O compositor frente à constante inspiração
Para mim, o homem e o músico sempre buscaram se expressar ao mesmo tempo.
Só dou um título às minhas composições quando elas estão concluídas.
Robert Schumann (1810-1856)
O compositor Robert Schumann, um dos músicos luminares do romantismo alemão, autor de composições abrangendo uma extensa gama de destinações ― piano solo, lieds (melodias acompanhadas pelo piano), sinfônico (quatro sinfonias) e camerístico ―, externaria em suas criações, mormente pianísticas, o seu amor àquela que seria desde a juventude a fonte de inspiração, Clara Wieck, futura Clara Schumann (1818-1896), notável pianista e compositora de mérito. Schumann estudou com Friedrich Wieck (1785-1873), pai de Clara, que se opôs durante anos à união de sua filha com Robert, fato que ocorreria em 1840, após o futuro casal ter entrado na Justiça contra o professor que alegava não ter Schumann estabilidade financeira.
Aos 12 de Setembro de 1840, um dia após o aniversário de Clara, efetua-se o casamento e, nessa data, após as núpcias, Schumann escreve à “Minha jovem mulher bem-amada”, dando início a um diário mútuo que deveria doravante fazer parte das impressões na vida do casal. As anotações duraram três anos. Robert e Clara tiveram 8 filhos.
“Deixa-me, antes de mais nada, dar-te um beijo muito carinhoso neste dia, o primeiro da tua vida de mulher, o primeiro do teu vigésimo segundo ano. O livrinho que começo hoje tem um significado muito profundo. Ele deve se tornar um diário, falando de tudo o que temos em comum em nosso lar e em nossa união. Nossos desejos e esperanças serão registrados nele. Deve ser também um livro que contenha os pedidos que precisamos fazer um ao outro, quando as palavras não forem suficientes.
Se concordas comigo, querida esposa, prometa-me também que cumprirás rigorosamente o código deste vínculo conjugal, assim como eu mesmo te prometo aqui.
A cada oito dias, trocaremos a direção da correspondência. Todos os domingos (de preferência no café da manhã), ocorrerá a entrega do Diário, à qual não é proibido acrescentar um beijo. O que foi escrito será lido em seguida, em silêncio ou em voz alta, conforme as exigências do texto, acrescentando-se o que tiver sido esquecido.
Os votos expressos serão ouvidos, os pedidos apresentados e aprovados e, de maneira geral, nossa existência durante toda a semana cuidadosamente examinada, seja ela cheia de mérito e ação, seja por termos aumentado nosso bem-estar exterior ou interiormente, seja ainda por termos nos aperfeiçoado na arte que nos é tão cara.
As anotações de cada semana não devem ter menos de uma página. Quem descumprir essa regra receberá uma punição, ainda por definir.
Se algum membro de nossa Ordem Conjugal se atrevesse a passar uma semana sem escrever nada, a punição seria muito mais grave. Situação, no entanto, que mal podemos imaginar, dada nossa elevada estima mútua e nosso senso de dever. Todos esses estatutos e leis serão observados também em viagem, e o Diário deverá sempre nos acompanhar.
Um dos prazeres do nosso Diário será, como já foi dito, a crítica de nossa vida artística. Por exemplo, o que você gosta de estudar, o que você compõe e o que você pensa sobre isso. O mesmo se aplica a mim.
Outro ponto forte deste livro consistirá em descrições de personagens, por exemplo, de artistas de renome que tivermos conhecido, e em anedotas; os traços humorísticos serão muito bem-vindos. Mas o que há de mais belo e encantador neste livro, minha querida esposa, não quero chamá-lo pelo nome. Tuas belas esperanças e as minhas, que o Céu queira abençoar; teus cuidados e os meus, que o casamento traz consigo; enfim, todas as alegrias e todos os sofrimentos da vida em comum serão aqui fielmente descritos, o que nos reserva alegrias para nossa velhice.
Se concordas comigo em todos os pontos, minha querida esposa, escreve então teu nome abaixo do meu e pronuncia, como um talismã, as três palavras nas quais repousa a felicidade da vida:
Trabalho, economia, fidelidade”.
Uma das obras para piano mais inspiradas de Schumann é a Grande Humoresque op. 20 (1839), composição finda um ano e meio antes do casamento, assim definida pelo notável pianista francês Alfred Cortot (1977-1962): “A Humoresque constitui um dos exemplos mais marcantes do gênio inovador de Schumann e ao qual não se pode atribuir qualquer precedente em toda a história da literatura pianística”. Schumann, durante a gestação da Humoresque, obra constituída de duas dezenas de improvisações contínuas e sem quaisquer amarras formais, pensa em Clara e, se a dedicatória não é a ela destinada, a inspiração esteve sob a égide da sua futura esposa. Escreve à Clara: “Durante toda a semana estive ao piano e compus, ri e chorei ao mesmo tempo. Encontrarás a marca de tudo isso na minha Grande Humoresque” (11/03/1839).
Clique para ouvir, de Robert Schumann, a Humoresque op. 20, na interpretação de J.E.M.:
https://www.youtube.com/watch?v=9QLA5sKqlrc
Robert Schumann’s letter to his wife Clara—a record preserved in a wedding journal and written on their wedding day—reveals a deep bond between them, as the two were to record their hopes, feelings, and daily lives in that marriage diary.



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