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	<title>José Eduardo MartinsSem categoria &#187; José Eduardo Martins</title>
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		<title>Jean-Philippe Rameau (1683-1764) em carta essencial (IV)</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2026 03:05:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[O compositor já a pensar na obra cênico-musical Por mais progressos que a música tenha feito até hoje, parece que o espírito se tornou menos curioso em aprofundar os seus verdadeiros princípios à medida que o ouvido se tornou sensível aos maravilhosos efeitos dessa arte; de modo que se pode dizer que a razão perdeu os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O compositor já a pensar na obra cênico-musical</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1009.Rameau-big.jpg" target="_blank"><img title="Jean-Philippe Rameau. Pintura atribuída a J. Aved. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1009.Rameau-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Por mais progressos que a música tenha feito até hoje,<br />
</em><em>parece que o espírito se tornou menos curioso<br />
</em><em>em aprofundar os seus verdadeiros princípios<br />
</em><em>à medida que o ouvido se tornou sensível aos maravilhosos efeitos dessa arte;<br />
</em><em>de modo que se pode dizer que a razão perdeu os seus direitos,<br />
</em><em>enquanto a experiência adquiriu alguma autoridade.<br />
</em>Jean-Philippe Rameau (1683-1764)<br />
(Extraído do prefácio do “Traité de l’Harmonie”, 1722)</p>
<p style="text-align: justify;">A missiva de Rameau ao poeta e libretista Antoine Houdar de la Motte (1672-1731), datada de 1727 e mantida entre os pertences do libretista, foi publicada no Mercure de France em Março de 1765, pp. 36-40, tendo interesse sob vários aspectos, pois o compositor e teórico, aos 44 anos, já antevê os seus passos em direção ao objetivo futuro voltado à ópera.</p>
<p style="text-align: justify;">Rameau evidencia a posição crítica quanto ao <em>modus faciendi</em> dos seus contemporâneos, compositores preocupados com as notas (notação musical), e expõe a sua própria criação e anseios concernentes a  início em 1733 com a <em>tragédie en musique, Hyppolite et Aricie</em>. Rameau dedicar-se-ia doravante mais assiduamente às mais de duas dezenas de outras composições do gênero em várias modalidades:  <em>Tragédie en musique</em>, <em>Óperas-ballets, Pastorales héroïques, Comédies lyriques, Comédie-ballet e Actes de ballet</em>, que se estruturam em dimensões diferenciadas quanto aos atos cênicos, de um a cinco. Na carta, Rameau solicita-lhe um libreto, fato que não terá sequência. Não obstante, ao compor <em>Pigmalion</em>, <em>acte de ballet </em>em 1748, Rameau tem libreto de Ballot de Sauvot a partir do texto do destinatário da missiva, Houdar de la Motte, <em>Le triomphe des arts</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Compositor e teórico, sem dúvida Rameau é um dos mais importantes músicos da história. Entre as várias obras teóricas, o <em>Traité de l’Harmonie réduite à ses príncipes naturels</em> (1722) foi fundamental até o início do século XX, sendo frequentado até o presente pelos estudiosos, mercê da sua clareza, metodologia e ciência. Até 1760, Rameau escreveria mais sete trabalhos teóricos.  Suas composições originais para cravo se estendem de 1706 a 1728, exceção à <em>La Dauphine</em> (1747). Tem-se cinco suítes, peças avulsas, assim como algumas transcrições da ópera-balé  <em>Les Indes Galantes</em> (1735) ou as <em>Pièces en concert</em> (1741). Fica evidente que, ao adentrar no compartimento voltado à ópera e à música de cena a partir de 1733, a dedicação composicional tornar-se-ia quase integral e sua última ópera, <em>Les Boréades</em>,<em> </em>foi apresentada em 1763, um ano antes de sua morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, <em>Les Sauvages</em>,<em> </em>extraída da ópera <em>Les Indes Galantes</em>:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3zegtH-acXE&amp;t=44s">https://www.youtube.com/watch?v=3zegtH-acXE&amp;t=44s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Escreve Rameau a Houdar de la Motte: “Quaisquer que sejam as razões que o senhor tenha para não esperar que minha música teatral tenha um sucesso tão favorável quanto a de um autor aparentemente mais experiente nesse gênero musical, permita-me contestá-las e, ao mesmo tempo, justificar a prevenção a meu favor, sem pretender tirar do meu conhecimento outras vantagens além daquelas que o senhor, assim como eu, considerará legítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem fala de um músico erudito geralmente se refere a um homem para quem nada escapa nas diferentes combinações das figuras musicais; mas, ao mesmo tempo, acredita que ele está tão absorto nessas combinações que sacrifica tudo: o bom senso, o sentimento, o espírito e a razão. Ora, ele é apenas um músico da escola, escola onde só se fala de notas musicais e nada mais; de modo que se tem razão em preferir um músico que se orgulha menos da ciência do que do gosto. No entanto, este último, cujo gosto não é formado que por comparações ao alcance de suas sensações, só pode se destacar em certos gêneros, ou seja, nos gêneros relacionados ao seu temperamento. Ele é naturalmente terno? Ele expressa bem a ternura: seu caráter é vivaz, alegre, brincalhão, etc., etc.? Sua música responde a isso; mas, tire-o desses traços que lhe são naturais e você não o reconhecerá mais. Além disso, como ele retira tudo de sua imaginação, sem qualquer ajuda da arte, por meio de suas relações com as expressões, ele acaba se desgastando. Em seu primeiro fogo, ele era brilhante; mas esse fogo se consome à medida que tenta reacendê-lo, e agora só se encontram em sua obra repetições e platitudes.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria, portanto, de desejar que houvesse um Músico que estudasse a natureza antes de pintá-la, e que, por sua ciência, soubesse fazer a escolha das cores e das nuances, mercê do seu espírito e gosto que o levariam a sentir a relação com as expressões necessárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1009.signature-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Jean-Philippe Rameau. Assinatura. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1009.signature-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Estou longe de acreditar que sou esse Músico, mas, pelo menos, tenho mais conhecimento do que os outros sobre cores e nuances, das quais eles têm apenas uma percepção confusa e que as utilizam adequadamente apenas por acaso. Eles têm gosto e imaginação, mas o todo está limitado ao reservatório de suas sensações, onde os diferentes objetos se reúnem em uma pequena porção de cores, além da qual eles não percebem mais nada. A natureza não me privou totalmente dos seus dons, e não me entreguei às combinações das notas musicais a ponto de esquecer a sua íntima ligação com a beleza natural, que por si só basta para agradar, mas que não se encontra facilmente numa terra que carece de sementes e que, acima de tudo, deu os seus últimos suspiros. Informe-se sobre a ideia que se tem de duas Cantatas que me foram tiradas há uma dúzia de anos, e cujos manuscritos são tão difusos em França que não achei por bem mandá-las gravar, uma vez que eu poderia ter de arcar com as despesas, a menos que acrescentasse algumas outras, o que não posso fazer por falta de palavras; uma tem por título <em>L’Enlevement d’Orithie</em>: há recitativos e árias caracterizadas; a outra tem por título <em>Thétis</em>, onde poderá notar o grau de ira que atribuo a <em>Neptuno</em> e a <em>Jupiter</em>, conforme convém dar mais serenidade ou mais posse a uma do que à outra e conforme convém que as ordens de uma e da outra sejam executadas (Rameau compôs essas duas Cantatas entre 1715 e 1720, e outras cinco até 1740). Cabe-vos ouvir como caracterizei o canto e a dança dos <em>Sauvages</em> que apareceram no Teatro Italiano, há um ou dois anos, e como traduzi esses títulos, <em>Les Soupirs, Les Tendres Plaintes, Les Cyclopes, Les Tourbilllons</em> (ou seja, os turbilhões de poeira provocados pelos ventos fortes), <em>Entretiens des Muses, Musette, Tambourin,</em> etc. Verá então que não sou novato na arte e que, acima de tudo, não parece que eu faça grande uso do meu conhecimento em minhas produções, nas quais procuro esconder a arte pela própria arte, pois tenho em vista apenas as pessoas de bom gosto e de modo algum os sábios, já que há muitos destes e quase nenhum daqueles. Eu poderia ainda fazer-lhe ouvir motetos para grande coro, onde reconheceria se eu sinto o que quero expressar. Enfim, isto é suficiente para lhe dar o que refletir. Com toda a consideração possível, senhor, sou seu muito humilde e muito obediente servo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente dos compositores alemães e italianos, os cravistas franceses davam títulos descritivos às suas composições. Tendo gravado em Sófia, na Bulgária, mas com lançamentos na Bélgica e no Brasil, a integral para teclado, apenas a Suíte de 1706 conserva títulos de danças, pois as outras priorizam o descritivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Rameau, <em>Les Tourbillons</em> (mencionada acima), logo após a peça de Jean-François Dandrieu (1682-1738), com título idêntico, na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=8s">https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=8s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Rameau, <em>Les Cyclopes</em>, peça igualmente citada acima, na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Hl0I3svTKnI&amp;t=2s">https://www.youtube.com/watch?v=Hl0I3svTKnI&amp;t=2s</a></p>
<p style="text-align: justify;">A íntegra da missiva manuscrita de Rameau a Houdar de la Motte sintetiza parte basilar do seu entendimento voltado à criação. Não há subterfúgios, Rameau é direto. O destinatário guardou-a entre seus pertences. Uma carta atual, escrita por um personagem luminar na era internética, permaneceria 300 anos? Ficar na denominada nuvem não implica uma categoria de esquecimento, graças à imaterialidade?</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em><em>Letter from Jean-Philippe Rameau to the  poet and librettist Houdar de la Motte reveals  essential aspects of the French composer&#8217;s thinking.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Variações Goldberg de J.S.Bach (1685-1750)</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jan 2026 03:05:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dos maiores desafios propostos pelo compositor Para se ver o fundo de um lago, é necessário que a superfície da água esteja lisa e calma. Mais ela é tranquila, mais transparente é o fundo. Zhu Xiao-Mei (1949-) (“La Rivière et son secret” Diversos leitores saudaram a gravação das Variações Goldberg, de J.S.Bach, interpretada pelo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um dos maiores desafios propostos pelo compositor</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/886.Bach-big.jpg" target="_blank"><img title="J.S.Bach. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/886.Bach-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Para se ver o fundo de um lago,</em><br />
