Artigo: “Sobre o Conceito de Popular na Música”

A educação para o Belo se faz através do Belo.
Pablo Casals (1876-1973)
Notável violoncelista espanhol

O insigne compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994) foi igualmente um escritor que legou substanciosa obra literária no que concerne sobretudo à música portuguesa, mas igualmente opinando sobre outras vertentes musicais praticadas além-fronteiras, do passado à contemporaneidade.

Um artigo perspicaz (1947) a constar de um dos seus livros, “Nossa companheira Música”, editado em 1964 e tendo uma segunda edição em 1991 (Lisboa, Caminho), versa “Sobre o Conceito de ‘Popular’ na Música”. Já àquela altura, Lopes-Graça é crítico agudo quanto à  invasão de uma “música” de cunho efêmero que faria parte, décadas após, daquelas apresentadas com características outras ad extremum em nossas terras nos megashows em áreas abertas ou fechadas; nas aglomerações nos fins de semana nos denominados bailes funks; no sertanejo descaracterizado ou em outras manifestações “sonoras” que mistificam a essência da música, mercê de interesses promocionais e outros tantos. Os meios de comunicação divulgam exacerbadamente essas realizações e a recepção, mormente pelas gerações mais novas, pode ser devastadora sob várias égides: “música” predominantemente efêmera, costumes e moralidade derrocados e linguagem em constante alteração simplista, sem que haja qualquer lastro sustentável.

Lopes-Graça se posiciona: “Sou apenas um profissional da música, que se tem esforçado até hoje por desempenhar o seu ofício o melhor possível, sem trair nenhum dos imperativos que lhe fazem amar a sua arte e defendê-la contra tudo e todos que, dentro e fora dela, tentam aviltá-la, vendendo-a e vendendo a sua consciência a troco de mesquinhas satisfações de ordem pessoal: o interesse, a vaidade, a consagração oficial e pública”.

 

A evidenciar a essência essencial da autêntica música de índole popular, afirma: “Na verdade, só o povo, ou aqueles que no povo se reconhecem, são capazes de se dedicar tão de alma e coração, e com uma persistência que chega por vezes a ser verdadeiro heroísmo, a tarefas que não visam tirar interesse algum material e de que não esperam outro prêmio além da satisfação íntima que lhe vem da própria dedicação ao objeto do seu amor e do seu sacrifício. Culto sem ídolos vãos, fé sem dogmas nem imposições falazes, esta atitude se poderia qualificar de autêntico idealismo, se a palavra não andasse por aí tão gasta ou, antes, tão mal gasta, encobrindo, grande parte das vezes em que é invocada, propósitos e ações de pureza e gratuidade bem contestáveis”.

Sempre fiel à cultura popular autêntica a que o povo tem direito, faz em 1947 a crítica à manipulação, posição esta que soa tão presente em nosso país; “Não é raro vermo-la utilizada com intuitos reservados, como verdadeiro instrumento demagógico, com o fim de lisonjear com ela o povo para melhor se servirem dele. Tanto a cultura popular como a arte popular logo que são organizadas, logo que são dirigidas, deixam de ser verdadeiramente populares e passam a ser coisas artificiais, que perderam toda a razão de ser, todo o viço e toda a ingenuidade que lhes advém  do fato de serem atividades espontâneas e desinteressadas da alma ou da vontade de expressão artística do povo. E não há dúvidas de que o povo tem direito à cultura – mas tem também direito a mais coisas que são a base mesma da cultura e sem as quais esta não passa de uma palavra vazia de conteúdo”.

