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O tempo implacável a retardar respostas

Não corro como corria
Nem salto como saltava
Mas vejo mais do que via
E sonho mais que sonhava

Agostinho da Silva

Entre as inúmeras mensagens recebidas através do endereço eletrônico inserido no menu do meu blog muitas continham questionamentos. Anotei-os criteriosamente por categorias para respostas futuras em blocos. Busco no presente post atender às dúvidas e às questões formuladas pelos leitores.

Perguntam-me sobre a atividade musical, as preferências literárias, as corridas de rua, as viagens ao Exterior, o distanciamento das apresentações no Brasil, as gravações e até a política em nosso país… Mui dificilmente deixo de atender leitores, mormente se há questionamentos urgentes merecendo respostas imediatas por e-mail, e essas, nesse caso, saem logo após a recepção, pois mensagens se acumulam e o retorno à nova leitura torna-se quase sempre improvável. Ao se distanciar no tempo, tendem às calendas. Portanto, temas que me são caros quando questionados, mas que demandam um maior debruçamento, se não os respondo de imediato deixo-os numa lista de espera. Nesses quase 12 anos de blogs ininterruptos jamais recebi mensagem desinteressante e esse fato é reconfortante e fonte de estímulo.

Não foram poucas as mensagens lamentando a ausência das ilustrações do saudoso amigo e imenso artista Luca Vitali. Sinto muito a sua falta, pois foram dezenas de blogs que, após minha leitura durante nossos almoços às terças-feiras no Natural da Terra, tiveram charges plenas de humor, ironia e perspicácia do amigo artista. Deixou-nos em 2013. Lembrá-lo atende não apenas leitores sensíveis, como é singela homenagem que lhe presto. Sob outro patamar, elogios nunca cessaram às participações sábias do ilustre compositor e pensador francês François Servenière. Lê em França todos os blogs e incontáveis vezes inseri seus comentários. Formávamos um trio que permanece em nossas mentes. Os Études Cosmiques para piano de Servenière, que gravei na Bélgica e saíram em França pelo selo ESOLEM em 2017, estão no Youtube. Foram escritos a partir da monumental Série Cósmica, pintada (acrílico sobre tela) por Luca Vitali.

Basicamente as questões levantadas por leitores são concernentes aos temas espalhados em textos ao longo dos blogs, que tiveram início aos 2 de Março de 2007. O fato de ter, ao passar dos anos, recebido com enorme prazer a adesão crescente de leitores, implica, sob outro aspecto, o desconhecimento que novos seguidores do blog têm de temas abordados desde o início. Sem querer ser redundante, mas a buscar atender aos muitos novos leitores, respondo a várias perguntas sobre assuntos comentados nesse extenso período.

Questionam-me sobre minha ausência nas programações musicais, principalmente em São Paulo. Assiduamente me apresentava na cidade em que nasci, dos meados da década de 1950 aos anos 2000. São Paulo viveu estertores da efervescência cultural voltada à música erudita até dois ou três decênios após a metade do século. Naqueles tempos, a mídia estaria possivelmente descompromissada com o lucro advindo da ação cultural, concedendo espaços nos jornais e revistas ao que de fato interessava culturalmente à cidade, sem contrapartida. Estou a me lembrar que jamais, nas décadas em que mais atuei em São Paulo, jornais deixaram de publicar matérias, tantas vezes bem extensas, quando repertório mostrava-se relevante. Como tenho o hábito de tudo arquivar, as integrais (opera omnia) de Jean-Philippe Rameau (Auditório Itália, dois recitais em 1971) e de Claude Debussy (MASP, quatro recitais solo mais a integral para dois pianos com minha mulher Regina no Cultura Artística em 1982) mereceram ampla cobertura, gratuita diga-se, na Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde. Nessas apresentações, assim como nas das integrais das Sonatas Bíblicas de Johan Kuhnau (1972) e dos Estudos de Alexandre Scriabine (1977), ambas no MASP, havia público excedente sentado nas escadarias.

