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Recital de encerramento

As agências internacionais de concertos
apoderaram-se inteiramente da nossa vida musical,
onde colocam (por vezes a peso de ouro) o êxito acumulado do “centro”.
E nem sequer passa pela cabeça das instituições e dos seus “programadores”
que Brasil e Portugal, juntos,
bem podiam criar uma nova dinâmica
de efectivo intercâmbio que se projectasse
não só no espaço cultural luso-brasileiro, mas também para fora dele.
Mário Vieira de Carvalho
(Professor Catedrático de Sociologia da Música na Universidade Nova de Lisboa)

A última vez que me apresentei como recitalista de piano no Theatro Municipal de São Paulo foi aos 17 de Junho de 1963, com programa dedicado a J.S.Bach.  A progressiva destinação do Theatro Municipal às temporadas líricas, ao ballet e aos concertos orquestrais possivelmente retirou do mais tradicional teatro paulistano muitas das apresentações solo, que foram deslocadas para outras salas da cidade. Estou a me lembrar de que, na minha juventude, o Theatro Municipal abrigou apresentações de muitos dos maiores intérpretes solistas da história: Arthur Rubinstein, Claudio Arrau, Walther Gieseking, Zino Francescatti, Ruggiero Ricci, Christian Ferraz, Alexander Brailowsky, Leonid Kogan, Pierre Fournier, Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Gérard Sousay e tantos mais. Minha primeira ida ao Theatro Municipal foi para assistir ao pianista Alexander Uninsky. Tinha eu pouco mais de dez anos e o espetáculo  maravilhou-me. A todas as apresentações dos intérpretes mencionados meu irmão João Carlos e eu assistíamos entusiasmados! Quando crianças, sempre acompanhados de nossos pais.

Quanto ao Theatro Municipal, o atual prefeito João Dória realizou para a cidade um benefício cultural a ser elogiado, pois o teatro ficou em passado recente à mercê de algumas figuras hoje envolvidas com a Justiça. Propiciou o alcaide uma democratização dessa sala de espetáculos centenária. Foi pois com alegria que recebi do Senhor Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, convite para encerrar a programação “Experimenta Portugal’17″ que, durante todo o mês de Junho, mostrou à cidade eventos diversificados em vários locais, numa promoção relevante. Junho tem significado especial para Portugal, pois o dia 10 (dias de Camões) é a data nacional do país. O recital se enquadra na programação do Theatro Municipal, que às quartas-feiras, às 20:00hs, tem realizado espetáculos solistas ou camerísticos com boa aceitação pública. Está pois meu recital marcado para o dia 28 deste mês.

Para tanto, apresentarei programa luso-brasileiro que se estende do barroco à contemporaneidade. O ouvinte poderá “viajar” sonoramente através de propostas de compositores de grande valor com linguagens rigorosamente distintas. Diria, não há no programa elaborado dois estilos que se poderiam assemelhar. Aos 79 anos, poderia afirmar que, entre minhas escolhas durante a trajetória, a música de Portugal e do Brasil faz parte atuante de meu repertório, sem distinção, repartida de maneira bem equânime, inclusive em número de CDs gravados, seis brasileiros e outros seis com obras portuguesas significativas.

No programa apresentarei obras de oito autores, também selecionados equilibradamente. Inicio com duas Sonatas do compositor barroco nascido em Coimbra, Carlos Seixas (1704-1742). Seixas, falecido precocemente, legou importante criação distribuída em vários gêneros. Gozou da amizade de Domenico Scarlatti (1685-1757), que teceria elogios ao colega coimbrão, 19 anos mais jovem. Carlos Seixas compôs mais de 100 Sonatas para teclado. Na Bélgica gravei 23 Sonatas para o selo De Rode Pomp. As duas escolhidas são contrastantes, sendo a Sonata em  lá menor (71) plena de poesia e a em dó menor (16) jocosa e virtuosística, com determinadas ornamentações, recorrentes durante a obra, que fazem lembrar a técnica da guitarra.

Também pelo selo De Rode Pomp gravei as “Trente Six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1999), obra basilar de Francisco de Lacerda (1869-1934). Apresentei-a mais de uma vez em várias cidades portuguesas. Quando do lançamento de meu livro “Impressões sobre a Musica Portuguesa” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011), apresentei na legendária cidade universitária não apenas muitas dessas pequenas peças, como também duas homenagens a Francisco de Lacerda. O compositor francês François Servenière (1961- ) comporia “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” e o compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ), as “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste”,  inspiradas nos poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo. Pede o compositor que o intérprete leia os curtos e sugestivos poemas antes da apresentação de cada uma das peças da coletânea.

