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Reflexões de François Servenière sobre um Noturno de Henrique Oswald

Bom tempo mesmo aquele que imagino ter sido.
Agostinho da Silva
(Espólio)

Os três recitais dedicados ao lançamento do CD “O Romantismo de Henrique Oswald” tiveram boa recepção por parte de ouvintes que me enviaram mensagens curtas, mas significativas. Após o recital apresentado na Igreja da Boa Morte, em São Paulo, a competente equipe do SESC (Serviço Social do Comércio) solicitou-me a gravação de uma peça do ilustre compositor para conservar em seus arquivos. Aquiesci e gravei o “Nocturne op. 6 nº 1″, que durante a apresentação foi interpretado logo após o “Nocturne nº 4″ do notável Gabriel Fauré (1845-1924). A intenção foi proposital, a evidenciar uma identidade que, em não poucas criações, expõe a admiração de Henrique Oswald (1852-1931) pelo mestre francês, contudo a manter as próprias impressões digitais insofismáveis.

O compositor François Servenière ouviu o “Nocturne” de Oswald através do link que anexo ao presente blog e emitiu considerações de real interesse. Anteriormente conhecera meus CDs precedentes dedicados à obra para piano solo e camerística de nosso maior compositor romântico.

https://www.sescsp.org.br/online/selo-sesc/822_UM+PLANO+JOSE+EDUARDO+MARTINS+NOCTURNE+OP6+N+1#/tagcloud=lista

“Ouvi o ‘Nocturne op. 6 nº 1′ de Oswald que você me enviou. Como antes, ao ouvir seus vários CDs dedicados ao compositor, subjuguei-me ao charme das notas aveludadas, tão perfeitamente harmonizadas. Ouvindo atentamente Oswald e Fauré no silêncio absoluto, compreendi uma antiga chave mestra da composição, que me foi extremamente útil nos primeiros tempos do métier. Posso parecer tolo, tal o truísmo dessa revelação. Essa verdade é expressa com grande emoção através de seus dedos. Na realidade, eu ouvia esse ‘Nocturne’ e me perguntava: qual é a chave dessa narração? Bastaram poucos segundos para descobrir que esta chave era ‘o canto’. Ao retiramos a parte cientificamente construída do acompanhamento, chegamos a escutar a melodia, que flui magistralmente. José Eduardo responderia polidamente, em silêncio, ‘é bem isso, com certeza’, olhando-me com altivez musicológica!

A realidade evidencia que não é tão simples assim a escritura de Oswald. Comungamos o fato de que a música está plena de chaves, a levar a escrita composicional a todos os caminhos e das maneiras mais diversas. No limit. A música está à altura do universo que a criou. Em todos os sentidos. Em todos os volumes. Em todas as dimensões. Em todos os estilos. Em todas as culturas. Em todos os biótopos. A linguagem universal por excelência, entendida em todo o planeta! Isso nós dois sabemos.

Seria necessário constatar que a ciência musical absoluta permite ao criador fugir da essência para ir em direção à superficialidade, chegando num campo imenso e quase sem fronteiras, o que o faz esquecer o que realmente importa. ‘Como explorar esse vasto conjunto no curso de uma vida?’, repete muitas vezes o compositor, tendo de lidar com todo esse material e ferramentas à sua disposição. Correntemente, observa-se que muitos se deixam seduzir ao entender a construção pela construção, a cor pela cor, a intensidade pela intensidade, a virtuosidade pela virtuosidade, o prolongamento pelo prolongamento… E só de pensar que grandes mestres do passado legaram às gerações atuais toda uma sabedoria que possibilitou até alguma embriaguez adicional!

Neste caldo grosso de desordem planetária, a tal ponto que temos desejo incessante de calma e paz para nos subtrair à barbárie dos sons hodiernos, chegamos de meias, na ponta dos pés, a Fauré e Oswald. Tentamos de todas as maneiras não fazer qualquer ruído ao pisar no assoalho de madeira… Numa igreja, qualquer passo ressoa amplificado por mil. Reaprendemos a pisar como um gato. A murmurar. A aguçar os sentidos. Nesse lugar sagrado ensina-se às crianças, excitadas pela magnitude acústica do templo, a prática do silêncio. Contudo, nada é feito para ensinar-lhes a escutar o silêncio. A embriaguez sonora orgíaca é a nova pedagogia do mundo contemporâneo. Enfrentamos o rock até a exaustão! Reflexões de pessoas idosas?

