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	<title>José Eduardo MartinsInterlúdio &#187; José Eduardo Martins</title>
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		<title>Vida e Morte</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Jun 2010 03:05:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[Aparição a Assustar Companheiras Aquele que ressurge é um novo homem. Provérbio vietnamita O homem tem por característica apegar-se às referências. Em quase todas as áreas e sentidos. Elas lhe dão segurança. Perdê-las pode ocasionar as mais variadas reações, motivadas pela ligação que se formou entre seres humanos. Há referências abstratas: não as conhecemos, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[</p>
<p><strong>Aparição a Assustar Companheiras</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/185.Fantasma-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/185.Fantasma-small.jpg" alt="Fantasma. Charge de Luca Vitali. Junho de 2010. Clique para ampliar." /></a>
</p>
<p><em>Aquele que ressurge é um novo homem.</em><br />
Provérbio vietnamita</p>
<p>O homem tem por característica apegar-se  às referências. Em quase todas as áreas e sentidos. Elas lhe dão segurança. Perdê-las pode ocasionar as mais variadas reações, motivadas pela ligação que se formou entre seres humanos. Há referências abstratas: não as conhecemos, mas aprendemos a admirá-las ou não. O negativo conteria igualmente carga referencial, que interfere longamente ou esporadicamente  sobre nós. Qual não é o impacto ao sabermos que determinada pessoa que conhecemos e estimamos desapareceu? Nos últimos dias fui surpreendido pela morte de figuras humanas sensíveis, de quem muito gostava. Por mais que a morte seja nossa única certeza, sempre há esse choque, mormente se afeto existe. Nada a fazer, a não ser nos conformarmos. Essas referências que partem permanecem com intensidade durante certo tempo e após, como bem frisava Fernando Pessoa, pouco a pouco se diluem. Tornam-se lembranças vagas, dependendo das gradações variáveis de afetos. É a realidade.<br />
Conversávamos descontraidamente: Luca, o pintor, Elson, o maratonista, e eu. O tema surgiu com naturalidade. No pequeno parque perto de minha casa, por dois anos, em 2006-07, realizei meus primeiros trotes, a visar ao aperfeiçoamento físico. Com o passar do tempo, o espaço, com pista de 300 metros e movimento constante, tornou-se impraticável, pois aumentei as passadas, a quilometragem e fui para as ruas, a correr de 6 a 10km três vezes por semana.  Luca é atento observador e o poeta do lápis ou pincel. Elson, o amigo certo. Bem mais jovem e rápido, dá-me constantemente preciosos conselhos. Autêntico guru do septuagenário corredor. Sou atento ouvinte e busco o aperfeiçoamento durante as corridas oficiais pelas avenidas e ruas da cidade.<br />
A certa altura, Elson e eu comentamos com Luca algo inusitado. Subíamos uma das ruas de nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, quando os amigos do cantinho dos aposentados, aqueles já tantas vezes mencionado em blogs anteriores, desciam. Contaram algo curioso. Como desapareci do parquinho por volta de 2008, lembranças ficaram, pois tínha o hábito de conversar amistosamente, após os exercícios, com vários frequentadores do espaço, então aprazível. Técnicas, alongamentos, respiração, passadas, tudo era motivo para um bom papo.<br />
Recentemente, vários de meus bons amigos aposentados, frequentadores do parque, mas inimigos dos exercícios físicos, discutiam sentados política, futebol ou o tempo – acredito firmemente &#8211; , quando, a certa altura, três senhoras que estavam a realizar marchas forçadas  encontraram-se e pararam em frente ao banco. Como falavam alto, os amigos silenciaram por momentos. Foi quando uma delas, dirigindo-se às duas outras, perguntou se sabiam algo do pianista que corria pelo parque após intensas quimioterapias. Mais silenciosos ficaram meus amigos. As senhoras, após dúvidas e questionamentos, chegaram a conclusão que o pianista já deveria ter morrido. Lamentaram o possível passamento e continuaram seus exercícios. Pianista e companheiro das marchas e leves corridas. Morto e sepultado.<br />
No encontro na rua aludida perguntei aos amigos se eles confirmaram a minha existência. Muito pelo contrário, pois, assim que as senhoras desapareceram em uma das curvas da pista, deram boas gargalhadas.<br />
Passaram-se semanas desse episódio. Em uma manhã em que estava a estudar piano para a longa <em>tournée</em> de Maio último, fui atender ao toque da campainha. Imediatamente reconheci uma de minhas conhecidas que andava e corria pelo parque e, com certeza, uma das que me entendia no além. Ao me ver, uma só frase, a traduzir estupefação e alegria: “Que bom !!! Você ainda vive !!!<br />
Na charge de Luca Vitali, <em>Fantasma</em>, não faltou o gavião que devorou os canários de meu vizinho Uyara (vide <em>A Vingança do Gavião – Falco Femoralis</em>. 11/04/08). Seu apetite voraz não poupa as &#8220;almas aladas&#8221;. </p>
