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	<title>José Eduardo Martins</title>
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		<title>&#8220;O Polonês&#8221; de J.M.Coetzee</title>
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		<pubDate>Sat, 23 May 2026 03:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Um romance que merece reflexões Ainda hoje, a música de Chopin continua a ser o elixir mais inebriante que a Musa dos sons alguma vez derramou, para embriagar, nos lábios dos homens. Com isso, Chopin oferece um exemplo inigualável na era romântica, da qual ele é a flor mais iridescente. Jean Chantavoine – J. Gaudefroy-Demombynes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um romance que merece reflexões</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Polonês-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Polonês-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Ainda hoje, a música de Chopin continua a ser o elixir mais inebriante<br />
</em><em>que a Musa dos sons alguma vez derramou, para embriagar,<br />
</em><em>nos lábios dos homens.</em><em> Com isso, Chopin oferece<br />
</em><em>um exemplo inigualável na era romântica,<br />
</em><em>da qual ele é a flor mais iridescente.<br />
</em>Jean Chantavoine – J. Gaudefroy-Demombynes<br />
“Le romantisme dans la musique européenne”<br />
(Paris, Ed. Albin Michel -1955)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Recebi do meu dileto amigo, ilustre neurocirurgião Edson Amâncio, o livro “O Polonês” (São Paulo, Companhia das Letras, 2025), de J.M. Coetzee, renomado escritor nascido da cidade do Cabo, na África do Sul (1940). O autor recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 2003. Anteriormente escrevi um post sobre o romance de Thomas Bernhard, “O Náufrago” (vide blog: 10/01/2026). Qual a possível relação entre os dois livros? Ambos têm pianistas</span><strong style="text-align: justify;"> </strong><span style="text-align: justify;">como figuras fulcrais dos romances: “O Náufrago”, a partir da presença, romantizada pelo escritor, da figura do notável pianista Glenn Gould (1932-1983); “O Polonês”, inteiramente fictício, voltado ao pianista Witold Walczykiewicz, intérprete de Fréderic Chopin (1810-1849). O romance está centrado em dois personagens. Witold “É polonês,  com seus setenta anos,  pianista mais conhecido como intérprete de Chopin, mas um intérprete controverso: seu Chopin não é nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”, e uma senhora espanhola de nível social elevado e nos seus quarenta anos: “Ela é alta e elegante; pode não ser considerada uma beleza para os padrões convencionais, mas seus traços – cabelo e olhos escuros, malares salientes, boca carnuda – são marcantes e a voz, um contralto grave, tem um suave poder de atração. Sexy? Não, ela não é sexy e certamente nem sedutora”. Beatriz é o seu nome, casada e com filhos, integra o conselho de um Círculo que organiza apresentações na Sala Mompou, em Barcelona. Convidado para um recital pela organização, mercê do seu renome como chopiniano, Witold se apresenta e é aplaudido, não feericamente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Chopin-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fréderic Chopin. Pintura de Eugène Delacroix (1798-1863). Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Chopin-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Considere-se a presença do narrador onisciente que comenta, por vezes longamente, todo o transcorrer das ações. Essa interpretação não indica preconceito, tampouco parcialidade, apenas acompanha o desenrolar de uma inusitada relação, sensível e apaixonada por parte do pianista septuagenário, sem envolvimento emotivo por parte de Beatriz, o que não impede de intimamente sentir-se lisonjeada. Não se descarte a associação da figura feminina com a  Beatriz de Dante em “A Divina Comédia”. O pianista Witold, ao longo do enredo, escreve poesias.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir de uma primeira aproximação, o jantar pós-recital, Witold se encanta com Beatriz sem que nada ocorra de especial. Comunicam-se, com limitações, na língua inglesa. O narrador já enfatizara não ser Beatriz nem sexy, tampouco sedutora. Pouco após, Witold, ao retornar à Espanha para <em>master classes</em> em Girona, convida Beatriz para ter com ele, o que de fato ocorre sem consequências mais íntimas. O convite incisivo para que o acompanhe ao Brasil durante sua turnê ao país é por ela recusado, sem mais. O país é várias vezes mencionado. Cartas inflamadas por parte de Witold e respostas longe de serem efusivas. Contudo, o pianista aceita o convite do casal para visitar a propriedade em Sóller, município de Maiorca. Tendo o marido de Beatriz de se ausentar por uns dias, haverá um estreitamento nessa relação que surge sem açodamento, precedida por passeios, restaurantes e convívio a dois e que só foi mais íntima, mas breve, durante três dias. Ligação efusiva ao extremo por parte do septuagenário, simplesmente permissiva, sem entusiasmo, da parte de Beatriz. O “polonês” se declara de maneira plena. Tem interesse uma declaração de Witold: “O que é o tempo? O tempo não é nada. Temos nossa memória. Na memória não há tempo. Eu vou te guardar na minha memória. E você, talvez você também lembre de mim”. “Claro que vou me lembrar de você, seu homem estranho”, escreve Beatriz. O narrador comenta: “Ela pronuncia as palavras sem premeditação, ouve-as ecoar surpreendentemente em seu pensamento. O que está dizendo? Como pode prometer lembrar-se dele, quando tem todos os motivos para acreditar que o episódio do músico polonês que a visitou em Sóller vai desaparecer e desaparecer até que, em seu leito de morte, seja menos que uma partícula de poeira?”</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Sóller-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Sóller, Município de Maiorca. Fonte Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1018.Sóller-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Em outro segmento, o narrador pressupõe: “O homem parece confiar nos poderes da memória. Ela gostaria de contar a ele sobre o poder do esquecimento. O quanto ela esqueceu! E ela é uma pessoa normal, uma pessoa comum, não uma exceção. O que ela esqueceu? Não faz ideia. Foi-se, desapareceu da face da terra como se nunca tivesse existido”.</p>
<p style="text-align: justify;">Um telefonema da filha de Witold a Beatriz comunica que o pianista falecera e uma caixa deveria lhe ser entregue. A destinatária viaja à Polônia, retira a caixa contendo 84 poemas, todos a ela dedicados, e mais um livro sobre Chopin. Beatriz obtém a tradução de alguns poemas e, posteriormente, de todos.</p>
<p style="text-align: justify;">A derradeira secção do romance considera as dúvidas de Beatriz quanto ao endereçamento final desses poemas: museu na Polônia, queimá-las, gaveta de baixo da escrivaninha? O narrador onisciente sobre os poemas nesse exíguo espaço: “Eles queimam ali como fogo lento”. Continua: “A resposta: porque, através de seus poemas, ele aspira à comunicação com ela do além-túmulo. Ele quer falar com ela, cortejá-la, para que ela o ame e o mantenha vivo em seu coração”. Sob outra ótica, observa sobre uma das razões dos poemas: “Ela o convidou para sua cama, depois o expulsou. A vingança dele: congelá-la, estetizá-la, transformá-la em objeto de arte, uma Beatrice, uma santa de gesso a ser venerada em procissão pelas ruas. <em>Mãe de misericórdia</em>”. Após a leitura de todos os poemas traduzidos, Beatrice compreende serem os poemas um registro de amor. Não obstante, só de pensar que, em um <em>post mortem ,</em> Witold estaria a esperá-la, estremece. Os poemas traduzem essa aspiração do pianista, vê-la novamente numa outra esfera.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais de uma vez o narrador se refere ao pianista fictício Witold Walczykiewicz como um especialista na obra pianística de Fréderic Chopin, igualmente polonês, entendendo-o como “um intérprete nada romântico e um pouco austero”.  Seria possível entender que J.M.Coetzee, não sendo pianista, confira ao fictício Witold o vaticínio apontado. Chopin, assim como Robert Schumann (1810-1856) e Franz Liszt (1811-1886), românticos na acepção mais ampla, quando frequentados amplamente por pianistas sobejamente especialistas, só ali se instalam se interpretam suas obras penetrados nessa plena subjetividade emotiva. Alfred Cortot (1877-1962), Arthur Rubinstein (1887-1982), Vladimir Horowitz (1903-1989), Claudio Arrau (1903-1991), Maurizio Pollini (1942-2024),  os nossos Guiomar Novaes (1895-1979) e Arthur Moreira Lima (1940-2024), entre outros relevantes executantes que mantiveram sempre em seus repertórios inúmeras obras de Chopin, todos notabilizados nesse mister da transmissão totalizante. Em sendo um especialista na obra de Chopin, caso específico do personagem criado pelo renomado J.M. Coetzee, Witold Walczykiewicz dificilmente alcançaria renome maior sem a penetração plena no romantismo de Chopin, fator a ser considerado. Contudo, o narrador  observa: “O Chopin emergente e historicamente autêntico tem tons suaves e italianados. A leitura revisionista que o Polonês faz de Chopin, mesmo que um pouco intelectualizada demais, merece ser elogiada”.  Considere-se um dos atributos essenciais nas criações dos três compositores românticos acima mencionados, o <em>rubato </em>(termo italiano), mormente utilizado em passagens plenas de expressividade, quando a liberdade do movimento não aniquila a essencialidade do ritmo. Não obstante, Witold interpreta um “Chopin nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”. Rigorosamente Impossível sê-lo a partir dessa comparação. Soa estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">O romance, nessa presença de dois personagens, Witold e Beatriz, com o narrador invisível que acompanha Beatriz em suas dúvidas e concessões sem entusiasmo, e o ocaso de um pianista a ter Chopin como compositor eleito e um coração apaixonado por Beatriz, expõe a maestria de Coetzee em saber “manuseá-los” numa relação com faixas etárias distintas, personalidades e propósitos diferenciados. “O Polonês”, por sua originalidade, é um livro a ser vivamente recomendado.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Fréderic Chopin, Balada em fá menor, op. 52 nº 4, na  interpretação da notável pianista Guiomar Novaes:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VDHJWsWFTg4">https://www.youtube.com/watch?v=VDHJWsWFTg4</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>J.M. Coetzee’s novel *The Pole* explores the relationship between a septuagenarian Polish pianist, a specialist in Chopin, and a married Spanish woman, one of the patrons of a musical society in Barcelona. Letters, encounters and a fundamental difference in outlook on life and emotion. </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
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		<title>Ecos de “Coletores de resíduos frente à árdua atividade”</title>
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		<pubDate>Sat, 16 May 2026 03:05:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Quatro mensagens significativas Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau; mas é nessa mesma maldade que devemos procurar o apoio em que nos firmamos para sermos nós próprios melhores e, como tal, melhorarmos os outros. Agostinho da Silva (1906-1994) Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quatro mensagens significativas</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1014.detritos-big.jpg" target="_blank"><img title="Caminhão preparado para a recolha de detritos. Foto: Maria Fernanda. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1014.detritos-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;<br />
</em><em>mas é nessa mesma maldade que devemos procurar<br />
</em><em>o apoio em que nos firmamos<br />
