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Um romance que merece reflexões

Ainda hoje, a música de Chopin continua a ser o elixir mais inebriante
que a Musa dos sons alguma vez derramou, para embriagar,
nos lábios dos homens. Com isso, Chopin oferece
um exemplo inigualável na era romântica,
da qual ele é a flor mais iridescente.
Jean Chantavoine – J. Gaudefroy-Demombynes
“Le romantisme dans la musique européenne”
(Paris, Ed. Albin Michel -1955)

Recebi do meu dileto amigo, ilustre neurocirurgião Edson Amâncio, o livro “O Polonês” (São Paulo, Companhia das Letras, 2025), de J.M. Coetzee, renomado escritor nascido da cidade do Cabo, na África do Sul (1940). O autor recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 2003. Anteriormente escrevi um post sobre o romance de Thomas Bernhard, “O Náufrago” (vide blog: 10/01/2026). Qual a possível relação entre os dois livros? Ambos têm pianistas como figuras fulcrais dos romances: “O Náufrago”, a partir da presença, romantizada pelo escritor, da figura do notável pianista Glenn Gould (1932-1983); “O Polonês”, inteiramente fictício, voltado ao pianista Witold Walczykiewicz, intérprete de Fréderic Chopin (1810-1849). O romance está centrado em dois personagens. Witold “É polonês,  com seus setenta anos,  pianista mais conhecido como intérprete de Chopin, mas um intérprete controverso: seu Chopin não é nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”, e uma senhora espanhola de nível social elevado e nos seus quarenta anos: “Ela é alta e elegante; pode não ser considerada uma beleza para os padrões convencionais, mas seus traços – cabelo e olhos escuros, malares salientes, boca carnuda – são marcantes e a voz, um contralto grave, tem um suave poder de atração. Sexy? Não, ela não é sexy e certamente nem sedutora”. Beatriz é o seu nome, casada e com filhos, integra o conselho de um Círculo que organiza apresentações na Sala Mompou, em Barcelona. Convidado para um recital pela organização, mercê do seu renome como chopiniano, Witold se apresenta e é aplaudido, não feericamente.

Considere-se a presença do narrador onisciente que comenta, por vezes longamente, todo o transcorrer das ações. Essa interpretação não indica preconceito, tampouco parcialidade, apenas acompanha o desenrolar de uma inusitada relação, sensível e apaixonada por parte do pianista septuagenário, sem envolvimento emotivo por parte de Beatriz, o que não impede de intimamente sentir-se lisonjeada. Não se descarte a associação da figura feminina com a  Beatriz de Dante em “A Divina Comédia”. O pianista Witold, ao longo do enredo, escreve poesias.

A partir de uma primeira aproximação, o jantar pós-recital, Witold se encanta com Beatriz sem que nada ocorra de especial. Comunicam-se, com limitações, na língua inglesa. O narrador já enfatizara não ser Beatriz nem sexy, tampouco sedutora. Pouco após, Witold, ao retornar à Espanha para master classes em Girona, convida Beatriz para ter com ele, o que de fato ocorre sem consequências mais íntimas. O convite incisivo para que o acompanhe ao Brasil durante sua turnê ao país é por ela recusado, sem mais. O país é várias vezes mencionado. Cartas inflamadas por parte de Witold e respostas longe de serem efusivas. Contudo, o pianista aceita o convite do casal para visitar a propriedade em Sóller, município de Maiorca. Tendo o marido de Beatriz de se ausentar por uns dias, haverá um estreitamento nessa relação que surge sem açodamento, precedida por passeios, restaurantes e convívio a dois e que só foi mais íntima, mas breve, durante três dias. Ligação efusiva ao extremo por parte do septuagenário, simplesmente permissiva, sem entusiasmo, da parte de Beatriz. O “polonês” se declara de maneira plena. Tem interesse uma declaração de Witold: “O que é o tempo? O tempo não é nada. Temos nossa memória. Na memória não há tempo. Eu vou te guardar na minha memória. E você, talvez você também lembre de mim”. “Claro que vou me lembrar de você, seu homem estranho”, escreve Beatriz. O narrador comenta: “Ela pronuncia as palavras sem premeditação, ouve-as ecoar surpreendentemente em seu pensamento. O que está dizendo? Como pode prometer lembrar-se dele, quando tem todos os motivos para acreditar que o episódio do músico polonês que a visitou em Sóller vai desaparecer e desaparecer até que, em seu leito de morte, seja menos que uma partícula de poeira?”

