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Pianista britânico referencial

É um inútil desperdício de tempo celebrar a memória dos mortos
se não nos esforçamos em exaltar as obras que deixaram.
Monteiro Lobato

Solomon Cutner, como pianista conhecido apenas por Solomon, nasceu e faleceu em Londres. Foi um dos notáveis intérpretes que nos visitaram no primeiro lustro dos anos 1950. Tive o privilégio de assistir ao seu recital. Ficaria gravada na memória do jovem estudante a profunda concentração de Solomon, sem fazer qualquer concessão. Se nos lembramos é pelo fato de que Solomon, como alguns outros já mencionados em blogs anteriores, causou no adolescente forte impressão.

São raros aqueles pianistas que tiveram trajetórias singulares, com interrupções e percalços. Solomon foi um deles. Filho de um modesto alfaiate, iniciou cedo os estudos pianísticos com uma das alunas de Clara Schumann, Mathilde Verne. Sua carreira pode ser entendida em duas fases distintas. Inicialmente, a do menino prodígio, um dos mais destacados do período, pois aos oito anos apresentou-se interpretando o Concerto nº 1 de Tchaikovsky no Queen’s Hall em Londres. Arthur Rubinstein esteve presente ao evento. Após intensa atividade, por volta dos 15 anos chegou a rejeitar o instrumento. Aconselhado pelo maestro Sir Henry J.Wood dedicou-se durante anos a buscar o aperfeiçoamento. Na França estudaria com Lazare Lévy e Marcel Dupré e, em Londres, com Dame Myra Hess. Retornaria aos palcos em 1923, adotando desde então o nome artístico Solomon.

Principalmente após sua primeira apresentação nos Estados Unidos, em 1926, empreenderia carreira extraordinária, que o levou a percorrer os continentes e ser saudado como um dos grandes mestres do teclado. Singraria carreira triunfante até 1956. Nesse ano, estava em período de gravação da integral das Sonatas e Concertos para piano de Beethoven quando, durante férias na França, vem a sofrer um derrame, que resultou na paralisia de seu braço direito, dificuldade na fala e outras decorrências pertinentes ao mal, o que o fez interromper todas as apresentações. Viveria mais 32 anos. Durante esse longo período, recebeu o título de “Commander of the Order of the British Empire”.

Clique para ouvir, de Beethoven, o terceiro movimento da Sonata Appassionata, op. 57, na interpretação de Solomon:

https://www.youtube.com/watch?v=wqYJJeyHe7A

Ciclos com as Sonatas e os concertos de Beethoven e interpretações de obras de Mozart, Schubert, Chopin, Schumann, Brahms e Debussy tornaram-no pianista referencial. Curiosamente, recusou-se a gravar os Concertos para piano e orquestra de Beethoven com o maestro Wilhelm Furtwängler, mercê de suas ligações com o nazismo. Atuou igualmente como camerista, tendo formado trio com os insignes violinista Zino Francescatti e celista Pierre Fournier.

Solomon primou em suas execuções (tantas delas no Youtube) pelo respeito ao pensamento do autor. Ouvi-lo é apreendermos a dimensão de uma leitura a mais próxima do que está expresso na partitura. Solomon possuía uma virtuosidade extraordinária, que em nenhum momento esteve a serviço da expansão do ego. É lógico que há a plena revelação da personalidade do intérprete, mas a obediência às propostas do compositor mostra-se sempre bem expressa por Solomon. Rubatos exagerados, virtuosidade pela virtuosidade, gestual pour épater les bourgeois inexistem. Sob outro aspecto, suas interpretações se caracterizam pela expressão lírica personalíssima, igualmente sem quaisquer arroubos. Sua leitura da célebre Sonata Ao Luar op. 27 nº 2 de  Beethoven é exemplo maiúsculo dessa apreensão inusitada expressa no Adagio inicial, em que realiza esse andamento ainda mais lento. É extremamente mais complexo executá-lo sob esse enfoque, Largo, na realidade. Com absoluta maestria, Solomon obtém uma interpretação inusitada, onde prevalece a condução homogênea, a depreender uma poética singular, que enfatiza o caráter etéreo desse aclamado movimento.

