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	<title>José Eduardo MartinsJEM &#187; José Eduardo Martins</title>
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		<title>O &#8220;Grupo dos Seis&#8221; em França</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Jun 2026 03:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Compositores em torno da renovação A coisa mais difícil na música ainda é escrever uma melodia de vários compassos que possa ser auto suficiente. Esse é o segredo da música. Darius Milhaud (1892-1974) Fico grato pela repercussão dos posts dedicados ao Grupo do Cinco, compositores que, em meados do século XIX, buscaram aspirações nas raízes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Compositores em torno da renovação</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1022.LesSix-big.jpg" target="_blank"><img title="Pintura de Jacques-Émile Blanche. Da esquerda para a direita: Germaine Tailleferre, Darius Milhaud, Arthur Honneger, Jean Wiener, Marcelle Meyer, Francis Poulenc, Georges Auric e Jean Cocteau (1923). Louis Durey não está presente. Wiener e Cocteau não faziam parte do Grupo e Meyer era a pianista preferida dos Seis compositores. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1022.LesSix-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>A coisa mais difícil na música<br />
ainda é escrever uma melodia de vários compassos<br />
que possa ser auto suficiente.<br />
Esse é o segredo da música.</em><br />
Darius Milhaud (1892-1974)</p>
<p style="text-align: justify;">Fico grato pela repercussão dos posts dedicados ao Grupo do Cinco, compositores que, em meados do século XIX, buscaram aspirações nas raízes da música russa com a finalidade de se distanciarem de preceitos musicais do Ocidente. Foi o crítico e historiador Vladimir Stassov (1824-1906) que, ao propalar que se tratava de um “pequeno e pujante grupo”, deu ensejo a que, primeiramente em França, esses poucos compositores recebessem a designação “Grupo dos Cinco”, que vigorou doravante.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos leitores, Camilo Bittencourt Miranda, sugere em sua mensagem um tema bem pertinente, o “Grupo dos seis”, compositores que se reuniam em Paris com propósitos novos entre 1916 e 1923. O tema é bem sugestivo, o período histórico é outro e as motivações tenuemente se assemelham aos postulados professados pelos músicos russos.</p>
<p style="text-align: justify;">Deve-se ao crítico musical Henri Collet (1885-1951) a designação Grupo dos Seis em Janeiro de 1920. O poeta Jean Cocteau (1889-1963) e o compositor Erik Satie (1866-1925) foram fundamentais em seus princípios estéticos para a criação do Grupo, que seria formado por Darius Milhaud (1892-1974), Arthur Honneger (1892-1955), compositor franco-suíço nascido no Havre, França, Francis Poulenc (1899-1963), Louis Durey (1888-1979), Georges Auric (1899-1983) e Germaine Tailleferre (1892-1983). Os três primeiros foram os mais representativos e deixaram composições que permanecem no repertório mundial. O Grupo, voltado a diferente posicionamento estético-musical propalado pelos compositores Gabriel Fauré (1845-1924), Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937) &#8211; se bem que os três importantes músicos tivessem tendências não homogêneas -, buscou vias que se coadunavam com as propostas de Cocteau e Satie.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1022.GroupeSix-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Da esqerda para a direita: Darius Milhaud, Arthur Honneger, Germaine Tailleferre, Francis Poulenc, Louis Durey. Ao piano Jean Cocteau que desenhou a figura de Georges Auric ausente.  Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1022.GroupeSix-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">No presente post abordarei três integrantes:  Louis Durey, Georges Auric e, principalmente, Darius Milhaud. Louis Durey transitou inicialmente pelo sistema atonal proposto por Arnold Schoenberg, enveredando a seguir por propostas mais conservadoras, senão românticas.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Louis Durey, <em>Romance sans paroles op. 21</em>, na interpretação da pianista Françoise Petit:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ht4Q32VMWlE">Louis Durey &#8211; Romance sans Paroles (Op. 21) [Score Video]</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Georges Auric estudou com Vincent d’Indy, privou da amizade de Igor Stravinsky e de Éric Satie antes de pertencer ao Grupo dos Seis, sofrendo influências do autor das <em>Gymnopédies.</em> Pluralista, compôs para várias destinações musicais: orquestra, piano câmara, coral, assim como para dezenas de filmes e, juntamente com Serguei Diaghilev (1872-1929), para vários ballets.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Georges Auric, os divertidos <em>Trois impromptus</em> para piano, na interpretação de Françoise Gobet:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4tBPaKQ4sPg&amp;list=PLKO2h2MCVM645ZYdjB5xm-WkwJoWAe2ka">Georges Auric &#8211; Trois Impromptus for piano (with score)</a></p>
<p style="text-align: justify;">Do Grupo dos Seis, Darius Milhaud foi um dos mais influentes. Profícuo compositor, abordou basicamente todos os gêneros musicais: sinfônico, lírico e coreográfico, camerístico (nove quartetos de corda), obras vocais. Sua obra é plena de variantes, intensa em tantas delas, utilizando-se inúmeras vezes do recurso da politonalidade. Imaginativo, se por vezes suas criações revelam certa desigualdade, é fato que muitas delas têm mérito invulgar mercê de fatores fulcrais, como curiosidade, instinto criativo, busca dos extremos. Milhaud particularmente teve laços com o Brasil, pois em 1917 Paul Claudel (1868-1955), poeta e dramaturgo francês, foi nomeado Ministro da França no Brasil e ele, nos seus vinte e poucos anos, veio como secretário, tornando-se amigo do nosso maior compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931). Durante o período em que esteve no Rio de Janeiro, captou essencialidades da música urbana do país, traduzindo-as em composições que se perenizaram. Em carta datada de outubro de 1919, quando de regresso a Paris, escreve à esposa de Oswald, e uma frase é pitoresca: “Se me fizessem escolher entre ‘ir ao paraíso ou retornar ao Rio’, creio que escolheria retornar ao Rio”. Outros tempos, certamente&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Um episódio curioso se deu durante a estadia de Milhaud no Rio de janeiro. Em um jantar festivo na morada de Henrique Oswald, entre os cerca de vinte convidados estava o notável pianista Arthur Rubinstein (1887-1882), que realizava turnê pela América Latina. Em suas minuciosas memórias publicadas em três volumes, Rubinstein escreve: “Do outro lado da mesa estava um homem que nem sequer tinha sorrido uma única vez. A expressão do seu rosto intrigava-me. Parecia mais brasileiro do que todos os outros, na sua maioria de ascendência italiana ou portuguesa. Aquele homem sereno tinha um rosto redondo, bem barbeado, cheio, de tez morena, olhos tristes e inteligentes. O que mais me impressionou foi o seu excelente francês. Aproveitando um momento de calmaria, dirigi-me a ele: ‘Permita-me elogiá-lo pelo seu francês. Nunca ouvi um estrangeiro dominar a este nível esta língua tão bela e tão difícil’. ‘Sou francês’, respondeu ele com um sorriso, ‘sou o secretário particular do ministro da França. Chamo-me Darius Milhaud e sou violinista e compositor’. ‘Nunca tinha ouvido falar dele’. ‘Fui declarado inapto para o serviço militar e fui trazido para cá pelo nosso ministro, o Sr. Paul Claudel, na qualidade de secretário e, sobretudo, colaborador.», (in: Arthur Rubinstein, Grande est la vie – mes longues années. Paris, Robert Laffont, 1980).</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1023.Milhaud-big.jpg" target="_blank"><img title="Darius Milhaud. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1023.Milhaud-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Escolhi de Darius Milhaud uma obra contagiante, que tem todas as referências rítmicas e sonoras que o compositor apreendeu no Rio de Janeiro. <em>Le boeuf sur le toit</em>, criação de 1920, é um ballet burlesco. Devido ao retumbante sucesso da composição, Louis Moysés, ligado a casas noturnas parisienses, inaugurou um cabaré em 1922 com o nome <em>Le boeuf sur le toit</em>, que passaria doravante a ser frequentado por figuras de renome nas várias atividades: Jean Cocteau, Pablo Picasso, o Grupo dos Seis, Erik Satie, Maurice Chevalier, Coco Chanel, Cristian Dior&#8230; Até o presente, o restaurante com música ao vivo prossegue em suas atividades.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Darius Milhaud, <em>Le boeuf sur le toit</em>, na entusiástica regência de Alondra de la Parra frente à Orquestra de Paris:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Bv9ii_uc2Rc">Darius Milhaud, Le Bœuf sur le Toit &#8211; Alondra de la Parra &amp; Orchestre de Paris</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">No próximo blog, completando o Grupo dos Seis, focalizarei Francis Poulenc, Arthur Honneger e Germaine Taillefferre.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><em>The Group of Six in France brought together, for a number of years, six composers who were seeking new directions, following in the footsteps of the country’s three most influential masters of musical composition: Gabriel Fauré, Claude Debussy, and Maurice Ravel.</em></p>
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		<title>Milly Balakirev (1837-1910) e César Cui (1835-1918)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/06/13/milly-balakirev-1837-1910-e-cesar-cui-1835-1918/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/06/13/milly-balakirev-1837-1910-e-cesar-cui-1835-1918/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 13 Jun 2026 03:05:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Completando o importante Grupo dos Cinco A música não é um brinquedo, é uma arte nobre e sagrada. Milly Balakirev Desde o final do século XIX, divulgação maior tem sido reservada a três integrantes do Grupo dos Cinco, compositores russos que, durante cerca de 15 anos (1856-1970), protagonizaram a escolha criativa estruturada basicamente nas raízes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Completando o importante Grupo dos Cinco</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1022.Balakirev-big.jpg" target="_blank"><img title="Milly Balakirev. Fonte Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1022.Balakirev-small.jpg" alt="" /></a><em> </em></p>
<p><em>A música não é um brinquedo,<br />
é uma arte nobre e sagrada.<br />
