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	<title>José Eduardo Martins</title>
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		<title>Continuam os ecos sobre o romantismo musical</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2026 03:05:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Tema inesgotável Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado. A arte exige uma liturgia, um ritual, que se prende com a fonte da dádiva e a aproximação do amor. A arte atravessa a nossa mente com pés de pomba à mínima tempestade torna-se invisível, substituída pelos apelos do cotidiano. Miguel Real (1953-) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Tema inesgotável</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/610.Aivazovsky-big.jpg" target="_blank"><img title="Pintura de Ivan Konstantinovich Aivazóvsky (1817-1900). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/610.Aivazovsky-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado.<br />
</em><em>A arte exige uma liturgia, um ritual,<br />
</em><em>que se prende com a fonte da dádiva e a aproximação do amor.<br />
</em><em>A arte atravessa a nossa mente com pés de pomba<br />
</em><em>à mínima tempestade torna-se invisível,<br />
</em><em>substituída pelos apelos do cotidiano.<br />
</em>Miguel Real (1953-)</p>
<p style="text-align: justify;">A partir do blog publicado aos 12/09, “Nono Encontro <em>Privé</em>”, foram muitas as mensagens recebidas, e o post publicado no dia 26 foi o resultado das reflexões apreendidas, o que muito me alegra. Geralmente breves, os envios tem, contudo, aspectos de profundo interesse, pois multidirecionados num tema tão abrangente como o romantismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentre os recebimentos, um se estendeu e captou essencialidades que merecem outras considerações. Gildo Magalhães, professor titular aposentado da FFLECH-USP, especialista em História da Ciência, tece seus comentários: “Muito oportuno o blog sobre o ‘Nono Encontro <em>Privé</em>’. Para além da importância de Henrique Oswald, descortinada por você de forma cabal e emocionante, surge a questão do romantismo. Para muitos, romântico acaba sendo sinônimo de sentimental. Sempre desconfio de rótulos peremptórios, porque Bach expressa sentimentos tão fortemente quanto Beethoven. E Shostakovich tem composições que apelam fortemente para nossos sentimentos, e vamos por aí afora. Naturalmente há a circunstância histórica, como você bem lembra, ligada ao desenvolvimento político das nações, e que, com as revoluções americana e francesa, vem se desenrolando, porque não se completa, testemunhado mesmo até na preocupante era em que vivemos. Mas a rígida compartimentação temporal não basta, porque é extrapolada sem parar, e extravasa para outras artes, como a literatura, a pintura, etc. Sabemos que a essência da arte escapa à divisão em escolas &#8211; tenho para mim que isso atrapalha mais do que ajuda. Enfim, é tema para muitas incursões e você faz muito bem em voltar a um assunto que não termina e &#8211; ainda bem &#8211; não deve terminar”.</p>
<p style="text-align: justify;">Há ampla literatura a respeito do romantismo nas artes como um todo e na literatura. Particularmente sobre a música, há igualmente livros de grande interesse que apreendem particularidades, a depender de cada autor <strong>―</strong> musicólogo, historiador ou músico atuante ―, muitas delas abordadas de maneira inédita, fato que enriquece o conhecimento sobre o período. Como afirma o professor Gildo Magalhães em sua mensagem sobre a diversidade temática no que concerne ao romantismo, “&#8230; um assunto que não termina e ainda bem-não deve terminar”.</p>
<p style="text-align: justify;">Que os compositores dos períodos barroco e clássico exprimiam sentimentos em incontáveis criações é fato notório, como atestam as obras do período. Tendo o professor Magalhães citado J.S.Bach a expressar sentimentos, mencionaria um fato ocorrido em 2004.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma semana após o falecimento do meu saudoso genro, José Rinaldo Lazarini, estava a gravar na Bélgica um CD para o selo De Rode Pomp daquele país, dele a constar Estudos para piano de dez relevantes compositores contemporâneos belgas. Três longas noites de gravação, que se prolongavam até o alvorecer. Findo os registros fonográficos, solicitei ao notável engenheiro de som Johan Kennivé que apagasse todas as luzes e deixasse apenas uma pequena iluminação sobre o teclado. Veio-me à mente o coral “Jesus alegria dos homens”, de J.S.Bach, transcrito para piano por Myra Hess. Ao finalizar, estava bem emocionado com o tributo a José Rinaldo, máxime por ter ele partido aos 39 anos.</p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Bach-Hess, Jesus, alegria dos homens, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ">https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ</a></p>
<p style="text-align: justify;">A eclosão dos sentimentos no romantismo musical se dá, entre vários fatores libertários, às vivências dos compositores, resultando na fixação nas partituras das intenções interpretativas indispensáveis aos executantes, como inseri no post anterior, máxime termos como <em>rubato, </em>assim como tantos outros. A rica sinalização corroborou as intenções dos compositores no que concerne à interpretação do extraordinário repertório composto para o piano no período romântico.</p>
<p style="text-align: justify;">Importa saber que, no romantismo, há a exaltação da individualidade frente às amarras da convenção. A clara eclosão do sentimento, que existia e era expresso no classicismo, mas de maneira mais contida, não encontra limites em incontáveis criações românticas. Sob o aspecto da apresentação, o recital público eclodiu em pleno romantismo, nessa fase da execução individual em que a exacerbação emotiva e a virtuosidade plena se propagaram rapidamente, tendo como destinação um público ávido do espetáculo não apenas da exibição do artista, mas da obra a ser executada. Notáveis virtuoses e compositores se destacaram, tendo, como protagonista-mor, o compositor e extraordinário pianista Franz Liszt (1811-1886), assim como Fréderic Chopin (1810-1849) e Sigismond Thalberg (1812-1871), mas também o grande violinista e compositor Niccolò Paganini (1782-1840).</p>
<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter" title="Pianista Guiomar Novaes (1894-1979). Desenho de Carlos Oswald (1882-1971). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/701.GN3a-small.jpg" alt="" /></p>
<p style="text-align: center;">Clique para ouvir, de Franz Liszt, Liebestraume nº3, na interpretação da notável Guiomar Novaes (1894-1979):</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Jl_WikZqeXg">Guiomar Novaes plays Liszt Liebestraume No. 3 in A flat</a></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">Se considerada for a presença de elementos que serão vitais no romantismo, a preponderar a eclosão dos sentimentos e, nesse aspecto, a individualidade é crucial, contrastando com o espírito clássico, que tenderia ao universal, a fonte criativa do compositor romântico se estruturou numa certa tendência à instabilidade, apesar de determinados princípios formais e estruturais do classicismo serem aceitos parcialmente. A ter em mente o que se ouve nos centros mais conhecidos do mundo, largamente voltado ao repertório clássico-romântico e àquele que, adentrando o século XX na sua quase extensão, preservou o técnico-pianístico sem maculá-lo na essência, apesar de determinadas criações sob formas diferenciadas.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Ao nomear Dmitri Shostakovich (1906-1975), Gildo Magalhães evidencia que o sentimento romântico não deixou de estar presente na obra dos mais variados compositores pertencentes às tendências composicionais que, iniciadas na primeira metade do século XX, proliferaram a seguir numa abertura em forma de leque. Alguns, por vezes, em suas criações vanguardistas revisitaram ideais românticos em suas obras, caso do próprio Shostakovich. Mais recentemente, são inúmeras as correntes composicionais, sendo difícil compartimentá-las.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Among the countless messages received regarding musical Romanticism, I would like to highlight the one from Professor Gildo Magalhães, which delves into some fundamental aspects.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Flexibilizações da frase musical no romantismo</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/10/03/flexibilizacoes-da-frase-musical-no-romantismo/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/10/03/flexibilizacoes-da-frase-musical-no-romantismo/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 03:05:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Transformações musicais inovadoras no período romântico O músico romântico será naturalmente levado a procurar formas sonoras que traduzam o instável e o mutável — a captar as imagens musicais do devir. Roland-Manuel (1891-1966) A respeito do blog a focalizar o “Nono Encontro privé” (12/09), recebi mensagens de grande interesse sobre o romantismo. Três delas sugerem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Transformações musicais inovadoras no período romântico</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-big.jpg" target="_blank"><img title="Escultura de Auguste Rodin. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/839.Rodin-small.jpg" alt="" /></a><em> </em></p>
<p><em>O músico romântico será naturalmente levado<br />
</em><em>a procurar formas sonoras que traduzam o instável e o mutável —<br />
</em><em>a captar as imagens musicais do devir.<br />
</em>Roland-Manuel (1891-1966)</p>
<p style="text-align: justify;">A respeito do blog a focalizar o “Nono Encontro privé” (12/09), recebi mensagens de grande interesse sobre o romantismo. Três delas sugerem a abordagem dos efeitos decorrentes da produção romântica musical em termos da interpretação instrumental. A simpática provocação me leva prazerosamente a expor algumas dessas consequências que, ao longo de dois séculos, tornaram-se efetivas em basicamente todas as interpretações correspondentes ao romantismo, efeitos esses que muitos dos intérpretes aplicam erroneamente nas criações do repertório do período clássico. Este fato, entendido de maneira arbitrária e individualmente praticado por tantos músicos consagrados, leva a essência essencial dessa produção clássica ao impasse, mercê de visões pessoais de executantes frente à obra interpretada.</p>