Em outro segmento, o narrador pressupõe: “O homem parece confiar nos poderes da memória. Ela gostaria de contar a ele sobre o poder do esquecimento. O quanto ela esqueceu! E ela é uma pessoa normal, uma pessoa comum, não uma exceção. O que ela esqueceu? Não faz ideia. Foi-se, desapareceu da face da terra como se nunca tivesse existido”.

Um telefonema da filha de Witold a Beatriz comunica que o pianista falecera e uma caixa deveria lhe ser entregue. A destinatária viaja à Polônia, retira a caixa contendo 84 poemas, todos a ela dedicados, e mais um livro sobre Chopin. Beatriz obtém a tradução de alguns poemas e, posteriormente, de todos.

A derradeira secção do romance considera as dúvidas de Beatriz quanto ao endereçamento final desses poemas: museu na Polônia, queimá-las, gaveta de baixo da escrivaninha? O narrador onisciente sobre os poemas nesse exíguo espaço: “Eles queimam ali como fogo lento”. Continua: “A resposta: porque, através de seus poemas, ele aspira à comunicação com ela do além-túmulo. Ele quer falar com ela, cortejá-la, para que ela o ame e o mantenha vivo em seu coração”. Sob outra ótica, observa sobre uma das razões dos poemas: “Ela o convidou para sua cama, depois o expulsou. A vingança dele: congelá-la, estetizá-la, transformá-la em objeto de arte, uma Beatrice, uma santa de gesso a ser venerada em procissão pelas ruas. Mãe de misericórdia”. Após a leitura de todos os poemas traduzidos, Beatrice compreende serem os poemas um registro de amor. Não obstante, só de pensar que, em um post mortem , Witold estaria a esperá-la, estremece. Os poemas traduzem essa aspiração do pianista, vê-la novamente numa outra esfera.

Mais de uma vez o narrador se refere ao pianista fictício Witold Walczykiewicz como um especialista na obra pianística de Fréderic Chopin, igualmente polonês, entendendo-o como “um intérprete nada romântico e um pouco austero”.  Seria possível entender que J.M.Coetzee, não sendo pianista, confira ao fictício Witold o vaticínio apontado. Chopin, assim como Robert Schumann (1810-1856) e Franz Liszt (1811-1886), românticos na acepção mais ampla, quando frequentados amplamente por pianistas sobejamente especialistas, só ali se instalam se interpretam suas obras penetrados nessa plena subjetividade emotiva. Alfred Cortot (1877-1962), Arthur Rubinstein (1887-1982), Vladimir Horowitz (1903-1989), Claudio Arrau (1903-1991), Maurizio Pollini (1942-2024),  os nossos Guiomar Novaes (1895-1979) e Arthur Moreira Lima (1940-2024), entre outros relevantes executantes que mantiveram sempre em seus repertórios inúmeras obras de Chopin, todos notabilizados nesse mister da transmissão totalizante. Em sendo um especialista na obra de Chopin, caso específico do personagem criado pelo renomado J.M. Coetzee, Witold Walczykiewicz dificilmente alcançaria renome maior sem a penetração plena no romantismo de Chopin, fator a ser considerado. Contudo, o narrador  observa: “O Chopin emergente e historicamente autêntico tem tons suaves e italianados. A leitura revisionista que o Polonês faz de Chopin, mesmo que um pouco intelectualizada demais, merece ser elogiada”.  Considere-se um dos atributos essenciais nas criações dos três compositores românticos acima mencionados, o rubato (termo italiano), mormente utilizado em passagens plenas de expressividade, quando a liberdade do movimento não aniquila a essencialidade do ritmo. Não obstante, Witold interpreta um “Chopin nada romântico, pelo contrário, é um tanto austero, Chopin como herdeiro de Bach”. Rigorosamente Impossível sê-lo a partir dessa comparação. Soa estranho.

O romance, nessa presença de dois personagens, Witold e Beatriz, com o narrador invisível que acompanha Beatriz em suas dúvidas e concessões sem entusiasmo, e o ocaso de um pianista a ter Chopin como compositor eleito e um coração apaixonado por Beatriz, expõe a maestria de Coetzee em saber “manuseá-los” numa relação com faixas etárias distintas, personalidades e propósitos diferenciados. “O Polonês”, por sua originalidade, é um livro a ser vivamente recomendado.

