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Livro a corroborar o desvelamento do autor

Nunca compreendi e não compreenderei jamais
que as pessoas trocam histórias que não têm a menor importância,
pois são histórias distorcidas.
Será que teríamos a necessidade de desperdiçar a vida
se já é difícil vivê-la apenas uma vez?
Não vale a pena.
Antoine de Saint-Exupéry
(carta à sua mãe, Marie de Fonscolombe Saint-Exupéry)

Primeiramente, um livro bonito. Toda a montagem desse precioso volume demonstra um profundo culto ao notável piloto-escritor. Nathalie des Vallières, historiadora de arte e sobrinha neta de Saint-Exupéry, teve a colaboração da também historiadora Roselyne de Ayala para a realização da obra.

“Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry” teve a primeira edição em 2003 e a reedição em 2019 (Éditions de la Martinière). A autora dividiu-o em capítulos precisos, a buscar transmitir parcela considerável da personalidade de Saint-Exupéry. A grande maioria dos leitores conhece apenas O Pequeno Príncipe, livro que alcançou tiragens fabulosas e continua a ter grande aceitação. Parte essencial do pensamento de Saint-Exupéry lá está de maneira extremamente sintetizada, mas a despertar em muitos leitores o interesse por outras obras do autor: Correio Sul, Terra dos Homens, Piloto de Guerra. Raríssimos chegam a desafiar sua obra-prima, a caudalosa Citadelle, tantas vezes mencionada em meus blogs.

A obra, ao apresentar inúmeros manuscritos, escritos a lápis ou caneta, insistentemente preenchidos por singelos desenhos, tantos como esboços àqueles que surgiriam em Le Petit Prince, revela ao leitor o instante do acontecido, momentos em que a ideia flui para o papel, seja ele de qualquer qualidade ou cor, branco, bege, com timbres de hotéis e restaurantes, todo material passível de receber a escrita do piloto escritor. Vem a demonstrar que o autor não deixava uma ideia enclausurada, buscando sempre que possível vertê-la para qualquer tipo de folha à sua disposição. Diferentemente da grande maioria dos escritores, Saint-Exupéry é itinerante, e o “escritório” da escrita tem ampla geografia.  Redigiu textos inclusive em cockpits durante suas travessias aéreas. Também durante voos, algumas das mais profundas reflexões do autor surgiam.

Nathalie des Vallières enriquece cada página manuscrita inserida não apenas com a sua devida atualização digitalizada, adicionando comentários preciosos a cada situação apresentada. Saliente-se que as páginas manuscritas ou datilografadas contêm inúmeras correções do autor, eliminação de palavras ou frases inteiras e tantas delas, numa mesma página, formam verdadeira “teia”, a configurar intenções de aprimoramento reflexivo ou de maior fluência. Saint-Exupéry assim procede nos textos que deverão compor seus livros.

As missivas de Antoine de Saint-Exupéry se estendem da infância a poucos dias antes de seu trágico desaparecimento em missão como piloto durante a segunda grande guerra. Pode-se, através das inúmeras páginas manuscritas, seguir a evolução de seus traços caligráficos que se transformam, mormente em momentos mais estressantes.

Os desenhos que proliferam em suas cartas estariam a demonstrar que há algo pictórico em seu pensamento, a necessitar dessa presença do traço que leva à figura humana ou a determinado objeto. Insistentemente esboços desenhados de O Pequeno Príncipe surgem em cartas à sua mãe ou a amigos em contextos outros. Dir-se-ia que a imagem do personagem mirim, presente em traços diferenciados, representaria o alter ego do autor.

Um capítulo é dedicado às cartas à sua mãe, Marie de Fonscolombe Saint-Exupéry, que se estendem durante toda a vida. Tendo perdido o pai na idade edipiana, concentra seu afeto na mãe. São missivas plenas de ternura, comentando observações do cotidiano, externando amor filial sensível e por vezes, principalmente durante os anos de formação em escolas e no serviço militar, solicitando alguma ajuda financeira. Aos 30 anos, testemunha esse afeto com palavras sensíveis: “No fundo, a ‘mãe’ é o único verdadeiro refúgio dos pobres homens”. Em 1932, casado, escreve: “Minha mãezinha, em Saint-Maurice você foi para Consuelo a mais terna das mães. Sou-lhe infinitamente grato”. Essas palavras carinhosas persistem e, um ano antes da morte trágica, em plena atividade como piloto durante a guerra, Saint-Exupéry escreve: “Espero ansiosamente estar em seus braços daqui a alguns meses, minha mãezinha, minha velha mamãe, minha afetuosa mãe”.

