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	<title>José Eduardo Martins</title>
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		<title>Retorno à Terra Paterna</title>
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		<pubDate>Sat, 19 May 2012 03:05:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Lançamento de Álbum de CDs Lopes-Graça Viver interessa mais do que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós alguma coisa de diferente. Agostinho da Silva Nunca fui afeito à matemática e as dificuldades durante os estudos básicos e secundários na matéria foram quase instransponíveis. Contudo, sei realizar as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Lançamento de Álbum de CDs Lopes-Graça</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/284.Portugalmap-big.jpg" target="_blank"><img title="Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/284.Portugalmap-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Viver interessa mais do que ter vivido; </em><br />
<em>e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós </em><br />
<em>alguma coisa de diferente. </em><br />
Agostinho da Silva</p>
<p style="text-align: justify;">Nunca fui afeito à matemática e as dificuldades durante os estudos básicos e secundários na matéria foram quase instransponíveis. Contudo, sei realizar as operações elementares sem uso de quaisquer aparelhos ou tabelas. Os números vão sendo adicionados ou subtraídos à maneira de degraus, multiplicados ou divididos progressiva ou regressivamente. E é o que sei. Na somatória chego à 46ª viagem a Portugal, nunca como turista, mas sempre em atividade musical. Desde os primórdios.</p>
<p style="text-align: justify;">A crise econômica avassaladora que se abate sobre a Europa tem, em alguns países, situações dramáticas, como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália. Incúria administrativa dos governos, relações espúrias com as empresas, são todos ingredientes que deram substância  a essa palavra execrável, corrupção. Os menos favorecidos, desde a antiguidade, sofrem o peso desse Leviatã que sempre sairá ileso das crises, pois mecanismos o Monstro tem, e &#8220;qualitativos&#8221;. Nada a fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">A presente digressão terá vários ingredientes inusitados. Primeiramente, o lançamento do álbum de dois CDs contendo composições inéditas para piano do grande músico português Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Gravei-as em Mullem, na Bélgica Flamenga, em 2010. Será tema do próximo post.  Haverá em meus recitais a apresentação em primeira audição de obras de Eurico Carrapatoso e de João Francisco do Nascimento. Igualmente delas trataremos no momento oportuno. Como fator inusitado, Regina Normanha Martins se apresentará pela primeira vez em Portugal. Minha mulher interpretará obras &#8211; nessa comemoração do ano Portugal-Brasil, mas fora de qualquer amparo ou divulgação oficial &#8211; de Frederico de Freitas (1902-1980), Fructuoso Vianna, Villa-Lobos e Francisco Mignone. Salientemos duas em especial, o delicioso <em> Livro de Maria Frederica</em>, do compositor português, e a magistral <em>Sonata nº 1,</em> de Francisco Mignone. <em>O Livro</em>&#8230; de Frederico de Freitas foi citado pela dileta amiga Idalete Giga quando da <em>tournée</em> de Novembro último, durante o percurso Lisboa-Évora. Em 1982, Humberto D&#8217;Ávila, ilustre crítico musical do &#8220;Diário de Notícias&#8221;, ofereceu-me em Lisboa um exemplar da obra. Estou a me lembrar que estudei o encantador e tão bem escrito <em>Livro de Maria Frederica </em>destinado ao universo infantil. Tentei introduzi-lo nos cursos de piano complementar na USP. Não tive guarida e passei a ensiná-lo isoladamente a muitos alunos que frequentaram minha classe de piano. Imediatamente após as palavras de Idalete pensei em Regina, que durante anos transmitiu a obra a seus alunos da FMU. Portanto, está sendo um prazer estético para Regina apresentar o <em>Livro</em>&#8230; em recital e, de acordo com e-mails recebidos de Portugal, amantes da música aguardam ansiosamente por essa nova leitura.</p>
<p style="text-align: justify;">Se cidades serão visitadas para os recitais, considere-se que terei a oportunidade de realizar <em>master classes </em>na Universidade de Évora, a privilegiar apenas o repertório português, do barroco à contemporaneidade. Um agradável desafio em terras portuguesas, um prazer inaudito de poder &#8220;aconselhar&#8221; jovens pianistas em seu repertório pátrio que eu tanto  admiro. Reiteradas vezes nesse espaço referi-me à qualidade absoluta de alguns compositores de Portugal que, por motivos tantos, não são devidamente divulgados. Sim, há intérpretes excelentes em terras portuguesas que se têm dedicado ao estudo e à execução desse manancial. Todavia, alguns igualmente qualitativos, mas com ampla divulgação no Exterior, basicamente ignoram o que foi escrito em Portugal. É uma triste verdade. Em termos brasileiros, o conhecimento do repertório musical português é nulo. Não diria triste realidade, mas vergonhosa situação.</p>
<p style="text-align: justify;">O contínuo retorno a Portugal, independente de qualquer ação de Governo ou Instituto de Fomento, dá-me a liberdade das escolhas e o descompromisso com a redação de enfadonhos relatórios a serem analisados e arquivados para sempre. Um ex-aluno me perguntou se sofro alguma pressão quanto à montagem de repertórios ou à preparação de palestras ou conferências. A resposta foi negativa. Todas as obras dos dois CDs a serem lançados foram escolhidas pelo intérprete e permaneciam inéditas fonograficamente, exceção à <em>Cosmorama</em>, de Lopes-Graça, gravada em 1967 pelo bom pianista suíço Georges Bernand, mas cuja conservação deteriorou-se com o tempo. Quanto às palestras, têm elas os temas a condizer com a qualidade do público, o interesse por determinado período histórico ou compositor em particular.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda viagem tem ingredientes da expectativa, da surpresa, do desvelamento, da concretude. Creio que o importante é termos a certeza de que a preparação atendeu àquilo que esperam de nossas performances. Nesse quesito, apenas o rigor é salvaguarda. Atravessemos confiantes o Atlântico.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>On my concert-tour in Portugal in May-June 2012, the release  of my double album with works by Fernando Lopes-Graça by PortugalSom, master  classes in Evora and my wife’s Regina Normanha’s first recital in Portugal,  presenting pieces written by Portuguese and Brazilian composers, since 2012 is  the year of Brasil in Portugal.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Coerência de um Grande Músico</title>
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		<pubDate>Sat, 12 May 2012 03:05:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidades]]></category>

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		<description><![CDATA[Entrevistas Antigas com Serge Nigg Em arte, o erro afigura-se tão fecundo como os acertos. É aos ziguezagues que a arte avança. O que num momento se supunha erro vem a revelar-se com frequência um manancial de virtualidades. João José Cochofel De meu grande amigo António Ferreirinho recebi  em Novembro último quando de tournée por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Entrevistas Antigas com Serge Nigg</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/283.Nigg2-big.jpg" target="_blank"><img title="Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/283.Nigg2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Em arte, o erro afigura-se tão fecundo como os acertos. </em><br />
<em>É aos ziguezagues que a arte avança. </em><br />
<em>O que num momento se supunha erro </em><br />
<em>vem a revelar-se com frequência um manancial de virtualidades.</em><br />
João José Cochofel</p>
<p>De meu grande amigo António Ferreirinho recebi  em Novembro último quando de <em>tournée</em> por terras lusíadas, <em>Opiniões com data</em>, de João José Cochofel (1919-1982). O conimbricense Cochofel foi poeta, ensaísta, crítico literário e musical muito respeitado em Portugal. Integrou o movimento neorrealista português e foi ativo organizador e colaborador de revistas e periódicos importantes para a vida cultural de Portugal.</p>
<p><em>Opiniões com data</em>, que integra as obras completas de Cochofel,  estende-se de 1939 a 1954. É possível seguir o desenrolar intelectual do autor no conjunto de seus artigos publicados em Portugal. Mais interessante se torna ao compreendermos a necessidade de Cochofel de interagir bem posteriormente ao preservar os textos originais, mas a fazer comentários analisando a feitura dos escritos. Ferreirinho sabia de meu interesse por tudo o que se refere ao notável compositor e pensador Fernando Lopes-Graça (1906-1994), e João José Cochofel não apenas foi amigo do grande músico,  como autor dos poemas das <em>Cinco canções de &#8220;Os dias Íntimos&#8221;</em> para canto e piano (1950-1966) do compositor nascido em Tomar.</p>
<p>Estando a ler <em>Opiniões com data </em>homeopaticamente entre tantas outras leituras, torna-se revelador o pensamento inteligente, arguto e profético do autor. Certamente João José Cochofel será citado em posts futuros pelos conceitos que emitiu, sempre com raro interesse. Por ora fica a surpresa ao me deparar com interessante entrevista que Cochofel realizou em Paris em 1951 com o ilustre compositor Serge Nigg (1924-2008), que foi tema de um de meus posts do ano passado (vide <em>Serge Nigg &#8220;Captar o Passado, Apreender o Presente, Pressentir o Futuro</em>&#8220;, 04/03/2011). O jovem compositor, que teria escrito pela primeira vez em França, no ano de 1946, uma obra onde utilizou a técnica dodecafônica (<em>Variations pour piano et 10 instruments)</em>, logo se tornou celebridade que não passaria desapercebida para Fernando Lopes-Graça, que o entrevistou em 1947 (<em>Visita aos Músicos Franceses</em>, Seara Nova, 1948), no período em que Serge Nigg surgia como um estímulo para a vanguarda musical em detrimento da música de ampla audiência, isso logo após a Segunda Grande Guerra. A uma das perguntas de Lopes-Graça sobre o possível coadunar dodecafonismo e a tradição musical francesa, Nigg responde: &#8220;Certamente. Não há incompatibilidade entre o dodecafonismo e a tradição musical francesa, antes de mais nada porque não se trata de estética quando se fala de dodecafonia, mas sim de técnica de composição, ao passo que, quando se fala de uma tradição musical (o que é muito vago) tem-se em mente sobretudo o apego a certos conceitos estéticos, frequentemente vazios de sentido&#8221;. Pois bem, por volta de 1950 Serge Nigg rompe com o &#8220;movimento&#8221; que apregoava o dodecafonismo em França. João José Cochofel, ao comentar bem tardiamente outra entrevista de Serge Nigg a ele concedida em Paris no ano de 1951, diz: &#8220;Em nome da generosa miragem da arte para todos, Nigg consentiu no maior sacrifício que a um artista é dado fazer, o sacrifício das suas tendências profundas, ao renegar o dodecafonismo&#8221; e conclui &#8220;De qualquer modo, foi Boulez, seu émulo e opositor, quem triunfou e se tornou conhecido&#8221;.