Thomas Bernhard frente ao niilismo

Dos fracos não reza a História
Camões

Recebi de meu querido amigo, ilustre neurocirurgião Edson Amâncio, o livro “O Náufrago”, do escritor austríaco Thomas Bernhard (1931-1989). Ficcional, a temática tem como princípio o piano no seu nível mais elevado sob o plano interpretativo e três figuras fulcrais do romance, o ilustre pianista canadense Glenn Gould (1932-1982) e dois colegas, o narrador, anônimo sempre, e Wertheimer, colega de classe, sob a tutela do consagrado pianista Horowitz (o primeiro nome, Vladimir, nunca aparece), durante os cursos no Mozarteum de Salszburgo no pós-guerra.

Inúmeras leituras podem ser feitas a partir da longa narrativa onde inexistem parágrafos, exceção ao início, tornando o texto ininterrupto, possivelmente com o desiderato de demonstrá-lo à maneira de um ostinato, termo usado na área musical.

Os dois personagens, o narrador e Wertheimer, pianistas de talento, colegas de Glenn Gould, entendem de imediato a qualidade do pianista canadense, sabedores  de  que jamais chegarão a sequer ombreá-lo. Bastaram os primeiros compassos das Variações Goldberg, de J.S.Bach, interpretadas por Gould para que, destruído pela impossibilidade de se tornar Glenn Gould, Wertheimer perde irreversivelmente a vontade de continuar e abandona os estudos, caminhando fatalmente para o destino final, o suicídio. Sem o talento de Wertheimer, o narrador igualmente perde a ambição de pontificar como pianista. Glenn Gould teria sido a causa: “Foi ele quem tornou nosso virtuosismo impossível, e isso numa época em que nós dois acreditávamos ainda firmemente nesse nosso virtuosismo”.

Obcecado pela trajetória de Wertheimer e de seus escritos, mormente após a autodestruição do ex-colega, o narrador penetra no âmago das angústias que teriam acompanhado a trajetória do infortunado, acabando por saber que as “milhares de anotações retiradas de gavetas e armários” do colega suicida foram por ele jogadas ao fogo.

Thomas Bernhard se utiliza do fluxo de consciência e prioritariamente, durante o texto ininterrupto, impera o niilismo extremo. Acentua como técnica literária a repetição, e ela não se apresenta poucas vezes. A reiteração enfatiza ainda mais a desdita, no caso, do seu ex-colega Wertheimer, assim como, sob outra égide, as qualidades pianísticas do músico canadense: “Terminado o curso, ficou claro que Glenn era já melhor pianista do que o próprio Horowitz e, daquele momento em diante, Glenn passou a ser para mim o virtuose do piano mais importante no mundo todo; de todos os muitos pianistas que ouvi a partir de então, nenhum tocava como Glenn…”. Não são poucas as vezes em que o narrador menciona superlativamente Glenn Gould.

A quase que fixação em Wertheimer, sua infausta trajetória e seus escritos extrapola a desistência do colega e se estende àqueles que, ao não atingirem um resultado pianístico que os levaria à denominada carreira, encontram no ensino em conservatórios os seus destinos. Em três constatações o narrador, após o ímpeto inicial voltado à possível carreira como pianista, revela consequências da sua desistência, que se acentuam no decorrer da narrativa. É cáustico nessas afirmações: “Munidos do propósito inicial de se tornarem grandes virtuoses, nossos antigos colegas de curso vivem agora há anos sua existência como nada mais do que professores de piano, pensei; autodenominam-se pedagogos musicais e levam uma vida medonha de pedagogo, à mercê de alunos sem qualquer talento e da megalomania e avidez pelo sucesso artístico dos pais destes; e, em seus lares pequeno-burgueses, sonham com a aposentadoria de pedagogos musicais. Noventa e oito por cento dos estudantes de música chegam a nossas academias munidos da máxima ambição; concluído o curso, passam então as décadas seguintes da forma mais ridícula, como professores de música, pensei”. Ridicularizando o professor de piano que se dedica aos alunos da formação básica, desconhece que a maioria dos que conseguiram atingir níveis de excelência iniciaram seus estudos com professores da categoria apontada. Continua o narrador: “Dessa existência, tanto eu quanto Wertheimer fomos poupados, bem como daquela outra, que também sempre detestei com igual intensidade e que conduz nossos conhecidos e famosos pianistas de uma metrópole a outra, de uma estação de águas a outra, e por fim de um nicho provinciano a outro, até paralisar-lhes os dedos e até que a senilidade interpretativa tenha tomado posse total deles. Chegando a uma cidadezinha provinciana, logo vemos numa placa pregada em uma árvore o nome de um dos nossos ex-colegas, que tocará Mozart, Beethoven e Bártok no único auditório do lugar, na maioria das vezes um salão decadente de restaurante, pensei, e a visão nos embrulha o estômago”. Em outro trecho, o narrador comenta, certamente por não ter atingido aquilo que almejava: “Ser concertista é uma das coisas mais horríveis que se pode imaginar, qualquer que seja o instrumento, tocar piano diante de um público é horrível, tocar violino diante de um público é horrível, e isso para não falar no horror que temos que suportar quando cantamos diante de um público, pensei”.