Clique para ouvir, de Beethoven, a Sonata Ao Luar, op. 27 nº 2, na lendária interpretação de Solomon (1945):

https://www.youtube.com/watch?v=HK__kS2R3-w

Schubert, um de seus eleitos, está sensivelmente expresso na interpretação de um dos mais frequentados Improvisos do compositor.

Clique para ouvir, de Schubert, o Improviso op. 90, nº 4 (D.899), na interpretação de Solomon:

https://www.youtube.com/watch?v=IOv5pGKlNYk

Chopin também foi um de seus eleitos. Sua interpretação da 4ª Balada do compositor bem demonstra sua identificação com a obra do autor. A compreensão estilística, a interpretação pessoal e jamais arbitrária e o lirismo inerente estão presentes. Uma das mais expressivas gravações dessa criação.

Clique para ouvir, de Chopin, a 4ª Balada em fá menor op. 52, na interpretação de Solomon (1946):

https://www.youtube.com/watch?v=YyUWOun-OP4

Inusitada foi a atitude de Solomon ao gravar, de Scriabine (1872-1915), um dos mais importantes Concertos para piano e orquestra do período (1896-1897). Existiam algumas gravações referenciais, mormente por pianistas russos, mas Scriabine ainda não era tão frequentado como seu coetâneo Rachmaninov.

Clique para ouvir, de Alexander Scriabine, o Concerto para piano e orquestra em fá sustenido menor, op. 20, na interpretação de Solomon:

https://www.youtube.com/watch?v=1aXWhmLt0ew

Nos já tantos justos e merecidos blogs a reverenciar os grandes mestres do piano do século XX, tantos deles esquecidos, rememorarmos Solomon é saudar sempre o respeito à tradição interpretativa. Estou a me lembrar de inúmeras vezes, quando na vida acadêmica, ter perguntado a alunos sobre notáveis pianistas de antanho. O silêncio indicava o absoluto desconhecimento desses artistas quase esquecidos. Ao mencioná-los, verificava que as reações eram de indiferença. E a ausência de ao menos curiosidade era evidência de que algo sério já se adensava no horizonte. Logicamente exceções existiram, mas concentravam-se no seleto compartimento das raridades.

Dame Myra Hess, tema do blog precedente, e Solomon são dois dos notáveis pianistas ingleses entre outros mais, como Clifford Curzon e Gerald Moore e, de uma geração mais recente, John Ogdon, também já falecido. Ouvi-los é compreender a importância de uma tradição pianística não tão divulgada como a de outros países do hemisfério norte. Grandes mestres.

The English pianist Solomon was one of the piano icons of the 20th century. He had two distinct phases in his career, which ended abruptly after a stroke in 1956, and he has lived another 32 years without being able to practice the art that made him famous.

Um dos nomes referenciais do piano no século XX

A música expulsa o ódio daqueles que não têm amor.
Ela traz paz aos que não têm repouso,
consola os que choram.
Aqueles que se perderam encontram novos caminhos,
e os que recusam tudo encontram confiança e esperança.
Pablo Casals (1876-1973)

Estou a me lembrar da adolescência e de impactos que marcaram. Meu saudoso pai era um apaixonado pela arte da fotografia, tirava-as em abundância e revelava-as em um pequeno quarto escuro para essa finalidade na edícula de nossa morada. Tinha todo o material para esse mister. Igualmente tinha o maior cuidado com um projetor de películas, marca RCA. Sua paixão por documentários em 16mm era proverbial. Adquiria constantemente filmes de grandes   intérpretes em execuções referenciais. Convidava amigos apreciadores e assistíamos a esses filmes. Seguia-se o ritual, o pai armava a tela, retirava o grande rolo guardado em uma caixa de metal e o inseria no projetor, posicionava-o, apagava as luzes e o maravilhamento se dava, apesar do barulho da aparelhagem. Ficaram-me guardadas no de profundis as execuções dos notáveis violoncelistas Pablo Casals e Emmanuel Feuermann, do duo pianístico Vronsky & Babin, do violinista Jascha Heifetz, dos pianistas Arhur Rubinstein, Wilhelm Kempff, Alfred Cortot e Dame Myra Hess, entre tantos outros mestres excelsos. No que concerne a Dame Myra Hess, a insigne pianista inglesa interpretava sua transcrição para piano do consagrado coral de J.S.Bach, Jesus, alegria dos homens, e a Sonata Appassionata nº 23, op. 57, de Beethoven. Por várias vezes assistimos a esse filme. Ao ouvir o coral de Bach, fascinou-me sua execução e pedi ao meu pai para adquirir a partitura que, estudada, permanece em meu repertório desde aquele período encantatório, gravando-a na Bélgica em 2004 e presentemente postada no Youtube.