</em>Milly Balakirev</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o final do século XIX, divulgação maior tem sido reservada a três integrantes do Grupo dos Cinco, compositores russos que, durante cerca de 15 anos (1856-1970), protagonizaram<strong> </strong>a escolha criativa estruturada basicamente nas raízes nacionais da Rússia.  Havia, inclusive, uma idiossincrasia quanto à música vinda do ocidente, salvo exceções. Nos blogs anteriores abordei Mussorgsky (1839-1881), Borodine (1833-1887) e Rimsky Korsakov (1844-1908), os mais ventilados dos cinco compositores.</p>
<p style="text-align: justify;">A importância de Vladimir Stassov (1824-2006), crítico e musicólogo, foi fundamental para a constituição do Grupo dos Cinco. Argumentava que a arte praticada na Rússia não poderia ficar presa aos axiomas ocidentais. Sua ação foi decisiva no sentido de conduzir os ideais dos fundadores do Grupo nessa escolha a visar a arte direcionada às raízes russas, ao nacionalismo, ao folclore pátrio. Milly Balakirev e César Cui já estavam convencidos das orientações propostas inicialmente por Stassov, que teria futuramente influência nítida, máxime no aconselhamento a Mussorgsky e Borodine em suas magistrais óperas <em>Boris Goudonov</em> e <em>O Príncipe Igor</em>, respectivamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Balakirev e César Cui foram essenciais na formação do Grupo dos Cinco, sendo o segundo encarregado de redigir o famoso manifesto dos esperançosos membros:</p>
<p style="text-align: justify;">1 &#8211; A nova escola defende que a música dramática tem um valor próprio como música absoluta, independentemente do texto que acompanha. Uma das características desta escola é a sua oposição à vulgaridade e à banalidade;</p>
<p style="text-align: justify;">2 &#8211; A música vocal, no teatro, deve estar em perfeita sintonia com o significado do texto cantado.</p>
<p style="text-align: justify;">3 &#8211; As formas da música lírica não são de modo algum determinadas pelos moldes tradicionais da rotina: devem nascer livremente, de forma espontânea, da situação dramática e das exigências específicas do texto;</p>
<p style="text-align: justify;">4 &#8211; É essencial, fundamental, traduzir musicalmente e com o máximo de realce o caráter e o tipo das diversas personagens. Nunca cometer anacronismos nas obras de caráter histórico. Reproduzir fielmente o colorido local.</p>
<p style="text-align: justify;">Balakirev nasceu em Nijni-Novgorod e teve, quando miúdo, orientação de sua mãe nos estudos preliminares para piano. Após frequentar o curso secundário, inscreveu-se como ouvinte na Faculdade de Ciências da Universidade de Kasan. Autodidata, como seus futuros companheiros do Grupo dos Cinco, foi apresentado pelo rico aristocrata Alexandre Oulybychev, musicólogo amador, a Mikhail Glinka (1804-1857), renomado compositor, propalado como o patriarca da música russa, que propunha uma volta às origens profundas das manifestações musicais na Rússia. Glinka, ao conhecer algumas composições de Balakirev, estimula-o vivamente. Esse apoio fez com que Balakirev viajasse para São Petersburgo, convencido de que poderia revolucionar os conceitos musicais da Rússia. A vigência do Grupo dos Cinco foi interrompida anos após, entre outros fatores, devido ao temperamento um tanto despótico de Balakirev.</p>
<p style="text-align: justify;">As atividades do compositor se estenderam a outras áreas musicais, pois foi professor de composição e regente. Deve-se a ele a introdução na Rússia de obras sinfônicas de Franz Liszt (1811-1886), Robert Schumann (1810-1856) e Hector Berlioz (1803-1869), entre alguns mais compositores ocidentais.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim como o fez em relação aos hábitos de Borodine (vide blog: 30/05), tem interesse o depoimento de Rimsky Korsakov sobre hábitos de seu “colega de armas”, Balakirev: “Em cada um dos cômodos do apartamento de Balakirev havia um ícone e uma luz acesa. Ninguém mais tinha permissão para entrar em seu quarto e, quando ele adentrava na presença de terceiros, apressava-se em fechar a porta atrás de si. Da rua, a janela revelava uma penumbra misteriosa e os reflexos pálidos de uma luz acesa. Muitas vezes eu o ouvia dizer que acabara de assistir a alguma cerimônia religiosa. Ao passar por uma igreja, ele levantava o chapéu e fazia o sinal da cruz; fazia o mesmo sinal da cruz diante da boca quando bocejava&#8230;  Ele não fumava mais, deixou de comer carne e, mesmo nos dias mais frios, saía vestindo apenas um pobre sobretudo de meia estação&#8230; Se por acaso encontrasse um percevejo no quarto, ele o pegava delicadamente e o jogava pela janela, dizendo: &#8211; Vai embora, bichinho, e que Deus te proteja!&#8230;&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">Milly Balakirev foi fecundo na composição plena de competência, onde não falta a inclinação para as raízes da música russa e um afeto especial pelo orientalismo, tendo legado duas sinfonias, aberturas sobre temática russa, o poema sinfônico <em>Tamara</em>, bem frequentado pelas orquestras através dos tempos, música de câmara, canções e inúmeras criações para piano, entre as quais se destaca uma das peças mais emblemáticas e desafiadoras escritas para piano, a fantasia oriental  <em>Islamey</em>. É extraordinária a sua estrutura voltada à mais alta virtuosidade. Desavenças com colegas, defesa de posições nacionalistas extremadas resultaram em sua morte na absoluta solidão.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Milly Balakirev, Islamey, na fantástica e colorida interpretação de Vladimir Horowitz:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=r9yWeSMnpt8&amp;t=20s">https://www.youtube.com/watch?v=r9yWeSMnpt8&amp;t=20s</a></p>
<p style="text-align: justify;">César Cui (1835-1918) nasceu na Lituânia, na época pertencente ao Império da Rússia. Seu pai, Antoine Cui, foi oficial da Grande Armada napoleônica. Após a célebre campanha de 1812, Antoine fixou-se em Vilnius, casando-se com uma lituana. Enquanto miúdo, César Cui estudou música e, ao entrar na Escola Militar de São Petersburgo, especializou-se em fortificações, tendo legado inúmeros textos sobre o tema. Ao conhecer Balakirev, aprofundou-se nos estudos musicais, compondo e escrevendo artigos para inúmeras publicações na Rússia e no Exterior. Como compositor, legou diversas óperas, entre elas <em>O Flibusteiro</em> (1889), cuja primeira apresentação se deu na ópera Cômica de Paris em 1894. Frise-se a sua qualidade como miniaturista, de que são exemplos a quantidade de canções e de obras para piano.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de César Cui, “Prelúdio op. 64 nº 9”, na sensível interpretação da pianista britânica Margareth Fingerhut:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LyVqq8dWRCs&amp;list=PLri7jP-39qoG8SiAJjjWHTW_OPbKb0UrG">https://www.youtube.com/watch?v=LyVqq8dWRCs&amp;list=PLri7jP-39qoG8SiAJjjWHTW_OPbKb0UrG</a></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1021.Cui-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="César Cui. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1021.Cui-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Para o leitor que desejar conhecer outras composições de César Cui para piano, indico a gravação da integral realizada  por Marco Rapetti, excelente pianista italiano e meu dileto amigo.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.google.com/search?q=youtube+C%C3%A9sar+Cui+par+Marco+Rapetti&amp;oq=youtube+C%C3%A9sar+Cui+par+Marco+Rapetti&amp;gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOdIBCTI2NTAwajBqN6gCCLACAfEFRUjXVItw6_HxBUVI11SLcOvx&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8#fpstate=ive&amp;vld=cid:afc9da3b,vid:xKtkdfkP_ic,st:2171">https://www.google.com/search?q=youtube+C%C3%A9sar+Cui+par+Marco+Rapetti&amp;oq=youtube+C%C3%A9sar+Cui+par+Marco+Rapetti&amp;gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOdIBCTI2NTAwajBqN6gCCLACAfEFRUjXVItw6_HxBUVI11SLcOvx&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8#fpstate=ive&amp;vld=cid:afc9da3b,vid:xKtkdfkP_ic,st:2171</a></p>
<p><em>Mily Balakirev and César Cui were core members of &#8220;The Five”, an influential group of 19th-century Russian composers who sought to establish a distinctly Russian classical music, free from Western European academic traditions.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908)</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Jun 2026 03:05:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Rimsky-Korsakov (1844-1908) Não gosto da tristeza, do luto, das missas em memória. Quando já não estiver aqui, se algum dia quiserem lembrar-se de mim, basta ouvirem a minha música&#8230; Rimsky-Korsakov (carta à filha Sofia, tempos antes de morrer) Nicolay Andreyevitch Rimsky-Korsakov, integrante do Grupo dos Cinco, não apenas legou considerável produção musical e importantes trabalhos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Rimsky-Korsakov (1844-1908)</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Korsakov-big.jpg" target="_blank"><img title="Rimsky-Korsakov. Pintura de Illya Répine. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Korsakov-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Não gosto da tristeza, do luto, das missas em memória.<br />
</em><em>Quando já não estiver aqui,<br />
</em><em>se algum dia quiserem lembrar-se de mim,<br />
</em><em>basta ouvirem a minha música&#8230;<br />
</em>Rimsky-Korsakov<br />
(carta à filha Sofia, tempos antes de morrer)</p>
<p style="text-align: justify;">Nicolay Andreyevitch Rimsky-Korsakov, integrante do Grupo dos Cinco, não apenas legou considerável produção musical e importantes trabalhos teóricos, como foi atuante no ambiente musical de São Petersburgo. De família aristocrática, Korsakov, desde a infância demonstrou aptidão para a música e uma atração pela marinha, pois seu irmão a ela se dedicou. Estudando no Colégio Naval de S. Petersburgo, realizaria posteriormente cruzeiro em um navio-escola, que se estenderia de 1862 a 1865, aportando em países europeus e nas Américas, Nova York, Rio de Janeiro&#8230; O jovem não oblitera suas aspirações musicais iniciadas ainda na idade miúda, o que o fez se familiarizar com o violoncelo e o piano. Contudo, em 1861 iniciaria estudos teórico-musicais com Milly Balakirev (1837-1910),  compondo mesmo durante a fase em que orbitou na marinha.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 1871 dois fatores fundamentais em sua vida, pois é nomeado professor de Composição e Instrumentação do Conservatório de S. Petersburgo, demitindo-se da marinha, porém assumindo o cargo de inspetor das bandas. Tem interesse o fato de que, nesse ano, Korsakov dividiu um quarto com Moussorgsky num pequeno espaço alugado pelo diretor do Conservatório, onde havia um piano que era utilizado em períodos distintos pelos dois músicos. O crítico musical e grande amigo de ambos, Vladimir Stassov (1824-1906), escreve: “Às vezes, ia a casa deles de manhã bem cedo; encontrava-os dormindo, acordava-os e obrigava-os a levantarem-se. Depois, tomávamos chá com torradas com queijo <em>gruyère</em>; Rimsky e eu gostávamos particularmente disso. Logo a seguir, abordávamos o tema que nos apaixonava, a música. Um sentava-se ao piano, o outro cantava: ambos cheios de entusiasmo, mostravam-me o que tinham composto na véspera ou na véspera da véspera. Tudo isto era juvenil, belo e comovente&#8230;». No ano seguinte, Rimsky se casa com uma jovem pianista, Nadejda Purgold.</p>