Clique para ouvir, de Fréderic Chopin, Balada em fá menor, op. 52 nº 4, na  interpretação da notável pianista Guiomar Novaes:

https://www.youtube.com/watch?v=VDHJWsWFTg4

J.M. Coetzee’s novel *The Pole* explores the relationship between a septuagenarian Polish pianist, a specialist in Chopin, and a married Spanish woman, one of the patrons of a musical society in Barcelona. Letters, encounters and a fundamental difference in outlook on life and emotion.

 

Quatro mensagens significativas

Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;
mas é nessa mesma maldade que devemos procurar
o apoio em que nos firmamos
para sermos nós próprios melhores
e, como tal, melhorarmos os outros.
Agostinho da Silva (1906-1994)

Tardiamente insiro no blog hebdomadário quatro dentre as diversas mensagens recebidas sobre os coletores de resíduos, orgânicos ou não. Elas apreendem o âmago da árdua profissão, fundamental em todas as cidades, independentemente do tamanho. Transcrevo-as, pois não apenas captam a função do coletor como expandem o tema para os não oficiais, representados pelos catadores que, puxando suas pequenas carroças ou em velhos veículos motorizados, recolhem igualmente caixotes, garrafas e outros descartáveis.

Maria Stella Orsini, professora titular jubilada da Eca-USP, escreve: “Confesso que tenho grande preocupação com o lixo que se acumula na nossa cidade. Quando estudante, eu e minhas colegas da Caetano de Campos fazíamos longas caminhadas pela famosa rua Barão de Itapetininga. Hoje, além de muito suja, essa rua tem cheiro insuportável. Tenho o hábito de doar o material que pode ser aproveitado para os que empurram esses carrinhos superpesados. Frequento um supermercado que tem ótimas embalagens. Não uso mais plásticos, mas eles podem ser aproveitados pelos que não possuem nenhuma embalagem. Ainda coloco um pacotinho de Miojo. Não gosto e nem como, mas para eles o sal desse alimento pode ser o único que estão comendo nesse dia. Felizmente o curso de Ciências Sociais permitiu que eu e meus colegas recebêssemos uma ótima formação em Política. Na verdade, nosso país é muito mal administrado. Presenciei em inúmeras cidades europeias a lavagem das cidades, ao raiar o dia. Como as cidades japonesas são impecavelmente limpas?”

Marisa de Jesus Martins da Costa envia-me um poema inserido em seu livro “A menina que consertava o mundo”:

O carroceiro

- Bom dia, senhor carroceiro!
- Bom dia, menina bonita!
- O que carrega aí?
- Carrego reciclável.
- O que é reciclável?
- É latinha, papelão, madeira, vidro…
- O que vai fazer com isso?
- Vou vender! Comprar comida pra distrair o estômago.
- Cadê o cavalo?
- Não necessito, não! Tenho pernas e braços fortes e Deus na cabeça.
- Minha mãe mistura tudo. Comida com o tal reciclável.
- Ensina pra ela, então! – Outro dia achei um livro no lixo.
- Livro não se joga no lixo, não!
- Quem faz isso?
- É o homem que não gosta das letras.
- Eu sei ler e escrever. Escrevo pra minha família em Massarandupió.
- Massarandupió? Onde fica?
- É longe. Fica atrás do mapa. Um dia volto pra lá.
- Vou perder meu amigo carroceiro?
- Perde, não! Amigo é para sempre. Esteja onde estiver”.

O Professor titular jubilado da FFLECH-USP, Gildo Magalhães, presente em tantos posts, o que muito me alegra, envia a mensagem:

“Ainda sob o impacto agradável da sua execução brilhante de música russa, concordo integralmente com suas observações sobre os trabalhadores da coleta de lixo. Quando vivi na Alemanha, na década de 1980, só os imigrantes se sujeitavam a esse trabalho árduo e ao salário,  mas com uma atenuante: era facilitado pela mecanização, que obrigava todos a usarem o mesmo modelo de lata de lixo, que era pega por braços mecânicos, despejada e devolvida automaticamente. Idem para a varrição de ruas, completamente mecanizada. Enfim, coisas de sociedade mais desenvolvida…”

Em um outro contexto, diria “oficial”, recebi mensagem substanciosa e esclarecedora da minha dileta sobrinha Ângela Gandra Martins, advogada, jurista, com Doutorado e Pós-Doutorado em Filosofia do Direito pelas Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, respectivamente, sendo hoje Secretária de Assuntos Internacionais da Prefeitura de São Paulo, possivelmente convidada, in addendum, por dominar sete idiomas.