Clique para ouvir, de J.S.Bach-Hess, o coral Jesus, alegria dos homens, na excelsa interpretação de Dame Myra Hess:

https://www.youtube.com/watch?v=yaCg_nC2W5s

Nascida em Londres, iniciou aos cinco anos os estudos pianísticos e aos 17 interpretava o 4º Concerto de Beethoven e o 4º de Saint-Saëns, sob a regência do renomado Sir Thomas Beecham. Impressiona a sua atividade, pois meses a seguir, em 1908, apresenta recitais diferenciados e o  Concerto nº 1 de Liszt. Tendo interpretado nesse período um recital com as últimas Sonatas de Beethoven, recebe crítica não tão laudatória e doravante se concentraria em suas Sonatas e Concertos, o que a fez ser reconhecida ao longo das décadas como uma importante executante do mestre alemão. Após turnês pela Europa, estreia em 1922 em Nova York, tendo recepção calorosa como recitalista, assim como camerista em turnê pelos Estados Unidos.

Clique para ouvir, de Chopin, a Valsa nº 1 em Mi bemol op.18, na interpretação de Dame Myra Hess:

https://www.youtube.com/watch?v=wjphsoYN0QQ

Myra Hess foi não apenas uma notável pianista, mas também uma resistente, a desempenhar através da música missão relevante durante os anos sombrios da IIª Grande Guerra.

Impressiona o seu destemor e voluntária participação durante a guerra, pois durante mais de seis anos Myra Hess esteve à testa de programação na National Gallery, na Trafalgar Square. Iniciado o conflito, interrompe turnê nos Estados Unidos e retorna à Inglaterra e,  após visitar a National Gallery, cujas telas haviam sido retiradas por precaução, propôs concertos prontamente aceitos. Na sua primeira apresentação, o numeroso público contornava a rua da famosa galeria. Participaria de aproximadamente 150 apresentações, num total próximo de 2.000, sempre à hora do almoço, mercê dos bombardeios nazistas durante as noites. Muitos artistas se prontificavam a exibir-se nas récitas com cachês diminutos. Frise-se que Myra Hess, em plena guerra frente aos alemães, privilegiaria o repertório austro-germânico por considerar que a arte está acima de quaisquer outras ideologias ou mais considerações. Temendo bombardeios diurnos, concertos eram transferidos para uma sala menor. Público das mais diversas classes acorriam às récitas. Um documentário breve e histórico de 1942, “Listen to Britain” (realizado por Humphrey Jennings e Stewart McAllister)), em pleno período dos ataques aéreos sobre Londres, apresenta Dame Myra Hess em curta passagem a interpretar o início do Concerto nº 17 em Sol Maior de Mozart, K 453, com a presença da Rainha Consorte da Inglaterra (a partir dos 14’00”):

https://www.youtube.com/watch?v=Nq1UqU2u1hs

Dame Myra Hess, assim notabilizada, receberia em 1941 o título de “Dame Commander of the Order of the British Empire”, concedido pelo rei George VI mercê de seu empenho cívico nos tempos sombrios da IIª Grande Guerra. Doravante incorporaria o título ao seu nome artístico. A National Gallery preserva a memória da pianista em dia a ela dedicado. Deve-se a Dame Myra Hess a perpetuação dos concertos ao meio-dia, ora presentes em quase todo o mundo.

Continuaria a carreira brilhante, preferenciando salas pequenas, mais intimistas e menos estressantes e perpetuando autores austro-germânicos: Mozart, Beethoven (seu preferido), Schubert, Schumann… Inglaterra, Países Baixos e Estados Unidos, preferencialmente, acolheriam com entusiasmo suas apresentações.

Como camerista, atuou com alguns dos mais respeitados intérpretes da história: violinistas Joseph Szigetti, Fritz Kreisler e o celista Emanuel Feuermann. Apesar de não ter legado um número expressivo de gravações, tornou-se lendária a interpretação do Quinteto de Schumann op. 44 com os insignes Isaac Stern, Alexander Schneider, Milton Thomas e Paul Tortelier.