Somam-se às posições negativistas quanto à destinação daqueles que não atingiram a excelência pianística a crítica ácida à Suíça, “tudo é podre” e à Áustria, “sujeira das cozinhas austríacas”. O narrador estende as suas frustrações a tudo e a todos.

“O Náufrago” seria, pois, um livro a ser prontamente descartado? Rigorosamente não. Antolha-se-me extraordinário, pois expõe de maneira insistente e repetitiva a impossibilidade da realização se o almejo for o pico da montanha profissional, mercê de tantas circunstâncias que vão sendo elencadas na sequência da narrativa. Se o narrador e Wertheimer desistiram por saber que não seriam os maiores pianistas, esta sensação certamente existe entre determinados músicos. Um fator é essencial, pois há gradações no nível de excelência. A insigne pianista romena Clara Haskil (1895-1960), entre alguns exemplos notáveis, consagrou-se interpretando Scarlatti, Mozart, Schubert e Schumann, preferencialmente, apesar da escoliose acentuada. Se não executou determinadas obras transcendentais frequentadas na época por Vladimir Horowitz (1903-1989), György Cziffra e Jorge Bolet (1914-1990), como exemplos, isso não a impediu de estar no Olimpo dos grandes intérpretes da História. O maior do mundo, inúmeras vezes citado pelo narrador, não existe, pois escolhas repertoriais precisas impedem a avaliação do melhor entre pianistas notáveis. Wertheimer e o narrador almejavam o topo individualizado, e a decepção ao ouvirem Glenn Gould lhes ceifou quaisquer intenções.

Thomas Bernhard atinge a origem originária da decepção. Wertheimer e o narrador não teriam renunciado à carreira pianística que se desenhava sem predisposições mentais que conduzissem ao desfecho. Na minha juventude, conheci colegas em nossas terras e máxime na França, durante meus estudos pianísticos, que declinaram da carreira e se tornaram músicos multidirecionados competentes para o magistério pianístico, teórico ou para a composição, sendo que alguns se tornaram ótimos músicos de câmara. O campo é amplo.

Um ano após a morte de Glenn Gould, meu irmão João Carlos Martins foi convidado pelos pais do pianista canadense para o First Glenn Gould Memorial Concert na cidade de Toronto (Março de 1983), apresentando as célebres Variações Goldberg, obra paradigmática no repertório de Glenn Gould e um leitmotiv no romance de Thomas Bernhard. Considere-se que João Carlos gravou no Exterior a integral de J.S.Bach para cravo interpretada ao piano.

https://www.youtube.com/watch?v=XUXdIa8V6PM

‘The Castaway’, by Austrian writer Thomas Bernhard, allows for many interpretations. Fictional, the novel questions the difficult rise to a career as a pianist with its hopes, frustrations and even tragedy. Three essential figures make up the plot, including Canadian pianist Glenn Gould.

 

 

 

 

João Gouveia Monteiro diante de relevante programação

Ignorar as vidas dos homens mais ilustres da antiguidade
é continuar sempre na infância.

Plutarco (46 d.C. – 120 d.C.)