<p style="text-align: justify;">Tem importância o seu caminho musical após não mais ter aconselhamentos de Balakirev. Vêmo-lo direcionar-se aos estudos individuais aprofundados, visando ao desiderato essencial, a composição. Contraponto, fuga, harmonia foram as ferramentas às quais se dedicaria com a finalidade de um embasamento maior para as suas criações. Essa dedicação levou-o a escrever um importante <em>Tratado de Harmonia prática </em>e mais <em>Princípios de orquestração</em>. Na composição, progressivamente distancia-se, na estética, de alguns dos princípios professados pelo grupo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob o aspecto humano, Korsakov estimulou seus colegas em torno do Grupo dos Cinco. Como professor orientou músicos e alguns deles se tornariam compositores de mérito: Ippolitoff-Ivanov (1859-1935), Anatoli Liadov (1855-1914), Alexandre Glasunov (1865-1936), Igor Stravinsky (1882-1971).</p>
<p style="text-align: justify;">Entre as criações basilares de Korsakov, salientem-se as óperas <em>A rapariga de Pskov, Noite de Maio, Mlada, A história do Czar Saltan</em> e outras; a obra sinfônica: três Sinfonias e várias consagradas criações, como <em>A Grande Páscoa Russa, Sadko, Sheherazade</em>, <em>Capricho Espanhol, </em>assim como suítes sinfônicas extraídas de diversas óperas; música de câmara; peças para piano e música vocal&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Rimsky-Korsakov, “O voo do besouro”, extraído da ópera <em>A história do Czar Saltan</em>, na interpretação da Filarmônica de Berlin sob a regência de Zubin Mehta:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=7pt8JpOzGv4">https://www.youtube.com/watch?v=7pt8JpOzGv4</a></p>
<p style="text-align: justify;">Rimsky-Korsakov compõe como um ourives, devido possivelmente à sua índole voltada ao aprofundamento, mas não deixa de retrabalhar obras anteriores. Difere da escrita mais espontânea de seu amigo Mussorgsky. Duas composições fulcrais do repertório operístico russo e mundial tiveram a colaboração direta de Rimsky-Korsakov: de Alexandre Borodine, <em>O Príncipe Igor</em>, após a morte súbita do compositor em 1887. Estando inacabada, Korsakov e Alexandre Glazunov (1865-1936) finalizaram, orquestraram e fizeram-na editar. Após a morte de Mussorgsky em 1881, Korsakov fez a revisão e reoquestrou <em>Boris Godounov</em>. Presentemente, mercê da pormenorizada pesquisa em torno da ópera, que resultou na restauração dos originais de Mussorgsky, <em>Boris Godounov </em>tem sido apresentada na sua autenticidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Rimsky-Korsakov. Pintura de Valentin Serov (1898). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Tem interesse o depoimento de sua filha Sofia sobre a personalidade de seu ilustre pai: “Não gosto de nenhum dos retratos do meu pai; ele parece demasiado severo, demasiado austero, demasiado rígido, quando na verdade era a própria doçura e um homem de infinita bondade. Nunca, nem uma única vez, ouvi-o levantar a voz para nos repreender, e Deus sabe que por vezes nos ‘descontrolávamos’&#8230; Maravilhoso pai de família, ele próprio tratava de todos os pormenores da nossa vida quotidiana. No dia da partida para as férias, levantava-se às 4 da manhã, desmontava as nossas camas de criança, indo registrá-las na estação, onde depois nos esperava para nos levar até a ‘dacha’, apesar de estar cansado, tendo de dar aulas no Conservatório”.</p>
<p style="text-align: justify;">Rimsky Korsakov permanece como um grande mestre da composição, na qual predominam um domínio absoluto quanto à orquestração e um melodismo que fascina, entre outras qualidades.</p>
<p style="text-align: justify;">O musicólogo Michel-Rostislav Hofmann (1915-1975) escreve sobre o hipnótico <em>Capricho Espanhol</em>: “Em nenhum outro lugar se manifesta melhor essa &#8216;euforia sonora&#8217; do que no <em>Capricho Espanhol, </em>que constitui a essência da personalidade musical de Rimsky: os diversos instrumentos da orquestra são realçados, sucessivamente, por breves cadências; as combinações de timbres são felizes e, muitas vezes, inovadoras para a época (encontram-se ecos disso na <em>Rapsódia Espanhola </em>de Ravel). Em suma, no ensaio, toda a orquestra se levantou para aplaudir o compositor e, na estreia, foi necessário tocar a obra duas vezes seguidas”.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Rimsky-Korsakov, <em>Capricho Espanhol</em>, com a Filarmônica de Berlin sob a regência de Zubin Mehta:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Lh6mDL-VwYw">https://www.youtube.com/watch?v=Lh6mDL-VwYw</a></p>
<p>No próximo blog, a pedido de leitores e a completar os posts dedicados ao Grupo dos Cinco compositores russos, abordarei Milly Balakirev e César Cui.</p>
<p><em>Nikolai Rimsky-Korsakov was one of the leading members of The Five, a group of  19<sup>th</sup> century Russian composers. A distinguished composer, music theorist and teacher, he left behind a substantial body of work, some of which is performed annually by major orchestras around the world.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Alexandre Borodine (1833-1887)</title>
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		<pubDate>Sat, 30 May 2026 03:05:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Compositor, médico e químico A minha paixão pela música é puramente russa. Tem origem no meu amor pela Igreja e nas minhas memórias da música militar e das canções das ruas da minha infância. Alexandre Borodine Leitores atentos sugeriram a ampliação do tema sobre o assim denominado Grupo dos Cinco, referente aos cinco compositores russos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Compositor, médico e químico</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1019.Borodine-big.jpg" target="_blank"><img title="Alexandre Borodine. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1019.Borodine-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>A minha paixão pela música é puramente russa.<br />
</em><em>Tem origem no meu amor pela Igreja<br />
</em><em>e nas minhas memórias da música militar<br />
</em><em>e das canções das ruas da minha infância.<br />
</em>Alexandre Borodine</p>
<p>Leitores atentos sugeriram a ampliação do tema sobre o assim denominado Grupo dos Cinco, referente aos cinco compositores russos que, num espaço aproximado de dez anos, a partir de 1862, mantiveram relações amistosas e musicais. O crítico e musicólogo Vladimir Stassov (1824-1906), várias vezes mencionado no blog dedicado a Mussorgsky (1839-1881), após um concerto dirigido por Mily Balakirev (1837-1910) em 1867 e dedicado a anfitriões eslavos, escreveu: “Que Deus faça com que os nossos anfitriões eslavos nunca se esqueçam deste evento e que se lembrem sempre da inspiração, da poesia, do talento e da maestria demonstrados por um pequeno grupo de músicos russos, um grupo reduzido, mas já tão poderoso”!</p>
<p>Dos cinco compositores componentes do núcleo fundamental, Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mussorgsky, Borodine, Balakirev e Cesar Cui (1835-1918), focalizarei presentemente a figura de Alexandre Borodine, que foi um dos compositores homenageados no <em>Oitavo Encontro Musical Privado</em>, através da <em>Petite Suite</em> para piano, belíssima composição que interpretei no Encontro. Incluí no blog do dia 9 de Maio a excelsa gravação dessa criação de Borodine, executada pela ilustre pianista russa Tatiana Nikolaieva.</p>
<p>Alexandre Porfirévitch Borodine nasceu em São Petersburgo e, ainda criança, estudou flauta, piano, violoncelo e oboé. Adolescente, já falava várias línguas: russa, alemã, francesa e inglesa. Obteria o diploma da Academia médico-cirúrgica e posteriormente, junto à Academia de Ciências, com seu trabalho acadêmico “Pesquisas sobre a constituição química da <em>hydrobenzamida </em>e da <em>amarina”</em>, receberia o título de Doutor em Ciências, tornando-se professor de química na Escola de Medicina. Não obstante esses talentos, ao conhecer Mussorgsky dedicar-se-ia prioritariamente à música, não descartando o empenho no tratamento de doentes e assistência a órfãos.</p>
<p>Para melhor entender a versatilidade de Borodine transcrevo um depoimento de seu “colega de armas” no “grupo dos cinco”, o compositor Rimsky-Korsakov – tema do próximo post –, que constata a sua dedicação aos infortunados, apesar de uma desorganização pessoal, mas a não interferir na competente criação musical. Surpreende o depoimento: “O seu apartamento, muito pouco prático, tinha à disposição um corredor: por isso, era-lhe impossível dizer que estava ausente ou mandar embora um visitante. Entravam como num moinho, a qualquer hora do dia, e o bom Borodine levantava-se da mesa antes de terminar de comer, recebia o visitante, ouvia-o, prometia intervir a seu favor ou ajudá-lo. Isso levava-lhe horas.  Acrescente-se ainda a isso o fato de sua esposa sofrer de asma, passar noites em claro e levantar-se às onze horas ou ao meio-dia. Alexandre Porfirévitch, que tinha passado sem dormir ao seu lado, era obrigado a sair muito cedo e sem ter tomado qualquer refeição. A sua vida doméstica estava, assim, marcada pela mais completa desordem. Certa vez, ao chegar em sua casa às onze da noite, encontrei-os a tomar o pequeno-almoço!&#8230; Sem contar os inúmeros órfãos que o casal recolhia em sua morada! O apartamento deles servia de refúgio ou de abrigo noturno para todo o tipo de pessoas, pobres ou de passagem, que ali adoeciam ou enlouqueciam — e Borodine deles cuidava, pedia para que fossem transportados para o hospital e ia visitá-los a seguir. Os quatro quartos da sua casa estavam cheios desses estrangeiros que dormiam nos sofás ou até mesmo no chão. Muitas vezes, era-lhe impossível tocar piano: havia alguém a dormir no quarto ao lado!&#8230;&#8221;. Não seguia Borodine um dos preceitos de Hipócrates (460 a.C -): “Consagrar sua vida a serviço da humanidade”?</p>