“A cidade de São Paulo possui uma das maiores estruturas públicas de gestão de resíduos sólidos da América Latina, combinando coleta seletiva, infraestrutura urbana e inclusão produtiva de cooperativas de catadores. Nos últimos anos, a Prefeitura ampliou significativamente a cobertura da coleta seletiva porta a porta, alcançando atendimento em todos os 96 distritos da capital. Atualmente, são recolhidas diariamente cerca de 324 toneladas de materiais recicláveis, encaminhadas para uma rede de 29 cooperativas habilitadas pelo município, envolvendo mais de 1.500 cooperados diretamente vinculados ao sistema público de reciclagem. Além disso, a cidade opera duas modernas centrais mecanizadas de triagem – Carolina Maria de Jesus e Ponte Pequena – com capacidade conjunta para processar aproximadamente 500 toneladas de resíduos recicláveis por dia, consolidando São Paulo como referência em infraestrutura de reciclagem urbana na América do Sul.

Outro eixo estratégico da política municipal é a ampliação dos equipamentos de descarte voluntário e logística reversa. A cidade conta com mais de 100 ecopontos distribuídos pelo território, além de milhares de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), contêineres verdes e equipamentos específicos para vidro, óleo e resíduos recicláveis. Esses espaços permitem que a população descarte corretamente resíduos da construção civil, móveis, eletrodomésticos, recicláveis secos e outros materiais que normalmente acabariam em vias públicas, córregos ou áreas ambientalmente vulneráveis. Paralelamente, programas de compostagem e aproveitamento de resíduos orgânicos de feiras livres vêm sendo utilizados para transformar resíduos alimentares em adubo, reduzindo a pressão sobre os aterros sanitários e incentivando práticas alinhadas à economia circular e à mitigação das mudanças climáticas.

No campo da inclusão produtiva, a Prefeitura também, vem fortalecendo programas voltados ao cooperativismo e à profissionalização dos catadores. Por meio do programa SO Coopera, coordenado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, o município promove oficinas, capacitações, mapeamento de cooperativas e articulação com parceiros públicos e privados para ampliar oportunidades econômicas no setor de reciclagem. Outro destaque é o programa “Reciclar para capacitar”, que já profissionalizou mais de mil catadores na cidade, oferecendo cursos, apoio operacional e incentivo à organização produtiva das cooperativas. Além das políticas estruturantes, ações temporárias como o ‘Bloco de Reciclagem’, realizado durante o carnaval paulistano, demonstram o impacto econômico e ambiental da atuação dos catadores: somente na edição de 2026 foram recuperadas mais de 32 toneladas de recicláveis, movimentando cerca de R$120 mil em renda para cooperativas participantes. Essas iniciativas reforçam como a política de resíduos sólidos de São Paulo vai além da limpeza urbana, atuando também como ferramenta de geração de renda, redução das desigualdades e promoção da sustentabilidade nas cidades”.

I have selected four messages among many received about the blog dedicated to the so-called refuse collectors, indispensable figures who are sorely undervalued.

Um repertório diferenciado

É preciso ter, em relação à obra que se ouve, que se interpreta ou que se compõe,
um profundo respeito, como se estivéssemos diante da própria existência.
Como se fosse uma questão de vida ou morte.
Pierre Boulez (1925-2016)

E mar vai em voo aberto,  já pássaro aventureiro para as descobertas.
Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012)

Após o encerramento da minha atividade pianística pública em 2023, os Encontros Musicais Privados possibilitam a continuação dos estudos, uma das razões essenciais da devoção à literatura composta para piano e da ininterrupta frequência amorosa a ela dedicada. Minha mulher Regina, pianista igualmente, enriquece a programação com autores que lhe são caros desde a infância.

O Oitavo Encontro Privado destaca inicialmente Valsas de Francisco Mignone (1897-1986), compositor que compõe, juntamente com Villa-Lobos (1887-1959) e Camargo Guarnieri (1907-1993), a tríade nos nossos mais relevantes compositores nacionalistas. As Valsas de Mignone, muitas delas designadas Valsas de Esquina, referência à criação mais urbana, são encantadoras, plenas de naturalidade e lirismo. Regina mantém em seu repertório inúmeras criações de Mignone e era uma de suas intérpretes eleitas. Interpretará nos Encontros cinco Valsas do ilustre compositor.

