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“Messiaen – L’empreinte d’un géant”

Falar da cor em Messiaen significa dizer
que a evocação da natureza, da atmosfera e do clima
forma um exemplo perfeito de inspiração que conduz à obra-prima.
Assim como a cor se situa no âmago da problemática do pintor,
assim também ela se apresenta como meio
de descoberta e sublimação na composição de Messiaen.
Catherine Lechner-Reydlett

Há livros biográficos que buscam retratar de maneira, a se esperar precisa, figuras marcantes da história da humanidade. Críticas ou laudatórias, as biografias sérias perscrutam desde as fontes primárias a outros variados mananciais que auxiliam a construção do eleito. O critério imparcial nem sempre está presente, o que, por vezes, inviabiliza avaliações.

A escritora e pianista Catherine Lechner-Reydellet, professora titular do Conservatório de Música e Arte Dramática de Grenoble, apresenta mais um livro sobre música, entre os vários ficcionais e poéticos de sua lavra, fazendo parte de um espírito multidirecionado. Em “Messiaen – l’empreinte d’un géant” (Paris, Séguier, 2008), a autora volta-se à tendência que tem adotado em obras anteriores sobre música, ou seja, textos pessoais e depoimentos de músicos que conviveram com  homenageados. Esse posicionamento pluralista e generoso nos induz a dividir o post em dois, um a abordar o que pensa Catherine Lechner-Reydlett após pesquisas aprofundadas e um outro a buscar a síntese dos ricos depoimentos, compartimentando-os em seus ineditismos, pois obviamente há nesses depoimentos opiniões convergentes. Sob outro aspecto, “Messiaen – l’empreinte d’un géant” pressupõe a admiração confessa da autora. A leitura do livro e o conhecimento prévio de muitas composições de Olivier Messiaen apenas ratificam a exatidão do subtítulo.

Olivier Messiaen (1908-1992) foi um dos mais influentes compositores franceses. Compositor, pianista, organista, regente e ilustre professor, Messiaen teve sob sua tutela no Conservatório Nacional Superior de Música e de Dança de Paris alguns dos mais ilustres músicos que se projetariam no cenário. Entre eles, Serge Nigg, Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen, Maurice Leroux, Mikis Theodorákis, Iannis Xenakis, Tristan Murail, Yvonne Loriod e o nosso saudoso e notável compositor José Antônio de Almeida Prado. Messiaen, católico convicto e amante inveterado da natureza, estabeleceu parâmetros inéditos para a composição e seu estilo rigorosamente pessoal causa até o presente admiração e reverência.

Catherine Lechner-Reydlett realizou trabalho exaustivo e profundo, a fim de levar ao leitor a diversidade criativa de Messiaen. Fê-lo bem, pois seus estudos levaram-na a apreender quase todas as facetas possíveis do grande compositor e, quando ausentes, complementadas nos depoimentos que serão tratados no próximo blog.

No fervilhar de tantas tendências musicais que grassaram ao longo do século XX, Olivier Messiaen estrutura um estilo a partir de uma fé católica imperturbável, “mesmo que esse engajamento nem sempre tenha tido defensores entre os puros agnósticos. Todavia, desperta a atenção, torna-se respeitado, pois forja uma trajetória original estabelecida com ciência e consciência, contribuindo para elevar a música francesa a um dos polos privilegiados da arte musical construtiva no mundo”, observa Lechner-Reydlet. A autora elenca uma série de contributos essenciais que deve ser consignada à ação de Messiaen. Entre esses, a estética fundamentalmente inovadora, devendo-se ao compositor duas grandes obras teóricas do século XX, “Technique de mon langage musical” (Paris, Leduc, 1944) e “Traité de rythme, de couleur et d’ornithologie – 1949-1992” (Paris, Leduc, 1994-2002). Após aprofundamentos voltados à métrica grega, aos neumas do cantochão e às linguagens de ilustres compositores que perduraram pela qualidade, assim como à rítmica de outros povos, Messiaen estabelece seus critérios inovadores.