Tem me chamado a atenção a falta de conteúdo musical nos megashows que recebem dezenas de milhares de frequentadores, quando em espaço aberto, realizados sazonalmente, pois a cada apresentação novos hits “musicais” efêmeros, sem conteúdo, mas amplamente divulgados e assimilados pela nova geração, extasiam os que presenciam esses espetáculos. No texto em apreço, distante quase oito décadas, Lopes-Graça realça “o estrupido de certas musiquetas que, pretendendo ser alegres, apenas conseguem ser estúpidas”. Apesar dessa afirmação, o autor afirma: “Preciso advertir-vos de que não sou adversário irredutível e birrento da chamada ‘música ligeira’. Mas o que estou longe é de confundir música ligeira de música popular”. Auscultei alguns jovens sobre a memorização dessas músicas apresentadas em megashows dois ou mais anos antes. Não se lembram, mas sim o que foi ouvido no último show. Contudo, quando questiono pessoas na juventude da idade madura, esses têm na memória músicas que foram cantadas em shows no Brasil por Frank Sinatra, Charles Asznavour, Paul MacCartney e outros mais, e que se diga, apresentavam-se para multidões sem parafernália cênica a mascarar a pobreza musical.

Num contexto temporal totalmente outro, Lopes-Graça já preconizava essa decadência apontada acima: “Conclui-se que de maneira nenhuma podemos assimilar música popular à ladina copla revisteira ou à langorosa canção cinematográfica, aos viras mascarados de rumba ou às ‘sex-appealescas’ cançonetas importadas da América e garganteadas pelas nossas ‘sex-appealescas’ vedetas da rádio.  Esta espécie de música nada tem que ver com o autêntico povo, não nasce do seu seio, não corresponde às suas necessidades, não traz a sua dedada. Trata-se, antes, de puros produtos comercialistas, destinados a um público de gosto pervertido, de nulo instinto estético, e a quem a música só desperta sensações de ordem puramente animal e vegetativa. Chamar popular a esta música de baixo nível e de intenções quantas vezes duvidosa é ofender a verdadeira música popular, tal como ela se revela nas tão vivas, sinceras e recendentes manifestações da arte folclórica.”

Em termos do nosso país, a música folclórica pura ainda é motivo de festejos populares tipificados nas mais diversas regiões do Brasil. Quanto à música urbana, que granjeou enorme repercussão até poucas décadas antes do século XXI, tivemos cantores, alguns deles compositores, e suas canções permaneceram na memória de parte sensível da população. Refiro-me a Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues, Adoniram Barbosa, Noel Rosa, Lamartine Babo, Dorival Caymmi… sem contar com as criações de Tom Jobim e uns poucos outros talentosos.

Sob outra égide, no que concerne àquilo que Lopes-Graça também entende como popular, a música de concerto ou clássica: “o que está em causa, na questão de educar musicalmente o povo, não é a capacidade intelectual ou emotiva deste, mas sim a sua capacidade econômica: donde as medidas tendentes a facilitar financeiramente o povo aos concertos, sem por isso se pensar em fazer baixar o nível estético destes”. Lopes-Graça estende as suas reflexões, sempre a almejar o aprimoramento do povo: “Resolvida ou aplanada da melhor forma possível essa questão econômica primordial, só há um caminho a seguir, e é o que têm seguido aqueles países [Graça mencionara anteriormente Inglaterra, Suíça e Checoslováquia] para promover a educação musical do povo: é dar a este a melhor música, executada pelos melhores artistas, pelas melhores orquestras, pelos melhores coros. Em nenhuma parte se pensa que as supremas criações de um Bach, de um Rameau, de um Beethoven, de um Schumann, de um César Franck, de um Moussorgsky, de um Debussy sejam transcendentes demais para o povo, que elas não sejam capazes de o emocionar e de o entusiasmar, não sejam, enfim, obras ‘populares’, no sentido em que é popular tudo que se dirige ao maior número possível de auditores, tudo o que revela um profundo e universal calor humano”.