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/283.Nigg3-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/283.Nigg3-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Cochofel, ao procurar Serge Nigg, tinha em mente elucidar várias questões, inclusive a da &#8220;ruptura&#8221; do compositor com a técnica que passava a ter guarida entre os jovens músicos franceses. Escreve que Nigg começava &#8220;a suspeitar da irredutibilidade do esoterismo daquela corrente aos seus ideais humanísticos&#8221;. Prossegue Cochofel: &#8220;E Nigg acaba realmente por abandonar a ortodoxia dodecafônica, levantando grande celeuma nos meios musicais, que fizeram por ignorar a honestidade e a coragem de que deu provas ao procurar novas formas de expressão quando começava a triunfar, e vencendo uma crise inevitavelmente dolorosa de desilusões e renúncias, mas que a sua consciência lhe impunha&#8221;. A uma incisiva pergunta do entrevistador sobre a razão de ter abandonado o dodecafonismo, Serge Nigg, aos 27 anos, responde: &#8220;Por este não levar a coisa nenhuma, destruindo o caráter nacional, fazendo uma música de receita, igual em todos os países, nivelando tudo. Há tempos assisti a um concerto de jovens compositores sul-americanos, mas em vez de encontrar o Brasil, encontrei música escrita em Viena de Áustria&#8230;&#8221;. Em 1965, Cochofel observaria que colocou em <em>Opiniões com Data</em> a entrevista concedida em 1951 por Nigg, apesar de asseverar que se tratava de &#8220;ideias mais alheias do que minhas&#8221;.  João José Cochofel comenta que &#8220;a experiência das duas últimas décadas veio mostrar cruelmente que os experimentalismos eram irreprimíveis e que não se pode travar o desenvolvimento natural da arte&#8230;&#8221;. Contudo, tem consciência de que deve ser combatida a rotina, mesmo em movimento de vanguarda.</p>
<p>As entrevistas pontuais que Fernando Lopes-Graça (1947) e João José Cochofel (1951) fizeram com Serge Nigg, atestando a adesão e a posterior &#8220;rejeição&#8221; ao dodecafonismo &#8211; fatos que ocorreram bem antes dos 30 anos do compositor &#8211; seriam, cinco décadas após, durante o longo depoimento mantido com Gérard Denizeau  (1998-2008) e publicado em 2010 na série <em>Témoignages</em> (nº 3), do Observatoire Musical Français da Université Paris Sorbonne, amplamente ratificadas por Serge Nigg. Vem  demonstrar a profunda coerência do ilustre compositor e pensador francês. Esse substancioso depoimento foi o material temático do post acima mencionado.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/221.Témoignage-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/221.Témoignage-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Seria possível entender que decênios transcorridos, realizações e vicissitudes advindas, assim como a longa maturação do pensar tivessem provocado em Serge Nigg a necessidade de deixar depoimento definitivo já nos estertores da existência. A coerência do compositor difere bem de determinadas autobiografias em que o passado se torna nebuloso ou, mais grave, fantasioso. É a integridade intelectual do depoente que estaria a comprovar a veracidade dos fatos. Apreendida a premissa, o que fica do memorialista íntegro é a condição de autenticidade, o que o tornará partícipe da História.</p>
<p>No extraordinário depoimento, tema do post sobre ele, Serge Nigg considerava que no crepúsculo da vida o músico terá construído seu mundo abstrato, fiel ao que almejou. Confessa ter sofrido &#8220;tentações da fantasia que podem permitir derivações&#8221; e que a inspiração deve nortear o compositor. Ao afirmar que o caminho de um criador é a lógica inevitável, considera, contudo, que há tributo a pagar, sendo este  a &#8220;solidão&#8221;. Não estaria a pensar na longa trajetória e naquele rompimento com o dodecafonismo no início dos anos 50? Que houve marginalização, sabe-se. Todavia, a coerência de Nigg, compondo com a maior competência, sem amarras ideológico-musicais e a confiar na &#8220;inspiração&#8221;, tornaram-no paradigma para tantos nas décadas que se seguiram. Próximo de seu fim existencial faz a autocrítica de seu desligamento do dodecafonismo após o entusiasmo inicial: &#8220;ignorava na época que a &#8216;repetição&#8217; carregava a ornamentação&#8221; referindo-se aos compositores barrocos e clássicos, observando que &#8220;Schöenberg, no fim da vida, compreenderia o caráter desumano de seu método&#8221;. Afirmaria que, naqueles anos pós-guerra, infortunado o músico que não aderisse às novas tendências. Daí a dimensão incomensurável, com todos os tributos pagos posteriormente, de seu desligamento daquela avassaladora vanguarda, mormente quando estava a ser considerado um expoente da técnica dodecafônica em França. Teriam Lopes-Graça e João José Cochofel entrevistado Nigg não fosse ele referência?</p>
<p>Sob outra égide, Serge Nigg mostra-se avesso à obra aberta, aos modismos, à concessão, à proliferação de jovens compositores: &#8220;Quando um Festival especializado anuncia, como exemplo, &#8217;80 criações mundiais&#8217;, tem-se frio na espinha&#8221;. Alérgico à música eletroacústica, exprime: &#8220;Para mim, os sons eletroacústicos são sons mortos, enquanto que nada me parece mais belo que o som do violoncelo, de um oboé ou de um violino&#8230; Sempre fui partidário da música instrumental pura, por gosto e temperamento. A ideia da máquina intrusa e da ciência puramente especulativa na música, expressão a mais profunda do gênio humano, é uma coisa que me aterroriza&#8221;. Ficaria implícita a ideia de novos caminhos trilhados por Nigg, livres da ortodoxia.</p>
<p>O notável compositor Serge Nigg revisitaria o dodecafonismo, sob outra égide, a partir de 1960, &#8220;quando toda aridez, toda sistemática já teriam sido dominadas&#8221; segundo Gérard Dénizeau. O autor de obras que se tornaram referenciais tem suas criações executadas por muitos dos mais importantes intérpretes, assim como por orquestras e conjuntos camerísticos vocais de excelência. As entrevistas realizadas nas fronteiras da segunda metade do século XX por dois pensadores fundamentais da música em Portugal apenas ratificam a grandeza de Serge Nigg e sua corajosa coerência, que perduraria através das décadas.</p>
<p><em>In March 2011 I wrote a post covering  the booklet Témoignages – published by the Sorbonne University &#8211; of the great French composer  Serge Nigg. Now I’ve just read the interviews given by Serge Nigg in 1947 and  1951 to two Portuguese intellectuals: the composer Fernando Lopes-Graça and the  poet João José Cochofel. Both interviewed Nigg in two decisive moments of his  career. <em><span style="font-family: Arial;">In 1946 Nigg was the first composer in  France to write a dodecaphonic work  and in 1951 he was already moving away from the twelve-tone  technique.</span></em> Five decades later, the subject would be resumed by Nigg in his  Témoignages, where he confirmed his uneasiness with the limitations of the  purely abstract technique, proving the consistency of the choices of his youth. </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Poesia para Crianças&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 05 May 2012 03:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[A Síntese no Pensamento de José Paulo Paes O sapo saltou na sopa de um sujeito que sem mais papo deu-lhe um sopapo e gritou: Opa! Não tomo sopa de sapo! José Paulo Paes Tive o privilégio de conviver, durante alguns anos na década de 90, com José Paulo Paes (1926-1998), escritor, crítico, poeta e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A Síntese no Pensamento de José Paulo Paes</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/282.Paes-big.jpg" target="_blank"><img title="Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/282.Paes-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>O sapo saltou na sopa<br />
de um sujeito que sem mais papo<br />
deu-lhe um sopapo e gritou: Opa!<br />
Não tomo sopa de sapo!<br />
</em>José Paulo Paes</p>
<p>Tive o privilégio de conviver, durante alguns anos na década de 90, com José Paulo Paes (1926-1998), escritor, crítico, poeta e tradutor. Integrávamos o Conselho Editorial da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, presidido durante certo período  pelo saudoso crítico, jornalista e editor Nilo Scalzo. Era motivo de imenso prazer conversar com José Paulo Paes. Temas que viajavam da literatura às artes eram abordados, e recebi de suas mãos alguns livros autografados. Daquele Conselho fazia parte, entre outras figuras acadêmicas, o ilustre sociólogo, escritor e amigo José de Souza Martins.</p>
<p>Quando da<em> tournée </em>de Novembro último pelas terras portuguesas ganhei, da expressiva poetisa Violeta Figueiredo, livros cuja temática era a do universo lúdico infantil. Alguns poemas serviram como inspiração para que o excelente compositor português Eurico Carrapatoso criasse as <em>Six histoires d&#8217;enfants pour amuser un artiste</em>, obras apresentadas nos sete recitais realizados (vide YouTube em gravação ao vivo realizada em Évora). Estava, pois, a colocar na estante pertinente dois livros de Violeta Figueiredo quando encontro <em>Poesia para Crianças</em>, de José Paulo Paes (São Paulo, Giordano, 1996), pequeno e substancioso opúsculo do poeta referente a depoimento proferido na V Jornada Nacional de Literatura em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em 1993. O amigo comum Cláudio Giordano teve a feliz ideia de publicá-lo.</p>
