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	<title>José Eduardo MartinsLiteratura &#187; José Eduardo Martins</title>
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		<title>La Rochefoucauld (1613-1680) (I)</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Aug 2026 03:05:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Máximas morais É uma das obras que mais contribuiu para formar o gosto da nação e para lhe incutir um espírito de exatidão e precisão… Acostumou as pessoas a pensar e a expressar os seus pensamentos de forma ágil, precisa e delicada. Voltaire (1694-1778) (“Le siècle de Louis XIV”) Por que não se leem mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Máximas morais</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1029.DucFrançois-big.jpg" target="_blank"><img title="François de La Rochefoucauld. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1029.DucFrançois-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>É uma das obras que mais contribuiu para formar o gosto da nação<br />
</em><em>e para lhe incutir um espírito de exatidão e precisão…<br />
</em><em>Acostumou as pessoas a pensar e a expressar<br />
</em><em>os seus pensamentos de forma ágil, precisa e delicada.<br />
</em>Voltaire (1694-1778)<br />
(“Le siècle de Louis XIV”)</p>
<p><em>Por que não se leem mais<br />
</em><em>os grandes mestres da sentença psicológica?<br />
</em><em>– pois, sem qualquer exagero:<br />
</em><em>o homem culto que tenha lido La Rochefoucauld<br />
</em><em>e seus pares em espírito e arte é coisa rara na Europa;<br />
</em><em>e ainda mais raro aquele que os conheça e não os insulte.<br />
</em>Nietzsche (1844-1900)<br />
(“Humano, Demasiado Humano”)</p>
<p style="text-align: justify;">Há meses que não encontrava Marcelo na feira livre do Campo Belo. É um amigo que prezo e admiro, inúmeras vezes presente ao longo dos anos neste espaço. Leitor assíduo dos blogs hebdomadários, por vezes sugeria um tema que me fazia pensar e geralmente se transformava em blog. O encontro se deu nesse último sábado. Após a feira livre, como sempre fazemos nesses raros, mas agradáveis encontros, fomos tomar um <em>curto</em> nas cercanias, e a conversa se estendeu. Falou-me das epígrafes que insiro e de algumas que coloquei nos posts bem anteriores, entre as quais as do “Adagiário Açoriano”. Infelizmente, após a mudança de morada no ano passado não mais encontrei os dois volumes contendo as frases tão pitorescas e oriundas da tradição oral do povo do arquipélago dos Açores. Igualmente lhe agradaram inúmeras citações e pensamentos do pensador português Agostinho da Silva (1906-1994), que serviram de introdução a inúmeros <em>posts</em>. Disse-me que arquivou todos esses aforismos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao regressar da feira livre pensei nas “Máximas morais e reflexões diversas” de François de La Rochefoucauld, geradas por uma das mentes mais brilhantes em França no século dezessete e obra que influenciaria gerações futuras. De um livro que pertenceu ao meu Pai e que tive o prazer de ler na juventude, extraí algumas máximas relevantes (“Les Maximes de La Rochefoucauld”, Paris, Flammarion, 1937) a partir do texto da quinta edição (1678), sob o título: “Réflexions ou sentences et maximes morales”.</p>
<p style="text-align: justify;">O Duque François de La Rochefoucauld nasceu em Paris e descendia de família pertencente à nobreza. Foi uma ilustre figura do século dezessete, pois escritor, moralista e também militar.  Teve atritos com os cardeais Richelieu e Mazarin, assim como com Luíz XIV. Como militar, participou das revoltas da Fronde (1648-1653). Em uma escaramuça no <em>faubourg Saint-Antoine</em>, foi gravemente ferido com um tiro de mosquete no rosto. Posteriormente exilou-se em seus domínios. As Máximas de La Rochefoucauld, pela amplitude de seus propósitos, imortalizaram o autor.</p>
<p style="text-align: justify;">O autor do longo prefácio do livro mencionado, J.-F. Thénard, sintetiza os efeitos da escolha literária de La Rochefoucauld: “Ele viveu neste mundo, mais como um espírito brilhante do que como um erudito, mas nasceu pensador e escritor de gênio — quero dizer, por instinto. Tendo surgido em uma época conturbada e frívola, dedicou-se a reproduzir as reflexões suscitadas pelo ambiente em que se encontrava. Se o autor das Máximas tivesse sido alimentado por profundos estudos históricos e filosóficos, se, ao pegar na caneta, tivesse podido evocar em seu pensamento os homens e as coisas dos antigos anais dos diversos povos, juntamente com os julgamentos proferidos por escritores de grande prestígio, poderíamos acreditar que ele não teria sido tão amargo, tão desanimador às vezes na análise que faz dos sentimentos íntimos do homem; mas teria perdido parte de seu eu, de sua originalidade.”</p>
<p style="text-align: justify;">Distanciam-se as máximas, citações ou pensamentos do romance ou das narrativas literárias, pelo fato de traduzirem aquilo que o autor pensa no seu cotidiano, expondo, através da escrita, o que está no seu <em>de profundis</em>. As centenas de Máximas de La Rochefoucauld são o seu retrato mental.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Jean-François Dandrieu (1682?-1738) e de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), nascidos pouco após a morte de La Rochefoucauld, “Les Tourbillons”, criações com o mesmo título utilizado pelos dois compositores, na interpretação de J.E.M.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=203s">https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=203s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Selecionei diversas máximas, entre centenas, e cujo teor básico perdura através dos séculos. Há temas sobre os quais La Rochefoucald mais se debruçou, entre esses: mérito, orgulho, paixões, amor, amor-próprio, espírito, interesse, elogios, humor, amizades&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1029.Maximes-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1029.Maximes-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>A clemência dos príncipes não é senão uma política para ganhar a afeição dos povos.<br />
Essa clemência, tida como virtude, se pratica ora por vaidade, às vezes por preguiça,<br />
muitas vezes por medo, e quase sempre pelas três razões juntas.</em></p>
<p><em>A esperança, por mais enganosa que seja, serve pelo menos para nos conduzir,<br />
até o fim da vida, por um caminho agradável.</em></p>
<p><em>Longe disso: a inocência não encontra tanta proteção quanto o crime.</em></p>
<p><em>Se não tivéssemos defeitos, não teríamos tanto prazer em percebê-los nos outros. </em></p>
<p><em>A felicidade está no gosto e não nas coisas; é por ter o que amamos que somos felizes,<br />
e não por ter o que os outros consideram agradável.</em></p>
<p><em>O orgulho é igual em todos os homens,<br />
a única diferença está nos meios e na maneira de manifestá-lo.</em></p>
<p><em>O mundo costuma premiar mais as aparências do mérito do que o próprio mérito.</em></p>
<p><em>O amor à justiça não passa, na maioria dos homens, do medo de sofrer injustiça.</em></p>
<p><em>A verdade não traz tanto bem ao mundo quanto as aparências causam mal.</em></p>
<p><em>A ausência diminui as paixões medíocres e intensifica as grandes,<br />
tal como o vento apaga as velas e acende o fogo.</em></p>
<p><em>Há pessoas que nunca se teriam apaixonado se nunca tivessem ouvido falar do amor.</em></p>
<p><em>Muitas vezes passamos do amor à ambição, mas raramente voltamos da ambição ao amor.</em></p>
<p><em>Uma mulher honesta é um tesouro escondido;<br />
quem a encontrou faz muito bem em não se gabar disso.</em></p>
<p><em> Um homem a quem ninguém agrada é muito mais infeliz do que aquele que não agrada a ninguém.</em></p>
<p><em>Embora os homens se orgulhem de suas grandes ações,<br />
elas nem sempre são fruto de um grande desígnio,<br />
mas sim do acaso.</em></p>
<p><em>Como é próprio das grandes mentes expressar muitas coisas com poucas palavras,<br />
as mentes mesquinhas, pelo contrário, têm o dom de falar imenso e não dizer nada.</em></p>
<p><em>Costuma-se fazer alarde até mesmo das paixões mais criminosas;<br />
mas a inveja é uma paixão tímida e vergonhosa,<br />
que nunca se ousa confessar.</em></p>
<p><em> Os idosos gostam de dar bons conselhos para se consolar<br />
por já não estarem em condições de dar maus exemplos.</em></p>
<p><em>Um homem de espírito ficaria muitas vezes bastante constrangido sem a companhia dos tolos.</em></p>
<p><em>A recusa aos elogios é o desejo de ser elogiado duas vezes.</em></p>
<p><em>Somente aos grandes homens cabe ter grandes defeitos.</em></p>
<p><em>Os defeitos da alma são como as feridas do corpo: por mais cuidado que se tenha para curá-los,<br />
a cicatriz sempre fica visível, e eles correm o risco de se reabrir a qualquer momento.</em></p>
<p><em>O mesmo orgulho que nos leva a criticar os defeitos dos quais acreditamos estar isentos<br />
nos leva a desprezar as qualidades que não possuímos.</em></p>
<p><em>Chegamos como novatos às diversas fases da vida e, muitas vezes, carecemos de experiência,<br />
apesar do número de anos.</em></p>
<p><em>Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente.</em></p>
<p>No próximo blog apresentarei um dos textos das &#8220;Réfléxions diverses” de La Rochefoucauld: “De la Retraite”, no qual o autor observa com agudeza o período final da existência.</p>
<p><em>La Rochefoucauld&#8217;s Maxims, written in the 17th century, are timeless and capture the essence of what it means to be human.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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<hr size="1" />
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<p><a href="file:///C:/Users/conta/Downloads/La%20Rochefoucauld%20-%202%C2%AA%20revis%C3%A3o.docx#_msoanchor_1">[JEM1]</a></p>
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<p>&nbsp;</p>
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		<title>Arthur Honneger (1892-1955) (II)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/07/18/arthur-honneger-1892-1955-ii/</link>
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		<pubDate>Sat, 18 Jul 2026 03:05:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Relevantes comentários sobre o ato de compor As palavras que eu emprego são aquelas que vocês empregam todos os dias, entretanto, vocês me dizem não as reconhecer. Paul Claudel (1868-1955) Será que toda a criação artística não se resume ao uso extraordinário de materiais comuns? Bernard Gavoty (1908-1981) Há compositores que escrevem facilmente uma música [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Relevantes comentários sobre o ato de compor</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1026.Honneger-big.jpg" target="_blank"><img title="Arthur Honneger. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1026.Honneger-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>As palavras que eu emprego<br />
</em><em>são aquelas que vocês empregam todos os dias,<br />
</em><em>entretanto, vocês me dizem não as reconhecer.<br />
</em>Paul Claudel (1868-1955)</p>
<p><em>Será que toda a criação artística não se resume<br />
</em><em>ao uso extraordinário de materiais comuns?<br />
</em>Bernard Gavoty (1908-1981)</p>
<p><em>Há compositores que escrevem facilmente uma música difícil<br />
</em><em>e outros que escrevem com dificuldade uma música fácil.<br />
</em>Georges Auric (1899-1983)</p>
<p style="text-align: justify;">No post anterior abordei as considerações de Arthur Honneger às perguntas do crítico Bernard Gavoty, respondidas pelo compositor imbuído de uma visão cética e pessimista no que concerne à repetição <em>ad aeternum </em>do repertório sacralizado, assim como ao público, mais  propenso a assistir ao espetáculo para ver o regente e o pianista consagrados. Insiste Honneger na dificuldade de uma divulgação maior das obras contemporâneas no período do início dos anos cinquenta (1951).</p>
