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Imenso compositor a revelar interioridades

É o povo russo que eu quero pintar.
Quando eu durmo, eu o vejo nos meus sonhos,
quando me alimento, é nele que eu penso;
quando bebo, é ele que aparece em toda a sua realidade,
grande, enorme, majestoso, magnífico, sem fardo e sem disfarce.
Modeste Moussorgsky

Após comentar as vastas relações epistolares de Beethoven, Liszt e Wagner, anunciava que ainda trataria de duas outras expressivas e distintas, as de Modeste Moussorgsky (Moscou, Éditions Radouga, 1987) e as de Claude Debussy (1862-1918). Através das cartas podemos melhor entender diversificados caminhos enveredados pelos músicos em apreço.

A vida de Moussorgsky é um longo caminhar em direção ao trágico. A ascendência nobiliárquica remonta ao século XV e, apesar de uma infância sem transtornos quanto à sobrevivência, Moussorgsky foi péssimo administrador de seus bens e em sua curta existência teve reiteradas vezes a ajuda de amigos. Integrou o Grupo dos Cinco, compositores autodidatas que buscavam se expressar musicalmente voltados às tradições populares russas, sem desmerecer o romantismo, mas adequando-o aos ideais nacionalistas. Foram eles: Alexandre Borodine, César Cui, Mili Balakirev, Modeste Moussorgsky e Nikolaï Rimsky Korsakov, todos basicamente da mesma idade. Em carta a seu fiel amigo e confidente, Vladimir Stassov, Moussorgsky escreve já nos estertores da ação do grupo: “Anunciei [com toda a delicadeza de que sou capaz] a Korsinka (Rimsky Korsakov) e a Borodine que, para salvaguardar a pureza virginal do círculo, para não nos prostituirmos, tenho a intenção de dar ordens no que concerne a nosso trabalho coletivo, ao invés de recebê-las; de colocar questões e não ser obrigado a responder; tudo isso, é claro, unicamente com a permissão de Korsinka e Borodine e em nosso nome” (31/03/1872).

Na infância o pequeno Modeste sofre decisivamente a influência de duas mulheres, sua mãe, Júlia Ivanovna, que lhe dá as primeiras noções pianísticas, e a babá, essa Niania inseparável, “contava histórias que me impediam de dormir”, presente em tantas lembranças musicais e epistolares. Já adulto, Moussorgsky encontraria obstáculos para que tivesse uma vida ao menos normal. Entrega-se à bebida, sofre de epilepsia, compõe freneticamente e nem sempre é entendido por seus pares.

A atividade epistolar de Moussorgsky, dirigida aos seus colegas do Grupo e a poucos interlocutores, entre os quais se destaca o crítico Vladimir Stassov, aborda música, preocupação com o povo, desilusões, carência afetiva, solidão. No livro “Modeste Moussorgski” há também outros temas e depoimentos de seus coetâneos.

O povo, constante em seus pensamentos, está expresso em carta a Vladimir Nokolski, ao tratar de uma de suas criações mais afamadas, A Noite de São João no Monte Calvo: “Você está bem a par de minhas convicções musicais para não duvidar que me é extremamente importante reproduzir fielmente as criações da imaginação popular, sejam elas quais forem, bem entendido, no limite dos meios utilizados para a escrita musical” (12/07/1867). Assim como Dostoiewsky, Moussorgsky é um observador. Frisa esse aspecto em tantas missivas: “Observo atentamente mulheres e mujiks típicos: uns e outros me são úteis. Quantos não são os aspectos inéditos na alma russa ignorados na arte! Eles são extremamente saborosos e simpáticos… Reproduzi em imagens musicais uma parcela de minhas observações da realidade e da intenção das pessoas que me são caras, transmitindo a elas impressões acumuladas”. Carta à Lioudmila Chestakova (30/07/1868). Em outra carta a Stassov, Moussorianine (assim ele assina em tantas missivas) escreve, num prenúncio dos eventos do início do século XX na Rússia: “Patinamos no mesmo lugar enquanto o povo não puder verificar com seus próprios olhos o caminho que lhe é imposto; enquanto não puder escolher, ele mesmo, a sua senda! Benfeitores buscam ver suas glórias documentadas enquanto o povo geme e, para não o fazer, embebeda-se continuamente, mas contrariamente, gemerá ainda mais forte: nós estamos, pois, sempre lá!” (16-22, 06/1872).

