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Mentira e delação premiada, males com efeitos imprevisíveis

Remédio é para o acidente, não para a essência.
Agostinho da Silva (“Espólio”)

Como sempre, aos sábados pela manhã vou à feira-livre do Campo Belo, limítrofe do meu Brooklin no qual persisto em morar desde 1958. É a teoria de Plínio Marcos, que considerava sua cidade não a natal, mas aquele torrão por ele habitado, Santa Cecília, no coração de São Paulo.

Encontro Marcelo e pergunto-lhe se tem desesperança quanto aos rumos do Brasil. “Não, estou a par de tudo, mas anestesiado, não mais acredito em soluções a médio prazo. Amigos estão pensando o mesmo e enxergam apenas neblina”. Insisti se achava essa atitude a melhor. “O cotidiano maculado diariamente não me possibilita outra maneira de pensar. Percebo que a grande maioria dos políticos está com ficha suja, sobretudo os que estão no poder neste século nada promissor. Estamos mergulhados num pântano”.  Após a feira-livre revisitei as charges de meu saudoso amigo e grande artista plástico, Luca Vitali (1940-2013). Como são atuais seus desenhos!

Nestes últimos anos causa-me perplexidade a insistência de temas precisos do cotidiano, recorrentes nas conversas que mantemos com amigos ou conhecidos. Houve mudança de foco. Se futebol, mormente entre os homens, é tema quase que prioritário, jamais abandonado, consolida-se um nítido desvio para assuntos mais voltados hoje à política e à corrupção. O Brasil sempre soube da corrupção, mas ela mantinha-se em espécie de “banho maria” ou, emprestando outra metáfora, como uma doença crônica sem consequência fatal. Saint-Exupéry, em “Citadelle”, conta a história do mendigo portador de chagas que não as deixava cicatrizarem, pois com elas conseguia a condolência pública.

Assistimos, principalmente a partir do início do século, à ascensão galopante desse flagelo que é a corrupção. Todos a conhecem, da burocracia a mais inferior na hierarquia aos políticos que pululam no Estado brasileiro. A Lava-Jato, surgida ocasionalmente, fixar-se-ia na corrupção programada “cirurgicamente”, sangrando o país, surrupiando verbas que deveriam estar direcionadas para o benefício do povo. É estarrecedor o modo como o Estado foi assaltado. Silente através das décadas, foi sacudido pelos desvarios do Mensalão, Petrolão e tantos outros mais, envolvendo políticos e empresários.

A tragédia brasileira é a absoluta destruição da ética e da moral. A mentira como verdade, a delação como “princípio final”. Machado de Assis já vaticinava que “a mentira é tão involuntária como a respiração”. A desgastada, mas tristemente real, frase de Joseph Goebbels – “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” – tem sido a “regra” daqueles, que por motivos vis, não querem e por vezes não podem (sic) confessar práticas ilícitas. Essa nefasta atitude de fuga da verdade é sempre e invariavelmente a resposta dos envolvidos, políticos, empresários e figuras dentro ou próximas ao poder quando atos de desvios de conduta a eles atribuídos são descobertos. Jamais confessam de imediato. Em entrevista publicada no dia 17, o coordenador-geral da força-tarefa da Operação Lava-Jato, Procurador Deltan Dallagnol, afirmou: “Existe um mundo de corrupção para ser investigado. Puxam-se penas e não vêm apenas galinhas, mas granjas inteiras….” (https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2017/07/17/classe-politica-a-espreita-de-uma-oportunidade-para-se-livrar-da-prisao).