<em>é necessário que a superfície da água esteja lisa e calma.</em><br />
<em>Mais ela é tranquila, mais transparente é o fundo.</em><br />
Zhu Xiao-Mei (1949-)<br />
(“La Rivière et son secret”</p>
<p style="text-align: justify;">Diversos leitores saudaram a gravação das Variações Goldberg, de J.S.Bach, interpretada pelo meu irmão João Carlos, e um deles, José M. Medeiros (Portugal), gostaria de saber mais sobre essa obra rigorosamente maiúscula, um dos monumentos da literatura para cravo, mas integrada decididamente ao repertório pianístico. Poder-se-ia afirmar que os dois cadernos do <em>Cravo Bem Temperado</em> (1722-1744), a compreender cada um 24 Prelúdios e Fugas, e as <em>Variações Goldberg</em> (1742) são as mais abrangentes de toda a criação para teclado de Bach.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1002.Goldberg2-big.jpg" target="_blank"><img title="Capa da 1ª edição das Variações Goldberg (1742). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1002.Goldberg2-small.jpg" alt="" /></a>Reza a história que as <em>Variações Goldberg </em>(BWW 988), que constituem a quarta parte do <em>Clavierübung, </em>teriam sido pedido feito a Bach pelo conde von Keyserling, que, sofrendo de insônia, encomendou-lhe uma obra a fim de que um aluno do compositor e protegido do conde, Johann Gottlieb Goldberg (1725-1756), pudesse tocar numa antecâmara contígua aos aposentos do nobre. Segundo o primeiro biógrafo de J.S.Bach, Johann Nicolaus Forkel (1749-1818), um dos pioneiros da musicologia, a execução ao cravo da criação encomendada se tornou constante para o bom sono de von Keyserling. O relato de Forkel, contudo, foi ao longo do tempo contestado por estudiosos. Através da tradição oitiva, ou não, Forkel elaborou o seu texto. Não obstante, apesar de mundialmente conhecida como <em>Variações Goldberg</em>, a composição foi nomeada por Bach como “Ária com algumas variações para cravo de dois teclados”. Frise-se que o compositor precisa a destinação de cada variação, pois há aquelas em que se torna necessária a utilização de dois teclados, enquanto a maioria destina-se a um só. Essa prerrogativa do compositor fez com que os cravistas ao longo da história avocassem a exclusividade do cravo para a execução da obra. O procedimento do uso de dois teclados já fora largamente empregado pelos clavecinistas franceses. <em>Les trois mains, </em>da Suíte em lá menor de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), é um exemplo típico do emprego desse processo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao ser incorporada ao repertório pianístico, as <em>Variações Goldberg </em>foram pouco ventiladas se comparadas às outras composições de Bach, máxime as <em>Suítes Francesas</em>, <em>Inglesas </em>e A<em>lemãs</em>, essas últimas mais conhecidas como <em>Partitas</em>. Quanto ao <em>Cravo Bem Temperado</em>, magnífico conjunto composicional, a destinação ficaria clara, pois de cunho didático cravístico, mas igualmente como estudo nos cursos de composição, integrando, parcialmente ou no todo, o repertório de intérpretes especializados, graças à diversidade encontrada nos 48 prelúdios e fugas. Há que se compreender a extensão das <em>Variações Goldberg</em> (<em>circa</em> 50 minutos), fator de uma frequência menor por parte dos executantes em suas apresentações.</p>
<p style="text-align: justify;">A obra em pauta se inicia por uma ária, na realidade uma sarabanda plena de ornamentos, utilizada bem anteriormente (1725) por Bach no segundo <em>Clavierbüchlein</em>, obra de cunho didático. A estrutura básica da ária estará presente em quase todas as 30 variações que seguirão e será empregada na íntegra como finalização da extraordinária composição. <span style="text-align: center;">As trinta variações alternam andamentos lentos e rápidos, fator essencial para o equilíbrio do todo. Algumas apresentam de maneira criativa e inusitada formulações bem rápidas, sendo que, no todo dessas variações em particular, processos têm certas semelhanças com outros de criações anteriores de Bach.</span></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1002.Golberg2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Capa da 1ª edição das Variações Goldberg (1742) Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1002.Golberg2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Entre as gravações interpretadas ao piano, salientem-se as do pianista Glenn Gould (1932-1982), saudadas efusivamente e um dos fatores que impulsionou sua meteórica e curta carreira pública, pois dedicaria suas últimas décadas às gravações. O brilhantismo existente nas variações rápidas da gravação de 1955, verdadeira ruptura com a tradição cravística, cede lugar ao registro realizado em 1981, um ano a anteceder sua morte, meditativa e criativa, sem a intenção “apenas” do impacto virtuosístico frente aos ouvintes. Saliente-se que Gould considerava a importância dos baixos das variações preferencialmente à melodia da Ária.  No “Traité de l’harmonie réduite à ses príncipes naturels” (1722), Rameau destaca a relevância dos baixos numa composição. Gabriel Fauré (1845-1924), de acordo com a lendária pianista e professora Marguerite Long (1874-1966) e notável intérprete do compositor, salientava “à nous les basses”. Tive o privilégio de ter sido seu aluno em Paris.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3pwvi-bjdzk#:~:text=Glenn%20Gould%2D%20Bach%20Goldberg%20Variations,Masterworks%20%E2%80%93%20D%2037779%20Released%201982">https://www.youtube.com/watch?v=3pwvi-bjdzk#:~:text=Glenn%20Gould%2D%20Bach%20Goldberg%20Variations,Masterworks%20%E2%80%93%20D%2037779%20Released%201982</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu irmão João Carlos Martins (1940-) gravou a integral de J.S.Bach para cravo executada ao piano, e no recente blog “O Náufrago” inseri  sua magnífica gravação das <em>Variações Goldberg</em>. A fim de completar a extensa integral, convidou-me para gravarmos em Sófia, na Bulgária, os dois Concertos para dois pianos e orquestra de câmara, em dó menor e Dó Maior, originalmente compostos para dois cravos.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste blog, coloco uma gravação que entendo igualmente extraordinária pela poesia e espiritualidade imanentes expressas pela pianista chinesa Zhu Xiao-Mei, que chegou a viver em campo de reeducação durante a Revolução cultural chinesa (1966-1976) nos tempos de Mao Tsé-Tung (vide blog: “La Rivière et son secret”, 06/11/2009).  Em seu livro autobiográfico, a pianista e professora do Conservatório de Paris narra as agruras vividas, a relação inequívoca com o repertório ocidental, máxime a sua dedicação à obra de J.S.Bach, tendo gravado inúmeros CDs do compositor, entre esses <em>O Cravo bem Temperado.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JmWK22OrzmI">Bach Goldberg Variations BWV 988 Zhu Xiao Mei</a></p>
<p style="text-align: justify;">Ápice existe em todas as áreas. Na específica da composição, grandes mestres deixaram obras que superaram a maioria de suas criações contidas na <em>opera omnia </em>para cravo, mas igualmente frequentadas pelos pianistas. O <em>Cravo Bem Temperado</em> e as <em>Variações Goldberg</em> certamente pertencem a essa categoria excelsa.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Following the suggestion of a reader from Portugal, who would like a specific blog about J.S. Bach&#8217;s monumental composition Goldberg Variations, in today’s post  I  write about this towering keyboard masterpiece.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<pubDate>Sat, 04 Oct 2025 03:05:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Paz, palavra sempre evocada e tão desvirtuada Distanciamento do sentido etimológico Mas quem pretende prever o destino do cedro que, de semente em árvore e de árvore em semente, de crisálida em crisálida se transforma? Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) (“Citadelle”, cap. XX) &#160; Torna-se evidente que o mundo está a viver uma fase acelerada em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paz, palavra sempre evocada e tão desvirtuada</strong></p>
<p>Distanciamento do sentido etimológico</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/984.Gaivota1-big.jpg" target="_blank"><img title="Gaivota sobre o Douro. Foto: Maria Fernanda Martins. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/984.Gaivota1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Mas quem pretende prever o destino do cedro que,</em></p>
<p><em>de semente em árvore e de árvore em semente,</em></p>
<p><em>de crisálida em crisálida se transforma?</em></p>
<p>Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)</p>
<p>(“Citadelle”, cap. XX)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Torna-se evidente que o mundo está a viver uma fase acelerada em direção contrária ao significado preciso da palavra Paz. Lideranças não se entendem, voltadas preferencialmente a egos exacerbados. Se alhures guerras entre países e conturbações ocorrem, no Brasil é o esgarçamento das relações entre os Poderes, impulsionado pela acelerada disputa político-ideológica, que contamina mentes e decisões. Não mais temos paz e a harmonia entre os três Poderes, disposta na nossa Constituição de 1968, esvaiu-se, poder-se-ia dizer, quase que por completo. Reza a nossa Constituição, em seu artigo 2º: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. Subentende-se autonomia de cada Poder e respeito entre eles. É tão claro esse artigo, assim como o conteúdo da nossa Magna Carta criteriosamente gestada. Em sendo pianista, comparo-a com as partituras dos grandes mestres. Podemos interpretá-las, mas jamais maculá-las.</p>