Moussorgsky emana conceitos sobre a condição humana, mas luta igualmente: “Os homens evoluem e, como consequência, a sociedade humana também; a compatibilidade das exigências do homem evoluído [para seu tempo] com aquelas que lhe impõe a sociedade [igualmente para o seu tempo] representa a harmonia que buscamos, e a via em direção à harmonia passa por uma luta feroz, sejam quais forem as circunstâncias”. Carta a Arséni Golénichtchev-Koutousov (02/03/1874).

O escritor e aventureiro Sylvain Tesson define bem uma palavra russa traduzida em francês como pofiguisme: “O pofiguismo não toma emprestado nem à resignação dos estoicos, tampouco ao desprendimento dos budistas. Também não ambiciona conduzir o homem à virtude pregada por Sêneca, nem dispensar méritos cármicos. Os russos pedem simplesmente que os deixem esvaziar uma garrafa, pois amanhã será pior do que hoje. O pofiguismo é um estado de passividade interior corrigido por uma força vital. O profundo desprezo por toda esperança não impede o pofiguista de desfrutar ao máximo os sabores do dia que passa” (Dans les forêts de Sibérie).

Em carta a Stassov, Moussorgsky traça quadro relacionado à técnica composicional, comparando-a em certo ponto à culinária: “Talvez tenha medo da técnica, pois é meu ponto fraco. Muitos me defendem sobre esse capítulo igualmente. Detesto, por exemplo, o costume de cozinheiras que dizem, falando de um paté em vias de ser cozido ou, mais precisamente, comido, que sua preparação exigiu ‘um milhão de pitadas de manteiga, quinhentos ovos, toda uma quantidade de brócolis, cento e cincoenta peixes e um quarto…’ Comemos o paté e achamos delicioso, mas desde que a cozinha é mencionada, vem-nos à mente uma cozinheira ou um cozinheiro eternamente sujo, o chapéu típico, um peixe eventrado sobre um outro, muitas vezes com as tripas à mostra. Outras vezes, a imaginação sugere um avental imundo de gordura, no qual por vezes ela ou ele soa o nariz, esse mesmo avental que serve para enxugar as bordas dos pratos, fazendo-os brilhantes… Pensando assim, o paté torna-se pior. As obras de arte acabadas possuem esse aspecto de castidade a interditar tocá-las com as mãos sujas: é repugnante”.

Se já abordei o arguto senso de observação de Moussorgsky, mencione-se exemplo em que, dessa atitude, o compositor passa à prática: “Durante o trajeto de barco de Odessa à Sebastopol, havia a bordo mulheres que cantavam; à altura do farol de Tarkhankhout [onde naufragara o iate Livadia], enquanto certos viajantes começavam a sofrer enjoos, observei que duas mulheres, uma grega e uma judia, cantavam suas canções. Juntei-me a elas, que ficaram felizes e me chamaram de mestre. A propósito, tendo assistido em Odessa a ofícios em duas sinagogas, fiquei entusiasmado. Guardei dois temas hebraicos: o do cantor acompanhado pelo coral e também o executado em uníssono”. Longa carta a Stassov (10/09/1879).

Esse relato, próprio de atento observador, corrobora outros olhares de Moussorgsky, como aqueles durante a exposição de aquarelas (1874) de seu amigo Victor Hartmann falecido em 1873. O impacto levou o compositor a compor uma das obras mais emblemáticas da arte musical, os Quadros de uma Exposição para piano e futuramente orquestrados por compositores como Maurice Ravel, Dmitri Shostakovich e Francisco Mignone. Escreve a Stassov aos 12 ou 18 de Junho de 1874: “Meu caro generalíssimo, Hartmann ferve em minha cabeça como ferveu Boris (referia-se à também emblemática ópera Boris Goudonov); os sons e as ideias estão suspensos no ar, absorvo-os, lambuzo-me, a chegar apenas a rascunhar sobre o papel. Escrevo agora o nº 4, as ligações são boas (tratava-se das diversas Promenades, passeios que interligam os quadros). Quero findá-los o mais rápido e da melhor maneira possível. Minha fisionomia aparece nos intermédios. Acredito que está dando certo. Dê-me sua benção” (traduzido por JEM a partir da versão francesa do original russo).  Moussorgsky comporia em cerca de duas semanas uma obra-prima, e durante esse tempo, teria ficado autorrecluso.

