A arte da tradução

Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado.
Miguel Real (escritor, ensaísta e filósofo português)

O presente blog é dedicado à notável Aurora Fornoni Bernardini. Através da competente jornalista Leila Kyomura, do Jornal da USP, fui convidado a escrever o texto que segue sobre a professora da Universidade de São Paulo e minha dileta amiga. Publicado aos 2 de Março no relevante Jornal, transcrevo-o na íntegra neste espaço. Agradeço ao ex-aluno de Aurora Bernardini, Valteir Vaz, que gravou a enriquecedora conversa que mantive com sua mestra.

“Um encontro com Aurora Fornoni Bernardini é sempre estimulante. Ilustre tradutora, romancista, pesquisadora, professora aposentada e sênior da FFLECH-USP, tendo lecionado nos programas de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russa e em Teoria Literária e Literatura Comparada, Aurora é dotada de uma cultura abrangente nos campos literários e artísticos, sendo em acréscimo poliglota, todos esses domínios essenciais bafejados pela vocação autêntica.  Aurora Bernardini tem no seu currículo traduções de obras basilares originalmente escritas em italiano, russo e inglês. Entre as suas traduções tem-se ‘O nome da Rosa’, de Humberto Eco (1980), versão saldada pela crítica, um marco no gênero e que contou com a colaboração de Homero Freitas de Andrade. Destacaria ainda, entre inúmeras outras traduções, ‘O deserto dos tártaros’, de Dino Buzzati, ‘Os sonhos seus vão acabar comigo’, de Daniil Kharms, ‘O exército de cavalaria’, de Isaac Babel, que contou também com a cooperação de Freitas de Andrade, ‘Cartas a Suvórin’, de Anton Tchékhov, ‘Indícios Flutuantes’, ‘Vivendo sob o fogo’ e ‘O Diabo”, de Marina Tsvetaieva’ autora em que é especialista, tema de sua livre-docência em 1978.

Aurora Bernardini é detentora de várias láureas literárias, entre as quais da APCA, Paulo Ronái e diversos prêmios Jabuti.

No substancioso depoimento que colhi recentemente, o transcurso da notável literata, dos primórdios em seu país natal, a Itália, ao desenvolvimento em nossas terras ainda na juventude, ao posterior conhecimento da literatura russa, influenciada por Boris Schnaiderman, que corroborou futuramente na verdadeira atração pela tradução de preciosidades literárias advindas do vasto país eslavo e, posteriormente, as consequentes ações junto à FFLECH-USP, capta-se a excepcional abrangência de Aurora Bernardini. A versão para outra língua é um veio literário complexo se atentarmos à fidelidade ao texto original. Daqueles primórdios voltados à sólida formação, Aurora desvelou no depoimento a sua brilhante trajetória.

Nascida no norte da Itália, Aurora Bernardini iniciou na infância, logo após a Segunda Guerra, estudos bem orientados perto de Bérgamo, na Lombardia, numa época em que esse ensino era considerado o melhor do mundo. Lembra-se que cada criança na escola era responsável por uma determinada planta, que o interesse pelos livros era realidade, os miúdos os trocavam num ambiente salutar e a professora dirigia-se regularmente a Bérgamo em busca de novos livros. Tempo integral das oito às cinco da tarde e no horário do almoço, com suas marmitas, as crianças dirigiam-se aos campos na montanha e realizavam desenhos ao ar livre. Durante o curso ginasial, numa escola dirigida por freiras e padres, os professores eram leigos e a que ministrava latim, a fazer parte do seu método, orientava diariamente os alunos a decorar dez termos latinos, fator essencial para o desenvolvimento da memória segundo Aurora.