<p>O texto é delicioso. José Paulo Paes revela-se sensível, competente, lúdico, confidente, amoroso. A síntese da síntese em poucas e expressivas páginas. Ao expressar elementos de sua &#8220;estratégia&#8221; para atingir o coração e entendimento dos miúdos, o autor demonstra  vocação pela ourivesaria poética. Para José Paulo importa a transmissão de um conceito, mais do que priorizar a feitura da rima e, ela, instaurada, o seu significado transcendente para a compreensão: &#8220;a rima, ou seja, a semelhança dos sons finais entre duas palavras sucessivas, obriga o leitor a voltar atrás na leitura. Esta passa então a ser feita não linha após linha, sempre para a frente, como na prosa, e sim num ir e vir entre o que está adiante e o que ficou atrás. Com isso, dezautomatiza-se a leitura e se direciona a atenção para o conjunto de significado do texto, não apenas para a sequência deles. O que é um convite e uma ajuda à memorização. É muito comum as pessoas que gostam de poesia decorarem seus poemas preferidos&#8221;.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/282.Paes1-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="José Paulo Paes. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/282.Paes1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Casado durante décadas com Dora, José Paulo não teve filhos. Sabia com acuidade incutir na mente de seus dois sobrinhos, quando crianças, conceitos para a reflexão, &#8220;brincadeiras verbais&#8221;, como dizia. Diante de um muro de cemitério, indagou aos pequeninos: &#8220;Sabem o que há aí dentro? Eles faziam que não e eu então explicava: Uma plantação de defuntos&#8221;. Essa técnica levava-os a entenderem o &#8220;ritual gesto da semeadura&#8221;. Da incursão a visar ao aguçamento da mente de uma criança, o poeta partiu para a criação de poemas a elas dedicados, mas nunca perdendo a intenção de provocar o instante do novo, da reflexão &#8220;mirim&#8221;. José Paulo Paes está sempre a fugir da rotina e o inusitado de sua poesia para os miúdos está nessa difícil missão de buscar interligar a realidade com a fantasia. Pura sedução. Não escreveria o poeta que um dos fundamentos da poesia está inerente  em &#8220;mostrar a perene novidade da vida e do mundo&#8221; naquilo que ele propõe como &#8220;estabelecer uma misteriosa unidade cósmica&#8221;?</p>
<p>Entende José Paulo Paes que é mais difícil escrever para crianças, mercê do vocabulário mais restrito e da escolha das referências, compreendendo, contudo, que o prazer dessa criação específica é maior para o poeta.</p>
<p>No substancioso opúsculo, José Paulo Paes insere alguns poemas, explicando a seguir a  proposta, no caso &#8220;Vida de Sapo&#8221;:</p>
<p style="text-align: center;">O sapo cai<br />
num buraco<br />
e sai.</p>
<p style="text-align: center;">Mas noutro buraco<br />
cai.</p>
<p style="text-align: center;">É um buraco<br />
a vida do sapo.<br />
A vida do sapo<br />
é um buraco</p>
<p style="text-align: center;">Buraco pra cá.<br />
Buraco pra lá.<br />
Tanto buraco<br />
enche o sapo.</p>
<p>Lê-se que há a intenção do jogo de palavras, ficando oculta a popular expressão &#8220;encher o saco&#8221;. Portanto, uma brincadeira &#8220;sapo&#8221; e &#8220;saco&#8221;. Sob outra égide, não se descarte a grande admiração de Paes por Carlos Drummond de Andrade.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/282.Crianças-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Crianças do planeta. Desenho de Luca Vitali. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/282.Crianças-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Em outro poema, José Paulo Paes confessa tê-lo escrito a partir de lição apreendida com os pequeninos, simplificar. <em>Metamorfose</em> é um exemplo</p>
<p style="text-align: center;">Um homem<br />
que costumava achar toda gente estúpida<br />
(menos ele próprio)<br />
acordou certa manhã transformado em burro.<br />
Ficou muito triste e durante três<br />
dias não comeu coisa alguma.<br />
Não achava mais gosto em comida de gente<br />
e tinha vergonha de comer<br />
comida de burro<br />
Mas a fome o acabou forçando<br />
a experimentar capim<br />
que ele achou estranhamente saboroso.<br />
Alguns dias mais tarde, já zurrava alegremente.<br />
Passado um mês<br />
puxava carroça pela rua<br />
como a coisa mais natural do mundo.<br />
E quando, muito tempo depois,<br />
ele acordou de novo<br />
transformado em gente<br />
ficou muito triste<br />
e se achou estúpido.</p>
<p>Em <em>Poesia para Crianças</em>, José Paulo Paes ainda discorre sobre uma de suas mais respeitadas atividades, a tradução. Autodidata, conseguiu, com a ajuda de gramáticas, dicionários e, sobretudo, dedicação, ser um tradutor em vários idiomas sem se expressar verbalmente, como bem afirma: &#8220;Gaguejo alguma coisa em inglês, nos restantes, sou pouco mais que mudo&#8221;. Contudo, graças à estrutura de um poema, &#8220;olhos e ouvidos atentos à sonoridade, à forma, aos matizes de significado das palavras, é que consigo compreendê-lo mais a fundo. A tradução é possivelmente a melhor via de acesso à compreensão crítica da literatura em geral e da poesia em particular&#8221;. Confessa que durante décadas chegou a traduzir cerca de cem livros, de ficção, de manuais e tantos mais outros por motivo de ordem econômica. Com amargura observou que nesse longo caminho a remuneração era aviltante, a mesma de um datilógrafo em trabalho menos responsável. Chega a dizer que o tradutor, nessas circunstâncias, é o bóia-fria da inteligência.</p>
<p>Só após a aposentadoria pode realizar  traduções por prazer e bem remuneradas, com direitos autorais. Daí surgiram traduções referenciais de obras de Laurence Sterne, de J.K. Huysmans. Escreve que teve &#8220;a temeridade de enfrentar para poder partilhar com o leitor brasileiro a minha descoberta pessoal da poesia de Pietro Aretino, Konstantinos Kavákis, W.H.Auden, William Carlos Williams, Friedrich Hölderlin, Paladas de Alexandria e numerosos poetas gregos deste século antologiados em Poesia moderna da Grécia e Poetas gregos contemporâneos&#8221;.</p>
<p>José Paulo Paes é referência. Pouco se fala a respeito desse notável intelectual, aliás como ele bem afirmava em 1996, &#8220;nestes tempos de tamanho aviltamento da expressão oral e escrita&#8221;. Mais e mais somos invadidos a todo instante, através dos meios televisivos, radiofônicos e impressos, por um &#8220;besteirol&#8221; inimaginável muitas décadas atrás. O poeta açoriano Hector H. Silva já escrevia em 1992 que os Açores estavam sendo tomados pelo linguajar chulo novelesco procedente do Brasil. Acrescentemos os famigerados programas de auditório, que apenas destroem conceitos éticos e da dignidade, a quantidade de outros tantos, com diferentes intenções profanas ou evangélicas, e o quadro está completo.</p>
<p>Que as mensagens de José Paulo Paes expressas em livros sejam lidas pelas novas gerações para que segmento de nossa história literária não seja esquecida.</p>
<div style="text-align: justify;"><em>On the book Poesia para Crianças (Poetry for Children) written by the  poet,  writer, literary critic and translator José Paulo Paes (1926-1998), whom  I had the privilege of knowing personally in the nineties, when we both were  members of  the editorial board of the University of  São Paulo&#8217;s  Journal of  the Brazilian Studies Institute (Revista do Instituto de Estudos Brasileiros &#8211;  USP).</em></div>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Elucubrações sobre os Esportes</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Apr 2012 03:05:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Realidades Não há homem algum que não possa ser elogiado; às vezes os assassinos têm pontaria excelente; e não existe homem algum que não possa ser censurado; houve santos que não tomavam banho. Agostinho da Silva Tivemos ultimamente uma série emocionante de eventos envolvendo modalidades esportivas. Com a aproximação das Olimpíadas, mais acentuadamente o tema [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Realidades</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/281.Luca1-big.jpg" target="_blank"><img title="Atleta. Charge de Luca Vitali. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/281.Luca1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p><em>Não há homem algum que não possa ser elogiado; </em><br />
<em>às vezes os assassinos têm pontaria excelente; </em><br />
<em>e não existe homem algum que não possa ser censurado; </em><br />
<em>houve santos que não tomavam banho.</em><br />
Agostinho da Silva</p>
<p>Tivemos ultimamente uma série emocionante de eventos envolvendo modalidades esportivas. Com a aproximação das Olimpíadas, mais acentuadamente o tema toma dimensões. Admirador dos esportes em geral, assisti a algumas competições de atletismo nessa preparação final para o grande acontecimento esportivo a cada quatro anos, assim como decisões emocionantes de modalidades coletivas, como as das Ligas masculina e feminina de vôlei. Impressiona o número crescente de público que assiste aos jogos de que participa a  nata do vôlei mundial. Não há mistério, pois quando a qualidade extrapola a normalidade, todos prestigiam. Também a decisão do basquete feminino, apesar de desnível claro em relação ao vôlei,  foi um belo acontecimento e a vitória da equipe de  Americana, bem justa.</p>
<p>As Fórmulas Indy e 1 têm adeptos ferrenhos, se é que podemos considerá-las modalidades esportivas, mas a ausência de brasileiros que possam lutar pelo pódio na F1 diminui o entusiasmo. Não obstante, seria possível entender o crescente apelo pela Indy pelo fato de que alguns brasileiros são muito bons. Quanto ao tênis, nossos jogadores são coadjuvantes de uma ou quiçá duas partidas em torneios internacionais; portanto, longe estão de figurar entre os <em>top ten</em>. Belos tempos de antão, quando Maria Esther Bueno e, mais recentemente, Gustavo Kuerten, o Guga, encantavam multidões. Esperemos que um dia mais um gênio da raquete alegre entusiastas pela bolinha. Como leigo, observo o grande avanço que há anos o vôlei conquistou ao eliminar o segundo saque. No tênis torna-se incompreensivel, hoje, o segundo ou terceiro serviço, o que propicia, por vezes, jogos intermináveis e enfadonhos, pois todo tenista despeja a sua força no primeiro saque, com direito a reconsiderar a jogada se a bolinha bater ou tocar de leve na rede. Entendo como atraso histórico, mormente após a decisão da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) ter eliminado essa verdadeira &#8220;chatice&#8221; do segundo serviço,  tornando os jogos emocionantes. Considere-se o fato de que o tênis longe está de ser esporte do povo entre nós.</p>
