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Em torno de uma coletânea singular

Que beleza há na música “apenas ela”,
aquela que não toma partido,
uma busca para surpreender os ditos “diletantes”…
Seria a plena emoção que ela contém encontrável em qualquer outra arte?
… raros são aqueles para quem basta apenas a beleza do som.
Claude Debussy
(carta de Debussy a Bernardo Molinari, 06/10/1915)

No post precedente tracei sucintamente dados biográficos de Francisco de Lacerda, assim como seus laços musicais com Claude Debussy, fundamentais para a conferência do dia 19 no Consulado Geral de Portugal em São Paulo com o tema “Francisco de Lacerda e o requinte sonoro”. Ilustres coetâneos do músico açoriano louvaram suas inefáveis qualidades no comando de uma orquestra. No presente blog, abordarei Francisco de Lacerda compositor, pormenorizando-me nas obras para piano que serão apresentadas no dia 26 no Ateneu Paulistano, em São Paulo.

Comparando-se à opera omnia de tantos ilustres compositores, a produção de Francisco de Lacerda é quantitativamente ínfima. Sob outra égide, o notável Henry Duparc (1848-1933) bem mais não produziu por ter sido acometido por doença mental, impossibilitando-o de continuar a compor regularmente. Seu legado maiúsculo é constituído pelas 17 melodias (1868-1884) que têm sido visitadas pelos mais respeitados cantores, como Gérard Sousay, Jessye Norman, José van Dam, Kiri Te Kanawa… A intensa atividade de Lacerda como regente foi uma das razões para que ele se tenha fixado nas peças de curto fôlego, as denominadas miniaturas. Não obstante, excelsa qualidade emana das “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1902-1922) e da “maioria” de outras pequenas composições avulsas, pouco menos de duas dezenas. Dessas composições apresentarei cinco na segunda parte, que dizem muito da personalidade de seu criador.

“Zara – epitáfio para uma criança” (1900), miniatura que, em apenas 23 compassos, expõe magistral capacidade de síntese.  O compositor e pensador Willy Corrêa de Oliveira (1938- ), ao ouvir “Zara”, pediu-me imediatamente uma cópia. Dias após, nascia “In Memoriam Francisco de Lacerda” (2019), outra categoria de síntese onde não faltam alusões a Chopin, Beethoven, Schönberg e Zara, “o som de Zara”, como diz Willy. Gostei imenso. Lembro ao leitor que em 2011 os ilustres compositores Eurico Carrapatoso (Portugal) e François Servenière (França) escreveram, respectivamente, “Six histoires d’Enfants pour amuser un artiste” e “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” em homenagem a Francisco de Lacerda. Apresentei as duas séries no mesmo ano e em primeira audição, na cidade de Coimbra em Portugal.

“Papillons” (1896) evidencia outro compartimento, diria raro, na criação de Lacerda. Trata-se de uma valsa d’un mouvement trés vif et capricieux.

As três peças, pertencentes às “Levantinas – Impressões de viagem”, teriam sido escritas em 1925, ano em que Lacerda esteve no Próximo Oriente. Em “Acrópole – Dança grega”, “Dos minaretes de Suleiman-Djami” e “Ao crepúsculo – No cemitério de Eyoub” Lacerda impregna-se da atmosfera vivenciada e o trio, mormente na segunda criação, emana nítido orientalismo. Quanto “Ao crepúsculo…”, Francisco de Lacerda faria versão para orquestra sob o título “Almourol”. Seu biógrafo José Manuel Bettencourt da Câmara escreve: “É significativo que, no frontispício de páginas musicais indubitavelmente destinadas ao piano, Francisco de Lacerda tenha escrito: ‘Je ne peux rien concevoir sans entendre l’orchestre’… tal afirmação manifesta também, reversamente, o lugar por Lacerda atribuído ao piano, na sua vida e no conjunto de sua produção musical”.

Clique para ouvir de Francisco de Lacerda, Almourol. Budapest Philharmonic Orchestra sob a direção de János Sándor (selo PortugalSom) Fonte: Google / Youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=gF7hzW2SR8I

No post anterior comentei a premiação recebida por Lacerda no Concurso promovido pela Revue Musicale em 1904, estando Claude Debussy no júri. Interpretarei a “Danse du Voile – Danse Sacrée” de Lacerda e as duas danças de Debussy, “Danse Sacrée  Danse Profane”, na versão para piano solo realizada pelo editor do compositor, Jacques Durand (1907), aprovada pelo mestre francês, finalizando o programa do recital do dia 26 de Outubro.