Adolescente, chega ao Brasil aos 14 anos e já dominando duas línguas, a nativa e a francesa, sentiu de imediato a brutal diferença no ensino. Apesar da qualidade de alguns professores, a metodologia de aprendizado era totalmente diferente, as classes abrigavam muitos alunos, quando estava habituada na Itália às salas de aula com não mais de 20 alunos. No depoimento, um fato essencial, o presente dado por sua mãe, ‘O Livro da Jângal’, de Rudyard Kipling, na tradução de Monteiro Lobato. Lembrar-se dessa versão não teria sido, conscientemente ou não, uma orientação na sua rica trajetória como tradutora?

Ao ingressar na USP, Aurora fez primeiramente o curso de línguas anglo-germânicas e, posteriormente, o curso voltado à língua russa. Encontraria seus caminhos definitivos. Tendo interesse pela literatura russa, adquiriu uma gramática. Coincidentemente, uma sua vizinha era russa, o que motivou frequentá-la durante anos apreendendo a sua língua, fator que a levou a frequentar o Curso Livre de Língua Russa na USP, ministrado por Boris Schnaiderman (1917-2016), que a seguir convidou-a para ser sua assistente. Uma frase jocosa do professor respondeu a uma observação da aluna. ‘Não sou nativa’, disse ela àquela altura e a resposta foi imediata ‘Nem todo nativo é inteligente’.

Dando prosseguimento, a mostrar interesse pleno pela literatura russa, Aurora Bernardini estudaria em Moscou na Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba, curso frequentado por alunos de todos os rincões do mundo (1973). Trouxe na bagagem quantidade de apostilas, manuais e livros, que foram a seguir importantes no curso de literatura que ministrou na USP. Se autores consagrados da literatura russa, como Dostoiévsky, Tolstoi e Pushkin foram importantes em sua trajetória, o olhar para escritores e poetas menos ventilados tem sido uma constante nas traduções de Aurora Bernardini, casos de Iuri Tyniánov, Isaac Bábel, Velímir Khlébnikov, Marina Tsvetaieva, entre outros nomes caros à tradutora. Uma sua frase datada de 2012 traduz esse entusiasmo: ‘As novas experiências estéticas são apaixonantes, mas eu também começo por procurar no novo as sementes do velho’.

Um fator essencial nos cursos de literatura da professora e pesquisadora é a transmissão do conhecimento do livro a ser percorrido pelo leitor não apenas seguindo a sequência, mas retornando a ler passagens que deixaram dúvidas, anotando essencialidades que corroboram a captação do estilo de um autor. Aurora entende que a leitura de um texto depende e muito da cultura do leitor. Insiste na lembrança do seu aprendizado no norte da Itália, corroborando a importância da fixação na mente das obras percorridas pelo aficionado pela leitura. Todos esses ensinamentos, transmitidos nos cursos de literatura, estavam sedimentados em metodologia aprendida, mas aprimorada por Aurora.

Quanto à tradução, deve aquele que se propõe ao mister não se desviar dessa aproximação do estilo do autor. ‘O nome da Rosa’, de Humberto Eco, é exemplo significativo. Tradução trabalhosa, apresentou um problema relacionado às citações em latim, respeitadas a pedido do autor, que considerou a tradução brasileira mais fidedigna se comparada àquela editada em Portugal. A visão ampla interlinguística, a mais próxima possível do estilo de um autor, diferencia a dimensão cultural de tradutores. Poder-se-ia considerar que uma ótima tradução deve conter 90% da estrutura do texto original. Aurora Bernardini entende que o conhecimento aprofundado de várias línguas confere ao tradutor culto a possibilidade da captação mais arguta do texto a ser traduzido. Compete ao tradutor ‘cativar as palavras’, o que pressupõe a qualidade inalienável, o talento. Quanto às suas traduções da literatura russa, Aurora observa ser mais complexa quando se trata da poesia.