<p>Quanto ao futebol pátrio, é lamentável o quadro presente. Estádios com pequeno público, mesmo em jogos importantes,  vedetismos,  extravagâncias de alguns jogadores e, sobretudo, uma deficiente condição de nossos técnicos de futebol. Os mais conhecidos já passaram por muitos clubes. Vão e voltam. Hoje, qual deles teria sequer a condição de receber convite de um grande time europeu? Quando muito Japão, leste da Europa, países árabes&#8230; Técnicos modernos e atualizados têm dado provas no velho continente de que ficou no passado o conceito da primazia de nosso futebol. Meu bom amigo Vital já definia a realidade brasileira: &#8220;técnico é bom quando entra, melhor ainda quando sai&#8221;. Durante anos o Brasil figurou no topo da lista de seleções promovida pela FIFA. Despencou. Não se veem táticas inovadoras, mas chavões em campo, repetições <em>ad nauseam </em>do decantado &#8220;chuveirinho&#8221; e de determinadas jogadas, desinteresse no desarme, erros elementares e abusivos de passes, lentidão, excesso de lances faltosos, verdadeira queda de qualidade futebolística se comparação for feita com o que se pratica na Europa, arbitragens por vezes eivadas de equívocos grosseiros, chaga das torcidas organizadas a afastar o verdadeiro público ordeiro. Para o dirigente de clube, deve ser um martírio observar estádios lotados, campos impecáveis e táticas inovadoras d&#8217;além mar. Como se está a jogar bem na Europa! Que abissal diferença com o futebol praticado na América do Sul e a Libertadores da América é exemplo perfeito do desnível a que chegou o futebol do Continente. Mais e mais encontramos entre nós, graças à televisão, torcedores dos grandes times europeus, pois quem gosta de futebol admira o bom jogo. Está-se a praticar na Europa um futebol rápido, inteligente, com poucos erros de passes, movimentação constante e jogadores realizando várias funções. Estamos, no Brasil, a quase atingir a era dos quelônios, pois é lento, muito lento o futebol praticado no país. Sob outra égide, quando as câmaras focalizam alguns estádios daqui e do continente, pode-se verificar a indigência. Campos sem grama e sem drenagem adequada, arquibancadas velhas e sujas, estrutura geral digna de pena. Em blog bem anterior escrevi que os times do hemisfério sul não teriam o menor fôlego qualitativo para enfrentar, integralmente, determinados campeonatos europeus, e que nosso nível continental estaria à altura da segunda divisão dos países de ponta do velho continente. Realidade  insofismável. Quando talento desponta nos gramados brasileiros, uma enxurrada de empresários  cobiça o jovem e este, imediatamente, passa a sonhar com a Europa.</p>
<p>A Portuguesa de Desportos findou o Campeonato Nacional da série B de 2011 com 17 pontos de vantagem sobre o segundo colocado. Uma façanha, aparência da realidade. Antes do início do Campeonato Estadual, a lusa vendeu seus principais jogadores, enquanto os quatro grandes compraram jogadores de bom nível e até os times menores fizeram contratações. Àquela altura, disse aos meus amigos aposentados, que se encontram todos os dias na mesma esquina, que tinha a convicção plena de que a Portuguesa iria para a série B do Paulistão. Não acreditaram. Sucessivas diretorias não profissionais, dirigentes emotivos, sem preparo para a condução do futebol-empresa, destruíram todas as chances da equipe. Membros da grande colônia portuguesa sempre dirigiram a Associação. Não há o menor profissionalismo, pois todos amadores no mister da direção esportiva. Creio que o técnico é o culpado menor, pois o que fazer diante da incompetência superior? A Portuguesa de tantas tradições foi humilhada e a queda para a segunda divisão do Campeonato Paulista, absolutamente previsível. Também durante o desenrolar da primeira fase do denominado Paulistão disse aos amigos que, para o Campeonato Nacional que terá início brevemente, três equipes deverão cair. Responderam-me que são quatro, ao que retruquei que o quarto já é certo, a Portuguesa. Sob outra égide, como torcedor da lusa, mas felizmente distante do sentimento de paixão, o que me levou a ir ao Estádio do Canindé apenas três vezes desde a inauguração há décadas,  não poderia, seria lógico deduzir, verter emoção por equipe que, desde o saudoso Oswaldo Teixeira Duarte, é dirigida por não profissionais. Meu irmão João Carlos, Vital Vieira Curto e tantos outros, ainda apaixonados pela lusa, convidam-me frequentemente, mas sempre declino. Defendo há muito tempo que, devido ao número ínfimo de torcedores e ao amadorismo das sucessivas direções, deveriam extinguir o futebol profissional ou fundi-lo com qualquer outra agremiação, como fizeram no Estado do Paraná, com certo êxito.  Seria um bem incomensurável para o Esporte. Há tantas outras modalidades a que a Associação Portuguesa de Desportos poderia dedicar-se! Seria mais digno, creio eu. A vaidade diretiva permitiria? A paixão exacerbada de uns poucos torcedores concordaria? Acredito que não, e as sucessivas humilhações deverão continuar, para nostalgia dos saudosistas e aborrecimento para os que ainda confiam.</p>
<p><em>This post is about sports in Brazil. As a fan  of sports events, I can only regret the situation when compared to that of other  countries. Apart from volleyball, that has had many achievements in the last  decades and enjoys rising popularity, and the women’s national basketball team  that also improved a lot, everything else is decadent. In Formula One, for years  we have not seen drivers that can level with the notable ones of the past; in  tennis tournaments the country is merely a bad supporting actor, with  uncompetitive players. But it is in football, the national passion, that decline  is at its peak. With stadiums in shameful conditions, shrinking audience,  2<sup>nd</sup> rate coaches, low level performances and the “prima donna” status  of some players, the once almost unbeatable Brazilian squad is a shadow of what  it used to be. The opposite is seen in Europe: first class soccer stadiums without  empty seats and top players that really give a show: precise attack, possession  of the ball, passing it around with accuracy in quick touches, runs and speed,  technique and tactics. It is football at its best, while our football today  could be compared to that of the 2<sup>nd</sup> Division of some European  countries. We should learn from them!</em></p>
<p><em><span style="font-family: Arial; font-size: x-small;"> </span></em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Espírito Livre&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Apr 2012 03:50:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Caminhos do Eterno Desafio Quando escalo uma montanha me sinto mais próximo de Deus. Vitor Negrete Vitor me avisou que não tinha medo da morte. Ficava triste por ser filho único justamente por causa disso: se ele morresse, o que aceitava como natural dado o esporte que praticava e seu grau de envolvimento com ele, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Caminhos do Eterno Desafio</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/280.Negrete-big.jpg" target="_blank"><img title="Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/280.Negrete-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p><em>Quando escalo uma montanha </em><br />
<em>me sinto mais próximo de Deus.</em><br />
Vitor Negrete</p>
<p><em>Vitor me avisou que não tinha medo da morte.</em><br />
<em>Ficava triste por ser filho único justamente por causa disso: </em><br />
<em>se ele morresse, o que aceitava como natural </em><br />
<em>dado o esporte que praticava e seu grau de envolvimento com ele, </em><br />
<em>causaria muita tristeza aos seus pais.</em><br />
Marina Soler Jorge</p>
<p>Continua desde a adolescência meu fascínio pelos intrépidos aventureiros que neste planeta deparam-se com os mais difíceis desafios no mar, na terra e no ar. A ideia que leva à concretização de feitos heróicos por parte dessa parcela infinitesimal de visionários teria origem em exemplos familiares, reais, literários ou, presentemente, através da multiplicidade de documentários estimulantes. O homem a buscar seus limites físico-mentais. Desde o livro que meus pais me ofereceram nos meus 10 anos (Wilhelm Treue. A Conquista da Terra, Rio de Janeiro, Globo, 1945), o tema da aventura passou a ser recorrente e, desde então, em períodos especiais, não deixo de me &#8220;aventurar&#8221; nessas histórias vividas por tantos corajosos sonhadores, muitas vencedoras, outras trágicas. É também uma maneira de intermediar outras leituras de minha área, e esses interregnos sempre foram prazerosos.</p>
<p>Escrevi  diversos  posts sobre tentativas e conquistas na cadeia montanhosa do Himalaia, desde a heróica e trágica missão de George Mallory e Andrew Irvine (1924) ao buscarem o cume do Everest à chegada de Edmund Hillary e Tensay Norgay (1953), assim como outros êxitos e infortúnios. Contam-se às muitas dezenas aqueles que deixaram a vida indo ao encontro dessas moradas dos deuses. Em termos brasileiros, dediquei um post a Waldemar Nicklevicz que, tendo atingido mais de uma vez o Everest, conseguiu subir ao topo do K2, possivelmente a mais temida montanha do planeta. Minha filha Maria Beatriz, sabedora de meu encanto pela leitura das narrativas dramáticas nas montanhas, entre as quais a de Maurice Herzog (Annapurna, São Paulo, Companhia das Letras 2001), Jon Krakauer (No Ar Rarefeito, São Paulo, Companhia das Letras, 2002), Thomaz Brandolin, (Everest: Viagem à Montanha Abençoada, Floresta, L&amp;PM, 2002) e outros tantos relatos, presenteou-me há alguns anos com livro que me interessava, a história de Vitor Negrete, excepcional esportista voltado às aventuras desafiadoras. Somente nessas últimas semanas tive o imenso prazer de ler <em>Espírito Livre &#8211; Da Transamazônica ao Everest</em>, escrito por sua esposa, Marina Soler Jorge (São Paulo, Editora Três, 2008).</p>
<p>Vitor Negrete é o exemplo típico do herói idealizado desde a antiguidade. Sua vida justificou plenamente, através da aventura com riscos acentuados e da ação generosa como homem, a figura do herói cujo destino já estaria traçado. A leitura de <em>Espírito Livre</em>, apesar do relato não desprovido de intensa emoção da autora, revela Vitor Negrete nas mais variadas atividades. Ei-lo  realizando com dois amigos a travessia da Transamazônica de bicicleta; a participar da Ecomotion Pro na Costa do Dendê; disputando o Mundial de corrida de aventura na Nova Zelândia, assim como em tantos outros desafios. Como bem assinala Marina Soler, &#8221; a escalada era apenas uma das paixões de Vitor Negrete&#8221;.</p>
<p>A vida do grande montanhista Vitor Negrete, paradigma para tantos esportistas que buscam na aventura a motivação maior, poderia ficar circunscrita à própria atividade desafiadora. Contudo, o que tornou singular a sua existência extrapolou as altitudes e direcionou-se às ações humanitárias relevantes, entre as quais o projeto pela preservação digna dos quilombolas no Vale do Ribeira. No relato de Marina não faltam alusões à generosidade do esportista de absoluta vocação, que entendia &#8220;involuntariamente&#8221; sua passagem pelo planeta como um maravilhamento, pois tudo que o cercava ganhava a aura fraterna. Amizades, projetos, sonhos pareceriam ser acalentados por Vitor Negrete como algo natural, sem traumas possíveis.</p>