Quanto à delação premiada, ela nunca é aceita em prol do Brasil pelo implicado em crimes de enriquecimento ilícito de toda a ordem, mas sim para o abrandamento da pena. A delação premiada está aí escancarada, a revelar escândalos que arrepiam a todos desvinculados de militâncias fanatizadas. A delação é uma das mais abjetas atitudes do homem. Paradoxalmente, revela a dimensão das entranhas apodrecidas pela corrupção. Sem a delação premiada como saberíamos de grande parte dos ilícitos? Estarrece o cidadão cumpridor de seus deveres e obrigações. Estou a me lembrar de minha tenra infância. Tinha eu não mais de dez anos quando entrei na sala de casa para dizer ao meu pai que irmãos tinham feito peraltices próprias da idade, mas que certamente o desagradariam. Imediatamente meu pai se retirou para reprimendas e eu ia segui-lo. Na sala estava Monsieur Keller, agente para a América Latina da firma francesa que meu pai representava em São Paulo. Com serenidade pediu que sentasse ao seu lado. Disse-me que a delação era a mãe de todos os males. Inocentemente perguntei-lhe qual a razão. Levantou a barra da calça e mostrou-me a perna mecânica. Assustado, indaguei-lhe o porquê. Falou-me então que, durante a primeira grande guerra, um desertor delatara aos alemães o esconderijo onde estava com outros soldados. Na escaramuça, a explosão de uma granada destruiu sua perna. Nunca mais me esqueci dessa história. Lição de vida.

A situação no Brasil estaria muito mais tranquila se julgamentos de políticos, empresários e figuras outras ligadas ao governo tivessem por parte do Judiciário maior rapidez. Impressiona no mundo ocidental a demora para que figuras proeminentes no cenário político brasileiro sejam julgadas, sentenças proferidas e penas cumpridas. Em meu blog sobre “A Justiça” (29/10/2009) comentava que pessoas das várias gradações da classe média por mim abordadas opinaram sobre a credibilidade da nossa Justiça. As vinte e tais questionadas responderam sem titubear que não acreditavam na Justiça de nosso país. Presentemente indaguei a um igual número de pessoas menos favorecidas e a unanimidade vinha carregada de certa irritação. Hoje a maioria desses trabalhadores de serviços ou de empresas tem algum dos muitos tipos de celular e contato direto com a notícia. Não são idiotas e facilmente percebem que nem todos são iguais perante a lei. Pessoas simples me responderam saber que presidentes ou ex foram presos após sentenciados na Coreia do Sul e no Peru, mas que o mesmo não ocorre no Brasil. Estão cientes da quantidade de políticos envolvidos com a Justiça. Quando mencionei a Lava-Jato, alguns disseram temer sua estagnação por forças estranhas. Aqueles com quem falei desconhecem a quantidade de recursos que tramitam nos muitos tribunais e prazos que, “legalmente” esticados, impedem a celeridade. Sem contar a quantidade absurda de processos engavetados à espera de resoluções sine die.

Marcelo, pertencente à classe média, asseverou-me também que hoje acredita ainda menos na Justiça do que em 2009, quando formulei-lhe a mesma pergunta. Citou-me com profundo desprezo decisões recentes do STE e STF. “Podemos confiar em nossos togados?”, perguntou-me. Realmente passamos por situação complexa também no âmbito do Judiciário, motivo pelo qual o descrédito existe.

O leitor que me acompanha desde Março de 2007 sabe bem que alguns temas abordados desagradam-me. Não fazem parte de minha respiração, o que não me impede de raramente tê-los em pauta. Esperemos que o Brasil não sofra tanto nas mãos de quantidade infindável de figuras mergulhadas em atividades ilícitas.

Revisiting illustrations made by my friend and painter Luca Vitali (1940-2013), I was led to reflect on the issue of corruption and dispensation of justice in Brazil and on the reasons why the common man has always had a distrust of our judiciary, tending to regard it as an exclusive reserve of the elites.

 

Tema que pode aplicar-se a inúmeras áreas


Acredito que o piano traduz uma confidência,
e esta não se grita sobre o telhado.
Désiré N’Kaoua

Há temas que extrapolam os limites de determinada área. Métodos podem diferenciar-se, mas a essência temática torna-se coesa e doutrinária a partir do enfoque abrangente que se lhe queira dar . A pedagogia relacionada a uma área do conhecimento tem com frequência vertentes que se aplicam em campos do conhecimento por vezes antagônicos.

Ao tratar, no post anterior, da crise do recital de piano solo, mormente para os intérpretes sem o abrigo de patrocinadores e das luzes dos holofotes, tópicos outros foram apreendidos nos textos que inseri anteriormente e de autoria dos notáveis músicos franceses Désiré N’Kaoua e François Servenière, pianista e compositor, respectivamente.