<p><em>On my presumed death  and resurrection and the stare of sheer amazement of a fellow runner when she saw me alive and well.</em></p>
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		<title>“Tema e Variações”</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Jul 2008 02:55:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Programa da Rádio Cultura FM Este breve Interlúdio é um convite para o programa Tema e Variações, tão bem conduzido pelo excelente músico Júlio Medaglia, transmitido pela Rádio Cultura FM – 103.3 MHz. Os visitantes do Blog poderão ouvir a entrevista on line neste próximo Sábado, 5 de Julho, às 11 horas da manhã, clicando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Programa da Rádio Cultura FM</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/082.Paris60-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/082.Paris60-small.jpg" alt="Paris, 1960. Momento do caminhar" /></a></p>
<p><em></p>
<p>Este breve <em>Interlúdio</em> é um convite para o programa <em>Tema e Variações</em>, tão bem conduzido pelo excelente músico Júlio Medaglia, transmitido pela Rádio Cultura FM – 103.3 MHz. Os visitantes do Blog poderão ouvir a entrevista <em>on line</em> neste próximo Sábado, 5 de Julho, às 11 horas da manhã, clicando<a href="http://www.tvcultura.com.br/radiofm/radiofm.asx"><em> aqui</em>.</a></em></p>
<p>Causou-me alegria receber telefonema da Rádio Cultura FM, a fim de gravar um programa a convite do eclético e competente Maestro Júlio Medaglia, amigo dileto desde os anos 50.  Septuagenário ele também, lembrou-se da  efeméride do colega, e prazerosamente com ele gravei entrevista a abordar panoramicamente a minha trajetória. Perguntas sempre inteligentes de Medaglia foram respondidas como se estivesse a sobrevoar o meu passado. Escolhi peças curtas, mas representativas, entre aquelas existentes nos 18 CDs gravados no Exterior. Não inseri o seu <a href="http://www.joseeduardomartins.com/medaglia-choro.wma">Estudo-Choro</a>, pleno de humor, para evitar, mercê da modéstia do ilustre colega, uma negação. </p>
<p align="center"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/jem-e-medaglia.jpg" alt="Júlio Medaglia (direita) e J.E.M." /></p>
</p>
<p>Abre o programa um segmento do Concerto em lá menor de Grieg para piano e orquestra, sob a regência de Armando Belardi, gravado no longínquo 1957 e transmitido ao vivo pela Rádio Gazeta, (vide <em>Impressões Digitais Sonoras</em>, 10/04/07, categoria Música). Após um outro registro ao vivo em Moscou, em 1962, tem-se obras gravadas nestes últimos 13 anos para CDs internacionais. A uma arguta pergunta de Júlio a respeito de qual a minha maior emoção como pianista, frente a públicos os mais diversos em toda a carreira, disse-lhe, extraído de meu <em>de profundis</em>, que foi interpretar <em>Jesus Alegria dos Homens</em>, de J.S.Bach, na milenar capela de Sint-Hilarius, em Mullem, no silêncio e no isolamento, em memória   de  meu saudoso genro José Rinaldo. Eram cinco horas da manhã de um Fevereiro gélido na planície flamenga no ano de 2004, poucos dias após sua morte e ao final do último dia de gravações de um CD para o selo De Rode Pomp. Solicitei ao querido amigo e engenheiro de som Johan Kennivé que deixasse acesa apenas uma pequena lâmpada incidir tênue claridade. O extraordinário coral de Bach em transcrição de Myra Hess, que poderá ser ouvido novamente, não faz parte de nenhum CD programado, pois <em>insight</em> de emoções vividas, mas ecoou pelos espaços do templo como um apelo singelo (vide <em>José Rinaldo</em>, 25/01/08, categoria Cotidiano).<br />
Trajetórias são como impressões digitais. Nós podemos interferir escolhendo o caminho resultante do que somos na realidade. Todas as trajetórias têm intensidades meritórias ou não. Compete-nos dar sentido à senda traçada.</p>
</p>
<p><em>This is an invitation to my readers to listen to the program “Tema e Variações”, presented by the composer, arranger and conductor Júlio Medaglia  on Cultura radio, via FM, 103.3 MHz, to be broadcast on Saturday, 5 July , at 11 AM (Brazil time), celebrating my 70th anniversary.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Assunção – São Paulo</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Oct 2007 01:14:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[DC-3 do CAN Do trilho só entende quem o trilha. Adágio Popular Açoriano Estava a almoçar na Universidade com meu dileto amigo e colega Edelton Gloeden, excelente violonista, e este contou-me, entusiasmado, a respeito de um curso que dera em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, patrocinado pela Universidade Federal. Perguntou-me se conhecia a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>DC-3 do CAN</strong></p>
<p><img src="http://www.joseeduardomartins.com/dc-3.jpg" alt="Douglas DC-3" /></p>
<p><em>Do trilho<br />
só entende quem o trilha.</em><br />
Adágio Popular Açoriano</p>