<p>A atividade como montanhista foi notável. As diversas subidas a outros picos ficariam minimizadas pela relação que teve com duas das mais temidas montanhas: Aconcágua (6959m) e Everest (8848m). Escalou o mais alto cume das Américas, ascendendo-o pelo maior número de vias, sendo que a mais perigosa delas, a Face Sul, juntamente com seu amigo de tantas aventuras, o também notável Rodrigo Raineri. O relato de Marina Soler não deixa dúvidas quanto às difíceis condições enfrentradas. Em um dos paredões da Face Sul encontraria os corpos de alpinistas brasileiros que pereceram após avalanche&#8230;. Igualmente guiou Ana Elisa Boscarioli em sua primeira tentativa ao cume do Aconcágua e dessa experiência a montanhista, que atingiria posteriormente tantos outros cumes, inclusive o Everest, não se esqueceria.</p>
<p>Se o relato de Marina Soler menciona as duas subidas ao teto do planeta, em 2005 e 2006, a primeira com tubos de oxigênio e a segunda a pleno pulmões, o encontro da morte durante a descida, aos 19 de Maio de 2006, bem evidencia esse &#8220;namoro&#8221;, consciente ou não, com o trágico, ingrediente característico de tantos heróis.</p>
<p>Vitor Negrete, ao atingir o topo do Everest, deixaria gravado em vídeo depoimentos pungentes. Algumas de suas frases: &#8220;Eu tô no ponto mais alto do planeta&#8230; Eu acabo de me tornar o primeiro brasileiro a pisar neste lugar sem utilizar oxigênio suplementar sem a ajuda de sherpa neste dia da escalada. Eu escalei sozinho, e foi animal. É muito difícil. Eu tô muito, muito cansado. Inclusive eu preciso descer logo, mas eu queria dedicar esta escalada ao Rodrigo Raineri, meu parceiro&#8230; Hoje o clima tá ruim, tá ventando e é prudente eu sair daqui logo porque mais de 80% dos acidentes ocorrem na descida. Hoje, enquanto eu subia, eu vi vários corpos desta temporada&#8230; Aí Caco (amigo dileto)! Consegui mais uma vez cara! &#8230; Então eu subi aqui, cara, esta montanha, muito por você, pela Marina, pelos meus filhos&#8221;.</p>
<p>Na descida, Vitor Negrete encontraria a morte. Pareceria estar contrário ao <em>mors certa hora incerta</em>. Seu companheiro Raineri escreve: &#8220;Dawa encontrou o Vitor a 8.500 metros, debilitado, com dor no peito, sem as luvas e bastante confuso. Começou a descer, mas estava difícil carregá-lo. Então Dawa acionou Pechumbi, nosso outro sherpa que havia subido do ABC para o acampamento 3 para tentar ajudar. Os dois conseguiram chegar com o Vitor na barraca do 3 à meia noite do dia 18 e continuaram a tentar reanimá-lo, hidratando-o com suco morno, que ele conseguiu beber, e ministrando oxigênio. Porém, ele não resistiu e, às duas horas da madrugada do dia 19 de maio (horário do Nepal), Vitor faleceu&#8221;. O pungente depoimento de Raineri ratifica o sentido épico da tragédia. O que o fez ascender as últimas dezenas de metros, solitário e sem tubos de oxigênio, verdadeira temeridade? A leitura do inconsciente será sempre um mistério. Tantos sinais a apontarem  cautela, entre eles o roubo de equipamentos e mantimentos seus e de Raineri da barraca dos alpinistas nesse caminho em direção ao topo, já não seriam suficientes para abortar a investida? A intrepidez fê-lo não desistir. Todos os riscos estavam traçados, faltando apenas a possibilidade da infausta estatística aumentar. Disso Negrete tinha consciência, mas a vontade de ser o primeiro brasileiro a subir ao cume do Everest sem tubo de oxigênio falou mais alto do que o teto do planeta. Atingiu o objetivo, mas o Poder Maior veio buscá-lo.  Em <em>Espírito Livre</em>, os depoimentos finais dos pais de Vitor Negrete, Roma Pytowski e Sílvio Negrete, não seriam a certeza de que o filho cumpriu uma missão, a dimensionar em plano transcendente as inéditas escaladas? São palavras simples, despojadas, que retratam Vitor na essencialidade dos escolhidos.</p>
<p>Tantos sucumbiram na escalada rumo ao Everest, mormente na descida. Contudo, permanecem na memória os poucos que pereceram como ato inédito. Vitor Negrete será sempre lembrado, e sua morte redentora após missão cumprida é o símbolo do heroísmo autêntico, imaculado. A pedido dos familiares e amigos, os sherpas cobriram seu corpo com  pedras. Permanece nas alturas. Fim supremo para um herói das montanhas.</p>
<p><em>This post is about the book Espírito Livre (Free Spirit), written by Marina Soler, wife of Vitor Negrete, the Brazilian mountain climber who died on the Everest in 2006. The book tells us about some of his adventures: reaching the top of Mount Aconcagua, the highest peak in South America; summiting the Everest twice; crossing the Trans-Amazonian highway on a bicycle, competing in the Adventure Racing World Championship in New Zealand. As Marina puts it, “climbing was just one of Vitor Negrete’s passions”. In 2006 he reached the summit of Everest without supplementary oxygen, but could not make his way down and died on 19 May at Camp 3. The book is the story of a man endowed with great courage and a generous heart, a hero for his special achievements.</em></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Escola Pianística do Professor José Kliass</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2012/04/14/escola-pianistica-do-professor-jose-kliass/</link>
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		<pubDate>Sat, 14 Apr 2012 03:05:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando uma Foto Traz Reminiscências Ser mestre não é de modo algum um emprego e a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juizo final, não é a ideia que fazem dele os homens do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quando uma Foto Traz Reminiscências</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/279.kliass-classe-big.jpg"><img title="Escola Pianística do Professor José Kliass - Clique para ampliar" src="http://www.joseeduardomartins.com/279.kliass-classe-small.jpg" alt="" width="320" height="209" /></a></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p><em>Ser mestre não é de modo algum um emprego </em><br />
<em>e a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; </em><br />
<em>ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; </em><br />
<em>e o que importa, no seu juizo final, </em><br />
<em>não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; </em><br />
<em>o que verdadeiramente há-de pesar na balança </em><br />
<em>é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.</em></p>
<p><em>O professor deve sempre aparecer ao seu discípulo </em><br />
<em>como uma pessoa de cultura perfeita; </em><br />
<em>por cultura perfeita entenderemos tudo o que pode contribuir </em><br />
<em>para lhe dar uma base moral inabalável, </em><br />
<em>sem subserviências nem compromissos.</em><br />
Agostinho da Silva</p>
<p>Estava a folhear velho álbum que não era visitado há décadas, quando me surpreendo ao ver uma foto tirada <em>circa</em> 1956 por meu saudoso pai. Nela estão alunos e ex-alunos do insigne professor de piano José Kliass.</p>
<p>Nascido na Rússia e de origem judaica, José Kliass (1895-1970) estudou em seu país e mais tarde no Stern&#8217;s Conservatório, em Berlim, com o extraordinário professor Martin Krause, que foi discípulo e secretário particular de Franz Liszt. A reputação de Krause era enorme e com ele estudaram, entre outros, Edwin Fischer e Claudio Arrau. Após Berlin, estudou curto período em Paris, antes de radicar-se definitivamente no Brasil após a Iª Grande Guerra.  Tendo-se fixado em São Paulo, Kliass apresentou-se inúmeras vezes como pianista, decidindo-se posteriormente pela didática. Tardiamente, foi professor convidado por certo período na Brigham Young University, nos Estados Unidos.</p>
<p>Se considerada for a lista de seus alunos que tiveram brilhantes carreiras, acredito não ter havido nenhum professor dessa dimensão em nosso país. Sereno, tranquilo, José Kliass era um mestre de profunda cultura humanística, poliglota, tendo desenvolvido uma técnica própria que transmitiu a gerações de alunos. Desse seu método de ensino poderia apontar a preocupação com a forma, estilo e sonoridade; o estudo do legato e da substituição dos dedos sobre uma mesma nota; do peso, cuja origem se localiza nos omoplatas e que desliza pelo braço, ante-braço, mãos, a finalizar na ponta dos dedos, ou seja, toda a estrutura corpórea superior como fator decisivo para a sonoridade plena a preencher os espaços; das gradações do pedal. Importava-lhe o resultado sonoro, a partir, seria lógico entender, da prévia preparação técnico-digital. Recordo-me que as primeiras aulas que tive com o grande mestre, aos 14 anos, foram centralizadas unicamente no relaxamento muscular. Quando sentiu em mim a ausência de qualquer contração, colocou-me diante do teclado, a dizer: &#8220;Agora vamos entrar no universo sonoro&#8221;, frase que compreenderia com o passar dos anos. Quando menciono ter sido José ou Joseph Kliass aquele que teve sob sua tutela o maior número de notáveis pianistas que desenvolveram carreiras consistentes, não estou a negligenciar nomes importantes da didática pianística, a começar pelo ilustre Luigi Chiafarelli (1856-1923), mestre de Antonieta Rudge (1885-1974), Guiomar Novaes (1894-1979)  e Souza Lima (1898-1982). Teve o Brasil, no eixo São Paulo-Rio de Janeiro, professores da maior competência, que souberam edificar um sólido conceito através de alunos que se tornaram pianistas consagrados. Contudo, o que chama a atenção é essa quantidade-qualidade de pianistas  orientados por José Kliass através das gerações. Citaria: Bernardo Segall (1911-1993), Estelinha Epstein (1914-1980), Yara Bernette (1920-2002), Anna Stella Schic (1925-2009), Belkiss Carneiro de Mendonça (1928-2005), Lídia Simões, Isabel Mourão, Mercês da Silva Telles, Ney Salgado, Jocy de Oliveira, Glacy Antunes de Oliveira&#8230; Pianistas e outros músicos foram aconselhados pelo grande mestre. Meu irmão João Carlos e eu estivemos durante seis anos sob sua tutela pianística.</p>
<p>A cada ano sofremos mais acentuadamente o impacto da mídia. O fato de José Kliass não ter jamais se preocupado com a divulgação de seu nome, que espontaneamente era conhecido por todos os músicos respeitados do país, fez com que o tempo se ocupasse de ocultar a extraordinária contribuição por ele prestada ao ensino do piano no Brasil.</p>
<p>Lembro-me que a intensa relação que mantinha com os maiores pianistas e outros músicos da época tornava quase que &#8220;obrigatória&#8221; a presença deles em recepções que José Kliass promovia quando das tournées desses artistas pelo Brasil. Foi em casa do mestre que pudemos conhecer pessoalmente Claudio Arrau, Walter Gieseking, Wilhelm Backhaus, Arthur Rubinstein e tantos outros nomes referenciais da arte do piano, assim como regentes, cantores, violinistas, compositores. Villa-Lobos, Christian Ferraz, Gerard Sousay, Edouard van Remortel são alguns nomes que me vêm à mente.</p>