Essencial durante a trajetória, ratifique-se, é a fé católica. Lechner-Reydellet situa de maneira a não deixar dúvidas esse aspecto, que teria influência decisiva na criação de Messiaen. Cercado pela contemporaneidade que aderira à negação de Deus – segmento expressivo nessa tendência -, nada abalaria o posicionamento de Messiaen. A autora posiciona bem aspectos do caráter do homenageado que, afável, gentil e generoso com os que o procuravam, reservava-se o direito de manter determinados isolamentos, que seriam a salvaguarda de seu mundo interior. Quantas não são as obras em que o Divino está presente: Transfiguration de Notre Seigneur Jésus-Christ, Vingt Regards sur L’Enfant Jésus, Saint François d’Assise, Les Trois Petites Liturgies de la Présence Divine, Les Visions de l’Amen e outras.

O piano é fundamental para Olivier Messiaen. Lechner-Reydellet dedica-lhe capítulo substancioso, a focalizar preferencialmente O Catalogue d’ Oiseaux. Menciona confissão do compositor: “Sempre amei o piano e sofri de um complexo ao pensar que era um organista-compositor e um pianista analista”.  A transcender outras composições, a magistral coletânea para piano, obra das mais importantes da literatura pianística em termos mundiais, o Catalogue d’Oiseaux, (1956-1958), criação de quase três horas, foi composto a seguir outra composição extraordinária, Vingt Regards de l’Enfant Jésus (1944).

O Catalogue des Oiseaux está dividido em sete livros, que reagrupam treze peças. A autora recorre a outra confissão de Messiaen: “as viagens e os estágios repetidos, necessários à notação dos cantos de cada pássaro, foram, por vezes, bem anteriores à composição das peças. Essas indicações tornaram-se bem precisas e o autor soube despertar as velhas lembranças de algumas horas ou de muitos anos”. Encerra a dizer “aos meus modelos alados e à pianista Yvonne Loriod”. Messiaen se casaria em 1961 com a dedicatária, sua ex-aluna, e Yvonne Loriod (1924-2010) tornar-se-ia a extraordinária intérprete de toda a criação pianística de Messiaen, justamente ela que apresentara em público, entre outras obras de seu imenso repertório, a integral do Cravo Bem Temperado de J.S.Bach e os 27 Concertos para piano e orquestra de Mozart.

Catherine Lechner-Reydlett debruça-se sobre a produção de Messiaen, a classe de composição mantida no Conservatório de Paris e o “Festival Messiaen au Pays de la Meije” criado em tributo ao homenageado. Como no próximo post abordarei a síntese de depoimentos de intérpretes e alunos colhidos criteriosamente pela autora, esses temas surgirão naturalmente, a realçar as qualidades inalienáveis de um dos maiores mestres da composição e do ensino do século XX.

My comments on the book “Messiaen – l’empreinte d’un géant”, written by Catherine Lechner-Reydellet, French pianist, writer and professor at the University of Grenoble. The book is a sound research on the French composer, organist and teacher Olivier Messiaen’s creative diversity, pointing out the influence of his devout Catholic faith in his production. An essential reading for anyone wanting to learn more about one of the most influential names in the history of 20th century classical music.

 

 

 

 

 

Sensível livro de Hermann Hesse

Todas as pessoas idosas pensam de maneira histórica,
mesmo que distantes de terem consciência dessa situação.
Hermann Hesse

À medida que se constata o envelhecimento das populações e o prolongamento da vida devido a fatores múltiplos, mais acentuadamente o tema tem sido debatido. O progressivo aumento da faixa etária provoca, sob outro aspecto, uma série de situações, que vão da aposentadoria prolongada à saúde pública, entendendo-se a preservação essencial da vida, mas a ameaçá-la a série de problemas físicos advindos do envelhecimento. Soluções são propostas e atualizadas constantemente, enquanto a legião dos pertencentes à terceira e quarta idade avança.

Estava no pós-operatório do Hospital Santa Catarina quando recebi a visita de minha dileta amiga Jenny Aisenberg. Gentilmente ofereceu-me “Éloge de la vieillesse”, de Hermann Hesse (Paris, Calmany-Lévy, 2000), livro que li com o maior interesse, graças à escrita transparente do autor, conteúdo tratado de maneira sensível e de tema adequado à minha faixa etária. Recentemente o livro foi lançado no Brasil sob o título “Com a maturidade fica-se mais jovem” (Record, 2018).

Hermann Hesse (1877-1962) foi um dos grandes autores do século XX. Nascido na Alemanha e posteriormente tornando-se cidadão suíço (1923), Hermann Hesse, escritor e pintor, ganhou em 1946 o Prêmio Nobel de literatura. Entre seus livros mais conhecidos temos “Sidarta”, “O lobo das estepes”, “Narciso e Goldmund” e ”Demian”.