Henrique Oswald é para ser ouvido após a audição exaustiva dos excessos do mundo contemporâneo, quando estivermos definitivamente exauridos pelo abuso dos decibéis, tendo os tímpanos destruídos nessa loucura a desestabilizar o comportamento social. Não se trata de uma nova decadência! Roma já a havia praticado nos seus circos abertos. Era necessário, naqueles tempos, urrar para impressionar o inimigo ou o predador. O animal em nós. Seria necessário também falar da origem cultural da nova dominação sonora, induzida pela mundialização dos sons.

Oswald é música para o futuro da humanidade, para a elevação espiritual. Presentemente, a potência telúrica dos sons nos encaminha evidentemente ao caos, pois os sons elevadíssimos e as linguagens primitivas navegam nas apresentações embrutecidas.

Podemos entrar em cena com um Caterpillar, com gigantescos pneus a queimar, com um tanque de última geração, com gritos de selvagens, com um martelo ou com uma picareta… Hoje, tudo é permitido à livre escolha.

Não obstante, podemos também entrar no palco colocando os dedos sobre o teclado e dizer que o canto vai decidir o futuro, pois a mensagem é captada diretamente das alturas, sem intermediário. Atenção, nenhum antropomorfismo nessas palavras! Só um sentido geográfico: lá de cima, o céu e suas ondas. É dessa maneira que temos a sensação do que teria sido a ação de compor de Oswald. E é por isso que ele se eleva acima do que é, quando os outros parecem não ter entendido como manejar a carruagem”. (tradução: JEM)

Após o testemunho competente e sensível do mestre François Servenière, concordo com o seu posicionamento, pois o compositor de talento tem à sua disposição todo um ferramental. Como utilizá-lo? Há aqueles para os quais o ato voluntário faz com que a criação seja esmerada, independentemente de ser de vanguarda. Contamos nos dedos os que realmente desbravaram caminhos. Contudo, no caudaloso rio a correr, há os que seguiram entendendo a tradição como bússola segura e dessa maneira navegaram. Tchaikowsky, Grieg, Saint-Saëns não foram inovadores, mas legaram obras indiscutíveis. Liszt, Moussorgsky, Debussy inovaram, mesmo que inconscientemente, e seus valores são consagrados igualmente. Bem além do romantismo como período histórico, Rachmaninov foi um imenso compositor. Entendo que talentos se perderam pela linguagem canhestra ou voluntariamente “preguiçosa”. Henrique Oswald foi par de seus pares. Longe de ser um vanguardista, ele tem sido aceito de maneira intensa no Exterior. François Servenière expõe, acima do equador, o que críticos belgas já haviam sentido quando pela primeira vez em tempos modernos ouviram em seu país um concerto inteiramente dedicado a Oswald. No programa de duas horas de duração (sic), criações camerísticas, para piano solo e a Missa de Requiem a capella preencheram os espaços… Aficionados lotaram, a Sala do Conservatório de Gent e entenderam as mensagens sonoras. Admirados, músicos belgas afirmaram que Henrique Oswald era realmente um compositor dos melhores de sua época. Tive o privilégio de participar de todas as obras executadas, exceção à Missa de Requiem. O ano, 1995.

After listening to Henrique Oswald’s Nocturne Op 6 nº 1, recorded on video for the music archives of SESC (Serviço Social do Comércio), the French composer François Servenière expressed his views on the Brazilian composer’s musical writing, which in his words “uplifts the spirit”, in direct opposition to whatever music is being written today. Servenière’s remarks, always relevant, are the post of this week.


Reflexões de Sylvain Tesson ao longo da existência

Ganha-se ao se confessar pessimista,
É uma maneira de ser profético.
Sylvain Tesson

Um dos mais emblemáticos monumentos do planeta, a Catedral de Notre-Dame de Paris, ardeu no dia 15 de Abril deste ano. Atônita, parte da humanidade assistiu à tragédia que maior seria não fosse a ação extraordinária das brigadas do Corpo de Bombeiros da capital francesa.