<p>Estava a almoçar na Universidade com meu dileto amigo e colega Edelton Gloeden, excelente violonista, e este contou-me, entusiasmado, a respeito de um curso que dera em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul,  patrocinado pela Universidade Federal. Perguntou-me se conhecia a cidade. Disse-lhe que sobrevoara Campo Grande em baixa velocidade, lembrava-me das largas ruas e, superficialmente, do aeroporto. Contei-lhe o episódio.<br />
Em 1963, dei um curso de três semanas em Instituto Musical de Assunção, a convite de uma Companhia local e das Linhas Aéreas do Paraguai. Foi entre Outubro e Novembro, meses absolutamente quentes. O curso de interpretação pianística transcorreu bem e, ao final, dei um recital de piano transmitido pela Rádio para todo o país. Tempos do ditador Alfredo Stroessner (1912-2006). No intervalo da apresentação, o Embaixador do Brasil, o ilustre escritor, político e diplomata Mário Palmério (1916-1996), futuro membro da Academia Brasileira de Letras, em público, ofereceu-me alguns livros, entre os quais o premiado <em>Vila dos Confins</em> (li-o com enorme prazer) e um LP, dele constando algumas guarânias por ele compostas. Gentilmente asseverou que eu receberia um cachê do governo brasileiro, oferecendo a mim e à minha mulher o retorno ao Brasil pelo vôo do Correio Aéreo Nacional (CAN). Nossa intenção inicial era regressar  no dia seguinte utilizando o bilhete aéreo paraguaio, mas a nova passagem fez-nos permanecer mais dois dias na cidade e defrontamo-nos com duas “epopéias”: a do cachê, jamais recebido, apesar de  muitas missivas trocadas, e a viagem pelo glorioso CAN, que relevantes serviços prestou à nação em tantas décadas. O CAN realizava verdadeira interação deste país continente, atendendo também algumas nações  limítrofes. Fez-me lembrar, sob contexto outro, do extraordinário livro <em>Courrier Sud</em>, de Antoine de Saint-Exupéry.<br />
O percurso, que seria de aproximadamente duas horas, levou exatamente um dia. O avião, um Douglas DC-3, tipo de aeronave tão utilizada durante a Segunda Grande Guerra, tinha os bancos laterais de madeira e todos os tipos de personagens adentraram o avião, enquanto enormes pacotes abarrotaram outros espaços. Como o DC-3, incrivelmente estável, voava a baixa altitude e o calor era intenso, viajamos por muitas horas com as janelas abertas. O avião fez várias escalas, a fim de deixar e recolher correspondência e mercadorias. Pessoas desciam e subiam, quase como em ônibus urbano, e a cada decolagem minha mulher passava mal e tinha de acudi-la. Ponta Porã, Dourados, Campo Grande, Três Lagoas, dois ou três outros pousos em pistas de terra batida, cuja localização eu não saberia precisar, uma cidade do interior de São Paulo cujo nome não me lembro, e o destino final, que seria São Paulo. Ao sobrevoar, já à noite, o Aeroporto de Congonhas, desabava um aguaceiro violento, e o avião foi pilotado prudentemente até Viracopos. Outro era a momento histórico, em que interesses espúrios ainda não se mostravam pandêmicos. Esses pilotos militares eram super competentes, habituados a todo tipo de adversidade e atenciosos para com os passageiros, alguns descalços, pois pessoas simples da lavoura subiram e desceram em outros campos.<br />
Quando finalmente aterrissamos no aeroporto de Campinas, já com poucos passageiros, a tempestade chegou logo após, precedida por rajadas violentíssimas de vento. O DC-3, longe de ser um avião pesado, sentiria as conseqüências caso medida urgente não fosse tomada. O comandante solicitou um veículo, que recolheu mulheres, idosos e crianças, não sem antes pedir aos homens que permanecessem no interior do avião, a fim de ajudar a tripulação, formada por militares. Levados os escolhidos, e sob as ordens do comandante, descemos naquela ventania forte, já sob aguaceiro total, e tivemos a árdua tarefa de puxar com firmeza umas cordas para serem fixadas – não saberia precisar onde, devido à intempérie –, a fim de que o avião não ficasse à deriva. Serviço encerrado, fomos ao saguão e aconselhados a pernoitar no aeroporto, pois apenas no dia seguinte a aeronave seguiria para São Paulo. Foi-nos permitido dormir em casa de meus sogros em Campinas, mas a bagagem permaneceria no avião. Por tratar-se de vôo internacional, o desembarque teria de acontecer em São Paulo. Após uma noite curta, no final da madrugada já lá estávamos para o percurso definitivo.<br />
Com tantas viagens realizadas no decurso da existência, seria impossível rememorar todos os trajetos. Esse ficou marcado graças à gentileza do escritor Mário Palmério e às peripécias do percurso. Contá-lo a um amigo como Edelton serviu para boa descontração. A seguir, caminhamos dispostos para as aulas do período da tarde.      </p>
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		<title>&#8220;Carregadinha&#8221;</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2007/10/03/carregadinha-2/</link>
