nº 3 de Beethoven, sendo que em outra ocasião foi a vez de minha mulher, Regina Normanha Martins, com o Concerto de Carlos Seixas. José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), musicólogo notável, amigo-irmão. Tivemos vários projetos que resultaram. E na morada do casal José Maria-Manuela hospedei-me inúmeras vezes, só ou com Regina. Tantos mais músicos ou amantes da cultura povoaram minhas visitas constantes a Portugal. Se menciono alguns que já partiram, tenho a alegria do convívio com tantos outros que enriquecem o meu pensar. Desfilam na memória figuras a fazer lembrar o dizer de Albert Camus, pois “estavam à minha espera”.</p>
<p>Clique para ouvir, de Jorge Peixinho, <em>Etude V &#8211; Dei Reihe-Courante</em> na interpretação e J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.google.com/search?q=Youtube+Jorge+Peixinho+Etude+Dei-Reihe+Courante+Martins+piano&amp;oq=Youtube+Jorge+Peixinho+Etude+Dei-Reihe+Courante+Martins+piano&amp;aqs=chrome..69i57.28671j0j7&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8">https://www.google.com/search?q=Youtube+Jorge+Peixinho+Etude+Dei-Reihe+Courante+Martins+piano&amp;oq=Youtube+Jorge+Peixinho+Etude+Dei-Reihe+Courante+Martins+piano&amp;aqs=chrome..69i57.28671j0j7&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8</a></p>
<p><span style="text-align: justify;">Público atento esteve presente no Museu Nacional da Música, espaço cercado por inúmeros instrumentos antigos, inclusive um piano doado por Franz Liszt (1811-1886) quando de sua passagem para apresentações em Lisboa (1845). O MNM carrega uma aura que propicia ao intérprete uma interação outra.</span></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/863.MNM3-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Museu Nacional da Música. Público do recital 30/05/2023. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/863.MNM3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O repertório escolhido para o derradeiro recital em Lisboa teve, em parte, um expresso saudosismo, como se o intérprete estivesse a homenagear não apenas o insigne Fernando Lopes-Graça, mas a agradecer a guarida que sempre teve ao longo dos anos e as amizades profundas advindas de um convívio permanente com músicos ou amantes das sonoridades.</p>
<p style="text-align: justify;">Como acontecera em Gand, na Bélgica, ao finalizar o último recital na Europa em Lisboa senti emoção forte, lembranças afloraram da apresentação no auditório da Academia de Amadores em Julho de 1959 e pareceu-me que o ciclo se completava definitivamente, nele a conter toda uma verdadeira devoção pela música produzida em Portugal desde, no caso, Carlos Seixas (1704-1742) ao notável Eurico Carrapatoso (1962-), diletíssimo amigo. Foi o repertório desses três séculos que busquei, quando imergi em composições excelsas portuguesas, transmitir em recitais e gravações. Essas criações fizeram parte considerável do meu repertório.</p>
<p>As duas Sonatas de Carlos Seixas, em lá menor (71) e em Dó Maior (8), integraram o programa, juntamente com duas breves composições de Lopes-Graça, Dança Antiga das Bagatelas e Alcobaça dançando um velho fandango, da coletânea “Viagens na Minha Terra”. Sobre estas duas, retive durante muitas décadas os manuscritos autógrafos de Lopes-Graça. Ao chegar em Lisboa em Julho de 1959, disse ao notável compositor que gostaria de incluir no programa duas de suas peças. No dia seguinte presenteou-me com os manuscritos originais acima mencionados. Não faz oito anos doei-os à Casa Verdades de Faria em Cascais, onde se encontra o espólio de Lopes-Graça.</p>
<p style="text-align: justify;">No programa inseri outras criações que me ligavam mais precisamente à Lisboa. Em 1983, tricentenário de nascimento de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), apresentei a integral para cravo interpretada ao piano em dois recitais no Teatro São Luís. No presente, inseri a magnífica Suíte em Lá Maior. Criações de Francisco de Lacerda (1869-1934), Eurico Carrapatoso, Gilberto Mendes (1922-2016) e Francisco Mignone (1897-1986) completaram o programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Emoção maior espera-me após o recital. Convidados para o jantar, ao adentrarmos no restaurante Rústico-Luz, na sala maior para eventos do estabelecimento, um jantar promovido por amigos músicos portugueses, capitaneado pela ilustre regente coral e gregorianista sucessora de Júlia d’Almendra, Idalete Giga, reuniu cerca de trinta amantes da música. Resistir, quem há-de? Em dado momento, a intérprete de guitarra portuguesa Marta Pereira da Costa  encantou os participantes com belas composições solo. Para finalizar, um bolo comemorativo de meus 70 anos de atividade pianística, 64 a tocar em Portugal, ratificou meu apreço incondicional à cultura portuguesa, às amizades fiéis e às terras lusitanas.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/863.Bolo-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Sensível homenagem que recebi de músicos portugueses. Iniciativa da ilustre gregorianista e dileta amiga, Idalete Giga e do notável compositor Eurico Carrapatoso. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/863.Bolo-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Ao longo dos blogs tenho salientado que meu afeto incondicional à música portuguesa instalado desde a juventude, a Carlos Seixas, a Lopes-Graça&#8230; apenas foi ratificado com os anos a passar. O leque se abriu. Findar os recitais europeus em Lisboa tem para este intérprete simbologia. Convenço-me de que Bélgica e Portugal, entre outros países que me são caros, como a França, são aqueles em que as raízes chegaram mais ao fundo. No caso de Portugal há os laços sanguíneos, mas a compor o amálgama existe o efeito humano, propiciado pelos elos de amizade que as décadas fortaleceram, e o musical, graças à qualidade de alguns notáveis compositores.</p>
<p>No próximo blog escreverei sobre as impressões da palestra com exemplos musicais na cidade de Évora, inúmeras vezes visitada para recitais, e a palestra durante o lançamento de meu segundo livro pela renomada Universidade de Coimbra, que teve, no evento, a comovente introdução do professor catedrático de História Medieval da Instituição, João Gouveia Monteiro.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The last recital in Europe was in Lisbon, the city where I first performed in Europe in 1959. The cycle comes to an end,  after 64 years of crossing the Atlantic for performances.</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/06/17/recital-em-lisboa-e-os-extremos-do-tempo-ii/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>&#8220;Impressões sobre a Música Portuguesa e outros temas&#8221; (II)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/03/11/impressoes-sobre-a-musica-portuguesa-e-outros-temas-ii/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/03/11/impressoes-sobre-a-musica-portuguesa-e-outros-temas-ii/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 11 Mar 2023 03:05:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=13066</guid>
		<description><![CDATA[Alguns aspectos da magnificente Cultura de Portugal Far-se-á alguma vez a sincronização, verificar-se-á algum dia a unidade de propósitos, a harmonia de forças entre a música portuguesa e a cultura portuguesa, encaradas uma e outra do ponto de vista do processo nacional? O futuro o dirá, mas não era mau que todos nós fôssemos preparando, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Alguns aspectos da magnificente Cultura de Portugal</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/849.Impressões-big.jpg" target="_blank"><img title="Impressões sobre a Música Portuguesa e outros temas (II) de J.E.M. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/849.Impressões-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Far-se-á alguma vez a sincronização,<br />
</em><em>verificar-se-á algum dia a unidade de propósitos,<br />
</em><span style="font-style: italic;">a harmonia de forças entre a música portuguesa e a cultura portuguesa,<br />
</span><span style="font-style: italic;">encaradas uma e outra do ponto de vista do processo nacional?<br />
</span><span style="font-style: italic;">O futuro o dirá, mas não era mau que todos nós fôssemos preparando,<br />
</span><span style="font-style: italic;">na medida das nossas forças, para o conseguir.<br />
</span>Fernando Lopes-Graça<br />
(“A Música Portuguesa e os seus problemas”, 1959)</p>