Um dos exemplos sensíveis trazidos por Aurora abordou a transcriação, uma das categorias estilísticas de seu saudoso amigo e coparticipante em vários projetos, Haroldo de Campos (1929-2003). Ele observou que, não sendo expert em determinadas línguas, como hebraico, japonês, italiano e grego, foi assistido nas empreitadas por especialistas das áreas específicas. Em uma obra que Aurora considera referencial sob vários aspectos, ‘Poesia russa moderna’, a tradução ficou a cargo de três literatos: Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Boris Schnaiderman, nascido na Ucrânia.

Aurora recebe quantidade de livros, muitos apresentando incontáveis inovações linguísticas de toda ordem, máxime nesses últimos tempos, ação quase impensável tempos atrás, segundo a professora.

Antolha-se-me alguns aspectos fulcrais na personalidade singular de Aurora Bernardini: curiosidade, generosidade e gratidão. A simples menção à memorização de termos latinos ainda na adolescência não indicaria, já na juventude, a curiosidade em conhecer outros idiomas? Ao longo do caminho, o conhecimento de outras línguas lhe foi essencial, enriquecendo seu poliglotismo: italiano, francês, inglês, russo, português, espanhol e alemão! No depoimento, reiterou de suma importância o conhecimento de línguas, fator a desbravar novos horizontes, inclusive comparativos. Um dom necessário, a fazer parte da personalidade de Aurora, é a generosidade na transmissão do conhecimento. Não se furta em transmitir com bom humor a sabedoria adquirida a todos os que a procuram. Quanto à gratidão, ficou transparente no depoimento, o tributo a professores e literatos que cruzaram o seu caminho na Universidade de São Paulo. Refere-se com reverência aos que foram fundamentais em sua formação, assim como a outros lembrados com respeito e simpatia. Aos já mencionados anteriormente, acrescento os de Kenneth Buthlay (1926-2009), Paulo Vizioli (1934-1999) e Antônio Cândido de Mello e Souza (1918-2017).

A destacar o permanente entusiasmo voltado à tradução, vocação primordial, mas também a todas as manifestações artísticas. Pela minha área específica, música, Aurora é uma apaixonada e tenho o privilégio de tê-la como ouvinte nos recitais que realizo.

Em homenagem à minha querida amiga Aurora Bernardini, insiro a ‘Valsa op. 38’ do compositor russo Alexandre Scriabine (1872-1915), gravada em Mullen, na Bélgica flamenga, para o selo De Rode Pomp em 2006.

https://www.youtube.com/watch?v=97MoXq2KWig&t=23s

I transcribe in this blog a text I wrote about the remarkable translator, critic and essayist Aurora Bernardini, published in Jornal da USP on 2 March of this year.

 

Conhecer o “de profundis” de um autor

Como estou frequentemente com você em espírito!
Realmente, deveria existir algum tipo de telegrafia especial para os amigos;
se existisse, qual seria o alcance e a rapidez da comunicação mental
que se estabeleceria entre os espíritos unidos pela afinidade?
Ludwig van Beethoven (1770-1927)
(carta a Friedrich Duncker, 18/02/1823)

Nas áreas específicas da música, da literatura e da ciência é mais acentuadamente possível o desvelamento parcial de um compositor, poeta, escritor ou cientista através das correspondências, de cunho intimista ou não, àqueles que partilharam amizade ou relações protocolares.

O blog anterior sobre o tema das cartas manuscritas suscitou inúmeros e-mails de leitores, todos de interesse. Um em especial foi fulcral, o do professor titular aposentado da FFLECH-USP, Gildo Magalhães, ilustre especialista em História da Ciência, várias vezes presente em meus blogs. Insiro-o no presente post, pois observa por experiência própria o estiolar da correspondência manuscrita. “Este assunto das cartas me angustia. O que vira eletrônico facilmente se perde, mas ainda temos cartas de Arquimedes para Erastótenes! Eu tenho uma vasta correspondência recebida guardada, incluindo nomes importantes mais contemporâneos da ciência, mas não existe mais a correspondência emitida. Tentei manter cartas para meus amigos de Portugal, mas debalde! Só respondiam por e-mail… Enfim, até pendrives e outros dispositivos se deterioram com o tempo, então temos mesmo de renunciar a esta prática milenar?”.