Lacerda seria imortalizado, porém, pela magistral coletânea “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, longamente gestada, que será apresentada na íntegra na primeira parte do programa. Miniaturas que representam uma enciclopédia de timbres, de sonoridades seletivas, de ressonâncias, de processos escriturais. Seguindo trilha paralela à de Debussy nesse aspecto sonoro e na busca dos timbres inusitados, Lacerda realizaria penetração incisiva nessas searas, mormente se considerarmos a extrema economia quanto a processos virtuosísticos e o emprego de formas tratadas de maneira resumida. Sob outra égide, à inexistência da transcendência técnico-pianística contrapõe-se outra transcendência, essa de ordem interpretativa, pois em todas as 36 miniaturas o cuidado com a sequência sonora, que tem de ser seguida com o esmero de um ourives, implica emergir o que há de mais intrínseco no de profundis de um intérprete. A expressão que emana dessas miniaturas corresponderia à contemplação. Inexiste o arroubo, a vaidade a evidenciar egos e exterioridades. Enciclopédia outra de aspectos “interiorizados” da técnica pianística como legatos; substituições dos dedos sobre uma mesma tecla; pedais em múltiplas gradações; prolongamento sonoro da nota solitária, continuação de discurso que, a certa altura, deixa-a soar até a extinção. Por vezes, na plena textura essa nota tem o caráter de nota pedal, não apenas como fundamental. Essa nota destacada, geralmente de um acorde, estabelece outras ressonâncias. Liberada tornando-se isolada, segue seu destino até o inaudível ou a gerar outras possibilidades. Solitária, povoa as Trente-six histoires… Testemunha sem disfarces as impressões digitais etéreas de Lacerda. A nota som, a soar com suas ressonâncias, está presente em tantas obras de Debussy, mas em Lacerda adquire o permanente convívio.

Temos nas Trente-six histoires… uma fauna basicamente doméstica ou não violenta para o humano e mesmo se há um velho lobo, ele deixou sua agressividade e tem-se um canto de lamento. O bestiário de Lacerda, em muitas situações, busca inspiração e soluções sonoras na onomatopeia. Camille Saint-Saëns, Maurice Ravel, Francis Poulenc e Érik Satie, sob outra égide, assim o fizeram. Em várias histórias Lacerda segue o princípio da música programática, escrevendo frases acompanhando segmentos do discurso musical. Noutras, insere epígrafes em francês, umas jocosas, outras tristes, outras mais reflexivas. Insiro algumas dessas epígrafes, indicando o número da miniatura, traduzindo título e epígrafe:

6 – “O galo e sua sombra”: Um muro branco. / Um galo. / Muito sol!
12 – “Pomba Rola”: Felizes no medo e na solidão…
14“Meu cachorro e a lua”: Venha cá! Cala-te! O que tu vês? / Sombras? Chopin? Debussy? / Venha cá. Cala-te. São Amigos de nós todos.
17 – “O Macaco que Sonha”. Ao fim da peça: Algumas observações: O macaco que sonha… que devaneia, ou o macaco distraído, como quiseres. / Essa História deve ser muito bem tocada, pois deve ser bem uma macaquice… O ponto culminante é a palavra “Sol”. Tu entenderás que nesse momento será necessário que seja bem quente e luminoso. Para o vento, apenas uma pequena brisa, imperceptível. Quanto à queda – patatras? – não mexer o teclado, tampouco os dedos… E estarás bem assim.
18 – “Anacleto, o Simples”: Trata-se do único humano da coletânea: Está escuro…/ Brr… / Faz frio… / Tenho fome… / Brr…
21 – “O bode bêbado”: Bacchus et coetera, / Pã, Faunos e Sátiros, / tudo isso… / sou eu!
22 – “O cordeiro fugidio”: Um cordeiro. / Um rebanho. / Um pastor. / Um cachorro. / Sinos, etc, etc. / Uma colina à direita ao fundo / O mar ao fundo. / O céu muito azul.
23 – “ Pequeno Elefante Chora”: Ele chora pois fez traquinagem e então  apanhou um pouco, lamentando sua mãe e seu país a pensar então em coisas bem elefantinas e tristes…
24 – “O Polvo”. Erik Satie, ao escrever “O Polvo”, integrante da coletânea “Sports et Divertissement” (1911), apresenta o polvo a comer um crustáceo, inserindo a frase após o ato: bebe um copo de água salgada para se recompor”. Lacerda narra a história de seu polvo: O peixinho nada em círculos… e Madame Polvo observa / Viscoso e trágico / Após comer, ela entra em seu buraco… vê-se apenas um olho fosforescente e diabólico. Na realidade, liberando os sons do acorde, Lacerda deixa ouvir apenas a nota solitária tratada acima.
28 – “Lamúria de uma Cabra”: Quando encarceramos uma cabra habituada ao convívio de seus semelhantes, ela emite balidos de desespero, e fica muito tempo sem beber ou comer… (Brehm, vol. III, pag, 604).
30 – “O Velho Lobo”: Acabaram-se os rebanhos! / Colinas áridas; vales desertos! / Os doces e tenros cordeirinhos / Tornaram-se grandes e fortes carneiros / Acabaram-se os rebanhos / Colinas áridas, vales desertos.