<p style="text-align: justify;">Se a composição musical no romantismo, sob o aspecto formal, ampliou a concepção de determinadas formas, como a Sonata executada ao cravo, que sofreria transformações na sua estrutura, mormente a partir das primeiras décadas do século XIX, através do pianoforte e do piano a seguir, tendo como protagonistas maiores, Haydn (1732-1809), Mozart (1756-1791), Beethoven (1770-1827), mormente nas últimas Sonatas, Schubert (1897-1828), encontraria na Sonata em si menor de Liszt (1811-1886) dedicada a Schumann (1810-1856) um definitivo divisor de águas. A forma, já bem alterada, seria incorporada às aspirações de compositores eslavos e de outras nacionalidades. E é no romantismo que claramente eclodem determinadas categorias de peças musicais curtas, expressivas ou voltadas à virtuosidade, sem necessariamente estarem ligadas ao rigor formal, entre elas: <em>Noturno, Estudo, Balada, Scherzo, Rapsódia, Improviso</em> e tantas mais.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1038.Sanson-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Sanson François. Fonte Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1038.Sanson-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Chopin, Balada nº 1 em sol menor, na interpretação de Sanson François:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YpWIiLfhaD4">https://www.youtube.com/watch?v=YpWIiLfhaD4</a></p>
<p style="text-align: justify;">E, nessas formas, o compositor se sente liberto da maioria das amarras. Enfatize-se que a criação romântica se distancia da composta no classicismo, pois esta se fundamenta em limites, num respeito preferencial às normas pré-estabelecidas, contrariamente ao compositor romântico, que se sente menos dependente ao criar.</p>
<p style="text-align: justify;">Um fator determinante se deu com as formas reestruturadas ou novas em pleno romantismo, verdadeira ampliação nas formulações, máxime igualmente pela evolução do piano, instrumento que sofreu influência com as conquistas da Revolução Industrial. Em pleno século XIX, a indústria do aço foi responsável pelo aperfeiçoamento do piano, que passou a ter uma tábua harmônica de aço, doravante muitíssimo mais resistente do que a de madeira, possibilitando suportar a tensão das cordas mais robustas e dispostas diversamente às dos pianos anteriores. Ampliou-se a sonoridade. Esse avanço surgiu simultaneamente num período em que as salas de concerto ficaram maiores. Composições voltadas à ampla virtuosidade tornaram-se desafios para compositores e intérpretes.</p>
<p style="text-align: justify;">No romantismo, o discurso musical adquire maior flexibilidade devido, entre outras causas, ao culto à flutuação de andamentos. Para tanto, uma terminologia abrangente, utilizada pelos compositores a partir do romantismo, corrobora uma adequada compreensão do intérprete frente à partitura. O entendimento padrão desses termos não impede a interpretação pessoal, pois o intérprete consciente não é um robô. Não obstante, termos como <em>rubato</em>, <em>accelerando</em>, <em>ritenuto</em> ou <em>ritardando</em>, <em>agitato</em>, ou mesmo frases dos compositores orientando o intérprete <strong>―</strong> <em>três doux avec langueur, avec une élégance grave et lente</em>; <em>mouvement de Habanera – avec des brusques oppositions d’extrême violence et de passionnée douceur</em>; <em>dans um sentiment intime</em>; <em>avec une certaine pompe</em>; <em>dolce graziosamente</em>; <em>con eleganza</em>, <em>con fidúcia </em><em>―</em> e incontáveis outras indicações, basicamente inexistentes nos períodos anteriores ao romantismo, serviam de um guia, sinalizando o pensar do compositor no ato da criação, ideias a complementar o pensamento do músico executante.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1038.Fauré-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Gabriel Fauré. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1038.Fauré-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, Nocturne nº 4, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=X1MnLY21eAo&amp;t=371s">https://www.youtube.com/watch?v=X1MnLY21eAo&amp;t=371s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a compreensão da frase musical, o <em>rubato</em>, termo italiano a indicar uma flexibilização durante uma ou mais frases do discurso musical, propagou-se no romantismo. O verbete no Dicionário de Música, elaborado por Tomás Borba e Fernando Lopes-Graça (Lisboa, Cosmos, ed., 1958), reza: “Modo de execução em que, sobretudo em passagens expressivas, se adopta uma grande liberdade de movimento sem que, porém, se destrua o essencial do ritmo.  Parece ter sido Tosi quem, em 1723, introduziu na música esta expressão”. Seria, contudo, no romantismo musical que a palavra se tornaria amplamente utilizada, máxime nos andamentos mais lentos. Por vezes encontramos o <em>molto rubato</em>, aviso de que determinado segmento musical deve ser ainda mais expressivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar de um comentário do meu professor de piano (1954-1958), o notável José Kliass (1895-1970), que de imediato me fez entender o processo. Comparava o <em>rubato</em> a um bêbado que executa passos laterais em aceleração, equilibra-se por vezes sobre uma perna e retorna aos passos em aceleração para novo equilíbrio.</p>
<p style="text-align: justify;">Aos leitores que me propuseram abordar os efeitos da produção romântica na interpretação instrumental, convém lembrar que palavras-chave, como timbre e flutuação dos andamentos, são preocupações que não estavam a vigorar conscientemente no pensar criativo dos compositores do período clássico, ao menos na escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">Frequentado pela grande maioria de pianistas, o repertório romântico continua a ser uma das preferências dos ouvintes e um desafio constante à interpretação ao piano, mercê dos seus atributos inalienáveis.</p>
<p><em>In response to messages I have received regarding certain characteristics of Romanticism in music, I address several significant aspects related to the interpretation of works from this important period in music.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Ecos do &#8220;Nono Encontro privé&#8221;</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/09/26/16240/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/09/26/16240/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 26 Sep 2026 03:05:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O culto aos preceitos românticos O romantismo, para além das dicotomias que pesam sobre o homem moderno, procurou apaixonadamente a indissociação entre o bem e o mal, entre a liberdade e a necessidade, entre a consciência e a natureza. Vladimir Jankélevitch (1903-1985) (“Le Nocturne&#8221;) Tem interesse a quase unanimidade dos leitores que captaram os eflúvios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O culto aos preceitos românticos</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1037.FChopin-big.jpg" target="_blank"><img title="Fréderic Chopin. Pintura de Eugène Delacroix. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1037.FChopin-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>O romantismo, para além das dicotomias<br />
</em><em>que pesam sobre o homem moderno,<br />
</em><em>procurou apaixonadamente a indissociação<br />
</em><em>entre o bem e o mal,<br />
</em><em>entre a liberdade e a necessidade,<br />
</em><em>entre a consciência e a natureza.<br />
</em>Vladimir Jankélevitch (1903-1985)<br />
(“Le Nocturne&#8221;)</p>
<p style="text-align: justify;">Tem interesse a quase unanimidade dos leitores que captaram os eflúvios românticos que se depreendem das composições de Henrique Oswald. Vários me escreveram sobre esse culto prolongado ao romantismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo dos 19 anos e meio de blogs ininterruptos, foram diversos os posts que dediquei a esse período tão rico não apenas para a música, como para a literatura e outras manifestações artísticas. Compositores do período barroco e da época do classicismo professaram formas preestabelecidas, que lhes proporcionavam uma segurança na criação de suas músicas. Apesar do engessamento formal, foi imensa a produção que, atravessando os séculos, continua a ser reverenciada por musicólogos e intérpretes. Retornar ao tema do romantismo musical é sempre prazeroso, mercê da qualidade de tantos compositores que durante o romantismo se “libertaram” de uma rigidez formal vigente durante séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">A Revolução Francesa (1789-1799) foi uma das causadoras da eclosão romântica, que se expandiria a partir do início do século XIX. Anteriormente, vemos considerável número de compositores que viviam sob as benesses da nobreza ou sob o manto das ordens religiosas. O grito libertário, emanado nos tempos revolucionários, teria sido uma das causas da busca de caminhos novos. Os primórdios do romantismo foram fixados nesse período pós-revolução. Foi na Alemanha, nas fronteiras dos séculos XVIII e XIX, que o movimento, que englobaria a literatura, a música e as artes, “Sturm und Drang” (Tempestade e ímpeto), teve influência que se espalharia pela Europa. O compositor, pouco a pouco, “transformaria” formas rígidas, dando-lhes maior abertura e criando outras mais. Acrescente-se ao período uma noção cultural mais abrangente por parte de compositores, escritores, poetas e pintores – libertária, na realidade -, a corroborar o dirigismo das novas concepções criativas.  A arte teria como fonte indelével a mensagem da expressão do sentimento individual e não a do coletivo. Na música, exemplos claros foram professados por Karl Maria von Weber (1786-1826), Beethoven (1770-1827) e Schubert (1797-1828). É justamente a presença do sentimento, tantas vezes da maneira mais explícita, a atingir limites extremos, que compositores, máxime Chopin (1810-1849), Schumann (1810-1856), Liszt (1811-1886), Brahms (1833-1897), Berlioz (1803-1869) e Wagner (1813-1883), para citar alguns dos mais representativos, propiciaram a fixação romântica durante um vasto período.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1037.Wagner-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Richard Wagner. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1037.Wagner-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Clique para ouvir,  de Wagner-Liszt, a transcrição para piano de A Morte de Isolda, extraída da ópera Tristão e Isolda, na interpretação de Arthur Moreira Lima:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=L4wWsaSJ4tw">https://www.youtube.com/watch?v=L4wWsaSJ4tw</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1037.Liszt-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Franz Liszt. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1037.Liszt-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Creio que o ilustre compositor, regente e escritor português Fernando Lopes-Graça traduz com precisão o entendimento do romantismo musical: “Sentindo-se libertado de tutelas religiosas e aristocráticas, sentindo-se uma <em>pessoa social</em>, o compositor, na exaltação da sua personalidade moral e espiritual conquistada e reconhecida, começa a fazer do seu eu o motivo e o agente da sua obra. Quer cantar-se a si mesmo, nas suas dores, nas suas ilusões, nas suas ideias, nas suas aspirações. Pretende levar aos outros homens o calor da sua mensagem, de uma mensagem de beleza e de humanismo, para que se sente eleito. É poeta e apóstolo. Supõe-se o centro do mundo, e daí o ver a realidade deformada ou reduzida a termos do seu próprio eu. É ao mesmo tempo um idealista. Cria para si a sua própria lei e fé mas, do mesmo passo, por um excesso de orgulho e hipertrofia do eu, quer levar aos outros essa lei e essa fé.” (“Obras Literárias – Opúsculos 2”. Lisboa, Caminho, 1984).</p>