Mencionar os ativos e ilustres missivistas, vem-me à mente François-Marie Arouet, que adotou o nome Voltaire (1694-1778), escritor, historiador e filósofo francês. Uma de suas atrações foi a via epistolar, pois legou cerca de 20.000 cartas endereçadas a aproximadamente 1.800 destinatários. Essa verdadeira vocação missivista resultou na arguta observação da sua personalidade, mas igualmente de compartimentos substanciosos da atividade política, religiosa e artística da França do seu tempo. Suas críticas mordazes à realeza, ao clero, assim como a observância do cotidiano de maneira sagaz, a presença do polemista, mas do escritor tantas vezes com a escrita poética, fizeram com que Voltaire, em pleno iluminismo, legasse certamente o mais vasto documental através das cartas.

No blog anterior, “Ainda há espaço para a carta manuscrita”?, mencionei o nome de alguns compositores, entre muitos que foram ativos missivistas: Beethoven, Liszt, Wagner, Fauré e Debussy. Tantas dessas figuras referenciais trocaram cartas que revelam as personalidades definidas e seus propósitos, Liszt-Wagner, Goethe-Schiller…

Ludwig van Beethoven (1770-1827) escreveu um número expressivo de cartas que, felizmente, foram conservadas pelos destinatários, descendentes e colecionadores, configurando 1.570. O precioso corpus conhecido da sua correspondência se estende de 1787 ao ano da sua morte. “Les letres de Beethoven” (France, Actes Sud, 2010), a integral da correspondência do compositor, assim como outros documentos por ele redigidos evidenciam a personalidade do grande músico alemão. Os temas das cartas são os mais variados, desde aqueles sobre música, compreendendo as edições, e são dezenas as missivas aos editores e revisores de suas composições, revelando o precioso detalhamento por parte de Beethoven no que concerne à rigorosa observância dos seus intentos, aos relativos às amizades e aos amores, mas igualmente às finanças e ao relacionamento familiar. Redigiu também outros documentos, alguns oficiais, máxime os referentes à tutela do seu sobrinho Karl após a morte do seu irmão Carl em 1815. A surdez progressiva, que o acometeu a partir de 1796, foi tema constante com a progressão do mal. Através das cartas é possível deduzir o drama desesperante.

No testamento de Heiligenstadt (6 de Outubro de 1802), escreve: “Embora às vezes eu quisesse me considerar superior a tudo isso, infelizmente fui duramente rejeitado pela triste dupla experiência da minha audição deficiente. No entanto, não consigo me convencer a dizer às pessoas: ‘Falem mais alto, gritem, pois sou surdo’. Infelizmente, como seria possível admitir a fraqueza de um sentido que deveria ser muito mais desenvolvido em mim do que nos outros, um sentido que eu possuía outrora na maior perfeição, um sentido que certamente poucas pessoas da minha profissão possuem ou possuíram? Não, isso não é possível. Portanto, perdoe-me se, às vezes, renuncio ao prazer de sua companhia. Minha infelicidade é duplamente penosa, porque as pessoas me julgam mal. O prazer que se desfruta em sociedade, com conversas refinadas e confidências mútuas, não é possível para mim. Obrigado a viver sempre sozinho, só posso frequentar o mundo na medida do estritamente necessário; tenho de viver no exílio. Quando entro em contato com a sociedade, sinto uma angústia que me faz ferver, tanto temo o perigo de revelar minha condição — foi o que aconteceu nos últimos seis meses que passei no campo. Que humilhação, porém, quando alguém perto de mim ouvia ao longe uma flauta e eu não ouvia nada, ou quando alguém ouvia um pastor cantar e eu também não ouvia nada”. O mal se agravaria até o silêncio absoluto em 1818.