<p>As audições que promovia em sua residência ou em casas de alguns mecenas da música em São Paulo eram muito concorridas. Sempre apresentava o discípulo e tecia algumas considerações sobre as obras que seriam interpretadas.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/279.kliass-jem-big.jpg"><img class="aligncenter" title="J.E.M. e José Kliass, 1955 - Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/279.kliass-jem-small.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a></p>
<p>Recordo-me de que inúmeras vezes, após a aula, quando pela manhã, o professor e sua esposa Lídia me convidaram para almoços informais, momentos raros em que o aluno só fazia perguntas sobre música e o mestre serenamente respondia. Quantos não foram os livros que o professor Kliass me emprestou para que, após a leitura, fizesse uma série de perguntas? Teria sido desse período minha inclinação pela pesquisa e pelas obras pouco ventiladas, pois, se estudei tantas criações consagradas, quantas não foram as composições que aprenderia de autores não frequentados a partir do entusiasmo do mestre?</p>
<p>Foi, assim, um prazer rever essa antiga foto tirada na residência do Prof. José Kliass após uma das concorridas audições de piano que se realizavam, geralmente, todos os meses. A leitura dessa imagem, tirada há mais de meio século, dá a medida dessa afluência competente. Alunos e ex-alunos do mestre lá estão presentes. Ao fundo podemos notar, à esquerda, Ney Salgado, e à direita, o compositor recentemente falecido, Osvaldo Lacerda. Bem ao centro, da esquerda para a direita, Lídia Kliass, Lídia Simões, Yara Bernette, Odette Faria, Jocy de Oliveira, Clara Sverner. No primeiro plano, eu e meu irmão, Pietro Maranca e Marina Brandão. A segunda foto é do início de 1955, após meu recital em Teresópolis, no Estado do Rio de Janeiro.</p>
<p>Se as denominadas Escolas de Piano deixaram de ter no Brasil a aura que mestres reverenciados e competentes de outrora conseguiram conquistar em contexto sócio-cultural totalmente outro, mais ainda a figura de José Kliass se apresenta de maneira insofismável. Sob aspecto outro, a própria aura do pianista virtuose perderia o brilho. Impensável hoje o presente que o grande pianista francês Alfred Cortot (1877-1962) ganhou da Imperatriz do Japão em 1952, a ilha Cortoshima (em japonês, Cortot significa &#8220;solitário na illha do sonho&#8221;). Não há mais tapetes vermelhos a esperarem os intérpretes nos portos. Homogeneizou-se a carreira de pianista, pois hoje são incontáveis os que percorrem o planeta, tantos deles oriundos do Extremo-Oriente e quase todos egressos de concursos que possibilitam breves holofotes a tantos virtuoses, luzes essa dirigidas a cada ano a novos vencedores dos incontáveis concursos internacionais de piano. Executam majoritariamente as mesmas obras conhecidas do Sistema, obedecendo<em> in totum </em>o que fazem os pianistas já estabelecidos na carreira. Pouco a fazer! Mas o piano mantém um depositário repertorial que o torna único entre todos os instrumentos. Repertório conhecido ou oculto. Buscar a sua expansão deveria ser propósito, não imposição. Um manancial generoso está à espera de intérpretes que queiram trilhar essa senda mágica. A vontade como salvaguarda.</p>
<p><em><span style="font-family: Arial;">This post is a tribute to José Kliass, the Russian-born Jew who studied with Martin Krause, a pupil of Franz Liszt. Settling in São Paulo after the First World War, he had a very important school of piano and formed a legion of successful pianists. My brother and I studied with him for six years. Through Kliass’ links with outstanding masters throughout the world, his students had the chance to meet at the receptions held at his home in São Paulo names like Claudio Arrau, Walter Gieseking, Arthur Rubinstein, Villa-Lobos, Christian Ferraz, Gérard Sousay, Edouard van Remoortel, among others. Reserved, averse to the limelight, his exceptional contribution to piano teaching in Brazil has been neglected and his name almost forgotten.</span></em></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Renovação Repertorial</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2012/04/07/renovacao-repertorial/</link>
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		<pubDate>Sat, 07 Apr 2012 03:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Tema Recorrente Biblioteca é um silêncio cheio de vozes que se libertam e nos envolvem sempre que abrimos as páginas de um livro. Retornar às categorias repertoriais fez-se necessário após instigantes frases em um dos últimos e-mails do compositor  e pensador François Servenière. Nossa correspondência sobre os temas mais variados atingirá, brevemente, as cinco centenas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Tema Recorrente</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/278.Niquel-big.jpg" target="_blank"><img title="Níquel. Óleo sobre tela de Luca Vitali. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/278.Niquel-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span><em>Biblioteca é um silêncio cheio de vozes </em><br />
<em>que se libertam e nos envolvem</em><br />
<em>sempre que abrimos as páginas de um livro.</em></p>
<p>Retornar às categorias repertoriais fez-se necessário após instigantes frases em um dos últimos e-mails do compositor  e pensador François Servenière. Nossa correspondência sobre os temas mais variados atingirá, brevemente, as cinco centenas de páginas!!! Comentários de obras musicais, interpretações, leituras, situação política, cotidiano. Um músico que tem o olhar multidirecionado.</p>
<p>Escrevia eu a respeito dessa necessidade interior de buscar o novo, não desprezando jamais o passado. Numa comparação metafórica, comentara que a repetição repertorial por parte de um intérprete pode ser equiparada à consulta repetitiva aos mesmos livros em uma biblioteca. Sendo esta a extensão de parte fundamental do que foi escrito, voltar-se durante toda a existência às obras sedimentadas nas primeiras quatro ou cinco décadas poderia representar uma estagnação do pensar. É lógico que essa visão crítica entende que tantos são os fatores que induzem o intérprete a ter de repetir <em>ad infinitum </em>o repertório solidificado: Sistema, acomodação, excesso de apresentações, atendimento ao grande público já preso ao tradicional, empresários, sobrevivência&#8230; A busca direcionada ao novo tem lá suas &#8220;regras&#8221; e o inusitado pelo inusitado pode resultar, tantas vezes, numa grande decepção, pois quantas não são as obras que, sepultadas, assim deveriam permanecer <em>ad aeternum</em>.</p>
<p>Escreve-me Servenière, a observar : &#8220;agradeço-lhe ter-me citado em um dos posts sobre a necessidade do viajante, tanto em corpo como em espírito. Creio que essa curiosidade insaciável, que o faz aumentar seu repertório sem cessar, ano a ano, é da mesma ordem que a necessidade do compositor ao criar sempre obras novas, como a do arquiteto em querer sentir  novo projeto, tão logo um finalizado. Você tem razão ao dizer que os intérpretes que não aumentam seu capital repertorial dirigem-se à facilidade, tantas vezes por motivos  relacionados à carreira e às mídias. É tão mais tranquilo e vendável executar &#8216;N&#8217; vezes as obras musicais estandardizadas!&#8221;.</p>
<p>Retorno à biblioteca, pois a alusão teve guarida. Ao comentar com o amigo Fábio, disse-me ele que costuma frequentar bibliotecas e fica impressionado com a diversidade. &#8220;Quantas vidas para conhecer uma ínfima parte!&#8221;, comentou. Nada mais exato. Voltar-se aos clássicos da literatura ou das tantas áreas do conhecimento é imprescindível, mas há que se abrir os horizontes. Não por acaso a epígrafe deste post foi colocada. Tirada da capa de rosto de pequena publicação da Universidade do Minho, referente à magnífica Biblioteca Pública de Braga, a exibir, entre outras raridades, cerca de 400 obras do século XVI, contém a frase profunda sabedoria. Quando o ilustre amigo e arquiteto António Menéres, em post bem anterior,  refere-se à nossa lembrança e intimidade com o livro já lido, não elimina, antes consolida, sua enorme curiosidade de conhecer novas páginas em outros compêndios. Escreve: &#8220;Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir advinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para facilitar outros e novos convívios&#8221;. Considere-se que esse retorno não representa o cotidiano, pois esse maravilhamento vem desse &#8220;sempre que posso&#8230;&#8221; Em termos musicais, a repetição repertorial deixa de ser esse sempre que posso, para se transformar na rotina, mesmo que as obras insistentemente tocadas pertençam, a depender de cada intérprete, a um vasto catálogo aprendido e assimilado décadas atrás. O problema não estaria na quantidade de composições, mas no ato da não renovação.</p>
<p>Livro e partitura são gêmeos e pertencem ao inefável universo do conhecimento. A constante renovação, sem que se percam as amarras com acervo adquirido, tem um componente de aventura. Buscá-la significaria desvelar criações que estarão a propiciar uma infinidade de outras aventuras mentais: o porquê dessa obra ignota ter tão grande importância; os caminhos do compositor para chegar a determinado inusitado escritural; a relação do autor com coetâneos que tiveram a ventura da divulgação. O que pode ocorrer de mágico é, por vezes, depararmo-nos com verdadeiras obras primas. E elas existem. São tantas as ainda desconhecidas! Sob aspecto outro, quantas não são as criações que estão a surgir, sempre. No caso do contemporâneo, quão não são também os compositores panfletários que se auto ungem como &#8220;profetas&#8221; e que têm obras &#8220;aclamadas&#8221; por contingente infinitesimal de acólitos, que por vezes beiram o ridículo? Mormente no &#8220;universo&#8221; eletroacústico, quantidade incomensurável de obras subvencionadas por entidades as mais diversas tiveram uma única apresentação, quiçá umas pouquíssimas, antes de mergulharem em gretas abissais e lá esquecidas, até voluntariamente, por seus autores?</p>
<p>Continuo com minhas elucubrações, mormente pelo fato de estar a estudar uma significativa criação do ilustre compositor português Eurico Carrapatoso. Escreveu ele ultimamente uma <em>Missa sem Palavras </em>(<em>cinco estudos litúrgicos para piano</em>) para o meu já extenso caderno de Estudos Contemporâneos, iniciado em 1985. Dedicada <em>In Memoriam </em>a seu progenitor, que estaria a completar o centenário, a obra, com duração aproximada de 20 minutos, encanta-me. Há segmentos onde plana verdadeira magia criativa. A sua estréia se dará em Évora aos 2 de Junho, no belíssimo convento Nª Senhora dos Remédios, sob o patrocínio do Eborae Musica. Ainda teremos muito a falar dessa Missa.</p>