<p style="text-align: justify;">Diversos especialistas fixam um período romântico musical que iria até Wagner e Liszt e, como continuação, compreendem como pós-romantismo. Entendo que o termo romantismo sem prefixo já se basta, pois há uma linha única, caudaloso rio com afluentes, a depender dos estilos dos compositores pós Wagner, mas que teria fim com a morte de Serguei Rachmaninoff (1873-1943), pois o notável compositor russo permaneceu fiel à linha romântica &#8211; com raras exceções em sua profícua produção, contrariamente ao seu exato contemporâneo, Alexandre Scriabine (1872-1915), nascido um ano antes e que, de um romantismo exacerbado se direcionaria, em sua breve existência, a uma linguagem distanciada, personalíssima, a qual recebe imensa influência do seu pensar místico. Como não considerar tantas das criações de Camille Saint-Saëns (1835-1921) ou de Gabriel Fauré (1845-1824) como plenas de romantismo?</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1037.Rachmaninov-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Sergei Rachmaninov. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1037.Rachmaninov-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Rachmaninov, Étude Tableau op. 39 nº 8, na interpretação de J.E.M. (gravação ao vivo durante o Concurso Tchaikovsky em Moscou, 1962):</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fBwvQq9sj9g">https://www.youtube.com/watch?v=fBwvQq9sj9g</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fBwvQq9sj9g"></a><span style="text-align: center;">É bem possível que as tendências que surgiram nas fronteiras dos séculos XIX-XX tenham, em contrapartida, determinado a compreensão desse </span><em style="text-align: center;">pós, </em><span style="text-align: center;">agregado ao termo romântico.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Impressionismo, dodecafonismo e seus desdobramentos, até a atual fase em que há múltiplas tendências composicionais, explicam a individualização, pois a maioria dos compositores de hoje tem técnica personalizada. Não a tendo, e seguindo princípios precedentes, esse músico tende a ser anatematizado por muitos dos seus pares, que professam tendências em constante ebulição. Assim como o classicismo está fixado no passado, igualmente o romantismo já está instalado em seu período histórico. Entretanto, permanece como fonte da extraordinária criação musical sempre visitada pelos intérpretes.</p>
<p style="text-align: justify;">O nosso maior romântico, Henrique Oswald (1852-1931), manteve-se sempre fiel à sua linha estética voltada ao romantismo. O seu “redescobrimento” relativamente recente, na segunda metade do século XX, não o apresenta como um inovador, mas um compositor que foi fiel à tradição recebida por seus mestres da Itália durante os cerca de trinta anos vividos no país.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>In earlier posts, I discussed the topic of Romanticism. Having received several messages regarding Romanticism in the work of Henrique Oswald, I return to the subject with a different approach.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Bom dia, Inverno&#8221; Tamara Klink</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Sep 2026 03:05:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma aventura que ficará na história O maior desafio da minha carreira foi aceitar minha filha fazer coisas piores do que eu fazia. Amyr Klink “documentário” Para meu pai. Quando eu era pequena, você me contava histórias do seu inverno no mar gelado. Eu tinha muitas perguntas. Essa viagem começou ali. Tamara Klink “Bom dia, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Uma aventura que ficará na história</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1035.Tamara2-big.jpg" target="_blank"><img title=" Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1035.Tamara2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>O maior desafio da minha carreira foi aceitar</em><br />
<em> minha filha fazer coisas piores do que eu fazia.</em><br />
Amyr Klink<br />
“documentário”</p>
<p>Para meu pai.<br />
<em>Quando eu era pequena,</em><br />
<em> você me contava histórias do seu inverno no mar gelado.</em><br />
<em> Eu tinha muitas perguntas. Essa viagem começou ali.</em><br />
Tamara Klink<br />
“Bom dia, inverno”</p>
<p style="text-align: justify;">No dia dos pais, uma das filhas me presenteou com o relato personalíssimo de Tamara Klink, “Bom dia, Inverno” (São Paulo, Companhia das Letras, 2026), sabedora de que aprecio igualmente livros de aventura. Desde a adolescência, admiro as ousadias humanas que estimulavam a imaginação. Estou a me lembrar da leitura da “Expedição Kon-Tiki”, de Thor Heyerdahl (1914-2002), nos anos 50, a integral de Saint-Exupéry (1900-1944) durante o período em que estudei na França, e as bem posteriores sobre as incursões no Himalaia de vários autores, tanto sobre o Everest como o K2. Do aventureiro francês Sylvain Tesson (1972-), ao longo dos blogs, cerca de dez livros foram resenhados</p>
<p style="text-align: justify;">Conheci Amyr Klink, pai da autora de “Bom dia, inverno”, em um restaurante árabe no Campo Belo, bairro da zona sul de São Paulo. Em uma segunda oportunidade entreguei-lhe um CD com composições do notável Francisco de Lacerda (1869-1934), pois Klink iria permanecer longo tempo na Antártida. As “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” focalizam a fauna terrestre e aquática. Toda a extraordinária coletânea está no Youtube divididas em três blocos. Na terceira, Lacerda apresenta vários animais que frequentam as águas e as terras, inclusive “Les Pingouins” (nº34), que vivem na Antártida. Meses após, reencontro Amyr Klink no mesmo restaurante e ele me afirmou que em momentos de absoluta solidão ouvia o referido CD, fato que me alegrou ao saber que as obras do ilustre compositor açoriano estavam a ser ouvidas em circunstâncias tão especiais.</p>
<p style="text-align: justify;">“Bom dia, inverno”materializa um dos anseios da autora, que já havia anteriormente atravessado o Atlântico vinda do continente africano, mas almejava feito mais absoluto, que se tornou realidade após os oito meses passados no Ártico. Deslocou-se em seu pequeno veleiro, Sardinha2, até a Groenlândia e, durante longos 8 meses, permaneceu num fiorde, pois tinha como desiderato viver o pleno inverno ártico, a ausência da luz externa sem a presença do sol e no mais absoluto solilóquio, salvo a presença brevíssima de pescadores ou caçadores pela região que chegou a conhecer.</p>
<p style="text-align: justify;">“Bom dia, inverno” distancia-se da grande maioria dos relatos de aventuras excepcionais. Dir-se-ia, uma absoluta confissão do de profundis de Tamara, mas igualmente a vivência em circunstâncias meteorológicas quase extremas, sem quaisquer barreiras, externando os mínimos pormenores do seu cotidiano, como alimentação, higiene, afazeres domésticos realizados na precariedade do seu veleiro Sardinha2, assim como incursões fora da embarcação, não apenas passeios solitários para conhecer entornos, a fauna, observar o firmamento e o fenômeno da aurora boreal. Naqueles oito meses deparou-se com as transformações das noites intermináveis à volta solar progressiva.</p>
<p style="text-align: justify;">A necessidade imperiosa de vivenciar a solidão em seu veleiro, apesar de saber de todas as possibilidades reais e imponderáveis, atravessa a narrativa de maneira coloquial, sem pretensões outras a não ser transmitir o que sente. Em uma circunstância mais aguda quase morreu ao pisar no gelo frágil e ficar por instantes numa temperatura de 26º graus negativos.  Lição aprendida. Compensa o isolamento humano com “fraterna” interação com pássaros, máxime raposas, nomeando algumas, apesar de nenhum contato físico. Inúmeras vezes   seu barco recebeu a visita dessas raposas do Ártico.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1035.Tamara-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Tamara Klink. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1035.Tamara-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Tem interesse desvelamentos de Tamara: “Quanto mais cansada, mais sonho e realidade se confundem”; “Os sonos curtos são eficazes, mas têm pequenos efeitos colaterais, como a perda da memória e de lucidez. Como desconfio da minha cabeça, sigo a lista de instruções que criei para não perder energia tomando decisões: a cada vinte minutos, verificar se há barcos ao redor e se as velas estão bem reguladas: a cada quatro horas, verificar se há algo estranho no cockpit, se tem água entrando debaixo do piso, comer, beber água, ir ao banheiro (ou ao balde azul), sempre pôr o colete e me amarrar do lado de fora, anotar todos os eventos no diário de bordo”. Um outro parágrafo tem efeito essencial para aqueles que realmente amam a solidão como Tamara: “Enquanto procurarmos o amor no outro, faremos da solidão nossa rival. Veremos apenas o que ela tem de escuro: silêncio, sombras, vazio, imensidão, segredos, medo. Tentaremos combatê-la nos cercando de gente estranha, de vozes intrometidas, de luzes que piscam. Tentaremos afogá-la com bebidas e poções, esquecê-la com distrações. Tentaremos explodi-la e explodiremos a nós mesmos. Porque somos feitos de solidão: enquanto procuramos o amor no outro, perdemos a chance de fazer da solidão nossa aliada, dando ao outro a chave do nosso prazer”. Não poucas vezes, e é necessário frisar, Tamara se sente imensamente feliz durante a longa solidão Ártica.</p>