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		<pubDate>Thu, 04 Oct 2007 01:04:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[O Verdadeiro Povo Estar em um ônibus é sempre surpresa. Na terceira idade temos poucos privilégios, e um deles consiste em não pagar o bilhete, evitando a conturbada catraca. Neste país completamente à deriva, onde desmandos diários são cometidos, entre os que se salvam está a gente simples que encontramos a todo instante. A maioria, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O  Verdadeiro Povo</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/onibus-big.jpg" target="_blank"><img src="http://www.joseeduardomartins.com/onibus-small.jpg" alt="Av. Santo Amaro nos traços de John Howard, 1982" /></a></p>
<p>Estar em um ônibus é sempre surpresa. Na terceira idade temos poucos privilégios, e um deles consiste em não pagar o bilhete, evitando a conturbada catraca. Neste país completamente à deriva, onde desmandos diários são cometidos, entre os que se salvam está a gente simples que encontramos a todo instante. A maioria, felizmente, tem boa índole, daí o desinteresse da grande mídia, pois esse imenso povo não é violento nem pratica falcatruas.<br />
Presenciei no veículo público conversa que me fez rir interiormente. O motorista dialogava com um colega aposentado e entre os dois, duas moças humildes e bonitas interferiam prazerosamente no bate-papo. O aposentado, nordestino, dizia que, ao chegar a São Paulo, teve de lutar bravamente durante um ano. Tudo lhe faltava, abrigava-se em qualquer canto e só foi trocar de cueca meses após ter vindo, sabe-se lá como, de seu rincão natal.<br />
Asseverou ao colega, bem mais jovem, que nenhuma outra profissão era submetida a tanta pressão: ser assaltado ou assassinado, ter atenção mesmo cansado, sentir a poluição total, receber xingamentos várias vezes ao dia, obrigar-se a horas extras para o sustento de mulher e filhos, comer o que encontrar nos terminais, reter necessidades imperiosas&#8230; Repentinamente, disse haver compensações. Uma das moças perguntou-lhe quais seriam. Respondeu bem matreiro: <em>Namorar uma ou outra passageira, convidar para um churrasquinho, e&#8230;</em> continuou a sorrir, sem prolongar o assunto. As duas acharam graça da malícia do ex-motorista. Contudo, com semblante sério ao notar a descontração das meninas, continuou: <em>Certa vez entrou uma mulher bem carregadinha. Ao olhá-la, disse-me que o filho poderia ser meu. Pela madrugada!, retruquei. Se minha mulher estivesse aqui armaria o maior barraco.</em> E as duas moças riram gostosamente. Foi então que o motorista observou: <em>Companheiro, você tem muitas histórias.</em> O velho completou: <em>Um bom motorista precisa ser adivinhão, macumbeiro ou mágico&#8230;</em><br />
Continuaria a ouvi-los, mas tive de descer. Certamente os quatro prosseguiram em suas filosofias do cotidiano.    </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Pitangueira Documentada</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Sep 2007 20:37:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[Eugenia Michelli Je crois que nous allons être amenés à fort bien nous connaître, ce grand déodat élégant (cedro do Himalaia) et moi même, et même nouer des liens de profonde amitié que mon départ inéluctable, un jour, ne pourra pas briser. Paul Brunton No início do século XX, a extraordinária pianista Antonieta Rudge (1885-1974) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Eugenia Michelli </strong></p>
<p><img src="http://www.joseeduardomartins.com/pitangueira-small.jpg" alt="A pitangueira do nosso quintal - pormenor - foto: J.E.M., Set/07" /></p>
<p><em>Je crois que nous allons être amenés à fort bien<br />
nous connaître, ce grand déodat élégant</em> (cedro do Himalaia) <br />
<em>et moi même, et même nouer des liens de profonde amitié<br />
que mon départ inéluctable, un jour, ne pourra pas briser.</em><br />
Paul Brunton</p>
<p>No início do século XX, a extraordinária pianista Antonieta Rudge (1885-1974) ganhou de seu mestre, Luigi Chiafarelli (1856-1923), muda oriunda da pitangueira que o professor tinha em sua casa. Ao longo das décadas, a pianista mudou várias vezes de endereço mas, para onde fosse, replantava nova muda extraída da árvore que era deixada. Foi assim que, em 1971, após visita à Antonieta Rudge e ao grande poeta Menotti del Picchia na residência do casal à Av. Brasil, demonstrei admiração pela pitangueira do jardim que dava para a via pública. Serenamente, a pianista retirou da terra uma muda &#8211; certamente a seguir rito realizado tantas outras vezes &#8211; e me ofereceu, não sem antes contar a história da árvore frutífera.<br />
Recordo-me de ter trazido com o máximo carinho essa perpetuação de pouco mais de 30 centímetros. Encontrei um lugar no fundo do quintal, preparei bem a terra, plantei, agüei e, durante dias, ela foi tratada com a maior atenção até adaptar-se bem à nova morada.  A planta mirtácea, <em>eugenia michelli</em>, também conhecida por <em>ibipitanga</em> ou <em>eugênia uvalha</em>, crescia, ganhava e perdia folhas, brotava novamente e durante uns bons seis anos não surgiram flores, tampouco frutas. Decorrido esse período, pouco a pouco ela encorpou, cresceu e hoje já tem cerca de sete metros de altura, com boa expressão lateral, apesar das constantes podas. Euterpe e Santa Cecília, musa grega e padroeira da música, respectivamente, devem zelar pela herdeira de longa dinastia.<br />