Não poucas vezes mencionei que na década de 1950 São Paulo tinha cerca de 13 críticos musicais, a maioria músicos-professores respeitáveis, como Caldeira Filho (“O Estado de São Paulo”), H.J.Koellreutter e L.C.Vinholes (“Diário de São Paulo”), Arthur Kauffmann (“Folha da Noite”), Dinorá de Carvalho (“Diário da Noite”), Cyro Monteiro Brizolla (“Correio Paulistano”), Diogo Pacheco (“O Tempo”), Odette de Faria (“Shopping News”), Lilly Wolff (“Jornal Alemão”), exemplos sensíves a serem destacados. Outros tempos, certamente. Em sendo músicos, frequentavam os recitais dos intérpretes consagrados, mas também dos jovens. Opinavam com competência, incentivando o jovem talento ou indicando que caminhos outros existem. A cidade cresceu desmesuradamente e, bem inversamente, desapareceria o crítico músico de ofício, conscientemente opinativo pois, salvo alguma possível exceção. Sob outra égide, espaços nos jornais dedicados ao pulsar musical erudito existente fora dos grandes holofotes parecem não ser mais a orientação da imprensa. Basicamente desapareceram.

Foi a partir de 1995 que iniciei, aos 57 anos, gravações, no Exterior. Essa atividade foi decisiva, pois nas mais perfeitas condições tecnológicas possíveis, delas constando a qualidade indiscutível dos engenheiros de som – o saudoso Atanas Baynov, na Bulgária, e Johan Kennivé, na Bélgica -, acústicas absolutas dos locais de gravação e pianos rigorosamente impecáveis. Priorizei, dessa época ao presente, as gravações, e o CD a ser gravado em Maio deste ano na Bélgica será o 25º, que, assim como os anteriores será lançado na Europa. Essa menção à gravação é importante, pois a partir dela o recital continuou como atividade amorosa e benfazeja, mas não mais como necessidade imperiosa da apresentação pública pela mera apresentação… Esta atitude fez com que me distanciasse um pouco do público, por opção pessoal, respeitando-o e sentindo o calor que ele transmite. Paralelamente, a realidade tem mostrado que o próprio recital de piano, sob o aspecto geral, ao não ser precedido de ampla divulgação – publicidade essa destinada aos nomes amplamente divulgados no Exterior que se apresentam na cidade, ou para os intérpretes pátrios com patrocínios vários, faz com que as récitas de intérpretes que ainda resistem à sensível queda de público cheguem a ter caráter heroico. Esse fato é real e a se lamentar. Se me apresento anualmente uma ou duas vezes em São Paulo, busco fazê-lo em salas que abrigam público não numeroso, mas fiel à tradição. Sinto-me feliz em poder dar meus recitais nessas salas.

Ao leitor diria que, na década de 1990, estávamos em Belém do Pará, a grande pianista Yara Bernette (1920-2002) – uma das maiores do Continente -, o excelente violoncelista Antônio Lauro Del Claro e eu para apresentações distintas. Reunidos no terraço do Hotel em que estávamos hospedados, Bernette observou, para nossa surpresa, que o recital de piano tinha prazo certo de existência. Bernette, que durante décadas viveu em Hamburgo onde se tornaria chefe da cadeira de piano da Escola Superior de Música e Arte Dramática, observou que, independentemente dos nomes mediáticos, a grande maioria dos intérpretes estaria confinada às salas menores, pois teatros e salas monumentais não mais a abrigaria. Posteriormente, a escritora e historiadora de arquitetura Victoria Newhouse, em seu livro Site and Sound, explicita pormenorizadamente a problemática das grandes salas, muitas delas não mais ocupadas na plenitude, e a real possibilidade das salas menores. Anualmente, as visitas a Portugal e Bélgica e outras à França levam-me às apresentações que me entusiasmam, a ter sempre público seletivo em salas que abrigam umas poucas centenas de ouvintes. Creio que a explanação estaria a responder aos questionamentos de inúmeros leitores.

Perguntaram-me sobre as resenhas e qual o motivo de preferências sensíveis, como música e aventuras. Sirvo-me de frase do poeta português José Gomes Ferreira, que observava: “Música, minha antiga companheira desde os ouvidos da infância”. Temas relacionados às aventuras e conquistas do homem através dos tempos também me apaixonavam desde a tenra idade. Eis duas temáticas que sempre foram prioridades nas minhas leituras, Logicamente, tantos outros livros abordando romance, filosofia, arte, literatura epistolar e outras mais permaneceram ao longo, despertando constante interesse. Desde os meus 10 anos habituei-me à leitura, incentivado pelo nosso saudoso pai. Fazia-nos ler, pois somos quatro irmãos, um capítulo de livro por ele escolhido, sempre a priorizar a melhor literatura, preferencialmente a portuguesa – cuidado com o estilo -, e tínhamos de redigir diariamente resumo do que líamos, em apenas uma página. O pai corrigia, atribuía avaliações e uns poucos cruzeiros (moeda da época) para as sinopses precisas, sem erros. Dizia ele que o espírito de síntese era fundamento essencial na leitura e na vida. Esses cruzeiros revertiam-se em livros, escolhidos doravante por cada um de nós nas visitas que fazíamos no último sábado do mês às livrarias do centro de São Paulo. Somavam-se esses cruzeiros a outros que eram atribuídos à escuta de LPs de música clássica que nosso pai adquiria mensalmente. Após a audição escrevíamos o nome do compositor numa papeleta e nem sempre acertávamos, pois o acerto vinha após detectarmos o período histórico e o criador da composição. Nosso pai chegou a ter 5.000 LPs!!! Essas considerações são necessárias, pois a leitura virou respiração e a audição de música, uma constante, principalmente após o advento do Youtube.