<p style="text-align: justify;">Na narrativa de Tamara a família não se ausenta. A avó é permanente interlocutora, mãe e pai são citados, e as citações a este são frequentes: “Criança, sonhei ser muitas coisas. Quando pedi para meu pai me ajudar a aprender a navegar como ele, ele responder que sua ajuda seria não me ajudar”. Sabedor de todas as adversidades possíveis nessas navegações solitárias, um pai responsável só poderia dar essa resposta precisa. Em outro segmento: “&#8230; se um dia eu for mãe, provavelmente não poderei fazer o que meu pai fez sendo pai. O pai que corre riscos recebe prêmios. A mãe que corre riscos recebe críticas”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Bom dia, inverno” é um diário pleno de alternativas centradas sempre num arguto senso de observação de Tamara. Majoritariamente, revela suas sensações frente à solidão e se, por vezes, tem contato com pescadores, caçadores e, quando ancorada em porto frequentado por outros barcos e veleiros, com personagens diversificados, esses encontros são fortuitos e desaparecem do relato.</p>
<p style="text-align: justify;">Um feito absolutamente excepcional realizado por uma jovem aos 26-27 anos, nessa passagem para a idade madura, numa região inóspita sob tantos aspectos, mas com a certeza de que era um objetivo a ser alcançado.</p>
<p style="text-align: justify;">Presentemente, Tamara empreende uma outra viagem admirável, a travessia solitária e plena de riscos, no seu Sardinha2, pela ligação dos Oceanos Pacífico e Atlântico, tendo já cruzado o icônico Mar de Bering. Nossos pensamentos positivos para a brava aventureira.</p>
<p style="text-align: justify;">A recepção ao livro tem sido imensa e plena de merecimento.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The book “Good Morning, Winter”, by Tamara Klink, is a fascinating read that recounts the adventure of a young sailor who spent eight long months anchored in a fjord in Greenland aboard her sailboat “Sardinha2,” bravely weathering</em></p>
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		<title>Nono Encontro privé</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/09/12/16219/</link>
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		<pubDate>Sat, 12 Sep 2026 03:05:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[Em torno de Henrique Oswald (1852-1931) Não sou um optimista. O que sou é determinado naquilo em que me apetece ser determinado, e continuo convicto até entender que a convicção estava errada e tenho de mudar. Mas isso não tem acontecido muito. Agostinho da Silva (1906-1994) “Entrevista” Após dedicarmos vários Encontros a notáveis compositores acima [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Em torno de Henrique Oswald (1852-1931)</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/856.HO-big.jpg" target="_blank"><img title="Henrique Oswald. Gravura em metal de Carlos Oswald (1882-1971), filho do compositor e pioneiro da gravura em metal no Brasil. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/856.HO-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Não sou um optimista. O que sou é determinado<br />
</em><em>naquilo em que me apetece ser determinado,<br />
</em><em>e continuo convicto até entender<br />
</em><em>que a convicção estava errada e tenho de mudar.<br />
</em><em>Mas isso não tem acontecido muito.<br />
</em>Agostinho da Silva (1906-1994)<br />
“Entrevista”</p>
<p>Após dedicarmos vários Encontros a notáveis compositores acima do equador, o Nono Encontro <em>privé h</em>omenageia quatro compositores pátrios, mormente Henrique Oswald.</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre Oswald, dediquei vários blogs ao longo dos anos. Certamente o nosso mais importante compositor romântico e um dos nomes referenciais da nossa música através dos séculos. As minhas pesquisas tiveram início em 1978, mercê da colaboração extraordinária de Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do notável músico. Durante alguns anos, mensalmente ia ao Rio de Janeiro e ficava hospedado na morada do casal Mário e Maria Isabel (vide blog: Maria Isabel Oswald Monteiro, 1919-2012).  O precioso arquivo, cuidadosamente preservado pela anfitriã, dele constando partituras manuscritas autografadas, riquíssimos diários e outros mais documentos relevantes, foram paulatinamente estudados. Logicamente, as pesquisas se davam também junto à Biblioteca Nacional, ao Arquivo Nacional e à Escola Superior de Música do Rio de Janeiro.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/854.MIOM-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Maria Isabel Oswald Monteiro e J.E.M. 1995. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/854.MIOM-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Meu doutorado em 1988 foi pioneiro. Presentemente já foram defendidos mais de dez doutorados no Brasil e no Exterior (Estados Unidos, França e Itália), e que venham outros mais é o que se espera. No concurso para professor titular (1992) prossegui na temática oswaldiana, sendo que, posteriormente, houve a publicação do livro no qual concentrei as duas teses, “Henrique Oswald, músico de uma saga romântica” (São Paulo, Edusp, 1995). Prazer indizível se deu durante as gravações de três LPs (Funarte) e quatro CDs, estes gravados na Bélgica, unicamente com composições de Henrique Oswald para piano solo, assim como música de câmara com piano.</p>
<p>Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Tre Piccoli Pezzi”, na interpretação de J.E.M:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0">https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0</a></p>
<p style="text-align: justify;">Menciono o histórico pelo fato de que as escolhas repertoriais deveriam sempre ter uma relação de pleno envolvimento. Como executar as músicas de um compositor sem que as suas mensagens penetrem no <em>de profundis</em> do intérprete? Os mais notáveis pianistas, mormente do passado, fizeram suas escolhas entre inúmeros compositores integrantes dos seus repertórios. Arthur Schnabel (1882-1951), Beethoven e Schubert; Edwin Fischer (1886-1960), J.S.Bach e Beethoven; Wilhelm Kempff (1895-1991), J.S.Bach&#8230;; Arthur Rubinstein (1887-1982), compositores românticos; Guiomar Novaes (1894-1979), Chopin, Schumann e Debussy; Walter Gieseking (1895-1956), Mozart e Debussy; Clara Haskil (1895-1960), Mozart e Chopin; Vladimir Horowitz (1903-1989), Liszt, Scriabine, Rachmaninov&#8230;; György Cziffra (1921-1994), Liszt preferencialmente. As indicações repertoriais estão ratificadas nos inúmeros documentos críticos e fonográficos. Opinando sobre colegas, Horowitz afirmava que ninguém tocava Chopin como Alfred Cortot (1877-1962) e os compositores espanhóis como Alicia de Larrocha (1923-2009).</p>
<p style="text-align: justify;">Henrique Oswald é um dos meus eleitos e homenageá-lo em um Encontro <em>privé</em> faz-se necessário. As obras escolhidas são de raro encanto, pois não apenas a escrita do compositor é de extrema clareza, a partir de preceitos aos quais sempre foi fiel, como se mostra admirável no aspecto melódico.</p>
<p style="text-align: justify;">Regina interpreta inicialmente uma criação emblemática de Villa-Lobos (1887-1959), “Alma brasileira”,  e algumas criações de Francisco Mignone (1897-1986), sendo que “Il Neige encore” é o tributo de Mignone a “Il Neige” de Oswald, peça que obteve o 1º prêmio no concurso promovido pelo jornal Le Figaro de Paris (1902), certame esse que recebeu 647 composições vindas de tantos países, tendo no júri luminares da música em França: Gabriel Fauré (1845-1924), Camille Saint-Saëns (1835-1921) e Louis Diémer (1843-1919).</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre “Il Neige”, gravei-a em 1979 para um LP em um andamento mais rápido. Quando de um recital na Sala Cecília Meirelles, toquei-a como peça extraprograma. O notável compositor Francisco Mignone, presente ao evento, disse-me após o recital que Oswald tocava “Il Neige” bem mais lentamente. “Bem mais lentamente?”, indaguei. “Muito mais”, retrucou o dileto Mignone. Em 1995, ao gravar um CD na Bélgica com a integral para violino e piano do compositor, tendo o excelente Paul Klinck ao violino, houve espaço para “Il Neige” no andamento vivenciado por Mignone.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige”, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0">https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0</a></p>
<p style="text-align: justify;">Caderno contendo oito composições em homenagem a Henrique Oswald. Universidade de São Paulo, 1985.</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1034.HO-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Caderno a conter oito composições em homenagem a Henrique Oswald. Publicação da USP, 1985. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1034.HO-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Inicio a minha parte interpretando a criação minimalista do notável Gilberto Mendes (1922-2016), “Il Neige de nouveau”, igualmente uma homenagem a Henrique Oswald e, em seguida, a célebre “Il Neige”. Na sequência, apresento composições que me são caras e que fizeram parte do meu repertório ao longo da atividade pianística pública. As “Tre Piccolli Pezzi”, compostas em Florença (1885), nunca foram publicadas e são encantadoras. Os “Six Morceaux” op. 4 (1887) é um dos vários conjuntos de peças no catálogo do compositor. O “Estudo” e a “Valse-Caprice” op. 11 nº1 são criações envolventes e de virtuosidade.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0">https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0</a></p>
