Um dos maiores desafios propostos pelo compositor

Para se ver o fundo de um lago,
é necessário que a superfície da água esteja lisa e calma.
Mais ela é tranquila, mais transparente é o fundo.
Zhu Xiao-Mei (1949-)
(“La Rivière et son secret”

Diversos leitores saudaram a gravação das Variações Goldberg, de J.S.Bach, interpretada pelo meu irmão João Carlos, e um deles, José M. Medeiros (Portugal), gostaria de saber mais sobre essa obra rigorosamente maiúscula, um dos monumentos da literatura para cravo, mas integrada decididamente ao repertório pianístico. Poder-se-ia afirmar que os dois cadernos do Cravo Bem Temperado (1722-1744), a compreender cada um 24 Prelúdios e Fugas, e as Variações Goldberg (1742) são as mais abrangentes de toda a criação para teclado de Bach.

Reza a história que as Variações Goldberg (BWW 988), que constituem a quarta parte do Clavierübung, teriam sido pedido feito a Bach pelo conde von Keyserling, que, sofrendo de insônia, encomendou-lhe uma obra a fim de que um aluno do compositor e protegido do conde, Johann Gottlieb Goldberg (1725-1756), pudesse tocar numa antecâmara contígua aos aposentos do nobre. Segundo o primeiro biógrafo de J.S.Bach, Johann Nicolaus Forkel (1749-1818), um dos pioneiros da musicologia, a execução ao cravo da criação encomendada se tornou constante para o bom sono de von Keyserling. O relato de Forkel, contudo, foi ao longo do tempo contestado por estudiosos. Através da tradição oitiva, ou não, Forkel elaborou o seu texto. Não obstante, apesar de mundialmente conhecida como Variações Goldberg, a composição foi nomeada por Bach como “Ária com algumas variações para cravo de dois teclados”. Frise-se que o compositor precisa a destinação de cada variação, pois há aquelas em que se torna necessária a utilização de dois teclados, enquanto a maioria destina-se a um só. Essa prerrogativa do compositor fez com que os cravistas ao longo da história avocassem a exclusividade do cravo para a execução da obra. O procedimento do uso de dois teclados já fora largamente empregado pelos clavecinistas franceses. Les trois mains, da Suíte em lá menor de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), é um exemplo típico do emprego desse processo.

Ao ser incorporada ao repertório pianístico, as Variações Goldberg foram pouco ventiladas se comparadas às outras composições de Bach, máxime as Suítes FrancesasInglesas e Alemãs, essas últimas mais conhecidas como Partitas. Quanto ao Cravo Bem Temperado, magnífico conjunto composicional, a destinação ficaria clara, pois de cunho didático cravístico, mas igualmente como estudo nos cursos de composição, integrando, parcialmente ou no todo, o repertório de intérpretes especializados, graças à diversidade encontrada nos 48 prelúdios e fugas. Há que se compreender a extensão das Variações Goldberg (circa 50 minutos), fator de uma frequência menor por parte dos executantes em suas apresentações.

A obra em pauta se inicia por uma ária, na realidade uma sarabanda plena de ornamentos, utilizada bem anteriormente (1725) por Bach no segundo Clavierbüchlein, obra de cunho didático. A estrutura básica da ária estará presente em quase todas as 30 variações que seguirão e será empregada na íntegra como finalização da extraordinária composição. As trinta variações alternam andamentos lentos e rápidos, fator essencial para o equilíbrio do todo. Algumas apresentam de maneira criativa e inusitada formulações bem rápidas, sendo que, no todo dessas variações em particular, processos têm certas semelhanças com outros de criações anteriores de Bach.

Entre as gravações interpretadas ao piano, salientem-se as do pianista Glenn Gould (1932-1982), saudadas efusivamente e um dos fatores que impulsionou sua meteórica e curta carreira pública, pois dedicaria suas últimas décadas às gravações. O brilhantismo existente nas variações rápidas da gravação de 1955, verdadeira ruptura com a tradição cravística, cede lugar ao registro realizado em 1981, um ano a anteceder sua morte, meditativa e criativa, sem a intenção “apenas” do impacto virtuosístico frente aos ouvintes. Saliente-se que Gould considerava a importância dos baixos das variações preferencialmente à melodia da Ária.  No “Traité de l’harmonie réduite à ses príncipes naturels” (1722), Rameau destaca a relevância dos baixos numa composição. Gabriel Fauré (1845-1924), de acordo com a lendária pianista e professora Marguerite Long (1874-1966) e notável intérprete do compositor, salientava “à nous les basses”. Tive o privilégio de ter sido seu aluno em Paris.

https://www.youtube.com/watch?v=3pwvi-bjdzk#:~:text=Glenn%20Gould%2D%20Bach%20Goldberg%20Variations,Masterworks%20%E2%80%93%20D%2037779%20Released%201982.