A pitangueira é uma árvore especial, faz-nos entender a passagem das estações, pois as folhas caducam. Se nos trópicos convivemos com o  verde perene, aquelas árvores que ficam desnudas nos remetem às quatro fases distintas. Entramos na primavera e ei-la plena de generosidade a ofertar pitangas, essa fruta tão frágil, mas de sabor único. Nesse período, não conseguimos apanhar todos os frutos, mormente aqueles dos galhos superiores. A safra pode variar dependendo das chuvas e das temperaturas anuais, mas geralmente é boa, e todos curtem as frutas frescas ou as decorrências, pois geléia e licor fazem-nos lembrar da pitanga o ano inteiro. No verão, o verde pronunciado das folhas que brotaram contrasta com as cores de rolinhas, sabiás-laranjeira, pardais, bem-te-vis e maritacas, que buscam abrigo na velha árvore nos momentos de sol forte. Ao aproximar-se o outono, o vento faz cair as folhas já ressecadas que, ao encontrarem o chão, dão o derradeiro estalo, e esse espetáculo prolonga-se por mais de um mês. Finalmente, em pleno inverno, flores brancas e novas folhas de tonalidade verde-claro timidamente brotam dos galhos nus, e assistir a árvore renascer é uma alegria. No auge da queda das flores &#8211; prenúncio das frutas que virão a seguir -, a analogia se faz com uma tímida nevasca.<br />
O ciclo repete-se anualmente, a evidenciar que nós também estamos em constante renovação. A velha pitangueira “musical” tem sido seguida desde aquela muda entregue à grande pianista Antonieta Rudge pelo professor dedicado e nos conta história de mais de um século. Quando em 1994 o Departamento de Música da Universidade de São Paulo transferiu-se para o novo prédio no Conjunto das Artes, plantei no pátio muda extraída de nossa casa. Reza a sabedoria oriental que uma planta só atinge a sua plenitude quando cercada de amor. Treze anos se passaram. A nova pitangueira tem pouco mais de dois metros. Nunca frutificou&#8230; </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Rolinhas</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2007/09/19/rolinhas-2/</link>
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		<pubDate>Wed, 19 Sep 2007 03:59:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[Columbina Talpacoti No distante 1965, meu bom vizinho, o saudoso Seu Chico, cortou um galho de seu jasmim manga, que floresce em amarelo-rosa, e ofereceu-mo. Plantado em nosso pequeno jardim que dá para a rua, virou árvore, sofreu ao longo dos anos várias podas e, de Novembro a Março, o perfume das flores penetra pela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Columbina Talpacoti</strong></p>
<p><img src="http://www.joseeduardomartins.com/rolinhas-small.jpg" alt="Rolinhas - foto: J.E.M." /></p>
<p>No distante 1965, meu bom vizinho, o saudoso Seu Chico, cortou um galho de seu jasmim manga, que floresce em amarelo-rosa, e ofereceu-mo. Plantado em nosso pequeno jardim que dá para a rua, virou árvore, sofreu ao longo dos anos várias podas e, de Novembro a Março, o perfume das flores penetra pela casa. Está disponível  durante o ano, com total aceitação de sabiás e rolinhas, para nidificações.<br />
Diante do computador observei pela janela, há cerca de três meses, o primeiro impulso da renovação constante da natureza, o preciso instante do acontecido. Um casal de rolinhas, também conhecido pelo nome de rolinha-caldo-de-feijão, iniciava a construção de um ninho. Gravetos e outros materiais afins compuseram o espaço que abrigaria dois ovos. Cuidadosamente agasalhados pelo casal que se revezava, pouco menos de duas semanas após a postura nasceram os filhotes, que não podiam ser vistos, mas eram tratados com a maior dedicação pela dupla, que continuava a distribuição das tarefas. A nidificação foi feita a menos de dois metros das abelhas negras (<em>Dando Asas à Imaginação</em>, de 07/07/07, categoria Interlúdio), mas certamente rolinhas e as possíveis arapuás se entendem. Após dias seguidos de aguaceiro, em que havia permanentemente um  dos pássaros a proteger  o ninho, fez bom tempo. Dois filhotes já crescidinhos surgiram do fundo, e vê-los ensaiar as primeiras batidas de asa, rápidas mas hesitantes, foi prazeroso. No dia seguinte ainda lá estavam, mas algumas horas depois buscavam galhos próximos, sendo o abandono do ninho irreversível. À tardinha consegui fotografá-los em uma das ramificações da primavera-roxa (<em>Trochilidae</em>, de 14/03/07, categoria Interlúdio). A mãe &#8211; ou o pai &#8211; lá estava ao lado dos filhotes. Abandonou-os logo após e eles permaneceram na mesma posição durante a noite gélida. Possivelmente o grande teste. Pela manhã, já voavam da primavera ao jasmim manga, seguidos pelo casal que ainda lhes ofereceu alimentos. Depois&#8230;ganharam outros espaços. Voltarão certamente, mais crescidas e encorpadas. Outras rolinhas estão sempre no solo, buscando sementes que caem das gaiolas dos canários, pedaços de frutas, ou ainda pequenas larvas. Como têm mais de uma postura anual e reutilizam, por vezes, o mesmo ninho, voltarei a vê-las nidificar. Não têm receio da presença humana. O fato é que enriquecem o olhar. Bem-vindas.</p>