Clique para ouvir, de Francisco Mignone, Valse élégante, na interpretação do saudoso pianista Nelson Freire (1944-2021):

https://www.youtube.com/watch?v=54p8zHIhPtM

Do Grupo dos Cinco, formado pelos compositores russos Alexandre Borodine (1833-1887), Modest Mussorgsky (1839-1881), Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mily Balakirev (1837-1910) e Cesar Cui (1835-1918), escolhi criações dos três primeiros.

Recentemente estudei as criações de Borodine e de Rimsky Korsakov, estreando-as neste Oitavo Encontro entre amigos. Quanto aos “Quadros de uma Exposição”, de Mussorgsky, a magnífica obra faz parte do meu repertório há décadas, tendo-os gravado para o selo belga De Rode Pomp.

A “Pequena Suíte”, de Alexandre Borodine, compositor, médico e químico, foi composta em 1870, sendo constituída de sete peças intimistas de sensível lirismo. Borodine organiza engenhosamente as criações, contrastando-as, e as duas mazurcas inseridas disso dão provas. O compositor Alexandre Glausonov (1865-1936) orquestrou a “Pequena Suíte”.

Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a “Petite Suite”, na interpretação da notável pianista russa Tatiana Nicolaïeva (1824-1993):

https://www.youtube.com/watch?v=MTkq4QoTNI0

“O voo do besouro”, de Rimsky-Korsakov, é um interlúdio orquestral da ópera “O conto do tsar Saltan” e há as mais variadas versões para outros instrumentos, sobremaneira o piano.

Foram diversos posts dedicados aos “Quadros de uma Exposição” ao longo desses 19 anos de blogs ininterruptos. Uma das composições que mais aprecio, não apenas pela circunstância que motivou a criação, como pela originalidade da concepção da obra. Após forte impacto sofrido por Mussorgsky ao visitar a exposição de aquarelas de um dileto amigo recentemente falecido, o pintor e arquiteto Victor Hartmann (1834-1873), o compositor, tendo memorizado algumas das pinturas, compõe sobre forte impacto os magníficos “Quadros…”. Em autorreclusão, concentrou-se e, em cerca de duas semanas, completou a criação. Escreveria que os “Quadros…” ferviam como anteriormente ocorrera com a ópera “Boris Godounov”. Se Hartmann está presente através da “interpretação musical” das aquarelas, o compositor também se instala nos episódios da obra e o tema da “Promenade”, alterado durante a sua caminhada pela significativa mostra, poderia indicar um derradeiro tributo. Nesse transcurso, Mussorgsky se funde ao homenageado. Das dezesseis seções do “Quadros…”, dez referem-se às aquarelas e seis outras às “Promenades”. Na “Porta de Kiev”, há uma derradeira menção à “Promenade”. Das pinturas de Hartmann que inspiraram o compositor, apenas seis subsistem, pois na exposição dedicada ao pranteado muitos dos trabalhos foram vendidos. Diversos compositores transcreveram para orquestra os “Quadros de uma Exposição”, destacando-se Maurice Ravel (1875-1937) – a versão mais largamente difundida –, Dmitri Shostakovich (1906-1975) e Francisco Mignone, fidelíssimo ao texto de Mussorgsky. Transcrições outras foram realizadas para instrumentos solo.

Sob a égide da interpretação, algo tem se afigurado de maneira acentuada com relação aos andamentos. Nesta “Civilização do Espetáculo” em que infelizmente vivemos, como bem definiu Mario Vargas Llosa, em determinadas obras interpretadas por pianistas, indicações de andamentos propostas pelos autores têm sido progressivamente aceleradas para gáudio da maioria dos ouvintes. Essa descaracterização das recomendações dos compositores provoca a sedimentação temporária da escuta e haverá fatalmente uma outra percepção do conteúdo intrínseco de uma obra. Uma pianista superventilada mundialmente não teria dito que, em determinada composição rápida que apresenta extraprograma, o público pede sempre que a execução seja ainda mais acelerada para o deslumbramento da plateia e a “pirotecnia” da intérprete?

Os três compositores do “Grupo dos Cinco”, tendo como fundamento o culto às raízes da música russa, legaram criações que perduram pela originalidade e claros objetivos.

Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, “Quadros de uma Exposição”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

The Eighth Private Recital, following five beautiful waltzes by Francisco Mignone performed by Regina, features three composers that I have selected  from the Group of Five: Borodine, Rimsky-Korsakov, and Mussorgsky.