Na carta ao amigo Franz Gerhard Wegeler, (1810), redige: “Mas eu seria feliz, talvez um dos mais felizes entre os humanos, se o demônio não tivesse sua morada em meus ouvidos – Se eu não tivesse lido em algum lugar que o homem não deve abandonar voluntariamente a vida enquanto ainda puder fazer uma boa ação, há muito tempo eu já não estaria mais aqui – e isso por minhas próprias mãos – A vida é tão bela, mas para mim ela está para sempre envenenada”.

É praticamente inacreditável que algumas das suas mais importantes criações, os cinco últimos quartetos (1824-1826), as quatro últimas sonatas para piano (1817-1822), a Missa Solene (1823) e a Sinfonia nº 9 em Ré menor (finalizada em 1824), tenham sido compostas na surdez total. No quarto movimento da última sinfonia, “Ode à alegria”, com poema de Friedrich Schiller (1759-1805), Beethoven incorpora um coral. Este movimento é o mais consagrado entre todos os inseridos nas sinfonias precedentes, e imaginado e composto no mais profundo desalento quanto à existência.

https://www.youtube.com/watch?v=q0EjVVjJraA

A correspondência completa de Ludwig van Beethoven e os outros escritos anexados proporcionam ao leitor a revelação de um personagem não apenas gigantesco como compositor, mas igualmente um homem que cultua determinadas amizades, que expõe os seus afetos e que convive com a progressão inexorável que o priva do sentido mais precioso para o músico, a audição.

After careful consideration, I have transcribed some excerpts from Beethoven’s fundamental correspondence with numerous figures from a wide variety of fields, with an emphasis on music.

 

O pensamento sem amarras da Cultura Humanística

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Os meus livros imprimo-os para o público,
mas escrevo-os para mim.
Guerra Junqueiro (1850-1923)
(“A velhice do Padre Eterno”)

Cartas manuscritas foram escritas durante séculos, datilografadas a partir da segunda metade do século XIX e, com o surgimento dos computadores, passo essencial para o advento da internet, a dedicação epistolar, que mantinha a aura personagem-caneta-papel, estiolou-se basicamente por completo. Não se trata de saudosismo, mas de realidade. Missivas de figuras que permaneceram na história estão preservadas em bibliotecas pelo mundo e são fundamentais para os pesquisadores. Já há algum tempo todo esse imenso acervo, perpetrado ao longo da história, tem sido digitalizado. Contudo, frise-se, os manuscritos continuam conservados. Neles, pode-se captar a caligrafia, essa autêntica “impressão digital”, tão importante para a compreensão de outras capacitações do remetente. Considere-se que muitas daquelas figuras históricas que trocavam missivas antes da computação quase sempre guardavam em seus arquivos pessoais a preciosa correspondência recebida. A prática da escrita cursiva, rigorosamente individualizada, ainda permanece em determinadas circunstâncias, mas deixou de ser predominante graças aos avanços mencionados. A carta manuscrita apesar da sensível diminuição, ainda perdura a externar sentimentos de toda ordem e o cotidiano em suas captações voltadas à admiração ou à platitude. Sob outra égide, a mensagem escrita a mão não tem necessariamente finalidade coloquial e a multiplicidade de temas testemunha a assertiva.

Inúmeras vezes o prefácio de um livro adquire o significado de uma missiva e, se aquele é destinado à obra de um autor de gerações passadas, o preambulum representa o tributo reverencial, a propiciar ao leitor a abertura enriquecedora.

Durante a década de 1980, nas minhas visitas a Portugal para recitais e palestras ficava hospedado na morada da insigne Júlia d’Almendra (1904-1992), fundadora em 1953 do Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa e autora de precioso livro, “Les Modes Grégorians dans l’oeuvre de Claude Debussy” (1948), motivo do nosso primeiro contato. Mantivemos ao longo dos anos correspondência manuscrita ativa. Ao receber suas cartas, a simples leitura do endereçamento no envelope levava-me a deduzir seu estado de espírito, se descontraído ou preocupado. As suas mensagens originais e as minhas a ela encaminhadas estão depositadas no Centro Ward de Lisboa, dirigido pela dedicada e competente regente coral Idalete Giga, discípula de Júlia d’Almendra.