Três leitores indagam-me sobre a desativada equipe de corridas TA LENTOS e as causas de seu desaparecimento. Longe de ser uma equipe como tantas, organizada oficialmente, com treinos semanais e programação, a TA LENTOS reunia cerca de 10 amigos, a grande maioria descendente de japoneses, para encontros em corridas determinadas, entre elas as provas de revezamento da Ayrton Senna (Autódromo de Interlagos) e a do Pão de Açucar (Ibirapuera). Congraçamento. alegria contagiante e a permanência na arena durante toda a competição de revezamento que para nós, oito corredores, suplantava bem as quatro horas de duração. O meu ingresso deu-se em 2008. Após sessões de quimioterapia a que me submeti para tratar de um câncer que quase me levou aos anjinhos, continuei e continuo, hoje com visitas periódicas, a frequentar o consultório da mesma médica que me acompanha desde 2004, a competente hematologista e hemoterapeuta, Drª Ana Rita Burgos Manhani. Como chefe da enfermagem da clínica em que trabalhava a Drª Ana Rita, a enfermeira Cristina Ito, ao saber que passara a correr em 2008, convidou-me a ingressar na TA LENTOS. Foram anos muito felizes participando de corridas em São Paulo, Mogi das Cruzes e Osasco. Com o desligamento de alguns, a TA LENTOS perdeu o sentido, mas não o vínculo amistoso, pois constantemente encontro três corredores da equipe, o casal Américo-Regina Umeda e André Shigueo nas muitas corridas de rua existentes. Shigueo até hoje prestigia a TA LENTOS ao vestir a camisa da equipe com desenho jocoso realizado por Luca Vitali.

Outros leitores escrevem para que opine esporadicamente sobre política. Fi-lo pouquíssimas vezes. Há incontáveis articulistas e radialistas que tratam do tema de maneira competente. Contudo, segmento expressivo entre eles que, graças à carga repetitiva do discuso com nítida orientação, é detectado facilmente pelo leitor ou ouvinte atento. Quando percebo o “ranço” partidário, passo ao largo. Creio, todavia, que a corrupção endêmica, acentuada de maneira estratosférica no Brasil neste século, verdadeiro saque aos cofres públicos, terá uma diminuição sensível com os novos governantes, mas estará longe de desaparecer, pois enraizada nessa relação espúria político-empresário. Sob outro aspecto, o povo, razão essencial de uma nação, basicamente não mais crê em nossa Justiça. Triste fato.

Por fim, as mensagens estimulantes apenas acentuam a vontade de continuar a escrever, uma de minhas grandes alegrias. Desvinculado de quaisquer interesses relacionados a patrocínios, felizmente nunca buscados, o que me possibilita a total independência, prossigo aos 80 anos escrevendo com o mesmo prazer que me levava a redigir artigos para o jornal do Liceu Pasteur, “O Arauto”, na longínqua juventude, quando em bancos escolares. E os textos continuarão a fluir, assim espero.

In this post I reply to questions  frequently posed by readers: my musical engagements, reading choices, trips, recordings, races and even my political opinions. The messages received are a stimulus to go on writing, something I do with the same enthusiasm of the time I was a student at Liceu Pasteur and a “columnist” of “O Arauto”, the school newspaper.

 

 

 

 

 

Quando a recepção aos textos precedentes ganha potencial relevo

É o insatisfeito, como era natural,
que junta alguma coisa à realidade;
desde que o homem se encontre bem de vida,
a força que o levava a criar,
seja qual for o domínio,
afrouxa e estaca.