<p style="text-align: justify;">No presente post focalizo determinadas explicações de Honneger às questões propostas, envolvendo temas direcionados ao <em>métier</em> de compositor e à própria criação, assinalando o processo embrionário que conduz ao surgimento da obra na mente do autor, assim como o julgamento bem pessoal sobre a matéria como um todo antes da materialização sobre o papel pautado ― hoje, sob as várias modalidades eletrônicas ―, dando a conhecer ao leigo o sentido esotérico da criação musical, se comparado a outras manifestações criativas. Detém-se igualmente no estado atual da composição e do seu futuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Em vários segmentos enfatiza a diferença entre a criação musical e as relacionadas à literatura e outras artes: “Eu mesmo me lembro de ter feito comentários a pintores que os deixavam furiosos. Eu lhes dizia: ‘Como sua arte é fácil! Vocês reproduzem um modelo que viram. Vocês podem, durante anos de sua vida, pintar três maçãs em um prato. Essas três maçãs, vocês poderiam colocá-las à sua frente e reproduzi-las. Vocês têm um modelo que existe. Vocês pintam uma natureza morta, representando uma garrafa de vinho, um cachimbo, um pedaço de linguiça; ou então, desenham uma bela mulher nua ou, ao contrário, bem vestida. Tudo isso está ao alcance do seu olhar. O gênio do escultor consiste em dar a um corpo, que ele conhece anatomicamente,  um impulso que expresse sua personalidade. Ele também tem o modelo diante dos olhos quando trabalha. O músico precisa primeiro inventar seu modelo na mente e, em seguida, reproduzi-lo. Se eu quiser compor uma sonata para piano e violino, não tenho absolutamente nada diante dos olhos nem na memória. Preciso inventar tudo”. Gavoty questiona se sonatas diversas servem de modelo. A resposta de Honneger é transparente: “Uma outra sonata pode, efetivamente, servir de modelo, mas o que importa é o material sonoro, os temas, as melodias, os ritmos. Se eu copiar, sou um epígono consciente, mas inútil.” Tem interesse a continuação desse inventar a partir do conhecimento, mas sem plágio: “É necessário inventar um modelo pessoal no abstrato e idealizá-lo. Mas esse modelo não terá forma definitiva antes de ser realizado, pois a partir do material empregado o modelo mudará de figura. Repentinamente, o nariz da estátua terá um outro nariz. Seu aspecto, suas proporções se modificarão e me levarão a transformar a bela dama nua num leopardo”.</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Arthur Honneger, </span><em style="text-align: justify;">Danse de la chèvre </em><span style="text-align: justify;">(1919), na interpretação da flautista Amélie Brodeur:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hQp3kQEfjfk">https://www.youtube.com/watch?v=hQp3kQEfjfk</a></p>
<p style="text-align: justify;">Capta-se, através dos relatos do compositor Honneger, o rigor e a certeza da solidão quando no momento preciso da criação. Raramente um compositor descreve esses momentos únicos em que fluem as ideias que resultarão na obra musical. Tem sempre interesse observar partituras manuscritas numa primeira fase, quando compositores que escreviam em papel pautado rasuravam compassos ou páginas inteiras. O caso de Mozart (1756-1791) é precioso, pois as ideias de uma obra germinavam até a certeza do ato da escrita, que se dava sem rasuras. Honneger escreve: “Como eu trabalho? Posso definir os meus métodos? Não estou bem certo.  Para fazer isso direito, seria preciso conseguir descrever um trabalho que se passa exclusivamente dentro do crânio, romper a barreira atrás da qual algo está acontecendo. A composição musical é a mais misteriosa de todas as artes. É possível aprender observando um pintor ou um escultor trabalhar. Muitos literatos ditam seus livros; portanto, trabalham diante de testemunhas. Mas no momento em que um músico concebe uma sinfonia, no instante em que compõe, ele está sozinho nas trevas”. Em outra passagem, considera: “Adquiri o hábito de rever, todas as noites antes de dormir, o que fiz durante o dia. No fim das contas, é ótimo fazer um balanço de consciência.”</p>
<p style="text-align: justify;">Uma das qualidades de “Je suis compositeur” é a revelação plena daquilo que Honneger sente, pois tantos são os artistas, sejam eles pintores, escultores ou as personalidades das letras, que não revelam o que se passa no <em>de profundis</em>, sendo que inúmeras figuras de grande relevo, em suas entrevistas, missivas ou relatos, têm a consciência de  que encontrarão recepção positiva. Grande parte das respostas de Honneger desmistificam a aura criada, nem sempre correspondendo à interioridade do ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Entendo que “Je suis compositeur” é atemporal. Os dois posts sobre o livro traduzem o vaticínio daquilo que se está a presenciar na atualidade em termos da criação artística nas várias áreas. Arthur Honneger, profético e autêntico passados 75 anos dos testemunhos. <strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Tendo recebido mensagem da amiga Luzia Benda, musicista e pedagoga, viúva do notável pianista e músico Sebastian Benda, com material alusivo ao seu centenário (1926-2026), dedicarei um post em sua homenagem. Curiosamente, li no rico material que, aos 11 anos (1937), Sebastian recebia uma carta de Arthur Honneger salientando a precoce vocação do menino.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>In this second post on Arthur Honegger’s “Je suis compositeur,” in which he answers questions from critic Bernard Gavoty, the musician focuses on the composer’s craft as compared to those in various other artistic </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Arthur Honneger: “Je suis compositeur” (I)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/07/11/arthur-honneger-%e2%80%9cje-suis-compositeur%e2%80%9d-i/</link>
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		<pubDate>Sat, 11 Jul 2026 03:05:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Testemunho precioso do músico franco-suíço Na estrada por que vou Não fujo do meu norte. Edmundo Bettencourt (1899-1973) Leitores se interessaram pelas posições do compositor franco-suíço Arthur Honneger (1892-1955) colocadas nos posts sobre o Grupo dos Seis em França. Nem todos os músicos revelam as suas opiniões sobre música e outras artes em suas missivas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Testemunho precioso do músico franco-suíço</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1025.arthurh-big" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1025.arthurh-small.jpg" alt="" /></a><br />
<em> </em></p>
<p><em>Na estrada por que vou<br />
Não fujo do meu norte.<br />
</em>Edmundo Bettencourt (1899-1973)</p>
<p style="text-align: justify;">Leitores se interessaram pelas posições do compositor franco-suíço Arthur Honneger (1892-1955) colocadas nos posts sobre o Grupo dos Seis em França. Nem todos os músicos revelam as suas opiniões sobre música e outras artes em suas missivas ou em textos diversos. Importa considerar que Honneger teve por vezes colocações distintas de seus pares. Três leitores perguntaram se haveria tradução do livro “Je suis compositeur” para o portuguêss. Infelizmente não.</p>
<p style="text-align: justify;">O mesmo título afirmativo foi aplicado à série de depoimentos de figuras ilustres e proposto pelo organista, escritor e crítico musical francês Bernard Gavoty (1908-1981), também conhecido pelo pseudônimo Clarendon, para a “Collection “Mon Métier”. Assim surgiram depoimentos vários: “Je suis Couturier”, Christian Dior, “Je suis homme de théatre”, Jean-Louis Barrault, “Je suis peintre”, Van Dongen, “Je suis chef d’orchestre”, Charles Munch. Gavoty conferiu aos depoentes, através de suas sábias perguntas, a liberdade plena para que a narração de suas vidas fosse a mais autêntica possível e que o leque aberto plenamente estimulasse posicionamentos das relevantes figuras sobre os mais diversos temas: biografia, atividade profissional, reflexão, método e preferências. No caso de Honneger, todos os questionamentos de Gavoty, até os mais instigantes, foram respondidos sem barreiras, resultando num riquíssimo documento não apenas pessoal, mas amplo em seu conteúdo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em “Je suis compositeur” (Paris, Éditions du Conquistador”, 1951), Honneger se mostra, quase trinta anos após a dissolução do Grupo dos Seis, convicto em suas considerações sobre música, não hesitando em divergir do <em>status quo</em> da sua época, mostrando-se cético, pessimista, mordaz e profético, pois muitas de suas afirmações se encaixariam perfeitamente na atualidade, setenta e cinco anos após. Às argutas perguntas e provocações formuladas por Gavoty, Honneger não hesita por vezes em desagradar o <em>establishment. </em>Essas posturas evidenciam o pensador, pois “coloca o dedo na ferida”, como se diz no jargão, certamente a causar controvérsias diante de posições que o tempo só transformaria em realidades. Faz a crítica ao público que sempre quer ouvir as repetidas obras consagradas, sinfônicas e aquelas destinadas à ópera. Tem humor uma observação sobre o gênero operístico: “O público é composto de idosos; ele não quer ouvir outra coisa senão as criações de sucesso. Vai ouvir a ópera <em>Manon</em> de Massenet para reencontrar as emoções da juventude”. A crítica de Honneger se estende ao repertório pianístico: “O tema é ainda mais sensível. Em 1949, a fim da celebração do centenário de Chopin, houve uma centena de Festivais Chopin. Sempre a competição esportiva, ‘os campeões internacionais’, os ‘<em>challengers</em>’. Recebi uma carta de um amador de música que lamentava o fato de que na mesma temporada pianistas tocaram quinze vezes a <em>Sonata da marcha fúnebre</em> de Chopin e aproximadamente na mesma proporção as Sonatas <em>Appassionata </em>e a Aurora, de Beethoven assim como os <em>Estudos Sinfônicos,</em> de Schumann”.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Arthur Honneger,<em> Pastorale d&#8217;Été</em>, com a Orquestra Boston Civic, sob a regência de Max Hobart:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=SAl6ZnIDwKE">https://www.youtube.com/watch?v=SAl6ZnIDwKE</a></p>
<p style="text-align: justify;">Cético e profético, algumas de suas posições estabelecem quadro sombrio: “Acredito sinceramente que, dentro de pouco tempo, a arte musical tal como a conhecemos não existirá mais. Ela desaparecerá, assim como as outras artes, aliás, mas sem dúvida ainda mais rapidamente. Já vemos o que está acontecendo hoje: admitamos o óbvio. Não se ouve mais ‘a música’; vai-se assistir à apresentação de um ilustre maestro ou de um pianista famoso. Isso pertence mais ao âmbito do esporte do que ao da arte, como bem sabemos”. Essa realidade pode ser constatada através também da publicidade quase sempre movida por interesses precisos. Regentes ou solistas de renome são fartamente anunciados pela mídia. Instrumentistas realmente notáveis, mas pouco divulgados, dificilmente têm a assisti-los um grande público, fazendo jus à posição de Honneger, pois na sua opinião, a obra a ser apresentada estaria em segundo plano. Durante cerca de vinte anos fui à Bélgica regularmente para gravações dos meus CDs pelo selo De Rode Pomp. Tive a oportunidade de ouvir grandes intérpretes belgas, holandeses e russos que jamais foram ventilados entre nós e nos Estados Unidos, de acordo com os seus currículos inseridos nos programas.</p>
<p style="text-align: justify;">Num outro contexto das artes, Honneger afirma: “Sem invadir o domínio das demais ‘Belas Artes’, podemos, por exemplo, considerar a pintura e constatar a que tipo de feiura ela está condenada se quiser chamar a atenção”. Estou a me lembrar da posição de Mario Vargas Llosa (1936-2025) em “La civilización del espectáculo”, a afirmar que não mais visitava bienais de artes plásticas, mercê de extravagâncias da pintura contemporânea. Honneger considera que “o público que pode avaliar um livro, uma pintura ou uma escultura só consegue fazer isso com uma obra musical depois de ouvi-la. Antes da audição, mesmo a maior obra-prima não passa de um caderno coberto de símbolos indecifráveis para a maioria dos amadores. Essa é a maldição que pesa sobre nossa arte”.</p>