Meu irmão João Carlos Martins (1940-) gravou a integral de J.S.Bach para cravo executada ao piano, e no recente blog “O Náufrago” inseri  sua magnífica gravação das Variações Goldberg. A fim de completar a extensa integral, convidou-me para gravarmos em Sófia, na Bulgária, os dois Concertos para dois pianos e orquestra de câmara, em dó menor e Dó Maior, originalmente compostos para dois cravos.

Neste blog, coloco uma gravação que entendo igualmente extraordinária pela poesia e espiritualidade imanentes expressas pela pianista chinesa Zhu Xiao-Mei, que chegou a viver em campo de reeducação durante a Revolução cultural chinesa (1966-1976) nos tempos de Mao Tsé-Tung (vide blog: “La Rivière et son secret”, 06/11/2009).  Em seu livro autobiográfico, a pianista e professora do Conservatório de Paris narra as agruras vividas, a relação inequívoca com o repertório ocidental, máxime a sua dedicação à obra de J.S.Bach, tendo gravado inúmeros CDs do compositor, entre esses O Cravo bem Temperado.

Bach Goldberg Variations BWV 988 Zhu Xiao Mei

Ápice existe em todas as áreas. Na específica da composição, grandes mestres deixaram obras que superaram a maioria de suas criações contidas na opera omnia para cravo, mas igualmente frequentadas pelos pianistas. O Cravo Bem Temperado e as Variações Goldberg certamente pertencem a essa categoria excelsa.

Following the suggestion of a reader from Portugal, who would like a specific blog about J.S. Bach’s monumental composition Goldberg Variations, in today’s post  I  write about this towering keyboard masterpiece.

 

 

A recepção prazerosa das opiniões dos leitores

Uma ação que tenha o pensamento por origem será sábia e justa
se este pensamento se fundou sobre realidades e não sobre erros.
Curuppumullage Jinarajadasa (1875-1953)

As festividades de fim do ano impediram-me de salientar mensagens que corroboram o estímulo que persiste há quase duas décadas. Da recepção dos inúmeros e-mails e whatsapps à inserção no segmento Ecos tenho de fazer escolhas, pois a maioria dos envios é bem curta, resumindo-se tantas vezes em uma só frase ou uma ou duas palavras. Todas, insisto, são recebidas com enorme prazer. Selecionei algumas mais extensas que recebi desde Dezembro, abordando individualmente os temas publicados.

Data maior da cristandade (20/12/2025)

Não só o conceito do Natal está indo embora, como também a perspectiva de um ano novo renovado, pois, como dizia Krishnamurti, estamos aqui na Terra para realizar uma viagem com nós mesmos, em busca do aperfeiçoamento e da evolução interior. Mas como vemos no materialismo crescente, essa missão está cada vez mais distante do ser humano, pois na busca da satisfação do corpo, o espírito é esquecido, empurrando a consciência humana para áreas cada vez mais densas, obscurecidas pela escuridão de uma crescente ignorância. Mas como essa viagem interior é individual e não coletiva, façamos essa viagem com nós mesmos, pois ela se realiza dentro de nós, independente do mundo lá fora.
Eliane Ghigonetto Mendes (Viúva do notável compositor, Gilberto Mendes) – Santos

Um ano que se anuncia preocupante (27/12,2025)

Infelizmente será uma realidade preocupante. A gula, a ambição vampiresca, o ódio e o poder material, alcançado à custa do empobrecimento da grande maioria de quem lhes proporciona a riqueza, irão continuar a fomentar guerras, mortes, feridos e sem abrigo. Obrigada pelos seus contactos musicais e fraternos.
Maria Celestina Leão Gomes (Portugal)

Série “Vidas em paralelo”, Precioso Podcast (03/01/2026)