<p>Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a canção <em>A Rainha do mar</em>, na interpretação do Barítono Alexander Vedernikov:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=z6bwWu7ed78">https://www.youtube.com/watch?v=z6bwWu7ed78</a></p>
<p style="text-align: justify;">A versatilidade de Borodine fez-se perene através do legado musical. Para orquestra compôs três sinfonias ― a última inacabada ―; o poema sinfônico <em>Nas estepes da Ásia Central</em>; vasta música de câmara; canções; poucas peças para piano, entre as quais se sobressai a <em>Petite Suite</em>, e diversas outras composições. Contudo, a ópera <em>O Príncipe Igor</em>, uma das grandes obras operísticas russas e mundiais, consagrou-o definitivamente. Foi longa a sua gestação e o compositor escreveria sobre suas intenções: “<em>O Príncipe Igor” </em>é, essencialmente, uma ópera nacional que só pode despertar verdadeiro interesse em nós, russos, que gostamos de reavivar nosso patriotismo nas origens da nossa história e de reviver em cena as origens da nossa nação”. Após sua morte em 1887, Nikolai Rimsky- Korsakof e Alexandre Glazounov  (1865-1936) atenderam ao pedido do editor Mitrofan Bélaïév e finalizaram a ópera.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Borodin-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Alexandre Borodine. Pintura de Illya Répine. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Borodin-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Alexandre Borodine, relativamente pouco frequentado nas salas de concerto, infelizmente, foi um dos mais notáveis compositores russos. Algumas qualidades lhe são inalienáveis: um gerador de melodias contagiantes, cultor de harmonias inusitadas e absoluta criatividade quanto à orquestração.</p>
<p>Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, as <em>Danças Polovtianas</em>, extraídas da ópera <em>O Principe Igor</em>. Regente: Valery Gergiev.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=FsTVF0Fu5_c">https://www.youtube.com/watch?v=FsTVF0Fu5_c</a></p>
<p><em>Alexander Borodin was one of the most important members of the famous Group of Five, a prominent circle<strong> </strong>of Russian composers who, in the second half of the 19th century, made it one of their fundamental goals to honor the basic sources of the Russian music.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<pubDate>Sat, 30 May 2026 03:05:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Alexandre Borodine (1833-1887) compositor, médico e químico A minha paixão pela música é puramente russa. Tem origem no meu amor pela Igreja e nas minhas memórias da música militar e das canções das ruas da minha infância. Alexandre Borodine Leitores atentos sugeriram a ampliação do tema sobre o assim denominado Grupo dos Cinco, referente aos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alexandre Borodine (1833-1887) compositor, médico e químico</p>
<p>A minha paixão pela música é puramente russa.<br />
Tem origem no meu amor pela Igreja<br />
e nas minhas memórias da música militar<br />
e das canções das ruas da minha infância.<br />
Alexandre Borodine</p>
<p>Leitores atentos sugeriram a ampliação do tema sobre o assim denominado Grupo dos Cinco, referente aos cinco compositores russos que, num espaço aproximado de dez anos, a partir de 1862, mantiveram relações amistosas e musicais. O crítico e musicólogo Vladimir Stassov (1824-1906), várias vezes mencionado no blog dedicado a Mussorgsky (1839-1881), após um concerto dirigido por Mily Balakirev (1837-1910) em 1867 e dedicado a anfitriões eslavos, escreveu: “Que Deus faça com que os nossos anfitriões eslavos nunca se esqueçam deste evento e que se lembrem sempre da inspiração, da poesia, do talento e da maestria demonstrados por um pequeno grupo de músicos russos, um grupo reduzido, mas já tão poderoso”! Esse grupo teve outros músicos transitórios e, nos estertores dessa “união” dos cinco, Mussorgsky escreve: “«O nosso pequeno e poderoso grupo não passa agora de um bando de lacaios sem alma!»<br />
Dos cinco compositores componentes do núcleo fundamental, Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mussorgsky, Borodine, Balakirev e Cesar Cui (1835-1918), focalizarei presentemente a figura de Alexandre Borodine, que foi um dos compositores homenageados no Oitavo Encontro Musical Privado, através da Petite Suite para piano, belíssima composição que interpretei no Encontro. Incluí no blog do dia 9 de Maio a excelsa gravação dessa criação de Borodine, executada pela ilustre pianista russa Tatiana Nikolaieva.<br />
Alexandre Porfirévitch Borodine nasceu em São Petersburgo e, ainda criança, estudou flauta, piano, violoncelo e oboé. Adolescente, já falava várias línguas: russa, alemã, francesa e inglesa. Obteria o diploma da Academia médico-cirúrgica e posteriormente, junto à Academia de Ciências, com seu trabalho acadêmico “Pesquisas sobre a constituição química da hydrobenzamida e da amarina”, receberia o título de Doutor em Ciências, tornando-se professor de química na Escola de Medicina. Não obstante esses talentos, ao conhecer Mussorgsky dedicar-se-ia prioritariamente à música, não descartando o empenho no tratamento de doentes e assistência a órfãos.<br />
Para melhor entender a versatilidade de Borodine transcrevo um depoimento de seu “colega de armas” no “grupo dos cinco”, o compositor Rimsky-Korsakov – tema do próximo post –, que constata a sua dedicação aos infortunados, apesar de uma desorganização pessoal, mas a não interferir na competente criação musical. Surpreende o depoimento: “O seu apartamento, muito pouco prático, tinha a disposição um corredor: por isso, era-lhe impossível dizer que estava ausente ou mandar embora um visitante. Entravam como num moinho, a qualquer hora do dia, e o bom Borodine levantava-se da mesa antes de terminar de comer, recebia o visitante, ouvia-o, prometia intervir a seu favor ou ajudá-lo. Isso levava-lhe horas.  Acrescente-se ainda a isso o fato de sua esposa sofrer de asma, passar noites em claro e levantar-se às onze horas ou ao meio-dia. Alexandre Porfirévitch, que tinha passado sem dormir ao seu lado, era obrigado a sair muito cedo e sem ter tomado qualquer refeição. A sua vida doméstica estava, assim, marcada pela mais completa desordem. Certa vez, ao chegar em sua casa às onze da noite, encontrei-os a tomar o pequeno-almoço!&#8230; Sem contar os inúmeros órfãos que o casal recolhia em sua morada! O apartamento deles servia de refúgio ou de abrigo noturno para todo o tipo de pessoas, pobres ou de passagem, que ali adoeciam ou enlouqueciam — e Borodine deles cuidava, pedia para que fossem transportados para o hospital e ia visitá-los a seguir. Os quatro quartos da sua casa estavam cheios desses estrangeiros que dormiam nos sofás ou até mesmo no chão. Muitas vezes, era-lhe impossível tocar piano: havia alguém a dormir no quarto ao lado!&#8230;&#8221;. Não seguia Borodine um dos preceitos de Hipócrates (460 a.C -): “Consagrar sua vida a serviço da humanidade”?<br />
Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a canção A Rainha do mar, na interpretação do Barítono Alexander Vedernikov:</p>
<p>https://www.youtube.com/watch?v=z6bwWu7ed78</p>
<p>A versatilidade de Borodine fez-se perene através do legado musical. Para orquestra compôs três sinfonias ― a última inacabada ―; o poema sinfônico Nas estepes da Ásia Central; vasta música de câmara; canções; poucas peças para piano, entre as quais se sobressai a Petite Suite, e diversas outras composições. Contudo, a ópera O Príncipe Igor, uma das grandes obras operísticas russas e mundiais, consagrou-o definitivamente. Foi longa a sua gestação e o compositor escreveria sobre suas intenções: “O Príncipe Igor” é, essencialmente, uma ópera nacional que só pode despertar verdadeiro interesse em nós, russos, que gostamos de reavivar nosso patriotismo nas origens da nossa história e de reviver em cena as origens da nossa nação”. Após sua morte em 1887, Nikolai Rimsky- Korsakof e Alexandre Glazounov  (1865-1936) atenderam ao pedido do editor Mitrofan Bélaïév e finalizaram a ópera.<br />
Alexandre Borodine, relativamente pouco frequentado nas salas de concerto, infelizmente, foi um dos mais notáveis compositores russos. Algumas qualidades lhe são inalienáveis: um gerador de melodias contagiantes, cultor de harmonias inusitadas e absoluta criatividade quanto à orquestração.<br />
Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, as Danças Polovtianas, extraídas da ópera O Principe Igor. Regente: Valery Gergiev.</p>
<p>https://www.youtube.com/watch?v=FsTVF0Fu5_c</p>
<p>Alexander Borodin was one of the most important members of the famous Group of Five, a prominent circle of Russian composers who, in the second half of the 19th century, made it one of their fundamental goals to honor the basic sources of the Russian music.</p>
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		<title>&#8220;O Polonês&#8221; de J.M.Coetzee</title>
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		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/05/23/o-polones-de-j-m-coetzee/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 23 May 2026 03:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Um romance que merece reflexões Ainda hoje, a música de Chopin continua a ser o elixir mais inebriante que a Musa dos sons alguma vez derramou, para embriagar, nos lábios dos homens. Com isso, Chopin oferece um exemplo inigualável na era romântica, da qual ele é a flor mais iridescente. Jean Chantavoine – J. Gaudefroy-Demombynes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um romance que merece reflexões</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Polonês-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Polonês-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Ainda hoje, a música de Chopin continua a ser o elixir mais inebriante<br />
</em><em>que a Musa dos sons alguma vez derramou, para embriagar,<br />
</em><em>nos lábios dos homens.</em><em> Com isso, Chopin oferece<br />
</em><em>um exemplo inigualável na era romântica,<br />
</em><em>da qual ele é a flor mais iridescente.<br />
</em>Jean Chantavoine – J. Gaudefroy-Demombynes<br />
“Le romantisme dans la musique européenne”<br />