Agostinho da Silva
(“Sete cartas a um jovem filósofo”)

O blog sobre a criação na juventude da idade adulta e na maturidade da idade adulta provocou inúmeras mensagens, sendo que a do compositor e pensador francês François Servenière foi de tal abrangência e dimensão que mereceria ser exposta ao leitor. Aguardei o término das festividades do Natal e do Ano Novo para publicá-la. Servenière tece comentários sobre o texto do médico e especialista Elliot Jaques, tema do blog de 15 de Dezembro, acrescentando dados que certamente despertarão atenção especial dos seguidores de meu blog semanal. O pensamento de Servenière leva sempre a um amplo campo reflexivo, passível de ser polemizado. Essa postura é um dos fatores de interesse de suas mensagens. Um privilégio para mim tê-lo tantas vezes como partner de meus blogs. Abrimos pois 2019 com tema relevante. François Servenière expõe:

“Fiquei interessado pelo artigo que encerrou a série sobre o jovem compositor português António Fragoso, morto precocemente vítima da gripe espanhola em 1918, na idade de 21 anos. Seu post abordou temas profundos e, como sempre acontece com seus textos, parte-se de um tema particular para se chegar à reflexão geral.

Primeiramente, entendo de interesse todos os comentários efetuados pelo médico canadense Elliot Jaques sobre a crise do meio da existência.

Concernente à criatividade e às idades mais favoráveis, tinha opiniões de certa forma estanques quando via todos esses gênios da música, da pintura e da literatura atingidos por alguma moléstia e abatidos pela morte antes dos quarenta anos. Estavam eles, como todos os criadores, aliás, imersos ainda jovens no efeito turbo dos hormônios do crescimento. Sabemos que a produção desses hormônios, verdadeiras anfetaminas destinadas ao crescimento e à reprodução da espécie no período em que os gametas têm mais potencial, diminui no sangue nas fronteiras dos trinta anos. Seria imaginar que os hormônios fizeram seu trabalho de transmissão do que há de melhor do DNA e que, passado esse período, o corpo humano não tivesse mais nenhuma utilidade para a continuação da espécie. Essa situação hormonal leva-me a pensar nos salmões subindo com energia delirante os rios e cachoeiras mais difíceis do Grande Norte – após um a três anos nos oceanos – até o lugar onde nasceram, a fim de desovar e, após, deixarem-se morrer no local, esgotados e não mais servindo para qualquer outra atividade, tendo pois completado o ciclo das gerações.

Essa metáfora tem relevo quando estudamos a vida de dois dos maiores gênios da musica em quantidade e em qualidade, Mozart (35 anos) e Schubert (31 anos). Morreram, cérebros e corpos esgotados pela vida criativa alucinante. Em ambos os casos, 626 e quase 1000 opus, respectivamente, existências abreviadas que ensejam algumas estatísticas musicologicamente comprovadas sobre os dois e outros criadores de grande talento que morreram precocemente:

- começaram a compor muito jovens;
- escreveram delirantemente, arruinando suas saúdes;
- repetiram-se inúmeras vezes, sendo que algumas obras ‘intermediárias’ serviram de rascunhos e de maquetes para as obras-primas que viriam a seguir, as cumeeiras criativas;
- viveram em períodos onde a esperança de vida era frágil (30-40 anos) e tinham consciência aguda da brevidade da existência.

Havia a percepção clara e generalizada de que o corpo humano não estava preparado face às grandes pandemias que assolavam a Europa periodicamente, a aumentar paradoxalmente a pujança criativa, pois sabiam que o fluxo da ampulheta seria rápido e desfavorável. Acredito com convicção que a vida criativa desses compositores, prematuramente desaparecidos, assemelhar-se-ia a um gigantesco tornado e que o término do fenômeno estaria por volta dos 30 anos.

Uma certa geração de extremistas e radicais do século XX acreditava que, ao encurtar a existência por conduta desregrada, haveria acesso mais rápido à consagração universal e à elevação ao panteão dos séculos… Nada é menos exato, se falarmos unicamente da técnica e da semântica, da organização, da conceitualização, da elevação da alma, do gênio artístico, tendo-se como referencial absoluto os mestres excelsos dos séculos passados. Para esses arrivistas suicidas em busca de um sucesso rápido e retumbante a partir do escândalo (droga, a vida outlaw, hoje o pomo chic), constata-se claramente a flagrante decadência ou hecatombe criativa em comparação aos gênios que permaneceram.

Trata-se de um eufemismo de época, pois o show business mui raramente apresenta o talento encontrável em tempos idos na Idade Média, na Renascença, no período clássico e mesmo na contemporaneidade, naquilo que denominamos arte séria (sob o aspecto da linguagem). Há outra realidade igualmente exemplar: a facilidade econômica das sociedades modernas afunda o talento artístico, assim como deteriora os comportamentos. Esse fenômeno ocorre, de preferência, quando as gerações pertencentes às sociedades ocidentais atingem a idade adulta.