Têm interesse fundamental reflexões de Lopes-Graça em torno desse conceito do termo popular. “Há profissionais, pessoas esclarecidas e competentes, que partilham do mesmo ponto de vista e consideram utópico manter os ‘concertos populares’ no mesmo nível dos outros. Esses ‘outros’ são, naturalmente, os concertos de elite. Qual elite é que se não vislumbra lá muito bem. A da inteligência? Mas esta pertence precisamente ao povo, faz parte dele, trabalha com ele e para ele. Os ‘concertos populares’ são também os seus concertos, e não há portanto que fazer a distinção , que, bem vistas as coisas, envolve uma certa intenção despicienda. A elite do dinheiro, a que frequenta o São Carlos? (Teatro em Lisboa). Mas esta sabemos nós que ali concorre mais para exibir as suas casacas de corte irrepreensível e os seus vestidos luxuosos do que para ouvir a boa música!…”.

O artigo de Fernando Lopes-Graça, apesar da distância temporal, o que implica histórico-social diferenciado, pode ser potencializado ao extremo em termos atuais. Se menciona em 1947 as ‘sex-appealescas’, qual seria a sua posição ao assistir a alguns megashows em nossos “teatros” praianos a céu aberto, nos quais as principais figuras femininas se apresentam sumariamente vestidas, quando não com o denominado “fio dental”, levando dezena de milhares de frequentadores ao delírio? Faz pensar. A “música”, nesses casos, mero pormenor.

Num outro contexto geográfico e histórico, o texto de Lopes-Graça denuncia o aviltamento que se processava em terras lusíadas. Potencializado, vivemos no Brasil a decadência cultural que afeta não apenas a música de raiz ou amorosamente criada por músicos talentosos e sinceros no gênero denominado genericamente de popular. A maioria dos meios de comunicação se mostra ávida em publicar farto material sobre os megashows, estes amparados por poderosos patrocínios. Mais e mais em nosso país a Cultura Humanística vai perdendo espaços, envolta em névoa que se adensa. Remotas esperanças…

 

Clique para ouvir, de Fernando Lopes-Graça, Viagens na Minha Terra, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=n0PwLys54GU

An exemplary text by the notable Portuguese composer and writer Fernando Lopes-Graça (1906–1994) focuses on the ‘Concept of “Popular” in Music.’ I add  my own comments on the subject.

 

Serenas e precisas considerações sobre o momento atual do STF

Quando meu filho, Ives Gandra da Silva Martins Filho,
tornou-se ministro do Tribunal Superior do Trabalho,
afirmei que jamais voltaria a atuar em questões trabalhistas,
visando manter a impessoalidade que a Constituição Federal impõe
a todos os que exercem o poder.
Ives Gandra da Silva Martins

A publicação de uma entrevista bem conduzida por Roseann Kennedy e publicada no Estadão do dia 2 de Fevereiro, a ter como convidado o tributarista e constitucionalista Ives Gandra Martins, meu dileto irmão, ao focalizar a crise a envolver o Supremo Tribunal Federal, expõe, obedecendo à ética tão característica de Ives Gandra, o seu conhecimento absoluto da nossa Carta Magna. Ele e o advogado Celso Bastos (1938-2003), igualmente tributarista e constitucionalista, analisaram em 15 livros a Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988.

Chamou-me a atenção a plena consciência de Ives Gandra no que concerne à nossa mais Alta Corte e os seus melhores votos para que ela retome sua postura tão respeitada décadas atrás. A entrevista do constitucionalista revela, aos 91 anos, a serenidade nas respostas e, se Ministros que ele respeita entenderem as mensagens de quem advoga a mais de sete décadas, algo salutar poderá advir. As 11 respostas às questões inteligentemente formuladas expõem a dimensão do entrevistado frente aos tumultuados tempos que atravessamos.

Como o sr. avalia este momento no STF, que enfrenta uma série de questionamentos à atuação de seus ministros?