(Paris, Ed. Albin Michel -1955)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Recebi do meu dileto amigo, ilustre neurocirurgião Edson Amâncio, o livro “O Polonês” (São Paulo, Companhia das Letras, 2025), de J.M. Coetzee, renomado escritor nascido da cidade do Cabo, na África do Sul (1940). O autor recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 2003. Anteriormente escrevi um post sobre o romance de Thomas Bernhard, “O Náufrago” (vide blog: 10/01/2026). Qual a possível relação entre os dois livros? Ambos têm pianistas</span><strong style="text-align: justify;"> </strong><span style="text-align: justify;">como figuras fulcrais dos romances: “O Náufrago”, a partir da presença, romantizada pelo escritor, da figura do notável pianista Glenn Gould (1932-1983); “O Polonês”, inteiramente fictício, voltado ao pianista Witold Walczykiewicz, intérprete de Fréderic Chopin (1810-1849). O romance está centrado em dois personagens. Witold “É polonês,  com seus setenta anos,  pianista mais conhecido como intérprete de Chopin, mas um intérprete controverso: seu Chopin não é nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”, e uma senhora espanhola de nível social elevado e nos seus quarenta anos: “Ela é alta e elegante; pode não ser considerada uma beleza para os padrões convencionais, mas seus traços – cabelo e olhos escuros, malares salientes, boca carnuda – são marcantes e a voz, um contralto grave, tem um suave poder de atração. Sexy? Não, ela não é sexy e certamente nem sedutora”. Beatriz é o seu nome, casada e com filhos, integra o conselho de um Círculo que organiza apresentações na Sala Mompou, em Barcelona. Convidado para um recital pela organização, mercê do seu renome como chopiniano, Witold se apresenta e é aplaudido, não feericamente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Chopin-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fréderic Chopin. Pintura de Eugène Delacroix (1798-1863). Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Chopin-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Considere-se a presença do narrador onisciente que comenta, por vezes longamente, todo o transcorrer das ações. Essa interpretação não indica preconceito, tampouco parcialidade, apenas acompanha o desenrolar de uma inusitada relação, sensível e apaixonada por parte do pianista septuagenário, sem envolvimento emotivo por parte de Beatriz, o que não impede de intimamente sentir-se lisonjeada. Não se descarte a associação da figura feminina com a  Beatriz de Dante em “A Divina Comédia”. O pianista Witold, ao longo do enredo, escreve poesias.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir de uma primeira aproximação, o jantar pós-recital, Witold se encanta com Beatriz sem que nada ocorra de especial. Comunicam-se, com limitações, na língua inglesa. O narrador já enfatizara não ser Beatriz nem sexy, tampouco sedutora. Pouco após, Witold, ao retornar à Espanha para <em>master classes</em> em Girona, convida Beatriz para ter com ele, o que de fato ocorre sem consequências mais íntimas. O convite incisivo para que o acompanhe ao Brasil durante sua turnê ao país é por ela recusado, sem mais. O país é várias vezes mencionado. Cartas inflamadas por parte de Witold e respostas longe de serem efusivas. Contudo, o pianista aceita o convite do casal para visitar a propriedade em Sóller, município de Maiorca. Tendo o marido de Beatriz de se ausentar por uns dias, haverá um estreitamento nessa relação que surge sem açodamento, precedida por passeios, restaurantes e convívio a dois e que só foi mais íntima, mas breve, durante três dias. Ligação efusiva ao extremo por parte do septuagenário, simplesmente permissiva, sem entusiasmo, da parte de Beatriz. O “polonês” se declara de maneira plena. Tem interesse uma declaração de Witold: “O que é o tempo? O tempo não é nada. Temos nossa memória. Na memória não há tempo. Eu vou te guardar na minha memória. E você, talvez você também lembre de mim”. “Claro que vou me lembrar de você, seu homem estranho”, escreve Beatriz. O narrador comenta: “Ela pronuncia as palavras sem premeditação, ouve-as ecoar surpreendentemente em seu pensamento. O que está dizendo? Como pode prometer lembrar-se dele, quando tem todos os motivos para acreditar que o episódio do músico polonês que a visitou em Sóller vai desaparecer e desaparecer até que, em seu leito de morte, seja menos que uma partícula de poeira?”</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Sóller-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Sóller, Município de Maiorca. Fonte Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Sóller-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Em outro segmento, o narrador pressupõe: “O homem parece confiar nos poderes da memória. Ela gostaria de contar a ele sobre o poder do esquecimento. O quanto ela esqueceu! E ela é uma pessoa normal, uma pessoa comum, não uma exceção. O que ela esqueceu? Não faz ideia. Foi-se, desapareceu da face da terra como se nunca tivesse existido”.</p>
<p style="text-align: justify;">Um telefonema da filha de Witold a Beatriz comunica que o pianista falecera e uma caixa deveria lhe ser entregue. A destinatária viaja à Polônia, retira a caixa contendo 84 poemas, todos a ela dedicados, e mais um livro sobre Chopin. Beatriz obtém a tradução de alguns poemas e, posteriormente, de todos.</p>
<p style="text-align: justify;">A derradeira secção do romance considera as dúvidas de Beatriz quanto ao endereçamento final desses poemas: museu na Polônia, queimá-las, gaveta de baixo da escrivaninha? O narrador onisciente sobre os poemas nesse exíguo espaço: “Eles queimam ali como fogo lento”. Continua: “A resposta: porque, através de seus poemas, ele aspira à comunicação com ela do além-túmulo. Ele quer falar com ela, cortejá-la, para que ela o ame e o mantenha vivo em seu coração”. Sob outra ótica, observa sobre uma das razões dos poemas: “Ela o convidou para sua cama, depois o expulsou. A vingança dele: congelá-la, estetizá-la, transformá-la em objeto de arte, uma Beatrice, uma santa de gesso a ser venerada em procissão pelas ruas. <em>Mãe de misericórdia</em>”. Após a leitura de todos os poemas traduzidos, Beatrice compreende serem os poemas um registro de amor. Não obstante, só de pensar que, em um <em>post mortem ,</em> Witold estaria a esperá-la, estremece. Os poemas traduzem essa aspiração do pianista, vê-la novamente numa outra esfera.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de uma vez o narrador se refere ao pianista fictício Witold Walczykiewicz como um especialista na obra pianística de Fréderic Chopin, igualmente polonês, entendendo-o como “um intérprete nada romântico e um pouco austero”.  Seria possível entender que J.M.Coetzee, não sendo pianista, confira ao fictício Witold o vaticínio apontado. Chopin, assim como Robert Schumann (1810-1856) e Franz Liszt (1811-1886), românticos na acepção mais ampla, quando frequentados amplamente por pianistas sobejamente especialistas, só ali se instalam se interpretam suas obras penetrados nessa plena subjetividade emotiva. Alfred Cortot (1877-1962), Arthur Rubinstein (1887-1982), Vladimir Horowitz (1903-1989), Claudio Arrau (1903-1991), Maurizio Pollini (1942-2024),  os nossos Guiomar Novaes (1895-1979) e Arthur Moreira Lima (1940-2024), entre outros relevantes executantes que mantiveram sempre em seus repertórios inúmeras obras de Chopin, todos notabilizados nesse mister da transmissão totalizante. Em sendo um especialista na obra de Chopin, caso específico do personagem criado pelo renomado J.M. Coetzee, Witold Walczykiewicz dificilmente alcançaria renome maior sem a penetração plena no romantismo de Chopin, fator a ser considerado. Contudo, o narrador  observa: “O Chopin emergente e historicamente autêntico tem tons suaves e italianados. A leitura revisionista que o Polonês faz de Chopin, mesmo que um pouco intelectualizada demais, merece ser elogiada”.  Considere-se um dos atributos essenciais nas criações dos três compositores românticos acima mencionados, o <em>rubato </em>(termo italiano), mormente utilizado em passagens plenas de expressividade, quando a liberdade do movimento não aniquila a essencialidade do ritmo. Não obstante, Witold interpreta um “Chopin nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”. Rigorosamente Impossível sê-lo a partir dessa comparação. Soa estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance, nessa presença de dois personagens, Witold e Beatriz, com o narrador invisível que acompanha Beatriz em suas dúvidas e concessões sem entusiasmo, e o ocaso de um pianista a ter Chopin como compositor eleito e um coração apaixonado por Beatriz, expõe a maestria de Coetzee em saber “manuseá-los” numa relação com faixas etárias distintas, personalidades e propósitos diferenciados. “O Polonês”, por sua originalidade, é um livro a ser vivamente recomendado.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Fréderic Chopin, Balada em fá menor, op. 52 nº 4, na  interpretação da notável pianista Guiomar Novaes:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VDHJWsWFTg4">https://www.youtube.com/watch?v=VDHJWsWFTg4</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>J.M. Coetzee’s novel *The Pole* explores the relationship between a septuagenarian Polish pianist, a specialist in Chopin, and a married Spanish woman, one of the patrons of a musical society in Barcelona. Letters, encounters and a fundamental difference in outlook on life and emotion. </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ecos de “Coletores de resíduos frente à árdua atividade”</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/05/16/ecos-de-%e2%80%9ccoletores-de-residuos-frente-a-ardua-atividade%e2%80%9d/</link>
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		<pubDate>Sat, 16 May 2026 03:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Quatro mensagens significativas Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmamos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros. Agostinho da Silva (1906-1994) Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quatro mensagens significativas</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1014.detritos-big.jpg" target="_blank"><img title="Caminhão preparado para a recolha de detritos. Foto: Maria Fernanda. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1014.detritos-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;<br />
</em><em>mas é nessa mesma maldade que devemos procurar<br />
</em><em>o apoio em que nos firmamos<br />
</em><em>para sermos nós próprios melhores<br />
</em><em>e, como tal, melhorarmos os outros.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)</p>