O saudoso amigo e pintor Luca Vitali (1940-2013) recriou algumas figuras do bestiário nas atribuições que Francisco de Lacerda conferiu na sua criação maior, as “Trente-six histoires por amuser les enfants d’un artiste”. Essas imagens e mais o power point de todas as 36 histórias, preparado pelo ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso, estarão até o final do ano no Youtube, a partir de minha gravação da obra para o selo De Rode Pomp (1999). Elson Otake, como sempre, já está  a adaptar cronometricamente imagens e música.

As seis ilustrações de Luca Vitali para a coletânea:

“Os pássaros que se vão para sempre”

“Anacleto, o simples”, “Certa raposa”, “Macaco”, “O cão a sonhar”, “O galgo russo”

“O veado ferido”, “O cachorro e a lua”, “O bode bêbado”, “O pequeno elefante chora”

“O galo e sua sombra”, “Duas pombas na torre”, “Mestre corvo”, “O pato que comeu a rã”:

“O polvo”, “Mamãe leão marinho acalanta seu bebê”, “Canção dos pinguins”, “Dança nupcial das morsas”:

“O dragão vermelho”
Alusão à Revolução Russa de 1917?
O ritmo marcial da seção intermediária da peça, a indicação de andamento “encore plus lent” e a frase “Très moscovite et mystérieuse” são indícios.
Luca Vitali teria captado a essência da mensagem de Lacerda:

Se encontramos tantas influências de compositores que Lacerda conheceu pessoalmente ou através de obras, como as de Moussorgsky e Borodin, destaca-se prioritariamente Claude Debussy e, independentemente dos aspectos sonoros, essa influência se estabeleceria também num plano do universo lúdico infantil. Quando estive em tournée pelo arquipélago dos Açores em 1992 (Museu de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira), observei que as inúmeras partituras de Debussy para piano, orquestra, canto, mormente “Childrens’s Corner” (1906-1908) e “La Boîte à Joujoux” (1913) para piano, estavam profusamente assinaladas e estudadas por Lacerda. Essas anotações visavam sobretudo a aspectos coreográficos das duas criações.

Entendo que a obra “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” é capital na literatura pianística. Francisco de Lacerda, apesar de não divulgado à altura, deixou legado insofismável. Contudo, para o público que aprecia a obra de arte que independe de outra categoria de valor, como o impacto e o possante holofote, ouvir Francisco de Lacerda subjetiva tantos outros valores…

The Portuguese musician Francisco de Lacerda, better known as conductor, was also a first class composer, but sacrificed his job as composer to that of conductor. For this reason, his production is very small and basically restricted to miniatures. Though Lacerda has not received the recognition a composer with his accomplishments would deserve, he left a precious legacy behind him, as evidenced by his “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1902-1922), a masterpiece of the pianistic literature on which he worked for twenty years. I will play the “Trente-six histories…” and five of Lacerda’s miniatures for piano, together with Debussy’s “Danse sacrée” and “Danse profane” (original ly written for harp and strings, piano transcription made by Debussy’s publisher Jacques Durand) in my forthcoming recital at the Ateneu Paulistano on 26 October.