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		<title>Amolador à Antiga</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Sep 2007 18:53:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[Dignidade Mantida Lembranças sempre vêm quando nos deparamos com o estímulo a aguçar analogias. Quando miúdo, diariamente convivíamos com artesãos solitários ou vendedores, que se tornavam partícipes do cotidiano. Estou a me lembrar dos anos 40, quando verdureiro, engraxate, amolador, vendedor de leite de cabra a puxar por um corda alguns animais, entregador de leite, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Dignidade Mantida</strong></p>
<p><img src="http://www.joseeduardomartins.com/amolador-small.jpg" alt="Seu Constantino - Amolador; foto: J.E.M." /></p>
<p>Lembranças sempre vêm quando nos deparamos com o estímulo a aguçar analogias. Quando miúdo, diariamente convivíamos com artesãos solitários ou vendedores, que se tornavam partícipes do cotidiano. Estou a me lembrar dos anos 40, quando verdureiro, engraxate, amolador, vendedor de leite de cabra a puxar por um corda alguns animais, entregador de leite, todos a passar pela calçada de nossa casa em dias certos, dando-nos uma alegria que se foi estiolando a partir do crescimento mal planejado da cidade. Recordo-me dos triciclos que traziam, do filão, da pescada num grande bagageiro em zinco, pleno de  pedaços de gelo. Havia garrafeiros e catadores de papel, aqueles dando  uns trocadinhos por certas garrafas, estes a pesar jornais velhos em  balança manual. Sabíamos os nomes de todos, e era sempre um prazer vê-los em suas atividades. Os sons ficaram no <em>de profundis</em>: os guizos das cabras a tilintarem à distância eram a certeza do bom leite a ser tomado <em>in loco</em>; a flauta de Pã do amolador, a correria em busca de facas, canivetes, tesouras de minha mãe, navalhas de meu pai que, após cuidadoso trato,  ficavam afiadíssimos. Pregões de vendedores, quando próximos ao portão, ressoavam pelo quintal, a identificar os personagens. Havia cordialidade e tempo para estreitar relações. A urbe descontrolada e imensa, a violência à espreita, a pressa que leva ao individualismo, o anonimato forçado pelas contingências, tudo contribuiu para o desaparecimento daquele maravilhamento que a criança via e ouvia. Mas a infância tem essa magia de proporcionar a tardia visitação às imagens retidas, de maneira clara, sem névoas.<br />
Se aquele universo acalentado, ao ser rememorado, esvaiu-se, é uma felicidade verificar um remanescente que persiste, na evidência de que nem tudo desapareceu. Aos domingos, sempre por volta do meio-dia, um amolador à antiga passa há anos pelas ruas de minha cidade-bairro, o Brooklin. De longe faz-se ouvir através de sua flauta de Pã,  instrumento que remonta ao deus grego dos pastores. Hoje de plástico, na minha infância de lata ou madeira. Povos andinos, da Oceania e dos Bálcãs empregam essa flauta em suas danças e folguedos. Em nossas terras, flauta de Pã e gaita de boca ficaram associadas à presença de um amolador. Escalas rápidas ascendentes e descendentes têm as intensidades variadas determinadas pela aproximação e afastamento desse especialista. Exatamente como aquelas que ouvia quando pequeno.<br />
Estava a estudar e parei. Fui ter com o Seu Constantino, espanhol que há 47 anos exerce  o trabalho em São Paulo, após três na Espanha. Aos 79 anos, ei-lo em sua moto antiga, ferramentas e a pedra de esmeril. Aciona o motor, afia o que lhe entregam, toca a flauta de Pã e sempre surgem clientes que o conhecem e confiam em seu trabalho impecável. Exatamente como o amolador de minha infância. Fixo a sua imagem, que poderia ficar acoplada, sem retoques, àquela guardada nos anos 40. Seu Constantino, após trabalho feito, sobe em sua moto, aciona-a e parte lentamente, sempre a tocar as mesmas escalas. Os sons se distanciam e eu vou ao encontro daqueles outros, de meu piano. </p>
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		<title>Dando Asas à Imaginação</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Jul 2007 03:26:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[Meliponideos &#8211; Abelhas do Convívio O inverno está a começar e raios solares atenuam-se graças à sua menor incidência sobre o hemisfério sul nesse período. Num fim de tarde agradável, quando o sol já buscava ocultar-se, observei que um pequeno foco de luz recaia diretamente sobre a entrada de uma colméia logo abaixo de minha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Meliponideos &#8211; Abelhas do Convívio</strong></p>
<p><img src="http://www.joseeduardomartins.com/abelhas.jpg" alt="A colméia entre as ramas da unha-de-gato. Foto J.E.M." /></p>