Recebi do meu dileto amigo João Gouveia Monteiro, professor Catedrático Jubilado da Universidade de Coimbra e um dos maiores especialistas em História Medieval, a comunicação alvissareira de uma série de podcasts voltada a personagens do mundo antigo. Gouveia Monteiro tem nesse belo projeto a colaboração do jornalista Ricardo Venâncio.

Bem anteriormente, a produção histórico-literária de Gouveia Monteiro já me despertava vivo interesse. Vários foram os blogs sobre a sua obra individual, máxime “Crónicas da História, Cultura e Cidadania” (23/12/2011) e “Nuno Álvares Pereira – Guerreiro, Senhor Feudal, Santo – Os três rostos do Condestável” (05 e 12/11/, 2022), assim como sobre livros em que foi um dos coordenadores, sempre a focalizar a sua área de atuação.

Gouveia Monteiro, em “Vidas em Paralelo”, presta homenagem a Plutarco, referencial historiador, pensador e biógrafo grego. Entre suas obras, destaca-se “Vidas Paralelas”, na qual, nos 23 pares biográficos, rende preito às figuras notáveis da Grécia e Roma Antigas. Estou a me lembrar de que nosso Pai conservava um volumoso “Vidas Paralelas” e os quatro filhos tiveram o prazer de ler na juventude algumas dessas duplas biografias.

No plano inicial, dele a constar 10 podcasts, estão assinalados os já disponíveis. Em alguns participa a historiadora Leonor Pontes. João Gouveia Monteiro, por vezes, é questionado pelo jornalista Ricardo Venâncio, momento em que cada intervenção poderia certamente ser a de um ouvinte da série. Essas criteriosas perguntas, prontamente respondidos por Gouveia Monteiro, tornam-se relevantes, ressaltando outros pormenores acrescidos à exposição planejada.

1. Alexandre Magno e Júlio César. (já disponível, Partes I e II). 2. Buda e Confúcio. (já disponível, Partes I e II). 3. D. João I e Nuno Álvares Pereira. (já disponível, Partes I, II e III). 4. Leonor Teles e Filipa de Lencastre (com Leonor Pontes). (já disponível, Partes I e II). 5. Jesus e Maomé. (já disponível, Partes I e II). 6. Fernão Lopes e Pero López de Ayala. 7. Justiniano e Carlos Magno. 8. Cristina de Pisano e Joana d’Arc. 9. D. Dinis e a Rainha Santa (com Leonor Pontes). 10. Carlos Seixas e Beethoven (com Paulo da Nazaré Santos).

https://podcasts.apple.com/us/podcast/vidas-em-paralelo-um-podcast-com-hist%C3%B3ria/id1843058148

Acessado o link, o leitor poderá ouvir a apresentação do tema escolhido. Dois aspectos se me afiguram como fundamentais, a competência insofismável de Gouveia Monteiro traduzida pela serenidade da sua narração, assim como o método empregado para a trama expositiva, tornando o todo do podcast selecionado extremamente agradável e instrutivo.

Divulgá-los no Brasil adquire importância, pois os temas, com exceções, são pouco debatidos no país. Paulatinamente estou a ouvir os podcasts, entre eles um dos programas dedicados a D. João I (1357-1433) e Nuno Álvares Pereira (1360-1431) e o primeiro a focalizar Jesus e Maomé. Após as leituras de dois livros referenciais sobre Nuno Álvares Pereira de autoria de J.P. de Oliveira Martins (1845-1894), e o já mencionado livro de Gouveia Monteiro, a narrativa deste nessa programação indispensável traduz de maneira clara e sucinta duas das mais relevantes figuras da História em Portugal. Poder-se-ia afirmar que, no espaço de aproximadamente uma hora fixado para cada programa, tem-se outros fatos essenciais de personagens marcantes de um heroico passado histórico de Portugal, assim como da Antiguidade: Alexandre Magno e Júlio César, Justiniano e Carlos Magno, Cristina de Pisano e Joana D’Arc… Quanto aos dois podcasts referentes a Jesus e Maomé, eles adquirem uma complexa, mas vital importância na atualidade, pois abordam as duas religiões mais professadas no mundo. No que concerne a este último tema, assim como Buda e Confúcio, podcasts que visitarei brevemente, Gouveia Monteiro já coordenara a fundamental edição “História Concisa das Grandes Religiões” (Lisboa, Manuscrito, 2022).