<p style="text-align: justify;">As novas gerações de músicos deveriam cultuar os nossos relevantes compositores que, no presente, não têm divulgação à altura. Henrique Oswald deveria ser visitado permanentemente, não apenas as suas composições para piano, mas igualmente a sua obra de câmara, sinfônica e vocal.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>The Ninth private recital will focus on the piano works of Brazilian composers, particularly Henrique Oswald.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Segurança, um dos desafios fundamentais do país</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/09/05/seguranca-um-dos-desafios-fundamentais-do-pais/</link>
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		<pubDate>Sat, 05 Sep 2026 03:05:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma população refém do descaso A violência é o último refúgio da incompetência. Isaac Asimov (1920-1992) O tema veio à mente após conversa com amigos durante um café descontraído. Que estamos vivendo tempos difíceis quanto à segurança é unanimidade. Sem interrupção, a palavra foi progressivamente perdendo o seu sentido essencial nessas últimas décadas. A insegurança [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Uma população refém do descaso</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1034.Segurança2-big.jpg" target="_blank"><img title="Segurança à deriva. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1034.Segurança2-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>A violência é o último refúgio da incompetência.</em></p>
<p>Isaac Asimov (1920-1992)</p>
<p style="text-align: justify;">O tema veio à mente após conversa com amigos durante um café descontraído. Que estamos vivendo tempos difíceis quanto à segurança é unanimidade. Sem interrupção, a palavra foi progressivamente perdendo o seu sentido essencial nessas últimas décadas. A insegurança reina no país. Logicamente, temos de nos adaptar às transformações que, de maneira cada vez mais acelerada, ocorrem em todas as áreas. Aos leitores mais jovens, rememorar fatos vividos muitas décadas atrás estabelece comparações. Desapareceu a descontração que nos fazia caminhar pelas vias públicas sem quaisquer preocupações quanto à segurança. As conversas informais com amigos nos portões das casas, em qualquer hora do dia, eram comuns; roubos e sequestros existiam de maneira esporádica; o golpe via o antigo telefone era quase nulo, assim como tantas outras situações nas quais a segurança não era prioridade em decorrência da delinquência bem menos acentuada.</p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar dos anos 1950. Estudávamos, João Carlos e eu, no excelente Liceu Pasteur, período matutino. Quando ainda adolescentes, o referencial professor de piano José Kliass convenceu  nosso Pai a que, durante um ano letivo, estudássemos no período noturno, a fim de termos mais tempo – 5 ou 6 horas – de estudos pianísticos diários em uma fase fundamental. João Carlos estudou naquele período no Colégio Ipiranga e eu, no Liceu Eduardo Prado, que ficava na Alameda Pamplona com a Avenida Paulista. Após esse ano regressei ao Liceu Pasteur para finalizar o curso Clássico.</p>
<p style="text-align: justify;">A menção ao ensino noturno tem significado expresso pelo fato de que, entre 16 e 17 anos de idade, após as aulas que findavam quinze minutos antes da meia-noite, caminhava solitário até as portas do Instituto Pasteur na Av. Paulista (algumas centenas de metros de distância) para pegar o bonde que subia a Brigadeiro Luís Antônio vindo do centro, virava à esquerda, parava em frente ao Instituto e me deixava na confluência da Av. Domingos de Morais com o início da Av. Rodrigues Alves. Daí, descia até o nº 984, nossa morada, onde chegava por volta das 0:30. Jamais fui importunado nessas caminhadas solitárias e nunca tive receio algum de ser assaltado.</p>
<p style="text-align: justify;">Já no final do primeiro lustro dos anos 1960, a convite do notável pianista Jacques Klein (1930-1982), Regina e eu fomos jantar em casa de um de seus amigos nos morros do Rio, não distante do Outeiro da Glória. Subimos e descemos a pé sem qualquer receio, na maior descontração.</p>
<p style="text-align: justify;">A explosão da violência no país se deu máxime nestas últimas décadas, em que em determinadas regiões o Estado brasileiro deixou de ter soberania, pois impossível de se entrar nesses enclaves de maneira desavisada, regiões estas nas quais as populações vivem subjugadas àqueles que comandam as comunidades. Já houve diversas mortes de incautos que, de carro ou a pé, entraram nesses territórios que proliferam em várias regiões do Brasil, perdendo suas vidas atingidos por armas de fogo dos “vigilantes”. Se cerca de 1.500 comunidades no Rio de Janeiro, e tantas outras espalhadas pelo país, hoje vivem sob os olhares permanentes dos que praticam toda espécie de ilícitos, o que esperar de um país nessas condições? Na realidade, a nossa soberania é relativa.</p>
<p style="text-align: justify;">Atualmente, quantos não foram aqueles que, ao reagirem ao roubo de celulares, são abatidos, sendo que os malfeitores, a seguir, vão tomar cervejinha com gosto de sangue? Só em São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública, mais de 500 aparelhos são roubados diariamente, o que significa um a cada três minutos.</p>
<p style="text-align: justify;">Décadas atrás, saíamos, Regina e filhas, nos fins de semana, frequentando com certa regularidade a mesma pizzaria de amigos, distante algumas quadras de nossa antiga morada. Atitude quase impossível na atualidade, pois os riscos durante o retorno podem ser altos. Recentemente, uma neta, seu marido e quatro bisnetos, ao saírem da missa em pleno meio-dia, sofreram assalto diante de inúmeros fiéis. Furtaram-lhes celulares e alianças. Incrédulos, os cidadãos em torno nada puderam fazer, pois os assaltantes estavam armados.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma de nossas filhas, assim como uma neta, tiveram recentemente seus carros roubados. Em blog bem anterior descrevi um assalto à mão armada que sofri, ocasião em que meliantes levaram o meu veículo (blog: “A outra face da Polícia”, 23/08/2008). Iniciava o post com palavras retratando o ocorrido “Que vivemos numa espécie de guerra civil neste país que pouco faz para a segurança, é fato. Sofrer assalto a mão armada é assustador. Meliantes levaram o meu carro, instantes após balearem um ancião e um policial”. Infelizmente, após quase vinte anos desse episódio, a delinquência se agigantou de maneira avassaladora. Bastaria a consulta aos órgãos especializados.</p>
<p style="text-align: justify;">O que esperar num país em que 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 (dados oficiais divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP – e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública) e com mais de 40.000 assassinatos, sem que haja uma legislação implacável com penas elevadíssimas para os autores desses crimes?<strong> </strong>Quanto ao roubo de celulares, alianças, cartões e outros pertences, a justiça tem sido branda, mormente pelo fato de muitos autores desses atos serem soltos após a audiência de custódia, segundo noticiários, e acatados por parte da população e de partidos políticos como vítimas da sociedade.</p>
<p style="text-align: justify;">Recentemente, a excelente violinista Elisa Fukuda sofreu assalto em sua morada. Dois violinos valiosos e de autores renomados, mais um arco precioso, assim como celulares dela e de seus irmãos músicos, foram furtados. Há uma campanha, bem difundida pelos aficionados, no sentido de recuperarem esses instrumentos indispensáveis à violinista. Em 1987, gravamos para o selo Funarte, a Sonata em Mi Maior op.36 para violino e piano, assim como o trio em sol menor op.9 para violino, violoncelo e piano de Henrique Oswald (1852-1931), deste participando o renomado celista Antônio Del Claro.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1033.Capa-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="LP Oswald, 1987. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1033.Capa-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Certamente muitos dos meus leitores já sentiram a ação dos malfeitores. Estamos às portas das eleições. Segurança, Economia, Saúde, Educação, assim como a chaga aberta da corrupção praticada largamente sem pejo, deverão ser os temas essenciais abordados nos meios de comunicação a partir das propostas dos candidatos.</p>
<p style="text-align: justify;">Oxalá cheguemos a acreditar em um futuro em que esses quatro pilares básicos possam ser a razão de um próximo governante e que a endêmica corrupção seja tratada com o maior rigor. Neste país tão conturbado, há ainda a possibilidade de se sonhar por dias melhores&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de François Servenière, <em>Promenade dans la Voie Lactée</em>, na interpretação de J.E.M.:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JQDkWn1HcpQ">https://www.youtube.com/watch?v=JQDkWn1HcpQ</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Security, the economy, health, education, as well as the festering scourge of corruption—these should be the key issues covered by the media based on the candidates’ proposals.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Uma revisita a Jean-Philippe Rameau (1683-1764)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/08/29/uma-revisita-a-jean-philippe-rameau-1683-1764/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 03:05:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[A partir de substancial diálogo Enquanto Rameau, entre os maiores, não ocupar todo o espaço a que tem direito, a História da Música do século XVIII e através dos tempos não terá a sua total orientação. Georges Migot (1891-1976) O ilustre pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), após se “aposentar” da atividade frente ao público aos 89 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A partir de substancial diálogo</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/905.JPR-big.jpg" target="_blank"><img title="Jean-Philippe Rameau. Pintura atribuída a Aved (1702-1766). Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/905.JPR-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Enquanto Rameau, entre os maiores, </em><em>não ocupar todo o espaço a que tem direito,<br />
</em><em>a História da Música do século XVIII </em><em>e através dos tempos não terá a sua total orientação.<br />