Detenho-me nos Quadros... pois eles representam a síntese dessa atenta observação. Não seriam os temas dos dois judeus, Samuel Goldenberg e Schmuyle, inspirados em outras escutas, Tuilleries não lhe veio à mente após presenciar miúdos brincando, A Cabana sobre patas de galinha – moradia da feiticeira Baba-Yaga não traria a Moussorgsky as reminiscências dos contos de Niania, sua babá, que “o impediam de dormir”, o tema da Grande Porta de Kiev, a finalizar a obra maiúscula, não é certamente a lembrança inconsciente de Frère Jacques, considerando-se que as melodias do cancioneiro francês eram entoados por Nianias, tantas delas vindas de França, pois o idioma de Voltaire era quase uma segunda via nas classes mais abastadas russas?

Clique para ouvir os Quadros de uma Exposição na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

Modeste Moussorgsky, autor de obras imorredouras, como as óperas Boris Goudonov e Khovanshchina, ciclos de canções absolutos, Quarto de criança, Sem sol, Cantos e danças da morte, os Quadros de  uma exposição – um dos compositores preferidos por Claude Debussy e Igor Stravinsky -, sucumbiria no infortúnio, vítima, entre outras causas, do álcool e da epilepsia. Tem-se nos versos finais da canção escrita aos 18 anos, Onde estás pequena estrela: “A nuvem negra escondeu a estrela, e a menina foi envolvida pelo túmulo gelado”.

This post addresses the book “Modeste Moussorgsky et le drame musical russe – notice autobiographique, lettres, souvenirs de contemporains” (Éditions Radouga, Moscou, 1987), covering, among other subjects, the letter exchange between the Russian composer Modest Mussorgsky and a few interlocutors, among them the critic Vladimir Stassov and members of The Five, a group of composers that included Mussorgsky, Aleksandr Borodin, Mily Balakirev, Nikolay Rimsky-Korsakov and César Cui, all bound by the goal of creating a distinctive school of Russian music. In my view, the reading of Mussorgsky’s personal letters has particular importance if one wants to learn about his music, his psychological portrait, his shrewd understanding of the Russian people — something that has impacted on the music he wrote — or, in a word, the paths trodden by the composer in music and in life.

Francisco de Lacerda em montagem a seguir intenções do autor

Essa obra é um milagre…
Willy Corrêa de Oliveira
(após ouvir as Trente-six histoires mais de uma vez)

Há tempos, meu dileto e fidelíssimo amigo Elson Otake perguntou-me a respeito da introdução das Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste no Youtube. Razões múltiplas fizeram-me postergar a proposta. A palestra e o recital que apresentei em Outubro abordando Francisco de Lacerda, neste ano do sesquicentenário de seu nascimento, aguçaram o anseio de Elson, que já estava a preparar todo o material, o que me fez prometer ao leitor-ouvinte a introdução das Trente-six histoires… no aplicativo até o fim do ano. Tem-se, nas Trente-six histoires…, uma obra programática – frases a acompanhar por vezes o discurso musical -, o que leva o intérprete a escolher possibilidades. Para a apresentação pública dessa sensível criação de Francisco de Lacerda, miniaturas gestadas ao longo de 20 anos, há várias vertentes: interpretá-las na íntegra sem interrupção; com auxílio do power point que, a cada uma das 36 histórias, norteia o ouvinte, inclusive com as frases inseridas por Lacerda em tantas das pequenas composições, ou com um narrador a dizer cada título.