A mente privilegiada de Saint-Exupéry leva-o à invenção desde à infância. Sua irmã primogênita narraria experiências de Antoine para melhorar desempenho de sua bicicleta, assim como de uma outra com asas que acabou explodindo. Futuramente, suas patentes apresentadas relativas à aviação, no sentido de aperfeiçoamento, não foram aplicadas em França, mas algumas, nos Estados Unidos. Nathalie de Vallières comenta: “Uma de suas mais importantes invenções, aquela hoje nomeada DME (Distance Mesuring Equipment), depositada em 19 de Fevereiro de 1940 (com aditivo em 7 de Março), só foi publicada aos 20 de Agosto de 1947 sob o título “Novo método de localizações por ondas eletromagnéticas”. Esse medidor de distância, presente hoje em todos os aviões, não existia até 1940. Saint-Exupéry estabelecera um dos princípios do radar”. Aos 28 de Novembro de 1939, patenteia um “torpedo aéreo” junto ao Instituto nacional de propriedade industrial. Igualmente no campo da matemática mostrou-se capaz.

Um capítulo é reservado à figura feminina na vida de Saint-Exupéry. Independentemente do extremo afeto filial, Saint-Exupéry teve inúmeros romances que não perduraram ou amizades femininas perenes, platônicas ou não, que gravitaram em sua vida. Foi considerado noivo oficial da escritora Louise de Vilmorin, sendo que a vocação do piloto-escritor teria sido um dos motivos da ruptura. Em 1931 há o casamento com a salvadorenha Consuelo Suncin, de “temperamento vulcânico e de menina mimada”, segundo Nathalie des Vallières, sendo que o relacionamento nem sempre foi harmonioso, devido em parte à vida itinerante de Saint-Exupéry. Como fato narrado em “Terre des Hommes”, quando relata o drama de seu amigo  Henri Guillaumet (1902-1940), que, após queda nos Andes nevados, teria caminhado durante cinco dias e sobrevivido mercê da certeza de não ter assinado o seguro de sua mulher, Saint-Exupéry sofre acidente e, após ter sido resgatado no deserto da Líbia, escreve: “É terrível deixar para trás alguém que tenha necessidade de você, como Consuelo”. Um subcapítulo é dedicado à irmã Simone, latinista, arquivista e historiadora, que viveu 25 anos na Indochina em função profissional. Cartas plenas de carinho e, em uma delas, Antoine a estimula ao casamento. Simone nunca se casaria.

Nathalie des Vallières comenta: “Todas as mulheres que ele sublima nas cartas e em seus pensamentos, mas que aparecem raramente em suas obras, exceção à Geneviève em Courrier Sud, a mulher de Fabien em Vol de Nuit e a Rosa do Pequeno Príncipe, iluminaram com uma doce aura a vida de Saint-Exupéry”.

Já narrei, em blog muito anterior (09/11/2007), ter participado com Simone de Saint Exupéry (1898-1978), de reuniões literárias inesquecíveis na morada em Paris de seu primo irmão, Barão André de Fonscolombe . O leitor que quiser acessar o blog “Antoine de Saint-Exupéry” encontrará dados desse período que se prolongou ao longo de 1959:

http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2007/11/page/2/

No próximo blog comentarei Antoine de Saint-Exupéry aviador, suas performances, seus inúmeros acidentes aéreos, seus colegas de profissão e a morte como fixação progressiva. Trechos de cartas e excertos dos livros do piloto-escritor dimensionarão os comentários.

In two posts I’ll write some notes on a book I’ve just finished reading: “Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry” (published in English with the title “Saint Exupéry: Art, Writings and Musings”), a collection of letters, drawings, photos and private notebooks of the French writer and aviator (1900-1944) assembled with adoring reverence by his great-nice, the art historian Nathalie des Vallières. Each chapter covers one aspect of Saint-Exupéry’s life: childhood, friendships, relationship with mother, wife and other women, the inventor with many patents to his name, his passion for writing, drawing, flying, his participation in the war, his thoughts about death. One entire chapter is dedicated to Saint-Exupéry’s affectionate correspondence with his mother, extending from childhood to 1944, the year of his death. Another chapter addresses the various women of his life: wife, sisters, friends, romantic liaisons. A beautiful and richly illustrated edition with reproductions of Saint-Exupéry’s original manuscripts and drawings, in special the omnipresent sketches of “The Little Prince”, maybe an alter ego of the author, the book provides valuable information about life and thoughts of an extraordinary artist and human being. In the next post I will resume this book, dealing with the chapters in which Saint-Exupéry, in his lyrical and philosophical prose, writes about the fascination and dangers of flying, solidarity among professional colleagues, his obsession with death.