Primeiramente, há um aspecto que se torna mais sensível à medida que a tecnologia avança em seus multifacetados meios de comunicação. Paradoxalmente, há o progressivo desinteresse pelos padrões culturais que foram a base sólida da cultura ocidental. Désiré N’Kaoua comenta, com profunda agudeza e, hélas, ceticismo, vários dos muitos problemas que atingem o cerne da denominada música clássica ou de concerto, nas várias entrevistas concedidas recentemente para o site www.pianodoux.fr: “A história do piano ensina-nos que, no começo do século XX, a chegada de um virtuose numa capital era anunciada bem antecipadamente como um evento, as senhoras pensavam no que vestir ou mesmo encomendavam uma nova toilette para a ocasião. E hoje, é isso que ocorre?” Lembraria que Alfred Cortot (1877-1962), ao realizar tournée pelo Japão, ganhou da imperatriz uma ilha, Cortoshima, oferta rigorosamente impossível de ser dada na atualidade. Continua N’Kaoua:  “Paralelamente ao rush de novos pianistas, o público reduziu-se consideravelmente. A seguir a segunda grande guerra, a maioria dos melómanos europeus não supunha sequer a ideia de inserir, no interior do vocábulo ‘música’, outra coisa que as obras de grandes criadores como Mozart, Beethoven, etc… assim como algumas belas canções populares. O jazz, já existente há decênios no outro lado do Atlântico, veio (por que não?) a ser aceito até por aficcionados sectários e a ter abrigo no vocábulo ‘música’. Evitando-se um casamento misto, tomou-se o devido cuidado de delimitar fronteiras, qualificando-se de ‘clássica’ as obras escritas pelos grandes compositores incensados através da História. Sessenta anos após, o que nós chamamos de música, e que acreditamos ser eterna, mendiga um espaço restante, drenando um público cada vez mais restrito. Os amorosos dessa música, qualificada erroneamente de elitista, encontram-se confinados em um gueto e a mídia (cuja ambição é expandir seus índices) tem dúvidas sobre o concerto, e não se aflige sobre o fato de o Requiem de Mozart ser utilizado para suporte de uma publicidade”. E sobre a alienação da juventude frente à música clássica: “Os jovens que crescem hoje são ‘acalentados’ pelos ritmos primários, que desconhecem o sentido da música. Quem virá amanhã aos concertos? Sob outro enfoque, qual a porcentagem de crianças chegadas à adolescência que continuará a estudar um instrumento, sabedores que aprender é sinônimo de esforço? É fato que os vídeos são tão mais atraentes!!!”.

O desvio de intenções, voltado às “geringonças” sempre in progressiPad, iPod, iPhones - e seus infindáveis aplicativos, está a retirar das gerações mais novas a reflexão necessária. Colados às telinhas, multidões em compulsão fixam-se nas mensagens que proliferam nessa via em expansão, o WhatsApp. Essa distração globalizada impede a concentração, a disciplina e N’Kaoua, ao mencionar que “aprender é sinônimo de esforço”, aponta para uma realidade sem retorno. Tornar-se-ia evidente que o estudo sério de um instrumento musical, independente da apreensão de toda uma estrutura contida na partitura e além dela, requer disciplina espartana para que objetivos concretos se realizem. E estariam as gerações que surgem dispostas ao “sacrifício”, quando um totus se apresenta tão mais fácil? Não teria a pianista Eudóxia de Barros, no seu livro “Valeu a Pena?”, enfatizado incontáveis vezes a necessidade do estudo diário imprescindível?

