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Livro a corroborar o desvelamento do autor

Nunca compreendi e não compreenderei jamais
que as pessoas trocam histórias que não têm a menor importância,
pois são histórias distorcidas.
Será que teríamos a necessidade de desperdiçar a vida
se já é difícil vivê-la apenas uma vez?
Não vale a pena.
Antoine de Saint-Exupéry
(carta à sua mãe, Marie de Fonscolombe Saint-Exupéry)

Primeiramente, um livro bonito. Toda a montagem desse precioso volume demonstra um profundo culto ao notável piloto-escritor. Nathalie des Vallières, historiadora de arte e sobrinha neta de Saint-Exupéry, teve a colaboração da também historiadora Roselyne de Ayala para a realização da obra.

“Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry” teve a primeira edição em 2003 e a reedição em 2019 (Éditions de la Martinière). A autora dividiu-o em capítulos precisos, a buscar transmitir parcela considerável da personalidade de Saint-Exupéry. A grande maioria dos leitores conhece apenas O Pequeno Príncipe, livro que alcançou tiragens fabulosas e continua a ter grande aceitação. Parte essencial do pensamento de Saint-Exupéry lá está de maneira extremamente sintetizada, mas a despertar em muitos leitores o interesse por outras obras do autor: Correio Sul, Terra dos Homens, Piloto de Guerra. Raríssimos chegam a desafiar sua obra-prima, a caudalosa Citadelle, tantas vezes mencionada em meus blogs.

A obra, ao apresentar inúmeros manuscritos, escritos a lápis ou caneta, insistentemente preenchidos por singelos desenhos, tantos como esboços àqueles que surgiriam em Le Petit Prince, revela ao leitor o instante do acontecido, momentos em que a ideia flui para o papel, seja ele de qualquer qualidade ou cor, branco, bege, com timbres de hotéis e restaurantes, todo material passível de receber a escrita do piloto escritor. Vem a demonstrar que o autor não deixava uma ideia enclausurada, buscando sempre que possível vertê-la para qualquer tipo de folha à sua disposição. Diferentemente da grande maioria dos escritores, Saint-Exupéry é itinerante, e o “escritório” da escrita tem ampla geografia.  Redigiu textos inclusive em cockpits durante suas travessias aéreas. Também durante voos, algumas das mais profundas reflexões do autor surgiam.

Nathalie des Vallières enriquece cada página manuscrita inserida não apenas com a sua devida atualização digitalizada, adicionando comentários preciosos a cada situação apresentada. Saliente-se que as páginas manuscritas ou datilografadas contêm inúmeras correções do autor, eliminação de palavras ou frases inteiras e tantas delas, numa mesma página, formam verdadeira “teia”, a configurar intenções de aprimoramento reflexivo ou de maior fluência. Saint-Exupéry assim procede nos textos que deverão compor seus livros.

As missivas de Antoine de Saint-Exupéry se estendem da infância a poucos dias antes de seu trágico desaparecimento em missão como piloto durante a segunda grande guerra. Pode-se, através das inúmeras páginas manuscritas, seguir a evolução de seus traços caligráficos que se transformam, mormente em momentos mais estressantes.

Os desenhos que proliferam em suas cartas estariam a demonstrar que há algo pictórico em seu pensamento, a necessitar dessa presença do traço que leva à figura humana ou a determinado objeto. Insistentemente esboços desenhados de O Pequeno Príncipe surgem em cartas à sua mãe ou a amigos em contextos outros. Dir-se-ia que a imagem do personagem mirim, presente em traços diferenciados, representaria o alter ego do autor.

Um capítulo é dedicado às cartas à sua mãe, Marie de Fonscolombe Saint-Exupéry, que se estendem durante toda a vida. Tendo perdido o pai na idade edipiana, concentra seu afeto na mãe. São missivas plenas de ternura, comentando observações do cotidiano, externando amor filial sensível e por vezes, principalmente durante os anos de formação em escolas e no serviço militar, solicitando alguma ajuda financeira. Aos 30 anos, testemunha esse afeto com palavras sensíveis: “No fundo, a ‘mãe’ é o único verdadeiro refúgio dos pobres homens”. Em 1932, casado, escreve: “Minha mãezinha, em Saint-Maurice você foi para Consuelo a mais terna das mães. Sou-lhe infinitamente grato”. Essas palavras carinhosas persistem e, um ano antes da morte trágica, em plena atividade como piloto durante a guerra, Saint-Exupéry escreve: “Espero ansiosamente estar em seus braços daqui a alguns meses, minha mãezinha, minha velha mamãe, minha afetuosa mãe”.