Vasta correspondência multidirecionada

Especializam-me para impedir a ação
que teria almejado exercer sobre a música.
Claude Debussy
(Carta a Charles Levadé – 04/09/1903)

Literatos têm expressa a familiaridade com o texto. Não poucas vezes, há o prazer da fluência calculada e o estilo professado em romances e poemas pode ser detectado na correspondência, principalmente quando endereçada a um dos pares. Mencionaria as Lettres inédites à Tourguenieff, primor da escrita de Gustave Flaubert.

O texto redigido por compositores, em princípio, apresenta-se como uma segunda linguagem. Se o compositor Jean-Philippe Rameau (1683-1764), como exemplo entre poucos, lega tratados teóricos que perduram desde o século XVIII, nem sempre o músico tem a mesma fluência com o texto literário através das missivas. Esse compartimento íntimo, quando visitado por compositores, tem singularidade. Inúmeras as missivas de músicos que tangem às áreas da poética em comparações com as sonoridades que as povoam.

Na sequência de posts sobre compositores e seus pensamentos legados   através das cartas, lembraria que comentei recentemente a correspondência de Ludwig van Beethoven, Franz Liszt, Richard Wagner e Modest Moussorgsky, bem diferenciadas em seus conteúdos. Por vários motivos deixei por último Claude Debussy (1862-1918), mormente pelo fato de ter acompanhado sua vasta correspondência a partir de publicações que remontam à primeira metade do século XX e que, reunida e bem ampliada através de esforço hercúleo de meu saudoso amigo e notável musicólogo François Lesure (1923-2001), foi completada por seu discípulo Denis Herlin com a colaboração de Georges Liébert e publicada em 2005 (Claude Debussy – Correspondance 1872-1918, Paris, Gallimard). Dos livros anteriores, concentrados nas cartas enviadas por Debussy a ilustres coetâneos, mencionaria:  Lettres de Claude Debussy à son éditeur – Jacques Durand (1927), Claude Debussy Lettres à deux amis – Robert Godet e G. Jean Aubry (1942), Correspondance de Claude Debussy et Pierre Louÿs, (1945), Debussy et D’Annunziocorrespondance inédite (1948), Lettres inédites de Claude Debussy à André Caplet (1957), Lettres de Claude Debussy à sa femme Emma (1957), Claude Debussy Lettres – réunies et presentées par François Lesure (1980), Claude Debussy Correspondance 1884-1918 – réunie et présentée par François Lesure (1993). Número significativo de cartas foi publicado em revistas especializadas.

A revelação do de profundis, expressa tantas vezes em cartas, dificilmente o autor inseriria em artigo. O conjunto epistolar de Debussy corrobora a compreensão de seu livro Monsieur Croche, reunião de inúmeros artigos publicados em vários periódicos franceses.

O conjunto “integral” das cartas de Debussy, estendendo-se de 1872, quando o pequeno Claude Achille tinha apenas 10 anos, a 1918, ano da morte, revela um homem complexo, no dizer de seu biógrafo François Lesure: “Apesar de Debussy afirmar ser ‘simples como uma erva’ (14/07/1898), não é fácil traçar seu retrato. Se colocarmos de ponta a ponta os diversos julgamentos que dele fizeram, ficaremos perplexos sobre sua natureza profunda: selvagem, taciturno com acessos de alegria, tímido, infantil, sensível, terno, dissimulado, ciclotímico, desagradável até, como disseram”.

Depreende-se, na vastíssima correspondência de Claude Debussy ao longo de uma existência relativamente curta, a se ter como parâmetro atual a longevidade em expansão permanente, que o compositor se revela praticamente por inteiro e a quantidade de destinatários testemunha conteúdos que atendem às particularidades de cada um dos que recebiam suas cartas.