<p style="text-align: justify;">Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre os coletores de resíduos, orgânicos ou não. Elas apreendem o âmago da árdua profissão, fundamental em todas as cidades, independentemente do tamanho. Transcrevo-as, pois não apenas captam a função do coletor como expandem o tema para os não oficiais, representados pelos catadores que, puxando suas pequenas carroças ou em velhos veículos motorizados, recolhem igualmente caixotes, garrafas e outros descartáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> Maria Stella Orsini, </strong>professora titular jubilada da Eca-USP, escreve: “Confesso que tenho grande preocupação com o lixo que se acumula na nossa cidade. Quando estudante, eu e minhas colegas da Caetano de Campos fazíamos longas caminhadas pela famosa rua Barão de Itapetininga. Hoje, além de muito suja, essa rua tem cheiro insuportável. Tenho o hábito de doar o material que pode ser aproveitado para os que empurram esses carrinhos superpesados. Frequento um supermercado que tem ótimas embalagens. Não uso mais plásticos, mas eles podem ser aproveitados pelos que não possuem nenhuma embalagem. Ainda coloco um pacotinho de Miojo. Não gosto e nem como, mas para eles o sal desse alimento pode ser o único que estão comendo nesse dia. Felizmente o curso de Ciências Sociais permitiu que eu e meus colegas recebêssemos<strong> </strong>uma ótima formação em Política. Na verdade, nosso país é muito mal administrado. Presenciei em inúmeras cidades europeias a lavagem das cidades, ao raiar o dia. Como as cidades japonesas são impecavelmente limpas?”</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro4-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Carroceiro em plena atividade. Fonte&gt; Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro4-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Marisa de Jesus Martins da Costa </strong>envia-me um poema inserido em seu livro “A menina que consertava o mundo”:</p>
<p style="text-align: center;">“<strong>O carroceiro</strong></p>
<p style="text-align: center;">- Bom dia, senhor carroceiro!<br />
- Bom dia, menina bonita!<br />
- O que carrega aí?<br />
- Carrego reciclável.<br />
- O que é reciclável?<br />
- É latinha, papelão, madeira, vidro&#8230;<br />
- O que vai fazer com isso?<br />
- Vou vender! Comprar comida pra distrair o estômago.<br />
- Cadê o cavalo?<br />
- Não necessito, não! Tenho pernas e braços fortes e Deus na cabeça.<br />
- Minha mãe mistura tudo. Comida com o tal reciclável.<br />
- Ensina pra ela, então! &#8211; Outro dia achei um livro no lixo.<br />
- Livro não se joga no lixo, não!<br />
- Quem faz isso?<br />
- É o homem que não gosta das letras.<br />
- Eu sei ler e escrever. Escrevo pra minha família em Massarandupió.<br />
- Massarandupió? Onde fica?<br />
- É longe. Fica atrás do mapa. Um dia volto pra lá.<br />
- Vou perder meu amigo carroceiro?<br />
- Perde, não! Amigo é para sempre. Esteja onde estiver”.</p>
<p style="text-align: justify;">O Professor titular jubilado da FFLECH-USP, <strong>Gildo Magalhães</strong>, presente em tantos posts, o que muito me alegra, envia a mensagem:</p>
<p style="text-align: justify;">“Ainda sob o impacto agradável da sua execução brilhante de música russa, concordo integralmente com suas observações sobre os trabalhadores da coleta de lixo. Quando vivi na Alemanha, na década de 1980, só os imigrantes se sujeitavam a esse trabalho árduo e ao salário,  mas com uma atenuante: era facilitado pela mecanização, que obrigava todos a usarem o mesmo modelo de lata de lixo, que era pega por braços mecânicos, despejada e devolvida automaticamente. Idem para a varrição de ruas, completamente mecanizada. Enfim, coisas de sociedade mais desenvolvida&#8230;”</p>
<p style="text-align: justify;">Em um outro contexto, diria “oficial”, recebi mensagem substanciosa e esclarecedora da minha dileta sobrinha <strong>Ângela Gandra Martins</strong>, advogada, jurista, com Doutorado e Pós-Doutorado em Filosofia do Direito pelas Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, respectivamente, sendo hoje Secretária de Assuntos Internacionais da Prefeitura de São Paulo, possivelmente convidada, <em>in addendum</em>, por dominar sete idiomas.</p>
<p style="text-align: justify;">“A cidade de São Paulo possui uma das maiores estruturas públicas de gestão de resíduos sólidos da América Latina, combinando coleta seletiva, infraestrutura urbana e inclusão produtiva de cooperativas de catadores. Nos últimos anos, a Prefeitura ampliou significativamente a cobertura da coleta seletiva porta a porta, alcançando atendimento em todos os 96 distritos da capital. Atualmente, são recolhidas diariamente cerca de 324 toneladas de materiais recicláveis, encaminhadas para uma rede de 29 cooperativas habilitadas pelo município, envolvendo mais de 1.500 cooperados diretamente vinculados ao sistema público de reciclagem. Além disso, a cidade opera duas modernas centrais mecanizadas de triagem – Carolina Maria de Jesus e Ponte Pequena – com capacidade conjunta para processar aproximadamente 500 toneladas de resíduos recicláveis por dia, consolidando São Paulo como referência em infraestrutura de reciclagem urbana na América do Sul.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro eixo estratégico da política municipal é a ampliação dos equipamentos de descarte voluntário e logística reversa. A cidade conta com mais de 100 ecopontos distribuídos pelo território, além de milhares de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), contêineres verdes e equipamentos específicos para vidro, óleo e resíduos recicláveis. Esses espaços permitem que a população descarte corretamente resíduos da construção civil, móveis, eletrodomésticos, recicláveis secos e outros materiais que normalmente acabariam em vias públicas, córregos ou áreas ambientalmente vulneráveis. Paralelamente, programas de compostagem e aproveitamento de resíduos orgânicos de feiras livres vêm sendo utilizados para transformar resíduos alimentares em adubo, reduzindo a pressão sobre os aterros sanitários e incentivando práticas alinhadas à economia circular e à mitigação das mudanças climáticas.</p>
<p style="text-align: justify;">No campo da inclusão produtiva, a Prefeitura também, vem fortalecendo programas voltados ao cooperativismo e à profissionalização dos catadores. Por meio do programa SO Coopera, coordenado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o município promove oficinas, capacitações, mapeamento de cooperativas e articulação com parceiros públicos e privados para ampliar oportunidades econômicas no setor de reciclagem. Outro destaque é o programa “Reciclar para capacitar”, que já profissionalizou mais de mil catadores na cidade, oferecendo cursos, apoio operacional e incentivo à organização produtiva das cooperativas. Além das políticas estruturantes, ações temporárias como o ‘Bloco de Reciclagem’, realizado durante o carnaval paulistano, demonstram o impacto econômico e ambiental da atuação dos catadores: somente na edição de 2026 foram recuperadas mais de 32 toneladas de recicláveis, movimentando cerca de R$120 mil em renda para cooperativas participantes. Essas iniciativas reforçam como a política de resíduos sólidos de São Paulo vai além da limpeza urbana, atuando também como ferramenta de geração de renda, redução das desigualdades e promoção da sustentabilidade nas cidades”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro5-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Carroceiro em árdua atividade. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro5-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>I have selected four messages among many received about the blog dedicated to the so-called refuse collectors, indispensable figures who are sorely undervalued.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Oitavo Encontro Musical Privado</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/05/09/oitavo-encontro-musical-prive/</link>
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		<pubDate>Sat, 09 May 2026 03:05:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Um repertório diferenciado É preciso ter, em relação à obra que se ouve, que se interpreta ou que se compõe, um profundo respeito, como se estivéssemos diante da própria existência. Como se fosse uma questão de vida ou morte. Pierre Boulez (1925-2016) E mar vai em voo aberto,  já pássaro aventureiro para as descobertas. Maria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Um repertório diferenciado</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Oitavo-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Oitavo Encontro Musical. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Oitavo-small.jpg" alt="" /></a> <em> </em> <em> </em></p>
<p><em>É preciso ter, em relação à obra que se ouve, que se interpreta ou que se compõe,<br />
</em><em>um profundo respeito, </em><em>como se estivéssemos diante da própria existência.<br />
Como se fosse uma questão de vida ou morte.<br />
</em>Pierre Boulez (1925-2016)</p>
<p><em>E mar vai em voo aberto,  já pássaro aventureiro para as descobertas.<br />
</em>Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Após o encerramento da minha atividade pianística pública em 2023, os Encontros Musicais Privados possibilitam a continuação dos estudos, uma das razões essenciais da devoção à literatura composta para piano e da ininterrupta frequência amorosa a ela dedicada. Minha mulher Regina, pianista igualmente, enriquece a programação com autores que lhe são caros desde a infância.</span></p>
<p style="text-align: justify;">O Oitavo Encontro Privado<em> </em>destaca inicialmente Valsas de Francisco Mignone (1897-1986), compositor que compõe, juntamente com Villa-Lobos (1887-1959) e Camargo Guarnieri (1907-1993), a tríade nos nossos mais relevantes compositores nacionalistas. As Valsas de Mignone, muitas delas designadas Valsas de Esquina, referência à criação mais urbana, são encantadoras, plenas de naturalidade e lirismo. Regina mantém em seu repertório inúmeras criações de Mignone e era uma de suas intérpretes eleitas. Interpretará nos Encontros cinco Valsas do ilustre compositor.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Mignone-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Francisco Mignone. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Mignone-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Francisco Mignone, <em>Valse élégante</em>, na interpretação do saudoso pianista Nelson Freire (1944-2021):</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=54p8zHIhPtM">https://www.youtube.com/watch?v=54p8zHIhPtM</a></p>