<p style="text-align: justify;">A respeito da música contemporânea do seu tempo, entende a sua pouca divulgação: “para o público, a arte musical se resume à execução das obras clássicas ou românticas. O compositor contemporâneo se torna uma espécie de intruso que deseja se impor à mesa onde ele não foi convidado. Com certeza, a primeira qualidade de um compositor, é ele estar morto. Há, na realidade, quantidade de concertos, de manifestações musicais, envolvendo um público muito mais numeroso em 1951 do que em 1900; mas, eu repito, toca-se na realidade bem menos música nova hoje que outrora. Ainda uma vez, nove décimos dessas manifestações têm um carácter esportivo”, referindo-se aos exageros durante a execução do repertório sacralizado pelos intérpretes. A posição realista de Honneger é ademais crítica no que concerne ao repertório tradicional a não abranger a <em>opera omnia</em> de um compositor, selecionando determinadas criações e “descartando” outras. Responde a uma pergunta de Gavoty: “Você reconheceu que, entre as sinfonias de Beethoven, já se começou há tempos selecioná-la. Se tal escolha ocorre na obra do compositor mais executado do mundo, como você acha que a situação vai melhorar para outros compositores do passado e, sobretudo, para os jovens que ainda não são conhecidos?”</p>
<p style="text-align: justify;">Um grave problema da contemporaneidade é a multiplicidade de tendências, acentuadamente ampliada nessas últimas décadas. Hodiernamente cada compositor tem sua escrita baseada em seus modelos individuais. Muitos deles inclusive negligenciam o legado sedimentado há séculos. Em blog postado há mais de uma década, mencionei o jovem compositor inglês que, sabedor do meu projeto de Estudos Contemporâneos para piano, dedicou-me um Estudo, oferecendo-me em Londres onde eu participava de colóquio sobre a obra de Claude Debussy. Examinando a partitura, longe do piano, observei complexidade plena do Estudo que, em acréscimo, se afigurava como “intocável”. Perguntei-lhe se alguma vez estudara uma <em>fuga </em>de J.S.Bach. A sua resposta negativa foi imediata: “trata-se de uma forma ultrapassada” <em>sic</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">No próximo blog comentarei as posições de Arthur Honneger sobre a sua maneira de compor, seu julgamento pessoal e o convívio em certas criações com textos escolhidos e adaptados que lhe serviriam para a composição de outros gêneros musicais.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>In “Je suis compositeur,” composer Arthur Honegger takes firm stances on musical composition, public reception, cultural decline, and other topics.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p><em> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Désiré N’Kaoua (1933-2026), notável pianista</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2026 03:05:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Um pianista de grande valor Nenhuma vida tem qualquer significado ou qualquer valor se não for uma contínua batalha contra o que nos afasta da perfeição, que é o nosso único dever. Agostinho da Silva (1906-1994) (&#8220;As Aproximações&#8221;) Recebi mensagem de Michèle N’Kaoua, esposa do ilustre pianista franco-argelino Désiré N’Kaoua, comunicando o seu falecimento aos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um pianista de grande valor</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1024.Désiré4-big.jpg" target="_blank"><img title="Désiré N'Kaoua. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1024.Désiré4-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Nenhuma vida tem qualquer significado ou qualquer valor<br />
</em><em>se não for uma contínua batalha </em><em>contra o que nos afasta da perfeição,<br />
</em><em>que é o nosso único dever.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)<br />
(&#8220;As Aproximações&#8221;)</p>
<p style="text-align: justify;">Recebi mensagem de Michèle N’Kaoua, esposa do ilustre pianista franco-argelino Désiré N’Kaoua, comunicando o seu falecimento aos 19 de Junho último, dias após completar 93 anos. Esteve presente em um dos meus blogs, a partir de uma gravação histórica realizada quando nos seus 86 anos de idade (vide blog “Sonata <em>Hammereklavier op. 106, </em>de Beethoven (20/02/2021).</p>
<p style="text-align: justify;">Mantivemos, nesses últimos tempos, cordial troca de mensagens, máxime em datas festivas. Nosso relacionamento se deu durante minha estadia em Paris para aperfeiçoamento pianístico (1958-1961) junto a dois mestres franceses, a lendária pianista e professora Marguerite Long (1874-1966) e o ilustre Jean Doyen (1907-1982), senhor de um dos mais extensos repertórios para piano. Désiré estava sob a tutela de Madame Long bem antes da minha chegada em Paris e eu admirava suas performances. Ele mantinha “sob os dedos” um número considerável de Concertos para piano e orquestra, máxime os de Mozart.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1961, Désiré, com inúmeras apresentações pela Europa, teve que se desligar como acompanhador da renomada escola de ballet parisiense fundada em 1937, École Simon Siégel, hoje desativada, transferindo para mim essa atividade, que exigia uma boa leitura à primeira vista. A tarefa ajudou-me e muito num período relativamente difícil. Sempre serei grato ao hoje saudoso Désiré N’Kaoua. Nesses últimos anos trocamos mensagens e CDs, assim como comentários a respeito deles.</p>
<p style="text-align: justify;">Nascido em Constantina, na Argélia, Désiré desenvolveu seu aprendizado pianístico em França e, aos 18 anos, recebeu o primeiro prêmio do Conservatório Nacional Superior de Música de Paris, igualmente o primeiro prêmio do Concurso Internacional de Genebra. A seguir, a medalha de ouro no Concurso Internacional de Vercelli e o 1º prêmio no também Internacional Concurso Alfredo Casella, em Siena. Como mestres, estudou com Mme. Long, Lazare Levy e Lucette Descaves. Essas láureas o levaram a apresentações como solista junto a algumas das mais renomadas orquestras da Europa: Filarmônica de Berlin, Varsóvia, Praga, Budapeste, Bucarest, Suíça Normanda e tantas mais. Como recitalista, apresentou-se pela Europa e pelos Estados Unidos, sendo que aos 50 anos dava o seu milésimo recital solo.</p>
<p style="text-align: justify;">O repertório de Désiré era imenso e, entre suas gravações de obras de J.S.Bach, Mozart, Beethoven e Schubert, salientem-se as integrais para piano de Maurice Ravel, Emmanuel Chabrier, Albert Roussel, Jehan Alain e dos <em>Noturnos, Baladas</em> e <em>Scherzos</em> de Chopin. Foi o primeiro a  apresentar a obra completa para piano de Maurice Ravel em apenas um recital. Na esfera musicológica, pouco frequentada pela grande maioria dos pianistas, colaborou nas edições de obras de Mozart e Chopin para a Editora francesa H. Lemoine.</p>
<p style="text-align: justify;">Como didata, constam atividades que resultaram em distinções: Professor honorário do Conservatório Superior de Música de Genebra, do Conservatório Nacional da região de Versalhes, da École Normale de Musique e da Schola Cantorum de Paris. Também lecionou no Conservatório Nacional na capital francesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Receberia em Paris a honraria Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito como Embaixador da Música Francesa no Exterior.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1024.Désiré-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Foto enviada pela esposa Michèle N'kaoua, anunciando o falecimento de Désiré N'Kaoua. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1024.Désiré-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Presentemente se dá maior importância à aparência da verdade, e determinados intérpretes consagrados, precedidos por patrocínios e consequentes holofotes, retribuem aos admiradores com execuções tantas vezes arbitrárias quanto aos andamentos e aos conteúdos expressos nas partituras. Nas capas dos CDs, hoje infelizmente em processo de extinção, dava-se tantas vezes uma importância plena ao intérprete e, como “complemento”, eram adicionados os nomes dos compositores. Ouvir as gravações de Désiré N’Kaoua é entender que a tradição pianística, tão admirada muitas décadas atrás, permanece viva nessas mensagens duradouras. As duas <em>Baladas </em>de Chopin inseridas no blog evidenciam o respeito ao pensamento do compositor, fato que faz delas um prazer a ser compartilhado com o leitor.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Chopin, a 1ª <em>Balada em Sol menor</em>, op. 23, na interpretação de Désiré N&#8217;kaoua:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://music.youtube.com/watch?v=yC2D3yetbNo&amp;list=OLAK5uy_n8asANmeTJWKUdwLX1WwEX3jY0VytDNbU">https://music.youtube.com/watch?v=yC2D3yetbNo&amp;list=OLAK5uy_n8asANmeTJWKUdwLX1WwEX3jY0VytDNbU</a></p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Chopin, a 4ª <em>Balada em Fá menor</em>, op. 52, na interpretação de Désiré N’kaoua:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://music.youtube.com/watch?v=NU3_52WUS4c&amp;list=OLAK5uy_n8asANmeTJWKUdwLX1WwEX3jY0VytDNbU">https://music.youtube.com/watch?v=NU3_52WUS4c&amp;list=OLAK5uy_n8asANmeTJWKUdwLX1WwEX3jY0VytDNbU</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>It was with sadness that I received the news of the death of an outstanding Franco-Algerian pianist, Désiré N&#8217;Kaoua, who was my classmate in the courses taught by the legendary Marguerite Long in Paris between 1958 and 1961. We had reconnected in recent years. Désiré had an immense repertoire, which he always performed with fidelity, appropriate expression, and complete mastery.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;O Polonês&#8221; de J.M.Coetzee</title>
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		<pubDate>Sat, 23 May 2026 03:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Um romance que merece reflexões Ainda hoje, a música de Chopin continua a ser o elixir mais inebriante que a Musa dos sons alguma vez derramou, para embriagar, nos lábios dos homens. Com isso, Chopin oferece um exemplo inigualável na era romântica, da qual ele é a flor mais iridescente. Jean Chantavoine – J. Gaudefroy-Demombynes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um romance que merece reflexões</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Polonês-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Polonês-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Ainda hoje, a música de Chopin continua a ser o elixir mais inebriante<br />
</em><em>que a Musa dos sons alguma vez derramou, para embriagar,<br />
</em><em>nos lábios dos homens.</em><em> Com isso, Chopin oferece<br />
</em><em>um exemplo inigualável na era romântica,<br />
</em><em>da qual ele é a flor mais iridescente.<br />
</em>Jean Chantavoine – J. Gaudefroy-Demombynes<br />
“Le romantisme dans la musique européenne”<br />