Veja a situação. Eles, que são defensores da democracia, têm que sair com segurança na rua. Não podem usar aviões de carreira porque são hostilizados. E o povo, que é antidemocrático, enche as ruas. Antigamente, nenhum ministro precisava dizer que defendia a democracia e era admirado. Todo mundo admirava o Moreira Alves (ministro do STF de 1975 a 2003), ainda hoje ele é um símbolo de ministro. Mas hoje você tem cerceamento de liberdade de expressão. Tem que tomar cuidado. Tudo que você fala contra o ministro passa a ser contra o Estado Democrático.

Como o STF pode fazer esse caminho de volta?

Um código de conduta é positivo. O que eu acho fundamental é que, se houver um código e um ministro não seguir, daí ele estará se expondo ao Senado. E deverá ser um Senado muito mais conservador nessas próximas eleições. Quero ressaltar que sou contra o impeachment de ministros do Supremo (da forma como seria hoje), porque abre um precedente perigoso. Então, vai ser mais do que um código moral, será um instrumento que o Senado terá de poder. Eu considero que isso é bom para eles (ministros do STF) e é bom para o Legislativo. Porque assim, na verdade, eles terão que voltar a fazer o que o Supremo era no passado.

O sr. acredita que o ministro Edson Fachin vai conseguir fazer o código de ética?

Sim. Fachin pode conseguir.

O sr. se lembra de outro momento tão crítico em relação ao Supremo?

Indiscutivelmente, o que o STF vive hoje é uma crise. Eu acho que esse momento está sendo ruim para o Brasil, mas bom para as vozes se levantarem e fazer com que eles retornem a ser o Supremo do passado. Por exemplo, São Paulo representa 40% da advocacia do Brasil. As três maiores instituições de advogados e juristas no Estado — OAB, Iasp e Aasp — se manifestaram em defesa do código de conduta. Então você tem unanimidade.

E quais são as críticas à conduta do STF que unem essas instituições?

As instituições criticam as decisões monocráticas e as sessões virtuais. É evidente que sessão virtual não é sessão. Você manda uma sustentação oral, 48 horas antes. Você acha que eles vão ouvir? Não tem uma sustentação. Amesquinharam o trabalho da advocacia. Quando eu fazia a sustentação do Supremo, eu olhava os ministros de frente. Muitas vezes eu mudei o argumento na hora, observando as expressões dos ministros e virei votos.

Quais pontos o código precisa incluir? Primeiro, sessões virtuais não podem existir. Decisão monocrática tem que ser exceção em caso urgente e imediatamente levada ao plenário, na semana seguinte. Parentes dos ministros não têm que atuar em processos na Corte, e não haver qualquer possibilidade de advocacia administrativa. Os magistrados também não podem participar de congressos patrocinados por empresas com causas a serem julgadas no STF. E não pode haver sigilo. A transparência nós consideramos o mais importante. O povo tem que saber de tudo.

Qual é sua avaliação sobre o inquérito das fake news, que já dura 7 anos e continua em sigilo?

Como é que pode permanecer um inquérito interno sigiloso? Você tem cinco princípios na Constituição, que são fundamentais para a administração. Estão no artigo 37: moralidade, legalidade, publicidade, que é a transparência, impessoalidade e eficiência. Transparência não tem, tudo é sigiloso. Não existe eficiência. O Supremo precisa voltar a ser o que era.

Outra crítica frequente é que o STF invade competências. Qual é sua avaliação?

O Supremo tem de voltar a ser apenas o guardião da Constituição, não um legislador. O que o STF está fazendo hoje é reconstruindo a Constituição. Reescreveram o artigo 53, no caso Daniel Silveira. Também reescreveram o artigo 19 sobre liberdade de expressão.

O caso Master deixou explícitas relações de ministros e parentes com pessoas ligadas a casos no STF. O que pode ser feito?

Se colocar impessoalidade, não pode haver parentesco, nepotismo direto. Por isso nós estamos pedindo que seja feito um código de ética. E estamos fazendo mais, entrando em uma PEC, um princípio constitucional, para definir o que é transparência do Supremo Tribunal Federal.