Na verdade, entre os contemporâneos de Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828), um século antes da profilaxia das vacinas, o stress vital devia estar no seu máximo. Pouco se fala das catedrais, construídas num período de um optimum medieval, época provavelmente mais calorosa do que a nossa, pois construídas nesse fervor artístico sob a égide do empenho coletivo de várias gerações de artesãos-artistas, poupados que foram do egoísmo contemporâneo das sociedades de super consumo. Criatividade, vida curta ou longa? Debate um pouco defasado quando relatamos as obras primas da antiguidade. No caso dos dois compositores mencionados, os últimos retratos de Mozart evidenciam traços de uma pessoa com mais de 70 anos, a se pensar nas fisionomias da atualidade. Estafado ao extremo, pai de oito filhos, dos quais apenas dois chegaram à idade adulta.

Fala-se da Pequena Idade Glacial para o período entre 1350 a 1900. Durante esse espaço de tempo, a mortalidade infantil foi enorme, assim como a fertilidade para assegurar a sobrevida da espécie, sendo que a esperança de vida se restringiu ao seu nível mais baixo, comparável àquele dos homens da pré-história. As pinturas de Hieronymus Bosch (1450-1516) evocam um período muito frio, quase glacial. Poder-se-ia pensar que o gênio criativo tenha sido correlativamente fraco. Pois o que aconteceu foi o contrário. Incontáveis os gênios artísticos e filosóficos que surgiram nessa Pequena Idade Glacial. Precariedade de vida pareceria associada a uma energia vital pujante do gênio criativo levado ao extremo…

Socialmente poderemos fazer um paralelo com a soma imensa das grandes obras produzida sob regimes totalitários. A restrição pareceria ser parâmetro importante. Mas, e a liberdade? É bem difícil responder abruptamente. A se considerar conjunturas históricas com tais diferenciais de saúde pública, de sistemas políticos, poder-se-ia considerar uma idade ideal para a criatividade? O que é certo é que, atualmente, o gênio é inversamente proporcional ao conforto a beneficiar criadores. Mais eles são inflados, incensados, menores esforços eles fazem para sair da rotina, do comum, das banalidades”. Em blog bem anterior (vide O Criativo – Quando apropriações estranhas criam distorções. 25/04/2009), considerava a apropriação indevida da palavra criativo, há tempos tão a gosto do profissional de propaganda e marketing. Vulgarizaram o termo. A publicidade atual evidencia tantas e tantas vezes o caminho da repetição em todas as áreas, pois se uma publicidade ganha grande visualização, outros “criadores” das muitas empresas, para produtos da mesma área, seguem o abominável caminho da repetição. As empresas a abrigarem “criadores” não estariam nessa zona “inflada, incensada, rotineira, banalizada, de conforto”, como expõe, sobre outra égide, Servenière?

O pensador francês prossegue: “O show business é o enterro da arte excepcional do passado. Quando se fundem na mesma expressão social, negócios e criação, o resultado é uma linguagem empobrecida no limite da precariedade, do sucesso fácil. A frase imbecil ‘todo mundo é um artista’ simboliza a triste realidade”. O funk não representa o que de mais desprezível existe sob o rótulo inapropriado de manifestação musical?

Servenière continua: “Uma conclusão rápida deve, pois, nos induzir à ideia de que as piores condições de vida aumentam consideravelmente o instinto criativo, que é integralmente relacionado ao instinto vital. Esse instinto pode atingir seu ápice aos 20, 40, 60, 80 anos. É evidente que a juventude transmite uma energia eruptiva em suas obras. Mas seriam elas profundamente pensadas, organizadas, arquitetadas, perenizadas? Enfim, a ciência e o saber acumulados durante a senectude verão nascer produções raras, que terão certamente maior pertinência. Não obstante, haveria a necessidade de o artista ter uma longa existência e saber organizar socialmente seu viático (sucesso, ensino, negócios, outro métier…) para ainda persistir a vontade de criar aos 80 anos. Os insucessos potenciais e recorrentes da vida podem reduzir toda vontade criativa a zero muitíssimo antes da chegada à idade avançada. Quantos não são os artistas que param toda a atividade bem rapidamente diante de um fracasso e partem para outra ocupação? Uma imensa maioria. Nem o talento, nem a força do talento, nem a pujança criativa renovada são ofertados a todo mundo. Na idade de 60 anos, os resistentes às vicissitudes da vida de artista são exceções em suas gerações.