(Paris, Ed. Albin Michel -1955)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Recebi do meu dileto amigo, ilustre neurocirurgião Edson Amâncio, o livro “O Polonês” (São Paulo, Companhia das Letras, 2025), de J.M. Coetzee, renomado escritor nascido da cidade do Cabo, na África do Sul (1940). O autor recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 2003. Anteriormente escrevi um post sobre o romance de Thomas Bernhard, “O Náufrago” (vide blog: 10/01/2026). Qual a possível relação entre os dois livros? Ambos têm pianistas</span><strong style="text-align: justify;"> </strong><span style="text-align: justify;">como figuras fulcrais dos romances: “O Náufrago”, a partir da presença, romantizada pelo escritor, da figura do notável pianista Glenn Gould (1932-1983); “O Polonês”, inteiramente fictício, voltado ao pianista Witold Walczykiewicz, intérprete de Fréderic Chopin (1810-1849). O romance está centrado em dois personagens. Witold “É polonês,  com seus setenta anos,  pianista mais conhecido como intérprete de Chopin, mas um intérprete controverso: seu Chopin não é nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”, e uma senhora espanhola de nível social elevado e nos seus quarenta anos: “Ela é alta e elegante; pode não ser considerada uma beleza para os padrões convencionais, mas seus traços – cabelo e olhos escuros, malares salientes, boca carnuda – são marcantes e a voz, um contralto grave, tem um suave poder de atração. Sexy? Não, ela não é sexy e certamente nem sedutora”. Beatriz é o seu nome, casada e com filhos, integra o conselho de um Círculo que organiza apresentações na Sala Mompou, em Barcelona. Convidado para um recital pela organização, mercê do seu renome como chopiniano, Witold se apresenta e é aplaudido, não feericamente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Chopin-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fréderic Chopin. Pintura de Eugène Delacroix (1798-1863). Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Chopin-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Considere-se a presença do narrador onisciente que comenta, por vezes longamente, todo o transcorrer das ações. Essa interpretação não indica preconceito, tampouco parcialidade, apenas acompanha o desenrolar de uma inusitada relação, sensível e apaixonada por parte do pianista septuagenário, sem envolvimento emotivo por parte de Beatriz, o que não impede de intimamente sentir-se lisonjeada. Não se descarte a associação da figura feminina com a  Beatriz de Dante em “A Divina Comédia”. O pianista Witold, ao longo do enredo, escreve poesias.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir de uma primeira aproximação, o jantar pós-recital, Witold se encanta com Beatriz sem que nada ocorra de especial. Comunicam-se, com limitações, na língua inglesa. O narrador já enfatizara não ser Beatriz nem sexy, tampouco sedutora. Pouco após, Witold, ao retornar à Espanha para <em>master classes</em> em Girona, convida Beatriz para ter com ele, o que de fato ocorre sem consequências mais íntimas. O convite incisivo para que o acompanhe ao Brasil durante sua turnê ao país é por ela recusado, sem mais. O país é várias vezes mencionado. Cartas inflamadas por parte de Witold e respostas longe de serem efusivas. Contudo, o pianista aceita o convite do casal para visitar a propriedade em Sóller, município de Maiorca. Tendo o marido de Beatriz de se ausentar por uns dias, haverá um estreitamento nessa relação que surge sem açodamento, precedida por passeios, restaurantes e convívio a dois e que só foi mais íntima, mas breve, durante três dias. Ligação efusiva ao extremo por parte do septuagenário, simplesmente permissiva, sem entusiasmo, da parte de Beatriz. O “polonês” se declara de maneira plena. Tem interesse uma declaração de Witold: “O que é o tempo? O tempo não é nada. Temos nossa memória. Na memória não há tempo. Eu vou te guardar na minha memória. E você, talvez você também lembre de mim”. “Claro que vou me lembrar de você, seu homem estranho”, escreve Beatriz. O narrador comenta: “Ela pronuncia as palavras sem premeditação, ouve-as ecoar surpreendentemente em seu pensamento. O que está dizendo? Como pode prometer lembrar-se dele, quando tem todos os motivos para acreditar que o episódio do músico polonês que a visitou em Sóller vai desaparecer e desaparecer até que, em seu leito de morte, seja menos que uma partícula de poeira?”</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Sóller-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Sóller, Município de Maiorca. Fonte Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Sóller-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Em outro segmento, o narrador pressupõe: “O homem parece confiar nos poderes da memória. Ela gostaria de contar a ele sobre o poder do esquecimento. O quanto ela esqueceu! E ela é uma pessoa normal, uma pessoa comum, não uma exceção. O que ela esqueceu? Não faz ideia. Foi-se, desapareceu da face da terra como se nunca tivesse existido”.</p>
<p style="text-align: justify;">Um telefonema da filha de Witold a Beatriz comunica que o pianista falecera e uma caixa deveria lhe ser entregue. A destinatária viaja à Polônia, retira a caixa contendo 84 poemas, todos a ela dedicados, e mais um livro sobre Chopin. Beatriz obtém a tradução de alguns poemas e, posteriormente, de todos.</p>
<p style="text-align: justify;">A derradeira secção do romance considera as dúvidas de Beatriz quanto ao endereçamento final desses poemas: museu na Polônia, queimá-las, gaveta de baixo da escrivaninha? O narrador onisciente sobre os poemas nesse exíguo espaço: “Eles queimam ali como fogo lento”. Continua: “A resposta: porque, através de seus poemas, ele aspira à comunicação com ela do além-túmulo. Ele quer falar com ela, cortejá-la, para que ela o ame e o mantenha vivo em seu coração”. Sob outra ótica, observa sobre uma das razões dos poemas: “Ela o convidou para sua cama, depois o expulsou. A vingança dele: congelá-la, estetizá-la, transformá-la em objeto de arte, uma Beatrice, uma santa de gesso a ser venerada em procissão pelas ruas. <em>Mãe de misericórdia</em>”. Após a leitura de todos os poemas traduzidos, Beatrice compreende serem os poemas um registro de amor. Não obstante, só de pensar que, em um <em>post mortem ,</em> Witold estaria a esperá-la, estremece. Os poemas traduzem essa aspiração do pianista, vê-la novamente numa outra esfera.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de uma vez o narrador se refere ao pianista fictício Witold Walczykiewicz como um especialista na obra pianística de Fréderic Chopin, igualmente polonês, entendendo-o como “um intérprete nada romântico e um pouco austero”.  Seria possível entender que J.M.Coetzee, não sendo pianista, confira ao fictício Witold o vaticínio apontado. Chopin, assim como Robert Schumann (1810-1856) e Franz Liszt (1811-1886), românticos na acepção mais ampla, quando frequentados amplamente por pianistas sobejamente especialistas, só ali se instalam se interpretam suas obras penetrados nessa plena subjetividade emotiva. Alfred Cortot (1877-1962), Arthur Rubinstein (1887-1982), Vladimir Horowitz (1903-1989), Claudio Arrau (1903-1991), Maurizio Pollini (1942-2024),  os nossos Guiomar Novaes (1895-1979) e Arthur Moreira Lima (1940-2024), entre outros relevantes executantes que mantiveram sempre em seus repertórios inúmeras obras de Chopin, todos notabilizados nesse mister da transmissão totalizante. Em sendo um especialista na obra de Chopin, caso específico do personagem criado pelo renomado J.M. Coetzee, Witold Walczykiewicz dificilmente alcançaria renome maior sem a penetração plena no romantismo de Chopin, fator a ser considerado. Contudo, o narrador  observa: “O Chopin emergente e historicamente autêntico tem tons suaves e italianados. A leitura revisionista que o Polonês faz de Chopin, mesmo que um pouco intelectualizada demais, merece ser elogiada”.  Considere-se um dos atributos essenciais nas criações dos três compositores românticos acima mencionados, o <em>rubato </em>(termo italiano), mormente utilizado em passagens plenas de expressividade, quando a liberdade do movimento não aniquila a essencialidade do ritmo. Não obstante, Witold interpreta um “Chopin nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”. Rigorosamente Impossível sê-lo a partir dessa comparação. Soa estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance, nessa presença de dois personagens, Witold e Beatriz, com o narrador invisível que acompanha Beatriz em suas dúvidas e concessões sem entusiasmo, e o ocaso de um pianista a ter Chopin como compositor eleito e um coração apaixonado por Beatriz, expõe a maestria de Coetzee em saber “manuseá-los” numa relação com faixas etárias distintas, personalidades e propósitos diferenciados. “O Polonês”, por sua originalidade, é um livro a ser vivamente recomendado.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Fréderic Chopin, Balada em fá menor, op. 52 nº 4, na  interpretação da notável pianista Guiomar Novaes:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VDHJWsWFTg4">https://www.youtube.com/watch?v=VDHJWsWFTg4</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>J.M. Coetzee’s novel *The Pole* explores the relationship between a septuagenarian Polish pianist, a specialist in Chopin, and a married Spanish woman, one of the patrons of a musical society in Barcelona. Letters, encounters and a fundamental difference in outlook on life and emotion. </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma carta manuscrita inusitada e inesperada (VII)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/04/18/15898/</link>
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		<pubDate>Sat, 18 Apr 2026 03:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Missiva manuscrita vinda dos Países Baixos Qual não foi minha surpresa ao receber do dileto amigo Joep Huiskamp, professor jubilado da Universidade de Eindhoven, na Holanda, e artista plástico com inúmeras exposições em seu país, uma resposta, pelos Correios, aos blogs que têm sido direcionados à temática das cartas manuscritas, hoje em acentuado processo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Missiva manuscrita vinda dos Países Baixos</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1013.Joep2-big.jpg" target="_blank"><img title="Carta manuscrita de Joep Huiskamp. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1013.Joep2-small.jpg" alt="" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Qual não foi minha surpresa ao receber do dileto amigo Joep Huiskamp, professor jubilado da Universidade de Eindhoven, na Holanda, e artista plástico com inúmeras exposições em seu país, uma resposta, pelos Correios, aos blogs que têm sido direcionados à temática das cartas manuscritas, hoje em acentuado processo de extinção. Nossa amizade data do ano 2000, quando em Gent, na Bélgica, estivemos durante alguns dias hospedados em casa do dileto casal Tony e Tânia Herbert. Nos anos vindouros, Joep e sua esposa Jonneke compareceram aos meus recitais de piano em várias cidades da Bélgica e estiveram, inclusive, em uma apresentação que realizei em Lisboa. Nosso relacionamento, iniciado no início do século, prolongou-se. Amante incondicional do arquipélago português dos Açores e da cultura de Portugal, tendo, entre outras contribuições, traduzido para a língua holandesa “O Mandarim”, de Eça de Queirós, Joep tem, ao longo dos anos, viajado constantemente ao belíssimo arquipélago constituído por nove ilhas. Realizei em 1992 turnê por três ilhas açorianas, Terceira, Faial e São Miguel, e sendo admirador inconteste das obras para piano do compositor português Francisco de Lacerda (1869-1934), acabei interpretando a integral para piano e gravado muitas de suas criações, motivos determinantes para o estreitamente da amizade com Joep Huiskamp, igualmente um apreciador das criações do músico nascido nos Açores.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/746.JH2001-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Desenho de Joep Huiskamp no jardim dos amigos Tony e Tânia Herbert. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/746.JH2001-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A carta, aparentemente heteróclita, testemunha não apenas um tributo expresso ao ato de escrever correspondência à mão, mas igualmente um senso criativo com boa dose de humor. Joep mescla francês e português, as duas línguas com as quais nos comunicávamos. Desenha na folha da missiva três retratos coloridos, homenageando luminares da cultura açoriana: o escritor e poeta Antero de Quental (1842-1991), nascido em Ponta Delgada, capital da Ilha de São Miguel; Vitorino Nemésio (1901-1978), originário de Santa Cruz – Praia da Vitória, na Ilha Terceira, autor de um dos mais importantes romances portugueses, “Mau Tempo no Canal”; e Francisco de Lacerda, natural da  Ribeira Seca, Ilha de São Jorge.</p>
<p style="text-align: justify;">“Meu muito caro José Eduardo,</p>
<p style="text-align: justify;">Naturalmente, tens razão! Escrever cartas à mão, com tinta, isso se vê cada vez menos nesses dias. E, como consequência, a caligrafia de muitas pessoas fica em frangalhos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Menciona o equívoco ortográfico na palavra frangalhos na sua missiva manuscrita, tendo corrigido a segunda letra a e a última sílaba. Após, narra aspectos da vida cotidiana do casal, a sua aposentadoria e brevemente a da esposa, assim como os projetos tão caros para aqueles que sabem planejar as décadas subsequentes e a vida em família, no caso. No roteiro, um regresso à Ilha de São Jorge, a fim de pintar e escrever.</p>