Os “Estudos Transcendentais” de Francisco Mignone (1897-1986), compostos em 1931, pertencem definitivamente ao repertório mais significativo de nossa criação musical para piano. Neles, Mignone emprega processos arrojados, mormente sob o aspecto da busca de resultados sonoros.

Em 1979 solicitei a Francisco Mignone uma obra para comemorar 20 anos de minha primeira apresentação em Lisboa. Surgiu “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, inspirado em “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões.

O longo convívio com Gilberto Mendes (1922-2016) na Universidade de São Paulo aprofundou laços de amizade. Ele me honraria com muitas obras que apresentei no Brasil e em vários países europeus. Entre essas: “Viva Villa”, “Il Neige Encore”, Sete “Estudos”, “Sonatina” e mais algumas. Muitas delas têm sido apresentadas no Exterior por pianistas de diversas nacionalidades, o que vem demonstrar que, contemporâneo, Mendes nunca foi compositor de uma única apresentação, fato rigorosamente comum entre seus pares. Para os meus 70 anos, que também seriam lembrados em Portugal, Gilberto Mendes compôs “Largo do Chiado” (2008). A curta peça evoca o fado preferido por Gilberto, “A Severa”, canção que sabia de memória desde o filme português de José Leitão de Barros datado de 1930 e primeira película sonora realizada em terras lusíadas.

De Fernando Lopes-Graça (1906-1994), compositor que tive o privilégio de conhecer e de cuja amizade privei desde 1958, gravei três CDs, a maioria com obras em primeira audição. Apresentarei “Morto, José Gomes Ferreira vais ao nosso lado”, pertencente às nove “Músicas Fúnebres”, nas quais Lopes-Graça homenageia amigos que partilhavam ideologia e conceitos artísticos e literários. Como a peça apresenta várias vezes o tema de “Jornada”, uma das canções de Lopes-Graça  sobre versos do poeta José Gomes Ferreira e pertencente às “Canções Heróicas”, antes da interpretação da composição tocarei a canção precedida da leitura dos versos do ilustre poeta português.

Júlio Medaglia (1938- ), um dos músicos mais versáteis do país, compôs uma peça para CD de Estudos Brasileiros que gravei na Bélgica e lançado pela Academia Brasileira de Música. “Zé Eduardo arpeggiando do choro” nasceu após solicitar ao amigo um choro para piano, mercê de ter ouvido uma outra composição sua do gênero dedicada ao quinteto de metais da Orquestra Sinfônica de Berlim. Um primor que continua a granjear ótima recepção.

Mantive com Jorge Peixinho (1940-1994) uma amizade que me estimulou muito no sentido de entender melhor a escrita decorrente do pensamento da Escola de Darmstadt, com a qual Peixinho tanto se identificou. Gravei duas obras do notável músico, “Villalbarosa” para o selo Labor dos Estados Unidos (2001) e, mais recentemente, o “Étude V Die Reihe – Courante” (1992) para o selo Francês ESOLEM (2017), criação que explora de maneira notável a “série” (técnica de composição baseada na disposição de 12 sons sequencialmente diferentes – total cromático da oitava) e que veio enriquecer a coletânea de Estudos para piano que iniciei em 1985 e que teria a duração de 30 anos, findando pois em 2015. Em blogs anteriores escrevi a respeito do projeto, criado com data marcada para ser finalizado. Tem-se uma panorâmica do gênero Estudo na passagem do milênio. Recebi cerca de 80 Estudos vindos de inúmeros países.

Finalizarei o programa com uma obra de nosso grande compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), músico que tive o privilégio de redescobrir e dele gravar cinco LPs no Brasil e três CDs na Bélgica, sendo que um quarto deverá ser lançado no próximo ano. A “Valse-Caprice” op. 11 nº 1 é simplesmente extraordinária em sua condução e apresenta temas contagiantes. Na realidade, uma grande Valsa.

Mesclar obras brasileiras e portuguesas é motivo de alegria. Todavia, vergonhosamente em nosso país não se toca música erudita ou de concerto composta em Portugal. Continuamos a reverenciar os mesmos compositores consagrados europeus, os de sempre. Por motivos que poderiam ter explicação numa análise mais profunda, passando pela colonização, teimamos em dar as costas à excelente criação musical erudita, clássica ou de concerto portuguesa. Exceções das exceções existem e ficam nessa categoria.

Convido os leitores que me têm prestigiado desde Março de 2007 através do blog a assistir um programa diversificado, que bem posiciona criações relevantes oriundas de nossos países, que deveriam ser sempre irmãos em todos os aspectos. Preservemos esse amálgama que existe a partir de tantos elos insubornáveis, eternos.