<p>O inverno está a começar e raios solares atenuam-se graças à sua menor incidência sobre o hemisfério sul nesse período. Num fim de tarde agradável, quando o sol já buscava  ocultar-se, observei que um pequeno foco de luz recaia diretamente sobre a entrada de uma colméia logo abaixo de minha janela. Presenciava um espetáculo rotineiro extraordinário. A luz mostrava-se tênue, realçando o cenário. As pequenas abelhas negras, sem ferrão, mergulhavam em vôos rápidos e rasantes no orifício de pouco mais de sete centímetros de diâmetro, a buscarem proteção durante a longa noite. Era uma sucessão contínua, que se prolongou. Pouco a pouco fazia-se sombra e rapidamente começou a escurecer.<br />
Fiquei a pensar durante um bom tempo. Que relação plena com os filmes de ficção, onde pequenas naves espaciais recolhem-se à nave mãe! Exatamente da mesma maneira e com a mesma precisão. Nos filmes, geralmente não há equívocos, a depender dos roteiros. Na natureza, as abelhas fazem essas incursões sem jamais errar. Absoluta competência.<br />
Há trinta e tal anos convivo com essa colméia. Diria que faz parte da família. Essas abelhas, em suas muitas gerações a povoarem o mesmo local, inicialmente construíram  sua morada na compacta vegetação conhecida como <em>unha de gato</em>, que com o tempo tudo cobriu, exceção à entrada. Um volume apreciável é possível perceber. Não ferroam, mas causam um grande transtorno àqueles que se aproximam, a fim de aparar as ramas da <em>unha de gato</em>. Estou a me lembrar de um velho jardineiro, que durante muitos anos freqüentou nossa casa para podar essa  trepadeira tão comum. Munia-se de um pano sobre a cabeça, óculos de piscina, tampão para os ouvidos, luvas e ia ao corte. Praguejava sempre quando nesse mister. Após o ótimo trabalho do bom homem, tinha por hábito olhar para a entrada da colméia a ver, com mais clareza, a rotina de entrada e saída das pequenas abelhas negras. Num determinado dia, não vi esse movimento. Subi numa escada e, devidamente protegido, verifiquei<em> in loco</em> que o apavorado jardineiro havia introduzido um pano embebido em querosene à entrada da colméia de minhas velhas amigas. Retirei o trapo com o devido cuidado, elas vieram sobre mim, mas tudo se passou bem, pois entendia de longa data as reações desses insetos tão necessários. Dizem que essas abelhas produzem ótimo mel e, como não ferroam, imiscuem-se pelos cabelos, tornando-os uma pasta, ou então azucrinam os ouvidos. Alguns as chamam de Abelha Cachorro, mercê do ruído, outros de Jataí&#8230; O certo é que todas as abelhas são insetos <em>Hymenopteros</em>, da extensa comunidade <em>Apoidea</em>. Se denominações variam, dependendo das regiões, o certo é que as pequenas abelhas negras em questão, minhas vizinhas tão próximas, são familiares. Não raras vezes, uma delas entra em meu quarto, permanecendo longos momentos. Após, busca o seu <em>habitat </em>original. Essa colméia tão antiga integrou-se à minha história. Partilhamos uma convivência tranqüila. Que continuem seu destino de fidelidade à velha morada!   </p>
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		<title>Porto</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Jun 2007 03:17:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[Kiki Porto deu nome ao país Portugal. Na Antologia reunida pelo grande poeta Eugênio de Andrade, Daqui Houve Nome Portugal (1968), há textos a relatarem a trajetória do Porto, desde os primórdios da cidade até a atualidade. Li com entusiasmo, em edição recente, esses textos recolhidos, a apontarem interpretações sobre o Porto através dos séculos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Kiki</strong></p>
<p align="center"><img src="http://img61.imageshack.us/img61/3575/photo10240qm1.jpg" alt="O 'elétrico' do Porto" width="213" height="317"/></p>
<p>Porto deu nome ao país Portugal. Na Antologia reunida pelo grande poeta Eugênio de Andrade, <em>Daqui Houve Nome Portugal </em>(1968), há textos a relatarem a trajetória do Porto, desde os primórdios da cidade até a atualidade. Li com entusiasmo, em edição recente, esses textos recolhidos, a apontarem interpretações sobre o Porto através dos séculos. Cidade extraordinariamente linda por tantos aspectos &#8211; a austera Sé Catedral, as belas igrejas construídas durante o milênio anterior, monumentos, museus, ruas estreitas, o Douro a serpentear em direção à Foz, realçando as encostas com suas construções históricas -, poder-se-ia afirmar ser ela parte considerável da enciclopédia portuguesa.<br />
Muitas vezes estive no Porto, mas há vinte anos, quando cá estou, fico na bela morada de minha dileta amiga Maria de Lurdes Álvares Ribeiro, à Rua do Passeio Alegre, junto à Foz. Simplesmente Kiki para quem a conhece, das crianças aos adultos, a professora tem uma larga experiência na educação musical, sobretudo entre os miúdos, como carinhosamente são chamados os pequenos aqui em Portugal. Tendo feito estudos pianísticos aprofundados, Kiki encontrou caminhos que a levaram a ter uma pedagogia própria, que realmente aproxima as crianças e os jovens da magia que é a Música. Está sempre atenta a todos os métodos inovadores de ensino para, através do piano, estimular o despertar infanto-juvenil no universo dos sons. No Conservatório de Braga, aplicou seus conhecimentos durante 36 anos.<br />