<p style="text-align: justify;">Nesses dezesseis anos de blogs ininterruptos publicados sempre aos sábados, um número considerável foi dedicado à Cultura de Portugal, mormente a Música. Quantos às gravações, considerando-se obras de compositores do Brasil e de Portugal, cerca de doze CDs foram dedicados às criações dos dois países, equilibradamente. Foram as dezenas de viagens a Portugal para recitais, mas igualmente para outras atividades voltadas à Música, que me levaram à ratificação do encantamento pela Cultura do país. Considero que foi fundamental o culto aos valores literários portugueses que meu saudoso Pai transmitiu aos quatro filhos. Líamos mais os autores de Portugal, de Camões aos da primeira metade do século XX, do que escritores e poetas brasileiros.</p>
<p>Transcorriam os blogs hebdomadários e, a certa altura, verifiquei que o retorno periódico à Cultura portuguesa se fazia de maneira espontânea.</p>
<p style="text-align: justify;">A reunião de textos resultou na publicação, pela Imprensa da Universidade de Coimbra, do primeiro volume de “Impressões sobre a Música Portuguesa” (2011), prefaciado pelo ilustre musicólogo e autor português Mário Vieira de Carvalho, livro este que teria a edição brasileira lançada pela Editora da Universidade de São Paulo em 2014.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/849.Impressões2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Impressões sobre a Música Portuguesa de J.E.M. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/849.Impressões2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Daqueles anos até bem recentemente, outros 63 blogs foram dedicados à Cultura de Portugal, salientando-se sempre prioritariamente a Música, mas não negligenciando outras áreas do conhecimento. Na breve turnê que realizei em solo português no ano passado, após o décimo recital, desde um primeiro em 2004 na magnífica Biblioteca Joanina em Coimbra, apresentei à Direção da Imprensa da Universidade de Coimbra proposta que reunia aqueles posts publicados sobre música, mas também com inserções temáticas outras, como literatura em prosa e verso, história, aventura, esta última salientando o excepcional alpinista João Garcia. Foi motivo de grande alegria o comunicado de que o Conselho Editorial da IUC aprovara a publicação, que viria a ser realidade no fim de 2022. Tive sempre o incentivo do relevante João Gouveia Monteiro, um dos mais importantes medievalistas da Europa e professor da Instituição fundada em 1290. A leitura de três de seus livros basilares apenas ratifica minha admiração pelo seu perfil de grande pesquisador.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina1-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Professor João Gouveia Monteiro e J.E.M. antes do recital na Biblioteca Joanina, 08-06-2022. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Ponderei em vários blogs que haveria a necessidade imperiosa de a Música Portuguesa ser muitíssimo mais divulgada. Poderia parecer repetição, pois insisto em vários posts nesse quesito essencial. Se alguns intérpretes de valor de Portugal buscam expandir a aceitação da criação portuguesa, haveria que existir a participação do Estado nessa propagação das composições do país, no sentido de que elas merecessem ser visitadas e tocadas por músicos de outros centros mundiais. Trata-se de um árduo trabalho de divulgação que teria de estar amparado por especialistas da área, não necessariamente músicos, mas ao menos com visão cultural ampla. É certo que a cultura erudita tem sofrido erosão, mercê do avanço avassalador de outras voltadas ao supérfluo, ao efêmero e que, renovadas não qualitativamente, seduzem multidões. Essa derrocada não vem isolada, pois contamina tradições, costumes e até moralidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A respeito da Música, estudiosos se debruçam sobre sua importância na sociedade portuguesa. Os musicólogos José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), a quem dediquei <em>in memoriam</em> o livro ora publicado, e Mário Vieira de Carvalho são alguns exemplos meritórios de pesquisadores que entendem na essência essencial a relevância da criação musical portuguesa. Alguns de seus livros são mencionados no presente “Impressões sobre a Música Portuguesa” (II).</p>
<p style="text-align: justify;">No livro em pauta, blogs foram particularmente dedicados a compositores que me são caros e que integram meu repertório pianístico habitual. Fernando Lopes-Graça (1906-1994) destaca-se<strong> </strong>entre os mais importantes compositores do século XX, infelizmente ainda não divulgado à altura nos países europeus e nas Américas, apesar do seu incomensurável valor. Em Simpósio de que participei, promovido pela Associação Lopes-Graça em Moira, observei que, se em um concerto hipotético com auditório pleno em Portugal alguém perguntar aos presentes se conhecem nosso músico maior, Heitor Villa-Lobos (1887-1959), haverá aqueles que dirão conhecer algumas obras do compositor. <em>Mutatis mutandi</em>, se no Brasil fizerem o mesmo em relação a Lopes-Graça, corre-se o risco de haver um silêncio sepulcral. No Brasil é quase nulo o conhecimento da composição portuguesa, <em>hélas</em>.</p>
<p>Clique para ouvir, de Carlos Seixas, &#8220;Sonata em Mi Maior, nº 34, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.bing.com/videos/search?q=youtube+Carlos+Seixas+Sonata+in+E+major+Martis+piano&amp;view=detail&amp;mid=5C184D691A230927DEF35C184D691A230927DEF3&amp;FORM=VIRE">Carlos Seixas &#8211; Sonata nº 34 in E major &#8211; José Eduardo Martins &#8211; piano &#8211; Bing video</a></p>
<p style="text-align: justify;">Diria igualmente que o notável compositor conimbricense Carlos Seixas (1704-1742) não é tocado em nosso país, ele que foi tão admirado pelo grande Domênico Scarlatti (1685-1756). Algumas das Sonatas de Seixas, que gravei ao piano para um álbum duplo de CDs (23 Sonatas, selo belga De Rode Pomp), estão no Youtube. Outros compositores portugueses também estão no aplicativo. Enumerando-os: de Francisco de Lacerda (1869-1934), açoriano de São Jorge, amigo de Claude Debussy, regente renomado, as “Trente-six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste”; do saudoso amigo Jorge Peixinho (1940-1995), o “Étude Dei-Reihe Courante”; do brilhante compositor contemporâneo e dileto amigo Eurico Carrapatoso (1962- ), as “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste” e  a “Missa sem palavras”. São vários os blogs dedicados a esses mestres, que dignificam a Música Portuguesa, nos quais amplio considerações a respeito de obras que tive o prazer de apresentar em solo português e brasileiro, tantas delas em primeira audição.</p>
<p style="text-align: justify;">Acredito firmemente que, se houver empenho efetivo e permanente do Estado português, compositores como Carlos Seixas e Fernando Lopes-Graça, como exemplos, estariam a ser interpretados frequentemente no planeta. Não mereceriam o olhar que propicia aberturas?</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Jorge Peixinho, “Étude V – Die Reihe Courante&#8221;, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Uc1PTtYbnoA">https://www.youtube.com/watch?v=Uc1PTtYbnoA</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Ao longo dos anos, algumas figuras de relevo na cultura portuguesa foram lembradas após o passamento: organista Antoine Sibertin Blanc (1930-2012) – nascido em França, mas com destacada atuação como intérprete e professor em Portugal durante décadas -, pianista Sequeira Costa (1929-2019), Presidente da República Portuguesa Jorge Sampaio (1939-2021) e o musicólogo, meu amigo-irmão, José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021).</span></p>
<p style="text-align: justify;">Aos 84 anos o tempo se abrevia, mas continuarei a pontuar as Culturas da pátria-mãe em meus blogs hebdomadários.</p>
<p style="text-align: justify;">“Impressões sobre a Música Portuguesa” ( II ) está à disposição do leitor através do link:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.amazon.com/dp/9892623231">https://www.amazon.com/dp/9892623231</a></p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/807.Joanina2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Biblioteca Joanina, Universidade de Coimbra. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/807.Joanina2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Impressões sobre a Música Portuguesa e outros temas&#8221; (II) focuses  primarity on Portuguese Music. </em><em>Nevertheless, there are reviews about some works written by Portuguese authors. In the 63 texts, written from November 2011 to December 2021, Portugal is always kept as my point of focus.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2023/03/11/impressoes-sobre-a-musica-portuguesa-e-outros-temas-ii/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Natal e lembranças que afloram</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/12/24/natal-e-lembrancas-que-afloram/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/12/24/natal-e-lembrancas-que-afloram/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 24 Dec 2022 03:05:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=12832</guid>