Agora vocês estão sendo ouvidos?

Pelo menos estamos gritando. Agora as nossas vozes vão ter que ser ouvidas pela crise que se está criando. Mas eu entendo que, de novo, a nossa voz está sendo ouvida. Ela foi ouvida na democratização. Vocês (imprensa) tinham censura, mas nós pudemos falar. Então nós voltamos a falar.

E vai funcionar?

Tem uma história que eu gosto de contar. O comandante de um voo chega com óculos escuros e braços dados com a aeromoça. O passageiro pergunta o motivo e descobre que o piloto é cego. Mas dizem que é o melhor comandante. Chega o copiloto, da mesma forma, também cego, mas dizem que é o melhor copiloto. Todos ficam em pânico. O avião é taxiado até a cabeceira da pista, começa a tremer e, de repente é aquela gritaria e, finalmente, o avião levanta o voo. O piloto, que é um filósofo, vira para o copiloto e diz: ‘no dia em que eles não gritarem, eu não sei o que vai ser de nós. Nós temos que gritar’.

An interview with jurist Ives Gandra Martins, my dear brother, published in O Estado de São Paulo on 2 February, highlights the current crisis in the Federal Supreme Court and suggests a return to the way the STF operated decades ago.

Um dos maiores desafios propostos pelo compositor

Para se ver o fundo de um lago,
é necessário que a superfície da água esteja lisa e calma.
Mais ela é tranquila, mais transparente é o fundo.
Zhu Xiao-Mei (1949-)
(“La Rivière et son secret”

Diversos leitores saudaram a gravação das Variações Goldberg, de J.S.Bach, interpretada pelo meu irmão João Carlos, e um deles, José M. Medeiros (Portugal), gostaria de saber mais sobre essa obra rigorosamente maiúscula, um dos monumentos da literatura para cravo, mas integrada decididamente ao repertório pianístico. Poder-se-ia afirmar que os dois cadernos do Cravo Bem Temperado (1722-1744), a compreender cada um 24 Prelúdios e Fugas, e as Variações Goldberg (1742) são as mais abrangentes de toda a criação para teclado de Bach.

Reza a história que as Variações Goldberg (BWW 988), que constituem a quarta parte do Clavierübung, teriam sido pedido feito a Bach pelo conde von Keyserling, que, sofrendo de insônia, encomendou-lhe uma obra a fim de que um aluno do compositor e protegido do conde, Johann Gottlieb Goldberg (1725-1756), pudesse tocar numa antecâmara contígua aos aposentos do nobre. Segundo o primeiro biógrafo de J.S.Bach, Johann Nicolaus Forkel (1749-1818), um dos pioneiros da musicologia, a execução ao cravo da criação encomendada se tornou constante para o bom sono de von Keyserling. O relato de Forkel, contudo, foi ao longo do tempo contestado por estudiosos. Através da tradição oitiva, ou não, Forkel elaborou o seu texto. Não obstante, apesar de mundialmente conhecida como Variações Goldberg, a composição foi nomeada por Bach como “Ária com algumas variações para cravo de dois teclados”. Frise-se que o compositor precisa a destinação de cada variação, pois há aquelas em que se torna necessária a utilização de dois teclados, enquanto a maioria destina-se a um só. Essa prerrogativa do compositor fez com que os cravistas ao longo da história avocassem a exclusividade do cravo para a execução da obra. O procedimento do uso de dois teclados já fora largamente empregado pelos clavecinistas franceses. Les trois mains, da Suíte em lá menor de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), é um exemplo típico do emprego desse processo.