É certo que suas ligações familiares foram até difíceis durante um bom tempo. Desavenças com o pai fazem com que, durante anos, Debussy se  revele parcimonioso quanto ao progenitor. Lembremos o trauma sofrido pelo menino com a condenação e prisão de seu pai durante a Commune de Paris, insurreição parisiense em 1871. Se Claude-Achille se mantém silencioso sobre esse episódio, a partir da juventude da idade madura evidenciará relação de afeto com seus pais.

Admitido no Conservatório em 1872, revelou-se um aluno mediano, como testemunham suas atuações em várias disciplinas em que obteve láureas modestas. Teria em 1880, graças à indicação de um professor, a oportunidade de viajar à Itália e mais de uma vez à Rússia, como acompanhador de Nadejda von Meck, viúva de milionário empreendedor. Serviram esses estágios para o convívio com uma classe abastada e, possivelmente nesse período, ratifica-se o gosto de Debussy pelo não retumbante, devido talvez à antítese, que se acentuaria ao longo das décadas, da obsessiva admiração da mecenas russa por Tchaikowsky. Ainda a frequentar o Conservatório, não demonstra interesse pelo ensino na Instituição e, apesar de ter recebido o Prix de Rome com sua Cantata L’Enfant Prodigue em 1884, guardaria recordações não lisonjeiras: “O Conservatório é sempre esse lugar sombrio e sujo que nós conhecemos, onde a poeira das más tradições continua ainda nos dedos” (carta a André Caplet, 25/11/1909).

“Correspondance (1872-1918)”, em suas 2330 páginas, apreende a totalidade conhecida da atividade epistolar de Debussy e muitos de seus remetentes. Certamente ainda se encontrarão cartas ou bilhetes escritos por Debussy. Desfilam no volumoso livro em apreço cartas a intérpretes, críticos, amigos, família. A intensa ligação de Debussy com artistas de outras áreas que não a música evidencia preferências, quase a demonstrar que o compartimento musical, o compositor tinha-o de maneira singular, pessoal. Sua proximidade com poetas que enriquecerão suas melodias ou a aquela que terá com o meio simbolista é flagrante: Mallarmé, Pierre Louÿs, Paul Valéry, Henri de Régnier são exemplos.

A correspondência de Debussy perpassa artes, natureza, afetos, depressão, música essencial e ramificação que leva a inúmeros temas do cotidiano. Seria possível compreender que, após o nascimento de Chouchou em 1905, filha de Debussy e Emma, com a família estruturada e vivendo numa morada no Bois de Bologne, acima de suas possibilidades financeiras, Debussy, consagrado após a ópera Pelléas et Mélisande (1902), passe por crises perceptíveis em tantas cartas, mormente as endereçadas a poucos amigos mais próximos. A André Caplet se questiona: “Será que decididamente fui feito para uma vida doméstica?” (1907); “algumas vezes sinto-me miseravelmente só” (18/12/1911). Ao seu editor Jacques Durand escreve: “Só tenho energia intelectual; no cotidiano tropeço na menor pedra, que qualquer outro mandaria passear com um simples pontapé” (15/07/1913). Quando finaliza uma de suas obras fundamentais para piano, quiçá a mais importante, os Douze Études, confessa ao seu fiel amigo durante toda a existência, Robert Godet: “escrevi como um louco ou como aquele que deve morrer no dia seguinte” (14/10/1915).

Clique para ouvir o Étude pour les arpèges composés de Claude Debussy. Piano: JEM

https://www.youtube.com/watch?v=VCAH8fYHjSo

Creio que uma das mais apropriadas definições de Debussy por ele mesmo encontra-se num segmento de entrevista concedida a Henry Malherbe ao Excelsior e inserida no livro Monsieur Croche (11/02/1911):

“…Quem conhecerá o segredo da composição musical? O barulho do mar, a curva do horizonte, o vento nas folhas, o grito de um pássaro provocam em nós múltiplas impressões. E, no todo, sem que consintamos de maneira alguma, uma das lembranças apreendidas expande-se independentemente de nós mesmos e se exprime em linguagem musical. Traz-nos sua harmonia. Qualquer esforço que façamos, não alcançaremos algo mais justo e mais sincero. Se assim vos falo, não é para evidenciar opulência de uma moral artística, mas para provar justamente que não a tenho. Abomino doutrinas e suas impertinências”.