</em><em>para sermos nós próprios melhores<br />
</em><em>e, como tal, melhorarmos os outros.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)</p>
<p style="text-align: justify;">Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre os coletores de resíduos, orgânicos ou não. Elas apreendem o âmago da árdua profissão, fundamental em todas as cidades, independentemente do tamanho. Transcrevo-as, pois não apenas captam a função do coletor como expandem o tema para os não oficiais, representados pelos catadores que, puxando suas pequenas carroças ou em velhos veículos motorizados, recolhem igualmente caixotes, garrafas e outros descartáveis.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong> Maria Stella Orsini, </strong>professora titular jubilada da Eca-USP, escreve: “Confesso que tenho grande preocupação com o lixo que se acumula na nossa cidade. Quando estudante, eu e minhas colegas da Caetano de Campos fazíamos longas caminhadas pela famosa rua Barão de Itapetininga. Hoje, além de muito suja, essa rua tem cheiro insuportável. Tenho o hábito de doar o material que pode ser aproveitado para os que empurram esses carrinhos superpesados. Frequento um supermercado que tem ótimas embalagens. Não uso mais plásticos, mas eles podem ser aproveitados pelos que não possuem nenhuma embalagem. Ainda coloco um pacotinho de Miojo. Não gosto e nem como, mas para eles o sal desse alimento pode ser o único que estão comendo nesse dia. Felizmente o curso de Ciências Sociais permitiu que eu e meus colegas recebêssemos<strong> </strong>uma ótima formação em Política. Na verdade, nosso país é muito mal administrado. Presenciei em inúmeras cidades europeias a lavagem das cidades, ao raiar o dia. Como as cidades japonesas são impecavelmente limpas?”</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro4-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Carroceiro em plena atividade. Fonte&gt; Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro4-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: center;"><strong>Marisa de Jesus Martins da Costa </strong>envia-me um poema inserido em seu livro “A menina que consertava o mundo”:</p>
<p style="text-align: center;">“<strong>O carroceiro</strong></p>
<p style="text-align: center;">- Bom dia, senhor carroceiro!<br />
- Bom dia, menina bonita!<br />
- O que carrega aí?<br />
- Carrego reciclável.<br />
- O que é reciclável?<br />
- É latinha, papelão, madeira, vidro&#8230;<br />
- O que vai fazer com isso?<br />
- Vou vender! Comprar comida pra distrair o estômago.<br />
- Cadê o cavalo?<br />
- Não necessito, não! Tenho pernas e braços fortes e Deus na cabeça.<br />
- Minha mãe mistura tudo. Comida com o tal reciclável.<br />
- Ensina pra ela, então! &#8211; Outro dia achei um livro no lixo.<br />
- Livro não se joga no lixo, não!<br />
- Quem faz isso?<br />
- É o homem que não gosta das letras.<br />
- Eu sei ler e escrever. Escrevo pra minha família em Massarandupió.<br />
- Massarandupió? Onde fica?<br />
- É longe. Fica atrás do mapa. Um dia volto pra lá.<br />
- Vou perder meu amigo carroceiro?<br />
- Perde, não! Amigo é para sempre. Esteja onde estiver”.</p>
<p style="text-align: justify;">O Professor titular jubilado da FFLECH-USP, <strong>Gildo Magalhães</strong>, presente em tantos posts, o que muito me alegra, envia a mensagem:</p>
<p style="text-align: justify;">“Ainda sob o impacto agradável da sua execução brilhante de música russa, concordo integralmente com suas observações sobre os trabalhadores da coleta de lixo. Quando vivi na Alemanha, na década de 1980, só os imigrantes se sujeitavam a esse trabalho árduo e ao salário,  mas com uma atenuante: era facilitado pela mecanização, que obrigava todos a usarem o mesmo modelo de lata de lixo, que era pega por braços mecânicos, despejada e devolvida automaticamente. Idem para a varrição de ruas, completamente mecanizada. Enfim, coisas de sociedade mais desenvolvida&#8230;”</p>
<p style="text-align: justify;">Em um outro contexto, diria “oficial”, recebi mensagem substanciosa e esclarecedora da minha dileta sobrinha <strong>Ângela Gandra Martins</strong>, advogada, jurista, com Doutorado e Pós-Doutorado em Filosofia do Direito pelas Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, respectivamente, sendo hoje Secretária de Assuntos Internacionais da Prefeitura de São Paulo, possivelmente convidada, <em>in addendum</em>, por dominar sete idiomas.</p>
<p style="text-align: justify;">“A cidade de São Paulo possui uma das maiores estruturas públicas de gestão de resíduos sólidos da América Latina, combinando coleta seletiva, infraestrutura urbana e inclusão produtiva de cooperativas de catadores. Nos últimos anos, a Prefeitura ampliou significativamente a cobertura da coleta seletiva porta a porta, alcançando atendimento em todos os 96 distritos da capital. Atualmente, são recolhidas diariamente cerca de 324 toneladas de materiais recicláveis, encaminhadas para uma rede de 29 cooperativas habilitadas pelo município, envolvendo mais de 1.500 cooperados diretamente vinculados ao sistema público de reciclagem. Além disso, a cidade opera duas modernas centrais mecanizadas de triagem – Carolina Maria de Jesus e Ponte Pequena – com capacidade conjunta para processar aproximadamente 500 toneladas de resíduos recicláveis por dia, consolidando São Paulo como referência em infraestrutura de reciclagem urbana na América do Sul.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro eixo estratégico da política municipal é a ampliação dos equipamentos de descarte voluntário e logística reversa. A cidade conta com mais de 100 ecopontos distribuídos pelo território, além de milhares de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), contêineres verdes e equipamentos específicos para vidro, óleo e resíduos recicláveis. Esses espaços permitem que a população descarte corretamente resíduos da construção civil, móveis, eletrodomésticos, recicláveis secos e outros materiais que normalmente acabariam em vias públicas, córregos ou áreas ambientalmente vulneráveis. Paralelamente, programas de compostagem e aproveitamento de resíduos orgânicos de feiras livres vêm sendo utilizados para transformar resíduos alimentares em adubo, reduzindo a pressão sobre os aterros sanitários e incentivando práticas alinhadas à economia circular e à mitigação das mudanças climáticas.</p>
<p style="text-align: justify;">No campo da inclusão produtiva, a Prefeitura também, vem fortalecendo programas voltados ao cooperativismo e à profissionalização dos catadores. Por meio do programa SO Coopera, coordenado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o município promove oficinas, capacitações, mapeamento de cooperativas e articulação com parceiros públicos e privados para ampliar oportunidades econômicas no setor de reciclagem. Outro destaque é o programa “Reciclar para capacitar”, que já profissionalizou mais de mil catadores na cidade, oferecendo cursos, apoio operacional e incentivo à organização produtiva das cooperativas. Além das políticas estruturantes, ações temporárias como o ‘Bloco de Reciclagem’, realizado durante o carnaval paulistano, demonstram o impacto econômico e ambiental da atuação dos catadores: somente na edição de 2026 foram recuperadas mais de 32 toneladas de recicláveis, movimentando cerca de R$120 mil em renda para cooperativas participantes. Essas iniciativas reforçam como a política de resíduos sólidos de São Paulo vai além da limpeza urbana, atuando também como ferramenta de geração de renda, redução das desigualdades e promoção da sustentabilidade nas cidades”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro5-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Carroceiro em árdua atividade. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1017.carroceiro5-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>I have selected four messages among many received about the blog dedicated to the so-called refuse collectors, indispensable figures who are sorely undervalued.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Oitavo Encontro Musical Privado</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/05/09/oitavo-encontro-musical-prive/</link>
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		<pubDate>Sat, 09 May 2026 03:05:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Um repertório diferenciado É preciso ter, em relação à obra que se ouve, que se interpreta ou que se compõe, um profundo respeito, como se estivéssemos diante da própria existência. Como se fosse uma questão de vida ou morte. Pierre Boulez (1925-2016) E mar vai em voo aberto,  já pássaro aventureiro para as descobertas. Maria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Um repertório diferenciado</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Oitavo-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title=" Oitavo Encontro Musical. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Oitavo-small.jpg" alt="" /></a> <em> </em> <em> </em></p>
<p><em>É preciso ter, em relação à obra que se ouve, que se interpreta ou que se compõe,<br />
</em><em>um profundo respeito, </em><em>como se estivéssemos diante da própria existência.<br />
Como se fosse uma questão de vida ou morte.<br />
</em>Pierre Boulez (1925-2016)</p>
<p><em>E mar vai em voo aberto,  já pássaro aventureiro para as descobertas.<br />
</em>Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Após o encerramento da minha atividade pianística pública em 2023, os Encontros Musicais Privados possibilitam a continuação dos estudos, uma das razões essenciais da devoção à literatura composta para piano e da ininterrupta frequência amorosa a ela dedicada. Minha mulher Regina, pianista igualmente, enriquece a programação com autores que lhe são caros desde a infância.</span></p>
<p style="text-align: justify;">O Oitavo Encontro Privado<em> </em>destaca inicialmente Valsas de Francisco Mignone (1897-1986), compositor que compõe, juntamente com Villa-Lobos (1887-1959) e Camargo Guarnieri (1907-1993), a tríade nos nossos mais relevantes compositores nacionalistas. As Valsas de Mignone, muitas delas designadas Valsas de Esquina, referência à criação mais urbana, são encantadoras, plenas de naturalidade e lirismo. Regina mantém em seu repertório inúmeras criações de Mignone e era uma de suas intérpretes eleitas. Interpretará nos Encontros cinco Valsas do ilustre compositor.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Mignone-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Francisco Mignone. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Mignone-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Francisco Mignone, <em>Valse élégante</em>, na interpretação do saudoso pianista Nelson Freire (1944-2021):</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=54p8zHIhPtM">https://www.youtube.com/watch?v=54p8zHIhPtM</a></p>
<p style="text-align: justify;">Do Grupo dos Cinco, formado pelos compositores russos Alexandre Borodine (1833-1887), Modest Mussorgsky (1839-1881), Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mily Balakirev (1837-1910) e Cesar Cui (1835-1918), escolhi criações dos três primeiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente estudei as criações de Borodine e de Rimsky Korsakov, estreando-as neste Oitavo Encontro entre amigos. Quanto aos “Quadros de uma Exposição”, de Mussorgsky, a magnífica obra faz parte do meu repertório há décadas, tendo-os gravado para o selo belga De Rode Pomp.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Borodin-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Alexandre Borodine. Pintura: Ilya Répine. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Borodin-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A “Pequena Suíte”, de Alexandre Borodine, compositor, médico e químico, foi composta em 1870, sendo constituída de sete peças intimistas de sensível lirismo. Borodine organiza engenhosamente as criações, contrastando-as, e as duas mazurcas inseridas disso dão provas. O compositor Alexandre Glausonov (1865-1936) orquestrou a “Pequena Suíte”.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a “Petite Suite”, na interpretação da notável pianista russa Tatiana Nicolaïeva (1824-1993):</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=MTkq4QoTNI0">https://www.youtube.com/watch?v=MTkq4QoTNI0</a></p>