Adentrei muitas vezes o interior da Catedral de Notre-Dame de Paris. Desde 1958. O afluxo imenso de turistas e a dimensão que dela se faz através dos meios de comunicação tornaram-na, juntamente com a torre Eiffel e o Arco do Triunfo, os cartões postais de preferência da cidade. Supera na essência essencial os dois outros monumentos pela antiguidade e pela profunda sacralidade que dela emana.

Minhas três últimas visitas se deram nesta década. Em uma delas, 31 de Janeiro de 2013, prosseguia Paris a comemorar os 850 anos da colocação da primeira pedra de Notre-Dame. Com nosso dileto amigo Antoine Robert, Regina e eu lá estivemos. Dia histórico, pois chegavam à Notre-Dame oito novos sinos e o “Marie”, que se juntariam ao famoso e grande bourdon “Emmanuel”. A inauguração de todos esses extraordinários símbolos da cristandade dar-se-ia no dia 23 de Março do mesmo ano. Se nas duas datas precedentes a visita a Paris foi para recitais de piano, na terceira, em Maio último, expressamente estive perto da Catedral – a aproximação estava interditada – graças à curiosidade de verificar o estado atual, após o incêndio. Desolador, mas certo de que a reforma virá no prazo indicado.

Em uma das livrarias encontrei três livros de Sylvain Tesson que serão temas para blogs. Um deles, “Notre-Dame de Paris – Ô Reine de Douleur” (Paris, Équateurs, 2019), breve na leitura, bem demonstra que a publicação visava ao impacto causado pelo incêndio. Ao menos está escrito que “todos os lucros serão destinados à Fundação do Patrimônio”. Pequeno com certeza, mas um passo.

A recente publicação reúne quatro textos de Sylvain Tesson sobre Notre-Dame, dois em livros anteriores ao incêndio (2005 e 2017), testemunhos da admiração incontida do autor pela Catedral, e dois outros após a tragédia. A nota do editor é precisa: “Após o incêndio, Notre-Dame assemelha-se a uma esfinge que perdeu, mercê do escalpe, toda a pelagem”. Na noite de 15 de Abril, Sylvain Tesson esculpiu uma coroa em Notre-Dame que é sua longitude parisiense, sua ‘linha de fé’, segundo expressão da navegação marítima”.

Sylvain Tesson, ao expor o propósito do livro, afirma que o “terceiro texto foi redigido na noite do incêndio. É uma declaração de amor à Blanche Dame. E é a confissão de minha conversão”.

Dos tempos em que Tesson subia em catedrais e outros monumentos históricos, permanecendo horas ou dias em seus tetos, vem sua metáfora, a considerar que “uma catedral é um instrumento de música, mas também uma arma de jato, um arco que lança sua flecha em direção ao céu”. Deslumbrava-se naquelas alturas, a pensar que na Idade Média as catedrais eram as cumeeiras das cidades. Encanta-se com a prodigiosa arte dos arquitetos e artesãos medievais na construção das coberturas em madeira de Notre-Dame: “Diria, verdadeira jungle, pois tem-se um entrelaçamento de vigas ajustadas umas às outras sem rebites, tampouco articulações: um emaranhado de castanheiras. O todo nos explica que não se deve crucificar a viga e que o equilíbrio das forças, a leveza das madeiras e a inteligência das geometrias bastam para sustentar duzentas e dez toneladas de teto de metal sem necessidade de se colocar um só prego”. Essa gigantesca estrutura queimou no dia 15 de Abril.

Não poucas vezes escrevi sobre as pedras irregulares que, juntas, ergueram a torre milenar da Capela de Saint-Hilarius em Mullem, meu templo sagrado na Bélgica Flamenga, que substanciou durante vinte anos minhas gravações, assim como as pedras soltas que recolhi da denominada calçada portuguesa em Oeiras. Saint-Exupéry considerava que a pedra não tem sentido sem o Templo. Sylvain Tesson nos dá um entendimento transcendental das pedras de Notre-Dame: “Eu creio na memória das pedras. Elas absorvem o eco das conversas, dos pensamentos. Elas incorporam o odor dos homens. As pedras selvagens das grutas e as pedras sábias das igrejas irradiam uma força mântica. Somos sempre impactados quando penetramos em uma abóboda de pedra que abrigou os homens”.