</em>Georges Migot (1891-1976)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">O ilustre pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), após se “aposentar” da atividade frente ao público aos 89 anos, manteve em seu repertório algumas obras que lhe foram caras durante a existência. </span><em style="text-align: justify;">Mutatis mutandis</em><span style="text-align: justify;">, sem quaisquer intuitos comparativos, após encerrar minhas atividades pianísticas públicas em 2023, diariamente me dedico umas poucas horas aos estudos de piano, relendo criações que me impactaram e apresentando-as periodicamente em </span><em style="text-align: justify;">petit comité</em><span style="text-align: justify;"> com propósitos precisos: preservar a vocação iniciada aos 9 anos de idade, ter contato com amigos ouvintes possuidores da apreciação crítica e, finalmente, manter-me em atividade aos 88 anos, verdadeira dádiva. Minha mulher Regina realiza o mesmo caminho. Há um compositor que diariamente revisito, interpretando uma ou duas peças ao piano: Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Há anos, um belo dia caminhava com meu caro amigo, pensador e compositor meritoso, Willy Corrêa de Oliveira (1938-). Repentinamente, ele para e me pergunta à “queima roupa” qual era meu compositor preferido e instantaneamente, sem pensar, respondo: Rameau. Retribuí a pergunta e a resposta de Willy foi também precisa, Chopin. Logicamente outras figuras essenciais da composição fazem parte das minhas preferências. A admiração pela obra de Rameau vem da juventude, quando aos 16 anos, após ouvir a integral para cravo interpretada ao piano (2 LPs) pela excelsa pianista francesa Marcelle Meyer (1887-1958), fiquei fascinado pelas obras, que desconhecia por completo. Meu Pai, ao sentir o meu entusiasmo, presenteou-me com o álbum.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1031.rameau-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Álbum de LPs com a integral. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1031.rameau-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p>Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, La Dauphine, na interpretação de Marcelle Meyer:</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4IrpvP2xXDY">https://www.youtube.com/watch?v=4IrpvP2xXDY</a></p>
<p><span style="text-align: justify;">De uma conversa fundamental entre duas figuras marcantes em França, o musicólogo Roland-Manuel (1891-1966) e a pianista franco-russa Nadia Tagrine (1917-2003), parte de um dos programas da série radiofônica e literária </span><em style="text-align: justify;">Plaisir de la Musique</em><span style="text-align: justify;">, na qual as duas relevantes personalidades dialogavam a respeito de aspectos fulcrais da música e das criações concebidas por luminares da composição, extraí as considerações sobre Jean-Philippe Rameau. Bem anteriormente, escrevera dois </span><em style="text-align: justify;">posts </em><span style="text-align: justify;">sobre temas contidos em </span><em style="text-align: justify;">Plaisir de la Musique</em><span style="text-align: justify;"> (25/08/2018 e 1/9/2018), abordando figuras fulcrais da história da música. Sobre Rameau foram vários blogs ao longo de mais de 19 anos de </span><em style="text-align: justify;">posts </em><span style="text-align: justify;">publicados sem interrupção.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Roland-Manuel insere no diálogo alguns dados pouco ventilados pelos biógrafos e que evidenciam traços da personalidade de Rameau:</p>
<p style="text-align: justify;">“Áspero, tanto no estado de espírito como fisicamente, fechado, triste, solitário. Dizia-se que o vazio que ele encontrava na sociedade o levava a afastar-se dela. Quanto à sua arte e aos interesses dela estava, pelo contrário, preocupado em não negligenciar nada, segundo as suas próprias palavras; a avareza era o reverso dessa moeda dura. Incapaz de fazer concessões e particularmente inexorável em matéria de música, pois esta estivera presente em toda a sua vida. O escritor Louis Petit Bachaumont (1690-1771) conta que, à beira da morte, quando o pároco de Saint-Eustache foi dar-lhe a extrema-unção, Rameau encontrou forças para interrompê-lo, dizendo-lhe: «Mas que raio vem cá cantar-me isso, Senhor Pároco? A sua voz está desafinada&#8230;».</p>
<p style="text-align: justify;">Rolland-Manuel enfatiza conceito que se tornaria uma constante nas avaliações feitas <em>a posteriori</em> sobre Rameau. A sua grandeza não apenas se fixou nas composições, exemplificada pelas suas magníficas óperas, que têm sido progressivamente apresentadas, como na profundidade dos seus tratados teóricos. Comenta: “«Não é tanto fruto do acaso, mas sim da Providência, que o maior teórico da música e o maior compositor francês do século XVIII se encontrem reunidos na mesma pessoa: a ciência e a experiência, a razão e a intuição apoiam-se e esclarecem-se mutuamente em Jean-Philippe Rameau».</p>
<p style="text-align: justify;">Através das décadas mais se consolidou a minha admiração pela obra de Rameau. Em suas inúmeras óperas, Rameau revela todo o seu domínio escritural, assim como o domínio dos endereçamentos no que concerne à ópera-balé ou à tragédia lírica. Roland-Manuel observa: “O que há de admirável em Rameau é que ele efetivamente não apenas estabelece a razão demonstrativa e a sensibilidade mais profunda, como também a sabedoria a mais rigorosa, sem deixar de ser o poeta mais afinado às solicitações do sonho”.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, <em>Tendre Amour, </em>da ópera-balé <em>Les Indes Galantes, </em>na interpretação do conjunto Les Arts Florissants sob a regência de William Christie:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=MvRMfR2c1hY">https://www.youtube.com/watch?v=MvRMfR2c1hY</a></p>
<p style="text-align: justify;">Em contraste ao <em>Tendre Amour</em>, clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, a Abertura da Tragédia Lírica <em>Zoroastre</em>, na interpretação do conjunto Le Concert des Nations sob a regência de Jordi Savall:</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9br3o8MfUvI&amp;t=23s">https://www.youtube.com/watch?v=9br3o8MfUvI&amp;t=23s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Quanto à obra para cravo interpretada ao piano, a criação de Rameau quantitativamente é menor às de François Couperin, J.S.Bach e Domenico Scarlatti. Todavia, tem-se o <em>multum in mínimo </em>e a excelência de suas composições comprova a assertiva.</p>
<p><span style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, </span><em style="text-align: justify;">Les Cyclopes</em><span style="text-align: justify;">, na interpretação de J.E.M.:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=c7lyY0pBRkU&amp;t=4s">https://www.youtube.com/watch?v=c7lyY0pBRkU&amp;t=4s</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>A fruitful dialogue between the French-Russian pianist Nadia Tagrine and the musicologist Roland-Manuel about Jean-Philippe Rameau is of interest because, although it took place in the mid-20th century, it remains highly relevant today.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Outras considerações sobre a terceira idade</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/08/22/outras-consideracoes-sobre-a-terceira-idade/</link>
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		<pubDate>Sat, 22 Aug 2026 03:05:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O olhar diferenciado de Saint-Exupéry Os quarenta primeiros anos da existência nos dão o texto; os trinta seguintes, o comentário. Arthur Schopenhauer (1788-1860) A juventude é o tempo de aprender sabedoria, a velhice de praticá-la. Jean-Jacques Rousseau (1712-778) O tempo te constrói raízes. Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) O post precedente, ao abordar as reflexões de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O olhar diferenciado de Saint-Exupéry</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/686.SaintEx1-big.jpg" target="_blank"><img title="Antoine de Saint-Exupéry. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/686.SaintEx1-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Os quarenta primeiros anos da existência nos dão o texto;<br />
os trinta seguintes, o comentário.<br />
</em>Arthur Schopenhauer (1788-1860)</p>
<p><em>A juventude é o tempo de aprender sabedoria,<br />
</em><em>a velhice de praticá-la.<br />
</em>Jean-Jacques Rousseau (1712-778)</p>
<p><em>O tempo te constrói raízes.<br />
</em>Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="text-align: justify;">O post precedente, ao abordar as reflexões de La Rochefoucauld sobre as fases derradeiras do ser humano, suscitou uma série de posicionamentos de leitores interessados na temática e até sugerindo estender as considerações. Nem todos apreendem a velhice como uma transição que deveria ser vivenciada como um caminho natural para o inexorável. Eliane Ghigonetto Mendes, viúva do meu saudoso amigo e notável compositor Gilberto Mendes (1922-2016), enviou-me uma mensagem da qual extraio uma preciosa frase: “Cada vez mais vejo amigos envelhecerem tão mal, tão amargos, por se deixarem escravizar pelo Ego, que não foi domesticado a tempo&#8230;”. Veio-me à mente Citadelle, de Saint Exupéry (1900-1944), várias vezes presente nos posts semanais desde a sua origem, que remonta a Março de 2007. Uma frase vinda de sua irmã, Simone de Saint Exupéry, pesquisadora que colaborou na elaboração de Citadelle, define a importância da obra. Afirma: “É impossível esgotar as riquezas dessa obra densa e profunda, que aborda todos os problemas do destino humano e do condicionamento do homem”.</span></p>