On my forthcoming recital on 28 June at the Theatro Municipal, part of the agenda of “Experimenta Portugal 17”, event promoted by the  General Consulate of Portugal in São Paulo. The recital will be entirely dedicated to Luso-Brazilian composers: Carlos Seixas, Eurico Carrapatoso, Francisco Mignone, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça, Júlio Medaglia, Jorge Peixinho and Henrique Oswald. A richly varied programme ranging from the Baroque to the present, with extraordinary works from Portugal and Brazil, “sister nations” that should be always united by genuine ties of friendship.

 

 

 

 

O pensamento de François Servenière em torno do tema

- On gouverne mieux les hommes par leurs vices que par leurs vertus.
- Le peuple est le même partout. Quand on dore ses fers, il ne hait pas la servitude.
- Le mot de “vertu politique” est un non-sens.
- Ce n’est pas possible ; cela n’est pas français.
- Une societé sans réligion c’est comme un vaisseau sans boussole.
Napoleão Bonaparte (1769-1821)

A figura de Napoleão fascinava-me na juventude, pois aos 16 anos já havia lido obras do historiador francês Octave Aubry (1881-1946) em torno do Imperador. Um certo romantismo permeava esses livros. Com o passar do tempo, a leitura de outras obras levou-me para uma posição mais crítica. Faz parte de nossas transformações à medida que os acúmulos acontecem.

A recepção ao blog anterior foi bem expressiva. Em mensagens curtas houve elogios e críticas à figura de Napoleão Bonaparte, suas conquistas e derrotas em campo de batalha, assim como suas decisões em tantas áreas que tiveram guarida na legislação e na vida do povo francês ao longo dos séculos. Concentrar-me-ei na longa e substanciosa apreciação de François Servenière, compositor de mérito e um arguto pensador francês. Para aqueles que me honram com a leitura semanal é sem dúvida de grande interesse o posicionamento de um conhecedor profundo da música, da literatura e da história da França.

“Berezina é um episódio típico sobre o qual o francês não gosta de falar, salvo em caso de uma derrota catastrófica política, emocional, humana, pessoal ou esportiva. Berezina é nossa referência absoluta em termos de psicologia negativa. E há razões. Temos também Trafalgar, Waterloo, as últimas Guerras, em registros de batalhas perdidas antes mesmo de terem começado… Jamais perdemos uma batalha sem causa. Derrotas ensanguentadas, trágicas, aquelas dos ‘galos’ se achando mais fortes do que todo mundo! O drama francês, sempre em atraso no início de uma guerra – ‘quem nos quer mal?’ – , um povo obrigado a fazer a guerra pelo fato de estar acuado, pressionado pelos inimigos, mas globalmente incapaz e despreparado para o combate, sob os aspectos material, psicológico e físico, como também derrotados antes do combate pela presença de uma ideologia pacifista. O que teria feito a avestruz para não ter nascido na França? Mesmo encurralados hoje pela presença de 100.000 possíveis combatentes islamitas (um pequeno exército, segundo estimativas de estrategistas do Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália…), continuamos a preferir os passarinhos, os programas ecumênicos de televisão, as séries adocicadas, o cinema egocentrado germânico e acender velas quando tragédias surgem, como recentemente no Reino Unido, que gritou em coro ‘vocês não terão nosso ódio!’ Ganha-se uma guerra com esse gênero de afirmação? Lembremo-nos do tout va bien, Madame la Marquise. Num outro plano completamente distinto, vocês têm a referência da semifinal da Copa do Mundo de 2014.

A realidade subjacente, mesmo com o sol a brilhar, é uma: ‘A civilização democrática é a primeira na história que se equivoca face às forças que trabalham para destruí-la’ (Jean François Revel  (1924-2006), filósofo, escritor e jornalista francês).

Os intelectuais, as elites mundiais traem. Nenhuma originalidade. Eles detestam o princípio de Nação. Nem há necessidade de se falar sobre sua extensão em ‘ismos’. Eu não falo dos esportes olímpicos ou coletivos diversos, quando os países são representados: segundo eles, são baixas pulsões orgânicas, como as culturas locais, outras manifestações, quermesses, etc…. Alguns desses intelectuais que ainda perduram adularam Mao e Pol Pot, o genocida que liderou o Kmer Vermelho no Camboja! Cuba lhes é o paraíso absoluto, mas gostam de viver em torno do Central Park… Lógica também nesses casos! A globalização econômica é seu credo, atualmente… Em caso de guerra, saberão se proteger em Casablanca, Rio, em Los Angeles, nos seus resorts já preparadas para tal fim. Comparados aos povos antigos, a evolução nesse sentido foi ínfima. Encontramos sempre as mesmas oposições ideológicas, os mesmos abusos das elites, os mesmos heroísmos da ruralidade, as mesmas celebrações após vitória e os mesmos ‘resistentes’ de primeira hora sempre em primeiro plano, ‘diante das câmaras’ para obter medalhas e prebendas, após o povo ter sido sacrificado em campos de batalha. Napoleão não estaria fora do contexto, mesmo se tratarmos de temas de nossa época, pois ele evoca uma transformação radical de um antigo regime odiado em direção a um regime mais democrático. As mesmas forças estão em marcha nos dias de hoje com as instâncias superiores europeias, odiadas igualmente pelos povos.