Elson Otake e eu várias vezes, ao longo destes últimos anos, introduzimos no Youtube criações de suma importância na literatura para piano ou teclado, caso das seis Sonatas Bíblicas de Johann Kuhnau (1660-1722) contendo o “programa” – frases a indicar situações apresentadas no decorrer da música -, ou pertencentes à coletânea que leva à sugestão, exemplificada pelas Viagens na Minha Terra, de Fernando Lopes-Graça, em que o compositor transita pelo território português, a oferecer curtas peças  evocando situações, festejos, religiosidade… Tanto as Sonatas Bíblicas como as Viagens na Minha Terra tiveram power points preparados pelo Prof. Pedrosa Cardoso e que serviram nas diversas apresentações que realizei em Portugal ao longo dos anos.

No que tange as Trente-six histoires…, realizamos em várias cidades portuguesas a criação de Lacerda (2011), tendo como suporte o power point preparado por Pedrosa Cardoso. Funcionou muito bem nos recitais, pois, ao seguir as peças através da leitura no programa impresso, o ouvinte geralmente se perde em determinado momento. Auscultando tantos desses aficionados, cheguei à conclusão de que a apresentação da obra de maneira convencional, sem suporte, mesmo a encantar o público desorienta-o, pois este pode perder-se após a escuta de algumas miniaturas. O power point funcionou bem, pois os títulos, epígrafes e frases inseridas estavam em francês – assim Lacerda os nomeou – e português na tradução do Prof. Pedrosa Cardoso. O musicólogo se valeu igualmente de algumas imagens para enriquecer o power point, desenhos de meu saudoso amigo e notável pintor Luca Vitali (1940-2013). Ao apresentar a coleção em Paris em 2012, sem qualquer suporte, alguns dos presentes disseram ter adorado a obra, mas sentiram a falta de informações que pudessem guiá-los. Era a primeira vez que as Trente-six histoires… estavam a ser apresentadas na cidade na íntegra. No recital em Outubro último no Ateneu Paulistano tivemos outra versão quanto à exposição. A esposa do compositor Willy Corrêa de Oliveira, Marta, lia os títulos e eu, antes de interpretar as peças da coleção, fazia a leitura das epígrafes ou citações contidas no texto musical. Verifiquei que essa configuração teve boa acolhida em recital.

Elson Otake também é corredor de rua, tendo sido um de meus gurus nessa atividade. Em algumas provas do calendário oficial de corridas, Elson, maratonista, abdica de sua real velocidade para correr ao meu lado. Desde 2010 é responsável pela introdução de mais de 90 músicas extraídas de minhas gravações no Exterior. Diria que Elson tem faro para as situações mais complexas. A estrutura básica do power point do Prof. Pedrosa Cardoso foi mantida, inclusive as suas traduções, com raras modificações que sugeri. Elson pensou em inserir títulos, andamentos, epígrafes e frases na exata minutagem. Assim sendo, coube a mim colocar cada frase no tempo preciso. Para a apresentação no Youtube, após testes que realizamos, funcionou muito bem. Todo o material está em francês e português. Outra ideia de Elson foi prontamente aceita por mim. Propôs ele dividir as Trente-six histoires… em três partes, constituídas por 12 peças cada. Acredita que, nessa configuração, o ouvinte terá ainda maior facilidade para escutar determinada música mais de uma vez. Como sou absolutamente jurássico no mister tecnológico, para não dizer nulo, as sugestões de um expert como Elson foram benvindas. Há razões para essa divisão, pois as doze primeiras peças privilegiam pássaros, as doze a seguir, mamíferos, e as doze finais, animais de vida aquática, exceção ao Le vieux Loup gris, às Complaintes de la Chèvre e finalmente ao Pour endormir le Dragon rouge.