Ao ser incorporada ao repertório pianístico, as Variações Goldberg foram pouco ventiladas se comparadas às outras composições de Bach, máxime as Suítes FrancesasInglesas e Alemãs, essas últimas mais conhecidas como Partitas. Quanto ao Cravo Bem Temperado, magnífico conjunto composicional, a destinação ficaria clara, pois de cunho didático cravístico, mas igualmente como estudo nos cursos de composição, integrando, parcialmente ou no todo, o repertório de intérpretes especializados, graças à diversidade encontrada nos 48 prelúdios e fugas. Há que se compreender a extensão das Variações Goldberg (circa 50 minutos), fator de uma frequência menor por parte dos executantes em suas apresentações.

A obra em pauta se inicia por uma ária, na realidade uma sarabanda plena de ornamentos, utilizada bem anteriormente (1725) por Bach no segundo Clavierbüchlein, obra de cunho didático. A estrutura básica da ária estará presente em quase todas as 30 variações que seguirão e será empregada na íntegra como finalização da extraordinária composição. As trinta variações alternam andamentos lentos e rápidos, fator essencial para o equilíbrio do todo. Algumas apresentam de maneira criativa e inusitada formulações bem rápidas, sendo que, no todo dessas variações em particular, processos têm certas semelhanças com outros de criações anteriores de Bach.

Entre as gravações interpretadas ao piano, salientem-se as do pianista Glenn Gould (1932-1982), saudadas efusivamente e um dos fatores que impulsionou sua meteórica e curta carreira pública, pois dedicaria suas últimas décadas às gravações. O brilhantismo existente nas variações rápidas da gravação de 1955, verdadeira ruptura com a tradição cravística, cede lugar ao registro realizado em 1981, um ano a anteceder sua morte, meditativa e criativa, sem a intenção “apenas” do impacto virtuosístico frente aos ouvintes. Saliente-se que Gould considerava a importância dos baixos das variações preferencialmente à melodia da Ária.  No “Traité de l’harmonie réduite à ses príncipes naturels” (1722), Rameau destaca a relevância dos baixos numa composição. Gabriel Fauré (1845-1924), de acordo com a lendária pianista e professora Marguerite Long (1874-1966) e notável intérprete do compositor, salientava “à nous les basses”. Tive o privilégio de ter sido seu aluno em Paris.

https://www.youtube.com/watch?v=3pwvi-bjdzk#:~:text=Glenn%20Gould%2D%20Bach%20Goldberg%20Variations,Masterworks%20%E2%80%93%20D%2037779%20Released%201982.

Meu irmão João Carlos Martins (1940-) gravou a integral de J.S.Bach para cravo executada ao piano, e no recente blog “O Náufrago” inseri  sua magnífica gravação das Variações Goldberg. A fim de completar a extensa integral, convidou-me para gravarmos em Sófia, na Bulgária, os dois Concertos para dois pianos e orquestra de câmara, em dó menor e Dó Maior, originalmente compostos para dois cravos.

Neste blog, coloco uma gravação que entendo igualmente extraordinária pela poesia e espiritualidade imanentes expressas pela pianista chinesa Zhu Xiao-Mei, que chegou a viver em campo de reeducação durante a Revolução cultural chinesa (1966-1976) nos tempos de Mao Tsé-Tung (vide blog: “La Rivière et son secret”, 06/11/2009).  Em seu livro autobiográfico, a pianista e professora do Conservatório de Paris narra as agruras vividas, a relação inequívoca com o repertório ocidental, máxime a sua dedicação à obra de J.S.Bach, tendo gravado inúmeros CDs do compositor, entre esses O Cravo bem Temperado.

Bach Goldberg Variations BWV 988 Zhu Xiao Mei

Ápice existe em todas as áreas. Na específica da composição, grandes mestres deixaram obras que superaram a maioria de suas criações contidas na opera omnia para cravo, mas igualmente frequentadas pelos pianistas. O Cravo Bem Temperado e as Variações Goldberg certamente pertencem a essa categoria excelsa.

Following the suggestion of a reader from Portugal, who would like a specific blog about J.S. Bach’s monumental composition Goldberg Variations, in today’s post  I  write about this towering keyboard masterpiece.