O compositor e pensador François Servenière comenta: “admiro a dimensão geopolítica de Désiré N’Kaoua (post anterior). O que mais me chamou a atenção foi justamente a análise sobre a predominância da cultura europeia, que estancaria frente à mundialização, correlativamente à predominância de um de seus instrumentos culturais e burgueses mais emblemáticos, o piano”. Servenière escreve sobre os impostos do Estado taxando abusivamente a arte. “A arte era justamente a última coisa, individual, introspectiva, íntima, talvez reputada pelos invejosos como pertencente à burguesia – nada é menos seguro -, que poderia fazer supor estar fora da soberana e implacável tutela do Estado, da lei, muitas vezes oriunda geneticamente da violência cruel e injusta dos senhores ou príncipes de antanho contra seus povos. E por que não impor as garras sobre lápis, pincéis, cadernos, cores? Violência soberana, que provocou, há não muito tempo, nossa ensanguentada revolução francesa, com suas chagas jamais cicatrizadas e que se podem abrir a qualquer momento”. Não seriam os tentáculos do Estado a taxar a Cultura como um todo, como o faz com produtos banais de consumo, uma das formas do desvio de intenções? Sob outro ângulo, a grande maioria dos dirigentes culturais desconhece o sentido da palavra Cultura, entendendo-a como entretenimento, apenas. Assim não agiu o prefeito eleito João Dória ao convidar inicialmente Boni Sobrinho para a Secretaria da Cultura, que acabaria declinando o convite, ele um nome emblemático do… entretenimento? E a Cultura erudita, que não pertence aos índices mediáticos estratosféricos, mas que é base essencial para que não percamos o norte? Teria o futuro alcaide a noção ao menos potável da abrangência da Cultura?  Servenière continua: “Pode-se entender a mundialização como parâmetro evidente da decadência do recital de piano face às grandes máquinas espetaculares, que fazem lembrar um verdadeiro Barnum nos estádios para 80.000 lugares. Como lutar contra a potência dos decibéis, dos astros do rock e da canção? Pela inteligência. Na França, país de ponta no progresso e nos excessos, temos o rap, as mídias e a televisão invasora, a vulgarização do pensamento, seja ele artístico ou político, literário ou filosófico. Os códigos milenares da pintura e da escultura foram pisoteados pelos aprendizes de Fausto, teóricos da ideologia fecal encurralados e a levar a arte à sua vibrante dimensão do caos original, o menos digno que se possa imaginar. Não, não estou a metamorfosear artificialmente, nessa atualidade consumista que não sabe a diferença entre o universal e o banal, entre a escatologia e a coprologia. Um mundo de m—- gera o que promete e idealiza”. Para tanto, Servenière apresenta link com obras tidas como “arte”, fecais gigantescas que ocupam espaços em jardins,  parques e museus do Ocidente. Mario Vargas Llosa não teria mencionado exposição em Londres onde a “obra de arte” era representada pelo material constituído por fezes de elefante?

Servenière, em sua longa mensagem, retoma o item relativo à “geopolítica ligada ao desaparecimento do recital de piano e do piano… Pode-se invocar essa posição, pois nenhuma forma de expressão tem na essência validade universal para a eternidade. A moda e os instrumentos passam. Contudo, a sociedade humana é feita de ciclos, de avanços e recuos, de fases de excessos e, como contradição, de temperança, o que me leva a lembrar frases de Franz Liszt: “Fecundar o passado pensando no futuro, eis para mim o sentido do presente”, e de Nietzsche: “O homem do futuro será aquele que terá a mais vasta memória”. Que significam essas duas frases magistrais, pensadas por dois grandes mestres do passado? Simplesmente que o indivíduo que não tem memória (histórica, artística, cultural, semântica, visual, sonora, linguística, filosófica…) não terá futuro. Vivemos atualmente um dos grandes cismas psicosociológicos da história”.