Finalizava o blog e recebi mensagem do compositor francês François Servenière:

“Estou ouvindo as Trente-six histoires… Sempre amei essa obra, desde a sua apresentação em Coimbra em 2011. Retomo minhas primeiras impressões, pois Lacerda, como procederia mais tarde Messiaen, cria uma obra de naturalista. Essa criação é perfeita para contemplativos nos quais eu me incluo. É a musica sonhada para integrar-se à natureza e admirar sua funcionalidade multiforme. Quando ouvimos a sequência dessas peças curtas, ficamos encantados pelo charme atemporal dessas pinturas abstratas e, ao mesmo tempo, concretas. Sentimos os animais em movimento, suas atitudes, seus gestos.  Percebemos a natureza viva , feliz, vibrante, quase espantada de assim ser, pois há também nessas notas musicais uma interrogação introspectiva sobre a existência, com seus múltiplos pontos de interrogações musicais, essas notas deixadas em suspensão.

Adoro mesmo toda a coletânea. Lógico que, sob seus dedos de ourives nadamos no caviar auditivo. Abra a tumba de Lacerda, e nela deposite seu CD e que ele ouça o que você fez com sua obra-prima…

Os filmes estão muito bem montados por Elson Otake. Que magnífico trabalho de imagens e textos!!! Descubro as águas-fortes de nosso saudoso Luca Vitali… Carinhosos pensamentos à sua memória”. (tradução: JEM).

O link abaixo copiado, leva às Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste de Francisco de Lacerda, divididas em três partes para a apresentação no Youtube:

https://www.youtube.com/playlist?list=PL1j-Jq5yk8iyblpLYazgN-iA6IyfG6eBv

Um próximo passo está a ser pensado para 2020, a introdução de La Boîte à Joujoux, de Claude Debussy. Frases e as aquarelas de André Hellé (1871-1945) deverão enriquecer a apresentação no site.

This post announces that my recording of Francisco de Lacerda’s “Trente six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” has been posted on Youtube with video editing by my friend Elson Otake and illustrations by the late Luca Vitalli, a dear friend and great artist.

 

Alguns exemplos a partir de questionamento

Não é vencer tampouco capitular com o inimigo:
é o inimigo que deve capitular.
Esse inimigo é a preguiça e a apatia de nossos atores,
que têm de ser estimulados para sentir e para pensar.
Se eu consigo essa vitória,
se tiver de capitular ainda,
quando tenho ao meu lado um aliado poderoso como você,
não mais me aventurarei em nenhuma batalha.
(Carta de Richard Wagner a Franz Liszt. s.d.)

Meu caro amigo,
Sua ópera “Lohengrin” é uma obra sublime, de ponta a ponta:
verti lágrimas em muitos segmentos -
Toda a ópera é uma só e indivisível maravilha,
e não saberia pormenorizar tal passagem
tal combinação, tal efeito.
(Carta de Liszt a Wagner.  Weimar, 2 de Setembro de 1850)

O blog precedente despertou interesse, pois resenhei o livro “Claude Debussy”, de Philippe Cassard, respeitado pianista francês. Em sua trajetória como intérprete, Debussy é seu compositor referencial. Na publicação, Cassard menciona várias cartas do compositor, que não passaram despercebidas da leitora Mercedes. Escreve-me se a correspondência de um autor pode revelar por completo “personalidade, índole, processos composicionais, ideologia, projetos, egoísmos…”. A depender da atividade intensa e profícua de quem é missivista nato, todos esses elementos podem estabelecer preciosos contributos à elaboração de uma biografia futura. Servem as cartas igualmente para explicar humores e idiossincrasias que, confrontados com o todo, corroboram acertos avaliativos. Sem esse acervo representado pela correspondência, lacunas poderão ser intransponíveis.

Infelizmente, o avanço tecnológico e a escrita, prioritariamente reservada a computadores ou outras engenhocas, faz com que valiosas contribuições de luminares do pensar se percam nas profundezas dos arquivos e jamais sejam buscadas, quando não desaparecem tantas vezes sem explicações. As cartas escritas a mão, quando trocadas entre pares, geralmente eram guardadas com cuidado. Perdeu-se essa prática, hélas.

Duas categorias básicas podem ser avaliadas. Uma primeira a revelar, por parte de quem escreve, a certeza de que a carta será preservada pelo destinatário, geralmente à altura de um diálogo competente. O que escreve sabe que o receptor arquivará o que recebeu, pois voltado ao diálogo ou debate. Num segundo compartimento há a missiva circunstancial, a tratar preferencialmente do cotidiano. Neste caso, tem-se familiares ou amigos que não pertencem à área do remetente e temas prosaicos são tratados sem interesse maior.