		<description><![CDATA[Da solidão a uma noite mágica De todas as histórias que nos contava guardei apenas uma vaga e imperfeita lembrança. Porém, uma delas ficou tão nitidamente guardada em minha memória, que sou capaz de repeti-la a qualquer momento, a pequenina história do nascimento de Jesus. Selma Lagerlöf (1858-1940) “Lendas cristãs” Prêmio Nobel de Literatura (1909) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Da solidão a uma noite mágica</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/838.Natalmadeira-big.jpg" target="_blank"><img title="Presépio. Arte popular do Vale do Paraíba. col. particular. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/838.Natalmadeira-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>De todas as histórias que nos contava guardei apenas</em><br />
<em> uma vaga e imperfeita lembrança. Porém,</em><br />
<em> uma delas ficou tão nitidamente guardada em minha memória,</em><br />
<em> que sou capaz de repeti-la a qualquer momento,</em><br />
<em> a pequenina história do nascimento de Jesus.<br />
</em><span style="text-align: justify;">Selma Lagerlöf (1858-1940)<br />
</span><span style="text-align: justify;">“Lendas cristãs”<br />
</span><span style="text-align: justify;">Prêmio Nobel de Literatura (1909)</span></p>
<p>Quantos de nós, cristãos, não temos algumas recordações do Natal enquanto crianças? Havia algo misterioso relacionado ao evento maior da cristandade. Quando miúdos, era-nos ensinada toda a saga que culminaria com o nascimento de Jesus e, nesse contexto, também aguardávamos a figura do Papai Noel com seus presentes.</p>
<p>O tempo passou e, aos 20 anos, um prêmio num Concurso Nacional de Piano em Salvador contemplou-me com bolsa do governo da França para estudar em Paris. Devido a não burocracia dos franceses, poucos dias após já estava em Paris.</p>
<p>Primeiro Natal fora do lar naqueles remotos tempos de amizades ainda não solidificadas. Intenso estudo pianístico, sob orientação da lendária pianista e professora Marguerite Long, levava-me, por vezes, a 10 horas diárias de estudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Noite gélida na véspera do Natal de 1958 em Paris. O barômetro apontava 3 graus negativos no portal do prédio onde morava, Rua Jacques Bingen, 16, no 17ème. Sai a caminhar sem destino preciso. No percurso via muitos apartamentos iluminados, a contrastar com o aspecto dos prédios que, àquela altura, ainda mantinham um cinzento sombrio, treze anos após o final da 2ª Grande Guerra. As passadas a esmo na gélida noite apenas acentuavam um sentimento de nostalgia. Nevava tenuemente.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/838.JE-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="J.E.M. Foto tirada duas semanas antes da Noite do Natal de 1958 em Paris. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/838.JE-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A intenção primeira era continuar a andar por uns bons quilômetros sem rumo preciso, mas a cerca de um ou dois km após, ao passar em frente a um edifício que mantinha as luzes acesas e portas abertas, ouvi vozes femininas a cantar.  Surpreso, simplesmente parei e fiquei encantado após pensamentos, se não negativos, incertos. Repentinamente, duas freiras já com certa idade desceram uns poucos degraus da escada e, agitadas, conversavam sobre a ausência do organista para a missa do galo. Delas me aproximei e perguntei-lhes se algo grave ocorrera. Disseram que o coral das noviças sempre cantava com acompanhamento na noite de Natal e que sem um guia se sentiam desamparadas. Afirmei-lhes que estava em Paris a estudar piano e que se quisessem&#8230; A agitação transformou-se em sorrisos largos e conduziram-me ao recinto onde as moças estavam realmente desconsoladas. O instrumento era um antigo <em>harmonium</em> ou harmônio. Deram-me as partituras e iniciamos a seguir os ensaios, que demoraram uma boa hora, pois logo após cidadãos, a maioria constituída por casais de idosos bem protegidos do frio intenso, adentraram parte da sala transformada em Capela.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/838.harmonium2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Harmonium antigo. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/838.harmonium2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Solicitei que uma das freiras ficasse ao meu lado para as entradas dos hinos religiosos durante a Santa Missa. Não me recordo das peças sacras que acompanhei no transcurso da cerimônia religiosa, apenas vindo-me à memória a célebre &#8220;Adeste Fidelis&#8221;. À medida que transcorria a Missa algo extraordinário se passava comigo, uma espécie de entusiasmo contido. Finalizada a Missa, enquanto os fiéis ainda permaneciam na Capela, toquei, em ato espontâneo naqueles momentos de confraternização, “Jesus Alegria dos Homens”, de J.S.Bach-Hess, incidente inusitado, mas que agradou as irmãs da Ordem religiosa.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Bach-Hess, o coral &#8220;Jesus alegria dos homens&#8221;, na interpretação de J.E.M. (gravação realizada em Mullem, Bélgica, 2004):</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ">https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ</a></p>
<p style="text-align: justify;">Findos os ofícios, despedi-me das freiras, que não me deixaram partir, fazendo-me um convite, pois no salão contíguo à Capela, haviam preparado uma ceia singela. Para o jovem que eu fui, aquele sincero apelo para que permanecesse foi um verdadeiro bálsamo, evocou o que sempre senti nas festas natalinas em casa de meus pais e dissipou quaisquer pensamentos de nostalgia. Ao perguntar a uma das freiras a Ordem a que pertenciam, disseram-me que se tratava de uma irmandade católica de origem norte-americana.</p>
<p>Ao regressar naquela noite tão fria rememorei tantos contos lidos ao longo das décadas que invocavam episódios mágicos ou misteriosos relacionados ao Natal. Fiquei a pensar que não teria sido apenas o acaso, mas algo mais, pois até então nunca havia transitado por aquela rua. A não menos de 100 metros de onde morava há a Église Saint-Charles-de-Monceau, na Rue Légendre, igreja que frequentei várias vezes, tendo por ela passado no início da caminhada daquela noite, mas sequer prendeu-me a atenção.</p>
<p>Clique para ouvir do notável compositor e meu estimado amigo, Eurico Carrapatoso, &#8220;Ó meu menino Magnificat em talha dourada&#8221;. Coro e Ensemble Olisipo, soprano Angélica Neto:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Mdud4L0yR4U">https://www.youtube.com/watch?v=Mdud4L0yR4U</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Se tivesse de enumerar outras reuniões natalinas mantidas na memória, não saberia precisá-las em seus pormenores. Esvaíram-se e apenas lampejos veem-me à mente. Qual a razão de unicamente aquela véspera de Natal em Paris ter ficado indelével, com suas cenas incólumes? Ao pensar nelas, a mente ativa as imagens registradas e guardadas no meu </span><em style="text-align: justify;">de profundis</em><span style="text-align: justify;">. O notável filósofo francês Vladimir Jankélévitch (1903-1985) afirmava que o segredo se explica, o mistério é insondável.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Fosse hoje, não mais me sentiria sequer seguro a perambular noite adentro pelas ruas menos frequentadas de Paris.</p>
<p style="text-align: justify;">A todos os leitores desejo um Natal em Paz, algo de que estamos a necessitar nestes tempos turbulentos por que passa o país.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/838.MM-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Nascimento de Jesus. Desenho a nanquim de Manuel Martins. col. particular. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/838.MM-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Clique para ouvir &#8220;Natal de Elvas&#8221;, na interpretação do Coro Capela Gregoriana Laus Deo, dirigido pela minha dileta amiga Idalete Giga, que realizou a harmonização da música extraída do Cancioneiro alentejano:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=l5YnExjckwU">https://www.youtube.com/watch?v=l5YnExjckwU</a></p>
<p><em>Of all Christmas nights I have attended, very few actually remain in my memory. Only one was unforgettable: a magic Christmas eve in Paris in 1958, probably the happiest of my entire life, indelibly retained in my mind with all details.</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/12/24/natal-e-lembrancas-que-afloram/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Recital em Goiânia</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/12/10/retorno-a-goiania-3/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/12/10/retorno-a-goiania-3/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 10 Dec 2022 03:05:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=12807</guid>