<p style="text-align: justify;">Do Grupo dos Cinco, formado pelos compositores russos Alexandre Borodine (1833-1887), Modest Mussorgsky (1839-1881), Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mily Balakirev (1837-1910) e Cesar Cui (1835-1918), escolhi criações dos três primeiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente estudei as criações de Borodine e de Rimsky Korsakov, estreando-as neste Oitavo Encontro entre amigos. Quanto aos “Quadros de uma Exposição”, de Mussorgsky, a magnífica obra faz parte do meu repertório há décadas, tendo-os gravado para o selo belga De Rode Pomp.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Borodin-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Alexandre Borodine. Pintura: Ilya Répine. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Borodin-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A “Pequena Suíte”, de Alexandre Borodine, compositor, médico e químico, foi composta em 1870, sendo constituída de sete peças intimistas de sensível lirismo. Borodine organiza engenhosamente as criações, contrastando-as, e as duas mazurcas inseridas disso dão provas. O compositor Alexandre Glausonov (1865-1936) orquestrou a “Pequena Suíte”.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a “Petite Suite”, na interpretação da notável pianista russa Tatiana Nicolaïeva (1824-1993):</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=MTkq4QoTNI0">https://www.youtube.com/watch?v=MTkq4QoTNI0</a></p>
<p style="text-align: justify;">“O voo do besouro”, de Rimsky-Korsakov, é um interlúdio orquestral da ópera “O conto do tsar Saltan” e há as mais variadas versões para outros instrumentos, sobremaneira o piano.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Rimsky Korsakov. Pintura: Valentin Serov. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Foram diversos </span><em style="text-align: justify;">posts</em><span style="text-align: justify;"> dedicados aos “Quadros de uma Exposição” ao longo desses 19 anos de blogs ininterruptos. Uma das composições que mais aprecio, não apenas pela circunstância que motivou a criação, como pela originalidade da concepção da obra. Após forte impacto sofrido por Mussorgsky ao visitar a exposição de aquarelas de um dileto amigo recentemente falecido, o pintor e arquiteto Victor Hartmann (1834-1873), o compositor, tendo memorizado algumas das pinturas, compõe sobre forte impacto os magníficos “Quadros&#8230;”. Em autorreclusão, concentrou-se e, em cerca de duas semanas, completou a criação. Escreveria que os “Quadros&#8230;” ferviam como anteriormente ocorrera com a ópera “Boris Godounov”. Se Hartmann está presente através da “interpretação musical” das aquarelas, o compositor também se instala nos episódios da obra e o tema da “Promenade”, alterado durante a sua caminhada pela significativa mostra, poderia indicar um derradeiro tributo. Nesse transcurso, Mussorgsky se funde ao homenageado. Das dezesseis seções do “Quadros&#8230;”, dez referem-se às aquarelas e seis outras às “Promenades”. Na &#8220;Porta de Kiev&#8221;, há uma derradeira menção à &#8220;Promenade&#8221;. Das pinturas de Hartmann que inspiraram o compositor, apenas seis subsistem, pois na exposição dedicada ao pranteado muitos dos trabalhos foram vendidos. Diversos compositores transcreveram para orquestra os “Quadros de uma Exposição&#8221;, destacando-se Maurice Ravel (1875-1937) – a versão mais largamente difundida –, Dmitri Shostakovich (1906-1975) e Francisco Mignone, fidelíssimo ao texto de Mussorgsky. Transcrições outras foram realizadas para instrumentos solo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/2016.Mussorgsky-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Modest Mussorgsky. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/2016.Mussorgsky-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/2016.GoldbergSchmuyle-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Goldenberg e Schmuyle. Aquarela de Viktor Hartmann. Sexta peça dos Quadros de uma Exposição. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/2016.GoldbergSchmuyle-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Rimsky Korsakov. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky-small.jpg" alt="" /></a><span style="text-align: justify;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;">Sob a égide da interpretação, algo tem se afigurado de maneira acentuada com relação aos andamentos. Nesta “Civilização do Espetáculo” em que infelizmente vivemos, como bem definiu Mario Vargas Llosa, em determinadas obras interpretadas por pianistas, indicações de andamentos propostas pelos autores têm sido progressivamente aceleradas para gáudio da maioria dos ouvintes. Essa descaracterização das recomendações dos compositores provoca a sedimentação temporária da escuta e haverá fatalmente uma outra percepção do conteúdo intrínseco de uma obra. Uma pianista superventilada mundialmente não teria dito que, em determinada composição rápida que apresenta extraprograma, o público pede sempre que a execução seja ainda mais acelerada para o deslumbramento da plateia e a “pirotecnia” da intérprete?</p>
<p style="text-align: justify;">Os três compositores do “Grupo dos Cinco”, tendo como fundamento o culto às raízes da música russa, legaram criações que perduram pela originalidade e claros objetivos.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, “Quadros de uma Exposição”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw">https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>The Eighth Private Recital, following five beautiful waltzes by Francisco Mignone performed by Regina, features three composers that I have selected  from the Group of Five: Borodine, Rimsky-Korsakov, and Mussorgsky.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Coletores de resíduos frente à árdua atividade</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/05/02/coletores-de-residuos-frente-a-ardua-atividade/</link>
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		<pubDate>Sat, 02 May 2026 03:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://blog.joseeduardomartins.com/?p=15919</guid>
		<description><![CDATA[Trabalho extenuante realizado com dedicação Escuta, escuta, tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Trabalho extenuante realizado com dedicação</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1015.coleta-big.jpg" target="_blank"><img title="Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1015.coleta-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Escuta, escuta, tenho ainda<br />
uma coisa a dizer.<br />
Não é importante, eu sei, não vai<br />
salvar o mundo, não mudará<br />
a vida de ninguém – mas quem<br />
é hoje capaz de salvar o mundo<br />
ou apenas mudar o sentido<br />
da vida de alguém?</em><br />
Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005)</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o início da publicação dos blogs, vários posts foram dedicados àqueles que ou ficaram à deriva na sociedade ou em atividades laboriosas exaustivas. Uma das mais importantes funções na organização das cidades, a coleta de resíduos, não merece por parte dos governos a atenção desejável. Trata-se de um serviço público, contudo majoritariamente é realizada por empresas terceirizadas, logicamente contratadas pelas prefeituras. Os salários daqueles responsáveis pela coleta são baixos, mas eles são figuras fulcrais na manutenção da limpeza das cidades, pois têm de manter para a difícil atividade, em acréscimo, preparo físico, disposição para a função e redobrada atenção com o material coletado, inclusive com a possibilidade de contaminação. Na realidade, são eles os responsáveis para que inúmeras pragas sejam minimizadas, que produtos químicos, material descartado de hospitais e outros mais sejam retirados, assim como corroboram para a limpeza das áreas públicas, dando finalmente destino ao imenso material coletado.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1014.carroção4-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fonte: Google. Foto do livro 'Vila Prudente, do Bonde a Burro ao Metrô', Zadra, Newton. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1014.carroção4-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar da infância vivida na Vila Mariana. Coletores de resíduos recolhiam os dejetos das casas deixados nas calçadas em caixas de papelão ou latões grandes com tampas, estes não descartáveis. Os catadores jogavam esse material nas caçambas grandes de um carroção puxado por dois cavalos ou burros e devolviam o recipiente. Nossa mãe por vezes distribuía café com pãezinhos aos trabalhadores. Após décadas morando em uma casa no Brooklin, por vezes igualmente interagi rapidamente com os coletores de detritos, pois o contato com esses profissionais nesse tipo de moradia torna-se mais direto e frequente. Quantas não foram as vezes em que, ao  esquecer de colocar os sacos de resíduos na calçada,  após ouvir o ruido do caminhão e as vozes dos coletores corria até o portão, chamava-os e sempre, cordialmente, eles voltavam e retiravam os sacos. Em outras oportunidades, ao lhes oferecer uma garrafa de refrigerante e um pacote de biscoitos, comovente era a recepção desses verdadeiros especialistas. Ao longo, sabia o nome de diversos.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente tivemos de mudar da casa para um apartamento &#8211; fato inserido em blogs no início de 2025 &#8211; devido à sanha avassaladora das construtoras, que estão a demolir determinados bairros para a edificação de prédios, Brooklin e Campo Belo numa lista prioritária. A minha percepção da atividade dos coletores de resíduos teve um outro <em>approach</em> que, na realidade, só ampliou a minha admiração pelos laboriosos cidadãos. Vejo-os do apartamento, no início da noite, em posição logicamente distinta daquela visão tão próxima quando na residência anterior. Funcionários dos prédios colocam os enormes sacos de resíduos nas calçadas ou em pequenos recintos nas laterais das edificações. Os caminhões param por pouquíssimo tempo, o necessário para esses coletores, numa rapidez que impressiona, segurarem um ou dois sacos pesados, arremessando-os com precisão na caçamba do veículo. Este, finda a coleta do volumoso material, roda os metros necessários para a continuação da saga. Certamente são centenas de sacos arremessados e os dois ou três coletores incumbidos da tarefa ainda têm de dar pequenas corridas a fim de acompanhar o caminhão de recolha. Faça frio ou calor, chuvisco ou chuva forte, esses coletores desempenham exemplarmente a função. Infelizmente, eles têm de ouvir buzinadas de motoristas de carros impacientes, que sequer entendem que o sacrifício evidente dessa atividade fulcral na sociedade mereceria acima de tudo o respeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Num país onde os absurdos proliferam, a função desses coletores de resíduos, figurantes basicamente inexistentes no cotidiano das narrativas, sofre com a omissão da sociedade e o termo abjeto, lixeiro, é habitualmente propalado. Sob outra égide, há a perplexidade do cidadão cumpridor de seu labor diário, seja nas mais diversas atividades, seja na vida familiar, ao se deparar com a discussão sobre tema que deveria ter sido abortado sumariamente na origem, o penduricalho, algo que persiste e se avoluma nos três poderes e nas inúmeras instituições estatais. Esses membros dos três poderes teriam a devida atenção a determinadas profissões “subalternas”, mas que, sob outra égide, são igualmente essenciais para a sociedade? Com baixíssimos salários, os coletores de toda espécie de detritos estão a mostrar diuturnamente que, sem eles, no passar de poucos dias as cidades estariam expostas ao caos absoluto.</p>