<p style="text-align: justify;">A missiva do meu dileto amigo holandês tem algo que faz pensar, pois merece diversas interpretações. Se, sob determinado aspecto, há um humor fino, até sarcástico, o que muito me alegrou, revela a mensagem ilustrada a realidade sombria que aponta para o crepúsculo da  correspondência manuscrita, motivo determinante para a elaboração da carta. As três ilustres figuras açorianas que tão bem ilustram o envio de Joep, personagens que fazem parte igualmente dos meus eleitos entre aqueles da extraordinária cultura lusíada, não significariam a necessidade de evidenciar a presença dos três desenhos originais e não de reproduções impressas?</p>
<p style="text-align: justify;">O vaticínio para a missiva escrita à mão já foi dado há poucas décadas atrás. Não obstante o fato irreversível, a simples lembrança das correspondências que subsistiram desde a Grécia Antiga leva-nos a deduzir que mais profundamente se está a penetrar na era da irreversibilidade do efêmero. <em>Mutatis mutandi</em>, se na música alguns compositores de mérito permanecem frequentados com dedicação pelos intérpretes, tendo a plena aceitação de um público bem menos vasto, mas fiel, a produção musical da atualidade, um leque de tendências composicionais com as mais variadas formas, estilos e destinações, tende a ser descartada em tempo exíguo, salvo exceções realmente meritórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1012.Portrait-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Auto retrato de Joep Huiskamp. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1012.Portrait-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Consultei inúmeras pessoas nesses últimos tempos a respeito dos <em>pendrives, </em>a diminuta peça onde armazenavam o que deveria ser preservado, missivas internéticas inclusas. A grande maioria nem mais os utiliza e a minha pergunta sobre a destinação desses dispositivos recebeu respostas contundentes: “não sei onde os guardei” ou “joguei-os fora”.</p>
<p>Retomarei oportunamente às cartas manuscritas de compositores que permaneceram na história, pois outros temas já estão a pedir passagem. Não obstante, a leitura através das décadas dessa literatura, essencial para o conhecimento mais aprofundado dos compositores pesquisados, levou-me a considerar oportuno o tema do próximo blog.</p>
<p>Clique para ouvir, de Francisco de Lacerda, “Papillons” e “Zara”, na interpretação de J.E.M.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rOa_dEmQg30&amp;t=25s">https://www.youtube.com/watch?v=rOa_dEmQg30&amp;t=25s</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>My dear friend Joep Huiskamp, a retired professor from Eindhoven University in the Netherlands and also a painter, sent me a handwritten letter by post. A lover of the Azores, like myself, he included three of his own paintings depicting immortal figures born in the Azores archipelago.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Carta de Robert Schumann à esposa Clara (VI)</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Apr 2026 03:05:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O compositor frente à constante inspiração Para mim, o homem e o músico sempre buscaram se expressar ao mesmo tempo. Só dou um título às minhas composições quando elas estão concluídas. Robert Schumann (1810-1856) O compositor Robert Schumann, um dos músicos luminares do romantismo alemão, autor de composições abrangendo uma extensa gama de destinações ― piano solo, lieds (melodias acompanhadas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O compositor frente à constante inspiração</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS2a-big.jpg" target="_blank"><img title="Clara e Robert Schumann. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS2a-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Para mim, o homem e o músico sempre buscaram se expressar ao mesmo tempo.<br />
</em><em>Só dou um título às minhas composições quando elas estão concluídas.<br />
</em>Robert Schumann (1810-1856)</p>
<p style="text-align: justify;">O compositor Robert Schumann, um dos músicos luminares do romantismo alemão, autor de composições abrangendo uma extensa gama de destinações ― piano solo, <em>lieds </em>(melodias acompanhadas pelo piano), sinfônico (quatro sinfonias) e camerístico<strong> </strong>―, externaria em suas criações, mormente pianísticas, o seu amor àquela que seria desde a juventude a fonte de inspiração, Clara Wieck, futura Clara Schumann (1818-1896), notável pianista e compositora de mérito. Schumann estudou com Friedrich Wieck (1785-1873), pai de Clara, que se opôs durante anos à união de sua filha com Robert, fato que ocorreria em 1840, após o futuro casal ter entrado na Justiça contra o professor que alegava não ter Schumann estabilidade financeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos 12 de Setembro de 1840, um dia após o aniversário de Clara, efetua-se o casamento e, nessa data, após as núpcias, Schumann escreve à “Minha jovem mulher bem-amada”, dando início a um diário mútuo que deveria doravante fazer parte das impressões na vida do casal. As anotações duraram três anos. Robert e Clara tiveram 8 filhos.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/779.Clara-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Clara Schumann. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/779.Clara-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">“Deixa-me, antes de mais nada, dar-te um beijo muito carinhoso neste dia, o primeiro da tua vida de mulher, o primeiro do teu vigésimo segundo ano. O livrinho que começo hoje tem um significado muito profundo. Ele deve se tornar um diário, falando de tudo o que temos em comum em nosso lar e em nossa união. Nossos desejos e esperanças serão registrados nele. Deve ser também um livro que contenha os pedidos que precisamos fazer um ao outro, quando as palavras não forem suficientes.</p>
<p style="text-align: justify;">Se concordas comigo, querida esposa, prometa-me também que cumprirás rigorosamente o código deste vínculo conjugal, assim como eu mesmo te prometo aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">A cada oito dias, trocaremos a direção da correspondência. Todos os domingos (de preferência no café da manhã), ocorrerá a entrega do Diário, à qual não é proibido acrescentar um beijo. O que foi escrito será lido em seguida, em silêncio ou em voz alta, conforme as exigências do texto, acrescentando-se o que tiver sido esquecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os votos expressos serão ouvidos, os pedidos apresentados e aprovados e, de maneira geral, nossa existência durante toda a semana cuidadosamente examinada, seja ela cheia de mérito e ação, seja por termos aumentado nosso bem-estar exterior ou interiormente, seja ainda por termos nos aperfeiçoado na arte que nos é tão cara.</p>
<p style="text-align: justify;">As anotações de cada semana não devem ter menos de uma página. Quem descumprir essa regra receberá uma punição, ainda por definir.</p>
<p style="text-align: justify;">Se algum membro de nossa Ordem Conjugal se atrevesse a passar uma semana sem escrever nada, a punição seria muito mais grave. Situação, no entanto, que mal podemos imaginar, dada nossa elevada estima mútua e nosso senso de dever. Todos esses estatutos e leis serão observados também em viagem, e o Diário deverá sempre nos acompanhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos prazeres do nosso Diário será, como já foi dito, a crítica de nossa vida artística. Por exemplo, o que você gosta de estudar, o que você compõe e o que você pensa sobre isso. O mesmo se aplica a mim.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto forte deste livro consistirá em descrições de personagens, por exemplo, de artistas de renome que tivermos conhecido, e em anedotas; os traços humorísticos serão muito bem-vindos. Mas o que há de mais belo e encantador neste livro, minha querida esposa, não quero chamá-lo pelo nome. Tuas belas esperanças e as minhas, que o Céu queira abençoar; teus cuidados e os meus, que o casamento traz consigo; enfim, todas as alegrias e todos os sofrimentos da vida em comum serão aqui fielmente descritos, o que nos reserva alegrias para nossa velhice.</p>
<p style="text-align: justify;">Se concordas comigo em todos os pontos, minha querida esposa, escreve então teu nome abaixo do meu e pronuncia, como um talismã, as três palavras nas quais repousa a felicidade da vida:</p>
<p style="text-align: center;">Trabalho, economia, fidelidade”.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS1a-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Robert Schumann. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS1a-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Uma das obras para piano mais inspiradas de Schumann é a <em>Grande Humoresque</em> op. 20 (1839), composição finda um ano e meio antes do casamento,<strong> </strong>assim definida pelo notável pianista francês Alfred Cortot (1977-1962): “A <em>Humoresque </em>constitui um dos exemplos mais marcantes do gênio inovador de Schumann e ao qual não se pode atribuir qualquer precedente em toda a história da literatura pianística”. Schumann, durante a gestação da <em>Humoresque</em>, obra constituída de duas dezenas de improvisações contínuas e sem quaisquer amarras formais, pensa em Clara e, se a dedicatória não é a ela destinada, a inspiração esteve sob a égide da sua futura esposa. Escreve à Clara: “Durante toda a semana estive ao piano e compus, ri e chorei ao mesmo tempo. Encontrarás a marca de tudo isso na minha <em>Grande Humoresque</em>” (11/03/1839).</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Robert Schumann, a <em>Humoresque </em>op. 20, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9QLA5sKqlrc">https://www.youtube.com/watch?v=9QLA5sKqlrc</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Robert Schumann’s letter to his wife Clara—a record preserved in a wedding journal and written on their wedding day—reveals a deep bond between them, as the two were to record their hopes, feelings, and daily lives in that marriage diary.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Mussorgsky em suas divagações epistolares (V)</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Apr 2026 03:05:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[A transmissão epistolar sem subterfúgios Todos os homens de gênio e de progresso na Rússia são e serão eternamente condenados aos trabalhos forçados ou bêbados. Dostoiévsky (1821-1881) (“Os Possessos”) A grandeza de um artista é, antes de tudo, a grandeza de sua alma. Nesse sentido, Moussorgsky pode ser considerado de pleno direito como um grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A transmissão epistolar sem subterfúgios</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Mussorgsky-big.jpg" target="_blank"><img title="Modest Mussorgsky. Pintura de Ilia Répine realizada alguns dias antes da morte do compositor. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Mussorgsky-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Todos os homens de gênio e de progresso na Rússia são e serão<br />
eternamente condenados aos trabalhos forçados ou bêbados.<br />
</em>Dostoiévsky (1821-1881)<br />
(“Os Possessos”)</p>
<p><em>A grandeza de um artista é, antes de tudo, a grandeza de sua alma.<br />
</em><em>Nesse sentido, Moussorgsky pode ser considerado de pleno direito<br />
</em><em>como um grande artista,<br />
</em><em>pois sua alma abrigava uma multidão de almas humanas.<br />