<p>Passado e presente. A incrível missão de um intérprete, verdadeira dádiva, é poder, durante a existência, navegar por mares conhecidos, mas sempre a sonhar com o que pode existir além da linha do horizonte.</p>
<p><em>Going back to the subject of performers that play the same repertoire over and over again, depriving audiences of a new and unique musical experience, I believe it is rather healthy – for the growth of both performers and public –  to promote new masters instead of offering the same alternatives year in, year out.</em></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A Inacreditável Realidade</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Mar 2012 03:05:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Todos Assistem e Nada Acontece Falta-nos a voz com que protestar. Almeida Firmino Quantos não foram os posts em que me posicionei  em relação às incomensuráveis distorções a que diariamente assistimos no Brasil, sem que nada, mas rigorosamente nada, aconteça. Ultimamente, membros do Congresso brasileiro defendiam acaloradamente salários extras, 14º e 15º, não considerando, frise-se, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Todos Assistem e Nada Acontece</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/277.selo-big.jpg" target="_blank"><img title="A Constatação. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/277.selo-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Falta-nos a voz com que protestar.</em><br />
Almeida Firmino</p>
<p>Quantos não foram os posts em que me posicionei  em relação às incomensuráveis distorções a que diariamente assistimos no Brasil, sem que nada, mas rigorosamente nada, aconteça. Ultimamente, membros do Congresso brasileiro defendiam acaloradamente salários extras, 14º e 15º, não considerando, frise-se, que há Assembléia Legislativa de um dos Estados da Federação que recebe além. Em outro debate temático, para arrasar quaisquer considerações relativas à moralidade, senador com mais de 60 assessores (sic) defendia com veemência parlamentar essa &#8220;naturalidade&#8221;. Os Três Poderes estão repletos de exemplos de distorção. Inchados, pagam altos salários para batalhão de não concursados e altíssimos outros a funcionários que sabem, através da interpretação de leis e regulamentos, obter privilégios que os levam a alturas salariais estupidamente elevadas. Jornais, rádio, televisão, internet denunciam esses horrores e nada, mas nada, acontece. Perdemos no Brasil as forças interiores para reagir. Quando se fala em reunir o povo para manifestações contra essa chagas que corroem o país, como a <em>mater </em>corrupção, a burocracia excessiva, a máquina política egocentrada nesse &#8220;nirvana&#8221; denominado Poder  pouquíssimos comparecem, diferentemente das aglomerações evangélicas, paradas gays e outras mais que atravancam o trânsito já caótico da cidade.</p>
<p>A mídia já cansou de mostrar os preços dos carros no Brasil e no Exterior. É chocante a diferença. O governo arrecada uma &#8220;dinheirama&#8221; da produção automotiva e as montadoras silenciam quanto aos até escorchantes lucros que obtêm no país. Os preços de restaurantes médios estão muitíssimo acima dos de grande categoria na Europa, o índice MacDonald&#8217;s evidencia o Big Mac bem superior ao que é cobrado no Exterior, o preço da Ponte Aérea São Paulo-Rio é verdadeiro assalto, os bancos têm lucros absurdos, os serviços nas cidades brasileiras estão cada vez mais elevados, os preços das grandes redes de supermercados são alvo de reclamações generalizadas, a telefonia no país é caríssima, os impostos aferidos pelo Estado batendo recordes sobre recordes. Em tantos segmentos, a voz das ruas, roucas, mas audíveis, são &#8220;escutadas&#8221; pelos que caminham pela cidade. Na feira-livre, essa voz acaba por ser uníssona e os preços dos produtos comentados pelos que a frequentam e pelos laboriosos feirantes.</p>
<p>Esperava um exemplo típico para escrever este post. Recebi da França um pacote com revistas e um livro sobre música, <em>livres et brochures</em>. O amigo enviou-me a encomenda no dia 13 de Março às 12h. A entrega deu-se no dia 19, ou seja, no quinto dia útil. O preço pago pelo remetente para essa entrega especial EUR$ 5,49, corresponde aproximadamente a R$ 13,20. A primeira impressão foi de choque, pois estou habituado a enviar livros e revistas para amigos do Exterior e sempre considerei elevadíssimas as quantias pagas. Mesmo um livro enviado para uma cidade próxima como Rio de Janeiro e com peso bem inferior custou-me praticamente o dobro para o mesmo prazo de entrega. Atiçado pela curiosidade, levei a encomenda até a agência dos Correios mais próxima, virei o envelope ao contrário, livre de qualquer endereço ou carimbo, e pedi para a atendente verificar o preço para entrega rápida na França. Disse-lhe o nome da cidade. A simpática funcionária comunicou-me que, se quisesse que fosse entregue em 2 ou 3 dias, custaria aproximadamente R$ 100,00, e que para um prazo maior, de 6 a 13 dias, num envio denominado &#8220;prioritário com registro&#8221;, R$ 65,35 até 1.200 gramas. Meu envelope estava a pesar exatamente  1.180 gramas, pois mantido como recebi, com livro e revistas.</p>
<p>Prezados leitores, o que se pode verificar é a diferença escorchante. Essa realidade nossos governantes conhecem, estão cansados de ler, ver e ouvir através da mídia. Todavia, a equiparação com a realidade dos preços da Europa, no caso, faria com que certamente menos dinheiro entrasse para esse imenso Leviatã, o monstro que tudo devora. O meu insistente &#8220;nada a fazer&#8221; continua, pois, como reza o poeta açoriano Almeida Firmino: &#8220;Falta-nos a voz com que protestar&#8221;.</p>
<p><em>On the outrageous cost of living in  Brazil, where daily life — due mainly to government abusive taxes and  entrepreneurs’ profit margins —  has  become incredibly expensive in comparison with Europe and the US, without the  counterpart of good salaries and quality in public  services.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Encontro de Elo Pedido</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2012/03/24/encontro-de-elo-pedido/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Mar 2012 03:05:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando o Presente Tem Origem Sua vida, então, começou a ser objeto de geral curiosidade. Todos queriam saber, todos perguntavam: que terá feito aquele homem penitente? D. Henrique Golland Trindade ( Matt Talbot-O operário Penitente) Ao abordar os cinco anos de posts publicados ininterruptamente escrevi que a aposentadoria e a não obrigatoriedade universitária teriam provocado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Quando o Presente Tem Origem</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/276.Pedro1-big.jpg" target="_blank"><img title="Pedro. Desenho de Luca Vitali. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/276.Pedro1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Sua vida, então, começou a ser objeto de geral curiosidade. </em><br />
<em>Todos queriam saber, todos perguntavam: </em><br />
<em>que terá feito aquele homem penitente?</em><br />
D. Henrique Golland Trindade<br />
( Matt Talbot-O operário Penitente)</p>
<p>Ao abordar os cinco anos de posts publicados ininterruptamente escrevi que a aposentadoria e a não obrigatoriedade universitária teriam provocado o afluxo dos textos livres, não acadêmicos. A professora M.L.B.M. &#8211; respeito as iniciais &#8211;  enviou-me e-mail querendo saber se esses escritos nasceram a partir dos acontecimentos mencionados ou tiveram origem em tempos outros. Observa: &#8220;Sou professora aposentada do ensino médio e tenho acompanhado seus posts há cerca de um ano, quando, fazendo uma pesquisa sobre sua carreira, descobri o blog por acaso. Gostaria de saber se esta forma de escrita mais livre, que hoje encontro nos textos de seu blog, tão distinta da exigida para a carreira universitária, desenvolveu-se ao longo dos anos ou foi uma descoberta favorecida pela nova fase de sua vida.&#8221;</p>
<p>Confesso que as considerações da professora chegaram em momento oportuno. Outros leitores igualmente teceram observações próximas às da prezada senhora. Estava a alinhar livros no alto da biblioteca quando encontrei, atrás de uma fileira &#8220;inacessível&#8221;, caderno perdido de textos que fluíram descontraidamente durante a década de 70, pouco antes de adentrar os portões da universidade como docente em 1982. O achado alegrou-me. Menciono esse caderno em crônica bem anterior (vide <em>Pedro, o Andarilho &#8211; O Reaparecimento</em>, 15/02/2008). O post provocou até uma certa &#8220;desconfiança&#8221; em alguns leitores, pois não acreditavam que um desventurado homem das ruas  pudesse ter atravessado todas as adversidades da vida ao relento, abandonado em uma calçada, e ter sido por mim reconhecido após três décadas!!! Diziam praticamente impossível ser o mesmo indivíduo. Quando do post em questão, em que relatei o encontro a rememorar fatos passados, escrevi sobre esse sumiço ocorrido no início dos anos 80: &#8220;Comentei em casa o desaparecimento de Pedro. Já fazia parte da minha rotina do olhar e das muitas indagações que elucubrava a seu respeito. Muitos anos após, reagrupando papéis espalhados, encontrei o texto que escrevera sobre ele em 1979, hoje perdido para sempre ao ter organizado outros escritos&#8221;.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/276.Pedro2-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fragmento do elo encontrado. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/276.Pedro2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Ter &#8220;redescoberto&#8221; esse texto sobre Pedro, escrito aos 15 de Agosto de 1979, às 23:30h, chegou a emocionar-me, mormente pelo fato de que nosso último encontro data de um ano e tantos meses, quando, ao levar suprimentos da feira de sábado ao cidadão abandonado pela sociedade, encontrei-o em lastimável estado, a apresentar sinais de gangrena na mão esquerda, pois seu velho relógio já penetrara parte do pulso e toda a região mostrava-se intumescida e muito escura. Naquele instante passava uma viatura do Estado ou da Prefeitura. Desceu um atendente, examinou-o e levou-o. Jamais retornou ao seu canto preferido de infortúnio absoluto. Lembro-me do funcionário, que me advertiu pelo fato de estar dando ao Pedro dois pastéis, bananas e uma garrafa grande de refrigerante. Indaguei se ele conhecia Pedro. Disse-me que estava a conhecê-lo naquele instante, ao que lhe respondi que, se o Estado abandona seus cidadãos, há aqueles que ainda têm consideração pelos infortunados e que conhecia Pedro há cerca de trinta anos. Fechou o semblante e levou o pobre homem.</p>