Basicamente não se pode sinceramente criar grandes obras sem que se seja um faminto pela vida. Pareceria evidente. Sob outro aspecto, a depressão destrói tanto o instinto criativo como a vitalidade.

Numa outra apreensão, a luz do sol tem papel fundamental no humor das pessoas, terapia para as depressões sazonais, segundo confirmações da medicina desde o fim do século XX. O outono e o inverno nos deixam sombrios, enquanto a primavera é a fonte da juventude, de criatividade, de fluxo de hormônios, mercê do aproveitamento pleno da seiva. Quantos não foram os artistas do passado que, em carruagens, desceram às terras do Mediterrâneo ou realizaram a curta travessia do Mare Nostrum rumo ao Norte da África, ou mesmo atravessaram oceanos em busca de outros hemisférios, simplesmente para evitar que o ato criativo tivesse uma queda? Legiões. Não por acaso, a Califórnia tornou-se um dos centros mais criativos do planeta nas últimas décadas… Cria-se mais em espaços de bom humor e energia, geografias essas onde o sol nos invade com excesso de Vitamina D. No passado há exemplos dessas cidades florescentes, plenas de sol benfazejo: Roma, Florença, Atenas.

Se essa apologia ao sol é válida, consideremos que o Astro Rei representa o exemplo da superficialidade, do descompromisso, enquanto a pouca luz existente nas estações frias da nossa Europa favorece a introspecção e o aprofundamento. O hedonismo se opondo naturalmente à austeridade. A metáfora é possível e contraditória, praias e mosteiros. Ambos favorecem, à sa manière, a criatividade, embora por caminhos rigorosamente diferentes.

Ao observarmos esse parâmetro climático para falar sobre criatividade e hedonismo, emergem dois polos essenciais da cultura humana, aquele do norte – países frios – outro do sul – países quentes. Considerando a concepção europeia de arte, há forma, estilo, ambiente que poderíamos considerar como mediterrâneos, tendo como centro a Itália, assim como outra, nórdica, centrada na Alemanha. Duas culturas extraordinárias, nascidas na Europa e espalhadas para o mundo. A Itália e a Alemanha resumiram as oposições de estilo e pensamento. J.S.Bach (1685-1750) e Antonio Vivaldi (1678-1741), Richard Wagner (1813-1883) e Giuseppe Verdi (1813-1901) não seriam exemplos nítidos?

A cultura mediterrânea pareceria mais superficial e hedonista, enquanto a nórdica mais cerebral e conceitual. Encontraremos grande quantidade de músicas muito sensíveis na Itália, berço histórico da ‘lacrimosa’, enquanto a Alemanha nos oferecerá as formas musicais mais científicas, pensadas, organizadas e com resultados surpreendentes. A ciência pareceria alemã, a sensibilidade, italiana. É claro que essa definição esquemática se torna simplista. Há o contraexemplo, pois gênios italianos serão considerados ‘alemães’ e esses, ‘italianos’. São incontáveis os ‘vazamentos’ culturais e assimilações mútuas.

Na arte, como na luz, há todas as cores do arco-íris, todas as gradações possíveis, todas as nuances regionais que nos induzem a pensar que não existem regras absolutas… Seria um erro se, ao contemplarmos o globo terrestre e a disposição dos países, nos dispuséssemos a acreditar que a influência do sol determinará a criação de tendências maiores ou menores. Dir-se-á que tal estilo, tal caráter é francês, alemão, russo, chinês, mexicano, brasileiro, português, espanhol, americano, africano, etc, etc. Muito sol provocaria a preguiça, a fadiga e a hedonismo, e muito frio congelaria o cérebro. Os países temperados são os privilegiados sob a esfera da criatividade: nem tão frio, nem tão quente. Não se trataria apenas de uma questão da personalidade individual, como se constata em todas as partes do mundo. Há inúmeros exemplos que estabelecem as exceções nas civilizações habituadas aos extremos…

Evidentemente, podemos analisar a personalidade individual, em todas as suas conjunturas, como integrante da vontade individual, mas que será duramente impactada pelo meio onde ela emergir. Seria um acaso o aparecimento de gênios e grandes artistas, durante séculos, em Paris, Roma, Moscou, Londres, Amsterdam? A política, a abertura de espírito e a sensibilidade dos príncipes, a riqueza do comércio, o limite das populações e as geografias climáticas favoráveis, a curiosidade das massas, a filosofia e o pensamento dominante do entorno (todos parâmetros interdependentes) tiveram papel fundamental na história da arte e não podem ser desprezados. O artista ex nihilo não existe, aquele que surge a partir no nada. Ele vem de longe, de alguma parte, de uma forja cósmica social e universal, potencializada pelo tempo e pelas gerações. É ele filho, produto de um ambiente propício, de um acúmulo de camadas, de uma predisposição mental certa, mas também de uma cultura. Ele passará ao lado de seu destino, ou não. O acaso e a necessidade farão sua obra no segmento biológico que constitui a sua vida” (tradução: JEM).