Os períodos históricos fazem-nos pensar no boomerang que se volta contra nós. O Ocidente desfrutou de um período de paz nesses últimos 70 anos, graças ao capital com uma força incrível de inércia, mas igualmente dos espíritos doravante enfraquecidos, mercê do conforto moderno e da alimentação açucarada. Todavia, o inimigo assim não entende e quer por fim, não importa o preço, ao panorama etéreo no azul pacífico europeu. Os povos dormem, despertam assustados logo após um massacre e, antes de voltar a dormir, balbuciam ‘ah, mais um atentado!’.

Ainda não li ‘Berezina’, de Sylvain Tesson. Admiro muito sua obra e outros aspectos a ele concernentes: personalidade, escolhas, coragem, temeridade, apesar de reprovar seu desligamento deste mundo que ele despreza e que pinta com acidez, quiçá cinismo e desencorajamento. Tesson é de tal nível cultural que se desespera diante da humanidade, após ter auscultado com um bisturi todos os recantos mais abissais dos erros acumulados pelo homem. Amamos ler Tesson, pois seu estilo e sua cultura são prazerosos. Sob outra égide, precisamos nos distanciar de sua alma vital para não nos deixar poluir por suas ideias negras e desesperançosas. Há nele forças mórbidas para disputa e duelo constante com a morte, que por várias vezes dele se avizinhou. Há certamente facetas nesse duelar: voluntarismo, atração ou desprezo. O terreno no qual Sylvain Tesson protagoniza, admirável cabeça incandescida, é certamente aquele da morte. É a vida, é assim. Sua escolha. Admiro pelas mesmas razões Mike Horn”. Numa entrevista tempos após o grave acidente que sofreu ao cair da parede de um prédio que tentava escalar em Chamonix e que o levou ao coma, Tesson diria, com aparente serenidade, que espera ter morte violenta. Continua Servenière: “Encontrei alpinistas também enlouquecidos, compositores suicidas, artistas atormentados. Felizmente não faço parte de suas famílias, pois amo muito a vida para não colocá-la em risco a cada segundo, mormente pelo fato de que penso perenizar-me através de meus filhos. Bela aventura, a vida e a continuação através das gerações.

Num primeiro approach, você disse tudo da trama dramática e histórica. Aproximações líricas de Sylvain Tesson! Apesar de ainda não ter lido o livro, tem-se de considerar a personalidade de Napoleão – psicologia, loucura guerreira, egoísmo, inteligência, conhecimento dos homens em suas fraquezas e falhas – e perguntar-se. Primeiramente, antes de tornar-se Imperador, Napoleão era um militar oriundo da Revolução Francesa, apesar de que deu de ombros como Imperador a alguns de seus legados. Completa e visceralmente tornou-se opositor dos Antigos Regimes monárquicos e feudais europeus. Busca instaurar um novo mundo. É a trama de toda a sua revolta contra a Europa e a finalidade de todos os seus combates assassinos contra os regimes atuantes ao preço de milhões de mortos. Alguns, na Europa e na França, comparam Napoleão a Hitler e a Stalin! Certo, suas batalhas contra os Regimes Antigos resultaram em misérias atrozes por onde passou. Tabula Rasa. É fato. A miséria dos povos em consequência da passagem da Grande Armée tem registros históricos por toda a Europa. Apesar de todas essas atrocidades, entendo – criticam-me por assim pensar -  que o legado de Napoleão está muito acima daqueles ‘deixados’ por Hitler, Stalin, Mussolini ou Franco.

Considerando-se essas misérias e desgraças, não tão diferentes das que as precederam sob os regimes políticos abjectos de Reis e Príncipes da Europa antes de 1789, a ação de Napoleão deu início e propiciou o continuum sobre este continente, relacionado a uma reforma democrática profunda que se embasa através do Código Civil que foi difundido pelos países, chegando aos países árabes e às Américas”. Apenas para esclarecimento ao leitor sobre o “Code Civil des Français” ou “Code Napoléon”, promulgado aos 21 de Março de 1804 por Napoleão Bonaparte, reúne o célebre Código regras que fundamentam o status das pessoas (livro Iº), dos bens (livro IIº) e as das relações entre as pessoas privadas (livros III e IV). Para o leitor que deseja inteirar-se mais profundamente sobre a matéria, há farta literatura, mormente nos sites franceses.