<p>Essas premissas se fazem necessárias, máxime após a leitura recente do pensamento de Antoine de Saint-Exupéry sobre a paz em <em>Citadelle </em>(cap. XVII), que confesso ser o meu livro de cabeceira há décadas. Na opinião de uma das responsáveis pela edição do livro, sua irmã Simone de Saint-Exupéry, trata-se de “&#8230;obra densa e profunda que aborda todos os problemas do destino humano e do condicionamento do homem”.</p>
<p>No que concerne à Paz, o escritor e piloto Saint-Exupéry, distante daquilo que hodierna e vulgarmente se apregoa sobre o termo, interpreta-a idealisticamente, com parcimônia, sem arrogância. <em>Citadelle</em> compreende uma experiência de ordem moral e seu personagem central é alegórico, um Senhor, verdadeiro guia espiritual, que transmite em monólogos seus conhecimentos existenciais, onde respeito, humanismo e justiça estão voltados à construção de uma sociedade ideal.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/686.SaintEx1-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/686.SaintEx1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Recolhi alguns trechos que entendo essenciais para a compreensão do pensamento de Saint-Exupéry sobre o tema:</p>
<p>«Não imponho a paz. Se me limitar a subjugar o meu inimigo, estou a alimentar o seu rancor. Trata-se de oferecer a cada um, para que se sinta à vontade, uma roupa à sua medida. E a mesma roupa para todos. Pois toda a contradição não passa da ausência de gênio”.</p>
<p>“A paz é árvore que demora a crescer. Tal como o cedro, precisamos absorver muitos nutrientes para construir sua unidade&#8230;</p>
<p>Edificar a paz é construir um estábulo grande o suficiente para que todo o rebanho possa nele dormir. É construir um palácio vasto o suficiente para que todos os homens possam nele se reunir, sem abandonar nada de suas bagagens. Não se trata de amputá-los para que caibam nele. Construir a paz é conseguir que Deus empreste o seu manto de pastor para receber os homens em toda a extensão dos seus desejos. Assim como a mãe que ama seus filhos. Um deles tímido e terno. O outro, ardente por viver. E o outro talvez corcunda, frágil e indesejado. Mas todos, na sua diversidade, comovem o seu coração. E todos, na diversidade do seu amor, servem à sua glória. Mas a paz é uma árvore que demora a crescer. É preciso mais luz do que eu tenho. E nada ainda é evidente. E eu escolho e recuso. Seria demasiado fácil fazer a paz se os três fossem semelhantes”.</p>
<p>Está-se a viver no Brasil um clima de incertezas, incompreensões e falta de entendimentos, dir-se-ia chaga que se instalou e que destrói quaisquer possibilidades de que a paz e a compreensão prevaleçam. Será impossível chegarmos a uma paz que perdure se em nosso país persistir um clima realmente beligerante extremado. Artigos em jornais e revistas, assim como programas televisivos e redes sociais, estão eivados de posições antagônicas, tantas delas fora dos limites ponderáveis. Homens públicos nos três Poderes se exacerbam em suas colocações. Em entrevistas, determinados “líderes” destilam ódio em relação aos seus opositores. Péssimo exemplo, mormente para as novas gerações, que apreendem o que de pior pode haver para as suas formações cívicas. A moderação e a temperança parecem ter perdido a validade. Sem elas, continuaremos num caminho destinado ao impasse. Falta-nos a observância interpretativa desses termos, tão bem expressa em um Dicionário referencial: “Temperança é a virtude que em todas as acções da nossa vida reprime o excesso, e nos contém dentro dos limites da razão, e da lei: é propriamente o <em>ne quid nimis</em> do antigo oráculo. A moderação rege e governa as nossa acções; faz que vamos pelo justo e direito caminho, não nos desviando para os extremos; indica-nos os limites que não devemos transgredir. E a temperança retifica os desvios, cohibe os excessos, reduz-nos ao caminho, à linha do nosso dever” (“Diccionario da Língua Portugueza”, por Antonio de Moraes Silva, Rio de Janeiro, Litteraria Fluminense, 1891).</p>
<p><em>The world, troubled by wars and misunderstandings,  is going in the opposite direction to the meaning of the word peace.<strong> </strong></em><em>Brazil is experiencing a period of ideological exacerbations and fierce disputes. When will we return to Harmony between the three Powers, as stated in our Magna Carta of 1968? The present circumstances brought back to my mind Saint-Exupéry&#8217;s  ideas  on peace expressed in his greatest work, Citadelle.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Tese de doutorado de Marco Rapetti sobre Henrique Oswald (II)</title>
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		<pubDate>Sat, 24 May 2025 08:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Università degli Studi di Firenze Mais custa quebrar a rocha do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar. Agostinho da Silva Alvissareira a notícia de mais uma tese de doutorado sobre o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Università degli Studi di Firenze</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/964.Rapetti5-big.jpg" target="_blank"><img title="Marco Rapetti. Foto: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/964.Rapetti5-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Mais custa quebrar a rocha do que escavar a terra;<br />
</em><em>mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou.<br />
</em><em>A grandeza da obra é quase sempre devida<br />
</em><em>à dificuldade que se encontra nos meios a empregar.<br />
</em>Agostinho da Silva</p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Alvissareira a notícia de mais uma tese de doutorado sobre o nosso mais importante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931). Nos Estados Unidos, na França e presentemente na Itália, Henrique Oswald foi tema de teses de doutorado. Da primeira tese sobre o compositor, defendida por mim na FFLECH-USP no longínquo 1988, são hoje diversas apresentadas em nossas terras. Como bem dizia meu padrinho de crisma, D. Henrique Golland Trindade (1897-1974), arcebispo de Botucatu, há momentos em que sentimos um Santo orgulho.</p>
<p style="text-align: justify;">A “tesi di dottorato in Storia delle Arti e dello Spettacolo” foi sustentada pelo excelente pianista italiano Marco Rapetti junto à “Università degli Studi di Firenze”. Há poucos anos atrás recebi mensagem de Marco Rapetti – nosso primeiro contato -, conhecedor de minhas gravações e meu livro “Henrique Oswald – músico de uma saga romântica” (São Paulo, Edusp, 1995). Um profícuo diálogo via whatsapp perdurou, graças à escolha do tema de Rapetti para a sua tese. Veio ao Brasil para pesquisar os acervos da Bibliotena Nacional e do Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, da Universidade de São Paulo e da documentação que acumulei a partir de 1978, fonte de permanente aprofundamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Marco Rapetti estudou em Gênova, Florença e Nova York. Realizou mestrado e doutorado na Julliard School. Obteve vários prêmios internacionais e se apresentou na Europa, América do Norte, Japão e Austrália. Gravou para vários selos, entre os quais Dynamic, Stradivarius, Naxos e Brilliant. Entusiasmou-me o interesse do pianista exemplar, autor de inúmeras gravações em CDs, prioritariamente focalizadas em integrais de compositores extraordinários, mas pouco ventilados, fato a ser absolutamente louvado. Essa busca pelo repertório pouco frequentado foi mais um elo para o nosso ótimo entendimento. Mencionaria suas gravações de obras completas para piano dos russos Alexander Borodine (1833-1887), Anatoly Lyadov (1855-1914) e do francês Paul Dukas (1865-1935), entre tantos outros importantes registros. Marco Rapetti é professor do Conservatório de Florença, cidade na qual Henrique Oswald e sua mãe se estabeleceram em 1868. Buscou conhecer nas instituições florentinas dados fundamentais sobre Henrique Oswald, que em Florença viveu cerca de três décadas. Lembraria ao leitor que Henrique Oswald se casaria com uma nativa, Laudomia Gasperini. O casal teve quatro filhos, sendo que Alfredo foi excelente pianista e Carlos, quando na juventude da idade madura, se estabeleceria no Rio de Janeiro, tornando-se o pioneiro da gravura em metal no Brasil e autor dos desenhos preliminades que resultaram da elaboração do Cristo Redentor, no Corcovado.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/964.MJE-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Com Marco Rapetti, após meu recital em Tomar, Portugal, 11/06/2022. Foto da minha neta Valentina Rosella. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/964.MJE-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Chamou-me a atenção o relevante contributo de Marco Rapetti, penetrando profunda e fisicamente, no primeiro caso através de cuidadosa pesquisa e, em segundo lugar, na sua presença, durante a elaboração da tese, nos espaços vividos pelos Oswalds. Das tantas teses sobre o compositor, é a primeira desenvolvida sob os ares florentinos. Como curiosidade, Rapetti vive em uma morada em Florença bem próxima da casa em que viveu Henrique Oswald durante um bom período.</p>
<p style="text-align: justify;">Extraí algumas passagens incluídas na tese e que posicionam a música em Florença nos tempos de Henrique Oswald. Escreve Rapetti: “Embora a pesquisa musicológica dos últimos anos tenha questionado o conceito de ‘renascimento instrumental italiano’, normalmente usado para se referir à geração de músicos que trabalhou na Itália pós-unificação, também é verdade que os principais compositores de piano e música de câmara considerados representativos desse suposto renascimento não vêm do antigo Grão-Ducado da Toscana, paradoxalmente o berço de uma grande tradição instrumental revigorada pela influência austríaca e na vanguarda do debate crítico e da abertura à Europa. Enquanto em Nápoles, o centro pianístico mais avançado junto com Milão, encontramos uma figura como Martucci, em Bolonha Golinelli, em Roma Sgambati e em Cosenza Rendano, a Toscana é geralmente mencionada apenas por ser o berço de Busoni, um compositor que, embora ilustre, na verdade pertence mais ao mundo germânico do que ao italiano. A peculiaridade de Florença, capital <em>pro tempore </em>do Reino da Itália e cidade cosmopolita por excelência, é ter visto a presença de dois pianistas-compositores florentinos por adoção, Edgardo Del Valle De Paz e Henrique Oswald, que, embora plenamente inseridos nesse ‘renascimento’, foram completamente esquecidos após o advento do fascismo”. Edgardo Del Valle De Paz (1861-1920) nasceu no Egito. Continua Rapetti: “Se no primeiro caso as leis raciais tiveram impacto, no segundo o especioso problema da nacionalidade desempenhou seu papel. Nascido no Brasil em 1852, filho de pai suíço e mãe toscana, e radicado na Itália aos dezesseis anos, Oswald acabaria retornando definitivamente ao Rio de Janeiro em 1911, permanecendo sempre profundamente ligado a Florença, onde estudou, viveu e trabalhou por mais de trinta anos. É a esta figura — hoje amplamente revalorizada pela musicologia brasileira, mas ainda praticamente ignorada pela musicologia italiana — que se dedica esta investigação, com base em fontes e documentos, em grande parte inéditos, conservados em Florença e no Brasil. Partindo da história dos laços culturais entre a Toscana e o país sul-americano, e de uma investigação genealógica da família Oswald-Cantagalli, o estudo descreve o ambiente musical de Livorno no início do século XIX, em que viveu a mãe de Oswald, para, em seguida, partir para uma análise ampla do ambiente florentino, no qual o músico &#8216;ítalo-suíço-brasileiro&#8217; se viu imerso por longo tempo, primeiro como estudante e depois como concertista, compositor e professor. O capítulo final é dedicado aos últimos vinte anos passados por Oswald no Rio de Janeiro, onde se consolidou como um dos músicos mais importantes de sua geração, embora tenha sido condenado ao ostracismo pela crítica nacionalista da década de 1920 por ser ‘excessivamente’ europeu”. Essa última observação sobre a nuvem cinzenta sobre a obra de Oswald só foi dissipada paulatinamente, após o “redescobrimento” da composição oswaldiana a partir da segunda metade do século XX.</p>