Viajou o mundo. Em Dili, no Timor, deu o primeiro recital de piano aos timorenses. A uma pergunta, respondeu-me: &#8220;senti-me útil à comunidade local&#8221;. É este sentir-se útil, integrando-se aos povos, que a levaram aos Açores &#8211; durante um ano &#8211; e a tantos países da Europa, do leste ao oeste, ao Japão, às Américas, colhendo experiências de vida para enriquecer a prática pedagógica em cidades portuguesas e outras mais. E obtém resultados surpreendentes.</p>
<p align="center">
<img src="http://img72.imageshack.us/img72/5332/photo10228hn7.jpg" alt="A Ribeira, foto J.E.M"/></p>
<p>Conversamos muito. Seus dois pianos de cauda estão sempre generosamente abertos para os estudos deste amigo e de tantos outros que a visitam. Faço de sua casa meu porto seguro no Porto, epicentro de meus recitais ao norte de Lisboa. Desta vez, em acréscimo, participo de um júri na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto. A família de Kiki, uma união permanente, de Michu e Manuel, irmã e cunhado que vivem no andar superior ao de minha amiga, aos outros irmãos e às dezenas de sobrinhos e primos. Ao todo, cerca de 500 familiares! Conheço muitos de seu clã e pude comprovar esse convívio intenso. Percorrer a Biblioteca da amiga, conservada desde muitas gerações, a levar-nos às edições originais de obras fundamentais da literatura portuguesa dos séculos XVII e XVIII, é um privilégio. Ir com Kiki, todas as vezes que passo pela cidade, à Ribeira, onde nos espera o típico <em>Tripas à moda do Porto</em>, um prazer especial. Após a prática pianística, por vezes percorremos o belo jardim que separa sua morada do ponto de encontro do Douro com o mar. Seria possível compreender a ação da natureza sobre Kiki. Essa confluência das águas, a provocar, em tantas oportunidades, vagas imensas, teria forjado nela a inquietação, a independência, o destemor, o gosto pelo inusitado. Kiki é uma personagem da história da sociedade portuense. Absolutamente típica, todavia única em sua maneira de entender a vida.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Braga</title>
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		<pubDate>Thu, 31 May 2007 03:03:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Impressões de Viagens]]></category>
		<category><![CDATA[Interlúdio]]></category>

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		<description><![CDATA[Bracara Augusta, a Terra Paterna Aos 11 de Junho de 1898, nascia em Braga José da Silva Martins, meu pai. Viajou para o Brasil em 1928 e nunca mais voltou à terra, vindo a falecer em 2000, aos 102 anos. Naturalizou-se brasileiro, mas incutiu em minha mãe e em meus três irmãos o amor a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Bracara Augusta, a Terra Paterna</strong></p>
<p><img src="http://img135.imageshack.us/img135/4366/bragasmallcl9.jpg" alt="Gravura da Igreja de Sta. Cruz, em Braga" width="240" height="360"/></p>
<p>Aos 11 de Junho de 1898, nascia em Braga José da Silva Martins, meu pai. Viajou para o Brasil em 1928 e nunca mais voltou à terra, vindo a falecer em 2000, aos 102 anos. Naturalizou-se brasileiro, mas incutiu em minha mãe e em meus três irmãos o amor a Portugal e, em particular, a Braga. Não fazia distinção entre os dois países, tão intrinsicamente ligados.<br />
Estive várias vezes na cidade, mas o presente recital foi o primeiro. Deu-se no Conservatório Calouste Gulbenkian. Após comentar as obras que seriam apresentadas, dediquei o recital à memória de meu pai. Negar que estava emocionado, impossível seria.<br />
Em fins de Maio tarda a anoitecer na Europa. Tendo ensaiado no belo auditório dessa imensa Instituição de Ensino, fui à janela da sala contígua e ouvi um melro a cantar, melodia bem diferente daquela dos melros de Mullem, na Bélgica. Encimando um beiral,  seu canto era uma despedida da tarde chuvosa. Olivier Messiaen já dizia que os pássaros acumulam os cantos através dos anos. Fascinam aqueles que lhes dão ouvidos. Lembrei-me do pai. Desde a infância, minha mãe, meus irmãos e amigos costumávamos ouvi-lo declamar poemas luso-brasileiros. Em sua longa existência soube recitar, de memória, cerca de 350 poesias. Um dos prediletos era o belo, longo e trágico poema de Guerra Junqueiro, <em>O Melro</em>:<br />
<em></p>
<p align="center">
O melro, eu conheci-o:<br />
Era negro, vibrante, luzidio,<br />
madrugador, jovial;<br />
Logo de manhã cedo<br />
Começava a soltar, dentre o arvoredo,<br />
Verdadeiras risadas de cristal.</em></p>
<p>Lembrei-me com afeto dos versos que fazem parte de meus acúmulos. O canto do pássaro e as reminiscências, <em>à la manière </em>de Marcel Proust, estimularam-me para a performance. Entrei no palco pleno de uma nostálgica alegria. Busquei o melhor de mim, pois algo místico estava a acontecer. De onde estiver, meu pai captou a mensagem.</p>
]]></content:encoded>
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