Sem a menor possibilidade de melhora

Hoy ya nadie es inculto o, mejor dicho, todos somos cultos.
Ahora todos somos cultos de alguna manera,
aunque no hayamos leído nunca un libro,
ni visitado una exposición de pintura, escuchado un concierto,
ni adquirido algunas nociones básicas de los conocimientos humanísticos,
científicos y tecnológicos del mundo em que vivimos.
Mario Vargas Llosa
(“La Civilización del espectáculo” 2012)

O acúmulo das décadas tende a acurar a observação, realidade multidirecionada a depender do conteúdo de impactos diários que interferem na apreciação. Nas áreas em que o humano atua, transformações naturais, no decorrer dos decênios, servem de balizamento no todo. Poder-se-ia dizer que a observação, essa qualidade benfazeja, acentuada com o passar dos anos, preferencialmente conduz a um saudosismo. É natural, sempre foi assim. Quantas e quantas vezes a frase “No meu tempo…” é dita para atribuir vantagens ao passado que não mais volta? Sim, temos de nos adequar. Tenho como exemplo meu saudoso pai, que, ao completar 100 anos, comprou um computador, escrevendo na nova engenhoca seu sétimo livro, que deveria ser lançado uma semana após uma queda que sofreria e que o levaria ao óbito meses após. Sua observação era diariamente atualizada. Creio que exceção absoluta.

Não compro jornais e revistas há mais de 20 anos, acompanhando online o noticiário de nosso país, assim como o internacional. Cada cidadão sabe onde encontrar o que lhe interessa. Essa prática possibilita uma “atualização” constante, e o fato de ler artigos de múltiplas tendências corrobora a formação opinativa.

Lê-se sempre mais acentuadamente, nos principais provedores de internet, o pretenso debate ideológico. Majoritariamente enfadonho, pois dirigido e supertendencioso, a depender da orientação dirigente. Não se debate, opina-se de acordo com enraizadas ideologias. Rarissimamente há textos isentos. Triste realidade a acometer jornalistas que não conseguem ser imparciais. Sem falar em periodistas camaleões, louvadores de determinada tendência e que partem para outra posição bem oposta sem o menor rubor. Nesta instalados, insistem à exaustão, a denegrir determinado personagem da política ou do judiciário, antes louvado.

Ao escrever que a cultura erudita estava num declínio sem volta, Mario Vargas Lhosa, em “La Civilización del Espectáculo”, apenas conceitua triste realidade que está a se acentuar de maneira vertiginosa. Estou a me lembrar do competente acadêmico Nilo Scalzo (1929-2007), editor-chefe do Suplemento Literário e do Suplemento Cultural – Suplemento Cultura de “O Estado de São Paulo”. Colaborei de 1980 a 1990 com artigos agendados bem previamente. Nilo Scalzo reunia sua equipe para pautar matérias que deveriam ser publicadas no ano seguinte, geralmente a contemplar efemérides significativas nas várias áreas, a abranger literatura, artes, música, ciência… Quando entendia fato relevante indispensável, ponderava eu na reunião que precisaria de três páginas, a fim de ter espaço necessário à temática. Nilo Scalzo aquiescia e foram vários meus artigos nessa dimensão em Suplemento que era semanal e robusto. Minhas colaborações foram publicadas no livro “Encontros sob Música”, (Belém, Cejup, 1990), tendo eu a honra de ter sido prefaciado pelo saudoso Nilo Scalzo.