<p style="text-align: justify;">A elaboração de uma tese de doutorado, a meu ver, deve pressupor sempre o ato amoroso e jamais, como princípio, aquele voltado unicamente à progressão na carreira. Os almoxarifados das universidades estão abarrotados de teses defendidas que nunca serão consultadas. É a dedicação ao tema escolhido, a demandar empenho e entusiasmo, que definirá a qualidade do trabalho e, doravante, o seu efeito salutar para os pesquisadores futuros. Acompanhei o intenso labor de Marco Rapeti. Sua tese resgata algo fundamental para o desvelamento maior de Henrique Oswald, pois, apesar dos diários familiares conservados em instituições do Rio de Janeiro, é a primeira vez que o compositor é resgatado sob a competência de um extraordinario pianista italiano, que vive no solo que foi tão caro ao nosso excelso compositor. Oxalá, a partir dessa tese referencial, outras incursões na bela cidade da Toscana possam trazer revelações ainda ocultas a respeito de Henrique Oswald.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/964.Valentina-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/964.Valentina-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Marco Rapetti apresentou, em Livorno, a primeira audição moderna do <em>Quarteto op. 5 </em>de Oswald. Enviou-me a gravação via WheTransfer, mas, por motivos ligados ao tempo escasso que a plataforma online fixa para que uma transferência permaneça e à minha inépcia internética, não consegui anexar ao blog. Tão logo consiga, após ajuda, anexarei a um blog futuro. No entanto, apresento duas gravações referenciais extraídas dos inúmeros CDs gravados por Marco Rapetti, pianista e pesquisador vocacionado.</p>
<p style="text-align: center;">Scriabine, “Valsa” op.1 in fá menor</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=0ixMOOsREFs">https://www.youtube.com/watch?v=0ixMOOsREFs</a></p>
<p style="text-align: center;">Franz Liszt “Bagatela sem tonalidade”</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vBr64M7bH8I&amp;t=1s">https://www.youtube.com/watch?v=vBr64M7bH8I&amp;t=1s</a></p>
<p><em>The excellent Italian pianist and researcher Marco Rapetti has defended his doctoral thesis at the </em>Università degli Studi di Firenze<em> on our greatest romantic composer, Henrique Oswald. It&#8217;s a magnificent thesis, the first in Florentine soil, precisely in the city where Oswald lived with his family for thirty years.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Um Histórico de recentes invasões impunes no Brasil</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2025/04/19/um-historico-de-recentes-invasoes-impunes-no-brasil/</link>
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		<pubDate>Sat, 19 Apr 2025 03:05:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[A exacerbação restrita a uma determinada invasão O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar. Roberto Campos (1917-2001) (Embaixador e economista) Foram muitas as mensagens louvando a posição do jurista Ives Gandra Martins no que concerne à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A exacerbação restrita a uma determinada invasão</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/959.invasão2-big.jpg" target="_blank"><img title="Invasão do Congresso Nacional, 24 de Maio de 2017. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/959.invasão2-small.jpg" alt="" /><br />
</a></p>
<p><em>O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito.<br />
O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar.<br />
</em>Roberto Campos (1917-2001)<br />
(Embaixador e economista)</p>
<p style="text-align: justify;">Foram muitas as mensagens louvando a posição do jurista Ives Gandra Martins no que concerne à anistia. No blog anterior Ives Gandra elenca o histórico de anistias em nosso país. Pelo fato de entender que dois temas têm ligação plena, a baderna e a anistia, insiro na íntegra o texto posterior de Ives Gandra igualmente relacionado às manifestações desordeiras, uma sem qualquer posicionamento punitivo, e a de 8 de Janeiro, severamente castigada.</p>
<p style="text-align: justify;">O artigo recente, publicado na Revista Aeronáutica nº 326, leva à reflexão dos pesos avaliativos diferenciados em situações relacionadas aos distúrbios coletivos, ignorando-os ou punindo-os a depender das ideologias.</p>
<p style="text-align: justify;">Escreve o jurista Ives Gandra: “Assisti, outro dia, pelas redes sociais, a um vídeo sobre a invasão do Congresso Nacional, ocorrida em 24 de maio de 2017, por elementos do PT e do MST, com destruição de dependências do Parlamento e incêndios provocados à entrada. Naquele dia, estava em uma audiência com o Ministro Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal (STF) e tomamos conhecimento do que ocorria pelo rádio, em seu Gabinete, assim como da decretação do estado de emergência pelo presidente Temer, tal a gravidade do atentado e a determinação para que o Exército tomasse as medidas necessárias para que o episódio fosse encerrado com a desocupação do Legislativo.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar da gravidade do atentado contra os Poderes, nenhum dos invasores, depredadores e agressores de funcionários sofreu um processo judicial.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano passado, em sessão da Academia Paulista de Letras Jurídicas, o acadêmico e ex-presidente da República, Professor Doutor Michel Temer, em Conferência, esclareceu que não puniu aqueles baderneiros, pois decidiu seguir o exemplo do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que anistiara os revoltosos de Aragarça e Jacareacanga que, com armas, tentaram um golpe de Estado em seu governo.</p>
<p style="text-align: justify;">Comparando os atos de 2017 com os de 08 de janeiro de 2023, neste, houve um número maior de pessoas, mas não agressões a funcionários públicos, embora tenham ocorrido, também, depredações que se estenderam ao Executivo e ao Legislativo, sem necessidade, entretanto, de decretação do Estado de Emergência, sendo que, com um contingente não expressivo de militares, o Presidente Lula encerrou a baderna, prendendo 1700 manifestantes desarmados sem necessidade de dar um tiro sequer.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo assim, verificando os vídeos, nas redes sociais, das duas manifestações condenáveis, a única diferença foi na extensão maior daquela de 2023 e haver feridos na de 2017, no Governo Temer. As destruições, entretanto, de prédios públicos foram as mesmas.</p>
<p style="text-align: justify;">Em novembro de 2024, um cidadão suicidou-se perante o STF, com evidente perturbação mental, tendo-se descoberto por mensagens que queria matar o Ministro Alexandre de Moraes.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2018, um outro cidadão esfaqueou o então candidato Bolsonaro durante a campanha, em fato semelhante ao tiro dado em Trump em 2024, nos Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois fatos são muito parecidos, assim como as duas manifestações baderneiras de destruição de prédios públicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ocorre, todavia, que a imprensa e os políticos de esquerda entenderam que as badernas ocorridas no Governo Temer não foram nem tentativa de golpe e nem atentado violento ao Estado Democrático de Direito, mas as de 08 de Janeiro foram, assim como o esfaqueamento do ex-presidente Bolsonaro fora considerado ato isolado, mas o suicídio de quem queria atentar contra o Ministro Alexandre de Morais, um ato vinculado a grupo que pretendia um golpe e um atentado ao Estado Democrático de Direito, sem nenhuma prova nesse sentido.</p>
<p style="text-align: justify;">Confesso ser cada vez mais difícil interpretar o nosso Direito, tendo a nítida impressão de que o Brasil possui duas espécies de hermenêutica jurídica, em que fatos e circunstâncias semelhantes devem ser punidos quando praticados por conservadores e desconsiderados quando quem os pratica milita na esquerda. Pergunto-me, parafraseando o poeta: ‘Mudou o Brasil ou mudei eu?’”.</p>
<p style="text-align: justify;">A posição do meu ilustre irmão Ives Gandra, nos seus 90 anos, reflete uma existência plena de quem interpretou inúmeros Governos, e suas reflexões não partem de irrealidades, mas da observação que leva às evidências cristalinas, <em>hélas</em>, nem sempre entendidas pela Suprema Corte. Ter comentado em 15 volumes a nossa Carta Magna de 1988 não lhe dá uma autoridade opinativa? É só seguir fielmente o que reza a nossa Constituição. Conservar o princípio absoluto da Carta Magna faz jus àquilo que deveria ser sempre o alicerce profundo a clarear as decisões dos senhores Ministros, guardiães da Constituição. Triste não a seguirem fielmente. <em>In adendo, </em>acrescentaria que diversas outras invasões nas Câmaras de São Paulo aconteceram ao longo dos anos, sem consequências maiores para os baderneiros.</p>