“Éloge de la vieillesse” encantou-me desde o início. Hermann Hesse viveu até os 85 anos e textos e poesias escolhidos se intercalam de maneira harmoniosa numa temática que poderia até distanciar o leitor mais jovem. A dualidade texto-poesia realça mais acentuadamente aspectos fulcrais da orientação do livro: a admiração onírica pela natureza em seus mínimos pormenores e a observação permanente das transformações sazonais de plantas e árvores. A periodicidade, que se mostra inflexível, tantas vezes merece comparação com a trajetória do homem em direção à morte. A natureza e o humano têm o mesmo destino. Longe de pensar a morte como uma fatalidade que atormenta, Hermann Hesse a vê como um fenômeno que se aproxima. Sabe-a inexorável, tem por ela até um nostálgico afeto.

Quando recebe a visita de um amigo da infância, Otto, em sua moradia em região alpina, com ele rememora o passado distante na Alemanha e na despedida observa que “Ao nos despedirmos sorrindo, não expressamos o que pensávamos e que poderia assim ser resumido: talvez seja este nosso último encontro”. Esse posicionamento percorre subjetivamente o livro, pois nos muitos capítulos fica, de maneira etérea, uma permanente despedida. Nessa visita de Otto, que morreria dias após a visita ao escritor, Hermann Hesse tinha 75 anos, dez a menos de seu desenlace. Depreende-se desses homogêneos textos e poesias reunidos a constante comparação entre a juventude e a velhice, sem o lamento que seria aceitável. A proximidade insubornável da morte o faz entendê-la e a “melhor maneira para mim de superá-la foi sempre a de não me defender, de me deixar levar por ela como se nos deixássemos levar pela embriaguez ou o sopro da aventura”, afirma o pensador. Se há em seus escritos determinados ceticismos, há também religiosidade e esperança e, no todo, traços característicos da literatura romântica.

“Éloge de la vieillesse” traduz uma série de vivências de Hermann Hesse. O autor, não poucas vezes, realiza prospecção sem mágoas. Não há desvio algum que possa indicar o mínimo simulacro, e essa autenticidade teria, a meu ver, maior empatia com os leitores da terceira ou quarta idades. Pareceu-me o livro transparente, a levar o leitor naturalmente às comparações individuais nessa faixa etária. Muitas décadas vividas resultam no acúmulo de experiências. A assertiva relacionada ao público-alvo dos textos escolhidos sobre a velhice vem, inclusive, de uma posição nítida de Hermann Hesse que realmente – assim transparece – só poderia ser apreendida pelos idosos: “Somos curiosos em descobrir riachos desconhecidos que desaguam nos mares do Sul, polos nas duas extremidades da terra, somos curiosos em entender os ventos, as correntes, os relâmpagos, as avalanches, mas o que infinitamente mais nos fascina é a morte, o evento último mais importante da existência. Estamos persuadidos que, entre todos os conhecimentos e impressões acumulados, só aqueles pelos quais daríamos a vida são meritórios”.

Entender-se em determinados momentos como “um homem entre outros a fazer parte da multidão, em simbiose com ela”, quando visita com a esposa uma festividade carnavalesca, não teria discurso retomado por Jean-Paul Sartre em “La Nausée”, ao mencionar que a melhor maneira de ser individual é ser como todo mundo? Há sempre uma generosidade crítica de Hermann Hesse que perpassa “Éloge de la vieillesse”.

Hesse compreende o fato de um adolescente ignorar a sensibilidade de um idoso. Sob outra égide, estende louvação ao jovem e suas virtudes, mas escreve que a longa projeção de vida pela frente não o habilita a entender a situação de um idoso, motivo para o autor refletir que, apesar da transformação física que surge com a velhice, males como diminuição imperativa de locomoção, dores e outras consequências características do declínio não impedem o idoso de recorrer a um tesouro inestimável, a memória: “O que adviria de nós, idosos, se não tivéssemos um álbum de lembranças, tesouros de experiências? Nossa vida seria lamentável e miserável. Mas somos ricos, não nos contentamos em levar nosso corpo usado diante da morte e do esquecimento, somos detentores desses tesouros que vivem e resplandecem enquanto ainda pudermos respirar”. Esse tema é recorrente inúmeras vezes no livro e Hermann Hesse entende a memória como a grande salvaguarda do idoso. São milhões de imagens guardadas no de profundis que ressurgem quando acionadas, e personagens rememorados, naquele momento hic et nunc da evocação, caminham ao nosso lado. “O efêmero possui um charme maravilhoso, um charme de uma tristeza ardente. Todavia, há ainda mais beleza no passado que não foi revolvido, que não desaparece, perpetuando-se secretamente nos tempos idos que escondem uma eternidade bem eclipsada, ressurgindo na memória através das palavras que devem necessariamente ser evocadas” (tradução: JEM). O culto à memória estimularia e seria um bálsamo para a fase derradeira, não se descartando a continuidade possível de outras atividades às quais o idoso ainda está ligado.