</em>Guéorgui Vasilyevich Sviridov, compositor (1915-1998).</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns leitores me solicitaram a inclusão do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881) entre aqueles que foram ativos missivistas. Tendo publicado um blog, &#8220;Cartas de Modest Moussorgsky&#8221;, aos 7 de Dezembro de 2019, volto ao tema com outros segmentos de sua correspondência. Presentemente digito Mussorgsky, grafia usual na língua portuguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Suas cartas transmitem essencialmente o que ele pensa sobre as artes, música a preponderar, sobre o cotidiano, sem descartar a aspiração do homem em sua trajetória existencial. Das cerca de 300 cartas conhecidas de Mussorgsky há destinações mais frequentes, casos de Vladimir Stassov, Mili Balakirev, Arsény Golenichtchev-Koutousov e Rimsky Korsakov. Há naturalidade em se expressar, assim como originalidade conceitual desprovida de qualquer empáfia. Reiteradas vezes suas missivas traduzem discreta alegria, pessimismo, depressão, críticas por vezes sarcásticas a desconhecidos ou não, e a mudança de humor sem extremismos, evidenciando sua difícil condição. A leitura da sua correspondência revela a personalidade de Mussorgsky, mutante tantas vezes graças aos períodos críticos que viveu, levando-o à morte precoce aos 42 anos. Não obstante, há uma profunda coerência quanto à devoção aos costumes e à música de sua Rússia.  Como Dostoiévsky, Mussorgsky também foi epilético e, a agravar, era dependente das bebidas de alto teor alcoólico. Não obstante toda a instabilidade física e financeira, foi um gênio absoluto. Claude Debussy (1862-1918) considerava-o o mais importante compositor entre os seus contemporâneos europeus.</p>
<p style="text-align: justify;">O espaço a que me proponho nos blogs hebdomadários determinou escolhas e, da vasta comunicação epistolar de Mussorgsky, separei segmentos de um dos seus mais expressivos destinatários, o crítico musical, historiador de arte e ideólogo do Grupo dos Cinco Vladimir Vassiliévitch Stassov (1824-1906), assim como a quase integral missiva endereçada a um dos seus interlocutores, o poeta Arséni Golénitchev-Koutousov (1848-1913).</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Stasov3-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Vladimir Vassiliévitch Stasov. Pintura de Ilia Répine. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Stasov3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">De Stasov, extraí frases da vasta correspondência mantida entre os dois grandes amigos. Em vários inícios das missivas, Mussorgsky trata-o de <em>generalíssimo</em>. Escreve Mussorgsky: “Diga-me por que razão, quando conversam jovens pintores ou escultores, consigo acompanhar o fio dos seus pensamentos, compreender a sua maneira de ver as coisas e os seus objetivos, e raramente os ouço falar de técnica (apenas nos casos em que é realmente necessário). Por que razão — mas é inútil dizê-lo — quando são os nossos colegas que conversam, os pensamentos vivos são tão raros, suas conversas são enfadonhas, e o que dizem cheira tanto a sala de aula: termos técnicos, jargão musical?” (1872).</p>
<p style="text-align: justify;">“A representação artística da beleza por si só, na sua expressão material, é uma infantilidade primitiva, a infância da arte. Os traços mais subtis da natureza humana e das massas, a obstinação em agarrar-se aos territórios inexplorados e em conquistá-los: eis a verdadeira vocação do artista” (1872).</p>
<p style="text-align: justify;">“Primeiramente, os gostos tendem a mudar; em segundo lugar, o público exige dos músicos russos obras russas, em terceiro lugar, é vergonhoso tratar a arte com fins egoístas” (26/12/1872).</p>
<p style="text-align: justify;">“Liszt fala sem cessar dos músicos russos e relê de tempos em tempos suas obras. Que Deus lhe permita viver o maior tempo possível. Eu poderia visitá-lo na Europa e mostrar-lhe nossas novidades, mas só se o meu caro <em>generalíssimo</em> me acompanhasse” (23/07/1873).</p>
<p style="text-align: justify;">“Nunca senti com tanta força que o trabalho criativo exige calma, que somente nessa condição é possível se concentrar, retirar-se para a sua torre de marfim e, de lá, observar os personagens: como eles se comportam?” (06/09/1873).</p>
<p style="text-align: justify;">“A modéstia e a ausência de arrogância, que nunca me abandonaram e não me abandonarão enquanto meu cérebro não secar completamente dentro da minha cabeça, não satisfazem os imbecis” (06/02/1874).</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a composição da ópera <em>Khovanchtchina</em>, escreve a Stassov:</p>
<p style="text-align: justify;">“Estou convencido de que o <em>generalíssimo</em> não acredita que eu tenha recebido as suas observações e propostas de forma diferente do habitual. Interrompi meu trabalho, comecei a refletir e agora, tal como ontem, há várias semanas e amanhã, tenho apenas um único pensamento: sair vitorioso desta provação e levar aos homens uma nova mensagem de amor e amizade, uma mensagem simples e vasta como a planície russa, a mensagem de um modesto músico, mas também de um combatente pela verdade da arte” (15/06/1876).</p>
<p style="text-align: justify;">Transcrevo segmentos de uma das cartas endereçada ao poeta Arséni Golénitchev-Koutousov (1848-1913), autor de vários textos poéticos que serviram de inspiração para Mussorgsky, entre os quais os ciclos de melodias: <em>Sans Soleil</em> e <em>Chants et Danses de la Mort</em>. Mussorgsky faz observações de interesse que revelam características do compositor frente à sua atualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A missiva ao amigo poeta foi escrita aos 3 de Outubro de 1875.</p>
<p style="text-align: justify;">“Arséni, meu querido amigo que tanto sofre. Soube pela Katénine que você continua de cama. Há muito tempo que queria lhe escrever, mas não consegui. Não se zangue, meu amigo, estou realmente sobrecarregado. Você me escreve dizendo que não lhe dei muitas notícias e pede mais. Vou responder-lhe com um ditado: eu gostaria muito de ir para o paraíso, mas os pecados me impedem. Onde encontrá-los? Quer dizer, não os pecados, mas as novidades&#8230; Vamos falar melhor do nosso humilde mundo artístico, vamos nos isolar por algum tempo em algum recanto agradável e de lá, próximos da vida e das pessoas, mas longe dos discursos pomposos sobre o direito, a liberdade e o protesto, olhemos com coragem a vida de frente. É preciso, porque as pessoas necessitam da verdade, não de uma verdade retórica, mas autêntica. A humanidade se entrincheirou por trás do alarde de procedimentos convencionais, quase artísticos, e de formas não convencionais, de modo algum artísticas; ela se barricou ali de boa vontade, até mesmo com prazer, talvez sem volta, porque ‘o sol nunca nascerá a oeste’. Parece-me que, com muitas raras exceções, os homens, por vezes, não suportam se ver como realmente são; o desejo de parecerem, mesmo aos seus próprios olhos, melhores do que são é muito natural. Mas eis em que consiste o ardil: os artistas contemporâneos, assim como os do passado, ao retratarem os homens para os homens como melhores do que realmente são, traduzem a vida pior do que ela é. Os velhos crentes incorrigíveis repetem que isso é necessário para dar brilho às cores; os vacilantes, que oscilam como um pêndulo, murmuram que as tarefas da arte ainda não estão suficientemente claras; os radicais gritam que somente um aldrabão é capaz de criar na realidade, de maneira verdadeiramente artística, o tipo genuíno do trapaceiro. Essas três correntes podem ser facilmente conciliadas, e tal conciliação seria infinitamente mais útil do que a luta no espaço aéreo, já que a natureza não nos dotou de asas para nos mantermos ali. É muito simples; um artista não pode fugir do mundo exterior, cujas impressões se refletem até mesmo nas nuances da criação subjetiva. Só que não se deve mentir, mas dizer a verdade. Essa simplicidade é, no entanto, difícil de alcançar. A verdade artística não tolera formas preconcebidas. A<strong> </strong>vida é variada e muitas vezes caprichosa. É<strong> </strong>tentador, mas raramente possível, criar um fenômeno ou um tipo realista na forma que lhe é inerente e que nenhum artista havia utilizado até então. Neste caso, o artista não deve contar com a sua velha ama para ajudá-lo a levantar-se, para lhe dizer: ‘Mantenha-se direito’; não, ele deve levantar-se sozinho e dizer a si mesmo: ‘Tenho de me manter direito’. São estas as ideias que tenho dentro de mim neste momento, caro amigo Arséni. Ainda não sei como me livrarei delas, mas prevejo que o parto será difícil”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Moussorgsky2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Modest Mussorgsky. Medalha comemorativa. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Moussorgsky2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">É realmente extraordinária a criatividade de Mussorgsky que, apesar de uma vida com tantas adversidades provocadas pela epilepsia e a dependência alcoólica, criou uma das óperas mais importantes em termos mundiais, <em>Boris Goudonov</em>, ciclos de canções da maior relevância, <em>Sans Soleil, Chambre d’enfants e Chants et Danses de la Mort </em>e uma composição excelsa para piano, <em>Quadros de uma Exposição.</em></p>
<p>Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, cena da coroação da ópera <em>Boris Goudonov</em> (2 º quadro cena II), na redução para piano de Rimsky Korsakof (1844-1908), na interpretação de J.E.M.:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=GFiQhAHtovE&amp;t=3s">https://www.youtube.com/watch?v=GFiQhAHtovE&amp;t=3s</a></p>
<p><em>Mussorgsky was a prolific letter-writer. In this post, I include excerpts from letters written by Mussorgsky to the music critic Vladimir Stasov and the poet Golenichev</em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>&#8220;Em torno de uma sonata para órgão&#8221; (III)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/03/21/15843/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/03/21/15843/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 21 Mar 2026 03:05:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Correspondência mantida entre dois ilustres músicos Tendo encontrado na feira-livre do Campo Belo, após longo tempo, meu velho amigo Marcelo, leitor fiel dos meus blogs, fomos a seguir a um café próximo. Lera o post sobre cartas de Beethoven e, como admirador das criações do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), tantas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1008.HO-big.jpg" target="_blank"><img title="Henrique Oswald. Gravura em metal realizada pelo seu filho Carlos Oswald. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1008.HO-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><strong>Correspondência mantida entre dois ilustres músicos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Tendo encontrado na feira-livre do Campo Belo, após longo tempo, meu velho amigo Marcelo, leitor fiel dos meus blogs, fomos a seguir a um café próximo. Lera o post sobre cartas de Beethoven e, como admirador das criações do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), tantas vezes presente neste espaço, perguntou-me se o músico escreveu cartas e se elas foram conservadas. Lembrei-me de imediato da correspondência de Oswald mantida com o ilustre organista Furio Franceschini (1880-1976), que resultou numa publicação no Suplemento Cultural de O Estado de São Paulo (ano IV, nº 179. 06/04/1980) e posteriormente no meu livro “Encontros sob Música” (Belém, Cejup, 1990).</p>
<p style="text-align: justify;">Reproduzo o texto integral, que bem testemunha a importância das cartas manuscritas de antanho mantidas entre figuras ilustres que habitualmente preservavam missivas recebidas.</p>
<p style="text-align: justify;">“O ‘Jornal do Comércio’ do Rio de Janeiro de 27 de Junho de 1970 trazia na coluna escrita por Andrade Muricy, crítico e então presidente da Academia Brasileira de Música, dados a respeito do relacionamento musical entre Henrique Oswald e Furio Franceschini: ‘(&#8230;) Entre outras reminiscências pessoais, recordo-me de que H. Oswald, ao honrar-me com a oferta de sua Sonata para órgão (única que possuímos no gênero, ao que eu saiba), declarou-me ter submetido a partitura à revisão do maestro Franceschini no referente à registração, técnica com a qual não estava suficientemente familiarizado&#8230;’</p>