<p style="text-align: justify;">No próximo blog retorno aos temas que acompanham a minha também já longa existência. Contudo, nesses dois últimos posts não podia me furtar a expressar minha profunda admiração pelas reflexões do meu querido irmão Ives Gandra Martins, pois me calaram profundamente.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>In this second post on a theme so well addressed by my brother, the jurist Ives Gandra Martins, we look at the double standards concerning the invasion of public buildings. </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
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		<title>Ecos de &#8220;A língua portuguesa, a cada ano mais aviltada”</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Jan 2025 03:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma minoria está alerta Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; Mas é nessa maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmamos Para sermos nós próprios melhores, como tal, melhoramos os outros. Agostinho da Silva (1906-1994) Entre as mensagens recebidas, uma só preocupação com o progressivo descuido com a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Uma minoria está alerta</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/946.Gabinete-big.jpg" target="_blank"><img title="Real Gabinete Português de Leitura. Rio de Janeiro. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/946.Gabinete-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;<br />
</em><em>Mas é nessa maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmamos<br />
</em><em>Para sermos nós próprios melhores, como tal, melhoramos os outros.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)</p>
<p style="text-align: justify;">Entre as mensagens recebidas, uma só preocupação com o progressivo descuido com a língua portuguesa. O desmonte tem sido contínuo e acelerado. Sistemático, a multiplicar elisões de sílabas, negligenciar conjugação correta, incorporar palavras não advindas da assimilação natural que o passar do tempo proporciona, mas impostas por grupetos, transformando-se em virose que se espalha num meio propício e que contamina a sociedade. O jargão e as incorreções decorrentes determinam o surgimento de palavras sem quaisquer raízes, surgidas aleatoriamente em falas ou “músicas” efêmeras, idolatradas por multidões que acorrem aos megashows, substituídas por outras que se estiolam progressivamente numa sucessão ininterrupta.</p>
<p style="text-align: justify;">Como preservar princípios consagrados da língua portuguesa, se a educação no Brasil em quase todos os níveis não é preocupação basilar do governo? Quanto à deterioração, exemplo flagrante se deu nas provas do ENEM 2024, pois, entre os mais de 4 milhões de inscritos no país, apenas 12 conseguiram a nota mil, sendo que desses somente um frequentou a Escola Pública. O tema da redação “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”.</p>
<p style="text-align: justify;">Gildo dos Santos Magalhães, professor titular da FFLECH-USP, enviou uma arguta mensagem:</p>
<p style="text-align: justify;">“Mais um alerta seu, oportuno e necessário. A substituição do livro em papel pelo eletrônico, com a pseudovantagem de economizar espaço e dinheiro, leva a leituras apressadas, que não fixam o conteúdo. Acresce ao estiolamento da língua o vocabulário cada vez menor das pessoas, enquanto crescem as gírias e palavras chulas.</p>
<p style="text-align: justify;">O que noto é que muitas pessoas sequer sabem usar o potencial da internet, pois é preciso cultura até para procurar o significado de uma palavra. Frequentemente o que aparece na tela não é exato ou há múltiplos significados, nem sempre fornecidos, e a pessoa fica desinformada. A Wikipédia pode ajudar, mas se você compara, às vezes apenas a versão em inglês é mais completa, às vezes em francês, ou espanhol, ou alemão&#8230;  Alguns alunos já se aperceberam disso e uma boa enciclopédia em papel lhes daria a informação melhor, mas quase ninguém tem mais acesso a isso”.</p>
<p style="text-align: justify;">Flávio Viegas Amoreira,  poeta, escritor e crítico literário, aborda pontos fulcrais da hecatombe que está a sofrer a língua portuguesa em nossas terras: “brilhante texto necessário, apontando mais do que o depauperamento do idioma; a idiotização estética e intelectual  tem como ponta de lança o estreitamento da expressão por uma linguagem rica a partir do adensamento da língua e não seu uso cada vez  mais raso, fruto da dialogação cacofônica e homogeneizante. Um anticulturalismo, capitaneado pela mídia e cultura de massa, leva à indigência comunicacional e narrativa, reduzindo o português tão polissêmico a platitudes vocabulares’, a aviltamentos gramáticos e ao império de clichês reducionistas. Perdem a argumentação, a plasticidade do idioma e o pensamento lógico, abstrato. José Eduardo, só um artista da sua dimensão pode denunciar tamanha aberração.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/946.Cambridge-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Secção da Biblioteca da Universidade de Cambridge. England. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/946.Cambridge-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Carolina Ramos (1924-), escritora, poetisa, trovadora, contista e artista plástica, na sabedoria dos seus 100 anos, escreve: “As conclusões são absolutamente corretas. Mas&#8230; o Novo Ano chegou&#8230; E, quem sabe, venha no seu bolso aquela insuspeitada solução com a qual tanto sonhamos? Vamos confiar um pouquinho mais! Deus queira que assim seja!!!</p>
<p style="text-align: justify;">Marcos Leite, arquiteto, ao tecer considerações, relembra o ilustre gramático e filólogo<strong> </strong>Napoleão Mendes de Almeida (1911-1988)<strong>. </strong> &#8220;Que adorno cultural representa um diploma de linguística a quem escreve, ou deixa meia dúzia de vezes passar, num mesmo artigo de jornal, os mais tolos erros de gramática?&#8221; (Linguística: um estorvo à aprendizagem da Língua Portuguesa, 1997). Prossegue: “Praticamente ‘aprendi’ a ler, na mais tenra idade, devorando o Estadão, do qual meu pai era assinante, das manchetes de capa e dos editoriais, pulando as eventuais receitas de bolos que preenchiam o espaço das notícias e opiniões censuradas, atenção redobrada na seção de esportes, incluído o xadrez, e até o obituário. As ‘Questões Vernáculas’ do Professor Napoleão Mendes de Almeida eram parada obrigatória. Não me fiz escritor e reconheço que erro até com certa frequência, mas eduquei meus ouvidos de modo a senti-los feridos com os descalabros com que certas pessoas se utilizam de teclados e microfones. Algumas, alçadas a cargos e postos de projeção e evidência que jamais deveriam ocupar, não só se expõem ao ridículo de erros toscos e grosseiros, com declarações e textos de moral e ética duvidosas, para falar o mínimo, demonstrando total falta de educação e cultura perante plateias e &#8220;cidadões&#8221; que ainda os aplaudem. É lamentável e óbvio ter que concordar com as argutas observações de seu (sempre) excelente blog”.</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto aos termos vindos do lado de cima do equador, parte deles incorpora-se ao vocabulário e substitui com rapidez as palavras usuais da nossa língua, ora excluídas. Como exemplo, o “famigerado” CEO (“Chief Executive Officer”), figura de maior importância na direção e gestão de uma empresa. Quando um CEO é entrevistado pelos meios de comunicação, dificilmente o apresentador define a sua real função, podendo ser presidente de uma empresa, diretor executivo, gerente geral ou outras mais atribuições determinantes da atividade do CEO em pauta. Todos são CEOs.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The positions of four readers enrich the debate on the impoverishment of the Portuguese language in Brazil.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Pour la fin, pour mon commencement&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Sep 2024 03:05:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma obra exemplar do compositor Eurico Carrapatoso Na estrada por que vou Não fujo do meu norte. Edmundo Bettencourt (1899-1973) Após a audição, via Youtube, de uma criação do ilustre compositor português Eurico Carrapatoso (1962-), fiquei novamente impactado não apenas pela obra, mas igualmente pela expressiva interpretação do quarteto formado pelos músicos Filipe Pinto-Ribeiro (piano), [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Uma obra exemplar do compositor Eurico Carrapatoso</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/824.Carrapatoso1-big.jpg" target="_blank"><img title=" O compositor Eurico Carrapatoso. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/824.Carrapatoso1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Na estrada por que vou</em><br />
<em>Não fujo do meu norte.</em><br />
Edmundo Bettencourt (1899-1973)</p>
<p style="text-align: justify;">Após a audição, via Youtube, de uma criação do ilustre compositor português Eurico Carrapatoso (1962-), fiquei novamente impactado não apenas pela obra, mas igualmente pela expressiva interpretação do quarteto formado pelos músicos Filipe Pinto-Ribeiro (piano), Esther Hoppe (violino), Pascal Moraguès (clarinete) e Christian Poltèra (violoncelo). Escrevi ao meu dileto amigo Eurico felicitando-o pela composição, mas solicitando mais informações sobre “Pour la fin, pour mon commencement”.</p>
<p style="text-align: justify;">A obra, constituída por cinco segmentos, estreou juntamente com a apresentação do “Quatuor pour la fin du temps”, de Olivier Messiaen (1908-1992), na sala Reina Sofia, em Madrid. A criação de Carrapatoso teve apresentações posteriores na Espanha e Portugal. Dividida em cinco partes, recebeu o prêmio DASH-SHOSTAKOVICH ENSEMBLE em 2021.</p>