<p>A responder, pois, à atenciosa leitora, insiro o texto escrito a mão em 1979 nesse velho caderno: &#8220;Pedro é um andarilho. O seu aspecto exterior é o de um mendigo. Roupas rasgadas, maltrapilho que é, Pedro não vive da mendicância voluntária. Seu rosto está permanentemente encoberto por um negrume que faz lembrar os que sofrem as queimaduras das geleiras. A roupa é usada até o desgaste total. Em Pedro tudo isso não chega a chocar.</p>
<p>A primeira diferença entre Pedro e os seus milhares de colegas é o porte. Percebem-se traços aristocráticos atavicamente ligados a um passado abastado. Quando caminha, Pedro tem o corpo ereto e um olhar para a frente, altivo, perdido num mundo de simbolismos.</p>
<p>Há tempos observo Pedro andando sem quase parar pela Avenida Santo Amaro. Disso resulta pés plenos de chagas, protegidos por uma estranha sandália.</p>
<p>A primeira vez que conversei com Pedro foi numa noite quando, ao voltar a pé para casa após visita a um amigo, encontrei-o sentado numa calçada. Perguntei-lhe se necessitava de algo. Disse-me que não. Indaguei-lhe se tinha fome. Não, foi a resposta. Intrigava-me seu caminhar eterno durante os dias, exposto ao sol e à chuva. Indaguei-lhe novamente sobre o porquê da marcha. Respondeu-me, evasivamente, que à noite poderia tropeçar e da queda ele não gostava. Compreendi melhor seu porte altivo durante o dia. Dei-lhe uns poucos trocados. Agradeceu-me com um &#8216;bom dia, amigo&#8217;. Nada pedira. Perguntei-lhe o nome. Pedro dos Santos, a resposta.</p>
<p>Muitas outras vezes encontrei Pedro, encostado num poste entre a Av. Santo Amaro e a Rua Jesuíno Maciel. Quando o farol permite, dou-lhe alguma coisa. A resposta é a mesma &#8216;Bom dia, amigo&#8217;. Nada pede.</p>
<p>Hoje senti-me gratificado. Ouvi de Pedro respostas às minhas indagações. Duas da tarde vinha eu andando pela avenida de Pedro, quando com satisfação o encontro. Saúdo-o com afeto. Retribuiu-me em silêncio, com um sorriso dos bem aventurados. Fui mais longe e indaguei: &#8216;Pedro, por que você anda tanto?&#8217; Disse-me &#8216;Eu busco a cadência&#8217;. Nova questão &#8216;Que cadência, Pedro?&#8217;  Meu irmão continuou:  &#8216;Andando eu vivo, sinto o sangue percorrer o meu corpo inteiro e não posso parar. Procuro então a cadência&#8217;. O seu destino me intrigava &#8216;Onde você dorme? Nova resposta  &#8216;Embaixo da ponte, o senhor sabe, as pontes têm vida. Elas vêem passar toda a cidade&#8217;. Indago-lhe: &#8216;E quando faz frio?&#8217; Pedro, instantâneo: &#8216;Há jornais, caixotes, papelões. Os jornais têm vida. Não tenho medo. Só temo as correntes que existem sobre nós&#8217;. Não consigo explicações mais detalhadas.</p>
<p>Olho para os pés sangrando de Pedro e prometo-lhe para o dia seguinte, ao meio dia, sapatos e roupas. Apenas sorri. Pedro nada solicita. Pedro continua a andar. Seu porte ereto o levará um dia ao encontro da cadência.</p>
<p>Lembro-me da noite anterior. Padre Aquino, na reunião mensal, falou sobre Cristo e a respeito da ideia que podemos fazer dele. Para uns, o som de uma nota musical; para outros  motivações diversas. Para Pedro, o apóstolo de pés inchados e feridos, a palavra do Filho bastava. Para Pedro, o apóstolo perdido da cidade, a cadência é o destino. Certamente encontrar-se-á em Deus, a cadência plena, inefável&#8221;. Escrito a tinta, o texto finda, e palavras a lápis do punho de uma de minhas filhas foram acrescentadas: &#8220;Pedro é bom! Pedro é gente como nós&#8221;.</p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span><em>On how I happened to recover a passage written 32 years  ago ― here transcribed in its entirety ― about Pedro, the wanderer, a character already portrayed in this blog. </em></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Ano Portugal-Brasil</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Mar 2012 03:05:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Recital de Piano no Instituto Dante Pazzanese Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens&#8230; Não queiras ser o de amanhã. Faze-te sem limites no tempo. Cecília Meireles Comemora-se, de maneira oficial ou independente, o ano Portugal-Brasil ou Brasil-Portugal,  quando tanto os Estados como a iniciativa privada propõem eventos variados. Já havia me apresentado no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Recital de Piano no Instituto Dante Pazzanese</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/275.Pazzanese-big.jpg" target="_blank"><img title="Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/275.Pazzanese-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Não sejas o de hoje.</em><br />
<em> Não suspires por ontens&#8230;</em><br />
<em> Não queiras ser o de amanhã.</em><br />
<em> Faze-te sem limites no tempo.</em><br />
Cecília Meireles</p>
<p>Comemora-se, de maneira oficial ou independente, o ano Portugal-Brasil ou Brasil-Portugal,  quando tanto os Estados como a iniciativa privada propõem eventos variados.</p>
<p>Já havia me apresentado no referencial Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (2011), em recital dedicado ao bi-centenário de Franz Liszt (1811-1886). Sensível às comemorações luso-brasileiras, a ilustre Diretora Geral da Instituição, Doutora Amanda Sousa, convidou-me para dois recitais com programação diferenciada. O primeiro recital foi igualmente a pensar no Jubileu de 70 anos e no Curso Intensivo de Cardiologia e deu-se no último dia 14 de Março. No programa, obras-primas compostas por autores dos dois países: Francisco de Lacerda (1869-1934) e Heitor Villa-Lobos (1887-1959). O segundo dar-se-á em Agosto.</p>
<p>Em 2011 apresentei em sete cidades portuguesas as <em>Trente-six histoires pour amuser les enfants d&#8217;un artiste</em>, do compositor açoriano Francisco de Lacerda. Como muitas da histórias têm caráter programático &#8211; Lacerda insere frases a determinar o correr da história -, o notável professor da Universidade de Coimbra José Maria Pedrosa Cardoso preparou um data show sensível e pleno de interesse para o ouvinte acompanhar o desenrolar das pequenas histórias. Tratava-se da primeira vez que as <em>36 Histoires</em>&#8230;, pouquíssimo tocadas, eram apresentadas nessa formatação. No recital utilizamos o material gentilmente cedido pelo professor Pedrosa Cardoso e um meu aluno de música, Paulo Marcos Filla, generosamente encarregou-se de passar o data show.</p>
<p>Aquilo que defendo há décadas tem nessa obra prima de Francisco de Lacerda o exemplo típico. O Sistema parece não admitir a redescoberta que poderá vir a conflitar com o repertório superconhecido e confortável para intérpretes, público e empresários. Se essa atitude está presente quanto às criações excelsas do passado, transfere-se igualmente para o contemporâneo qualitativo. Recentemente, o compositor François Servenière observou em um de seus instigantes e-mails: &#8220;Escrevi em uma de minhas canções, que se chama <em>Voyageur</em>, a frase: &#8216;Viajante, seu destino é partir alhures&#8230;&#8217;. Sim, o viajante, em corpo e espírito, tem o movimento inscrito no cerne de suas preocupações, de suas necessidades e de seus desejos. O movimento é uma segunda natureza&#8230; Para o momento e por motivos objetivos, eu viajo pouco fisicamente, mas muitíssimo sob a égide do espírito, buscando organizar meu futuro para conseguir o equilíbrio do todo. É por isso que compreendo e admiro sua atitude, mesmo a considerar a sua idade, ao não se satisfazer com a aquisição já sedimentada de obras do repertório da tradição, indo sempre à procura não apenas do passado esquecido, mas atrás da última fronteira do que está a acontecer, encomendando sem cessar novas obras aos compositores de mérito&#8221;.</p>
<p>As consagradas criações de nosso grande Villa-Lobos, <em>Impressões Seresteiras </em>e <em>Dança do Índio Branco</em>, pertencentes ao importante conjunto<em> Ciclo Brasileiro</em>, concluíram o recital.</p>
<p>Teria de considerar a relevância de manifestação artística em Congresso de alto nível, que contou com a presença de renomados cardiologistas do país e das Américas. No dia do recital, a visão de um piano de concerto entre as mesas de palestrantes e debatedores dava bem a noção da presença sonora que aconteceria ao final das sessões. Numa metáfora bem amalgamada, diria que a música, a estabelecer a expressão dos sentimentos e, por que não, do “coração”, espalhou-se pelo Auditório Cantídio de Moura Campos Filho. O numeroso público, constituído por ilustres congressistas, residentes, estagiários e convidados, ouviu com o maior respeito as obras apresentadas.</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/275.Dante-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Foto Maria Teresa Martins Lazzarini. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/275.Dante-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Ao finalizar as <em>Trente six histoires</em>&#8230; de Francisco de Lacerda, a recepção pública não foi inferior às duas consagradas criações de Villa-Lobos. Se ao Sistema não interessa o repertório pouco frequentado, caberá ao intérprete ter a coragem de enfrentar desafios. A acolhida apenas encoraja o velho intérprete a buscar novas fronteiras. Há maior alegria do que acreditar no desbravamento de outros horizontes?</p>
<p>Agradeço imenso à Diretora Geral do Instituto Dante Pazzanese, Professora Doutora Amanda Sousa, que acatou o projeto imediatamente ao tomar conhecimento da magistral obra de Francisco de Lacerda. Figuras relevantes não dão guarida à evasiva. A  Diretora Geral é exemplo desse acreditar. E resultou. Foi uma ocasião que ficará gravada pela qualidade insofismável das obras apresentadas, escritas por grandes &#8220;maratonistas&#8221; e interpretadas pelo pianista, corredor de revezamento que necessariamente um dia passará o bastão a outro corredor nas mesmas condições. Efusivos parabéns ao Instituto Dante Pazzanese,  referência plena em Cardiologia.</p>
<p><em>2012 is officially the year of Portugal in Brazil and of Brazil in Portugal and a series of cultural events in various areas will take place. Invited to give a recital at the Dante Pazzanese Institute of Cardiology, I chose to present, getting in the spirit of the year and as usually trying to avoid the standard repertoire for piano, Francisco de Lacerda’s masterpiece “Trente-six histoires pour amuser les enfants d&#8217;un artiste” and Villa-Lobo’s “Impressões Seresteiras” and “Dança do Índio Branco”. The reception was enthusiastic in both cases, proving my point that the audience is open to challenges, but most interpreters are reluctant to explore new horizons.</em></p>
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