Prossegue Servenière: “Napoleão quis acabar com o Antigo Regime na Europa. Certamente foi ele um dos pais da Europa atual (seu Código Civil baseia-se nos Evangelhos, e o Tratado de Roma seguiu o mesmo caminho), mesmo a se considerar que seu poder temporal tinha todos os quesitos de um imperador romano. Reconhece-se em Júlio César a paternidade da modernidade romana e… europeia, sendo Carlos Magno seu sucessor, o que significaria a primeira ‘moagem’ da Europa ocidental. Poderemos entender ser Napoleão o pai da modernidade europeia, diga-se. Nenhum outro monarca do continente teve durante os últimos séculos tanta influência positiva sobre o que viria após sua morte, em 1821.

Os séculos XVIII e XIX deixaram montanhas de cadáveres através das conquistas… Mas havia o respeito às leis da guerra e ao inimigo derrotado; reconheciam-se bravura e inteligência, Um século após, a influência bolchevista estruturada na teoria marxista, que pregava a eliminação dos povos ‘inúteis’ (balcânicos, ucranianos, judeus, bascos, sérvios, romenos, ciganos…), fez desfilar perante nós os criminosos de guerra dos séculos XX-XXI (Stalin, Trotski, Lenine, Mao, Castro, Pol Pot, Maduro, o Estado Islâmico…). Não há possibilidade de estarem todos esses na mesma foto com Napoleão. Entre o Imperador e eles, há um mundo ao nível da moral e das realizações que perdura positivamente. Napoleão é um rio na nossa história, no qual nos banhamos um dia ou outro. Faz parte de nosso DNA.

Napoleão jamais quis exterminar os povos. Sinceramente pretendia liberá-los com suas ideias fixas militares, a fim de atingir seus fins. Combatia regimes políticos antigos, os Príncipes de linhagem, perversos, depravados, sedentos do sangue e suor de seu povo, as genealogias despóticas que se enriqueciam pelo berço e não pelo mérito. Eis sua invenção republicana: o mérito, a coragem e suas recompensas, a Legião de Honra e a Medalha do Mérito. Queria modernizar a Europa através da força das armas. Não era seu objetivo aniquilar a humanidade. Napoleão era da velha época, cheia de coragem e de honra, se bem que não ignorava nenhuma lei da guerra, de Carl von Clausewitz (1780-1831) a Sun Tzu (544 a 496 a.C.), passando por Maquiavel (1469-1527). Napoleão permanece como um sonho de grandeza, malgrado seus erros trágicos: é sempre invocado como salvação. Assim também foi De Gaulle, quando a Nação Francesa esteve no patamar mais baixo. Na realidade, os europeus reconhecem essa qualidades de Napoleão e sua ambição de elevar os povos da Europa acima das monarquias de direito divino.

Retornando a Berezina, um erro estratégico magistral que foi sem dúvida a Campanha da Rússia, fruto, como sempre, de um gigantesco pecado de orgulho. Napoleão se acreditou muito forte, inteligente, astuto, sutil, seguro de si mesmo. Não querendo ceder em nada face aos monarcas de direito divino, impregnado que estava de seu destino revolucionário e reformista. Napoleão, envergonhado e confuso, entendeu que não poderia ir mais longe. O que ocorreu nessa retirada serve ainda de lição, pois ela é abrangente, a compreender: território, clima, vantagem que os autócnes têm sobre suas terras e a dúvida quanto à proporção numérica que não mais serve em nossos dias. A inteligência estratégica sendo a mãe dos combates ganhos: os islamitas, com 10 terroristas prestes a morrer, fazem maior mal aos inimigos psicologicamente, do que uma bomba atômica. Trump teria compreendido isso ao lançar 59 tomahawks sobre uma base síria e a mais poderosa bomba americana antes das bombas A e H sobre posições do Daesh, no Afeganistão. Para poder tratar após e impor suas regras ao Islam… O futuro próximo dirá!

Sob aspecto outro, os exércitos modernos aprenderam a acumular, bem antes das batalhas, longas ou curtas, rações de sobrevivência, doravante compactadas, ligeiras e otimizadas pela liofilização. Essa é ainda uma lição da Retirada da Rússia, entendida hoje como obrigatória nas Escolas Militares, pois a política da terra queimada ordenada pelo czar Alexandre 1º da Rússia impediu o exército heteróclito de Napoleão de se alimentar em terras percorridas. Erro estratégico, um dos últimos da história, mas que será reeditado por Hitler 130 anos mais tarde na Europa ocidental e na Rússia.