Em artigo publicado nos anos 1980 (“As mortes do intérprete”, Cultura, O Estado de São Paulo, 24/12/1988), mencionava que a gravação é a aparência da perpetuação. Escrevia: “Pense-se no piano Bösendorfer-Computer ‘SE-Grandpiano’, capaz de dar ao registro fonográfico o real absoluto, onde a inexistência física do intérprete – ou o seu fantasma – , após gravação fixada, restitui à obra exata fidelidade da execução no instrumento mesmo em que o registro se verificou”. Tive a oportunidade de gravar uma peça de Rameau num desses pianos, em demonstração numa Feira de instrumentos no Anhembi, em São Paulo, ouvindo-a após, exatamente como se estivesse a tocar, ou seja, as teclas abaixavam durante a execução e eu, em pé, só observava atônito a minha interpretação tal qual a tinha realizado. Disse-me o representante da empresa que, doravante gravada e arquivada, em qualquer momento alguém no planeta poderia ouvi-la, desde que em instrumento similar. Atônito também fiquei ao sentir a “digitação” de grandes mestres mundiais do piano em obras fantásticas, teclas sendo acionadas, por vezes em velocidades à la Usain Bolt, como no caso do fantástico pianista de jazz Oscar Peterson. Teclado em seus movimentos naturais, mas sem a figura humana, e o som real transmitiam uma estranha sensação presencial. Servenière menciona o Diskklavier da Yamaha, inventado em 1980, e vê no processo dessa “família” tecnológica, próxima à do piano Bösendorfer, um caminho distinto, “o piano do recital solo a entrar no futuro neste século XXI !!! Muitos poderão urrar, voltados que estão ao purismo. Não eu. Para mim a cultura do piano se difunde, e as performances dos mais ilustres contemporâneos estão gravadas. A geração passada recusa o processo, mas ela também recusou a informatização eletrônica décadas atrás para o órgão instrumento, processo que pode manter todos os dados arquivados pelo organista. Os puristas que não concordam utilizam em suas casas aparelhos de microondas, celulares, computadores e televisão. Doravante, o piano tem mais esse caminho e as performances dos grandes pianistas (do presente e do futuro) poderão ser escutadas em tempo real, tranquilamente, em casa. Não falo dos meios de difusão da música, graças aos aparelhos domésticos que conquistaram o mundo inteiro. A Cultura sempre teve opções outras em seu baú… Nada há que comprove a sua morte, pois, acredito, o inverso está a se produzir. Como sempre, há cumeeiras e abismos, ciclos, recuos, renascimento, novos meios de difusão, desaparecimento de modismos, novos processos artísticos. Haverá uma triagem natural no que concerne à cultura. Os povos, mesmo enclausurados em campos de concentração e de morte, sabem o que é importante ou não. Depois da enxurrada de idiotices musicais que inunda o planeta, o ouvinte retorna aos lugares onde ele sabe que encontrará a qualidade, mais do que a absurda quantidade de furor e barulho ensurdecedor. Os povos, naturalmente, sabem o que é necessário salvaguardar ou não, mesmo nos períodos de caos. Enfim, seu último post permite essas digressões filosófico-histórico-pragmáticas. Há a necessidade de retorno ao trabalho manual, necessário para certas qualidades e experiências valorizadas no passado e, como escrevia Rousseau, ‘é necessário cultivar nosso jardim’. A tecnologia virtual evolui sem limites… mas sem o contato com a terra, com o real, essa inteligência ‘retorna ao caos’. De maneira cíclica”. Não por acaso, Désiré N’Kaoua observa em sua entrevista plena de reflexões: “Ao chegar à idade próxima de meus mais de 80 anos, dividi meu tempo ora dedicado ao piano, ora à jardinagem cotidiana e aí, como faço ao ler uma obra musical, a menor folha morta sobre a terra é para mim como uma mancha sobre uma bela partitura”. (traduções: J.E.M.)

Todas essas observações de ilustres músicos e pensadores nos levam à reflexão sobre o futuro do piano. Salientaria que a tecnologia mecânico-sonora dos pianos Bösendorfer e Yamaha, mencionada acima e datada das décadas de 1980, ocupou poucas salas de concerto, mas aponta para o futuro. Sob outro aspecto, aperfeiçoamentos acrescentados aos pianos Steinway, assim como a qualidade indiscutível dos instrumentos Fazioli, levam-nos a pensar. Se, por um lado, as grandes marcas são basicamente destinadas às grandes salas de concerto espalhadas pelo planeta, mercê dos preços altíssimos, os recitais de piano solo nas pequenas salas continuarão colocando, mormente no Brasil, o pianista sempre em alerta, pois jamais saberá a qualidade do instrumento que terá de enfrentar. Um recitalista experiente poderá não se lembrar dos melhores pianos, mas jamais se esquecerá de um mau piano.

Continuo pleno de esperanças, friso.