<p style="text-align: justify;">Considero-os verdadeiros heróis. Nem as homenagens a eles consagradas sensibilizam os poderosos: 1º de Março – Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis; 7 de Junho – Dia Nacional de Luta dos Catadores de Materiais Recicláveis; 21 de Outubro – Dia Nacional do Coletor de Lixo, 22 de Novembro – Dia do Reciclador e da Reciclagem do Lixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The work of waste pickers – also pejoratively referred to as ‘scavengers’ – is just critical for a city. They are true environmental workers, playing a vital role in maintaining urban cleanliness.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Reflexões sobre compositores do passado, suas missivas e a atualidade (VIII)</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Apr 2026 03:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta? Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo, de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo, da plena criação em todos os domínios, arte, ciência, filosofia, porventura vida também. Agostinho da Silva (1906-1994) “Só Ajustamentos” Ao longo das décadas realizei a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta?</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-big.jpg" target="_blank"><img title="Auguste Rodin (1840-1917), O Pensador. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-small.jpg" alt="" /></a></strong></p>
<p><em>Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo,<br />
</em><em>de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo,<br />
</em><em>da plena criação em todos os domínios,<br />
</em><em>arte, ciência, filosofia, porventura vida também.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)<br />
“Só Ajustamentos”</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo das décadas realizei a leitura parcial da atividade epistolar de alguns dos mais conceituados compositores, apreendendo essencialidades que vão além da própria composição, abrangendo igualmente o cotidiano, os afetos e as dificuldades frente à vida e seus desdobramentos, saúde, finanças, esperanças ou desalento. Graças à carta manuscrita, preservou-se o pensar do compositor, essa interioridade não revelada em escritos teóricos no caso específico de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositor e teórico, magistral nas duas atividades.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Air pour Borée et la Rose”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA">https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA</a></p>
<p style="text-align: justify;">O vastíssimo patrimônio da música com várias designações, clássica, erudita ou de concerto, permanece através dos séculos, é executado pelas gerações de intérpretes e integra o vasto universo da Cultura Humanística. Tardiamente penetrou no Extremo-Oriente e hoje alguns dos mais relevantes pianistas são oriundos dos Conservatórios do Japão, China, Coréia do Sul&#8230;, evidência clara, apesar de culturas distantes das ocidentais sob tantos aspectos, da aceitação da música clássica em seus múltiplos modelos. No 19º Concurso Internacional Frederic Chopin (2025), em Varsóvia, os três primeiros  colocados eram orientais ou descendentes e os dois outros prêmios foram outorgados <em>ex-aequo </em>(empatados), tendo igualmente orientais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mormente neste século, de maneira mais acentuada verifica-se uma diminuição sensível da divulgação mais exequível da atividade musical erudita em nossas terras. Observei em blogs, anos atrás, o papel da imprensa relacionada à música de concerto. Rememoro que São Paulo, na década de 1950, tinha uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes. Os concertos nos vários teatros, máxime o Teatro Municipal, tinham frequência quase sempre plena.  Quando nos visitavam nomes referenciais do piano, violino, violoncelo ou canto, filas de jovens aguardavam a abertura das galerias – preços irrisórios – para não perderem os eventos. Após uma determinada apresentação, leitores tomavam conhecimento de críticas em vários jornais. Mencionaria O Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite, Diário de São Paulo, Diário da Noite, A Gazeta, O Tempo, Correio Paulistano, Jornal Alemão, Fanfulla, Giornali degli italiani, Shopping News. Todos esses periódicos tinham críticos, a maioria deles com pleno conhecimento musical.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/800.Cáustico-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Cáustico. Desenho de Luca Vitali (1940-2013). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/800.Cáustico-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar das muitas diferenças entre a música clássica e a música não compromissada com a forma e destinada às multidões, máxime na atualidade, considerações podem ser feitas a partir da efemeridade da música voltada aos shows e pertencente a várias modalidades, megashows vindos do Exterior, eventos outros no Brasil direcionados ao axé, funk e ao sertanejo, totalmente descaracterizado se comparado às duplas que se apresentavam muitas décadas atrás &#8211; Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana e alguns outros, sem esquecer Inezita Barroso -, que buscavam traduzir autênticos sentimentos e anseios do homem do campo. Mercê do marketing bem estruturado, hodiernamente não mais é a qualidade que importa, mas a popularidade dos eleitos por n razões.</p>
<p style="text-align: justify;">Menções da imprensa testemunham somas rigorosamente elevadas repassadas pelos governos a personagens bem conhecidos da denominada música de cunho popular. É um fato que se repete nas várias esferas oficiais, do poder central às prefeituras de cidades pequenas, que inúmeras vezes dão maior atenção à essas apresentações do que àquela destinada aos serviços básicos das cidades ou, então, à segurança e à educação. Mormente nos megashows, a mudança de repertório se dá virtualmente a cada temporada e as músicas antes apresentadas estiolam-se em pouco tempo, basicamente esquecidas para sempre nas turnês vindouras. Os meios de comunicação, quase como um todo, divulgam <em>ad extremum es</em>sas apresentações, amparadas por publicidade de peso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesses posts dedicados às cartas de compositores que se eternizaram através dos séculos, veio-me à mente a perenidade frente ao efêmero. Numa elucubração, se considerarmos compositores que morreram pobres ou com problemas financeiros graves, mas que tiveram suas obras glorificadas, e atentando, sob outra égide, ao que um <em>pop star</em> recebe num único megashow, cantando músicas de valor bem discutível, não estaria distante da realidade afirmar que o cachê desse <em>pop star</em> internacional para uma única apresentação, frise-se, é infinitamente superior ao que compositores sacralizados sequer puderam amealhar durante toda a existência, guardando-se as proporções monetárias históricas. Antônio Vivaldi (1678-1741) morreu pobre, assim como Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828).</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Franz Schubert, Fantasia em fá menor, na interpretação de Paul Badura-Skoda (1927-2019) e Jörg Demus (1928-2019). Infezimente essa gravação realizada na Sala Gaveau, em Paris, é interrompida no minuto 8:56:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Dp8W7pSTBmw">Paul Badura-Skoda et Jörg Demus, pianos | Fantaisie en fa mineur, D.940 de Franz Schubert</a></p>
<p style="text-align: justify;">Richard Wagner (1813-1883) teria falido não fosse o apoio incondicional de Luís II da Baviera (1845-1886). Modest Mussorgsky (1839-1881) é o exemplo tipificado do compositor que faleceria no completo infortúnio. O <em>robe de chambre</em> que Mussorgsky veste poucos dias antes da morte, na magnífica pintura de Ilia Répine, foi-lhe dado por Rimsky Korsakov (1844-1908) para a famosa tela.  Claude Debussy (1862-1918) morreu em situação financeira difícil, mercê sobretudo causada por câncer que o acometera anos antes. Outros tantos faleceram beirando a pobreza.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a comparação estabelecida poderia parecer dicotômica quanto aos gêneros. Não obstante, transcende uma simples apreciação. As transformações tecnológicas necessárias, mas, sob outra égide, verdadeiros tsunamis, têm acarretado uma série de desvirtuamentos dos princípios “outrora” consagrados: costumes, moralidade, lhaneza, honestidade, gostos e educação. Inversamente à perenidade mencionada acima, mercê da qualidade insofismável das obras de compositores perenizados, os montantes aferidos nas hodiernas apresentações para multidões, com astros superventilados pela mídia, evidenciam, na área musical, a aparência da verdade, pelo sentido efêmero do que é revelado. Mencionei recentemente que, ao auscultar jovens frequentadores dos megashows com personagens estrangeiros ou nacionais a respeito de músicas apresentadas um ou dois anos antes, não mais se lembravam, mas sim as do último show a que assistiram.</p>
<p style="text-align: justify;">As transformações sociais têm sido avassaladoras. Certamente, dentro de algumas décadas os compositores mencionados acima estarão presentes nas programações musicais pelo mundo, com público específico, é certo, se comparado aos gêneros outros mencionados. Para estes, a efemeridade é dramática. Quem será lembrado futuramente dessa plêiade de <em>pop stars</em> que são glorificados por multidões? Que músicas ficarão na memória dos que frequentam esses megashows? O legado só acolhe a criação musical qualitativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Just some reflections on the legacy left by the great composers of the past, and the overwhelming presence today of mega-concerts that draw crowds to glorify names that are hyped up by the media.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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<p>&nbsp;</p>
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