<p style="text-align: justify;">“O voo do besouro”, de Rimsky-Korsakov, é um interlúdio orquestral da ópera “O conto do tsar Saltan” e há as mais variadas versões para outros instrumentos, sobremaneira o piano.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Rimsky Korsakov. Pintura: Valentin Serov. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Foram diversos </span><em style="text-align: justify;">posts</em><span style="text-align: justify;"> dedicados aos “Quadros de uma Exposição” ao longo desses 19 anos de blogs ininterruptos. Uma das composições que mais aprecio, não apenas pela circunstância que motivou a criação, como pela originalidade da concepção da obra. Após forte impacto sofrido por Mussorgsky ao visitar a exposição de aquarelas de um dileto amigo recentemente falecido, o pintor e arquiteto Victor Hartmann (1834-1873), o compositor, tendo memorizado algumas das pinturas, compõe sobre forte impacto os magníficos “Quadros&#8230;”. Em autorreclusão, concentrou-se e, em cerca de duas semanas, completou a criação. Escreveria que os “Quadros&#8230;” ferviam como anteriormente ocorrera com a ópera “Boris Godounov”. Se Hartmann está presente através da “interpretação musical” das aquarelas, o compositor também se instala nos episódios da obra e o tema da “Promenade”, alterado durante a sua caminhada pela significativa mostra, poderia indicar um derradeiro tributo. Nesse transcurso, Mussorgsky se funde ao homenageado. Das dezesseis seções do “Quadros&#8230;”, dez referem-se às aquarelas e seis outras às “Promenades”. Na &#8220;Porta de Kiev&#8221;, há uma derradeira menção à &#8220;Promenade&#8221;. Das pinturas de Hartmann que inspiraram o compositor, apenas seis subsistem, pois na exposição dedicada ao pranteado muitos dos trabalhos foram vendidos. Diversos compositores transcreveram para orquestra os “Quadros de uma Exposição&#8221;, destacando-se Maurice Ravel (1875-1937) – a versão mais largamente difundida –, Dmitri Shostakovich (1906-1975) e Francisco Mignone, fidelíssimo ao texto de Mussorgsky. Transcrições outras foram realizadas para instrumentos solo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/2016.Mussorgsky-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Modest Mussorgsky. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/2016.Mussorgsky-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/2016.GoldbergSchmuyle-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Goldenberg e Schmuyle. Aquarela de Viktor Hartmann. Sexta peça dos Quadros de uma Exposição. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/2016.GoldbergSchmuyle-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Rimsky Korsakov. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1016.Rimsky-small.jpg" alt="" /></a><span style="text-align: justify;"> </span></p>
<p style="text-align: justify;">Sob a égide da interpretação, algo tem se afigurado de maneira acentuada com relação aos andamentos. Nesta “Civilização do Espetáculo” em que infelizmente vivemos, como bem definiu Mario Vargas Llosa, em determinadas obras interpretadas por pianistas, indicações de andamentos propostas pelos autores têm sido progressivamente aceleradas para gáudio da maioria dos ouvintes. Essa descaracterização das recomendações dos compositores provoca a sedimentação temporária da escuta e haverá fatalmente uma outra percepção do conteúdo intrínseco de uma obra. Uma pianista superventilada mundialmente não teria dito que, em determinada composição rápida que apresenta extraprograma, o público pede sempre que a execução seja ainda mais acelerada para o deslumbramento da plateia e a “pirotecnia” da intérprete?</p>
<p style="text-align: justify;">Os três compositores do “Grupo dos Cinco”, tendo como fundamento o culto às raízes da música russa, legaram criações que perduram pela originalidade e claros objetivos.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, “Quadros de uma Exposição”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw">https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>The Eighth Private Recital, following five beautiful waltzes by Francisco Mignone performed by Regina, features three composers that I have selected  from the Group of Five: Borodine, Rimsky-Korsakov, and Mussorgsky.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/05/09/oitavo-encontro-musical-prive/feed/</wfw:commentRss>
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		<title>Coletores de resíduos frente à árdua atividade</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/05/02/coletores-de-residuos-frente-a-ardua-atividade/</link>
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		<pubDate>Sat, 02 May 2026 03:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Trabalho extenuante realizado com dedicação Escuta, escuta, tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Trabalho extenuante realizado com dedicação</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1015.coleta-big.jpg" target="_blank"><img title="Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1015.coleta-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Escuta, escuta, tenho ainda<br />
uma coisa a dizer.<br />
Não é importante, eu sei, não vai<br />
salvar o mundo, não mudará<br />
a vida de ninguém – mas quem<br />
é hoje capaz de salvar o mundo<br />
ou apenas mudar o sentido<br />
da vida de alguém?</em><br />
Eugénio de Andrade, notável poeta português (1923-2005)</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o início da publicação dos blogs, vários posts foram dedicados àqueles que ou ficaram à deriva na sociedade ou em atividades laboriosas exaustivas. Uma das mais importantes funções na organização das cidades, a coleta de resíduos, não merece por parte dos governos a atenção desejável. Trata-se de um serviço público, contudo majoritariamente é realizada por empresas terceirizadas, logicamente contratadas pelas prefeituras. Os salários daqueles responsáveis pela coleta são baixos, mas eles são figuras fulcrais na manutenção da limpeza das cidades, pois têm de manter para a difícil atividade, em acréscimo, preparo físico, disposição para a função e redobrada atenção com o material coletado, inclusive com a possibilidade de contaminação. Na realidade, são eles os responsáveis para que inúmeras pragas sejam minimizadas, que produtos químicos, material descartado de hospitais e outros mais sejam retirados, assim como corroboram para a limpeza das áreas públicas, dando finalmente destino ao imenso material coletado.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1014.carroção4-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fonte: Google. Foto do livro 'Vila Prudente, do Bonde a Burro ao Metrô', Zadra, Newton. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1014.carroção4-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar da infância vivida na Vila Mariana. Coletores de resíduos recolhiam os dejetos das casas deixados nas calçadas em caixas de papelão ou latões grandes com tampas, estes não descartáveis. Os catadores jogavam esse material nas caçambas grandes de um carroção puxado por dois cavalos ou burros e devolviam o recipiente. Nossa mãe por vezes distribuía café com pãezinhos aos trabalhadores. Após décadas morando em uma casa no Brooklin, por vezes igualmente interagi rapidamente com os coletores de detritos, pois o contato com esses profissionais nesse tipo de moradia torna-se mais direto e frequente. Quantas não foram as vezes em que, ao  esquecer de colocar os sacos de resíduos na calçada,  após ouvir o ruido do caminhão e as vozes dos coletores corria até o portão, chamava-os e sempre, cordialmente, eles voltavam e retiravam os sacos. Em outras oportunidades, ao lhes oferecer uma garrafa de refrigerante e um pacote de biscoitos, comovente era a recepção desses verdadeiros especialistas. Ao longo, sabia o nome de diversos.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente tivemos de mudar da casa para um apartamento &#8211; fato inserido em blogs no início de 2025 &#8211; devido à sanha avassaladora das construtoras, que estão a demolir determinados bairros para a edificação de prédios, Brooklin e Campo Belo numa lista prioritária. A minha percepção da atividade dos coletores de resíduos teve um outro <em>approach</em> que, na realidade, só ampliou a minha admiração pelos laboriosos cidadãos. Vejo-os do apartamento, no início da noite, em posição logicamente distinta daquela visão tão próxima quando na residência anterior. Funcionários dos prédios colocam os enormes sacos de resíduos nas calçadas ou em pequenos recintos nas laterais das edificações. Os caminhões param por pouquíssimo tempo, o necessário para esses coletores, numa rapidez que impressiona, segurarem um ou dois sacos pesados, arremessando-os com precisão na caçamba do veículo. Este, finda a coleta do volumoso material, roda os metros necessários para a continuação da saga. Certamente são centenas de sacos arremessados e os dois ou três coletores incumbidos da tarefa ainda têm de dar pequenas corridas a fim de acompanhar o caminhão de recolha. Faça frio ou calor, chuvisco ou chuva forte, esses coletores desempenham exemplarmente a função. Infelizmente, eles têm de ouvir buzinadas de motoristas de carros impacientes, que sequer entendem que o sacrifício evidente dessa atividade fulcral na sociedade mereceria acima de tudo o respeito.</p>
<p style="text-align: justify;">Num país onde os absurdos proliferam, a função desses coletores de resíduos, figurantes basicamente inexistentes no cotidiano das narrativas, sofre com a omissão da sociedade e o termo abjeto, lixeiro, é habitualmente propalado. Sob outra égide, há a perplexidade do cidadão cumpridor de seu labor diário, seja nas mais diversas atividades, seja na vida familiar, ao se deparar com a discussão sobre tema que deveria ter sido abortado sumariamente na origem, o penduricalho, algo que persiste e se avoluma nos três poderes e nas inúmeras instituições estatais. Esses membros dos três poderes teriam a devida atenção a determinadas profissões “subalternas”, mas que, sob outra égide, são igualmente essenciais para a sociedade? Com baixíssimos salários, os coletores de toda espécie de detritos estão a mostrar diuturnamente que, sem eles, no passar de poucos dias as cidades estariam expostas ao caos absoluto.</p>
<p style="text-align: justify;">Considero-os verdadeiros heróis. Nem as homenagens a eles consagradas sensibilizam os poderosos: 1º de Março – Dia Mundial dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis; 7 de Junho – Dia Nacional de Luta dos Catadores de Materiais Recicláveis; 21 de Outubro – Dia Nacional do Coletor de Lixo, 22 de Novembro – Dia do Reciclador e da Reciclagem do Lixo.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The work of waste pickers – also pejoratively referred to as ‘scavengers’ – is just critical for a city. They are true environmental workers, playing a vital role in maintaining urban cleanliness.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Reflexões sobre compositores do passado, suas missivas e a atualidade (VIII)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/04/25/15911/</link>
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		<pubDate>Sat, 25 Apr 2026 03:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta? Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo, de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo, da plena criação em todos os domínios, arte, ciência, filosofia, porventura vida também. Agostinho da Silva (1906-1994) “Só Ajustamentos” Ao longo das décadas realizei a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta?</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-big.jpg" target="_blank"><img title="Auguste Rodin (1840-1917), O Pensador. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-small.jpg" alt="" /></a></strong></p>