Resuming the subject of last week’s post, I transcribe excerpts of an interview given by the French pianist Désiré N’Kaoua and of an e-mail message from the composer François Servenière, both musicians giving their views on the issue of shrinking spaces for piano solo performances.

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Chapecoense (In Memoriam)

Nada sabemos a respeito de determinados desígnios. A tragédia que se abateu sobre a valorosa equipe de futebol da Chapecoense só ocorreu graças ao contrário absoluto, instantâneo, fruto do mais preciso reflexo. Ao defender com o pé direito uma bola certeira endereçada ao gol da Chapecoense, chutada por jogador do San Lorenzo, Danilo, o goleiro salvador, “São Danilo”, doravante aclamado pelos milhares de torcedores que acorreram à Arena Condá, em Chapecó, eliminava a equipe argentina e entregava a caneta àquele que redigiria, uma semana após, o atestado de óbito de praticamente toda a gloriosa equipe da aprazível e congraçadora cidade. Assisti pela Fox Sports aos dois jogos inteiros entre a Chapecoense e o San Lorenzo, esta a equipe do Papa Francisco. No instante do acontecido, o brilhante narrador Deva Pascovicci, em locução apaixonada, exaltou o milagre da defesa de Danilo, o goleiro “salvador”. Lógico, também vibrei. Pascovicci, Danilo e mais 69 atletas, dirigentes, jornalistas e tripulantes da aeronave sucumbiram.

Como sempre o faço, não me inclino a escrever imediatamente após qualquer acontecimento. Fá-lo-ei na próxima semana. A decantação elimina incertezas.

 

 

 


O que se ouve pelas ruas

Quando alguém constrói um navio,
não se preocupa com os rebites, nem com os mastros,
tampouco com as pranchas da ponte.
Trabalho findo, enclausura dez mil escravos
e alguns capatazes munidos de chicotes.
E a glória do navio se expande.
Jamais conheci um escravo que se vangloriasse de ter vencido o mar.
Saint-Exupéry
(Citadelle, cap. LXXVIII)

Um dos traços marcantes na literatura de Fiodor Dostoïevsky (1821-1881) é sua capacidade de observação e a apreensão de pormenores que poderiam parecer irrisórios, atribuindo-lhes importância. Essa observação só se torna possível através da memória, que retém as lembranças. Perfila entre os personagens de seus romances essa profunda qualidade de perscrutar a alma humana. Diversidade de personalidades em obras que perduraram: Os irmãos Karamazov, O Idiota, Crime e Castigo, O Eterno Marido, Aldeia de Stiepantchiko e seus habitantes, entre tantos livros consagrados, evidenciam esse penetrar a alma humana. Observar é inalienável qualidade na extraordinária obra de Dostoïevsky, autor que me fascinou quando de meus estudos em Paris durante a juventude. “Aprendi a conhecer o povo russo, como poucos o conhecem”, escreveu Doistoïevsky a um amigo, quando o autor de Recordações da Casa dos Mortos esteve preso na Sibéria. Esse observar, encontrável em tantos outros autores eslavos e em particular no compositor Modest Moussorgsky (1839-1881), tem muito a ver com aquilo que Sylvain Tesson coloca, sob outro contexto, como pofiguismo, quando estagiou no lago Baikal, na Sibéria. A palavra, sem tradução em França como na língua portuguesa, remete-nos àquilo que, no entender de Tesson, “é uma resignação alegre, desesperada frente ao que virá”. O adepto do pofiguismo não se agita frente ao infortúnio, aceita-o (vide obras resenhadas do autor no item Livros do menu). Apreende o que vê e tende à nostalgia.

A premissa se faz necessária em virtude desses tormentosos momentos  que o país atravessa, eivado de “certezas” anunciadas e desmentidas poucas horas após pelas autoridades que as divulgaram. O comandante de um barco à deriva não tem as mesmas “decisões”?