Continuing with the subject of prominent people’s epistolary exchange, my comments address the correspondence of Claude Debussy published in the book “Claude Debussy, Correspondence 1872-1918”, Paris, Gallimard, (2005), a gigantic effort of the French musicologist François Lesure (1923-2001) brought to completion, after his death, by his disciple Denis Herlin and editor Georges Liébert. The volume comprises the complete letters of the French composer to musicians, writers, critics, family, friends, ranging in date from 1872, when Debussy was 10 years old, to 1918, the year of his death. Addressing a wide range of topics art, emotions, affections, doubts, quotidian demands , Debussy’s correspondence reveals himself completely and, by allowing public access to his private life, unveils the human side of a musical legend.

Impasse a desprezar a arte do passado

A arte contemporânea
é a narrativa de um naufrágio e de um desaparecimento.
Jean Clair

A arte tornada mercado, a cultura transformada em tudo-cultural,
fazem com que se torne normal que malfeitores,
ainda denominados agentes culturais e mesmo artistas,
aproveitem-se da candura de uns
e da vontade de fazer maldades dos outros,
mormente se esses outros em questão
tenham enfado e sejam riquíssimos.
Didier Desrimais

Por diversas vezes ao longo desses anos abordei a decadência progressiva da cultura voltada às artes. Movida por interesses que buscam o lucro fácil, mais acentuadamente assiste-se à mudança de paradigmas e a todo o processo a visar ao inusitado camuflado de “vanguarda”, não importa o que será exposto, desde que cause impacto a um público numeroso, a cada ano mais bestializado. Acontece o mesmo com a música de alto consumo, que alcançou parâmetros de total alienação, haja vista os shows musicais com sons e ruídos em altíssimos decibéis, parafernália de luzes, correria de berradores que atravessam o palco insuflando a multidão, que, hipnotizada, entra em transe.

O compositor François Servenière me enviou artigo publicado em França (Causeur.fr, 15/12/2019) sob o título “L’art contemporain se mange par le deux bouts…”, no qual o articulista, Didier Desrimais, faz recrudescer ainda mais incisivamente, através de exemplos gritantes, os caminhos, desprovidos do menor bom senso, trilhados por “artistas” e promotores da arte contemporânea.

Desrimais observa: “Há alguns meses, o Museu do Louvre propunha aos seus visitantes um ‘percurso Jay-Z e Beyoncé’, nome de um casal de rappers que havia realizado um clip nas galerias do museu. Nessa oportunidade, sem rir, Anne-Laure Béatrix, diretora de relações exteriores do Louvre, dizia: ‘Buscamos parcerias que tenham bom senso’ (Le Monde, 23/07/2018); enquanto que Pierre Adrien Poulouin, mediador, ultrapassava as medidas: ‘O Louvre torna-se uma marca da moda, onde se passam coisas interessantes’ ”!!!

Estou a me lembrar do notável escritor, Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, em observações sobre a decadência cultural: “Na Cultura, temos retrocedido, sem nossa vontade, por culpa fundamentalmente dos países mais cultos, os que estão na vanguarda do desenvolvimento, os que marcam as pautas e as metas que pouco a pouco contagiam os outros”. Comenta sobre o mercado livre de arte, que fixa preços em função da oferta e da procura, acentuando que a decadência cultural expõe deteriorações sempre mais acentuadas. Afirma: “No domínio da pintura, como exemplo, obras de verdadeiros enganadores, graças ao modismo e à manipulação do gosto dos colecionadores, estimulados pela ação de marchands e críticos, têm alcançado preços vertiginosos” (La Civilización del espectáculo, 2012).

Didier Desrimais menciona conceitos de Jean Clair, escritor e conservador dos museus de França, inseridos em seu livro “L’hiver de la culture” (France, Flammarion, 2011). Escreve o articulista: “Jean Clair denunciava os ‘abatedores culturais’ que enterram definitivamente os artistas mortos, assim como os museus de Arte contemporânea e outros FRAC (Fonds régionaux d’art contemporain), que ignoram os verdadeiros artistas e promovem agentes comerciais de algumas galerias. Ele já pressentia que acabariam abatendo a arte naquilo que ela representa como alto padrão de cultura, tornada ‘marca cool’, presentemente”.