Em Setembro de 1961 faria sua última apresentação no Royal Festival Hall de Londres. Retirar-se-ia, continuando no entanto a orientar. Entre seus alunos, Solomon Cutner e Stephen Kovacevith.

Faleceu de ataque cardíaco aos 25 de Novembro de 1965. Uma placa homenageia a grande intérprete e figura heroica no 48 Wildwood Road, em Londres.

Fluíram mais de seis décadas daquele período mágico em que, entre tantos luminares, ouvi e vi em filme de 16mm a notável Dame Myra Hess a interpretar transcrição de J.S.Bach e a Sonata Appassionata de Beethoven. Ao ouvi-la hoje, o impacto não é menor. Uma das pianistas excelsas que buscava prioritariamente preservar a tradição pianística. Nenhum exagero na condução das frases, acabamento impecável e um respeito íntegro à forma musical. Uma grande artista.

Clique para ouvir, de Beethoven, o Concerto nº 3 em dó menor, na interpretação de Dame Myra Hess, sob a regência de Arturo Toscanini (Novembro, 1946):

https://www.youtube.com/watch?v=FpOSagfzVr8

Dame Myra Hess has been not only a remarkable pianist, but also a woman who took an active part, through music, in World War II effort by organizing, in a span of six years, about 2000 concerts at the National Gallery in London, minimizing the suffering of the English people in times of intense bombing by Nazi Germany against Great Britain.

 

Narrativa do compositor e tributos a ele prestados

Gosto de gostar de tudo,
de viver a música em toda a sua plenitude de significados.
Me proibir, por razões ideológicas de grupo,
de gostar de uma coisa de que na verdade eu gosto, jamais!
Gilberto Mendes

Gilberto Mendes (1922-2016) foi um de nossos mais importantes compositores. Absolutamente aberto às tendências, percorreu-as conscientemente, mas sempre a deixar em suas composições as impressões digitais, marcas inalienáveis que evidenciam o talento autêntico e a seriedade de propósitos. Estivemos ligados por laços indestrutíveis de amizade desde os tempos de meu ingresso na Universidade de São Paulo em 1982 até sua morte em 2016. Nas fronteiras dos setenta anos, que indicariam sua aposentadoria, insisti para que escrevesse uma espécie de autobiografia musical, a resultar numa extraordinária defesa de tese de doutorado na qual tive o prazer de estar presente como membro da banca examinadora. O texto, com alguns ajustes, foi publicado e teve excelente guarida (“Uma Odisséia Musical – Dos mares do sul à elegância pop/art déco”. São Paulo,  Edusp, 1992). Vieram ao longo outros livros, nos quais Gilberto Mendes narrava suas aventuras musicais, opções estéticas, amizades conquistadas pelo mundo e Santos, sempre Santos, a sua cidade mágica.

Tardiamente penetraria nas narrativas idealizadas, pois seu espírito criador voltava-se aos personagens abstratos que povoavam sua mente, mas não desprovidos de nebulosas identidades. Seu livro “Danielle em surdina – Langsam” foi promissor impulso aos 91 anos (vide blog: “Danielle em surdina, Langsam”, 06/04/2013). Pouco antes do desenlace escreveu “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges”, publicado postumamente com a elucidativa apresentação de Ademir Demarchi (Santos, Realejo, 2019).

Os curtíssimos episódios dessa última publicação revelam compartimentos essenciais da personalidade de Gilberto Mendes, a realidade e a ficção. Mesclá-las, eis o objetivo alcançado. Gilberto está presente nessa autoficção sem se nomear; capta período preocupante para um grupo de militantes do Partido Comunista e Ramiro seria seu pseudônimo. À maneira de um Dostoievsky, autor que ele tanto admirava, Gilberto observa. Esteve na militância durante cerca de 20 anos e, com o advento da “Revolução” de 1964, jogou todo o material que possuía no mar de sua Santos, seu porto seguro.