Foram cerca de 150 as subidas de Tesson à parte superior de Notre-Dame. Anotou impressões: “De grafite em grafite, com a lanterna frontal, tem-se a história da França!” Anotaria nomes, sinais, ideogramas que foram fixados nas pedras desde a Idade Média por artesãos, assim como, durante a Revolução Francesa, por tantos que galgaram até o teto de Notre Dame. Recolhe-se dos textos anteriores: “À noite, nas igrejas, nós amávamos procurar os traços de nossos predecessores. Os muros das catedrais servem como livro de ouro. Companheiros, visitantes clandestinos e os padres deixaram seus nomes”.

O autor lamenta a pouca frequência dos franceses aos seus monumentos: “O parisiense não vai ao Louvre, o moscovita ignora o museu Pouchkine, o madrilenho, o Prado. Todavia, viajam para visitar museus distantes”. Depois do gravíssimo acidente que o vitimou, a queda de uma janela em Chamonix, os médicos recomendaram a caminhada, após fisioterapia. Morando perto de Notre-Dame, Sylvain Tesson diariamente ia até a Catedral e subia os cerca de 450 degraus até a torre. “Nos primeiros dias foi subir um Himalaia. Meus pulmões não recebiam ar suficiente, minhas pernas fraquejavam, as costas rangiam, o coração disparava. Cinco meses antes, caíra sobre meu ombro, meu corpo estendido. Subia as torres em direção ao céu para me fortificar”.

Esteve em situação crítica durante meses e, ao reiniciar essas atividades físicas, seu rosto estava desfigurado. Com humor comenta doravante suas novas impressões quando no alto de Notre-Dame: “Passava longos momentos a acariciar as gárgulas. Meu acidente provocou uma paralisia facial, minha face sofrera uma erosão. Passeava pelas ruas com o rosto caricato. As gárgulas consolavam-me nessa desgraça. Mantinham-se agarradas sobre os parapeitos e contemplavam Paris com suas goelas monstruosas”.

“Notre Dame de Paris – Ô Reine de douleur” é um pequeno livro que encanta o leitor. Traduz, em seus quatro textos sobre a Catedral escritos em momentos distanciados, a familiaridade ímpar de Sylvain Tesson com o Templo. Testemunha a confissão de uma conversão após o incêndio, ratificando a ligação amorosa do autor com Notre-Dame. Paul Claudel (1868-1955), poeta e dramaturgo, se converteria na noite de 1886 ao assistir aos ofícios de Natal em Notre-Dame: “Em um instante meu coração foi tocado e eu acreditei”.

Há mistérios insondáveis na lendária Catedral. O leigo consegue apreender parcela do inefável. Sylvain Tesson confessa: “Sou um mau cristão, mas sou cristão. Fui educado no amor de Cristo, conservei uma veneração pela cristandade, mas tornei-me cético no que concerne ao cristianismo, essa canalização da fonte evangélica. No entanto, minhas escaladas nada mais eram do que preces. Nas escarpas de Notre-Dame, vestidas de vazio e acarinhadas pela noite, eu jamais estive só”. Tradução: JEM.

This post addresses the book “Notre-Dame de Paris; Ô reine de douleur” by the French writer, geographer and adventurer Sylvain Tesson. It is a tribute to the Gothic cathedral after the fire of 15 April that consumed its spire and part of the roof. Tesson has strong links to this church, having climbed its tower staircase many times fully aware of his predecessors’ traces, the echoes from the past: names, signs, ideograms engraved in the ancient stones. Later on, after his near fatal accident in 2014, he would again climb Notre Dame steps to the tower, this time as a therapy. Highly recommended, the book is a collection of Tesson’s reflections written before and after the fire at the historic cathedral, an emotive and thoughtful homage to a sy mbol of Christianity and landmark of the city of Paris.