<p style="text-align: justify;">Eurico Carrapatoso escreve: “O título desta peça evoca a obra célebre de Olivier Messiaen (<em>Quatuor pour la fin du temps</em>) e uma outra de Guillaume de Machaut (o <em>Rondeau</em> nr.14, <em>Ma fin est mon commencement</em>). A estrutura em espelho desta última obra do <em>trecento</em> francês está patente, logo à partida, na estrutura macroformal da minha peça, um palíndromo dividido em cinco andamentos, com várias correspondências entre si no gesto e na palavra”. O movimento que tive o grato prazer de ouvir, a ratificar a minha admiração pelas criações de Carrapatoso, foi o de número cinco, “Pour la Fin”. Acrescento que, ao interpretar em primeira audição absoluta e gravar duas das importantes criações de Carrapatoso para piano, “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste” e “Missa sem palavras – cinco estudos litúrgicos”, acentuou-se o meu apreço pela obra do compositor nascido em Mirandela, Trás-os Montes.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/786.Eurico-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Eurico Carrapatoso e JEM. Tomar, Portugal. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/786.Eurico-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Se influências recebidas há em “Pour la fin, pour mon commencement”, quem não as recebe? Carrapatoso as identifica, atributo dos que não se camuflam, mas alerta que “&#8230; também eu faço nesta minha obra uma retrospectiva de gestos representativos da minha produção ao longo destes últimos vinte anos de actividade criativa ininterrupta, desde o elemento façanhudo que campeia nos andamentos pares, até à tendência que se tem afirmado nos últimos tempos para um carácter mais sóbrio e enxuto, como é patente na simplicidade do andamento central, o solo para piano, que evoca Dulcinea del Toboso<em>, “señora de mi alma, día de mi noche, gloria de mis penas, norte de mis caminos”</em>, como se um D. Quixote ali cantasse o <em>eterno feminino</em>, acompanhado por um alaúde imaginário que geme nessa tépida sombra nocturna “<em>ay! luna que reluces, toda la noche me alumbres”</em> em seus acordes antiquíssimos; enfim, passando por essa diagonal que atravessa a minha música desde que achei a minha voz, tão bem significada nos andamentos inicial e final, lentos e introspectivos: um primeiro andamento álgido e espesso, marcado pela cor sombria do <em>chalumeau</em> do clarinete que contamina o timbre do próprio quarteto; e um último andamento solar, que faz cantar o violoncelo, o violino e o clarinete à vez, numa textura cheia de ar e espaço vital; um ameaço de nuvens mais sombrias que o clarinete rememora no epílogo, dissipa-se, por fim, num adeus picardo”. Quanto a esta quinta peça, “Pour la fin”, Carrapatoso se inspira num poema de William Blake (1757-1827), <em>The Ecchoing Green, “</em>que assim canta a nossa passagem transitória pelo mundo”, como afirma Carrapatoso.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/928.WBlake-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="William Blake. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/928.WBlake-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><em>The sun does arise</em><br />
<em>And make happy the skies.<br />
The merry bells ring<br />
To welcome the Spring.<br />
The sky-lark and thrush,<br />
The birds of the bush,<br />
Sing louder around,<br />
To the bells’ cheerful sound.<br />
While our sports shall be seen<br />
On the Ecchoing Green.</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Old John, with white hair<br />
Does laugh away care,<br />
Sitting under the oak,<br />
Among the old folk,<br />
They laugh at our play,<br />
And soon they all say.<br />
‘Such, such were the joys.<br />
When we all girls &amp; boys,<br />
In our youth-time were seen,<br />
On the Ecchoing Green.’</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> </em></p>
<p style="text-align: center;"><em> </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Till the little ones weary<br />
No more can be merry<br />
The sun does descend,<br />
And our sports have an end:<br />
Round the laps of their mothers,<br />
Many sisters and brothers,<br />
Like birds in their nest,<br />
Are ready for rest;<br />
And sport no more seen,<br />
On the darkening Green.</em></p>
<p style="text-align: center;">O sol nasce,<br />
E alegra os céus.<br />
Os sinos alegres tocam<br />
Para dar as boas-vindas à primavera.<br />
A cotovia e o tordo,<br />
As aves do mato,<br />
Cantam mais alto à volta,<br />
ao som alegre dos sinos.<br />
Enquanto os nossos desportos serão vistos<br />
No verde que ecoa.</p>
<p style="text-align: center;">O velho João, de cabelo branco<br />
Ri-se dos cuidados,<br />
Sentado debaixo do carvalho,<br />
Entre os velhos,<br />
Eles riem-se da nossa brincadeira,<br />
E logo todos dizem.<br />
“Que alegria, que alegria!<br />
Quando todos nós, raparigas e rapazes,<br />
na nossa juventude, éramos vistos,<br />
No verde que ecoa.</p>
<p style="text-align: center;">Até que os mais pequenos se cansem<br />
Não podem mais ser alegres<br />
O sol está a pôr-se,<br />
E os nossos desportos têm um fim:<br />
Ao colo das suas mães,<br />
Muitas irmãs e irmãos,<br />
Como pássaros no seu ninho,<br />
estão prontos para descansar;<br />
E não se vê mais desporto,<br />
No verde que escurece.</p>
<p style="text-align: center;">(Traduzido com a versão gratuita do tradutor &#8211; DeepL.com)</p>
<p>Clique para ouvir, de Eurico Carrapatoso, “Pour la fin, pour mon commencement” nº5:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Lrw3N2m5jLA">https://www.youtube.com/watch?v=Lrw3N2m5jLA</a></p>
<p style="text-align: justify;">Em inúmeros blogs anteriores discorri sobre as várias tendências composicionais, sempre a considerar a importância de se apreender origens. A História evidencia, através dos séculos, a longa evolução da teoria e dos gêneros musicais. Muitas conquistas surgiram a partir desse olhar o passado e, a partir dele, o acréscimo de novos degraus. Sempre mantive distância de teorias que nascem sem quaisquer ligações com o passado e que, glorificadas em guetos, estiolam-se na brevidade devida. Eurico Carrapatoso, mestre de uma escrita sólida, nunca negligenciou a tradição e sua obra, magistralmente bem escrita, obedece àquilo que já rezava Jean-Philippe Rameau (1683-1764), <em>la musique est le langage du coeur</em>. A peça nº 5 é exemplo vivo dessa qualidade inalienável de Carrapatoso. “Pour la fin” em sua lentidão, com o piano como guia principal dos três outros instrumentos, numa reflexiva evolução, finda a peça como iniciou, na solidão em <em>pianissimo</em>.</p>
<p><em>“Pour la fin, pour le commencement” is a work in five parts by the distinguished Portuguese composer Eurico Carrapatoso. It received the DASH-SHOSTAKOVICH ENSEMBLE award in 2021.  I comment on the final part, “Pour la fin”. I was impressed by the quality of the writing and the exemplary performance by the piano, cello, violin and clarinet.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ecos dos últimos blogs</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2024/08/10/ecos-dos-ultimos-blogs/</link>
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		<pubDate>Sat, 10 Aug 2024 03:05:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; A interpretação de leitores fiéis Se consultarmos os mestres, aprenderemos que a primeira condição para aprender a pensar é a de cultivar em si a faculdade de se surpreender. Jean Guitton (1901-1999) (“Nouvel art de penser”, 1946) Os dois últimos blogs tiveram recepção benfazeja. Das muitas mensagens que ampliam a minha gratidão àqueles que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A interpretação de leitores fiéis</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/923.destroyed-big.jpg" target="_blank"><img title="Ephraim Rubenstein. Livros destruídos. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/923.destroyed-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Se consultarmos os mestres,<br />
</em><em>aprenderemos que a primeira condição para aprender a pensar<br />
</em><em>é a de cultivar em si a faculdade de se surpreender.<br />
</em>Jean Guitton (1901-1999)<br />
(“Nouvel art de penser”, 1946)</p>
<p style="text-align: justify;">Os dois últimos blogs tiveram recepção benfazeja. Das muitas mensagens que ampliam a minha gratidão àqueles que ainda cultuam com amor e entusiasmo temas voltados à Cultura Humanística em crise, separei algumas que me motivam a<strong> </strong>ainda ter esperanças. “Histoire Romaine et les débuts du Moyen-Âge” e os dois posts dedicados ao notável pianista português Sequeira Costa exemplificam o olhar atento dos leitores.</p>
<p style="text-align: justify;">A derrocada da Cultura Humanística se pode sentir a cada dia, tanto no cotidiano como no enfoque que se dá aos eventos voltados às multidões. A abertura da presente Olimpíada, que deveria seguir uma tradição que remonta a 1896, quando da primeira da era moderna, realizada em Atenas, evidenciou essa decadência através de cenas sem um direcionamento explícito à cultura esportiva, a culminar com a apologia grotesca e irresponsável dos valores fundamentais de uma cultura, no caso, a cristã. O escárnio ficou evidenciado, sem nenhum rubor dos organizadores, na caricatura abominável da <em>Santa Ceia</em> imortalizada por Leonardo da Vinci (1452-1519). Há determinados símbolos que jamais deveriam ser profanados, sejam eles das mais variadas tendências religiosas ou voltados a raças, bandeiras e culturas que enriqueceram a humanidade através dos séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">De Eliane Mendes, viúva do notável compositor Gilberto Mendes, recebi decisiva apreensão dos valores aviltados na atualidade. “Sim, há uma grande decadência da cultura geral em todo mundo, basta ver a abertura dos jogos olímpicos na França, de um mau gosto e grosseria tão grande, vindo de um país de grande tradição cultural no passado. Sou de uma geração em que os pais nos ofereciam, na infância, o aprendizado de um instrumento e de uma língua estrangeira, para nos preparar desde criança para uma expansão da consciência através da cultura. Somos poucos, e cada vez menos, a procurar o que há de mais elevado dentro da cultura humana, embora a grande cultura e o grande aprendizado não estejam lá, mas sim dentro de nós, dentro de nossa Consciência Superior. Através de nossa Percepção adquirimos a Inteligência e o Conhecimento espiritual, que só a Sabedoria e a Razão podem nos dar. É uma tarefa que cabe a cada um de nós, e que ninguém pode fazer em nosso lugar, a não ser nós mesmos”.</p>
<p style="text-align: justify;">A ilustre tradutora e professora Aurora Bernardini escreve: “A cultura erudita está submergindo, infelizmente, José Eduardo, mas resistamos&#8230;”.</p>
<p style="text-align: justify;">O poeta, escritor e acadêmico Flávio Amoreira tem sistematicamente denunciado, através da sua coluna em “A Tribuna” de Santos, o aviltamento cultural presente e o desprezo das novas gerações à leitura: “Triste desmonte, a começar pela ausência de filosofia, da escolástica, ausência da nossa raiz comum, o latim, mas principalmente a indigência vocabular, a miséria literária, o processo de idiotização através do primado do visual e o tsunami de platitudes digitais; bravo!”. Bem salienta o insigne pensador e poeta português Agostinho da Silva: “Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza dos outros nos enriquece a nós. Leia”.</p>