<p style="text-align: justify;">Entre esses dois músicos existiu sempre um respeito mútuo, a admiração musical incontida e o senso de humildade. Na biblioteca extremamente abrangente e estudada de Furio Franceschini fomos encontrar programas e cartas testemunhando uma ligação que merece uma apreciação especial.<strong> </strong>Em quatro apresentações, de 1913 a 1931, a obra de Oswald está inserida em programas que trazem a participação do mestre italiano naturalizado brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">A correspondência encontrada situa-se entre 1922 e 1931. Ao todo, doze cartas inéditas do compositor brasileiro e rascunhos de Franceschini a Oswald. Fundamental a origem e o finalizar desse relacionamento epistolar a partir da Sonata para órgão mencionada acima por Andrade Muricy. São praticamente seis anos de um longo elaborar. A carta de 1/7/1922 é um agradecimento. Oswald recebeu a Introdução e fuga para órgão de Franceschini e envia os mais sinceros parabéns. Oswald, compositor de música sacra, de câmara, sinfônica e o mais fino criador de músicas para piano no Brasil, percebeu,  ao compor a sua Sonata para órgão em 1925, que um mestre maior do instrumento poderia ajudá-lo. E, com humildade e respeito, tem início esta específica correspondência. Toda ela está escrita em italiano, língua do mestre organista e idioma da mãe e também da esposa de Oswald. Outrossim, o compositor viveu parte de sua vida na Itália.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com1008.Franceschini-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Furio Franceschini. Foto: Fonte Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1008.Franceschini-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O conteúdo de algumas dessas cartas deve ser mencionado, pois evidencia, num período em que o fervor artístico nacionalista tomava conta do nosso ambiente, permanecerem os dois músicos tranqüilos, cuidando, entre outras tarefas, da prolongada gestação de uma sonata para órgão.</p>
<p style="text-align: justify;">Em carta de 22 de junho de 1925, H. Oswald envia a sonata, possivelmente por intermédio de um portador, e escreve: ‘Fiz o possível para realizar um trabalho digno do senhor. Tê-lo-ia conseguido?&#8230; Não me ocupei da registração, pois desconheço o seu órgão, deixando-a a seu critério, isto naturalmente no caso de a sonata ser do seu agrado. Caso contrário, jogue-a fora, bastando, porém, que me conserve sempre como seu admirador e amigo’.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao receber a sonata, responde o organista, aos 26 de junho do mesmo ano: ‘O belíssimo trabalho organístico é uma nova gema que enriquece a literatura musical do Brasil. De fato, não se sabe o que mais admirar na sonata: se a imponência do primeiro tempo ou a inspiração delicada do segundo; ou ainda a festividade do terceiro, apresentando-se como um bimbalhar de alegria, pois parece querer participar à Humanidade uma boa-nova ou o feliz momento, o estado de ânimo do artista criador.’ Após agradecer comovidamente a obra a si dedicada, continua: ‘Manifesto o temor de que o primeiro afortunado intérprete de sua música não corresponda, por suas próprias forças, às expectativas do compositor. De qualquer forma, farei o possível para aplicar-me ao estudo da sonata com todo o amor que ela merece, confiante na sua indulgência pelas minhas deficiências’. Quase ao final da carta, despojadamente Franceschini declara que iria colher do compositor ‘todas as preciosas indicações que se dignara sugerir para uma exata interpretação’. Esta primeira versão foi logo apresentada, pois em 22 de julho de 1925, H. Oswald enviava um cartão de visitas com pequeno escrito, agradecendo a ‘bela execução em São Paulo’, tendo notícias por meio da crítica e dos musicistas.   <strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A próxima carta do nosso conhecimento, de Oswald para o mestre organista,  será datada de 14 de maio de 1930. Falava das grandes dificuldades encontradas para a publicação de suas obras vocais e organísticas, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, pois seu filho Alfredo tentara sem sucesso a publicação de uma de suas missas naquele país. Escreve novamente sobre a sonata para órgão, pois certamente ela ainda não o satisfazia: ‘Caro maestro, não apenas o autorizo, mas peço-lhe o favor de proceder a todas as correções que achar oportunas nas minhas composições para órgão e rogo-lhe que as escreva na própria música’. Mostrando, sobre outro ângulo, todo o respeito pelo enorme conhecimento do organista sobre a legislação referente à música litúrgica, continua: ‘Gostaria de lhe enviar a minha Missa de Réquiem para coro a quatro vozes, solicitando-lhe que me diga francamente se atende a todas as exigências do <em>Moto Proprio</em> e se é publicável’. Tratava-se do <em>Moto Proprio</em> de Pio X, de 22 de novembro de 1903, estabelecendo normas sobre a música sacra, ao qual se dá força de lei.</p>
<p style="text-align: justify;">A carta de 22 de maio de 1930 contém três aspectos interessantes: a insistência nas amplas correções solicitadas, a não publicação até então de qualquer outra obra de Oswald para órgão, tomando o compositor a liberdade de pedir ao amigo que interferisse junto a Giamcopol, da Ricordi, para a divulgação delas, e a menção de peças publicadas para órgão de Nepomuceno e Franceschini na mesma edição. <strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Observa-se em outra carta de Oswald, datada de 6 de junho de 1930, a dimensão da postura dos dois compositores, irmanados no alto conhecimento musical e ligados à religiosidade e preceitos éticos: ‘(&#8230;) Venho rogar-lhe o prazer de dar a sonata a Giamcopol, com todas as indicações escritas pelo Senhor <em>(com a sua própria caligrafia)</em>, acrescentando no frontispício: <em>edição revista, corrigida e com as registrações</em> de Furio Franceschini. Isto daria à sonata um grande prestígio e uma importância maior, visto que um <em>verdadeiro</em> organista do valor de Furio Franceschini a tomou em consideração e quis perder o seu tempo para dela se ocupar. Isto seria o meu maior desejo. Ser-me-ia concedido?’ As palavras grifadas o foram pelo compositor. O organista não aceitou a recomendação, permitindo que na edição constasse apenas a dedicatória: ‘A Furio Franceschini’. Oswald lamentaria esta recusa.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 20 de setembro de 1930, o compositor menciona ter recebido a carta de Franceschini de 14 de julho. Agradece-lhe ‘(&#8230;) por tudo o que fez por mim e por minha sonata’. Refere-se ao andamento da publicação da obra, prosseguindo: ‘(&#8230;) sou um péssimo revisor (&#8230;) peço-lhe de joelhos que se ocupe pessoalmente, tanto mais que esta sonata, agora, o senhor a conhece muito mais do que eu’. Em dezembro de 1930 o compositor escreve sobre a notícia publicada em ‘O Estado de São Paulo’ a respeito das comemorações do centenário do Padre José Maurício, ocasião em que o organista executou o Prelúdio e fuga para órgão de Oswald. Observa ainda o compositor: ‘Espero em Petrópolis trabalhar mui principalmente música religiosa, porque a música profana (moderna) não a sinto e não a entendo senão superficialmente’. O passar dos anos veio acentuar-lhe este dirigismo religioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em carta de 22 de Janeiro de 1931, Henrique Oswald pensa reservar um sábado inteiro a fim de escrever a sua composição (Missa de Réquiem) e assim ‘poder seguir todos os seus bons conselhos contidos na carta’.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta revisão não é feita e, na missiva de 25 de Janeiro, após observar os conselhos de Franceschini, cita detalhes, expondo, em pentagramas traçados por ele próprio, trecho de sua <em>Missa de Réquiem.</em> Nesta importante missiva há referências a um engano de colocação do texto latino na composição do ‘Libera me’, conforme certamente Franceschini o prevenira. Esperava fazer correções o mais rapidamente possível, contudo não chegaria a realizá-las. Continua: ‘O senhor me pediu licença para citar em seu livro de Análise Musical quatro compassos de minha Missa. Este favor, porém, é o senhor que me faz e sou eu quem lhe será grato, pois este obséquio que me faz deixa-me orgulhoso’. Esses compassos estão inseridos com comentários no livro de Franceschini <em>Breve Curso de Análise Musical </em>(L.G.Miranda, 2ª Edição, 1934).</p>
<p style="text-align: justify;">Um tom de humor, na carta de 25 de abril de 1931: ‘(&#8230;) ordinariamente os autores são péssimos revisores das próprias composições e entre eles, eu sou o pior’. Continuando: ‘(&#8230;)meu pranteado amigo e professor G. Buonamici havia reservado o encargo das revisões das minhas composições, vindo eu agora, constrangido, pedir ao amigo Furio Franceschini aceitar esta herança de Buonamici’.</p>
<p style="text-align: justify;">Há premonição na carta de 7 de maio de 1931. Nesta última, Oswald mais uma vez agradece toda a colaboração no longo elaborar da sonata, ‘(&#8230;) não me perdoarei jamais de tê-lo levado a corrigir dezenas de sustenidos, bemóis, bequadros etc., coisa que deveria envergonhar-me’. E, como despedida, continua: ‘(&#8230;) e Deus o recompense por todo o bem que me fez, pois, jamais estaria em condições de poder ser tão reconhecido como deveria e quereria (&#8230;) Creia-me sempre eternamente grato”.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma derradeira menção ao relacionamento entre ambos far-se-á por meio de carta da viúva de Oswald em Dezembro de 1931, agradecendo ao mestre organista.</p>
<p style="text-align: justify;">Do manuscrito enviado a Franceschini, datado de 16 de junho de 1925, à  sua publicação pela Ricordi , um mês após a morte de Oswald aos 9 de Junho de 1931, muitas alterações foram feitas. Na correspondência são inúmeras as citações técnicas. Numa carta de 17 de junho de 1929, o mestre organista mostra toda a sua erudição, discorrendo sobre registração, coloridos (dinâmica) e detalhes técnicos da execução. Durante o elaborar da sonata, por duas vezes Franceschini a transcreveu de próprio punho, modificando alguns empregos não muito organísticos e anotando-a profusamente. No exemplar impresso de que se serviu o organista para seus estudos e execuções em público, entre elas as apresentações na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro e na igreja de Santa Ifigênia em São Paulo, há uma enorme quantidade de anotações e alterações de registração.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Biblioteca Furio Franceschini encontramos um “dossier” H. Oswald cuidadosamente conservado pelo organista que, além do manuscrito da sonata para órgão, suas cópias e a  da primeira edição da Ricordi, contém muitos manuscritos inéditos para órgão de Oswald, assim como outras obras do insigne compositor”.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesquisa a respeito da sonata para órgão de Henrique Oswald só foi possível mercê das preciosas colaborações de duas saudosas figuras: Maria Isabel Oswald Monteiro, neta de Henrique Oswald, que mantinha precioso acervo documental do avô no Rio de Janeiro, e de Manoel Antônio Vicente Azevedo Franceschini, filho de Furio Franceschini, que esteve ao meu lado durante os estudos das cartas de Oswald recebidas pelo seu pai. Historiava-me sobre aquele período da elaboração da revisão da sonata oswaldiana, da sua apresentação e da recepção crítica da obra em São Paulo, onde vivia.</p>
<p style="text-align: justify;">Não havendo a gravação da sonata para órgão de Henrique Oswald no youtube, insiro do compositor: <em>Tre piccoli pezzi</em> (<em>Prélude, Romance, Impromptu</em>) para piano solo, que gravei na Bélgica para o CD, &#8220;O piano intimista de Henrique Oswald&#8221;, lançado no Brasil pela Academia Brasileira de Música:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0">https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>The correspondence between Henrique Oswald, who had composed a sonata for organ, and the organist Furio Franceschini is interesting because, in addition to music, this ‘dialogue’ of letters reveals the respect, admiration and candour of these two notable masters.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