Acompanhar essas brevidades é compreender que as reuniões para discussão de temas afins ao Partidão tinham igualmente outras finalidades, pretexto para conquistas amorosas regadas, por vezes, por generoso vinho. Várias classes reunidas, aqueles pertencentes à burguesia em seus matizes, os decantados “intelectuais”, assim como os portuários seguidores das cartilhas que vinham do leste europeu. Nessas reuniões havia sempre o receio de serem flagrados, mercê da ilegalidade, mas as discussões corriam soltas sobre temas concernentes à estrutura daquele núcleo, às doutrinações marxistas, aos debates sobre arte e literatura. A certa altura os temas voltaram-se igualmente à encenação de peça teatral e vários participantes encontravam nos ensaios momentos de autovalorização.

Para os que tiveram o privilégio de conviver com Gilberto sur le tard a narrativa tem uma cativante apreensão dessa participação do autor, quase sempre como um observador irônico, por vezes com fino humor, traços inalienáveis de Gilberto. Sendo “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” uma visitação às décadas longínquas vividas sob o ímpeto de uma juventude na idade madura, inserir um caso amoroso, “paixão arrebatadora”, entre o principal articulador, Rodrigo, e uma bela e misteriosa frequentadora, traria à pena de Gilberto um frescor narrativo nos seus mais de 90 anos. Não estaria o compositor a se divertir ao recordar e também dando asas à fértil imaginação?

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes, Sonatina à la Mozart (1951), na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4

Na nonagésima década, a ironia gilbertiana estaria implícita nesse tratamento em que, ao não penetrar no âmago da doutrinação partidária, menos voltado aos fundamentos do núcleo do Partidão que deveriam ser a essência das reuniões, confere aos vários participantes da trama interesses tão alheios, com exceções. Meio século após, apesar de sempre ser simpático às teses da esquerda, assim como foi aberto a tantas tendências composicionais, Gilberto não tinha o menor pendor para o fanatismo ideológico e nos deixou uma grande lição nesse sentido. “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” é um exemplo.

Flávio Viegas Amoreira é escritor, poeta e jornalista. Em sua profícua atividade teve a grata ideia de homenagear Gilberto Mendes com um “esboço”, como ele bem afirma, de uma biografia almejada para 2022, ano do centenário do compositor. Literato, buscou concentrar nas páginas de “Gilberto Mendes – notas biográficas” (Santos, Imaginário Coletivo, 2021) as relações intensas do músico com poetas e escritores, contemporâneos ou não. Seis “prefaciantes”, em breves e precisas palavras, testemunham a admiração pelo homenageado, apreendendo facetas características do imenso Gilberto Mendes: Charles A. Perrone, “Concertos novo-musicais!”; Luiz Zanin Orichi, “O espírito livre de Gilberto Mendes”; Carlos Conde, “Um perfil (também) humano”; Edson Amâncio, “Gilberto Mendes”; João Carlos Rocha, “Carta a Gilberto”; Madô Martins, “Cabelos Brancos”. Essas expressivas apresentações dimensionam a proposta de Flávio Viegas Amoreira e enriquecem suas “notas biográficas”. É um outro olhar sobre o compositor, a evidenciar seu direcionamento voltado igualmente à literatura, à poesia em especial e ao cinema. Gilberto me confessaria que suas idas semanais para assistir aos filmes que escolhia levavam-no ao encantamento desde o instante em que, sentado ao lado de sua esposa Eliane, “que se tornou uma segunda mãe”, segundo Gilberto, as luzes se apagavam paulatinamente e os toques sonoros criavam o clima necessário.

As “notas biográficas” de Flávio Viegas Amoreira têm significado amplo. Fixa período fulcral na formação de Gilberto Mendes: “Aquele período, entre 35 e 40, foi ápice da década ideológica e concomitante ao período de formação estética de Mendes: geração inoculada com brilho de Hollywood mesclado ao cinema alemão, ainda não contaminado pelo nazismo, o advento do mercado editorial brasileiro com traduções de Freud, Mann, Brecht, o conhecimento dado aos trópicos de Fernando Pessoa, Marcel Proust, todos experimentos tributários de James Joyce, os romances de gozo e fruição de Somerset Maugham, Charles Morgan e a prosa conceitual de Chesterton e Audous Huxley, sem falar no onipresente Joseph Conrad”.