Próximo do milésimo post (998), incontáveis vezes salientei a triste derrocada da Cultura Humanística, no Brasil de maneira avassaladora. Mario Vargas Llosa (1936-2025), em “La Civilización del espetáculo”, já apregoava essa decadência em termos mundiais. Personagens em nosso país, sem a estrutura cultural ao menos envernizada, proliferam nos meios de comunicação como influencers, o infeliz termo da moda, e o resultado está a ser notado na formação das novas gerações. “Notabilizados”, esses influencers ocupam espaços avantajados na mídia, e temas culturais relevantes tornaram-se escassos. Preocupação maior dos meios de comunicação do país é a divulgação dos que vivem sob os holofotes, e a Cultura Humanística, não tendo interesse para a grande “clientela” devido a tantos entraves, oficiais ou não, por que com ela se importar?

Convido meus leitores, muitos deles me acompanhando desde 2 de Março de 2007, a paulatinamente ouvirem os podcasts. Uma bela e empolgante viagem pela História.

Clique para ouvir, de Carlos Seixas (1704-1742) a Sonata em Si bemol Maior (nº 78), na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=E8GX3qIjfLI

‘Vidas em Paralelo’ (Parallel Lives), divided into 10 podcasts, is a programme dedicated to illustrious figures in human history. Presented by João Gouveia Monteiro, retired professor of the University of Coimbra, the series features the collaboration of journalist Ricardo Venâncio.

Quando o pluralismo de ideias está a ser olvidado

Cada um de nós emergirá, ao fim do Ano Novo, ou maior ou menor;
ou então, absolutamente não teremos crescido,
permanecendo em completa inércia, exatamente aquilo que agora somos.
Porém, para aqueles dentre nós que sentem fervor,
o que um Novo Ano representa? Não pode ter essa significação?
Somos semelhantes a viajantes, penetrando, em nossa longa jornada,
por um país novo e desconhecido,
onde fados estranhos e estranhas aventuras nos esperam.
Nesta terra, à medida que o peregrino observador a percorre,
oportunidades se acumulam sob seus passos.
Porém, para as utilizar, necessita ser sábio e estar alerta.
Pois de uma coisa deve lembrar-se,

– que é um viajante e que o que lhe compete é, não se deter,
mas passar adiante.

Jiddu Krishnamurti (1895-1986)

A volúpia voltada ao sufrágio deverá concentrar as atenções, máxime nas sedes dos três Poderes, território das decisões. Estas se expandem pelo país em processo rápido e por vezes avassalador. Não estou a me lembrar de um período tão conturbado pré-eleições entre as tantas das quais me lembro, desde os anos 1950. As mentes dos agentes políticos e algumas das decisões tão questionáveis advindas do nosso Judiciário configuraram um clima não propenso à serenidade, termo que deveria ser chave no ano que está para nascer, já contaminado pelo embate. A serenidade leva ao bom senso, dirime excessos, pacifica mentes conturbadas pelas disputas ideológicas conduzindo-as à tranquilidade, estimula a moderação, uma das grandes qualidades, hoje basicamente negligenciada.

Rigorosamente certo é o roteiro político que se avizinha. Desgraçadamente ele impedirá o transcurso habitual de um ano. Tantos temas que afligem a população estarão esquecidos pela intensa polarização. Àqueles que têm outras preocupações, profissionais, do cotidiano salutar, da família a preponderar, as mazelas das disputas ideológicas preocupam, sem que nada individualmente possa ser feito para uma pacificação. A insistência do mandatário-mor, no sentido de que adversários jamais voltarão ao poder, evidencia uma posição, antítese da democracia. Nosso vizinho, o Chile, tem demonstrado salutarmente a alternância do poder. Infelizmente, o desinteresse, ou melhor, a certeza da impossibilidade de que roteiros sejam modificados a partir das decisões de dois Poderes bem afinados perpassa as mentes do cidadão laborioso.