Querido Amigo,
Muitíssimo obrigado, já vi e está excelente, como sempre. Muito bem construído e apelativo. Adorei re-ouvir a sua sonata de Carlos Seixas! É bom ter esta nossa viagem pela História divulgada no país irmão. Acredito que muitos se interessarão! Consequência ou não do seu blogue, o último podcast arrancou muito bem e já acusa 1,3 mil visionamentos longos, só no Youtube. De novo, agradeço muito a sua gentileza e grande ajuda.
João Gouveia Monteiro, professor catedrático de História Medieval (Universidade de Coimbra)

“O Náufrago” (10/01/2026)

Não li o livro, mas, após sua instigante resenha, gostaria de lê-lo. Bernhard me parece mais um pessimista à Schopenhauer do que um niilista à la Nietzsche. Teve uma vida pessoal e familiar muito negativas, e estudou violino, de onde possivelmente veio sua visão sobre músicos e intérpretes.
Gildo Magalhães, professor titular de História da Ciência, (USP)

Variações Goldberg maravilhosas: iluminaram meu domingo!
Aurora Bernardini, professora titular de literatura (USP).

Professor  querido, ler sua crônica sobre o livro “O Náufrago”, de  Thomas Bernhard, nos leva à dimensão da vida e dos sonhos. Incrível, mas as suas reflexões  sensíveis vão além  da resenha. E quando sugere ouvir seu irmão “João Carlos Martins’ Bach – Variações Goldberg”, o leitor transcende…

Seu blog é  um  espaço de buscas e encontros. Uma lição de vida. E também  de reflexão  sobre o cotidiano, como em “Um ano que se anuncia preocupante”, onde o senhor, quase como um jornalista / repórter,  observa e ouve a dedicada moça  do supermercado, fazendo considerações que tecem com profundidade  e conhecimento  a atual situação política do País.

Professor, o senhor nem pode imaginar como as lições de vida e arte que transmite em seu blog são importantes, ainda mais neste momento conturbado, onde é  difícil ler e ouvir comentários  com sensatez e sem ideologias políticas.
Leila Kyomura, jornalista do Jornal da USP.

1.000 blogs publicados aos sábados, ininterruptamente

Entre as muitas facetas que você mencionou ontem, há uma que poderia ser um subconjunto daquela de “observador”, mas que eu gostaria de realçar: a de cronista. Quando você fez crônicas do bairro e de personagens que nele habitam ou transitam, tenho a convicção de que você foi um ótimo escritor dessa difícil e sutil arte da crônica, com alta qualidade literária e profunda empatia pelo ser humano e aquilo que o cerca. Cada pessoa tem o potencial de ser muitos, e se você já não excelesse na arte do piano, sei que teríamos um literato de vulto.
Gildo Magalhães

Quase citando-te, “eu, leitor, estou convidado a realizar essa viagem. Que sejamos cúmplices. Bem  haja”!
Eurico Carrapatoso, compositor (Portugal)

Que simpática esta mensagem do Gildo para você. É a pura verdade. Está ao lado de meu cronista favorito, Fernando Sabino
Maria Beatriz Martins Lazarini (filha – posição suspeita)

Neste espaço deixo minha profunda gratidão aos leitores seletivos (circa 3.500 semanais). As suas visitas aos blogs, sensibilizam-me profundamente.

I appreciated the numerous messages from readers regarding the latest blogs. Due to space constraints, I have selected only a few, but I am happy to receive comments and suggestions for topics that will certainly be converted into future posts.

 

Quando a escrita se torna respiração

Porque ser fiel, em primeiro lugar, é ser fiel a si mesmo.
Saint Éxupéry (1900-1944)
“Citadelle” (cap. CLXXV)

Foi aos 2 de Março de 2007 que, após uma conversa na qual relatava alguma lembrança de décadas passadas, meu ex-aluno e amigo Magnus Bardela me perguntou qual a razão de eu não ter um blog. Frequentador de nossa casa àquela altura, Magnus foi ao computador a fim de verificar algo e me chamou logo após. “Criei um blog em seu nome e é só começar a escrever”, disse ele. Atônito, sem conhecer nada desse “mecanismo”, escrevi um curto texto que nomeei “Preambulum”, a pensar na introdução da Partita nº 5, de J.S.Bach, que integrava meu repertório. Como ilustração, coloquei a foto da primeira caneta tinteiro que ganhei de meus pais quando completei 14 anos, uma Parker Júnior. Finalizava o primeiro post com uma frase que se tornou grata realidade: “Doravante, você leitor está convidado a realizar essa viagem. Que sejamos cúmplices. Bem haja”!