Entendê-lo nesse labirinto literário-poético, onde há o olhar atento de um cinéfilo absoluto, é missão complexa, assim como o foi no caso de Claude Debussy, que apreendeu um universo de tantas tendências antes de pender para o simbolismo sem o qual, apesar de certamente não explicar Debussy, não se pode compreender a formação de sua linguagem. Quantos não foram os poetas por ele visitados em suas sublimes Mélodies? Gilberto percorre esse caminho a abraçar tendências outras ao concretismo por ele tão fequentado. Amoreira comenta: “Sempre senti tão gêmeos o trabalho do poeta com o do compositor: extraímos do nada, absolutamente nada mais do que qualquer outro artista, pura entrega de alma para almas laçadas por uma perícia inconsútil e invisível. No começo o compositor nasceu poeta mesmo sem o poema escrito”. No caso das Proses Lyriques (1892-1893) de Debussy, o compositor seria o autor dos poemas. Louis Laloy, primeiro biógrafo de Debussy, escreveria em 1909 que “as mais aproveitáveis lições não lhe vieram da parte dos músicos, mas de poetas e pintores”. Se Flávio Viegas Amoreira assinala até o “autodidatismo” de Gilberto Mendes, a visão aberta ao mundo, fruto em parte dessa visão marítima de sua Santos tão amada a partir do fluxo de navios com todas as bandeiras, a diversidade da escolha dos poetas de correntes tão diversas atenderia à essência essencial do compositor, voltada ao universal.

Na substanciosa narrativa de Amoreira, após mencionar frase de Gilberto “Toda a arte é boa, está acima de critérios de qualidade”, lembrar-se-ia de frase de Schoenberg, transmitida ao seu amigo Robert Gerhard após ouvir o concerto para piano e orquestra de Grieg “Esta é a espécie de música que eu realmente gostaria de escrever”. Flávio Viegas Amoreira completa: “A música de Grieg, certamente um compositor menor, para os ‘classificadores’ implacáveis”. Essa arguta observação me faz recordar de um episódio que se deu em minha sala de aula na USP. Estava a tocar o 4ª Noturno de Gabriel Fauré quando Gilberto adentra, ouve até o final e me diz serenamente: “Daria toda minha obra em troca desse Noturno”. Lição de humildade vinda de um imenso músico! Em conversa recente com Eliane Mendes, disse-me ela que mais de uma vez Gilberto mencionou esse episódio.

Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, o 4ème Nocturne de Gabriel Fauré, na interpretação de J.E.M.:

https://embedy.cc/movies/UmMrbjZ3RFBhb24xb2VTa3NQOS8zaHpVWHFnSDErMkhEZERKZGUxODNxOD0=

Amoreira desfila em sua narrativa, nas passagens pertinentes, incontável lista de escritores, poetas, compositores, artistas plásticos e de teatro, amizades outras que trazem à luz o universo de Gilberto. Impressiona a abrangência de um músico interessado em todas as manifestações culturais e “políticas”, mantendo-se sempre solícito com todos que o procuravam. Observa: “Admirei de longe, desde sempre, Gilberto Mendes como uma celebridade artística nacional, pelas ruas de Santos em minha juventude, frequentando cinemas de mãos dadas com Eliane, caminhando pela praia… Sabia ser ele na música algo que eu gostaria de seguir na literatura: alguém entregue todo tempo ao seu ofício sagrado de criador”. Gilberto Mendes adaptou vários poemas do autor de “notas biográficas” para seu sinfônico “Alegres Trópicos, Um Baile na Mata Atlântica”.

Nesse contato permanente na cidade amada pelo músico e o poeta, uma frase de Flávio Viegas Amoreira evidencia algo não raro entre os tantos compositores sur le tard: “Mas também pude testemunhar seu desencanto com desvios da esquerda brasileira, sua preocupação ecológica crescente com destinos da Amazônia e o chorar com desastres como o de Mariana. Tinha perdido muitas  ilusões, mas ainda resistia por uma utopia muito particular de criação e motivação dos jovens”.

O centenário de Gilberto Mendes se aproxima. Certamente haverá uma série de tributos a ele prestados. Urge realizá-los.

In two recent publications, Gilberto Mendes is revealed in significant aspects of his life and work. In a short novel, Gilberto writes an autofiction depicting a tumultuous period in the 1960s, a narrative not devoid of humor. In a second book, writer, poet and journalist Flávio Viegas Amoreira provides biographical notes of great interest. As a friend of Mendes, he penetrates his poetic/literary universe, apprehending the composer’s choices. Next year we will celebrate Gilberto Mendes’ birth centennial.