Escolhi alguns exemplos entre os compositores que legaram farto material representado pelas cartas. A prática, tantas vezes diária como verdadeira missão, tem endereço preciso, a depender do receptor. Sob outro aspecto, a provocação voltada ao pensar estimulava intercâmbio constante.

Respondendo a Mercedes, mencionaria alguns livros com manancial epistolar de expressão redigido por compositores que permanecem.

Nenhuma reunião de cartas de um autor é definitiva. Esporadicamente são encontradas, em coleções particulares ou mesmo ao acaso, missivas e bilhetes redigidos e assinados que enriquecem a coleção.

As cartas de Ludwig van Beethoven (1770-1827) se estendem de 15 de Setembro de 1787 à possivelmente derradeira, datada de 23 de Março de 1827, três dias antes da morte, na qual o compositor trata de seu testamento. Basicamente, parte substancial do personagem pode ser extraída dessa fonte primordial, pois seu dia a dia, anseios, afetos, reverência a “benfeitores”, composições, relacionamento com editores, problemas relativos à saúde estão configurados nesse conjunto epistolar. É de se salientar o cuidado com a revisão de suas obras, que ele considerava “um cansaço bem menos reconfortante do que o trabalho de composição”. Nesse item, é relevante a precisão de Beethoven que, aos 27 de Janeiro, dois meses antes da morte, escreve: “…estou acamado, a sofrer de hidropisia, daí meu silêncio”, mas teve forças para realizar a revisão precisa da Nona Sinfonia e do último Quarteto. (“Les Lettres de Beethoven” – L’intégrale de la correspondance”, traduction française. France, Actes Sud, 2010, 1.737 pgs).

Da minha saudosa amiga, a extraordinária especialista portuguesa em Canto Gregoriano Júlia d’Almendra (1904-1992), recebi no início dos anos 1980 os dois volumes da essencial correspondência entre luminares do século XIX, Franz Liszt (1811-1886) e Richard Wagner (1813-1883), que mantiveram longa amizade, testemunhada inclusive pela imensa atividade epistolar (“Correspondance de Wagner e Liszt”. Leipzig, Breitkopf & Hartel, traduction française par L.Schmitt, 1900, 2 volumes). Edições posteriores, acrescidas, surgiram em França em 1975 e 2008.

Dois dos mais influentes compositores do século XIX dialogam de 1841 a 1861. Perpassam nessa vasta literatura desde assuntos do cotidiano, “sou interrompido a cada instante pela invasão de trabalhadores – presentemente um serralheiro saxão – tudo isso me perturba muito ao escrever essas linhas”, escreve Wagner (08/05/1858) – às viagens e concertos; aprofundamentos musicais; necessidades financeiras de Wagner, mas também a montagem de suas óperas; a atenção permanente e generosa de Liszt para com o amigo; desavenças logo contornadas e respeito mútuo. Em tantas cartas vê-se Wagner a plantear seus projetos, solicitando intercessão contínua de Liszt junto às entidades musicais, inclusive sob o aspecto financeiro. Liszt primou pela compreensão do talento e pela benevolência, testemunhada por depoimentos das mais diversas personalidades do período. Wagner, em sua busca da “arte total”, a abranger música, teatro, dança, artes plásticas, teve a admiração plena de Liszt, que exalta essa incessante inovação proposta por Wagner. Em uma das cartas, Wagner escreve: “Onde pode o artista encontrar suas criações senão na vida, e essa vida não teria seu valor somente quando impulsiona a criação de formas novas que respondem a ela? Regressar ao passado, seria esse o caminho criativo do artista? O que seria da fonte de toda a arte se o novo não jorrasse com uma força irresistível ou não se absorvesse inteiramente nas novas criações?” (8/9/1850). Wagner já premoniza caminhos que a música trilharia a seguir, entre esses o direcionamento após a exaustão do tonalismo. Saliente-se, contudo, a influência musical de Liszt na obra do autor de Tristão e Isolda. Aos 18 de Outubro do mesmo ano, Liszt, revelando a admiração pela obra de Wagner, tece interessante comentário sobre artigo que escrevera sobre sua ópera preferida, Lohengrin, enviando-lhe a única cópia ao músico alemão, solicitando-lhe que a devolva após leitura e a demonstrar a não guarida da criação em Paris: “…malgrado as dificuldades que encontrarei para ver publicado na imprensa parisiense artigo extenso, e também pelo fato de ser elogio a uma ópera alemã escrita por compositor alemão, em cujo sucesso ninguém tem interesse direto, longe disso, não me desespero entretanto, pois tentarei algum dia em qualquer revista, fato esse que motiva meu interesse em receber o artigo de volta”. Da parte de Wagner não há menções tão efusivas pelas composições e as atividades de Liszt como compositor, pianista e regente, apesar da grande admiração pelo músico húngaro. Sente-se nas missivas de Wagner um forte egocentrismo. O músico alemão, considerando banais determinadas razões oficiais que prendem Liszt às atividades musicais, dele recebe mensagem esclarecendo esse desacerto do amigo e se posiciona: “Encerremos esse assunto! Seremos sempre o que somos, amigos inseparáveis, dois amigos raramente encontráveis” (9/10/1858).