Passaram-se quase 19 anos e com entusiasmo escrevi blogs publicados sempre no minuto cinco dos sábados e desde aquela data jamais deixei de inserir um post ao final da semana. Chegamos ao milésimo e o fato me faz rememorar. Ausente do país inúmeras vezes para atividades musicais, ainda nessas temporadas não deixava de publicar o blog, assim como logo após algumas cirurgias. Depois do primeiro ano tive a nítida sensação de que, instintivamente, o blog apreendia tema de qualquer ordem que me causara impressão maior. Sob outra égide, cerca de trezentos livros resenhados se tornaram parte natural das leituras que me marcaram (vide menu: Livros: Resenhas e comentários – lista). Reiteradas vezes mencionei em meus blogs que a respiração não pede férias, assim como minha prática pianística e os escritos.

Os blogs, de Março de 2007 a Março de 2011, resultaram em três livros, “Crônicas de um observador”, publicados pela Pax e Spes do meu dileto amigo Claudio Giordano. Deixei de publicá-los por múltiplas razões. Hoje teríamos 16 livros. Alguns leitores fiéis me escreveram ao longo dos anos dizendo que imprimem e guardam em pastas os blogs publicados, fato que muito me sensibiliza.

Relendo posts ao longo dos anos, verifiquei certas flutuações em termos de temática. A palavra “observador”, utilizada no conjunto de textos nos quatro primeiros anos e que se estenderia ainda por certo tempo, teve como motivo o olhar mais voltado a muitos episódios do cotidiano, tantos deles que me encantaram. Houve uma fase em que as altas montanhas, a pontificar a cordilheira do Himalaia, me fascinaram e sintetizei em posts uma série de livros sobre o assunto. Assim também o fiz ao ler mais de 10 livros do intrépido aventureiro francês Sylvain Tesson (1953-). Com o passar dos anos, o aumento das viagens ao Exterior, a fim de atividades musicais mais acentuadas, sem declinar do cotidiano, voltei-me às experiências vividas nessas turnês, aos músicos excelentes com quem tive o privilégio de conviver, à Música e à eterna leitura seletiva, sempre a pensar na transmissão ao meu leitor. Houve um período em que me pormenorizei na série de extraordinários pianistas do passado, muitos deles hoje pouco acessados no Youtube ou no Spotify, assinalando sempre que, sem o conhecimento de suas gravações históricas, pode se perder o fio condutor que nos leva, como prioridade, ao respeito à mensagem do compositor e à imaginação extraordinária daqueles intérpretes unicamente voltados à essência musical. Fazia a crítica a determinadas performances atuais, tantas delas excepcionais sob o aspecto técnico-pianístico, mas, em inúmeros casos, sem a aura poético-espiritual. Insisti em vários posts a respeito de outro fator dominante nos dias de hoje: holofotes possantes, indumentária inúmeras vezes chamativa, tudo a fazer parte do espetáculo, algo não existente no passado, quando o objetivo do intérprete era tão somente o conteúdo musical a ser transmitido. Se o leitor acessar gravações daqueles mestres excelsos do passado interpretando determinada obra, verificará o pouco número de ouvintes na atualidade, diferentemente dos efeitos de performances hodiernas que, chamativas, atingem visualizações elevadíssimas para certos intérpretes mais ventilados.

Paradoxalmente, a quase absoluta ausência da crítica musical nos últimos tempos é uma trágica realidade. Por volta de 1955 havia em São Paulo (3 milhões de habitantes) 12 críticos que pautavam os concertos realizados na cidade, de celebridades ou daqueles que se apresentavam no início de suas trajetórias. Na maioria, os críticos eram músicos atuantes ou teóricos. Hoje, a cidade tem 12 milhões. Críticos desses eventos? Comentei ao longo dos anos essa situação de queda que se estende, diga-se, a outras áreas da Cultura.

Quanto aos Costumes, a temática se acentuou nos blogs publicados nesses últimos anos, pois não há mais barreiras para a divulgação de toda espécie de conteúdo adulto à disposição em sites de grande divulgação. Realmente, um total absurdo. Infelizmente, essa nefasta “abertura” não recebe o olhar mais atento das nossas autoridades.