<p style="text-align: justify;">As considerações a respeito da velhice em Citadelle têm aplicação na atualidade. Relembrando, o personagem principal da obra em pauta é um senhor do deserto, à semelhança de um rei. Nas narrativas na primeira pessoa do singular, Saint-Exupéry tece suas considerações sobre os mais variados temas que permeiam a humanidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Gilberto Mendes: Sonatina à la Mozart (1951), na interpretação de J.E.M.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4">https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4</a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4"></a><span style="text-align: justify;">“Naquela noite, ao descer da minha montanha pela encosta onde já não conhecia mais ninguém, como um homem já levado para a terra por anjos silenciosos, senti o consolo de envelhecer. E de ser uma árvore pesada com seus galhos, já toda endurecida por protuberâncias e rugas, e já como embalsamada pelo tempo no pergaminho dos meus dedos, e tão difícil de ferir, como se já tivesse me tornado eu mesmo. E eu tecia minhas reflexões: ‘Aquele que já envelheceu assim, como poderia o tirano aterrorizá-lo com o odor dos suplícios — que é aquele do leite azedo — e mudar nele qualquer coisa, já que sua vida ele a mantém no passado, como um manto desamarrado que só permanece preso por um cordão?’ Será que já estou assim guardado na memória dos homens? E nenhuma renegação da minha parte teria mais sentido. Também senti o consolo de estar livre das minhas amarras, como se tivesse trocado toda essa carne enrugada pelo invisível, assim como as asas. Como se eu estivesse finalmente caminhando por conta própria, na companhia daquele arcanjo que tanto havia procurado. Como se, ao abandonar meu velho invólucro, eu me descobrisse extraordinariamente jovem. E essa juventude não era feita de entusiasmo, nem de desejo, mas de uma serenidade extraordinária. Essa juventude era daquelas que se aproximam da eternidade, não daquelas que, ao amanhecer, enfrentam os tumultos da vida. Era de espaço e de tempo. Parecia-me que, ao ter concluído meu processo de formação, eu estava me tornando eterno”.</span></p>
<p style="text-align: justify;">Estou a me lembrar do meu saudoso Pai, que morreu dias antes de completar 102 anos (1898-2000). Entendia a velhice como uma dádiva concedida por um Poder Maior. No prefácio do seu último livro, escreveu: “Finalizo esta minha pequena biografia declarando que em 31 de maio de 1999 partiu para a Pátria Celeste aquela que durante 67 anos iluminou minha alma e encheu de infinito amor meu coração. Na prece diária que consagro a Deus, repito o apelo que Ana Madalena Bach fazia a Deus, mudando o nome de Sebastian por santa Alá, porque era por Alá que eu carinhosamente a chamava” (José da Silva Martins, “Breviário de Meditação”, São Paulo, Martin Claret, 2000).</p>
<p style="text-align: justify;">Aos 88 anos acredito firmemente na denominada juventude da idade madura, que pode ser prolongada desde que haja a permanente motivação mental, apesar de esta ser em ritmo menos acentuado. A lendária pianista e professora francesa, Marguerite Long (1874-1966), com quem tive o privilégio de estudar (1958-59), afirmava acreditar que “quem é jovem é para sempre”, e ela o era em suas atitudes.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/697.ML-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Marguerite Long. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/697.ML-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, 4ème Nocturne, na interpretação da insigne Marguerite Long. Gravação realizada em 1937:</p>
<p style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UAL-FojZ6z8&amp;t=35s">Marguerite Long plays Fauré Nocturne no. 4 in E flat major</a></p>
<p><em style="text-align: justify;">Readers requested a second post on old age following my previous one based on the writings of La Rochefoulcald. For this one, I have chosen to focus on the reflections on old age found in Saint -Exupéry’s *Citadelle*.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>La Rochefoucald (II)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/08/15/la-rochefoucald-ii/</link>
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		<pubDate>Sat, 15 Aug 2026 03:05:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Réfléxions diverses – De La Retraite” Nossos inimigos se aproximam mais da verdade em seus julgamentos sobre nós do que nós mesmos. A velhice é um tirano que proíbe, sob pena de morte, a juventude de todos os prazeres. Poucas pessoas sabem ser velhos. La Rochefoucauld (1613-1680) “De la Retraite” não faz parte da primeira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;Réfléxions diverses – De La Retraite”</p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1030.idosos-big.jpg" target="_blank"><img title="Casal de idosos. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1030.idosos-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>Nossos inimigos se aproximam mais da verdade<br />
</em><em>em seus julgamentos sobre nós do que nós mesmos.</em></p>
<p><em>A velhice é um tirano que proíbe, sob pena de morte,<br />
</em><em>a juventude de todos os prazeres.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Poucas pessoas sabem ser velhos.</em><br />
La Rochefoucauld (1613-1680)</p>
<p style="text-align: justify;">“De la Retraite” não faz parte da primeira edição das “Maximes”, datada de 1665, mas integra edições posteriores num conjunto denominado “Réfléxions diverses”. Nessas, La Rochefoucauld, contrariamente aos breves aforismos das “Maximes”, estende os textos numa linha reflexiva e, por vezes, filosófica. Selecionei um em especial, que aborda tema fulcral da existência, a denominada terceira idade (<em>Retraite</em>), fase derradeira do ser humano, cuja duração depende de inúmeros fatores a preceder o final irreversível. Mercê da atualidade das reflexões e do aumento substancioso de idosos no nosso país, transcrevo-o na íntegra, não sem antes inserir um precioso comentário de J.-F. Thénard, autor do prefácio e das inúmeras notas de rodapé da edição de 1937 das “Máximas”. Escreve: “Se La Rochefoucauld fosse um poeta na acepção do termo, nós diríamos que essa reflexão expressa o <em>canto do cisne</em>, como se o filósofo e grande escritor exprimisse o seu adeus à vida ativa; mas falaria ele para si mesmo? Ele captava os modismos, ou melhor, aquilo que ele observava ao seu redor; pois um espírito dessa envergadura seria incapaz de languidez numa inatividade contemplativa”.</p>
<p style="text-align: justify;">La Rochefoucauld – “De la retraite”</p>
<p style="text-align: justify;">“Eu me envolveria em um discurso muito longo se relatasse aqui, em detalhes, todas as razões naturais que levam os idosos a se afastar da vida social: a mudança em seu temperamento, em sua aparência e o enfraquecimento dos órgãos os levam imperceptivelmente, assim como a maioria dos outros animais, a se afastar da convivência com seus semelhantes. O orgulho, que é inseparável do amor-próprio, passa então a servir-lhes de razão: eles já não se deixam lisonjear por muitas coisas que adulam os outros; a experiência lhes revelou o valor de tudo o que os homens desejam na juventude e a impossibilidade de desfrutar disso por mais tempo; os diversos caminhos que parecem abertos aos jovens para alcançar a grandeza, os prazeres, a reputação e tudo o que dignifica os seres humanos lhes são fechados, ou pela fortuna, ou pela conduta ou, ainda, pela inveja e a injustiça dos outros; o caminho para se reencontrar é muito longo e penoso; quando alguém já se perdeu uma vez, as dificuldades parecem insuperáveis, e a idade já não lhes permite mais tentar superá-las. Eles se tornam insensíveis à amizade, não apenas porque talvez nunca tenham encontrado uma verdadeira, mas porque viram morrer um grande número de seus amigos que ainda não tinham tido tempo nem oportunidades de decepcioná-los, e se convencem facilmente de que teriam sido mais fiéis do que aqueles que lhes restam. Eles já não têm mais parte nos primeiros bens que inicialmente preencheram sua imaginação; eles quase não têm mais parte na glória: aquela que conquistaram já foi desbotada pelo tempo, e muitas vezes os homens mais perdem do que ganham à medida que envelhecem.  Cada dia lhes tira uma parte de si mesmos; não têm mais vida suficiente para desfrutar do que possuem, e muito menos ainda para alcançar o que desejam; eles não veem mais à sua frente senão tristezas, doenças e humilhação; tudo já foi visto, e nada pode ter para eles o encanto da novidade; o tempo os afasta imperceptivelmente do ponto de vista de onde lhes convêm ver as coisas, e de onde elas devem ser vistas. Os mais felizes ainda são aturados, os demais são desprezados; a única saída que lhes resta é esconder do mundo aquilo que talvez já tenham mostrado demais. Seu gosto, desiludido dos desejos inúteis, volta-se então para objetos mudos e insensíveis: os edifícios, a agricultura, a economia, o estudo; todas essas coisas estão sujeitas à sua vontade; eles se aproximam ou se afastam delas como bem entendem; são senhores de seus projetos e de suas ocupações; tudo o que desejam está ao seu alcance e, tendo-se libertado da dependência do mundo, eles fazem com que tudo dependa deles. Os mais sábios sabem empregar o tempo que lhes resta para a própria salvação e, tendo apenas uma parcela tão pequena nesta vida, tornam-se dignos de uma vida melhor. Os demais têm, pelo menos, apenas a si mesmos como testemunhas de sua miséria; suas próprias fraquezas os divertem; o menor descanso lhes serve de felicidade; a natureza, falha e mais sábia do que eles, muitas vezes lhes poupa o sofrimento de desejar; enfim, esquecem o mundo, que está tão disposto a esquecê-los; até mesmo sua vaidade é consolada por seu retiro e, com muitos aborrecimentos, incertezas e fraquezas, ora por piedade, ora pela razão, e na maioria das vezes por hábito, suportam o peso de uma vida insípida e lânguida”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1030.Réflexion-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="La Rochefoucauld. Selo comemorativo do tricentenário das Máximas. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1030.Réflexion-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">“De la Retraite”, último texto das “Réflexions diverses”, foi escrito bem antes do desenlace do autor aos 66 anos, no início da terceira idade, segundo os parâmetros atuais. Como bem observa J.-F Thénard, Rochefoucauld estaria a pensar na sua atual posição quando escreve: “Seu gosto, desiludido dos desejos inúteis, volta-se então para objetos mudos e insensíveis: os edifícios, a agricultura, a economia, o estudo; todas essas coisas estão sujeitas à sua vontade”, mormente no segmento: “Os mais sábios sabem empregar o tempo que lhes resta para a própria salvação e, tendo apenas uma parcela tão pequena nesta vida, tornam-se dignos de uma vida melhor. Os demais têm, pelo menos, apenas a si mesmos como testemunhas de sua miséria”.</p>
<p style="text-align: justify;">As “Máximas” e as “Diversas Reflexões”, escritas há mais de três séculos e meio e reeditadas inúmeras vezes, têm fundamental importância em vários particulares, pois não apenas traduzem o que se processa no cotidiano através da história, como eleva a um grau de excelência a importância do fragmento, este expresso nas “Máximas”, assim como em textos como “De la Retraite”, no qual condensa aspectos fulcrais de sua personalidade, sendo que um deles, o ceticismo, não está descartado.</p>