A menção a esse período poderia parecer ao leitor nostálgica de minha parte. Como não entender como hecatombe o que se lê nos principais provedores de internet? No noticiário fundamental, a apontar importância de determinado acontecimento, geralmente político-judiciário, com espaço nem sempre à altura do fato em si, anexam besteirol ilimitado dos chamados “famosos”, personagens que pululam em profusão, geralmente incensados pela insensatez de seus atos insignificantes, mas que os provedores sabem ser destino certo de milhões de seguidores enfeitiçados pelos “iluminados” por possantes holofotes. Despreza-se a Cultura com C maiúsculo, sim, em detrimento de superficialidades idiotizadas que acabam por destruir moral, costumes, família… Em nome da liberdade da comunicação, o que se vê é uma ilimitada visão a tornar o caricato, verdade; palavras de baixíssimo calão, naturalidade aplaudida; a distração da realidade, o divertimento duvidoso; a profusão de “possibilidades sexuais”, a divulgação do equívoco essencial, pois antinatural; a vestimenta destroçada, moda. Estou a me lembrar de comentário de meu ilustre amigo, o musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso. Em Oeiras, Portugal, ao ver passar por nós uma mulher com jeans rasgado, moda presente e altamente aceita, comentou: “Trata-se de uma ofensa aos pobres”. Completou “um necessitado prefere receber uma calça bem velha, mas rasgada é um escárnio”. Sinal dos tempos. Creio que doravante ainda assistiremos degringoladas mais acentuadas. O tempo infalível.

This post addresses the poor quality of mainstream media reports, which favor sensational journalism — especially accounts of the private life of public figures — over substantive stuff. If gossip, scandal and banalities are what people want, that’s what the media gives them, it’s part of the business. My pessimism about today’s society has only gotten worse with time and I believe the decadence of Culture with a capital C has reached a point of no return.

A acolhida silenciosa


Estar na Bélgica, precisamente em Gent e Mullem, traz-me lembranças de mais de duas décadas de convívio. Acredito terem sido para mim os anos de maior relacionamento voltado à essência musical, mercê prioritariamente das gravações. Registro definitivo pressupõe uma abordagem que escapa à apresentação pública. Mesmo a gravação com vídeo carrega consigo elementos voltados para o gestual do executante. Presentemente esse procedimento tem atingido limites aceitos pelo público ávido da imagem, mas que retiram a concentração do essencial, a música.

No silêncio absoluto da Capela Saint Hilarius, em Mullem, estou a viver meu derradeiro contato visando à edição de um CD. Antes da gravação dei recital na Capela, a apresentar todo o repertório a ser gravado. Faço-o sempre, desde o final dos anos 1990. Inclusive essa prévia com público competente faz com que já penetre nessa atmosfera inefável, solitária e mística da gravação. Três dias, como sempre, ou melhor, três noites, que têm início por volta das 23:00 e se estiolam na aurora. Sem açodamento, sem tensão ou ansiedade. Meu dileto amigo e excepcional engenheiro de som é também psicanalista. Sabe entender-me. Tem a percepção exata de que em determinado momento é necessária a pausa. Nos vinte anos de convívio anual, em datas precisas, jamais se preocupou com o tempo. Johan conhece a mente e o coração do intérprete. Encerramos as sessões num acordo mútuo. Essa atitude, raríssima entre profissionais de seu nível, permite que a transmissão da mensagem musical possa ser passada por inteiro aos microfones, que representam o público do amanhã. Se o recital é o vento que passa, a gravação nessas condições pode ser comparada à permanência, às pegadas deixadas no interior desse arsenal tecnológico que nem o vento ou o mar, em seu eterno fluxo, podem fazer desaparecer.

Escrevi ultimamente sobre legado e as admiráveis frases do filósofo português Eduardo Lourenço ainda estão vivas em minha mente: “O problema é que, consciente ou inconscientemente, escrevemos como se fôssemos eternos. Sem essa ilusão de eternidade como coisa nossa, nós não escreveríamos nada de realmente grandioso”. Acredito que a única certeza é a realização a mais cuidada possível. Meu dileto amigo Willy Corrêa de Oliveira, pensador e compositor de mérito, escreveu que “Intérprete é só aquele a quem é dado tocar o mistério. Ciência nenhuma leva até onde o mistério está”. Essa busca incessante pelo conteúdo essencial de uma obra escolhida para ser transmitida pode chegar a termo relativo, pois o anseio é sempre o do aprimorar. Em 1915, Debussy escrevia a Molinari que a beleza do som é a essência da Música. Chegar ao limite de uma interpretação pode acontecer em raros momentos. O hic et nunc ou, como diria o poeta, “a chegada das musas a inspirarem o ato criativo”, não acontece sempre, assim como a visão de pássaros migratórios ou da aurora boreal não é cotidiana.

Dificuldades quanto à Internet impedem-me de o alongar o texto.