Estou a me lembrar de meu saudoso pai, que adentrara a oitava década. Perguntei-lhe como encarava o acúmulo dos anos. Disse-me à altura que tinha projetos, que se concretizariam a partir dos 84 anos, quando escreveu seu primeiro livro, prefaciado pelo notável Menotti Del Picchia. Outros seis viriam, sendo que o derradeiro, escrito aos 101 anos, não foi lançado, pois após uma queda meu pai entrou em coma, vindo a falecer dias antes dos 102. À minha pergunta, acrescentaria ainda meu pai que ter ultrapassado os 80 e tais anos era uma dádiva e que, chamado, estaria pronto para partir. Teósofo convicto, entendia a morte com a maior naturalidade. Um sábio.

“Éloge de la vieillesse” é um belo livro. A síntese de tantos preceitos encontráveis nos romances de Hermann Hesse estaria concentrada em “Éloge…”. Aprendemos a melhor conviver com o tempo insubornável e o privilégio da observação, tão desprezado na atualidade, mereceria por parte dos que adentraram a fase derradeira um olhar mais afetivo. O autor nos ensina a conviver com o que nos cerca, seja uma planta, uma frondosa árvore, uma singela flor, o ciclo permanente da vida, a renovação e o estiolar natural do que é vivo. Apreendendo esse ciclo das estações, entenderemos melhor nossas fases etárias. Ratifica em mim os preceitos paternos, ao entender a última fase apenas como a derradeira.

Comments on the book “Éloge de la Vieillesse”, by Hermann Hesse, a volume including poems, memories and short essays about old age. A synthesis of ideas found in Hesse’s many works, it teaches us to accept the impermanence of everything and the approach of death with grace.

 

Exemplos não mencionados e recepção ao blog

Na lonjura da taiga, metamorfoseei-me.
A imobilidade deu-me aquilo que a viagem não mais me proporcionava.
O gênio do lugar ajudou-me a aprisionar o tempo.
Minha ermida tornou-se o laboratório dessas transformações.
Sylvain Tesson
(“Dans les forêts de Sibérie”)

A figura do herói está presente na literatura desde a Antiguidade de maneira inequívoca. No blog “Reflexões sobre o herói” deixei de mencionar dois exemplos extraordinários entre incontáveis outros, diga-se, em que o destemor, marca do herói, mostra-se presente através de atos que encantaram a nós brasileiros e a tantos outros espalhados pelo mundo. São dois exemplos fulcrais que evidenciam as pegadas do herói em atos que impactaram a todos pela coragem, ousadia e até excessos que poderiam conduzir à morte certa. Todavia, a prerrogativa essencial do herói é o destemor e a obstinação quando desideratos são longamente acalentados.

Ada Rogato (1920-1986), intrépida aviadora brasileira que bateu inúmeros recordes, atravessou onze vezes os Andes, tendo sido a primeira mulher a sobrevoar as três Américas, numa extensão total de 51.064km, com destino ao Alaska, numa empreitada que perduraria por vários meses. Pioneira ao cruzar a selva amazônica, a atingir a Terra do Fogo ao sul da América e tantos mais feitos. Todas as façanhas em voo solitário, em pequeno monomotor, apenas com uma bússola. A respeitada jornalista e escritora Lucita Briza, em “Ada – mulher, pioneira, aviadora” (São Paulo, Cer Editorial, 2011), realizou uma profunda pesquisa que revela a extraordinária figura de Ada Rogato.