<p><em>Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo,<br />
</em><em>de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo,<br />
</em><em>da plena criação em todos os domínios,<br />
</em><em>arte, ciência, filosofia, porventura vida também.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)<br />
“Só Ajustamentos”</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo das décadas realizei a leitura parcial da atividade epistolar de alguns dos mais conceituados compositores, apreendendo essencialidades que vão além da própria composição, abrangendo igualmente o cotidiano, os afetos e as dificuldades frente à vida e seus desdobramentos, saúde, finanças, esperanças ou desalento. Graças à carta manuscrita, preservou-se o pensar do compositor, essa interioridade não revelada em escritos teóricos no caso específico de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositor e teórico, magistral nas duas atividades.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Air pour Borée et la Rose”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA">https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA</a></p>
<p style="text-align: justify;">O vastíssimo patrimônio da música com várias designações, clássica, erudita ou de concerto, permanece através dos séculos, é executado pelas gerações de intérpretes e integra o vasto universo da Cultura Humanística. Tardiamente penetrou no Extremo-Oriente e hoje alguns dos mais relevantes pianistas são oriundos dos Conservatórios do Japão, China, Coréia do Sul&#8230;, evidência clara, apesar de culturas distantes das ocidentais sob tantos aspectos, da aceitação da música clássica em seus múltiplos modelos. No 19º Concurso Internacional Frederic Chopin (2025), em Varsóvia, os três primeiros  colocados eram orientais ou descendentes e os dois outros prêmios foram outorgados <em>ex-aequo </em>(empatados), tendo igualmente orientais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mormente neste século, de maneira mais acentuada verifica-se uma diminuição sensível da divulgação mais exequível da atividade musical erudita em nossas terras. Observei em blogs, anos atrás, o papel da imprensa relacionada à música de concerto. Rememoro que São Paulo, na década de 1950, tinha uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes. Os concertos nos vários teatros, máxime o Teatro Municipal, tinham frequência quase sempre plena.  Quando nos visitavam nomes referenciais do piano, violino, violoncelo ou canto, filas de jovens aguardavam a abertura das galerias – preços irrisórios – para não perderem os eventos. Após uma determinada apresentação, leitores tomavam conhecimento de críticas em vários jornais. Mencionaria O Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite, Diário de São Paulo, Diário da Noite, A Gazeta, O Tempo, Correio Paulistano, Jornal Alemão, Fanfulla, Giornali degli italiani, Shopping News. Todos esses periódicos tinham críticos, a maioria deles com pleno conhecimento musical.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/800.Cáustico-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Cáustico. Desenho de Luca Vitali (1940-2013). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/800.Cáustico-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar das muitas diferenças entre a música clássica e a música não compromissada com a forma e destinada às multidões, máxime na atualidade, considerações podem ser feitas a partir da efemeridade da música voltada aos shows e pertencente a várias modalidades, megashows vindos do Exterior, eventos outros no Brasil direcionados ao axé, funk e ao sertanejo, totalmente descaracterizado se comparado às duplas que se apresentavam muitas décadas atrás &#8211; Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana e alguns outros, sem esquecer Inezita Barroso -, que buscavam traduzir autênticos sentimentos e anseios do homem do campo. Mercê do marketing bem estruturado, hodiernamente não mais é a qualidade que importa, mas a popularidade dos eleitos por n razões.</p>
<p style="text-align: justify;">Menções da imprensa testemunham somas rigorosamente elevadas repassadas pelos governos a personagens bem conhecidos da denominada música de cunho popular. É um fato que se repete nas várias esferas oficiais, do poder central às prefeituras de cidades pequenas, que inúmeras vezes dão maior atenção à essas apresentações do que àquela destinada aos serviços básicos das cidades ou, então, à segurança e à educação. Mormente nos megashows, a mudança de repertório se dá virtualmente a cada temporada e as músicas antes apresentadas estiolam-se em pouco tempo, basicamente esquecidas para sempre nas turnês vindouras. Os meios de comunicação, quase como um todo, divulgam <em>ad extremum es</em>sas apresentações, amparadas por publicidade de peso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesses posts dedicados às cartas de compositores que se eternizaram através dos séculos, veio-me à mente a perenidade frente ao efêmero. Numa elucubração, se considerarmos compositores que morreram pobres ou com problemas financeiros graves, mas que tiveram suas obras glorificadas, e atentando, sob outra égide, ao que um <em>pop star</em> recebe num único megashow, cantando músicas de valor bem discutível, não estaria distante da realidade afirmar que o cachê desse <em>pop star</em> internacional para uma única apresentação, frise-se, é infinitamente superior ao que compositores sacralizados sequer puderam amealhar durante toda a existência, guardando-se as proporções monetárias históricas. Antônio Vivaldi (1678-1741) morreu pobre, assim como Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828).</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Franz Schubert, Fantasia em fá menor, na interpretação de Paul Badura-Skoda (1927-2019) e Jörg Demus (1928-2019). Infezimente essa gravação realizada na Sala Gaveau, em Paris, é interrompida no minuto 8:56:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Dp8W7pSTBmw">Paul Badura-Skoda et Jörg Demus, pianos | Fantaisie en fa mineur, D.940 de Franz Schubert</a></p>
<p style="text-align: justify;">Richard Wagner (1813-1883) teria falido não fosse o apoio incondicional de Luís II da Baviera (1845-1886). Modest Mussorgsky (1839-1881) é o exemplo tipificado do compositor que faleceria no completo infortúnio. O <em>robe de chambre</em> que Mussorgsky veste poucos dias antes da morte, na magnífica pintura de Ilia Répine, foi-lhe dado por Rimsky Korsakov (1844-1908) para a famosa tela.  Claude Debussy (1862-1918) morreu em situação financeira difícil, mercê sobretudo causada por câncer que o acometera anos antes. Outros tantos faleceram beirando a pobreza.</p>
<p style="text-align: justify;">Creio que a comparação estabelecida poderia parecer dicotômica quanto aos gêneros. Não obstante, transcende uma simples apreciação. As transformações tecnológicas necessárias, mas, sob outra égide, verdadeiros tsunamis, têm acarretado uma série de desvirtuamentos dos princípios “outrora” consagrados: costumes, moralidade, lhaneza, honestidade, gostos e educação. Inversamente à perenidade mencionada acima, mercê da qualidade insofismável das obras de compositores perenizados, os montantes aferidos nas hodiernas apresentações para multidões, com astros superventilados pela mídia, evidenciam, na área musical, a aparência da verdade, pelo sentido efêmero do que é revelado. Mencionei recentemente que, ao auscultar jovens frequentadores dos megashows com personagens estrangeiros ou nacionais a respeito de músicas apresentadas um ou dois anos antes, não mais se lembravam, mas sim as do último show a que assistiram.</p>
<p style="text-align: justify;">As transformações sociais têm sido avassaladoras. Certamente, dentro de algumas décadas os compositores mencionados acima estarão presentes nas programações musicais pelo mundo, com público específico, é certo, se comparado aos gêneros outros mencionados. Para estes, a efemeridade é dramática. Quem será lembrado futuramente dessa plêiade de <em>pop stars</em> que são glorificados por multidões? Que músicas ficarão na memória dos que frequentam esses megashows? O legado só acolhe a criação musical qualitativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Just some reflections on the legacy left by the great composers of the past, and the overwhelming presence today of mega-concerts that draw crowds to glorify names that are hyped up by the media.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma carta manuscrita inusitada e inesperada (VII)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/04/18/15898/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/04/18/15898/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 18 Apr 2026 03:05:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Missiva manuscrita vinda dos Países Baixos Qual não foi minha surpresa ao receber do dileto amigo Joep Huiskamp, professor jubilado da Universidade de Eindhoven, na Holanda, e artista plástico com inúmeras exposições em seu país, uma resposta, pelos Correios, aos blogs que têm sido direcionados à temática das cartas manuscritas, hoje em acentuado processo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Missiva manuscrita vinda dos Países Baixos</strong></p>
<p><strong><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1013.Joep2-big.jpg" target="_blank"><img title="Carta manuscrita de Joep Huiskamp. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1013.Joep2-small.jpg" alt="" /></a></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Qual não foi minha surpresa ao receber do dileto amigo Joep Huiskamp, professor jubilado da Universidade de Eindhoven, na Holanda, e artista plástico com inúmeras exposições em seu país, uma resposta, pelos Correios, aos blogs que têm sido direcionados à temática das cartas manuscritas, hoje em acentuado processo de extinção. Nossa amizade data do ano 2000, quando em Gent, na Bélgica, estivemos durante alguns dias hospedados em casa do dileto casal Tony e Tânia Herbert. Nos anos vindouros, Joep e sua esposa Jonneke compareceram aos meus recitais de piano em várias cidades da Bélgica e estiveram, inclusive, em uma apresentação que realizei em Lisboa. Nosso relacionamento, iniciado no início do século, prolongou-se. Amante incondicional do arquipélago português dos Açores e da cultura de Portugal, tendo, entre outras contribuições, traduzido para a língua holandesa “O Mandarim”, de Eça de Queirós, Joep tem, ao longo dos anos, viajado constantemente ao belíssimo arquipélago constituído por nove ilhas. Realizei em 1992 turnê por três ilhas açorianas, Terceira, Faial e São Miguel, e sendo admirador inconteste das obras para piano do compositor português Francisco de Lacerda (1869-1934), acabei interpretando a integral para piano e gravado muitas de suas criações, motivos determinantes para o estreitamente da amizade com Joep Huiskamp, igualmente um apreciador das criações do músico nascido nos Açores.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/746.JH2001-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Desenho de Joep Huiskamp no jardim dos amigos Tony e Tânia Herbert. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/746.JH2001-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">A carta, aparentemente heteróclita, testemunha não apenas um tributo expresso ao ato de escrever correspondência à mão, mas igualmente um senso criativo com boa dose de humor. Joep mescla francês e português, as duas línguas com as quais nos comunicávamos. Desenha na folha da missiva três retratos coloridos, homenageando luminares da cultura açoriana: o escritor e poeta Antero de Quental (1842-1991), nascido em Ponta Delgada, capital da Ilha de São Miguel; Vitorino Nemésio (1901-1978), originário de Santa Cruz – Praia da Vitória, na Ilha Terceira, autor de um dos mais importantes romances portugueses, “Mau Tempo no Canal”; e Francisco de Lacerda, natural da  Ribeira Seca, Ilha de São Jorge.</p>