<p style="text-align: justify;">A renomada poetisa Carolina Ramos, hoje nos seus gloriosos 100 anos, envia-me um poema sobre a significação do livro, progressivamente esquecido por tantos das novas gerações, presos que estão às telinhas “imantadas”, úteis na atualidade se bem utilizadas.</p>
<p style="text-align: center;"><strong>Bendito seja&#8230;</strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: center;">As palavras o tempo apaga e arrasta<br />
- pétalas soltas, ao sabor do vento&#8230;<br />
O livro é escrínio que resguarda e engasta<br />
as joias perenais do pensamento!</p>
<p style="text-align: center;">O livro é amigo silencioso.  E basta<br />
que traga em si o gérmen do talento,<br />
para, banindo a dúvida nefasta,<br />
mentes clarear e aos sonhos dar alento!</p>
<p style="text-align: center;">Bendito o livro, que mantém o lume<br />
do saber, a ajudar a erguer-se um povo<br />
que na cultura o seu lugar assume!</p>
<p style="text-align: center;">Bendito seja quem imita os astros,<br />
valorizado, a cada instante novo,<br />
à luz de um livro, que lhe doura os rastros!</p>
<p>Gildo Magalhães, professor titular jubilado da USP e várias vezes presente em Ecos, escreve sobre o insigne pianista Sequeira Costa e sua magistral interpretação de “Gaspard de la nuit”, de Maurice Ravel, assim como a respeito da interpretação dos 24 Estudos de Chopin: “De fato, é uma execução soberba! E seu blog traz implícita resposta ao que talvez muitos leitores se perguntem: Por que José Eduardo não gravou esses estudos? Fica claro que: 1. A excelência já está garantida por outros intérpretes, o que poderia ser acrescentado? 2. Há porém outros caminhos que derivam dessas composições, essas trilhas pouco ou nada batidas estavam esperando pelo José Eduardo. Fica assim a impressão de que, recolhendo aqui e ali nos blogs, é possível traçar uma autobiografia de José Eduardo, o que é muito bom!”.</p>
<p style="text-align: justify;">Um leitor sugere algo de interesse. Pergunta-me se tenho porventura alguns traços das aulas a respeito dos Estudos de Chopin que inseri no blog de 27 de Julho último. Prazerosamente<strong> </strong>adiciono ao presente post três curtos segmentos dos Estudos com as anotações de Sequeira Costa na minha partitura. Estávamos em 1959-1960.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/923-Chopin2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Chopin. Extraído do Estudo nº7 op.10. Anotações de Sequeira Costa na minha partitura. 1959. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/923.Chopin2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/923-Chopin3-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Chopin. Extraído do Estudo n°4 op.25. Anotações de Sequeira Costa na minha partitura. 1959. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/923.Chopin3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Torna-se imperiosa uma reação ao atual quadro da sociedade. No seu conjunto, realmente os que lutam pela preservação da cultura humanística, da moralidade e dos costumes são minoria, <em>hélas</em>. Contudo, apesar dessa desvantagem numérica, há a chama que não se apaga. E é no seio da família, através do exemplo dignificante, e na atuação do professor vocacionado junto às classes da infância à juventude que se forjarão mentes que entenderão que está na conduta alicerçada em bases seguras o caminho para as transformações.</p>
<p><em>The readers&#8217; messages concerning the last two blogs were basically unanimous about cultural decadence, the discouragement to reading and the highest praise, in the post about the Portuguese pianist Sequeira Costa, for his interpretations.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>21ème Renaissance</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2024/05/18/%e2%80%9c21eme-renaissance%e2%80%9d/</link>
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		<pubDate>Sat, 18 May 2024 03:05:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Nova criação sinfônica de François Servenière É necessário evitar estar na moda no nosso métier! Ao menos se buscamos outra coisa que as satisfações imediatas, materiais notadamente. Nenhum compositor pode estar seguro que a sua música sobreviverá; mas um método certo para escapar da posteridade, é seguir os ditames da moda. Ela passará certamente, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nova criação sinfônica de François Servenière</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/911.Renaissance-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/911.Renaissance-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>É necessário evitar estar na moda no nosso métier!<br />
Ao menos se buscamos outra coisa que as satisfações imediatas, materiais notadamente.</em><br />
<em>Nenhum compositor pode estar seguro que a sua música sobreviverá; </em><br />
<em>mas um método certo para escapar da posteridade, é seguir os ditames da moda.</em><br />
<em>Ela passará certamente, a música com ela, enquanto que uma música pensada fora dessass preocupações conserva uma chance de se increver na história.<br />
</em>Serge Nigg (1924-2008)</p>
<p style="text-align: justify;">Inúmeras vezes o notável compositor francês François Servenière (1961-) esteve presente neste espaço, não apenas através de suas composições, como igualmente a partir de reflexões sempre plenas de interesse sobre música, artes e a atualidade em suas ramificações. Enviou-me recentemente uma composição ousada, recém-composta e plena de simbologia. Trata-se da “21ème Renaissance”, Sinfonia Concertante em um só andamento, subdividida em 16 pequenos episódios.</p>
<p style="text-align: justify;">Deixemo-lo expor, através de frases retiradas da sua exposição preliminar, os motivos que o levaram à criação da significativa composição: “A luta contra todo o absolutismo e contra todo o obscurantismo é sempre uma luta pela vida, mas esta última termina sempre em triunfo. Iniciado no outono de 2014, ‘21eme Renaissance’ é uma metáfora lúdica do nosso tempo nesta batalha permanente entre os titãs &#8211; o niilismo e a morte contra a vida. A nossa época tem o privilégio de testemunhar a culminação das consequências catastróficas da ideologia deletéria em todos os níveis da sociedade. O pano de fundo da atmosfera neoclássica pós-moderna é enriquecido pelas contribuições técnicas dos meados do século anterior. Séries, ritmos, atonalidade, radicalismo, música repetitiva, apologia de períodos anteriores e mestres inspiradores misturam-se e dão uma cor muito inovadora numa partitura revolucionária para o nosso tempo”. Uma rica orquestração, acrescida de 60 vozes, dimensiona o grandioso projeto. Nesta permanente luta do bem contra o mal, resulta a morte do demônio, justamente no compasso 666, número este expresso no livro do Apocalipse, cap. 13, versículo 18: “Aqui há sutileza! O homem dotado de espírito calcula o número da Besta, pois é o número do homem, e o seu número é 666”. Considere-se que, “tanto em grego como em hebreu, cada letra tinha um valor numérico correspondente à sua colocação no alfabeto” (La Sainte Bible, Paris, Du Cerf, 1956, pg.1631). Servenière observa: “O suposto &#8216;número da Besta ou de Satanás&#8217; tem propriedades matemáticas incríveis&#8230;”</p>
<p style="text-align: justify;">“21ème Renaissance” se apresenta, sob determinada ótica, como uma obra à margem das inúmeras tendências composicionais – tantas delas arrivistas &#8211; que surgiram a partir da metade do século XX, mais acentuadamente, e que levaram o ilustre compositor francês Serge Nigg a dizer que, quando verifica o grande número de compositores que se apresenta num Festival de Música Contemporânea, “sente frio na espinha”.</p>
<p style="text-align: justify;">François Servenière domina a escrita composicional. Cultua o passado, respeita-o, mas inova sempre a partir das bases sólidas adquiridas. Suas composições, sejam elas para piano solo, canto e piano ou orquestrais, revelam o mestre. Tendo gravado várias de suas composições, <em>Sept Études Cosmiques</em> + <em>Automne Cosmique</em>, <em>Trois Morceaux pour endomir l’enfant d’un artiste, Promenade sur la Voie Lactée</em> e três peças das <em>Tribulations d’un écureuil Lambda, </em>entusiasmaram-me os processos técnico-pianísticos elaborados, a qualidade escritural sem quaisquer indícios de panfletarismo e a criatividade de Servenière.</p>
<p style="text-align: justify;">Os dezesseis quadros da Sinfonia Concertante, apesar da diversidade, têm elos que tornam a obra identitária. São as impressões digitais de um autor que configuram o compositor com linguagem definida. Sinais presentes em “The Sacred Fire”, outra obra maiúscula de Servenière (vide blog: “The Sacred Fire”, 06/05/2023).</p>
<p style="text-align: justify;">A presença, em tantos segmentos, do “<em>ostinato”</em> em diversificada instrumentação, somada às modulações constantes e a escrita irrepreensível, possibilitam o amálgama perfeito com a temática inspiradora, no caso, vida e morte. Essas aparições repetitivas e insinuantes não seriam o peristilo do drama ou tragédia atual, em que ideologias antagônicas se degladiam, hoje globalmente, sempre mais acidamente? Não seriam o grito angustiado da humanidade a não antever a paz duradoura?</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/911.OGrito-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="O Grito. Pintura de Edvard Munch (1863-1944). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/911.OGrito-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Um aspecto que é fulcral nas composições de François Servenière é a coerência. Tendo transitado por inúmeras de suas obras, sempre admirei no autor essa qualidade. Tanto em “The Sacred Fire”, como na atual “21ème Renaissance”, detecta-se o fio condutor de sua arte composicional. A dialética estaria presente, pois Servenière, nos tantos quadros musicais de impacto, busca o diálogo, mas sempre com o intuito de defender suas posições, máxime em se tratando da eterna disputa do bem contra o mal no mundo hodierno tão pleno de discórdias, extremismos e absoluto descaso pelo ser humano. A morte do demônio, justamente no paradigmático compasso 666, é a possibilidade da esperança e Servenière a tem.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa outra visão, poder-se-ia acrescentar que François Servenière distancia-se daqueles que buscam guetos composicionais, que se nutrem da aceitação quase unânime de seus reduzidos membros. Sob outra égide, também a aceitação plena, sem assimilação da criação, não o entusiasma. As temáticas dessas últimas obras sinfônicas estariam voltadas à denúncia daquilo que, <em>hélas</em>, se avizinha, o recrudescimento da nefasta dualidade, o desprezo ao entendimento mercê das posições herméticas existentes. Antolha-se-me que François Servenière atende aos seus anseios latentes, que se expressam através da música. E esta é traduzida na partitura através das únicas verdades absolutas, o bem contra o mal, vida e morte.</p>