		<description><![CDATA[O retorno aprazível Se não apontares ao impossível, te sairá baixo o tiro ao possível. Agostinho da Silva “Espólio” Foi no longínquo 1971, ano em que a cidade de Goiânia comemorava seus 38 anos de fundação, que pela primeira vez me apresentei na cidade. Já demonstrava a vocação de ser uma das pujantes do Centro-Oeste, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O retorno aprazível</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/836.Cartaz1-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/836.Cartaz1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Se não apontares ao impossível, te sairá baixo o tiro ao possível.<br />
</em>Agostinho da Silva<br />
“Espólio”</p>
<p style="text-align: justify;">Foi no longínquo 1971, ano em que a cidade de Goiânia comemorava seus 38 anos de fundação, que pela primeira vez me apresentei na cidade. Já demonstrava a vocação de ser uma das pujantes do Centro-Oeste, apenas superada por Brasília em termos populacionais. Minha relação com a cidade se prolonga ao longo de meio século, volvendo periodicamente a fim de recitais promovidos por diversas entidades, mas também para cursos, congressos e bancas universitárias junto à Universidade Federal de Goiás.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar de ter oferecido curso na Escola Mvsika para jovens postulantes à carreira musical, após realizar duas apresentações em anos sucessivos.  O convite veio através da referencial pianista e professora Glacy Antunes de Oliveira, uma das fundadoras do estabelecimento. Foi no biênio 1974-1975 que frequentei a cidade no fim de cada mês para aqueles encontros didático-musicais. Com alegria reencontrei na atual visita antigos frequentadores do curso e que hoje desempenham profícua atividade musical na cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O universo dos afetos contempla geograficamente cidades que são caras por motivos diversos. Não é fácil saber os motivos das escolhas, pois eles naturalmente se instalam em nosso <em>de profundis</em>. Se Paris ficou-me indelével pela formação primordial entre os anos fronteiriços às décadas 1950-60 e pela relação posterior intensa em torno de Claude Debussy; se Gand, na Bélgica, me é preferencial sob outra perspectiva, pois lá me apresentei mais de vinte vezes e pelo selo De Rode Pomp foi lançada a maioria de meus 25 CDs gravados na mágica capela Saint-Hilarius, em Mullen, milenar pequena cidade próxima à Gand, sendo que espero finalizar minha atividade pianística nessa cidade flamenga, mercê do legado e de indelével relacionamento humano; se Portugal como um todo, pois cerca de vinte cidades foram visitadas para recitais prioritariamente, mas também para outras atividades culturais ao longo de 60 anos e afetos imaculados incontáveis; em termos pátrios uma cidade tem para mim significado especial, Goiânia. Quantas outras foram repetidamente visitadas e das quais guardo recordações que perduram! No crepúsculo da atividade pianística seria possível aceitar que o curso mencionado nos inícios da década de 1970 fincou sólidas bases, o que fez com que aos sucessivos convites para várias atividades ligadas à música tivessem singular posicionamento. Diria que os elos forjados naqueles tempos permaneceram imunes a quaisquer possibilidades adversas.</p>
<p style="text-align: justify;">Durante o período mais sombrio da pandemia resolvi doar parte substancial de minha biblioteca musical, incluindo partituras, à Universidade Federal de Goiás. Uma camioneta da UFG retiraria 14 caixas com esse primeiro acervo. Alguns amigos e professores comentaram que a destinação deveria ter sido a Universidade de São Paulo, onde permaneci durante 27 anos. Não obstante essas salutares divergências, entendo que o Sudeste já está contemplado por acervos consideráveis não apenas nas três universidades paulistas, como nas do Rio de Janeiro e outras mais&#8230; <em>Le coeur a ses raisons que la raison ignore, </em>já professava Blaise Pascal (1623-1662). Diria que razão e coração se incluem na minha decisão, que será completa quando de minha ida para os anjinhos. Minha mulher e filhas não apenas acatam, como estimulam o envio à UFG do acervo que ainda mantenho e que me possibilita continuar pesquisas&#8230; A modesta contribuição será propícia àqueles pesquisadores do Centro-Oeste e, só de pensar nesse futuro debruçamento de estudiosos, traz-me aquilo que professava meu padrinho de crisma, D. Henrique Golland Trindade (1897-1974), arcebispo de Botucatu,  que oficiou meu casamento com Regina em 1963: “santo orgulho”. Saber destinações.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/836.Reitor-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Reitor da Universidade Federal de Goiás, Professor Edward Madureira e J.E.M. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/836.Reitor-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O convite de Gyovana Carneiro, professora da UFG e “agitadora” cultural em Goiânia, e que no início dos anos 1990 frequentou curso que ministrei na pós-graduação na USP, foi no intuito da realização de um recital na nova sala da cidade, pequena e aconchegante, “Estúdio de Piano &amp; Experiência Musical Natália Mendoza”. Trata-se de uma nova proposta que atende, paradoxalmente, ao decréscimo da aceitação da denominada música de concerto, mormente para as novas gerações, bombardeadas diariamente por um sem número de outros anseios através dos mutantes meios internéticos. O pequeno espaço, <em>à la manière</em> das ancestrais comunidades cristãs, que se reuniam sempre com intensidade exemplar, torna-se igualmente um local de resistência. Grata surpresa foi a presença de figuras relevantes do meio universitário e cultural de Goiânia, entre elas o Reitor da UFG, professor Edward Madureira, e outros docentes das várias áreas do conhecimento, entre os quais Anselmo Pessoa (literatura italiana),  assim como membros da sociedade amantes da música de concerto que compareceram ao evento que, numa primeira parte, homenageava o nosso ilustre Gilberto Mendes, mercê do centenário do compositor (1922-2016). A seguir interpretei criações de Bach-Liszt, Debussy, Oswald e Scriabine (sesquicentenário de nascimento).</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/836.aopiano-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/836.aopiano-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Faço minhas as palavras de Mario Vargas Llosa que, em seu consagrado livro “La Civilización del espectáculo”, vaticinava a queda da cultura erudita. Ela se processa a passos largos. Se considerarmos os mais ventilados sites portais do país, logo nas páginas de abertura não mais há quaisquer resquícios alusivos à atividade da “outrora” alta cultura, duas palavras que eram habituais, inclusive a designar importante instituição portuguesa, “Instituto de Alta Cultura”. O leitor se lembrará de que anos atrás tencionaram retirar dos currículos escolares brasileiros autores como Camões e tantos outros luminares, numa tentativa rasteira de minimizar a cultura tida por esses mentores como elitista. Não houvesse resistência entraríamos num obscurantismo literário. Os sites mais frequentados do país privilegiam o supérfluo, a derrocada dos costumes e da moralidade, pois temas ligados a sexo e suas “modalidades” estampam as primeiras páginas desses concorridos portais com vexatória permissividade, em acréscimo abandonando o trato basilar da língua mater. Estou a me lembrar de tempos outros em que, durante uma década, escrevi para o Suplemento Cultural de “O Estado de São Paulo”. O saudoso e notável editor responsável, Nilo Scalzo, dizia que na redação havia um especialista que revisava todos os textos do denominado “Estadão” e do “Jornal da Tarde”, a fim de que erros ortográficos, de sintaxe e outros mais não aparecessem nas publicações. Quantos não foram meus textos de três páginas sobre música e arte publicados nesse outrora veículo exemplar?   A permissividade atual dos portais apresenta-se plena, sem pejo e todo um besteirol é transmitido às novas gerações. Infiltrado nas mentes, proliferam como erva daninha. Arte, literatura, música pareceriam pertencer, para esses portais, atividades “jurássicas”. Sob a égide da música efêmera, multidões, mormente de jovens, acorrem aos espetáculos de altos decibéis e rigorosamente descartáveis. Valor intrínseco, nenhum. Dizia eu em Goiânia que a morte trágica de cantora goianiense levou cerca de um milhão de pessoas aos seu sepultamento. Naqueles dias faleceu o maior pianista brasileiro da segunda metade do século XX e reconhecido no mundo como um expoente, Nelson Freire. Menções relativizadas e mínimas na mídia. Semanas após, pouco se falava da cantora. Nelson Freire permanecerá através de um legado indiscutível, felizmente registrado em gravações memoráveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Acredito firmemente que, apesar da nítida decadência da cultura erudita, focos de resistência existirão. Se décadas atrás tínhamos várias salas de concerto em São Paulo, como exemplo, e músicos consagrados e os jovens promissores recebiam público numeroso, hoje um teatro e uma sala, ambos grandes, recebem público considerável, mormente quando nomes consagrados no Exterior aqui aportam para récitas. As pequenas salas fecharam suas portas, e duas ou três continuam heroicamente a resistir. Intérpretes qualitativos nelas se apresentam e recebem ouvintes selecionados, que ainda cultuam a atividade musical erudita. Inúmeras vezes mencionei que na década de 1950 São Paulo tinha treze críticos musicais, que resenhavam considerações competentes tanto para os luminares como para os iniciantes. A maioria deles era versada em música. A cidade agigantou-se e a crítica musical estiolou-se. Não mais há o crítico musical de ofício, apesar de alguns assim  se autodenominarem. É de se lamentar.</p>