<p style="text-align: justify;">“Meu muito caro José Eduardo,</p>
<p style="text-align: justify;">Naturalmente, tens razão! Escrever cartas à mão, com tinta, isso se vê cada vez menos nesses dias. E, como consequência, a caligrafia de muitas pessoas fica em frangalhos”.</p>
<p style="text-align: justify;">Menciona o equívoco ortográfico na palavra frangalhos na sua missiva manuscrita, tendo corrigido a segunda letra a e a última sílaba. Após, narra aspectos da vida cotidiana do casal, a sua aposentadoria e brevemente a da esposa, assim como os projetos tão caros para aqueles que sabem planejar as décadas subsequentes e a vida em família, no caso. No roteiro, um regresso à Ilha de São Jorge, a fim de pintar e escrever.</p>
<p style="text-align: justify;">A missiva do meu dileto amigo holandês tem algo que faz pensar, pois merece diversas interpretações. Se, sob determinado aspecto, há um humor fino, até sarcástico, o que muito me alegrou, revela a mensagem ilustrada a realidade sombria que aponta para o crepúsculo da  correspondência manuscrita, motivo determinante para a elaboração da carta. As três ilustres figuras açorianas que tão bem ilustram o envio de Joep, personagens que fazem parte igualmente dos meus eleitos entre aqueles da extraordinária cultura lusíada, não significariam a necessidade de evidenciar a presença dos três desenhos originais e não de reproduções impressas?</p>
<p style="text-align: justify;">O vaticínio para a missiva escrita à mão já foi dado há poucas décadas atrás. Não obstante o fato irreversível, a simples lembrança das correspondências que subsistiram desde a Grécia Antiga leva-nos a deduzir que mais profundamente se está a penetrar na era da irreversibilidade do efêmero. <em>Mutatis mutandi</em>, se na música alguns compositores de mérito permanecem frequentados com dedicação pelos intérpretes, tendo a plena aceitação de um público bem menos vasto, mas fiel, a produção musical da atualidade, um leque de tendências composicionais com as mais variadas formas, estilos e destinações, tende a ser descartada em tempo exíguo, salvo exceções realmente meritórias.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1012.Portrait-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Auto retrato de Joep Huiskamp. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1012.Portrait-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Consultei inúmeras pessoas nesses últimos tempos a respeito dos <em>pendrives, </em>a diminuta peça onde armazenavam o que deveria ser preservado, missivas internéticas inclusas. A grande maioria nem mais os utiliza e a minha pergunta sobre a destinação desses dispositivos recebeu respostas contundentes: “não sei onde os guardei” ou “joguei-os fora”.</p>
<p>Retomarei oportunamente às cartas manuscritas de compositores que permaneceram na história, pois outros temas já estão a pedir passagem. Não obstante, a leitura através das décadas dessa literatura, essencial para o conhecimento mais aprofundado dos compositores pesquisados, levou-me a considerar oportuno o tema do próximo blog.</p>
<p>Clique para ouvir, de Francisco de Lacerda, “Papillons” e “Zara”, na interpretação de J.E.M.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rOa_dEmQg30&amp;t=25s">https://www.youtube.com/watch?v=rOa_dEmQg30&amp;t=25s</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>My dear friend Joep Huiskamp, a retired professor from Eindhoven University in the Netherlands and also a painter, sent me a handwritten letter by post. A lover of the Azores, like myself, he included three of his own paintings depicting immortal figures born in the Azores archipelago.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Carta de Robert Schumann à esposa Clara (VI)</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Apr 2026 03:05:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O compositor frente à constante inspiração Para mim, o homem e o músico sempre buscaram se expressar ao mesmo tempo. Só dou um título às minhas composições quando elas estão concluídas. Robert Schumann (1810-1856) O compositor Robert Schumann, um dos músicos luminares do romantismo alemão, autor de composições abrangendo uma extensa gama de destinações ― piano solo, lieds (melodias acompanhadas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O compositor frente à constante inspiração</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS2a-big.jpg" target="_blank"><img title="Clara e Robert Schumann. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS2a-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Para mim, o homem e o músico sempre buscaram se expressar ao mesmo tempo.<br />
</em><em>Só dou um título às minhas composições quando elas estão concluídas.<br />
</em>Robert Schumann (1810-1856)</p>
<p style="text-align: justify;">O compositor Robert Schumann, um dos músicos luminares do romantismo alemão, autor de composições abrangendo uma extensa gama de destinações ― piano solo, <em>lieds </em>(melodias acompanhadas pelo piano), sinfônico (quatro sinfonias) e camerístico<strong> </strong>―, externaria em suas criações, mormente pianísticas, o seu amor àquela que seria desde a juventude a fonte de inspiração, Clara Wieck, futura Clara Schumann (1818-1896), notável pianista e compositora de mérito. Schumann estudou com Friedrich Wieck (1785-1873), pai de Clara, que se opôs durante anos à união de sua filha com Robert, fato que ocorreria em 1840, após o futuro casal ter entrado na Justiça contra o professor que alegava não ter Schumann estabilidade financeira.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos 12 de Setembro de 1840, um dia após o aniversário de Clara, efetua-se o casamento e, nessa data, após as núpcias, Schumann escreve à “Minha jovem mulher bem-amada”, dando início a um diário mútuo que deveria doravante fazer parte das impressões na vida do casal. As anotações duraram três anos. Robert e Clara tiveram 8 filhos.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/779.Clara-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Clara Schumann. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/779.Clara-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">“Deixa-me, antes de mais nada, dar-te um beijo muito carinhoso neste dia, o primeiro da tua vida de mulher, o primeiro do teu vigésimo segundo ano. O livrinho que começo hoje tem um significado muito profundo. Ele deve se tornar um diário, falando de tudo o que temos em comum em nosso lar e em nossa união. Nossos desejos e esperanças serão registrados nele. Deve ser também um livro que contenha os pedidos que precisamos fazer um ao outro, quando as palavras não forem suficientes.</p>
<p style="text-align: justify;">Se concordas comigo, querida esposa, prometa-me também que cumprirás rigorosamente o código deste vínculo conjugal, assim como eu mesmo te prometo aqui.</p>
<p style="text-align: justify;">A cada oito dias, trocaremos a direção da correspondência. Todos os domingos (de preferência no café da manhã), ocorrerá a entrega do Diário, à qual não é proibido acrescentar um beijo. O que foi escrito será lido em seguida, em silêncio ou em voz alta, conforme as exigências do texto, acrescentando-se o que tiver sido esquecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Os votos expressos serão ouvidos, os pedidos apresentados e aprovados e, de maneira geral, nossa existência durante toda a semana cuidadosamente examinada, seja ela cheia de mérito e ação, seja por termos aumentado nosso bem-estar exterior ou interiormente, seja ainda por termos nos aperfeiçoado na arte que nos é tão cara.</p>
<p style="text-align: justify;">As anotações de cada semana não devem ter menos de uma página. Quem descumprir essa regra receberá uma punição, ainda por definir.</p>
<p style="text-align: justify;">Se algum membro de nossa Ordem Conjugal se atrevesse a passar uma semana sem escrever nada, a punição seria muito mais grave. Situação, no entanto, que mal podemos imaginar, dada nossa elevada estima mútua e nosso senso de dever. Todos esses estatutos e leis serão observados também em viagem, e o Diário deverá sempre nos acompanhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos prazeres do nosso Diário será, como já foi dito, a crítica de nossa vida artística. Por exemplo, o que você gosta de estudar, o que você compõe e o que você pensa sobre isso. O mesmo se aplica a mim.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro ponto forte deste livro consistirá em descrições de personagens, por exemplo, de artistas de renome que tivermos conhecido, e em anedotas; os traços humorísticos serão muito bem-vindos. Mas o que há de mais belo e encantador neste livro, minha querida esposa, não quero chamá-lo pelo nome. Tuas belas esperanças e as minhas, que o Céu queira abençoar; teus cuidados e os meus, que o casamento traz consigo; enfim, todas as alegrias e todos os sofrimentos da vida em comum serão aqui fielmente descritos, o que nos reserva alegrias para nossa velhice.</p>
<p style="text-align: justify;">Se concordas comigo em todos os pontos, minha querida esposa, escreve então teu nome abaixo do meu e pronuncia, como um talismã, as três palavras nas quais repousa a felicidade da vida:</p>
<p style="text-align: center;">Trabalho, economia, fidelidade”.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS1a-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Robert Schumann. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/779.RS1a-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Uma das obras para piano mais inspiradas de Schumann é a <em>Grande Humoresque</em> op. 20 (1839), composição finda um ano e meio antes do casamento,<strong> </strong>assim definida pelo notável pianista francês Alfred Cortot (1977-1962): “A <em>Humoresque </em>constitui um dos exemplos mais marcantes do gênio inovador de Schumann e ao qual não se pode atribuir qualquer precedente em toda a história da literatura pianística”. Schumann, durante a gestação da <em>Humoresque</em>, obra constituída de duas dezenas de improvisações contínuas e sem quaisquer amarras formais, pensa em Clara e, se a dedicatória não é a ela destinada, a inspiração esteve sob a égide da sua futura esposa. Escreve à Clara: “Durante toda a semana estive ao piano e compus, ri e chorei ao mesmo tempo. Encontrarás a marca de tudo isso na minha <em>Grande Humoresque</em>” (11/03/1839).</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Robert Schumann, a <em>Humoresque </em>op. 20, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9QLA5sKqlrc">https://www.youtube.com/watch?v=9QLA5sKqlrc</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Robert Schumann’s letter to his wife Clara—a record preserved in a wedding journal and written on their wedding day—reveals a deep bond between them, as the two were to record their hopes, feelings, and daily lives in that marriage diary.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Mussorgsky em suas divagações epistolares (V)</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Apr 2026 03:05:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[A transmissão epistolar sem subterfúgios Todos os homens de gênio e de progresso na Rússia são e serão eternamente condenados aos trabalhos forçados ou bêbados. Dostoiévsky (1821-1881) (“Os Possessos”) A grandeza de um artista é, antes de tudo, a grandeza de sua alma. Nesse sentido, Moussorgsky pode ser considerado de pleno direito como um grande [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A transmissão epistolar sem subterfúgios</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Mussorgsky-big.jpg" target="_blank"><img title="Modest Mussorgsky. Pintura de Ilia Répine realizada alguns dias antes da morte do compositor. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Mussorgsky-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Todos os homens de gênio e de progresso na Rússia são e serão<br />