The posts about the Portuguese composer António Fragoso’s untimely death and about the Canadian psychoanalyst Elliot Jacques (creativity at different stages of life) has been given special attention by the French composer François Servenière, who sent his comments on the matter: effects of hormones on creativity, celebrity and success breeding repetition and superficiality, climatic cold and heat shaping creative thinking, the impossibility of separating an artist’s’ mental disposition from his environment. Sometimes controversial, always thought-provoking, Servenière’s views will for sure capture the readers’ attention.

 

Lembranças da atividade durante o ano que ora finda

Eu parto do princípio de que, quanto mais compreendemos, mais amamos;
mais amamos, mais admiramos;
mais admiramos, mais somos felizes.
Sacha Guitry

Não foram muitos os blogs dedicados à minha participação em corridas de rua. Geralmente reservo para o fim do ano algumas considerações a respeito, fugindo à regra quando fato inusitado me impede de abordar o tema. Comecei a correr em provas oficiais em Junho de 2008, aos 70 anos, e neste final de 2018 completei minha 176ª corrida de rua. À medida que adquiri mais endurance, apesar do avanço etário, aumentei minhas participações, sempre movido por intensa alegria em integrar-me aos milhares de corredores e ter feito, ao longo, amizades que se solidificaram. Estas foram surgindo naturalmente e a temática é sempre benfazeja, a tratar de performances, tempos e, a preponderar, o prazer da convivência naquelas horas precisas.

Neste ano foram 21 corridas de rua, sempre na atitude prazerosa de realizá-las, rever companheiros e acrescentar amizades que forçosamente surgem.

Geralmente meu amigo Carlos ou Batoré, para os que o conhecem nas corridas, é o companheiro ideal. Nos domingos de provas, antes de raiar o dia, lá está ele no portão de casa pronto para a corrida dominical. Companhia preciosa, Batoré adentrou a quinta década e corre muitíssimo mais rápido do que seu amigo matusalênico, que apesar disso, nunca andou durante corridas, exceção a uma competição de 10k no bairro do Pacaembu que compreendeu o Minhocão. Nos últimos 300 metros faltaram-me as pernas e tive de andar. Ao comentar o fato com o ilustre ortopedista Heitor Ulsson (vide blog: Cirurgia da mão – Rizartrose, 09/10/2010), quis o cirurgião saber antecedentes. Disse-lhe que, na noite anterior, dera recital de piano na Associação Eubiose e após jantara com amigos. Resumindo, dormi apenas uma hora e meia. A resposta veio a galope. Meus músculos não tiveram o mínimo repouso. Aprendi.

Há corridas e corridas. Algumas muito bem organizadas, outras nem tanto. Aos 80 anos, seleciono com cuidado as provas e seus percursos. Tenho evitado as corridas noturnas, pois as realizadas na USP, no Minhocão e na marginal do Rio Pinheiros têm pontos negros, pelo excesso de árvores encobrindo a iluminação ou algumas luzes queimadas, convidando corredores a quedas prováveis. Nada como o dia e o asfalto sem máculas. Algumas provas me agradam sobremaneira. Mencionaria: Clube Juventus, Monte Líbano, Olga Kos, Trigo, Superman, Cidade de São Paulo (Parque do Ibirapuera), Stock Running (no legendário autódromo de Interlagos), Longevidade (Bradesco Seguros – Ipiranga).

Episódio jocoso ocorreu na Corrida Superman. Os corredores receberam a camisa e uma capa vermelha. Muitos participaram com esse adendo. Corri com a camisa e, dias após a prova entreguei-a ao amigo Batoré, que não conseguira se inscrever a tempo. Não queria recebê-la, a dizer que serviria para meus treinos. Disse-lhe que participar com a camisa do super herói era plausível, pois a grande maioria assim procedeu, mas treinar pelas ruas do bairro seria certamente constrangedor. Batoré aceitou o argumento e a camisa, assim como a capa vermelha, para seu neto.