Após encerrar minhas atividades pianísticas públicas na Bélgica e em Portugal em 2023, assim como as gravações de CDs na região flamenga (1999-2019), finalizei no Brasil com um recital na cidade de Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Agosto do mesmo ano. Não obstante, continuo a praticar como sempre e sete foram os Encontros privados que Regina e eu realizamos desde o término das minhas apresentações oficiais. Continuo, pois, a comparar a prática diária pianística à respiração, que nunca esmorece. Não apenas rememoro repertório interpretado ao longo das décadas, como incorporo composições que sempre tive vontade de estudar e circunstâncias várias me impediram de fazê-lo. As récitas resultaram em blogs sobre os repertórios apresentados.

Infelizmente, a morte de tantas figuras ilustres e amigos fiéis fez parte dos meus escritos hebdomadários. Prestei um singelo tributo a mais aos que partiram: François Lesure (1923-2001), Serge Nigg (1924-2008), Álvaro Guimarães (1956-2009), Giovanne Aronne (1937-2009), Almeida Prado (1943-2010), Roberto Szidon (1941-2011), Luca Vitali (1940-2012), Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012), Mario Ficarelli (1935-2014), Gilberto Mendes (1922-2016), Sequeira Costa (1929-2019), Fernando Lopes (1935-2019), Jorge Sampaio (1939-2021), José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), Tânia Hachot (1937-2022). Nossos saudosos pais, de Regina e os meus, também foram lembrados com emoção. Inexorabilidade que deve ser cultuada.

Este olhar o passado me fez considerar determinadas mutações, mercê da trajetória do país. O leitor que me segue desde os primeiros tempos bem sabe que eu me posicionava mais otimista, no que concerne ao Brasil, nos talvez dez primeiros anos de posts publicados. Sabe também que não penetro em temas sobre política, pois articulistas especializados e de ideologias diferenciadas o fazem com maior conhecimento. Todavia, não deixo de perceber o país à deriva em tantos aspectos. Verificamos, em vários índices mundiais abrangendo categorias diferenciadas, o nosso recuo, fato lamentável. Sob outra égide, o receio do cidadão comum de se pronunciar mais veementemente a defender suas convicções políticas, outrora amplamente livre, intensificou-se. A espontaneidade, típica do povo brasileiro, foi substituída pela cautela com palavras e textos. A charge de cunho político, tão comum nos meios de comunicação décadas atrás, estiolou-se. Esvaiu-se a espontaneidade e toda charge dos nossos dias tem de ser bem pensada antes de vir a público… O tão apregoado bordão “censura nunca mais” mereceria ser entendido na sua essência essencial.

Há quase um ano tivemos uma abrupta mudança, após 60 anos morando na mesma casa. A sanha avassaladora de uma construtora nos levou a mudar. Continuamos na mesma rua, mas doravante em um apartamento e as relações humanas, fator fundamental, continuam. Página virada e a normalidade de volta.

Tenho o hábito de redigir os blogs durante as madrugadas. Pela manhã realizo uma leitura pormenorizada e envio à minha amiga-irmã, Regina Maria, nossa vizinha desde os anos 1980, que desde o primeiro post, de Março de 2007, realiza uma revisão acurada, pois as denominadas gralhas acontecem: acentuações, falhas na digitação e outros pequenos tropeços. Faz-se necessária a revisão. Estou a me lembrar de um chiste do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), que, ao enviar ao ilustre organista Furio Franceschini (1880-1976) a sua Sonata para órgão, a fim de que o mestre a revisasse, escreveu que, entre os maus revisores, sentia-se o pior. Certamente um jocoso jogo de palavras, pois seus manuscritos contêm pouquíssimos equívocos.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige!”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=n0RxYeQbBbo&t=5s

Continuarei a escrever meus posts, embora os temas nascessem durante os meus treinos correndo. Aos 87 anos, infelizmente, não mais tenho esse prazer, a conselho do notável ortopedista Heitor Ulsson, convertendo as corridas em andadas, mas cumprindo basicamente as mesmas distâncias. A frase “o tempo insubornável”, do grande poeta Guerra Junqueiro (1850-1923), tem a amenizá-la o desenvolvimento de outras alegrias, entre elas o mavavilhamento de hoje, uma extensa família, lentamente acrescida nestes 62 anos de casamento, e curtida por Regina e por mim. Música, literatura e artes em geral se tornaram ainda mais frequentes e continuarão a impulsionar o blog, até quando a frase latina ser efetivada, “Mors certa, hora incerta”. Contudo, prezado leitor, continuo a ter esperanças.

We have reached our thousandth consecutive post, published every Saturday since 2 March 2007. A significant milestone, since there has not been a single hiatus in this long period of almost 19 years.