Após ter  apresentado, em São Paulo inicialmente, as integrais para piano solo de Claude Debussy em quatro recitais no MASP e para piano a quatro mãos e dois pianos, juntamente com minha mulher, Regina Normanha Martins, no Teatro Cultura Artística (1980), e publicado o livro “O som pianístico de Claude Debussy” (São Paulo, Novas Metas, 1982), uma experiência que me marcou foi o privilégio de realizar aprofundadas pesquisas sobre Debussy, manuseando a sua opera omnia manuscrita para piano, mercê do privilégio que recebi do Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale de Paris e do Centre de Documentation Claude Debussy, o notável musicólogo François Lesure (1923-2001), nome maior dos estudos sobre o compositor francês na segunda metade do século XX. Durante minhas várias visitas ao Centro Debussy nas décadas de 80 e 90, estudava determinados manuscritos que me eram trazidos por funcionário da BN e, munido de luvas e uma espécie de espátula para virar as páginas, permanecia em uma sala que era fechada, após a saída do funcionário. Extraordinárias leituras que salientam, entre outros pormenores, a própria “evolução” da escrita do compositor e o rigor que lhe era característico, fato menos sensível se observada for a obra publicada.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, “Étude pour les arpèges composés”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=VCAH8fYHjSo&t=18s

Regressando às cartas, relevantes compositores foram ativos missivistas, e a menção a alguns se faz necessária: Beethoven, Liszt, Wagner, Moussorgsky, Fauré, Debussy, fato que evidencia a prática constante que músicos tiveram em relação à escrita coloquial particularizada. Essas personalidades nem sempre se dedicavam, em suas atividades epistolares, a escrever sobre música, mas cultuavam igualmente outros valores, a natureza, o cotidiano implacável, os estados de alma, a relação amistosa, a literatura e a poesia, fatores essenciais para a compreensão do âmago da criação de seus autores. O irremediável e necessário avanço tecnológico tem propiciado o imediatismo e a pouca consideração com progressos do passado. Mui raramente um inventor se refere aos passos dados por seus predecessores. Serviram-lhe de base, mas a mídia é ávida do momento presente e a reverência àqueles que no passado propiciaram uma invenção ou descoberta, impulsionando o caminhar presente, não a estimula, mas sim o que motivará vendagem. Sob aspecto outro, os compositores contemporâneos mais ousados negligenciaram as conquistas sucessivas que permaneceram até poucas décadas atrás, resultando em um número imenso de tendências bem diferenciadas. Apesar das realizações em termos da composição musical, da obra literária e das invenções e descobertas científicas, manancial importantíssimo em todas as áreas está depositado nas correspondências manuscritas daqueles personagens que permaneceram na história.

Anos atrás, experiência certamente compartilhada com incontáveis pessoas, na troca de um computador perdi, por descuido, todo o acervo anterior e nem mesmo um técnico experiente conseguiu recuperá-lo. Na realidade, deveria paulatinamente ter salvo o conteúdo em um pen drive e não o fiz. Amadorismo puro. Evaporaram-se cartas e depoimentos de personagens fundamentais da cultura que me privilegiaram através da troca de mensagens pelo computador. Perderam-se inúmeros testemunhos fulcrais dessas ilustres personagens. Felizmente, umas tantas fizeram parte de inúmeros blogs através dos anos.

Nos próximos blogs deverei tecer comentários sobre a prática ativa de figuras basilares da Cultura Humanística, que legaram através das missivas imensa contribuição que serviu para desvelamentos.

The handwritten letter, which has endured for millennia, basically ceased to exist after the advent of the typewriter, the computer, the cell phone and the internet.  Something to think about.