<p style="text-align: justify;">É pois relevante a inauguração de uma sala pequena, mas que servirá de estímulo às manifestações de recitais e cursos. Se Goiânia teve, entre baluartes da arte pianística, a amiga saudosa Belkiss Carneiro de Mendonça (1928-2005), formadora de uma geração de competentes pianistas e que me concedeu o privilégio de prefaciar seu último CD, a chama da música de concerto não feneceu e o piano deverá continuar a revelar talentos, apesar dos tempos desalentadores. Que a esperança não feneça!</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/836.Goiânia3a-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Da esq. para a dir. Professoras Natália Mendoza, Ana Flávia Frazão e Gyovana Carneiro. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/836.Goiânia3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>It is always a pleasure returning to Goiânia for musical activity. I have been</em><em> </em><em>there to present a recital in honour of the remarkable composer Gilberto Mendes in the small and cosy room of the &#8220;Studio of Piano &amp; Musical Experience Natália Mendoza</em><em>&#8220;, in the presence of a select audience.</em><strong> </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/12/10/retorno-a-goiania-3/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Após Coimbra e Tomar, Lisboa e reminiscências que remontam a 1959</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/07/09/apos-coimbra-e-tomar-lisboa-e-reminiscencias-que-remontam-a-1959/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/07/09/apos-coimbra-e-tomar-lisboa-e-reminiscencias-que-remontam-a-1959/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 09 Jul 2022 03:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=12418</guid>
		<description><![CDATA[Palestra e entrevistas Na música, uma figura rítmica, um germe melódico, um ocasional agregado harmónico, uma sugestão tímbrica, é que são o ponto de partida para a organização sonora, que, justamente porque é uma organização, não nos é dada de pronto: vai-se-nos impondo, vai sendo, vai-nos sendo, até se perfilar numa forma, e toda a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Palestra e entrevistas</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/814.Ward-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/814.Ward-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Na música, uma figura rítmica, um germe melódico,<br />
</em><em>um ocasional agregado harmónico, uma sugestão tímbrica,<br />
</em><em>é que são o ponto de partida para a organização sonora,<br />
</em><em>que, justamente porque é uma organização,<br />
</em><em>não nos é dada de pronto: vai-se-nos impondo,<br />
</em><em>vai </em>sendo<em>, vai-nos </em>sendo<em>,<br />
</em><em>até se perfilar numa forma,<br />
</em><em>e toda a forma é construção.<br />
</em>Fernando Lopes-Graça<br />
(“Disto e Daquilo” – <em>Crítica, criação, público, etc.</em>)</p>
<p style="text-align: justify;">Um período longo se passou do recital aos 14 de Julho de 1959 à retomada dos recitais em 1982. Prolongado hiato em que penetrei intensamente nos estudos voltados ao repertório pouco frequentado de um passado que remonta do século XVIII à metade do século XX e na divulgação progressiva de parcela da criação contemporânea, excluindo tendências, tantas delas impactantes, mas efêmeras. O culto ao repertório sacralizado continuou, mas homeopaticamente.</p>
<p style="text-align: justify;">O regresso a Portugal se deu em torno de Claude Debussy. Havia interpretado a integral do compositor francês em quatro recitais e escrito o livro “O Som Pianístico de Claude Debussy” (Novas Metas, 1982), com prefácio da ilustre gregorianista Júlia D’Almendra. Nascia àquela altura uma amizade que se perpetua através da também competente discípula de d’Almendra, Idalete Giga. É ela que, sempre entusiasta, comparece aos recitais que se prolongam desde a retomada em 1982 e que, pela segunda vez, convidou-me para proferir conferência na sede do Centro Ward de Lisboa &#8211; Júlia D&#8217;Almendra sob o título “De Carlos Seixas a Eurico Carrapatoso – um envolvimento pleno”.</p>
<p>Clique para ouvir, de Carlos Seixas, a <em>Sonata nº 78</em>, em Si bemol Maior, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=E8GX3qIjfLI"> Carlos Seixas &#8211; Sonata nº 78 in B flat major &#8211; José Eduardo Martins &#8211; piano &#8211; YouTube</a></p>
<p style="text-align: justify;">Com a greve dos ferroviários, nossos diletos amigos António Sousa e Maria do Rosário nos levaram de Tomar a Lisboa para três eventos na cidade. Resquícios de uma prolongada pandemia obliteraram a realização de um recital na cidade, pois datas foram sendo alteradas desde 2020!</p>
<p style="text-align: justify;">Mercê do caminho já trilhado, Idalete me solicitou, para a palestra, a abordagem que correspondia a uma retrospectiva quanto ao envolvimento com a criação musical em Portugal, autores percorridos e que me encantaram. Dos 25 CDs gravados no Exterior, seis foram dedicados à música portuguesa e outros seis à música brasileira, fato que corresponde exatamente ao que sempre pensei, pois não faço diferença entre Brasil e Portugal, devido certamente ao fato de nosso Pai, nascido no Minho, nos ter ensinado a essência essencial da palavra amálgama.</p>
<p style="text-align: justify;">Em inúmeros blogs teço comentário sobre o repertório português que tive o prazer de estudar e outro que, em conhecendo, igualmente admirei, parte desse graças ao convívio com o meu saudoso amigo-irmão, o notável musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso. Como não ser grato a Conceição Correia, que me possibilitou a leitura, no Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria, em Cascais, de manuscritos essenciais de Fernando Lopes-Graça. À medida que me aprofundava, mais entendia o alcance de suas criações. Estou a me lembrar desse choque frente à totalidade dos manuscritos para piano de Claude Debussy. O saudoso amigo e maior <em>expert</em> em Debussy na segunda metade do século XX, François Lesure (1923-2001), permitiu-me durante 15 dias a leitura dos manuscritos para piano do grande compositor.  Permanecia durante o expediente em sala fechada na Bibliothèque Nationale em Paris. Um ano após, disse-me ele que toda essa produção estaria digitalizada, sendo que pesquisadores teriam disponíveis doravante a <em>opera omnia</em> em formato digital. Em termos brasileiros, igualmente estudei os manuscritos para piano das criações de Henrique Oswald, Gilberto Mendes e Almeida Prado. Acredito que o estudo a partir dessa fonte primeira revela tantas vezes o pulsar, a hesitação, a rasura, mas a pairar num patamar excelso, a criatividade do compositor. No presente, praticamente não mais se tem composições em manuscrito, pois estas têm sido digitalizadas no desenrolar da criação.</p>