O fim de ano assinala uma corrida icônica no Brasil, a São Silvestre. Dela participei de 2008 a 2012, não me inscrevendo nas subsequentes, após a morte de Israel Cruz Jackson de Barros, o cadeirante que, ao descer a Rua Major Natanael, teve problemas com seu veículo, vindo a morrer. Após a São Silvestre de 2011 já vaticinava, infelizmente, que aquela descida não é para a extraordinária maioria de amadores participantes. Um grande corredor brasileiro do passado já me confessava àquela altura que essa descida é “criminosa” para a grande malta que pretende correr a prova. Presenciei na época pessoas que caíam. Todavia, interesses são interesses – tantas vezes estranhos e inconfessos – e o declive simpático da Avenida da Consolação foi definitivamente abandonado. Tiveram os organizadores da São Silvestre ao menos a gentileza de ter o nome de Israel Cruz Jackson de Barros inscrito em troféu a ser entregue aos vitoriosos anuais? Essa atitude não seria terem de confessar o inconfessável? Compreenda-se, jamais Israel teria morrido se a descida continuasse a ser realizada na agradabilíssima descida da Avenida da Consolação. No Direito Penal há configuração clara para situações onde não há a menor intenção para que a morte ocorra, mas ela pode ocorrer por imprudência, negligência ou imperícia. Se a morte advém por motivo natural, enfarto ou motivo outro, entendamos que faz parte de qualquer atividade esportiva. Daí a necessidade de todo corredor estar em dia com seus exames médicos periódicos: cardiológicos, densitometria óssea, pressão e outros pertinentes à prática esportiva. Assim mesmo, a fatalidade pode chegar.

Menciono a tragédia, pois integro a equipe Corre Brasil, capitaneada pelo excelente Professor Augusto César Fernandes de Paula e sua simpática esposa, Valquíria (Val). Todos os anos, a equipe realiza dois simulados da São Silvestre semanas antes do evento, domingo pela manhã. Um grupo de 100 corredores, aproximadamente. Nesses treinões desço a Av. da Consolação com alguns outros participantes, que preferem evitar a pirambeira da Major Natanael. Simulados prazerosos que desmitificam a divulgação da imprensa, que assinala sempre, digo sempre, através de locutores e escribas, que a subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, de pouco mais de 2km, é grande desafio. Por 12 vezes subi a Brigadeiro, cinco correndo a São Silvestre (2008-2012), sete a treinar. Aos domingos, subi-la na contramão na faixa dos ônibus é algo agradável, pois raros coletivos ou táxis descem a avenida e, ao deslumbrá-los, é só se deslocar para a calçada e logo após retornar à faixa reservada. Penso sempre nesse alarde concernente ao aclive da Brigadeiro, falso, diria, mas que está impregnado na mente do povo, que a vê como algo terrível e temível para o comum dos mortais. Diria que os treinos que a Corre Brasil realiza rumo ao Pico do Jaraguá (aclive incessante de 4,5km) é bem mais desafiador. Com prazer participo dessas subidas, bem mais tranquilas do que as descidas, por incrível que possa parecer, pois se aquelas podem até provocar outros problemas, a descida mal planejada compromete decididamente todo o intrincado mecanismo dos joelhos.

A Corre Brasil também organiza treinos periódicos no Parque do Ibirapuera aos domingos. Breve palestra, exercícios físicos em duas etapas, corrida pelo parque e quitutes posteriores servem para selar a confraternização. Tenho participado de quase todos esses treinos e fotos após os treinões selam momentos benfazejos.

Infelizmente, nossa primeira equipe, Ta Lentos, está desativada. Contudo, três da equipe ainda se encontram durante determinadas provas, como a recentíssima, dia 23 de Dezembro, no Autódromo de Interlagos. Um prazer reencontrá-los em São Paulo e nas corridas em Mogi das Cruzes.

Espero continuar a correr enquanto mente e pernas obedecerem. Meu amigo Antônio Lopes, no pórtico dos 91 anos, participa até de provas de meia maratona (21k). Um exemplo único na atualidade. É sempre bom revê-lo e verificar que suas passadas ritmadas, sem alterações, evidenciam o bem que proporciona a corrida de rua para a mente, o físico e a relação com a vida.

Desejo a todos os seguidores do blog um ano de 2019 pleno de realizações, saúde e paz. Almejamos, ao menos.

In the last post of 2018 I write about the pleasures of running and look back on the road races in which I took part: favorite routes, my running performance, the joys of meeting old friends and making new ones. Let’s hope in the year that now begins I’ll continue to have fun and enjoy the camaraderie of my teammates and other runners. I wish you all a New Year filled with promises of a brighter tomorrow.