31 de Dezembro, fronteira final que separa a data festejada do incógnito ano a nascer, sem que as mínimas salvaguardas da serenidade sejam cumpridas. A delicada situação econômica do país, a insegurança mercê de um nascedouro ideológico que acarinha o malfeitor, a derrocada visível dos costumes, da moralidade e a permissividade presente anunciam dias cinzentos.

Nos estertores do ano fiz uma pergunta a uma dedicada moça que trabalha no caixa de um dos supermercados que frequento, repetindo a formulação que fizera 15 anos antes a uma outra funcionária que desempenhava as mesmas funções (vide blog: “Considerações sobre a Passagem do Ano – A esperança como estímulo”, 31/12/2010). A resposta de 2010 foi precisa, e estava focada na sua família. Redigi àquela altura: “a primeira felicidade será a de ver sua filhinha sem qualquer problema; a segunda relacionava-se à segurança de seu marido que trabalha em carro forte, o que a preocupa; a terceira, ver todos que a circundam em harmonia. Propósitos transcendentais na abrangência da essência do ser humano”. Indagada nesses últimos dias, a rapariga do caixa, logo após a finalização das compras, respondeu-me que pensava em sua mãe adoentada, rezava para que não fosse assaltada ao sair bem cedo para o trabalho e que gostaria que todos vivessem em harmonia, estas, as últimas palavras que ouvi em 2010.

Busquei outros interlocutores nestas cercanias onde habitamos há mais de 60 anos, tempo necessário para se conhecer tantas pessoas amistosas. Muitos já partiram, mas a renovação estimulante é constante, o que é salutar. Há uma desesperança na maioria dessas figuras que deveras estimo. Acredito que, apesar da grave crise econômica do país, com uma dívida de vários trilhões e gastos excessivos que não dão trégua, assim como o problema insolúvel da segurança pública, o cidadão comum ao menos almejaria ter esperanças.

Após ter encerrado a atividade pianística pública em 2023, continuo a estudar e a apresentar, nos recitais privados, programas que me acompanharam ao longo das décadas, introduzindo sempre obras que não estudei anteriormente. A revisita e o descortino trazem uma surda alegria e a certeza de que a música e a dedicação ao piano ao longo da existência sofreram forte influência da leitura dos livros percorridos na juventude, graças ao meu saudoso Pai. Entre esses, “Atitude Vitoriosa” e “A Alegria de Viver”, de Orison Swett Marden (1848-1924), escritor e médico, autor de inúmeros livros a estimular a autoconfiança. Meus três irmãos seguiram o mesmo roteiro e Marden foi um dos autores mais frequentados por nós quatro durante a adolescência.

Na atualidade, o jovem pouco ou nada lê em se tratando de livros impressos. Ficam na penumbra obras essenciais que fazem parte da Cultura Humanística, hoje frequentada por uma minoria. Independentemente da invasiva disputa ideológica ad nauseam, o denominado “besteirol” domina segmento prioritário dos sites informativos, devassando intimidades dos propalados “famosos”. Busca-se uma notícia relevante e surge a imagem de um desses personagens. Até quando? Essa atualidade parece ter vindo para ficar e seus efeitos fatalmente já se apresentam irreversíveis. Milhões buscam, numa outra fonte, a telinha, as notícias que surgem sem o espírito crítico, mas pulverizadas e tendenciosas. A escrita é preferencialmente abreviada e mal redigida, pois a preocupação com a redação correta inexiste. Graves as consequências: a leitura imediata, descartável, não se fixa na memória, mas atinge algo sensível, o comportamento; a superficialidade destes textos contamina o pensar não reflexivo. O resultado só pode ser a alienação.

Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, Nocturne op. 63 nº 6, na interpretação de J.E.M.:

Gabriel Fauré – Nocturne nª 6 Opus 63 – José Eduardo Martins – piano

Apesar da exposição sombria, auguro a todos os leitores um Ano Novo promissor.

New Year. The country, divided by differing ideologies, faces numerous fundamental problems. The media either addresses this duality or delves into topics of extreme triviality. However, there is still a faint hope that the country will find a safe path to the future.