Em França, Berezina é considerada como uma derrota, quando na realidade pode também ser entendida como uma vitória francesa do General Jean-Baptiste Eblé (1783-1812). Berezina está ligada intimamente à Retirada da Rússia, esta sim uma verdadeira Berezina, no senso literal da palavra correntemente utilizada na língua francesa, pois esse episódio impregnou profundamente nossa psique de maneira absolutamente negativa. Representa o símbolo mesmo da derrota, o apogeu do desastre em todos os registros da vida. Não por acaso, a expressão popular francesa ‘C’est la Bérézina’ significa  situação de derrota ou o trágico insuperável.

Eis minhas reflexões após a leitura de seu blog apaixonante sobre tema não menos apaixonante, que nos atingirá a todos se não conseguirmos segurar o touro pelos chifres. As soluções aí estão, mas a classe política, que poderia colocá-las em pauta, não o faz por causa de negócios e também da petromonarquia… Que dizer dos povos? Vencidos antes do combate?

Não sei, mas não cesso de refletir a cada dia. Meus propósitos decorrentes da atualidade não estão fora do contexto. Estaríamos nos preparando para uma nova Berezina? Conhecemos a sequência da história, mas não a decorrência que está por vir… Teriam razão as Cassandras?”. (tradução: J.E.M.)

Resuming the subject of last week’s post, I transcribe today excerpts of an e-mail message from the French composer and intellectual François Servenière discussing positive and negative aspects of Napoleon’s accomplishments and legacy.

 

 

 

 

 

 

Sylvain Tesson en sidecar com Napoleão

Limites da abulia!
Para escapar, leio de tempos em tempos
algum livro sobre Napoleão. A coragem dos
outros nos serve algumas vezes como estímulo.
Cioran
(Cahiers, 17/01/1958)

Sylvain Tesson tem trajetória singular, mas coerente, se entendida no conjunto de sua obra. Daquele vagabond e aventureiro que subia em catedrais pelas paredes exteriores, assim como em frondosas árvores, para  passar dias nas cumeeiras, ao viajante temático que empreende longos percursos, em busca de respostas a tantos fatos e episódios históricos nebulosos, houve um longo percurso. No menu do blog o leitor tem acesso aos títulos dos livros de Sylvain Tesson e às datas em que foram resenhados (Livros – Resenhas e Comentários – Lista).

“Berezina”, de Sylvain Tesson, é livro recente (“Berezina – En side-car avec Napoléon”, Chamonix, Guérin, 2015), no qual episódio desastroso da História da França serve como tema para viagem singular do escritor aventureiro. Tesson buscou realizar o trajeto empreendido pelo Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821) na catastrófica retirada da Grande Armée de Moscou a Paris em 1812. Num Ural, sidecar russo, Tesson e seu fiel companheiro Thomas Goisque, fotógrafo de mérito, realizam, acompanhados a certa distância por outro sidecar pilotado pelos amigos russos Vassili e Vitali, o trajeto longo Moscou-Paris, em pleno inverno. O escritor Cédric Gras, outro amigo, participa de várias etapas da empreitada. Os muitos locais das tragédias são pormenorizados.

Diferentemente de outras aventuras de Sylvain Tesson, menos afeitas às precisões históricas, o autor enfrenta no presente romance um confronto de difícil posição, sem parti pris. O romance é organizado num formato a aparentar um “diálogo” imaginário, confrontando ou reforçando conceitos de acompanhantes que fixaram por escrito a desdita da retirada em 1812 e a posição do viajante de 2012. O autor de “Berezina” interpreta, sob impressões por vezes intensas, o que está a ver e a sentir ao passar por terras eivadas de sepultos ou de seus fantasmas. À medida que o percurso vai sendo transposto a temperaturas sempre muito abaixo de zero, impactos de eventos tenebrosos ocorridos dois séculos antes vão sendo acumulados. Frise-se o reforço dado aos relatos principalmente pelos escritos do general diplomata Armand Augustin Louis de Caulaincourt (1745-1813), fiel depositário de confidências de Napoleão durante a retirada da Russia, assim como os de Adrien Bourgogne (1785-1867), sargento durante a campanha russa. Essas “confissões”, e outras mais dos que vivenciaram a retirada, chegam ao limite da descrição cruenta, mas documentam a história da fatídica retirada. Passam por um crivo arguto de Tesson, que dramatiza, interpreta – colocando-se não raras vezes até como “figurante” imaginário -, pincela com cores ainda mais veementes as cenas das batalhas, o duro convívio entre soldados de tantas nacionalidades envolvidos naquela que foi denominada a Grande Armée.