Paolo Cognetti e sua viagem ao Himalaia

O caminho é muito mais precioso do que o cume.
Paolo Cognetti

Ao longo dos anos resenhei cerca de dez livros sobre o Himalaia escritos por alpinistas que atingiram o pico do Everest ou, então, uns pouquíssimos eleitos que acessaram as 14 montanhas acima dos 8.000, todas na cadeia himalaia, caso específico do notável alpinista português João Garcia (vide blogs “14 – Uma vida nos tectos do mundo”, 2 e 9/07/2016). Essa temática sempre me causou surda empolgação, mercê da aventura perigosa, dos percalços para se atingir cumeeiras e até relatos de alpinistas que tiveram companheiros mortos nas empreitadas.

Com o tempo, um emaranhado de empresas de toda sorte, a abranger organizações que levam ou tentam levar “turistas” a preço de ouro ao ponto mais alto do planeta, que vendem material especializado para acesso à montanha, que agendam viagens até o Nepal ou o Tibete, que alugam o trabalho braçal dos sherpas, criam, em meses propícios à ascensão, um enxame de majoritariamente pretensos alpinistas. Ultimamente forma-se verdadeira fila indiana de interessados a banalizar a ascensão. A cada dia acentua-se o culto ao “maior”, seja de qual área for. O Everest, sendo o teto do planeta, 8.848 metros de altitude, assiste a essa legião que busca a mais elevada montanha. Só de pensar que o K2 (8.611 metros), com apenas 237 metros abaixo de Everest, é minimamente procurado, não só por ser muitíssimo mais difícil de ser acessado, mas prioritariamente por ser o segundo. Faz-me lembrar meus anos de estudos em Paris do final da década de 1950 ao início dos anos 1960. Estava no Louvre, visitado algumas vezes durante esse período, quando uma única vez fiquei à frente da Mona Lisa. De repente ouvi barulho de passos que se acentuava desmesuradamente. Eram turistas japoneses. Pararam diante do quadro pequeno, escuro e emblemático, tirando fotos. Após o ato, em desabalada carreira desapareceram. Já àquela altura entendi melhor a noção da superficialidade humana.

Foi-se o tempo do Everest misterioso, que levou à morte Mallory e Irvine em 1924 e glorificaria Edmund Hillary e o sherpa Tenzig Norgay em 1953, os primeiros a pisarem o topo do mundo. Desvendado por centenas de montanhistas, sepultura aberta para um número elevado daqueles que sucumbiram sem resgate, a montanha mais alta do planeta hoje perdeu essa aura de invencibilidade. Reage por vezes ceifando vidas, mas é inundada anualmente por grupos cada vez maiores de pretensos aventureiros.

A premissa se faz necessária, pois em Maio, ao visitar uma das muitas livrarias parisienses, deparei-me com um livro que de imediato chamou-me a atenção, pois mostrava a razão da narrativa, ou seja, a proposta voluntária do autor de não atingir qualquer cume do Himalaia, mas a de atravessar passagens até 5.400 metros de altitude numa caminhada de 300km a pé. Paolo Cognetti, escritor italiano consagrado, teve vários livros vertidos para o francês e “Senza mai arrivare in cima” foi um deles (“Sans jamais atteindre le sommet”, Paris, Stock, 2019). Recebeu o prêmio Médicis em 2017 destinado à obra estrangeira pelo livro “Huit Montagnes”.

Depreende-se da leitura a presença do observador atento à natureza, à fauna, à flora, àqueles que se lhe deparam no longo trajeto, à reação dos dois amigos que o acompanharam, aos costumes dos habitantes dos lugarejos atravessados na longa caminhada, às tradições dos vários sherpas e às suas próprias alterações físicas motivadas pelo cansaço e pelo ar por vezes rarefeito. Quando transpunha os 5.000 metros já sentia irresistível fadiga, o que leva o leitor a entender o título do livro. Escreve Cognetti: “Faço-me a pergunta: não pareceria talvez a sensação que se tem da velhice? Economizar o menor gesto, em um corpo já cansado de estar no mundo”. Em sua bagagem havia um livro inspirador lido e relido, “Le Léopard des neiges”, de Peter Matthiessen (Paris, Gallimard, 1983, tradução de Suzanne Nétillard). Não hesita em mencionar nessa incursão himalaia citações do livro em contextos possíveis. Curiosamente, Matthiessen empreendeu viagem na região montanhosa a fim de ver o raríssimo leopardo das neves. Não atingiu seu desiderato fundamental, mas regressou enriquecido com o que vivenciou nas alturas e, entre esses encantamentos, vislumbrar o carneiro azul. Para Cognetti, a viagem ao Himalaia representava “meu adeus a esse outro reino perdido que é a juventude”, pois o autor já se encontra na juventude da idade madura, em seus quarenta anos.