<p>Clique para ouvir de Jorge Peixinho, <em>Etude V Die Reihe-Courante</em>, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Uc1PTtYbnoA">https://www.youtube.com/watch?v=Uc1PTtYbnoA</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Na conferência do dia 14 de Junho a longa caminhada foi resumida de maneira sucinta. Friso sempre que a escolha do repertório deve estar sempre sob a égide amorosa. Selecionar o que deve ser interpretado após debruçamento pode basear-se em várias vertentes, como a qualidade do compositor; o contexto histórico da criação; a estrutura da obra estudada; a comunicabilidade de uma composição. Neste último caso, tantas tendências composicionais na atualidade se destinam unicamente a guetos. De Jean-Philippe Rameau (1683-1764), uma frase basilar: “La musique c’est le langage du coeur”. Dificilmente um compositor de reais méritos escreverá obra descartável, podendo sim ter criações que não atinjam o gosto do público por razões as mais diversas, mas elas lá estão para qualificar o que foi deixado no papel pautado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/814.Idalete-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Palavras introdutórias de Idalete Giga. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/814.Idalete-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Idalete Giga fez a apresentação da palestra e durante o encontro interpretei algumas obras no piano que foi de Júlia d’Almendra, piano que durante uma década (1980-1990) foi o instrumento que acolhia meus preparativos para os recitais em Portugal. Recordo-me de introduzir um cachecol sobre a surdina, durante as madrugadas, a fim de não acordar a vizinhança do andar superior, mormente quando determinadas composições estavam ainda “frescas” no repertório e necessitavam da maior atenção.</p>
<p>Outro aspecto a se considerar é a concentração que se deve manter quando um compositor está sendo estudado. Germina a curiosidade, uma das dádivas do homem. Conhecer mais obras de um compositor, desde que uma primeira determina o prosseguimento das investigações. Por vezes entramos num labirinto, mas é algo mágico o desvelamento progressivo de outras composições de um mesmo autor, sobretudo quando inéditas. Carlos Seixas, Francisco de Lacerda e Lopes-Graça se inserem nessa revelação. Da contemporaneidade, as obras de Eurico Carrapatoso, que tanto têm a ver com o preceito de Rameau, sempre me interessam.</p>
<p style="text-align: justify;">Perguntas foram formuladas e busquei respondê-las a contento.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/814.Joaquim-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Com o renomado escritor e jornalista Joaquim Vieira. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/814.Joaquim-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Após a palestra fui entrevistado pelo ilustre escritor e jornalista Joaquim Vieira, que se deslocou do Porto a Lisboa para o encontro, pois está a preparar um documentário sobre Fernando Lopes-Graça.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 15, entrevistado pelo competente Paulo Guerra para o programa Antena2 da RDP, tive a oportunidade de responder às perguntas sobre minhas gravações, mormente aquelas voltadas à música portuguesa. Como não há foto do registro, inseri a tirada em 2018, quando o saudoso amigo-irmão Pedrosa Cardoso e eu estivemos no mesmo estúdio da Rádio.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/785.JM6-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="O saudoso José Maria Pedrosa Cardoso e eu entrevistados pelo competente Paulo Guerra. RDP, 2018. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/785.JM6-small.jpg" alt="" /></a><span style="text-align: justify;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Finda a breve turnê, Eurico Carrapatoso dedicou-nos generosamente um dia, levando-nos às florestas de Sintra. Idalete Giga nos acompanhou, mostrando-nos no dia seguinte outras maravilhas da região, pois  minha neta Valentina queria conhecer o local onde as fotos de Lopes-Graça com seu avô haviam sido tiradas em 1959.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Eurico Carrapatoso, <em>Missa sem Palavras &#8211; Cinco Estudos Litúrgicos</em>, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5Z5zXsJ7wmo">Eurico Carrapatoso &#8211; Missa sem palavras &#8211; José Eduardo Martins &#8211; piano &#8211; YouTube</a></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/814.Eurico-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Eurico Carrapatoso, Valentina e J.E. na floresta de Sintra. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/814.Eurico-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Numa manhã, feriado em Lisboa, transitava pelo Bairro Alto e desci a Rua Nova da Trindade, onde no nº 18 se encontra a Academia de Amadores de Música, instalada no 2º andar à esquerda. Fundada em 1884, por lá estiveram as figuras mais representativas da Música, assim como da Literatura e das Artes de Portugal, nos incontáveis eventos ao longo das décadas.  Passaram-se 63 anos da minha primeira apresentação em Portugal. Ao dizer à Valentina que o prédio deverá sucumbir à sanha das incorporadoras, quis minha neta registrar, possivelmente, uma última foto do intérprete frente a Academia, Templo que entendo do grande Lopes-Graça.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/814.AAM-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Em frenteà placa comemorativa dos 120 anos da Academia de Amadores de Música. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/814.AAM-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em><em>My presence in Lisbon was dedicated to three essential events: a conference at “Centro Ward de Lisboa &#8211; Júlia D&#8217;Almendra” at the invitation of Idalete Giga, competent Gregorian Chant specialist and prominent choral conductor, as well as two interviews. The renowned journalist and writer Joaquim Vieira is preparing a documentary about Fernando Lopes-Graça, hence the interview. With Paulo Guerra from RDP I talked about Portuguese Music and the imperious necessity of more emphasis on its international promotion.</em><br />
</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/07/09/apos-coimbra-e-tomar-lisboa-e-reminiscencias-que-remontam-a-1959/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Revisita a Tomar, berço de Fernando Lopes-Graça (1906-1994)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/07/02/revisita-a-tomar/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/07/02/revisita-a-tomar/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 02 Jul 2022 03:05:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=12372</guid>
		<description><![CDATA[Cidade plena de encantos Se os meus biógrafos um dia afirmarem que a Música foi a fada que velou pela minha infância, mentem. Ou, então, se achais que a palavra mentir é insultuosa para a dignidade de um biógrafo, direi que fantasiam no ar, coisa que, aliás, lhes sucede com frequência. A música foi para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Cidade plena de encantos</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.40anos-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.40anos-small.jpg" alt="" /></a></strong></p>
<p><em>Se os meus biógrafos um dia afirmarem que a Música<br />
foi a fada que velou pela minha infância, mentem. Ou, então,<br />
se achais que a palavra mentir<br />
é insultuosa para a dignidade de um biógrafo,<br />
direi que fantasiam no ar, coisa que, aliás,<br />
lhes sucede com frequência.<br />
A música foi para mim um puro acaso,<br />
um acidente, uma brincadeira aí dos meus onze anos.<br />
</em>Fernando Lopes-Graça<br />
(“Disto e Daquilo” Recordações em dó maior, Cosmos,1973)</p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar de minha primeira apresentação em Tomar. Foi no longínquo Fevereiro de 1982 que pela primeira vez dei recital na cidade, a convite de Manuela Tamagnini (1911-1989), fundadora, diretora e professora do Conservatório Regional de Tomar e uma das alunas diletas da grande especialista em Canto Gregoriano e da obra de Claude Debussy, Júlia d’Almendra (1904-1992). Em Lisboa, quando nos anos 1980 inúmeras vezes visitei Portugal para recitais, ficava hospedado em sua morada, na Rua d’Alegria, 25, 1º andar, pois nossa amizade se fundamentara em torno da obra de Debussy. Dirigindo um pequeno Toyota de Júlia, em estrada tortuosa que oferecia àquela altura trechos perigosos, tomava as precauções necessárias e evitava que minha dileta amiga conduzisse. Recordo-me de me ter perdido nas duas viagens, mercê da sinalização ainda precária e das estradas não duplicadas, mas lá chegávamos, sempre generosamente acolhidos por Manuela Tamagnini em sua casa. Dizer que os recitais ficaram gravados indelevelmente atesta uma realidade que, acionada a mente, traz-me sensível emoção.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar2a-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar2a-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Décadas após regressei a Tomar e habitualmente me apresento sob a égide da referencial escola de Música Canto Firme, a convite do destacado musicólogo, professor e dirigente coral António Sousa. Em sendo proverbial a acolhida em Tomar, na residência do casal António e Maria do Rosário permanecemos ao longo dos anos durante os dias das atividades musicais. Se em jornadas anteriores minha mulher Regina esteve comigo, desta vez, na turnê ora finda, nossa neta Valentina me acompanhou.</p>