A escolha dessa aventura de Tesson em pleno inverno, a seguir os passos de Napoleão em sua trágica retirada, acentua ainda mais o papel de seu algoz da Rússia Imperial, o general Mikhail Koutouzov (1745-1813),  derrotado na batalha de Borodino ou Moskova (40.000 soldados mortos contra 30.000 franceses que sucumbiram) durante o avanço da Grande Armée em direção a Moscou (135km), verdadeira vitória de Pirro para o Imperador da França. Koutouzov teria preconizado ao czar Alexandre 1º (1777-1825) que o “general inverno se encarregaria” de dizimar o exército do invasor. Antes da chegada da Grande Armée a Moscou  a cidade fora incendiada por ordem do czar Alexandre 1º (1777-1825), ficando sem víveres e sem a tão esperada conquista napoleônica. Terra arrasada. Imprudentemente, Napoleão e seu exército permaneceram em Moscou de 14 de Setembro a 19 de Outubro, quando foi iniciada a retirada às vésperas do inverno. Conselhos não atendidos de Caulaincourt para o Imperador mostraram-se proféticos. Durante o tenebroso retorno, seria Koutousov que estaria à testa do exército russo, fustigando a retaguarda e as laterais da Grande Armée.

As paisagens gélidas percorridas exatamente há dois séculos pelos soldados de Napoleão e aquelas presenciadas por Tesson  permanecem na imensa solidão das terras submersas sob o peso da densa neve, mas surgem recorrentes durante o texto. Confessa que correr em sidecar russo e antigo a 70, 80 km, no minúsculo anexo da moto e ocupado pelo amigo e fotógrafo Thomas Goisque, lugar do morto, como rezam os conceitos sobre esse posicionamento, fustiga corpo e alma, mas que à noite encontravam quase sempre abrigo em vilarejo ou qualquer outro lugar. Pensa nas muitas dezenas de milhares de infortunados sem quaisquer outras proteções, fustigados pelo frio e vento, apavorados pelos ataques constantes do exército imperial russo, dos cossacos ou dos camponeses, ávidos nessa tarefa de dizimar e enfraquecer o que restava da Grande Armée.

As interpretações de Tesson das narrativas de Caulaincourt ou Borgogne, considerando-se os desafortunados soldados, chega até a retirar do real a força intrínseca do passado, transformando-a tantas vezes, sem concessões na dramatização, em vislumbre mediático. Há que se considerar contudo,  mesmo para um experiente escritor-aventureiro, o impacto das visitações diárias às paragens da catástrofe sobre um cidadão francês. Dezenas e dezenas de milhares de soldados que sucumbiram foram seus compatriotas. Nessa absorção do trágico destino, Tesson enfatiza quase cinematograficamente o canibalismo que realmente existiu devido à extrema escassez de víveres. Cavalos que não mais tinham força para prosseguir eram devorados pelos infelizes combatentes, que ainda se serviam de suas peles para resguardar-se das temperaturas baixíssimas. Num arroubo romântico, Tesson considera a morte de 300.000 cavalos, divididos entre os dois exércitos beligerantes, e afirma: “Vós, Homens, vós falhastes, pois nenhuma de vossas guerras é aquela dos animais”.

Seguir o percurso desta retirada, uma das mais cruentas da História, influenciaria muitas deduções de Sylvain Tesson. Menciona números que têm sido questionados ao longo de dois séculos, mas que de todos os ângulos quantitativos analisados não deixam de impactar: das centenas de milhares de soldados preparados para a invasão, 250.000 morreram em combate ou combalidos pela fome e pelo frio e 200.000 foram feitos prisioneiros. Os russos teriam perdido 300.000 homens. Relembrar esses números é estarrecedor, mormente num espaço temporal de pouco mais de dois meses, a se considerar a retirada desde Moscou até a chegada de poucas dezenas de milhares de soldados, destruídos física e mentalmente, em terras francesas O vislumbre presente de fato aterrador em 1812 emociona o autor e o texto por vezes não camufla esse estado de espírito.

No evento dantesco da travessia do rio Berezina, sempre rumo a leste, o estrategista Napoleão, a fim de salvaguardar seu exército, acuado, sem pontes possíveis, pois os russos e cossacos obliteravam todas as possibilidades de fuga, fez construir duas pontes com incrível rapidez, uma para as tropas, outra para o material de maior peso. A seguir, temendo que os russos pudessem transpor as mesmas pontes, manda destruí-las antes que milhares de soldados franceses pudessem atravessá-las, deixando pois à mercê do exército de Koutosov o fatal destino de infortunados. Com tintas fortes, Tesson “participa” da cena, auxiliado por narradores da era napoleônica.