Na narrativa, Cognetti repetidas vezes menciona o mantra inscrito nos paredões rochosos, Om mani padme hum (“A joia no coração do lotus”) e redige em seu caderno: “uma frase misteriosa, a ter mil interpretações possíveis do invisível escondido no interior daquilo que vemos”.

Em Tsakang, o autor segue um monge budista e assiste a cerimonial. Lembra-se de texto de Matthiessem que, ao questionar um lama sofrendo de artrite no mesmo local que estava a visitar, dele recebe a resposta: “Sou feliz aqui! É maravilhoso, mormente pelo fato de não ter eu escolha!”. A observação relacionada aos costumes de cada localidade nepalesa é sempre fulcral. Busca inteirar-se, não poucas vezes penetra as moradas de camponeses das montanhas ou planícies. O autor faz referência ao iaque, herbívoro de extensa pelagem indispensável na região por sua múltiplas funções. Cognetti, estando em Charka, observa: “Degustava pela primeira vez o chá salgado da manteiga do iaque: bem desagradável quando sabemos se tratar de chá, bom e reconfortante quando apresentado como sopa”. Costumes a partir da realidade do entorno e da crença levam Gognetti a descrever um enterro, após vislumbrar corvos sobrevoando uma colina: “Chegamos em pleno funeral, pois em Dolpo as sepulturas celestes ainda são praticadas. Nessa altitude, não há madeira suficiente para as cremações. Assim, cadáveres são desmembrados e transportados em pedaços para uma colina onde as aves de rapina fazem seu trabalho. Para os budistas, nosso corpo é feito de elementos que o universo nos empresta e, logo que a vida o abandona, necessário se faz devolvê-lo: a matéria que nós habitamos tornar-se-á ar, água, terra; são os pássaros que se incumbem de retorná-la à circulação”.

Paolo Gognetti tece bela observação sobre o vento: “Ninguém o veria se ele não provocasse algo a tremular: as bandeiras tornam visível o invisível. O abutre quebra-ossos e outras aves de rapina subiam aos ares, asas abertas e imóveis, ministros do culto das alturas”. Pormenoriza a sensação que o impacta ao ver uma águia ferida, assim como, em várias situações do livro, menciona Kanjiroba, uma cadela que o acompanharia durante parte considerável do trajeto.

A leitura de “Sans jamais atteindre le sommet”, iniciada durante o voo Paris-São Paulo, seria oportuna para legião de pretensos alpinistas que dispende somas altíssimas em busca da ilusão de atingir o cume do Everest. Mortes e subidas fracassadas preenchem estatísticas. Saint-Exupéry já escrevia que “a vaidade não é um vício, mas uma doença”. O livro de Paolo Cognetti corrobora a opinião de tantos sensatos, que buscam na caminhada pelas altas montanhas o prazer indizível de estar nas alturas sem pretensões egocêntricas. Certamente seus olhares são definitivos, não apenas de passagem. Agradável leitura e uma lição de como planejar uma viagem como observador atento.

Comments on the book “Sans Jamais Atteindre le Sommet” (Without ever reaching the top), by the Italian writer Paolo Cognetti. Now that Mount Everest is congested with trekkers in queues at bottlenecks on their way to the summit, it is a great relief to read about a journey on foot above 5000 meters  in the remote region of Dolpo — in the Nepal Himalayas — without intention of reaching any summit. Attentive observer of the magnificence of nature, of people he meets, of living conditions in an exotic land lost in time and of his own physical limits, the author offers travel literature at its best, a heroic adventure one devours with pleasure.