eternamente condenados aos trabalhos forçados ou bêbados.<br />
</em>Dostoiévsky (1821-1881)<br />
(“Os Possessos”)</p>
<p><em>A grandeza de um artista é, antes de tudo, a grandeza de sua alma.<br />
</em><em>Nesse sentido, Moussorgsky pode ser considerado de pleno direito<br />
</em><em>como um grande artista,<br />
</em><em>pois sua alma abrigava uma multidão de almas humanas.<br />
</em>Guéorgui Vasilyevich Sviridov, compositor (1915-1998).</p>
<p style="text-align: justify;">Alguns leitores me solicitaram a inclusão do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881) entre aqueles que foram ativos missivistas. Tendo publicado um blog, &#8220;Cartas de Modest Moussorgsky&#8221;, aos 7 de Dezembro de 2019, volto ao tema com outros segmentos de sua correspondência. Presentemente digito Mussorgsky, grafia usual na língua portuguesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Suas cartas transmitem essencialmente o que ele pensa sobre as artes, música a preponderar, sobre o cotidiano, sem descartar a aspiração do homem em sua trajetória existencial. Das cerca de 300 cartas conhecidas de Mussorgsky há destinações mais frequentes, casos de Vladimir Stassov, Mili Balakirev, Arsény Golenichtchev-Koutousov e Rimsky Korsakov. Há naturalidade em se expressar, assim como originalidade conceitual desprovida de qualquer empáfia. Reiteradas vezes suas missivas traduzem discreta alegria, pessimismo, depressão, críticas por vezes sarcásticas a desconhecidos ou não, e a mudança de humor sem extremismos, evidenciando sua difícil condição. A leitura da sua correspondência revela a personalidade de Mussorgsky, mutante tantas vezes graças aos períodos críticos que viveu, levando-o à morte precoce aos 42 anos. Não obstante, há uma profunda coerência quanto à devoção aos costumes e à música de sua Rússia.  Como Dostoiévsky, Mussorgsky também foi epilético e, a agravar, era dependente das bebidas de alto teor alcoólico. Não obstante toda a instabilidade física e financeira, foi um gênio absoluto. Claude Debussy (1862-1918) considerava-o o mais importante compositor entre os seus contemporâneos europeus.</p>
<p style="text-align: justify;">O espaço a que me proponho nos blogs hebdomadários determinou escolhas e, da vasta comunicação epistolar de Mussorgsky, separei segmentos de um dos seus mais expressivos destinatários, o crítico musical, historiador de arte e ideólogo do Grupo dos Cinco Vladimir Vassiliévitch Stassov (1824-1906), assim como a quase integral missiva endereçada a um dos seus interlocutores, o poeta Arséni Golénitchev-Koutousov (1848-1913).</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Stasov3-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Vladimir Vassiliévitch Stasov. Pintura de Ilia Répine. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Stasov3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">De Stasov, extraí frases da vasta correspondência mantida entre os dois grandes amigos. Em vários inícios das missivas, Mussorgsky trata-o de <em>generalíssimo</em>. Escreve Mussorgsky: “Diga-me por que razão, quando conversam jovens pintores ou escultores, consigo acompanhar o fio dos seus pensamentos, compreender a sua maneira de ver as coisas e os seus objetivos, e raramente os ouço falar de técnica (apenas nos casos em que é realmente necessário). Por que razão — mas é inútil dizê-lo — quando são os nossos colegas que conversam, os pensamentos vivos são tão raros, suas conversas são enfadonhas, e o que dizem cheira tanto a sala de aula: termos técnicos, jargão musical?” (1872).</p>
<p style="text-align: justify;">“A representação artística da beleza por si só, na sua expressão material, é uma infantilidade primitiva, a infância da arte. Os traços mais subtis da natureza humana e das massas, a obstinação em agarrar-se aos territórios inexplorados e em conquistá-los: eis a verdadeira vocação do artista” (1872).</p>
<p style="text-align: justify;">“Primeiramente, os gostos tendem a mudar; em segundo lugar, o público exige dos músicos russos obras russas, em terceiro lugar, é vergonhoso tratar a arte com fins egoístas” (26/12/1872).</p>
<p style="text-align: justify;">“Liszt fala sem cessar dos músicos russos e relê de tempos em tempos suas obras. Que Deus lhe permita viver o maior tempo possível. Eu poderia visitá-lo na Europa e mostrar-lhe nossas novidades, mas só se o meu caro <em>generalíssimo</em> me acompanhasse” (23/07/1873).</p>
<p style="text-align: justify;">“Nunca senti com tanta força que o trabalho criativo exige calma, que somente nessa condição é possível se concentrar, retirar-se para a sua torre de marfim e, de lá, observar os personagens: como eles se comportam?” (06/09/1873).</p>
<p style="text-align: justify;">“A modéstia e a ausência de arrogância, que nunca me abandonaram e não me abandonarão enquanto meu cérebro não secar completamente dentro da minha cabeça, não satisfazem os imbecis” (06/02/1874).</p>
<p style="text-align: justify;">Durante a composição da ópera <em>Khovanchtchina</em>, escreve a Stassov:</p>
<p style="text-align: justify;">“Estou convencido de que o <em>generalíssimo</em> não acredita que eu tenha recebido as suas observações e propostas de forma diferente do habitual. Interrompi meu trabalho, comecei a refletir e agora, tal como ontem, há várias semanas e amanhã, tenho apenas um único pensamento: sair vitorioso desta provação e levar aos homens uma nova mensagem de amor e amizade, uma mensagem simples e vasta como a planície russa, a mensagem de um modesto músico, mas também de um combatente pela verdade da arte” (15/06/1876).</p>
<p style="text-align: justify;">Transcrevo segmentos de uma das cartas endereçada ao poeta Arséni Golénitchev-Koutousov (1848-1913), autor de vários textos poéticos que serviram de inspiração para Mussorgsky, entre os quais os ciclos de melodias: <em>Sans Soleil</em> e <em>Chants et Danses de la Mort</em>. Mussorgsky faz observações de interesse que revelam características do compositor frente à sua atualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A missiva ao amigo poeta foi escrita aos 3 de Outubro de 1875.</p>
<p style="text-align: justify;">“Arséni, meu querido amigo que tanto sofre. Soube pela Katénine que você continua de cama. Há muito tempo que queria lhe escrever, mas não consegui. Não se zangue, meu amigo, estou realmente sobrecarregado. Você me escreve dizendo que não lhe dei muitas notícias e pede mais. Vou responder-lhe com um ditado: eu gostaria muito de ir para o paraíso, mas os pecados me impedem. Onde encontrá-los? Quer dizer, não os pecados, mas as novidades&#8230; Vamos falar melhor do nosso humilde mundo artístico, vamos nos isolar por algum tempo em algum recanto agradável e de lá, próximos da vida e das pessoas, mas longe dos discursos pomposos sobre o direito, a liberdade e o protesto, olhemos com coragem a vida de frente. É preciso, porque as pessoas necessitam da verdade, não de uma verdade retórica, mas autêntica. A humanidade se entrincheirou por trás do alarde de procedimentos convencionais, quase artísticos, e de formas não convencionais, de modo algum artísticas; ela se barricou ali de boa vontade, até mesmo com prazer, talvez sem volta, porque ‘o sol nunca nascerá a oeste’. Parece-me que, com muitas raras exceções, os homens, por vezes, não suportam se ver como realmente são; o desejo de parecerem, mesmo aos seus próprios olhos, melhores do que são é muito natural. Mas eis em que consiste o ardil: os artistas contemporâneos, assim como os do passado, ao retratarem os homens para os homens como melhores do que realmente são, traduzem a vida pior do que ela é. Os velhos crentes incorrigíveis repetem que isso é necessário para dar brilho às cores; os vacilantes, que oscilam como um pêndulo, murmuram que as tarefas da arte ainda não estão suficientemente claras; os radicais gritam que somente um aldrabão é capaz de criar na realidade, de maneira verdadeiramente artística, o tipo genuíno do trapaceiro. Essas três correntes podem ser facilmente conciliadas, e tal conciliação seria infinitamente mais útil do que a luta no espaço aéreo, já que a natureza não nos dotou de asas para nos mantermos ali. É muito simples; um artista não pode fugir do mundo exterior, cujas impressões se refletem até mesmo nas nuances da criação subjetiva. Só que não se deve mentir, mas dizer a verdade. Essa simplicidade é, no entanto, difícil de alcançar. A verdade artística não tolera formas preconcebidas. A<strong> </strong>vida é variada e muitas vezes caprichosa. É<strong> </strong>tentador, mas raramente possível, criar um fenômeno ou um tipo realista na forma que lhe é inerente e que nenhum artista havia utilizado até então. Neste caso, o artista não deve contar com a sua velha ama para ajudá-lo a levantar-se, para lhe dizer: ‘Mantenha-se direito’; não, ele deve levantar-se sozinho e dizer a si mesmo: ‘Tenho de me manter direito’. São estas as ideias que tenho dentro de mim neste momento, caro amigo Arséni. Ainda não sei como me livrarei delas, mas prevejo que o parto será difícil”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Moussorgsky2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Modest Mussorgsky. Medalha comemorativa. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1010.Moussorgsky2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">É realmente extraordinária a criatividade de Mussorgsky que, apesar de uma vida com tantas adversidades provocadas pela epilepsia e a dependência alcoólica, criou uma das óperas mais importantes em termos mundiais, <em>Boris Goudonov</em>, ciclos de canções da maior relevância, <em>Sans Soleil, Chambre d’enfants e Chants et Danses de la Mort </em>e uma composição excelsa para piano, <em>Quadros de uma Exposição.</em></p>
<p>Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, cena da coroação da ópera <em>Boris Goudonov</em> (2 º quadro cena II), na redução para piano de Rimsky Korsakof (1844-1908), na interpretação de J.E.M.:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=GFiQhAHtovE&amp;t=3s">https://www.youtube.com/watch?v=GFiQhAHtovE&amp;t=3s</a></p>
<p><em>Mussorgsky was a prolific letter-writer. In this post, I include excerpts from letters written by Mussorgsky to the music critic Vladimir Stasov and the poet Golenichev</em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Jean-Philippe Rameau (1683-1764) em carta essencial (IV)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/03/28/jean-philippe-rameau-1683-1764-em-carta-essencial-iv/</link>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2026 03:05:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[O compositor já a pensar na obra cênico-musical Por mais progressos que a música tenha feito até hoje, parece que o espírito se tornou menos curioso em aprofundar os seus verdadeiros princípios à medida que o ouvido se tornou sensível aos maravilhosos efeitos dessa arte; de modo que se pode dizer que a razão perdeu os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O compositor já a pensar na obra cênico-musical</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1009.Rameau-big.jpg" target="_blank"><img title="Jean-Philippe Rameau. Pintura atribuída a J. Aved. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1009.Rameau-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Por mais progressos que a música tenha feito até hoje,<br />
</em><em>parece que o espírito se tornou menos curioso<br />
</em><em>em aprofundar os seus verdadeiros princípios<br />
</em><em>à medida que o ouvido se tornou sensível aos maravilhosos efeitos dessa arte;<br />
</em><em>de modo que se pode dizer que a razão perdeu os seus direitos,<br />