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		<title>Aurora Fornoni Bernardini</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Mar 2026 03:05:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[A arte da tradução Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado. Miguel Real (escritor, ensaísta e filósofo português) O presente blog é dedicado à notável Aurora Fornoni Bernardini. Através da competente jornalista Leila Kyomura, do Jornal da USP, fui convidado a escrever o texto que segue sobre a professora da Universidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A arte da tradução</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/2007.Aurora.JE-big.jpg" target="_blank"><img title="Aurora Bernardini e J.E.M. Foto: Valteir Vaz. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/2007.Aurora.JE-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado.<br />
</em>Miguel Real (escritor, ensaísta e filósofo português)</p>
<p style="text-align: justify;">O presente blog é dedicado à notável Aurora Fornoni Bernardini. Através da competente jornalista Leila Kyomura, do Jornal da USP, fui convidado a escrever o texto que segue sobre a professora da Universidade de São Paulo e minha dileta amiga. Publicado aos 2 de Março no relevante Jornal, transcrevo-o na íntegra neste espaço. Agradeço ao ex-aluno de Aurora Bernardini, Valteir Vaz, que gravou a enriquecedora conversa que mantive com sua mestra.</p>
<p style="text-align: justify;">“Um encontro com Aurora Fornoni Bernardini é sempre estimulante. Ilustre tradutora, romancista, pesquisadora, professora aposentada e sênior da FFLECH-USP, tendo lecionado nos programas de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russa e em Teoria Literária e Literatura Comparada, Aurora é dotada de uma cultura abrangente nos campos literários e artísticos, sendo em acréscimo poliglota, todos esses domínios essenciais bafejados pela vocação autêntica.  Aurora Bernardini tem no seu currículo traduções de obras basilares originalmente escritas em italiano, russo e inglês. Entre as suas traduções tem-se ‘O nome da Rosa’, de Humberto Eco (1980), versão saudada pela crítica, um marco no gênero e que contou com a colaboração de Homero Freitas de Andrade. Destacaria ainda, entre inúmeras outras traduções, ‘O deserto dos tártaros’, de Dino Buzzati, ‘Os sonhos seus vão acabar comigo’, de Daniil Kharms, ‘O exército de cavalaria’, de Isaac Babel, que contou também com a cooperação de Freitas de Andrade, ‘Cartas a Suvórin’, de Anton Tchékhov, ‘Indícios Flutuantes’, ‘Vivendo sob o fogo’ e ‘O Diabo”, de Marina Tsvetaieva’ autora em que é especialista, tema de sua livre-docência em 1978.</p>
<p style="text-align: justify;">Aurora Bernardini é detentora de várias láureas literárias, entre as quais da APCA, Paulo Ronái e diversos prêmios Jabuti.</p>
<p style="text-align: justify;">No substancioso depoimento que colhi recentemente, o transcurso da notável literata, dos primórdios em seu país natal, a Itália, ao desenvolvimento em nossas terras ainda na juventude, ao posterior conhecimento da literatura russa, influenciada por Boris Schnaiderman, que corroborou futuramente na verdadeira atração pela tradução de preciosidades literárias advindas do vasto país eslavo e, posteriormente, as consequentes ações junto à FFLECH-USP, capta-se a excepcional abrangência de Aurora Bernardini. A versão para outra língua é um veio literário complexo se atentarmos à fidelidade ao texto original. Daqueles primórdios voltados à sólida formação, Aurora desvelou no depoimento a sua brilhante trajetória.</p>
<p style="text-align: justify;">Nascida no norte da Itália, Aurora Bernardini iniciou na infância, logo após a Segunda Guerra, estudos bem orientados perto de Bérgamo, na Lombardia, numa época em que esse ensino era considerado o melhor do mundo. Lembra-se que cada criança na escola era responsável por uma determinada planta, que o interesse pelos livros era realidade, os miúdos os trocavam num ambiente salutar e a professora dirigia-se regularmente a Bérgamo em busca de novos livros. Tempo integral das oito às cinco da tarde e no horário do almoço, com suas marmitas, as crianças dirigiam-se aos campos na montanha e realizavam desenhos ao ar livre. Durante o curso ginasial, numa escola dirigida por freiras e padres, os professores eram leigos e a que ministrava latim, a fazer parte do seu método, orientava diariamente os alunos a decorar dez termos latinos, fator essencial para o desenvolvimento da memória segundo Aurora.</p>
<p style="text-align: justify;">Adolescente, chega ao Brasil aos 14 anos e já dominando duas línguas, a nativa e a francesa, sentiu de imediato a brutal diferença no ensino. Apesar da qualidade de alguns professores, a metodologia de aprendizado era totalmente diferente, as classes abrigavam muitos alunos, quando estava habituada na Itália às salas de aula com não mais de 20 alunos. No depoimento, um fato essencial, o presente dado por sua mãe, ‘O Livro da Jângal’, de Rudyard Kipling, na tradução de Monteiro Lobato. Lembrar-se dessa versão não teria sido, conscientemente ou não, uma orientação na sua rica trajetória como tradutora?</p>
<p style="text-align: justify;">Ao ingressar na USP, Aurora fez primeiramente o curso de línguas anglo-germânicas e, posteriormente, o curso voltado à língua russa. Encontraria seus caminhos definitivos. Tendo interesse pela literatura russa, adquiriu uma gramática. Coincidentemente, uma sua vizinha era russa, o que motivou frequentá-la durante anos apreendendo a sua língua, fator que a levou a frequentar o Curso Livre de Língua Russa na USP, ministrado por Boris Schnaiderman (1917-2016), que a seguir convidou-a para ser sua assistente. Uma frase jocosa do professor respondeu a uma observação da aluna. ‘Não sou nativa’, disse ela àquela altura e a resposta foi imediata ‘Nem todo nativo é inteligente’.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1007.Boris-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Boris Schnaiderman. Fonte: FAPESP. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1007.Boris-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Dando prosseguimento, a mostrar interesse pleno pela literatura russa, Aurora Bernardini estudaria em Moscou na Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba, curso frequentado por alunos de todos os rincões do mundo (1973). Trouxe na bagagem quantidade de apostilas, manuais e livros, que foram a seguir importantes no curso de literatura que ministrou na USP. Se autores consagrados da literatura russa, como Dostoiévsky, Tolstoi e Pushkin foram importantes em sua trajetória, o olhar para escritores e poetas menos ventilados tem sido uma constante nas traduções de Aurora Bernardini, casos de Iuri Tyniánov, Isaac Bábel, Velímir <em>Khlébnikov</em>, Marina Tsvetaieva, entre outros nomes caros à tradutora. Uma sua frase datada de 2012 traduz esse entusiasmo: ‘As novas experiências estéticas são apaixonantes, mas eu também começo por procurar no novo as sementes do velho’<strong>. </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Um fator essencial nos cursos de literatura da professora e pesquisadora é a transmissão do conhecimento do livro a ser percorrido pelo leitor não apenas seguindo a sequência, mas retornando a ler passagens que deixaram dúvidas, anotando essencialidades que corroboram a captação do estilo de um autor. Aurora entende que a leitura de um texto depende e muito da cultura do leitor. Insiste na lembrança do seu aprendizado no norte da Itália, corroborando a importância da fixação na mente das obras percorridas pelo aficionado pela leitura. Todos esses ensinamentos, transmitidos nos cursos de literatura, estavam sedimentados em metodologia aprendida, mas aprimorada por Aurora.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto à tradução, deve aquele que se propõe ao mister não se desviar dessa aproximação do estilo do autor. ‘O nome da Rosa’, de Humberto Eco, é exemplo significativo. Tradução trabalhosa, apresentou um problema relacionado às citações em latim, respeitadas a pedido do autor, que considerou a tradução brasileira mais fidedigna se comparada àquela editada em Portugal. A visão ampla interlinguística, a mais próxima possível do estilo de um autor, diferencia a dimensão cultural de tradutores. Poder-se-ia considerar que uma ótima tradução deve conter 90% da estrutura do texto original. Aurora Bernardini entende que o conhecimento aprofundado de várias línguas confere ao tradutor culto a possibilidade da captação mais arguta do texto a ser traduzido. Compete ao tradutor ‘cativar as palavras’, o que pressupõe a qualidade inalienável, o talento. Quanto às suas traduções da literatura russa, Aurora observa ser mais complexa quando se trata da poesia.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos exemplos sensíveis trazidos por Aurora abordou a transcriação, uma das categorias estilísticas de seu saudoso amigo e coparticipante em vários projetos, Haroldo de Campos (1929-2003). Ele observou que, não sendo <em>expert </em>em determinadas línguas, como hebraico, japonês, italiano e grego, foi assistido nas empreitadas por especialistas das áreas específicas. Em uma obra que Aurora considera referencial sob vários aspectos, ‘Poesia russa moderna’, a tradução ficou a cargo de três literatos: Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Boris Schnaiderman, nascido na Ucrânia.</p>
<p style="text-align: justify;">Aurora recebe quantidade de livros, muitos apresentando incontáveis inovações linguísticas de toda ordem, máxime nesses últimos tempos, ação quase impensável tempos atrás, segundo a professora.</p>
<p style="text-align: justify;">Antolha-se-me alguns aspectos fulcrais na personalidade singular de Aurora Bernardini: curiosidade, generosidade e gratidão. A simples menção à memorização de termos latinos ainda na adolescência não indicaria, já na juventude, a curiosidade em conhecer outros idiomas? Ao longo do caminho, o conhecimento de outras línguas lhe foi essencial, enriquecendo seu poliglotismo: italiano, francês, inglês, russo, português, espanhol e alemão! No depoimento, reiterou de suma importância o conhecimento de línguas, fator a desbravar novos horizontes, inclusive comparativos. Um dom necessário, a fazer parte da personalidade de Aurora, é a generosidade na transmissão do conhecimento. Não se furta em transmitir com bom humor a sabedoria adquirida a todos os que a procuram. Quanto à gratidão, ficou transparente no depoimento, o tributo a professores e literatos que cruzaram o seu caminho na Universidade de São Paulo. Refere-se com reverência aos que foram fundamentais em sua formação, assim como a outros lembrados com respeito e simpatia. Aos já mencionados anteriormente, acrescento os de Kenneth Buthlay (1926-2009), Paulo Vizioli (1934-1999) e Antônio Cândido de Mello e Souza (1918-2017).</p>
<p style="text-align: justify;">A destacar o permanente entusiasmo voltado à tradução, vocação primordial, mas também a todas as manifestações artísticas. Pela minha área específica, música, Aurora é uma apaixonada e tenho o privilégio de tê-la como ouvinte nos recitais que realizo.</p>
<p style="text-align: justify;">Em homenagem à minha querida amiga Aurora Bernardini, insiro a ‘Valsa op. 38’ do compositor russo Alexandre Scriabine (1872-1915), gravada em Mullen, na Bélgica flamenga, para o selo De Rode Pomp em 2006.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=97MoXq2KWig&amp;t=23s">https://www.youtube.com/watch?v=97MoXq2KWig&amp;t=23s</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>I transcribe in this blog a text I wrote about the remarkable translator, critic and essayist Aurora Bernardini, published in Jornal da USP on 2 March of<strong> </strong> this year.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
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