Nas 615 páginas de correspondências, observa-se contudo, apesar da constante “súplica”, o viés reflexivo de Wagner, a exarar posições sobre a música de seu tempo. Destaco contundente consideração sobre música e drama, extraída de carta a A.M. de Zigezar inserida no 1º volume: “É um grande erro acreditar que o público que acorre ao teatro seja constituído por músicos, tendo de entender as intenções do drama musical: fomos levados a assim pensar de maneira inteiramente falsa, pelo fato de que na ópera supõe-se a música como fim, contrariamente ao drama, avaliado como meio de valorizar a música. Tem-se o inverso, pois a música deve somente contribuir decididamente a possibilitar a cada instante o drama claro e luminoso. Todavia, a audição de uma boa ópera (quero dizer, uma ópera razoável), não deve se ater, de certo modo, à música, mas somente a senti-la voluntariamente, enquanto que o interesse mais arguto deve ser dado à ação, que nos absorve inteiramente” (Zurich, 9/9/1850). Curiosamente, a posteridade entenderia o amálgama, graças à extraordinária escrita musical de Wagner. Quanto a Liszt, vemo-lo sempre a buscar entender as necessidades do amigo, evidenciando grande empenho em produzir suas obras. Inclusive, sendo um dos luminares da composição e da interpretação no século XIX,  escreve relativamente pouco sobre si mesmo, contrariamente ao amigo. Wagner é mais profícuo como missivista nesse “intercâmbio” epistolar com Liszt, não apenas no número de escritos como na extensão. Liszt é preferencialmente mais econômico e objetivo na maioria das missivas. Frise-se, a ópera faz parte substancial da valiosa correspondência entre os dois notáveis músicos.

Em 1870, anos após o ciclo epistolar que se estende de 1841 a 1861, Wagner se casa em segundas núpcias com Cosima (1837-1930), filha de Liszt, que anteriormente fora casada com o pianista e professor Hans von Bulöw.

O espaço a que me proponho impede-me, infelizmente, de me alongar sobre esse precioso conjunto epistolar, que traduz dados relevantes de um dos períodos mais fecundos da história da música.

Atendendo a leitora Mercedes, brevemente tratarei sucintamente da valiosa correspondência de Moussorgsky e de Debussy, essa destinada a um número extenso de destinatários, mormente no caso do compositor francês. (tradução: J.E.M.)

In today’s post I discuss the importance of prominent people’s epistolary legacy to understand the society of a given epoch and the personality of the writers, helping to fill in gaps in their biographies.  As examples, a glimpse at Beethoven’s private letters and at the epistolary exchange between Liszt and Wagner from 1841 to 1861. Will new digital technologies be able to preserve memories that outlive us?