</em><em>enquanto a experiência adquiriu alguma autoridade.<br />
</em>Jean-Philippe Rameau (1683-1764)<br />
(Extraído do prefácio do “Traité de l’Harmonie”, 1722)</p>
<p style="text-align: justify;">A missiva de Rameau ao poeta e libretista Antoine Houdar de la Motte (1672-1731), datada de 1727 e mantida entre os pertences do libretista, foi publicada no Mercure de France em Março de 1765, pp. 36-40, tendo interesse sob vários aspectos, pois o compositor e teórico, aos 44 anos, já antevê os seus passos em direção ao objetivo futuro voltado à ópera.</p>
<p style="text-align: justify;">Rameau evidencia a posição crítica quanto ao <em>modus faciendi</em> dos seus contemporâneos, compositores preocupados com as notas (notação musical), e expõe a sua própria criação e anseios concernentes a  início em 1733 com a <em>tragédie en musique, Hyppolite et Aricie</em>. Rameau dedicar-se-ia doravante mais assiduamente às mais de duas dezenas de outras composições do gênero em várias modalidades:  <em>Tragédie en musique</em>, <em>Óperas-ballets, Pastorales héroïques, Comédies lyriques, Comédie-ballet e Actes de ballet</em>, que se estruturam em dimensões diferenciadas quanto aos atos cênicos, de um a cinco. Na carta, Rameau solicita-lhe um libreto, fato que não terá sequência. Não obstante, ao compor <em>Pigmalion</em>, <em>acte de ballet </em>em 1748, Rameau tem libreto de Ballot de Sauvot a partir do texto do destinatário da missiva, Houdar de la Motte, <em>Le triomphe des arts</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Compositor e teórico, sem dúvida Rameau é um dos mais importantes músicos da história. Entre as várias obras teóricas, o <em>Traité de l’Harmonie réduite à ses príncipes naturels</em> (1722) foi fundamental até o início do século XX, sendo frequentado até o presente pelos estudiosos, mercê da sua clareza, metodologia e ciência. Até 1760, Rameau escreveria mais sete trabalhos teóricos.  Suas composições originais para cravo se estendem de 1706 a 1728, exceção à <em>La Dauphine</em> (1747). Tem-se cinco suítes, peças avulsas, assim como algumas transcrições da ópera-balé  <em>Les Indes Galantes</em> (1735) ou as <em>Pièces en concert</em> (1741). Fica evidente que, ao adentrar no compartimento voltado à ópera e à música de cena a partir de 1733, a dedicação composicional tornar-se-ia quase integral e sua última ópera, <em>Les Boréades</em>,<em> </em>foi apresentada em 1763, um ano antes de sua morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, <em>Les Sauvages</em>,<em> </em>extraída da ópera <em>Les Indes Galantes</em>:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3zegtH-acXE&amp;t=44s">https://www.youtube.com/watch?v=3zegtH-acXE&amp;t=44s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Escreve Rameau a Houdar de la Motte: “Quaisquer que sejam as razões que o senhor tenha para não esperar que minha música teatral tenha um sucesso tão favorável quanto a de um autor aparentemente mais experiente nesse gênero musical, permita-me contestá-las e, ao mesmo tempo, justificar a prevenção a meu favor, sem pretender tirar do meu conhecimento outras vantagens além daquelas que o senhor, assim como eu, considerará legítimas.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem fala de um músico erudito geralmente se refere a um homem para quem nada escapa nas diferentes combinações das figuras musicais; mas, ao mesmo tempo, acredita que ele está tão absorto nessas combinações que sacrifica tudo: o bom senso, o sentimento, o espírito e a razão. Ora, ele é apenas um músico da escola, escola onde só se fala de notas musicais e nada mais; de modo que se tem razão em preferir um músico que se orgulha menos da ciência do que do gosto. No entanto, este último, cujo gosto não é formado que por comparações ao alcance de suas sensações, só pode se destacar em certos gêneros, ou seja, nos gêneros relacionados ao seu temperamento. Ele é naturalmente terno? Ele expressa bem a ternura: seu caráter é vivaz, alegre, brincalhão, etc., etc.? Sua música responde a isso; mas, tire-o desses traços que lhe são naturais e você não o reconhecerá mais. Além disso, como ele retira tudo de sua imaginação, sem qualquer ajuda da arte, por meio de suas relações com as expressões, ele acaba se desgastando. Em seu primeiro fogo, ele era brilhante; mas esse fogo se consome à medida que tenta reacendê-lo, e agora só se encontram em sua obra repetições e platitudes.</p>
<p style="text-align: justify;">Seria, portanto, de desejar que houvesse um Músico que estudasse a natureza antes de pintá-la, e que, por sua ciência, soubesse fazer a escolha das cores e das nuances, mercê do seu espírito e gosto que o levariam a sentir a relação com as expressões necessárias.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1009.signature-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Jean-Philippe Rameau. Assinatura. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1009.signature-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Estou longe de acreditar que sou esse Músico, mas, pelo menos, tenho mais conhecimento do que os outros sobre cores e nuances, das quais eles têm apenas uma percepção confusa e que as utilizam adequadamente apenas por acaso. Eles têm gosto e imaginação, mas o todo está limitado ao reservatório de suas sensações, onde os diferentes objetos se reúnem em uma pequena porção de cores, além da qual eles não percebem mais nada. A natureza não me privou totalmente dos seus dons, e não me entreguei às combinações das notas musicais a ponto de esquecer a sua íntima ligação com a beleza natural, que por si só basta para agradar, mas que não se encontra facilmente numa terra que carece de sementes e que, acima de tudo, deu os seus últimos suspiros. Informe-se sobre a ideia que se tem de duas Cantatas que me foram tiradas há uma dúzia de anos, e cujos manuscritos são tão difusos em França que não achei por bem mandá-las gravar, uma vez que eu poderia ter de arcar com as despesas, a menos que acrescentasse algumas outras, o que não posso fazer por falta de palavras; uma tem por título <em>L’Enlevement d’Orithie</em>: há recitativos e árias caracterizadas; a outra tem por título <em>Thétis</em>, onde poderá notar o grau de ira que atribuo a <em>Neptuno</em> e a <em>Jupiter</em>, conforme convém dar mais serenidade ou mais posse a uma do que à outra e conforme convém que as ordens de uma e da outra sejam executadas (Rameau compôs essas duas Cantatas entre 1715 e 1720, e outras cinco até 1740). Cabe-vos ouvir como caracterizei o canto e a dança dos <em>Sauvages</em> que apareceram no Teatro Italiano, há um ou dois anos, e como traduzi esses títulos, <em>Les Soupirs, Les Tendres Plaintes, Les Cyclopes, Les Tourbilllons</em> (ou seja, os turbilhões de poeira provocados pelos ventos fortes), <em>Entretiens des Muses, Musette, Tambourin,</em> etc. Verá então que não sou novato na arte e que, acima de tudo, não parece que eu faça grande uso do meu conhecimento em minhas produções, nas quais procuro esconder a arte pela própria arte, pois tenho em vista apenas as pessoas de bom gosto e de modo algum os sábios, já que há muitos destes e quase nenhum daqueles. Eu poderia ainda fazer-lhe ouvir motetos para grande coro, onde reconheceria se eu sinto o que quero expressar. Enfim, isto é suficiente para lhe dar o que refletir. Com toda a consideração possível, senhor, sou seu muito humilde e muito obediente servo”.</p>
<p style="text-align: justify;">Diferentemente dos compositores alemães e italianos, os cravistas franceses davam títulos descritivos às suas composições. Tendo gravado em Sófia, na Bulgária, mas com lançamentos na Bélgica e no Brasil, a integral para teclado, apenas a Suíte de 1706 conserva títulos de danças, pois as outras priorizam o descritivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Rameau, <em>Les Tourbillons</em> (mencionada acima), logo após a peça de Jean-François Dandrieu (1682-1738), com título idêntico, na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=8s">https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=8s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Rameau, <em>Les Cyclopes</em>, peça igualmente citada acima, na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Hl0I3svTKnI&amp;t=2s">https://www.youtube.com/watch?v=Hl0I3svTKnI&amp;t=2s</a></p>
<p style="text-align: justify;">A íntegra da missiva manuscrita de Rameau a Houdar de la Motte sintetiza parte basilar do seu entendimento voltado à criação. Não há subterfúgios, Rameau é direto. O destinatário guardou-a entre seus pertences. Uma carta atual, escrita por um personagem luminar na era internética, permaneceria 300 anos? Ficar na denominada nuvem não implica uma categoria de esquecimento, graças à imaterialidade?</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em><em>Letter from Jean-Philippe Rameau to the  poet and librettist Houdar de la Motte reveals  essential aspects of the French composer&#8217;s thinking.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Em torno de uma sonata para órgão&#8221; (III)</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Mar 2026 03:05:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; Correspondência mantida entre dois ilustres músicos Tendo encontrado na feira-livre do Campo Belo, após longo tempo, meu velho amigo Marcelo, leitor fiel dos meus blogs, fomos a seguir a um café próximo. Lera o post sobre cartas de Beethoven e, como admirador das criações do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), tantas [...]]]></description>
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<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1008.HO-big.jpg" target="_blank"><img title="Henrique Oswald. Gravura em metal realizada pelo seu filho Carlos Oswald. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1008.HO-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><strong>Correspondência mantida entre dois ilustres músicos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Tendo encontrado na feira-livre do Campo Belo, após longo tempo, meu velho amigo Marcelo, leitor fiel dos meus blogs, fomos a seguir a um café próximo. Lera o post sobre cartas de Beethoven e, como admirador das criações do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), tantas vezes presente neste espaço, perguntou-me se o músico escreveu cartas e se elas foram conservadas. Lembrei-me de imediato da correspondência de Oswald mantida com o ilustre organista Furio Franceschini (1880-1976), que resultou numa publicação no Suplemento Cultural de O Estado de São Paulo (ano IV, nº 179. 06/04/1980) e posteriormente no meu livro “Encontros sob Música” (Belém, Cejup, 1990).</p>
<p style="text-align: justify;">Reproduzo o texto integral, que bem testemunha a importância das cartas manuscritas de antanho mantidas entre figuras ilustres que habitualmente preservavam missivas recebidas.</p>
<p style="text-align: justify;">“O ‘Jornal do Comércio’ do Rio de Janeiro de 27 de Junho de 1970 trazia na coluna escrita por Andrade Muricy, crítico e então presidente da Academia Brasileira de Música, dados a respeito do relacionamento musical entre Henrique Oswald e Furio Franceschini: ‘(&#8230;) Entre outras reminiscências pessoais, recordo-me de que H. Oswald, ao honrar-me com a oferta de sua Sonata para órgão (única que possuímos no gênero, ao que eu saiba), declarou-me ter submetido a partitura à revisão do maestro Franceschini no referente à registração, técnica com a qual não estava suficientemente familiarizado&#8230;’</p>