<p style="text-align: justify;">As minhas idas a Tomar, nessa segunda fase, sempre estiveram sob a égide do compositor maior da história da música portuguesa. Recitais e palestras, neles inseridos criações de Fernando Lopes-Graça que tive o privilégio de gravar em primeira versão em CDs: <em>Viagens na Minha Terra, Música de Piano para Crianças, Cosmorame, Músicas Fúnebres</em> e <em>Canto de Amor e de Morte</em>, composição esta publicada pelo Movimento Patrimonial da Música Portuguesa, <em>mpmp</em>, a partir de minha edição baseada num único manuscrito do compositor. Obra prima absoluta.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.ASousa-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="António Sousa e J.E. comentando a edição de Canto de Amor e de Morte. Casa Memória Lopes-Graça. 10/06/2022. Foto: Valentina. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.ASousa-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Sucintamente observei no post de 18/06/2022 as atividades em Tomar nessa última digressão. Faço-o no presente de maneira mais pormenorizada.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar3-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Palestra na Casa Memória Fernando Lopes-Graça. 10/06/2022. Foto: Valentina. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Na palestra que se deu na Casa Memória Fernando Lopes-Graça, local onde o compositor nasceu, o tema versou inicialmente sobre obras basilares que tive o privilégio de pesquisar. A seguir, sobre a necessidade imperiosa de se divulgar as criações de Lopes-Graça no Exterior. Se pianistas portugueses têm com maestria gravado e divulgado inúmeras criações de Lopes-Graça, o poder público, através de sua diplomacia, teria de estimular a divulgação das composições não só de Lopes-Graça (1906-1994), mas de Carlos Seixas (1704-1742), Francisco de Lacerda (1869-1934), Jorge Peixinho (1940-1995), quatro nomes entre outros ótimos músicos que já partiram. Como exemplo, citei na palestra as seis <em>Sonatas</em> para piano de Lopes-Graça, magnificamente gravadas por António Rosado e que não ficam a dever às de Sergei Prokofiev, penso eu. Edições, distribuição e empenho junto às entidades internacionais certamente colocariam Lopes-Graça num panteão especial. Haveria esse passo governamental? Frisei que o mesmo se dá com alguns dos mais importantes compositores do Brasil. Se Carlos Gomes (1836-1896), Henrique Oswald (1852-1931), Francisco Mignone (1897-1986) Camargo Guarnieri (1907-1993) e Cláudio Santoro (1919-1989), entre alguns dos mais importantes, permanecem basicamente ocultos sob a égide internacional, apenas Villa-Lobos (1887-1959) tem tido certa guarida nos repertórios do hemisfério norte.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/8134a.Tomar4a-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Recital de J.E.M. no auditório da Canto Firme de Tomar. 11/06/2022. Foto: Valentina. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar4a-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">No recital do dia 11 de junho, apresentei pela primeira vez em Tomar a magnífica coletânea <em>Viagens na Minha Terra</em>, gravada por mim em Leiria em 2003 para o selo Portugaler. Friso ser essa coletânea uma das mais expressivas do gênero em termos mundiais. O recital dedicado à memória de meu amigo-irmão, o ilustre professor e musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso, teve, quando da interpretação das 19 peças das <em>Viagens na Minha Terra</em>, imagens projetadas em vasta tela e carinhosamente preparadas por José Maria e sua esposa Maria Manuela. A anteceder o caderno das <em>Viagens</em>&#8230;, interpretei a bela criação de Eurico Carrapatoso, <em>In memoriam</em> José Maria Pedrosa Cardoso. Após a interpretação de criações de Bach-Liszt, Henrique Oswald, Gilberto Mendes e Scriabine e de um <em>encore</em>, relatei no post mencionado que, ao retornar ao palco, cantaram <em>Parabéns a você</em>&#8230;, comovendo-me.</p>
<p>Clique para ouvir, de Fernando Lopes-Graça, <em>Viagens na Minha Terra</em>, na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: center;"><a style="text-align: center;" href="https://www.youtube.com/watch?v=n0PwLys54GU">https://www.youtube.com/watch?v=n0PwLys54GU</a></p>
<div style="text-align: justify;">Na própria Canto Firme se deu um jantar em homenagem ao natalício e parte do coral dirigido por António Sousa cantou descontraidamente várias canções originais ou a partir de temas populares compostos por Lopes-Graça. Ao final, apaguei umas velinhas. “Resistir, quem há-de?”, a lembrar o poeta Luís Guimarães Júnior (1845-1898) em seu belo poema <em style="text-align: justify;">Visita à casa paterna.</em></div>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar4b-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Integrantes do Coral dirigido por António Sousa. Foto: Valentina. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar4b-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em>Acompanhada do excelente pianista italiano Marco Rapetti e de sua companheira Suzane, Valentina se encantou ao visitar na cidade, um dos Patrimônios da Humanidade, o Convento de Cristo. Disse-me que as imagens estarão retidas para sempre em sua mente: os vários claustros, a Charola, a Janela do Capítulo&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar5-big.jpg" target="_blank"></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar5-big.jpg" target="_blank"><em><img class="aligncenter" title="Convento de Cristo (séc. XII - séc. XVIII). Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar5-small.jpg" alt="" /></em></a></em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Como curiosidade, após a palestra do dia 10 a cidade aguardava um evento tradicional, a noite das lanternas. Alunos das várias escolas tomarenses fazem barquinhos e neles inserem velas que deslizam pelo Nabão, rio que atravessa a cidade. Das pontes e das margens numeroso público aplaude o singelo e belo espetáculo. Tomar tem a vocação direcionada a preservar festejos e folguedos de antanho. Essa atitude frente ao passado encanta o visitante e o intérprete. Tenho pela cidade um apreço especial.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar6-big.jpg" target="_blank"></a></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><a href="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar6-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Barquinhos iluminados por velas e preparados por alunos de diversas escolas tomarenses deslizam pelo rio Nabão. Foto: Valentina. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/813.Tomar6-small.jpg" alt="" /></a></em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em><em>It was exactly 40 years ago that I performed for the first time in Tomar. Over the years I have returned a dozen times and the emotion is always the same. This time I was in Tomar for a lecture at Casa Memória Fernando Lopes-Graça to talk about my involvement with the composer&#8217;s work and also for a recital in which, among other creations by various authors, I performed the complete version of Lopes-Graça’s &#8220;Viagens na Minha Terra&#8221;. The city preserves ancient traditions. This time I had the pleasure of watching the floating lanterns festival in the waters of Nabão river and was fascinated by this respect for the past.</em></em></p>
<p><em> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em> </em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/07/02/revisita-a-tomar/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Breve turnê em Portugal ( I )</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/06/25/12343/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/06/25/12343/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 25 Jun 2022 03:05:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=12343</guid>
		<description><![CDATA[Sensível retorno após dois anos e meio sem travessia Pouco a pouco a memória retornou, ou melhor, a ela regressei, encontrando a lembrança que me esperava. Albert Camus Chegou a termo a turnê que, breve, não deixou de contar com reais emoções. Nos dois posts anteriores, de maneira sucinta, teci observações sobre os eventos. Neste [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Sensível retorno após dois anos e meio sem travessia</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina1-big.jpg" target="_blank"><img title="Após a competente preleção do ilustre medievalista, Prof. Dr. João Gouveia Monteiro, Diretor da Biblioteca da Universidade de Coimbra, teci comentários sobre o programa.  Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Pouco a pouco a memória retornou,<br />