Amyr Klink (1955- ), navegador, palestrante e escritor brasileiro, realizou façanhas que revelam não apenas planejamento, mas coragem, resistência física e o encontro com meses de solidão. Em 1984, faria a travessia solitária do Oceano Atlântico, da Namíbia a Salvador em barco a remo, num percurso de 7.000km. Na Antártida, permaneceria cerca de um ano isolado, período em que seu barco ficou retido nos gelos da Baía de Dorian. Outra façanha foi a ida até ao Polo Norte, assim como a viagem de circunavegação da Terra a bordo do veleiro Paratii2 entre 1998-1999. Inúmeras outras aventuras realizadas por Klink estão narradas em seus excitantes livros. Encontrei-o várias vezes no Kibe-Kibe, restaurante libanês do Brooklin. Em uma das oportunidades ofereci-lhe um dos meus CDs e qual não foi a surpresa, ao encontrar-me meses após uma de suas façanhas, ter-me dito o herói navegador que em momentos da mais absoluta solidão ouviu várias vezes a gravação ofertada.

O compositor e pensador francês François Servenière enviou mensagem e tece comentários pertinentes à figura do herói, tema do blog anterior à minha internação no Hospital Santa Catarina. Amante da aventura, posiciona-se:

“Não podia deixar de reagir, tão forte a aventura fez parte de minha vida, continuando a correr em minhas veias como produção hormonal endógena. A aventura sempre acompanhou a humanidade, que permanentemente teve de buscar novos recursos e geografias para alimentar as proles. As primeiras tribos ou os pioneiros das descobertas caminharam milhares de quilômetros em suas vidas curtas. Era necessário caçar, colher e logo após instalar-se perto de local que possibilitasse a vida, a fim de criar a ‘família’. Esse jogo se apresenta em incontáveis gerações. Hoje o alimento produzido na indústria vem direto para nossos pratos. Real progresso, mas que nos induz em direção às atividades terciárias, que resultarão não apenas na flacidez de nossos músculos, como também na fragilidade óssea decorrente. Para compensar essa facilidade da era moderna, fez-se necessário para os humanos transformar essa atividade obrigatória, pois vital, representada pela antiga aventura voltada à sobrevivência, pelo esporte, atividade simbólica que sobrevive em nossos genes ancestrais, impressos sobre o DNA pelo acaso e pela necessidade.

Hoje, as noções de segurança, de princípio de precaução fazem com que nossa sociedade moderna se transforme mais e mais em uma sociedade oposta ao risco, pois as atividades arriscadas custam caro à coletividade, considerando-se outros ingredientes, gastos médicos, seguro. Existe, porém, uma casta de pessoas que fez dos esportes uma atividade rentável graças ao triângulo formado pelo talento individual, os sponsors e a mídia. Considere-se, sob outra égide, os atos heroicos de salvamento de um náufrago no Pacífico ou de um alpinista em dificuldades num paredão de uma face norte em pleno inverno. A casta mediática e política sempre se manifesta nesses casos, com o povo em diapasão num único pensamento, mas nem sempre a satisfazer a coletividade financeira.

Na sociedade moderna, sempre à beira do caos que leva à barbárie, percebe-se que o instinto de sobrevivência e de aventura ressurge constantemente como única norma determinante a perenizar o destino da espécie. Verifica-se que os sobreviventes são os mais fortes, os mais organizados e os que antecipam novos processos. Paradoxalmente, observamos, nas sociedades modernas bem pensantes, que o indivíduo insubmisso é descartado e que o cordeiro dócil é valorizado, mas que na realidade, desde a antiguidade, torna-se a primeira vítima. A sociedade moderna encoraja e favorece o ato heróico? É lógico que não. Pelo contrário, ela o proíbe. Como acreditar numa sociedade que não valoriza mais o heroísmo (o herói de origem africana que salvou recentemente uma criança e que imigrara meses antes para a França), antes aconselha o cidadão a não intervir em caso de conflito ou de ataque terrorista, pois ‘as autoridades velam por todos’. Assistimos em Paris ao ataque ao Bataclan, momentos trágicos com a participação da polícia a impedir pessoas corajosas de entrarem na sala de espetáculo, pois a ordem do alto tardou a chegar e bravos militares e cidadãos do lado de fora, por princípio de precaução, nada puderam fazer, quando na realidade salvariam, com o risco de morrer, algumas pessoas no interior da sala.