<p style="text-align: justify;">Entre esses dois músicos existiu sempre um respeito mútuo, a admiração musical incontida e o senso de humildade. Na biblioteca extremamente abrangente e estudada de Furio Franceschini fomos encontrar programas e cartas testemunhando uma ligação que merece uma apreciação especial.<strong> </strong>Em quatro apresentações, de 1913 a 1931, a obra de Oswald está inserida em programas que trazem a participação do mestre italiano naturalizado brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;">A correspondência encontrada situa-se entre 1922 e 1931. Ao todo, doze cartas inéditas do compositor brasileiro e rascunhos de Franceschini a Oswald. Fundamental a origem e o finalizar desse relacionamento epistolar a partir da Sonata para órgão mencionada acima por Andrade Muricy. São praticamente seis anos de um longo elaborar. A carta de 1/7/1922 é um agradecimento. Oswald recebeu a Introdução e fuga para órgão de Franceschini e envia os mais sinceros parabéns. Oswald, compositor de música sacra, de câmara, sinfônica e o mais fino criador de músicas para piano no Brasil, percebeu,  ao compor a sua Sonata para órgão em 1925, que um mestre maior do instrumento poderia ajudá-lo. E, com humildade e respeito, tem início esta específica correspondência. Toda ela está escrita em italiano, língua do mestre organista e idioma da mãe e também da esposa de Oswald. Outrossim, o compositor viveu parte de sua vida na Itália.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com1008.Franceschini-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Furio Franceschini. Foto: Fonte Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1008.Franceschini-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">O conteúdo de algumas dessas cartas deve ser mencionado, pois evidencia, num período em que o fervor artístico nacionalista tomava conta do nosso ambiente, permanecerem os dois músicos tranqüilos, cuidando, entre outras tarefas, da prolongada gestação de uma sonata para órgão.</p>
<p style="text-align: justify;">Em carta de 22 de junho de 1925, H. Oswald envia a sonata, possivelmente por intermédio de um portador, e escreve: ‘Fiz o possível para realizar um trabalho digno do senhor. Tê-lo-ia conseguido?&#8230; Não me ocupei da registração, pois desconheço o seu órgão, deixando-a a seu critério, isto naturalmente no caso de a sonata ser do seu agrado. Caso contrário, jogue-a fora, bastando, porém, que me conserve sempre como seu admirador e amigo’.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao receber a sonata, responde o organista, aos 26 de junho do mesmo ano: ‘O belíssimo trabalho organístico é uma nova gema que enriquece a literatura musical do Brasil. De fato, não se sabe o que mais admirar na sonata: se a imponência do primeiro tempo ou a inspiração delicada do segundo; ou ainda a festividade do terceiro, apresentando-se como um bimbalhar de alegria, pois parece querer participar à Humanidade uma boa-nova ou o feliz momento, o estado de ânimo do artista criador.’ Após agradecer comovidamente a obra a si dedicada, continua: ‘Manifesto o temor de que o primeiro afortunado intérprete de sua música não corresponda, por suas próprias forças, às expectativas do compositor. De qualquer forma, farei o possível para aplicar-me ao estudo da sonata com todo o amor que ela merece, confiante na sua indulgência pelas minhas deficiências’. Quase ao final da carta, despojadamente Franceschini declara que iria colher do compositor ‘todas as preciosas indicações que se dignara sugerir para uma exata interpretação’. Esta primeira versão foi logo apresentada, pois em 22 de julho de 1925, H. Oswald enviava um cartão de visitas com pequeno escrito, agradecendo a ‘bela execução em São Paulo’, tendo notícias por meio da crítica e dos musicistas.   <strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">A próxima carta do nosso conhecimento, de Oswald para o mestre organista,  será datada de 14 de maio de 1930. Falava das grandes dificuldades encontradas para a publicação de suas obras vocais e organísticas, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, pois seu filho Alfredo tentara sem sucesso a publicação de uma de suas missas naquele país. Escreve novamente sobre a sonata para órgão, pois certamente ela ainda não o satisfazia: ‘Caro maestro, não apenas o autorizo, mas peço-lhe o favor de proceder a todas as correções que achar oportunas nas minhas composições para órgão e rogo-lhe que as escreva na própria música’. Mostrando, sobre outro ângulo, todo o respeito pelo enorme conhecimento do organista sobre a legislação referente à música litúrgica, continua: ‘Gostaria de lhe enviar a minha Missa de Réquiem para coro a quatro vozes, solicitando-lhe que me diga francamente se atende a todas as exigências do <em>Moto Proprio</em> e se é publicável’. Tratava-se do <em>Moto Proprio</em> de Pio X, de 22 de novembro de 1903, estabelecendo normas sobre a música sacra, ao qual se dá força de lei.</p>
<p style="text-align: justify;">A carta de 22 de maio de 1930 contém três aspectos interessantes: a insistência nas amplas correções solicitadas, a não publicação até então de qualquer outra obra de Oswald para órgão, tomando o compositor a liberdade de pedir ao amigo que interferisse junto a Giamcopol, da Ricordi, para a divulgação delas, e a menção de peças publicadas para órgão de Nepomuceno e Franceschini na mesma edição. <strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;">Observa-se em outra carta de Oswald, datada de 6 de junho de 1930, a dimensão da postura dos dois compositores, irmanados no alto conhecimento musical e ligados à religiosidade e preceitos éticos: ‘(&#8230;) Venho rogar-lhe o prazer de dar a sonata a Giamcopol, com todas as indicações escritas pelo Senhor <em>(com a sua própria caligrafia)</em>, acrescentando no frontispício: <em>edição revista, corrigida e com as registrações</em> de Furio Franceschini. Isto daria à sonata um grande prestígio e uma importância maior, visto que um <em>verdadeiro</em> organista do valor de Furio Franceschini a tomou em consideração e quis perder o seu tempo para dela se ocupar. Isto seria o meu maior desejo. Ser-me-ia concedido?’ As palavras grifadas o foram pelo compositor. O organista não aceitou a recomendação, permitindo que na edição constasse apenas a dedicatória: ‘A Furio Franceschini’. Oswald lamentaria esta recusa.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 20 de setembro de 1930, o compositor menciona ter recebido a carta de Franceschini de 14 de julho. Agradece-lhe ‘(&#8230;) por tudo o que fez por mim e por minha sonata’. Refere-se ao andamento da publicação da obra, prosseguindo: ‘(&#8230;) sou um péssimo revisor (&#8230;) peço-lhe de joelhos que se ocupe pessoalmente, tanto mais que esta sonata, agora, o senhor a conhece muito mais do que eu’. Em dezembro de 1930 o compositor escreve sobre a notícia publicada em ‘O Estado de São Paulo’ a respeito das comemorações do centenário do Padre José Maurício, ocasião em que o organista executou o Prelúdio e fuga para órgão de Oswald. Observa ainda o compositor: ‘Espero em Petrópolis trabalhar mui principalmente música religiosa, porque a música profana (moderna) não a sinto e não a entendo senão superficialmente’. O passar dos anos veio acentuar-lhe este dirigismo religioso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em carta de 22 de Janeiro de 1931, Henrique Oswald pensa reservar um sábado inteiro a fim de escrever a sua composição (Missa de Réquiem) e assim ‘poder seguir todos os seus bons conselhos contidos na carta’.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta revisão não é feita e, na missiva de 25 de Janeiro, após observar os conselhos de Franceschini, cita detalhes, expondo, em pentagramas traçados por ele próprio, trecho de sua <em>Missa de Réquiem.</em> Nesta importante missiva há referências a um engano de colocação do texto latino na composição do ‘Libera me’, conforme certamente Franceschini o prevenira. Esperava fazer correções o mais rapidamente possível, contudo não chegaria a realizá-las. Continua: ‘O senhor me pediu licença para citar em seu livro de Análise Musical quatro compassos de minha Missa. Este favor, porém, é o senhor que me faz e sou eu quem lhe será grato, pois este obséquio que me faz deixa-me orgulhoso’. Esses compassos estão inseridos com comentários no livro de Franceschini <em>Breve Curso de Análise Musical </em>(L.G.Miranda, 2ª Edição, 1934).</p>
<p style="text-align: justify;">Um tom de humor, na carta de 25 de abril de 1931: ‘(&#8230;) ordinariamente os autores são péssimos revisores das próprias composições e entre eles, eu sou o pior’. Continuando: ‘(&#8230;)meu pranteado amigo e professor G. Buonamici havia reservado o encargo das revisões das minhas composições, vindo eu agora, constrangido, pedir ao amigo Furio Franceschini aceitar esta herança de Buonamici’.</p>
<p style="text-align: justify;">Há premonição na carta de 7 de maio de 1931. Nesta última, Oswald mais uma vez agradece toda a colaboração no longo elaborar da sonata, ‘(&#8230;) não me perdoarei jamais de tê-lo levado a corrigir dezenas de sustenidos, bemóis, bequadros etc., coisa que deveria envergonhar-me’. E, como despedida, continua: ‘(&#8230;) e Deus o recompense por todo o bem que me fez, pois, jamais estaria em condições de poder ser tão reconhecido como deveria e quereria (&#8230;) Creia-me sempre eternamente grato”.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma derradeira menção ao relacionamento entre ambos far-se-á por meio de carta da viúva de Oswald em Dezembro de 1931, agradecendo ao mestre organista.</p>
<p style="text-align: justify;">Do manuscrito enviado a Franceschini, datado de 16 de junho de 1925, à  sua publicação pela Ricordi , um mês após a morte de Oswald aos 9 de Junho de 1931, muitas alterações foram feitas. Na correspondência são inúmeras as citações técnicas. Numa carta de 17 de junho de 1929, o mestre organista mostra toda a sua erudição, discorrendo sobre registração, coloridos (dinâmica) e detalhes técnicos da execução. Durante o elaborar da sonata, por duas vezes Franceschini a transcreveu de próprio punho, modificando alguns empregos não muito organísticos e anotando-a profusamente. No exemplar impresso de que se serviu o organista para seus estudos e execuções em público, entre elas as apresentações na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro e na igreja de Santa Ifigênia em São Paulo, há uma enorme quantidade de anotações e alterações de registração.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Biblioteca Furio Franceschini encontramos um “dossier” H. Oswald cuidadosamente conservado pelo organista que, além do manuscrito da sonata para órgão, suas cópias e a  da primeira edição da Ricordi, contém muitos manuscritos inéditos para órgão de Oswald, assim como outras obras do insigne compositor”.</p>
<p style="text-align: justify;">A pesquisa a respeito da sonata para órgão de Henrique Oswald só foi possível mercê das preciosas colaborações de duas saudosas figuras: Maria Isabel Oswald Monteiro, neta de Henrique Oswald, que mantinha precioso acervo documental do avô no Rio de Janeiro, e de Manoel Antônio Vicente Azevedo Franceschini, filho de Furio Franceschini, que esteve ao meu lado durante os estudos das cartas de Oswald recebidas pelo seu pai. Historiava-me sobre aquele período da elaboração da revisão da sonata oswaldiana, da sua apresentação e da recepção crítica da obra em São Paulo, onde vivia.</p>
<p style="text-align: justify;">Não havendo a gravação da sonata para órgão de Henrique Oswald no youtube, insiro do compositor: <em>Tre piccoli pezzi</em> (<em>Prélude, Romance, Impromptu</em>) para piano solo, que gravei na Bélgica para o CD, &#8220;O piano intimista de Henrique Oswald&#8221;, lançado no Brasil pela Academia Brasileira de Música:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0">https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>The correspondence between Henrique Oswald, who had composed a sonata for organ, and the organist Furio Franceschini is interesting because, in addition to music, this ‘dialogue’ of letters reveals the respect, admiration and candour of these two notable masters.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
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