Por fim, seria o próprio Tesson e seu companheiro Goisque que “abandonam” o que resta da Grande Armée em Vilnus (Lituânia) e seguem doravante caminho velocíssimo de Napoleão, em sua carruagem guiada por vários cavalos e oficiais de elite,  para não ser capturado pelos russos. A fuga, iniciada entre 5-6 de Dezembro, chegará ao fim na noite de 18 do mesmo mês em Paris!!! Nesse retorno vertiginoso, algumas confissões de Napoleão a Caulaincourt são mencionadas por Tesson, nessa participação “dialogal” separada por dois séculos. Tesson divaga em questionamentos imaginários que porventura teriam povoado a mente do Imperador. Entre esses: “Ao menos uma vez, em sua existência, Napoleão teria considerado as perdas humanas senão sob o ponto de vista estatístico? Suas noites foram perturbadas pela visão de um desses cadáveres? Sofreria, no silêncio da noite, por ter aberto as portas da guerra e precipitado nações inteiras no abismo?”

Interpretações sob forte estado emocional corroboram o sucesso do livro? Certamente, mas deixa ao leitor certas dúvidas quanto ao hic et nunc. Seria Cédric Gras, escritor e outro companheiro da travessia, que melhor definiria, sob o aspecto “poético”, essa presença em terras sob as quais dezenas de milhares de soldados da Grande Armée jaziam: “hectares fecundados pelas lágrimas da História, territórios sacralizados por um gesto, malditos pela tragédia, terreno que, pelos séculos, continua a emanar o eco dos sofrimentos emudecidos ou de glórias passadas. Paisagens abençoadas pelas lágrimas e pelo sangue. Aqui, houve uma tal intensidade da tragédia e espaço de tempo tão curto que a geografia não se recuperou. Sim, as árvores surgiram, mas a Terra, ela continua a sofrer. Precisamos olhar esses territórios em silêncio, pois os fantasmas ainda os assombram”.

Tesson traça uma síntese dos feitos de Napoleão a ser considerada. “Se a Revolução reduziu-se a um empreendimento de luta pela liberdade, Napoleão é o coveiro dos princípios de 1789. Seu antiparlamentarismo, seu autoritarismo, seu imperialismo guerreiro o tornam aparentado a César. Mas se a Revolução definiu-se como um combate pela igualdade, o Imperador foi seu mais ardente promotor. A igualdade civil foi sua obra técnica. A igualdade do mérito, sua obsessão moral. Em que outra época da História da França um açougueiro teve tantas chances de se tornar general, mercê de seus talentos? O ideal do heroísmo irrigou o Império em seu início”. Sylvain Tesson evoca Caulaincourt: “O Imperador desejava os caminhos abertos ao mérito, o meio de atingir sem distinção de casta, sem ser parente ou amigo de alguém próximo ou de uma favorita. Todo soldado poderia tornar-se general, duque, marechal; o filho de um camponês, de um mestre-escola, de um advogado, do prefeito, conselheiro de Estado, ministro, duque, essa nobreza não mais chocaria ninguém com o tempo, pois ela recompensaria indistintamente todo o mundo”. Tesson acrescenta “Você poderia se tornar marechal! Não mais era necessário ser bem nascido, bastava ser ardente”.

O autor critica a sociedade atual, entorpecida pelo consumo, as tantas distrações tecnológicas, o comodismo. Não acredita que, hoje, toda uma fantástica legião pudesse se unir a um líder como Napoleão, o Imperador, em causas por ele sonhadas. Afirma: “Ele havia contado alguma coisa aos homens e estes tinham a vontade de ouvir a fábula, de acreditá-la viável. Os homens estão sempre prontos a tudo desde que exaltados e tendo por pressuposto a existência do talento do orador”.

“Berezina” seduz desde o início, mas é necessário ter cautela quanto a determinadas afirmações “históricas”. O romance de Tesson se amalgama às narrativas dos que presenciaram a retirada. Seria possível entender que em alguns momentos estabelece-se uma dúvida quanto a essa fusão pretendida por Tesson. Meritória essa incrível viagem, que se soma às tantas outras ousadas aventuras do autor. Contudo, creio que, para o leitor que tiver vontade de conhecer mais o dantesco episódio da retirada napoleônica, valeria a pena consultar farta bibliografia, mormente  francesa e russa, para possível avaliação dos trágicos episódios, sendo que muitos deles jamais serão conhecidos.

I’ve just finished reading “Berezina”, by the French geographer and adventurer Sylvain Tesson, one of my favorite authors. This time, Tesson retraces Napoleon’s retreat from Moscow in winter with his Grande Armée in 1812, following the debacle of his war against the Russian tsar. While describing his present day (2012) adventure from Moscow to Paris on a motorcycle with a sidecar, Tesson — supported by memoirs written by survivors of the retreat — recalls the tragedy of Napoleon and his men on the same route 200 years ago, a human drama of horror and loss. A fascinating book that does not exclude recommendations for further reading for those interested in the French invasion of Russia.