</em><em>ou melhor, a ela regressei,<br />
</em><em>encontrando a lembrança que me esperava.<br />
</em>Albert Camus</p>
<p style="text-align: justify;">Chegou a termo a turnê que, breve, não deixou de contar com reais emoções. Nos dois posts anteriores, de maneira sucinta, teci observações sobre os eventos. Neste e nos dois próximos trarei pormenores. Comentei que devo encerrar minha atividade pianística pública aos 85 anos. Importa entender o tempo. Apesar de antever esse momento, é uma dádiva o intérprete se prolongar,  diferentemente de outras atividades, como a esportiva de competição, implacável em tempo efêmero.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob outra égide, é reconfortante o regresso a locais que nos foram receptivos desde os primórdios e onde amizades se estreitaram! Como relatei várias vezes, minha primeira apresentação na Europa se deu em Portugal aos 14 de Julho de 1959, a convite do nome maior da música portuguesa, Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Recital no &#8220;Templo Sagrado&#8221;, a Academia de Amadores de Música de Lisboa, que não deverá ser poupada pela sanha imobiliária, <em>hélas</em>. Estou a me lembrar do ilustre filósofo Eduardo Lourenço (1923-2020), que afirmou: “Aquilo que de mais belo há na humanidade é que nós somos submersos às mesmas forças que regem realmente o mundo. Porque é que nós escaparíamos, quando tudo o que foi criado está condenado a desaparecer?”.</p>
<p style="text-align: justify;">A turnê em Portugal evidenciou, após dois anos e meio de plena abstinência de recitais públicos, mais do que as apresentações, que foram bem sucedidas, a consolidação efetiva das amizades com músicos e professores portugueses, algumas que perduram há mais de meio século.</p>
<p style="text-align: justify;">Comentei nos dois blogs precedentes o programa apresentado na Biblioteca Joanina em Coimbra. Minha neta Valentina, companheira de viagem, insistiu para que escrevesse mais sobre a sensação de tocar naquele espaço magnificente.</p>
<p style="text-align: justify;">A Biblioteca Joanina, que integra o conjunto arquitetônico da Universidade de Coimbra, é o recinto mais emblemático em que me apresentei ao longo da atividade pianística. O jornal londrino The Telegraph inclui a Biblioteca Joanina entre “the most spectacular libraries in the world” (2013). Há algo mágico e misterioso que emana da Biblioteca Joanina, da sua arquitetura barroca requintada e da literatura lá conservada a partir do século XVIII, substancial parcela de volumes bem anterior à construção finalizada em 1728. Diferencia-se das enormes salas das grandes cidades em que, ao apagar das luzes da plateia, o intérprete se encontra literalmente só no extenso palco, inundado pelos holofotes nele centralizados, que dimensionam a escuridão a ocultar o público.  Na Joanina, é o passado histórico-literário que a enriquece e a humaniza, sendo o público seu cultor e o intérprete, o mensageiro que, através das ressonâncias, reacende magias. Nada se lhe compara, pois a iluminação parcimoniosa corrobora os mistérios contidos nos milhares de volumes cercados pela ímpar arquitetura e estimula a imaginação. O intérprete é apenas mais um cultor da Joanina naqueles fugazes mas intensos momentos da execução pianística. O majestoso quadro com a imagem de D. João V, ricamente emoldurado em madeira dourada configurada em forma de cortina, ao fundo das três salas contíguas separadas por arcos e em ouro, mas individualizadas por fundos distintos, verde, vermelho e negro, e salas repletas de volumes, fazem lembrar um Templo diferenciado, a provocar uma sensação não distante, mas sob outra aura, daquela apreendida em uma igreja barroca da mesma dimensão. O piano, colocado quase frente à imensa tela, compõe cenário singular, único. Como ele se harmoniza com o belo cenário! A cada visita à Joanina sinto a sensação de maravilhamento. Um privilégio ter sido convidado, ao longo de dezoito anos, para nove recitais na Biblioteca Joanina, outros dois no Teatro Gil Vicente e um no Museu Nacional de Machado de Castro.</p>
<p style="text-align: justify;">Privilégio ter ouvido a preleção do Professor da Universidade, o notável medievalista João Gouveia Monteiro, que teceu comentários sobre o homenageado, o saudoso musicólogo e Professor da Universidade de Coimbra José Maria Pedrosa Cardoso; assim como a respeito do programa apresentado e do intérprete. Afirmou que o recital que apresentei seria o único do ano. Palavras profundas pronunciou a respeito do homenageado: “&#8230;recital que ficará decerto para a história pela sua qualidade e também por ser inteiramente dedicado a um dos musicólogos a quem a Universidade de Coimbra mais deve nos últimos cinquenta anos, José Maria Pedrosa D’Abreu Cardoso, um querido amigo que nos deixou recentemente e que se distinguiu sobretudo pelos seus estudos sobre as peculiaridades da música portuguesa no contexto europeu”. Amigo-irmão, José Maria deixou imensas saudades e um legado sem precedente.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="J.E.M. durante o recital na Biblioteca Joanina. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A peça introdutória do programa, <em>In Memoriam</em> José Maria Pedrosa Cardoso, uma pequena joia polifônica em tributo ao autor de tantos livros a abordar a música portuguesa desde o século XVI, foi composta pelo renomado Eurico Carrapatoso, que nos honrou com sua presença. Compositor e intérprete eram diletos Amigos do homenageado. Emoção forte. A seguir interpretei a <em>Sonata em Lá Maior </em>(59) de Carlos Seixas (1704-1742), o imenso compositor conimbricense, <em>Sonata</em> esta a preferida do Professor Gouveia Monteiro. Seguiu-se, na ordem, de J.S.Bach-Liszt, o <em>Prelúdio e Fuga em lá menor </em>para órgão  na magistral transcrição de Franz Liszt. Os graves duplicados de um magnífico piano Yamaha soaram esplendidamente pelos espaços e estantes. Duas peças de Henrique Oswald (1852-1931) e duas homenagens a efemérides distintas, o centenário de nosso expressivo compositor Gilberto Mendes (1922-2016) através de <em>Viva-Villa</em>,  e dez <em>Poemas</em> de Alexandre Scriabine (1872-1915), a lembrar o sesquicentenário do compositor russo, encerraram o programa.</p>
<p style="text-align: justify;">As presenças de destacados professores da Universidade de Coimbra enriqueceram o evento: André Pereira, Diretor da Imprensa da Universidade; Delfim Leão, Vice-Reitor da Cultura e Ciência Aberta, e outros mais dignatários da renomada Instituição, motivo de orgulho para o executante. Vindo de Florença, o relevante pianista Marco Rapetti se fez presente em Coimbra e Tomar. Rapetti está a preparar sua tese de doutoramento que versará sobre nosso mais importante compositor romântico, Henrique Oswald, que viveu cerca de 30 anos na bela Firenze.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina3.MR-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" O pianista italiano Marco Rapetti e J.E.M. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/812.Joanina3.MR-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">As fotos foram tiradas por minha neta Valentina, subjugada que foi pela beleza da Biblioteca Joanina. Encantou-nos o convívio com o Professor Gouveia Monteiro e sua esposa Leonor. Consolidou-se um conceito que tive ao longo da existência, individual é certo, mas que me guiou durante a trajetória. Gosto imenso de retornar aos locais onde raízes se fincaram.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/812.Valentina-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Antecedendo o recital, Valentina e J.E.M. Ao piano, o ilustre medievalista,  Professor João Gouveia Monteiro, amante do piano, interpretava um Noturno de Chopin. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/812.Valentina-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>No próximo blog comentarei a palestra e o recital em Tomar, a cidade natal de Fernando Lopes-Graça, a acolhida que tivemos por parte do professor, musicólogo e regente coral António Sousa e sua esposa Rosário, e o prazer de festejar os 40 anos do meu primeiro recital na cidade. Num terceiro post a temática estará voltada à palestra no Centro Ward de Lisboa, a convite da ilustre gregorianista Idalete Giga, e às duas entrevistas concedidas na capital portuguesa.</p>
<p><em>I will divide the short tour of Portugal into three blogs. In this post, I&#8217;ll talk about the recital at Biblioteca Joanina in Coimbra. The following one will address the recital and lecture in Tomar, Fernando Lopes-Graça’s hometown, and finally the talk and the two interviews given in Lisbon.</em></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2022/06/25/12343/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