Outro exemplo de submissão idiota e cega à autoridade em descrédito. Em caso de ataque terrorista a uma escola, aconselha-se hoje em França, contrariamente a todo instinto de sobrevivência imemorial, que sempre assistiu a pais irem socorrer sua prole ou mesmo dar sua vida para salvá-la, ‘a não intervir, a deixar tudo para as autoridades competentes’. Logo, de não provocar qualquer ato de bravura ou de coragem! A sociedade destruindo o instinto de sobrevivência, instinto este que se situa no primeiro nível da consciência do espírito de aventura e da conquista.

Desde minha adolescência, o fundamento de minha biblioteca não ficou restrito unicamente aos clássicos, mas à Aventura Humana, com um A maiúsculo. A aventura é meu alimento espiritual. A aventura de nossos antepassados, a verdadeira, distante dos livros, era o alimento espiritual do cotidiano. O heroísmo fazia parte desse cotidiano. Sobrou-nos o conforto. Nós, leitores, somos os aventureiros de salão, aventureiros por procuração. ‘A natureza tem sempre mais peso do que a educação’! Aqueles que não estão preparados para as transformações do mundo moderno, programado, terão sérios problemas… Não podemos lutar constantemente contra o DNA, contra a natureza. Um dia ou outro ela se vinga” (tradução: JEM).

Seria transparente entender que no mundo pululam milhares de heróis em todas as áreas. O anonimato absoluto é a regra, e as exceções tornam os exemplos paradigmas que servem como estímulo ao cidadão comum. Nas grandes catástrofes como terremotos, tsunamis e incêndios, quantos heróis anônimos não surgem para a ajuda em situação perigosa? Sem poder precisar a data recente, cidadão não salvou náufrago, mas foi tragado pelas águas em mares asiáticos? O impulso, que não ocorrera antes, surgiu no instante do acontecido, e o herói desconhecido, após salvar, sucumbiu. Quem dele se lembrará? Certamente o afortunado que foi salvo.

Para aqueles que têm o privilégio de uma vida menos tumultuada sob o aspecto financeiro, como não entender heroísmo o ato perpetrado diariamente por multidões que têm de passar muitas horas se deslocando nas grandes cidades para chegar ao trabalho e, em suas moradas, desempenharem, nas poucas horas de descanso, os afazeres necessários. Penso diariamente no tema ao atravessar a Av. Santo Amaro em hora do rush e ver centenas de pessoas lutando para entrar em ônibus superlotados. Realidade. Sob outra égide, os 17 dias hospitalizados fizeram-me considerar outra espécie de heroísmo, o das equipes de médicos e enfermeiros diuturnamente a postos sem poder cometer uma falha. Com tantos conversei e, mais me inteirava, a admiração por todos crescia. Cada indivíduo com suas lutas diárias e a consciência profissional, que não pode admitir o equívoco. Nas mãos de cada um está a manutenção de uma vida e um descuido pode ser fatal. A comparação faz-se necessária, pois o herói da aventura, tão admirado desde a infância por François Servenière e por mim, não pode falhar, e a morte apenas tornará a figura uma lenda. E essa perdurará.

A quinzena passada no excelente Hospital Santa Catarina de São Paulo, se de um lado foi benéfica para a saúde, sob outro aspecto propiciou-me o tempo para a reflexão e para a leitura de dois livros excepcionais, que estarão em pauta nos dois próximos blogs. Já na próxima semana, o Dr. Belmiro José Matos, especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, que me tem acompanhado desde 2004, seguirá o progresso pós-operatório. O regresso ao lar fez-me reencontrar o piano. Terei de tirar muitas confidências sonoras do instrumento, pois a montagem de repertório inédito, que será gravado na Bélgica em Maio próximo, requer a concentração característica do ourives. A certeza única é a de que entre mim e o piano a septuagenária convivência é testemunho da fidelidade plena. Quanto às corridas de rua, respiração igualmente, terei de aguardar ainda alguns dias para reiniciá-las. Sou alopata por vocação e a palavra médica, entendo-a como lei. Confiar é a melhor salvaguarda. Com as precauções devidas reinicio as atividades. Dádiva.

Further considerations about heroes, now mentioning some modern Brazilian heroes: the aviation pioneer Ada Rogato (1910-1986), the first to fly solo across the three Americas, and sailor and writer Amyr Klink (1955-), the first to cross the Atlantic from Africa to Brazil in a row boat – a one hundred day adventure -, not forgetting everyday anonymous heroes. I also publish comments of the French composer and intellectual François Servenière, who points out that today, against man’s innate survival instincts, people are dissuaded from acts of heroism and encouraged to leave everything to authorities.