O que levou Desrimais ao artigo foi a absurda notícia de que tomou conhecimento: “Soubemos ontem que uma banana presa por adesivo sobre um muro da Feira de Arte Basel, em Miami, lá colocada por um artista-agente-comercial, foi retirada e comida pela soma de cento e vinte mil dólares e que uma outra foi imediatamente colocada no lugar, devidamente fixada. Igualmente arrancada e devorada pelo mesmo preço. Uma outra substituiu a precedente. Logo não mais se contava o número de bananas a cento e vinte mil dólares arrancadas e comidas. O público se cansará de tais cenas como de outras, evidentemente. O agente-cultural-artista, sempre audacioso, tudo ousando, substituirá a banana por um… morango, ao preço de cento e cinquenta mil dólares, após por um damasco a cento e oitenta mil dólares, maçãs por duzentos mil dólares e cerejas por duzentos e cinquenta mil dólares.

Haverá o momento em que o público se cansará das frutas, os endinheirados em certo momento se cansam de tudo. Esse público específico e riquíssimo já não se havia cansado dos animais cortados em dois e conservados no formol de Damien Hirst? É preciso convir que é impossível comer um pedaço dessas obras nessas condições.

O tempo virá em que comerão o adesivo que prendia a banana (trezentos mil dólares), ou beberão o formol onde permanecem as obras de Hirst (quinhentos mil dólares o litro) e explicarão, nessa língua estranha que preenche todos os prospectos das exposições de todas as FRAC de França e de Navarra, ‘esse gesto subversivo que interroga o status das frutas, dos adesivos e do formol, e a permutabilidade desses últimos numa mediação artística que não ignora as responsabilidades do artista na instauração de uma obra que alvoroça as normas’ ”.

Esse artigo poderia ser transplantado para nossa realidade. Galerias e leilões de arte apresentam ao público “artistas-doublés de agentes comerciais”, amparando-me na afirmação de Didier Desrimais. Uma classe elitista, que enriqueceu nesses últimos tempos sem o embasamento cultural de raiz, adquire a preços bem elevados obras de “artistas” sem qualidade intrínseca, mas que estão na moda, insuflados pela mídia e pela crítica de arte, bem questionável, diga-se. Esse público, desprovido de ao menos conhecimento cultural mediano, adquire e se gaba da aquisição. É constrangedor verificar que obras de grandes artistas da pintura do nosso passado foram incrivelmente desvalorizadas, contrastando com as “obras” de tantos soi-disant das artes atualmente. Valho-me de frase de Jean Clair acima mencionada: “enterram definitivamente os artistas mortos”.

Vargas Llosa, por sua vez, escreveu que não mais visitaria Bienais de Arte, após exposição em determinada sala em Londres em que as esculturas eram feitas com fezes de elefantes. Filas se formavam e máscaras se faziam necessárias devido ao odor desagradável. O que não dizer do casal de artistas contemporâneos, Christo e Jeanne-Claude, que embalou, décadas atrás, Le Pont Neuf, o Parlamento alemão e tantos outros monumentos, comercializando após, devidamente assinados, retalhos de plástico – matéria prima das propostas – em várias dimensões.

Há dias recebi link, inserido em anúncio de publicação universitária com apoio do Estado, frise-se, contendo música experimental, eletroacústica… Poupo o leitor, não inserindo exemplos “musicais” dessas tendências que tive o desprazer de ouvir por poucos segundos. Um deles, apologia ao grunhido. Contudo, entendem os organizadores dessa publicação estar dando um passo à frente.

O artigo de Didier Desrimais aponta para o limite extremo de uma associação que é real: de um lado, a mediocridade amparada por galerias e marchands que forçam as tendências a serem aceitas pelo público alvo; de outro lado, o comprador sem lastro cultural sedimentado, mas que ascendeu rapidamente à riqueza.

O correr dos anos sempre redescobre os verdadeiros valores, mesmo que décadas ou séculos tenham depositado camadas de esquecimento. Isso é rigorosamente histórico. O medíocre, efêmero, afamado temporariamente, esse desaparecerá na poeira levada pelo vento.

A U$120.000 banana duct-taped to a wall at the Art Basel exhibition in Miami led to an article signed by Didier Desrimais published in France (Causeur Magazine, 15.12.19) about the lack of judgment of pseudo-artists, gallerists and critics to whom art means opposing whatever seems to be the Establishment. The columnist’s words could be transplanted to Brazil, where self-proclaimed “artists” devoid of talent are received with fanfare by the mainstream media and greedily consumed by nouveaux riches with the least cultivated tastes, while great figures of the past fall into obscurity and have their works depreciated. What comforts me is my belief that time always rediscovers true talents, even though decades or even centuries have passed. Mediocrity does not last.