<p><em style="text-align: justify;">La Rochefoucauld’s reflections on old age, despite their skepticism, remain entirely relevant more than three and a half centuries later.</em></p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>La Rochefoucauld (1613-1680) (I)</title>
		<link>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/08/08/16118/</link>
		<comments>http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2026/08/08/16118/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 08 Aug 2026 03:05:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>JEM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Máximas morais É uma das obras que mais contribuiu para formar o gosto da nação e para lhe incutir um espírito de exatidão e precisão… Acostumou as pessoas a pensar e a expressar os seus pensamentos de forma ágil, precisa e delicada. Voltaire (1694-1778) (“Le siècle de Louis XIV”) Por que não se leem mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Máximas morais</strong></p>
<p><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1029.DucFrançois-big.jpg" target="_blank"><img title="François de La Rochefoucauld. Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1029.DucFrançois-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>É uma das obras que mais contribuiu para formar o gosto da nação<br />
</em><em>e para lhe incutir um espírito de exatidão e precisão…<br />
</em><em>Acostumou as pessoas a pensar e a expressar<br />
</em><em>os seus pensamentos de forma ágil, precisa e delicada.<br />
</em>Voltaire (1694-1778)<br />
(“Le siècle de Louis XIV”)</p>
<p><em>Por que não se leem mais<br />
</em><em>os grandes mestres da sentença psicológica?<br />
</em><em>– pois, sem qualquer exagero:<br />
</em><em>o homem culto que tenha lido La Rochefoucauld<br />
</em><em>e seus pares em espírito e arte é coisa rara na Europa;<br />
</em><em>e ainda mais raro aquele que os conheça e não os insulte.<br />
</em>Nietzsche (1844-1900)<br />
(“Humano, Demasiado Humano”)</p>
<p style="text-align: justify;">Há meses que não encontrava Marcelo na feira livre do Campo Belo. É um amigo que prezo e admiro, inúmeras vezes presente ao longo dos anos neste espaço. Leitor assíduo dos blogs hebdomadários, por vezes sugeria um tema que me fazia pensar e geralmente se transformava em blog. O encontro se deu nesse último sábado. Após a feira livre, como sempre fazemos nesses raros, mas agradáveis encontros, fomos tomar um <em>curto</em> nas cercanias, e a conversa se estendeu. Falou-me das epígrafes que insiro e de algumas que coloquei nos posts bem anteriores, entre as quais as do “Adagiário Açoriano”. Infelizmente, após a mudança de morada no ano passado não mais encontrei os dois volumes contendo as frases tão pitorescas e oriundas da tradição oral do povo do arquipélago dos Açores. Igualmente lhe agradaram inúmeras citações e pensamentos do pensador português Agostinho da Silva (1906-1994), que serviram de introdução a inúmeros <em>posts</em>. Disse-me que arquivou todos esses aforismos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao regressar da feira livre pensei nas “Máximas morais e reflexões diversas” de François de La Rochefoucauld, geradas por uma das mentes mais brilhantes em França no século dezessete e obra que influenciaria gerações futuras. De um livro que pertenceu ao meu Pai e que tive o prazer de ler na juventude, extraí algumas máximas relevantes (“Les Maximes de La Rochefoucauld”, Paris, Flammarion, 1937) a partir do texto da quinta edição (1678), sob o título: “Réflexions ou sentences et maximes morales”.</p>
<p style="text-align: justify;">O Duque François de La Rochefoucauld nasceu em Paris e descendia de família pertencente à nobreza. Foi uma ilustre figura do século dezessete, pois escritor, moralista e também militar.  Teve atritos com os cardeais Richelieu e Mazarin, assim como com Luíz XIV. Como militar, participou das revoltas da Fronde (1648-1653). Em uma escaramuça no <em>faubourg Saint-Antoine</em>, foi gravemente ferido com um tiro de mosquete no rosto. Posteriormente exilou-se em seus domínios. As Máximas de La Rochefoucauld, pela amplitude de seus propósitos, imortalizaram o autor.</p>
<p style="text-align: justify;">O autor do longo prefácio do livro mencionado, J.-F. Thénard, sintetiza os efeitos da escolha literária de La Rochefoucauld: “Ele viveu neste mundo, mais como um espírito brilhante do que como um erudito, mas nasceu pensador e escritor de gênio — quero dizer, por instinto. Tendo surgido em uma época conturbada e frívola, dedicou-se a reproduzir as reflexões suscitadas pelo ambiente em que se encontrava. Se o autor das Máximas tivesse sido alimentado por profundos estudos históricos e filosóficos, se, ao pegar na caneta, tivesse podido evocar em seu pensamento os homens e as coisas dos antigos anais dos diversos povos, juntamente com os julgamentos proferidos por escritores de grande prestígio, poderíamos acreditar que ele não teria sido tão amargo, tão desanimador às vezes na análise que faz dos sentimentos íntimos do homem; mas teria perdido parte de seu eu, de sua originalidade.”</p>
<p style="text-align: justify;">Distanciam-se as máximas, citações ou pensamentos do romance ou das narrativas literárias, pelo fato de traduzirem aquilo que o autor pensa no seu cotidiano, expondo, através da escrita, o que está no seu <em>de profundis</em>. As centenas de Máximas de La Rochefoucauld são o seu retrato mental.</p>
<p style="text-align: justify;">Clique para ouvir, de Jean-François Dandrieu (1682?-1738) e de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), nascidos pouco após a morte de La Rochefoucauld, “Les Tourbillons”, criações com o mesmo título utilizado pelos dois compositores, na interpretação de J.E.M.</p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=203s">https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&amp;t=203s</a></p>
<p style="text-align: justify;">Selecionei diversas máximas, entre centenas, e cujo teor básico perdura através dos séculos. Há temas sobre os quais La Rochefoucald mais se debruçou, entre esses: mérito, orgulho, paixões, amor, amor-próprio, espírito, interesse, elogios, humor, amizades&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.joseeduardomartins.com/1029.Maximes-big.jpg" target="_blank"><img class="aligncenter" title="Fonte: Google. Clique para ampliar." src="http://www.joseeduardomartins.com/1029.Maximes-small.jpg" alt="" /></a></p>
<p><em>A clemência dos príncipes não é senão uma política para ganhar a afeição dos povos.<br />
Essa clemência, tida como virtude, se pratica ora por vaidade, às vezes por preguiça,<br />
muitas vezes por medo, e quase sempre pelas três razões juntas.</em></p>
<p><em>A esperança, por mais enganosa que seja, serve pelo menos para nos conduzir,<br />
até o fim da vida, por um caminho agradável.</em></p>
<p><em>Longe disso: a inocência não encontra tanta proteção quanto o crime.</em></p>
<p><em>Se não tivéssemos defeitos, não teríamos tanto prazer em percebê-los nos outros. </em></p>
<p><em>A felicidade está no gosto e não nas coisas; é por ter o que amamos que somos felizes,<br />
e não por ter o que os outros consideram agradável.</em></p>
<p><em>O orgulho é igual em todos os homens,<br />
a única diferença está nos meios e na maneira de manifestá-lo.</em></p>
<p><em>O mundo costuma premiar mais as aparências do mérito do que o próprio mérito.</em></p>
<p><em>O amor à justiça não passa, na maioria dos homens, do medo de sofrer injustiça.</em></p>
<p><em>A verdade não traz tanto bem ao mundo quanto as aparências causam mal.</em></p>
<p><em>A ausência diminui as paixões medíocres e intensifica as grandes,<br />
tal como o vento apaga as velas e acende o fogo.</em></p>
<p><em>Há pessoas que nunca se teriam apaixonado se nunca tivessem ouvido falar do amor.</em></p>
<p><em>Muitas vezes passamos do amor à ambição, mas raramente voltamos da ambição ao amor.</em></p>
<p><em>Uma mulher honesta é um tesouro escondido;<br />
quem a encontrou faz muito bem em não se gabar disso.</em></p>
<p><em> Um homem a quem ninguém agrada é muito mais infeliz do que aquele que não agrada a ninguém.</em></p>
<p><em>Embora os homens se orgulhem de suas grandes ações,<br />
elas nem sempre são fruto de um grande desígnio,<br />
mas sim do acaso.</em></p>
<p><em>Como é próprio das grandes mentes expressar muitas coisas com poucas palavras,<br />
as mentes mesquinhas, pelo contrário, têm o dom de falar imenso e não dizer nada.</em></p>
<p><em>Costuma-se fazer alarde até mesmo das paixões mais criminosas;<br />
mas a inveja é uma paixão tímida e vergonhosa,<br />
que nunca se ousa confessar.</em></p>
<p><em> Os idosos gostam de dar bons conselhos para se consolar<br />
por já não estarem em condições de dar maus exemplos.</em></p>
<p><em>Um homem de espírito ficaria muitas vezes bastante constrangido sem a companhia dos tolos.</em></p>
<p><em>A recusa aos elogios é o desejo de ser elogiado duas vezes.</em></p>
<p><em>Somente aos grandes homens cabe ter grandes defeitos.</em></p>
<p><em>Os defeitos da alma são como as feridas do corpo: por mais cuidado que se tenha para curá-los,<br />
a cicatriz sempre fica visível, e eles correm o risco de se reabrir a qualquer momento.</em></p>
<p><em>O mesmo orgulho que nos leva a criticar os defeitos dos quais acreditamos estar isentos<br />
nos leva a desprezar as qualidades que não possuímos.</em></p>
<p><em>Chegamos como novatos às diversas fases da vida e, muitas vezes, carecemos de experiência,<br />
apesar do número de anos.</em></p>
<p><em>Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente.</em></p>
<p>No próximo blog apresentarei um dos textos das &#8220;Réfléxions diverses” de La Rochefoucauld: “De la Retraite”, no qual o autor observa com agudeza o período final da existência.</p>
<p><em>La Rochefoucauld&#8217;s Maxims, written in the 17th century, are timeless and capture the essence of what it means to be human.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
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<p><a href="file:///C:/Users/conta/Downloads/La%20Rochefoucauld%20-%202%C2%AA%20revis%C3%A3o.docx#_msoanchor_1">[JEM1]</a></p>
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