<p style="text-align: justify;">A dimensão musical se potencializa através das imagens pertinentes que acompanham cada capítulo musical. São pinturas marcantes de gênios dos séculos XIV, XV e XVI, que se coadunam à perfeição com o conteúdo musical. Ao fim de cada segmento, a imagem se pulveriza, a propiciar a espera de outro segmento, nesse longo caminhar das origens do homem à morte do mal. Haveria melhor argumento para definir a esperança?</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de François Servenière, 21ème Renaissance &#8211; Sinfonia Concertante:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=u20MR-JmkNE&amp;t=16s">(603) 21ème RENAISSANCE &#8211; François SERVENIÈRE &#8211; YouTube</a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Os dezesseis segmentos da “21ème Renaissance:</strong></p>
<p style="text-align: center;">1. Criação do mundo<br />
2. Luta do bem e do mal<br />
3. Elfos e Anjos<br />
4. Corrompendo Lúcifer<br />
5. A Dança do Diabo 2<br />
6. O nascimento da vida<br />
7. Niilismo e sua procissão de aves da desgraça<br />
8. A luta contínua entre o bem e o mal<br />
9. A colocação para o resto da vida<br />
10. O amor destrói o niilismo (coral)<br />
11. A dança infantil da alegria<br />
12. Embriaguez da juventude<br />
13. FINAL<br />
14. A força vital primitiva, monstruosa e rebelde<br />
15. A vida, o único órgão do Universo<br />
16. A morte do diabo (compasso 666)</p>
<p style="text-align: justify;"><em style="text-align: justify;">A recurring debate has agitated the art world and global society since the dawn of humanity: the struggle between the ancient and the modern. “21ème Renaissance, Sinfonia Concertante in one movement”, is the latest symphonic creation by the illustrious French composer François Servenière. Life and Death are present and the composer ends the work at measure 666, apocalyptic because it represents the death of the devil.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ecos de &#8220;O Mundo Pitoresco&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Apr 2024 03:05:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Leitores opinam e vaticinam Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo todo poder entrar. Agostinho da Silva (“Entrevista”) O blog anterior suscitou posições saudosistas e outras expondo ceticismo quanto ao alcance atual da literatura específica destinada a adolescentes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Leitores opinam e vaticinam</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/907.Livros-big.jpg" target="_blank"><img title="J.E.M. Foto: Regina Martins (2022). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/907.Livros-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Temos, sobretudo, de aprender duas coisas:<br />
</em><em>aprender o extraordinário que é o mundo<br />
</em><em>e aprender a ser bastante largo por dentro,<br />
</em><em>para o mundo todo poder entrar.<br />
</em>Agostinho da Silva<br />
(“Entrevista”)</p>
<p><span style="text-align: justify;">O blog anterior suscitou posições saudosistas e outras expondo ceticismo quanto ao alcance atual da literatura específica destinada a adolescentes e jovens. Gerações de antanho foram atraídas por coleções ou livros avulsos com propósitos educacionais definidos. As muitas colocações dos leitores não deixaram de louvar as duas coleções, “O Thesouro da Juventude” e o “Mundo Pitoresco”, elogios esses vindos daqueles que acumulam muitas décadas.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Nos meus 85 anos, foram enormes as transformações experimentadas pela literatura para adolescentes e jovens dos meados do século XX e os da mesma faixa etária nos dias atuais. Outros são os interesses da maioria da juventude hodierna. As décadas que se sucederam pouco a pouco desviaram a atenção do conhecimento humanístico. Aceleradamente, após a internet, o aprender foi se tornando mais supérfluo, imediato e sucessivamente modificado, atendendo aos constantes avanços da tecnologia que, a cada passo, mais se distancia do legado literário-filosófico ditado pelos grandes mestres da Antiguidade ao século XX.</p>
<p style="text-align: justify;">A superficialidade, irmã gêmea da brevidade das mensagens internéticas, não deixaria de penetrar no âmago de centenas de milhões que se prendem às telinhas para inteirar-se dos fatos de toda ordem e comunicar-se no cotidiano. “A pressa é inimiga da perfeição”, como se apregoava no passado, desvirtuou a língua, não apenas em termos do Brasil, mas em tantas outras terras, minimizou o pensamento, banalizou os costumes, atendo-se ao fugaz que não deixa traços, apenas prossegue em direção à paradoxal “sedimentação” da efemeridade, <em>hélas.</em></p>
<p style="text-align: justify;">O falar bem está a se estiolar. Em vários noticiários televisivos abundam os cacoetes; nos sites prolifera a inobservância do trato linguístico. Não teria sido a formação incompleta de determinados agentes da comunicação uma das causas?</p>
<p style="text-align: justify;">Retorno à essência das mensagens que, em síntese, focalizou as leituras destinadas aos adolescentes e jovens nos meados do século XX.  Gildo Magalhães, ilustre professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, aponta respectivamente para a formação décadas passadas: “É exatamente esta a sensação que você descreve que eu sinto também, ao folhear algo como o Tesouro da Juventude, ou até mesmo o Diccionario Lello, que meu pai tinha e me foi depois presenteado”. Lia-se muito e a memória retinha parcela considerável do conhecimento aprendido. A não menos notável professora titular aposentada da USP Aurora Bernardini observa com precisão: “É verdade. O desinteresse pelo conhecimento humanístico empobrece a memória e empobrece a vida. Mas que luta convencer disso as novas gerações!”</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/907.Treue-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Extraído do livro A Conquista da Terra de Wilhelm Treue. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/907.Treue-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Como não me lembrar, em tempos bem remotos, da leitura dos livros de Monteiro Lobato (1892-1948)? Nos meus 10 ou 11 anos, percorri-os quase na totalidade e a turma do Sítio do Pica-pau Amarelo foi fundamental àquela altura. “História do mundo para crianças” (1933) levou-me primeiramente à leitura de “A Conquista da Terra”, de Wilhelm Treue (1909-1992), e à incrível “A Expedição Kon-Tiki”, de Thor Heyerdahl (1914-2002). O livro de Treue me foi extraordinário, pois de maneira didática o autor desvenda a epopeia do homem em suas conquistas e intrepidezes. Possivelmente  meu interesse pelas obras do aventureiro francês Sylvain Tesson (1972-) ao percorrer o planeta teria origem certa. São vários os blogs dedicados às suas andanças (Vide menu: Livros – Resenhas e comentários &#8211; lista). “Os doze trabalhos de Hércules” (1944) encaminhou-me aos vários livros sobre a mitologia grega. Esta, figuradamente personificada nas aventuras de Hércules, tendo os personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo a acompanhá-lo numa “distância segura”, abriu-me a perspectiva de leituras sobre a Grécia Antiga, seus filósofos, artistas e escritores. As incursões posteriores aos livros percorridos na adolescência tiveram pois origem segura. Não seriam aquelas obras o peristilo basilar para aprofundamentos? Naquele longínquo período de formação, a leitura, paralela aos deveres escolares e aos estudos pianísticos, propiciou o descortino.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/907.Kontiki-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Extraído do livro A Expedição Kontiki de Thor Heyerdahl. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/907.Kontiki-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Rememoro uma coleção especial. Tratava-se de biografias resumidas em uma ou duas dezenas de páginas que destacavam, em cada livro particularizado, compositores, filósofos, pintores, escritores&#8230; Traduzidas do inglês para o português, tinham elas importância fundamental, não apenas com exemplos de vida dignificantes, mas também como referências culturais e humanísticas que substanciavam o conhecimento geral, indispensável em tantas decisões que o jovem daquele período tinha de tomar em relação ao futuro. Outras biografias em volumes individuais foram “consumidas”: Mozart, Bach, Beethoven, Aníbal Barca, Fernão de Magalhães, Napoleão, Churchill e tantas mais&#8230; Aquelas âncoras, em suas áreas específicas, eram sempre revisitadas e o conhecimento penetrava na memória. Paralelamente líamos os clássicos, pois nosso Pai insistia que “o estilo é o homem”, sempre a mencionar o conde de Buffon (1707-1788).</p>
<p style="text-align: justify;">O escritor e poeta Flávio Amoreira, em crônica publicada em “A Tribuna” de Santos, escreve: “É sabido que a alta literatura é sempre pedagógica, é sabido que ler os clássicos nos modifica (quase sempre para melhor) por toda a vida, é sabido que ler é uma atividade insuperável em busca de autoconhecimento e é sabido que escolas, governos e pais têm feito pouco para motivar os jovens ao hábito sagrado da leitura” ( Novembro, 2023). Verdades absolutas.</p>
<p style="text-align: justify;">O presente post, a rememorar leituras realizadas a mais de sete décadas, fez-me debruçar sobre a importância de um hábito salutar que, paradoxalmente, a alta tecnologia tende a sufocar. A extinção do objeto físico em relação à Música clássica ou erudita, LPs e CDs; e a banalização temática de livros à disposição, “marginalizando” a grande literatura, estão a provocar o já mencionado culto ao efêmero e, com ele, um futuro incerto.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Readers wrote about the collections &#8220;O Mundo Pitoresco&#8221; </em><em>(The Picturesque World) and &#8220;O Thesouro da Juventude&#8221; (The Treasure of Youth) as well as other books that were fundamental in the formation of past generations, understanding that the habit of good reading is essential from adolescence and youth onwards. </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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