Como cidadão, gosto imenso de auscultar pessoas das mais variadas camadas sociais, assim designadas. Dão-me a medida do termômetro, sem que necessário seja ter de recorrer às pesquisas, que colocam abaixo de dois dígitos a popularidade da presidente de plantão. O que impressiona é que, do profissional liberal ao empresário, do laborioso caixa de um supermercado ao professor esclarecido, do estudante que realmente estuda ao motorista de táxi, as estatísticas confirmam essa triste constatação. Sob outro aspecto, aquilo que Tesson observa como pofiguismo na alma e no viver do povo russo amolda-se perfeitamente ao que assistimos, uma resignação “nostálgica”, um aceitar todos esses desacertos como se eles fossem irremediáveis. O cidadão observa, recolhe-se e sente que a chaga da corrupção que se agigantou geometricamente a partir de 2003, está aberta e purulenta. Sinto, nessa auscultação e no observar semblantes após respostas, um quase que desânimo. A triste dificuldade da presidente em ser coerente, ao menos no respeito à construção das frases, o que leva à frequente ininteligibilidade de sua fala quando improvisa o discurso, assim como o despreparo na direção do país, desconcertam a população. A presidente não mais consegue falar em rede nacional, pois o panelaço será a instantânea resposta da população. A segurança de um navio está em seu timoneiro. A suspeição que sobre ela recai, a envolver “desatenção” a tantas irregularidades cometidas em sua gestão, desacredita-a. Os terríveis males que vinham dos dois governos que antecederam seu primeiro mandato só foram dimensionados. O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, em recente pronunciamento, avalia como “método de governança criminosa” a gestão petista. E persiste a corrupção, essa mãe de toda administração, tanto pública como privada. Enraizada até o lençol freático. É claro que, e isso também observei,  quando se trata de um militante petista, nada a fazer, pois ele tem frases feitas, repetições ad nauseam dos pronunciamentos em recintos propícios que realiza o último ex-presidente. Nessas bravatas, FHC está sempre presente, apesar de há bem mais de uma década ter encerrado seu governo. É possível entender uma obsessão clara do último ex pelo seu antecessor.

A observação me levou ao cerne desse pofiguismo. Os que tenho ouvido e que acompanharam o Mensalão e assistem à interminável e desastrosa novela do Petrolão,  nascida no governo do último ex-presidente, estão revoltadamente resignados. Entendem que um modelo de governança está estiolado, mas preferem cuidar de um dia a dia cada vez mais restrito quanto à realização pessoal e acesso aos bens que, anos atrás, apontavam erroneamente para um Xangri-lá que se sabia a “aparência” da realidade,  amplamente anunciado pela mídia esclarecida como bolha a explodir logo adiante, o que está a ocorrer, hélas.

Para os meus generosos leitores, sugeriria esse auscultar junto às diversas camadas sociais. Leitores de vários rincões deste imenso país poderão ter respostas aproximadas. É só começar.

Enquanto panem et circenses estiverem distraindo parte do povo, mercê do futebol e sua imensa divulgação, dos shows e festivais que vão do rock pauleira ao sertanejo brega e das novelas com anestésicos enredos, que ocupam os principais horários televisivos, o povo brasileiro estará resignado. É de se louvar aqueles que protestam e se organizam pacificamente na busca de uma conscientização necessária. Baluartes. O último rebaixamento do Brasil por importante agência internacional, a Standard & Poor’s, minimizado grotescamente pelo último ex, que a exaltara em 2008, é sinal de alerta, a apontar para tempos difíceis que deveremos passar. Pacificamente, desse pofiguismo atávico deve o povo brasileiro tomar consciência e colaborar no sentido de que sejam encontradas soluções que sobretudo não onerem ainda mais o já super tributado cidadão brasileiro. Os cortes de gastos são rigorosamente necessários. Estariam os governantes, em todas as esferas, dispostos a renunciar às incríveis mordomias que se auto outorgaram?

Para finalizar, relato o que ouvi de um diplomata francês, décadas atrás. Dizia ele que um seu colega voltava do Médio Oriente em classe turística e encontrou um colega brasileiro, que estava a viajar na primeira classe. À indagação deste no sentido de viajarem juntos, o francês teria respondido: “não pertenço a um país rico”. Nada a acrescentar.

This post addresses the ability to observe day-to-day life as expressed by Dostoïevsky, Saint-Exupéry, Sylvain Tesson and the man in the street and the entrenched inertia of unhappy Brazilians to change the status-quo.