A mente privilegiada de Saint-Exupéry leva-o à invenção desde à infância. Sua irmã primogênita narraria experiências de Antoine para melhorar desempenho de sua bicicleta, assim como de uma outra com asas que acabou explodindo. Futuramente, suas patentes apresentadas relativas à aviação, no sentido de aperfeiçoamento, não foram aplicadas em França, mas algumas, nos Estados Unidos. Nathalie de Vallières comenta: “Uma de suas mais importantes invenções, aquela hoje nomeada DME (Distance Mesuring Equipment), depositada em 19 de Fevereiro de 1940 (com aditivo em 7 de Março), só foi publicada aos 20 de Agosto de 1947 sob o título “Novo método de localizações por ondas eletromagnéticas”. Esse medidor de distância, presente hoje em todos os aviões, não existia até 1940. Saint-Exupéry estabelecera um dos princípios do radar”. Aos 28 de Novembro de 1939, patenteia um “torpedo aéreo” junto ao Instituto nacional de propriedade industrial. Igualmente no campo da matemática mostrou-se capaz.

Um capítulo é reservado à figura feminina na vida de Saint-Exupéry. Independentemente do extremo afeto filial, Saint-Exupéry teve inúmeros romances que não perduraram ou amizades femininas perenes, platônicas ou não, que gravitaram em sua vida. Foi considerado noivo oficial da escritora Louise de Vilmorin, sendo que a vocação do piloto-escritor teria sido um dos motivos da ruptura. Em 1931 há o casamento com a salvadorenha Consuelo Suncin, de “temperamento vulcânico e de menina mimada”, segundo Nathalie des Vallières, sendo que o relacionamento nem sempre foi harmonioso, devido em parte à vida itinerante de Saint-Exupéry. Como fato narrado em “Terre des Hommes”, quando relata o drama de seu amigo  Henri Guillaumet (1902-1940), que, após queda nos Andes nevados, teria caminhado durante cinco dias e sobrevivido mercê da certeza de não ter assinado o seguro de sua mulher, Saint-Exupéry sofre acidente e, após ter sido resgatado no deserto da Líbia, escreve: “É terrível deixar para trás alguém que tenha necessidade de você, como Consuelo”. Um subcapítulo é dedicado à irmã Simone, latinista, arquivista e historiadora, que viveu 25 anos na Indochina em função profissional. Cartas plenas de carinho e, em uma delas, Antoine a estimula ao casamento. Simone nunca se casaria.

Nathalie des Vallières comenta: “Todas as mulheres que ele sublima nas cartas e em seus pensamentos, mas que aparecem raramente em suas obras, exceção à Geneviève em Courrier Sud, a mulher de Fabien em Vol de Nuit e a Rosa do Pequeno Príncipe, iluminaram com uma doce aura a vida de Saint-Exupéry”.

Já narrei, em blog muito anterior (09/11/2007), ter participado com Simone de Saint Exupéry (1898-1978), de reuniões literárias inesquecíveis na morada em Paris de seu primo irmão, Barão André de Fonscolombe . O leitor que quiser acessar o blog “Antoine de Saint-Exupéry” encontrará dados desse período que se prolongou ao longo de 1959:

http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2007/11/page/2/

No próximo blog comentarei Antoine de Saint-Exupéry aviador, suas performances, seus inúmeros acidentes aéreos, seus colegas de profissão e a morte como fixação progressiva. Trechos de cartas e excertos dos livros do piloto-escritor dimensionarão os comentários.

In two posts I’ll write some notes on a book I’ve just finished reading: “Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry” (published in English with the title “Saint Exupéry: Art, Writings and Musings”), a collection of letters, drawings, photos and private notebooks of the French writer and aviator (1900-1944) assembled with adoring reverence by his great-nice, the art historian Nathalie des Vallières. Each chapter covers one aspect of Saint-Exupéry’s life: childhood, friendships, relationship with mother, wife and other women, the inventor with many patents to his name, his passion for writing, drawing, flying, his participation in the war, his thoughts about death. One entire chapter is dedicated to Saint-Exupéry’s affectionate correspondence with his mother, extending from childhood to 1944, the year of his death. Another chapter addresses the various women of his life: wife, sisters, friends, romantic liaisons. A beautiful and richly illustrated edition with reproductions of Saint-Exupéry’s original manuscripts and drawings, in special the omnipresent sketches of “The Little Prince”, maybe an alter ego of the author, the book provides valuable information about life and thoughts of an extraordinary artist and human being. In the next post I will resume this book, dealing with the chapters in which Saint-Exupéry, in his lyrical and philosophical prose, writes about the fascination and dangers of flying, solidarity among professional colleagues, his obsession with death.


Vasta correspondência multidirecionada

Especializam-me para impedir a ação
que teria almejado exercer sobre a música.
Claude Debussy
(Carta a Charles Levadé – 04/09/1903)

Literatos têm expressa a familiaridade com o texto. Não poucas vezes, há o prazer da fluência calculada e o estilo professado em romances e poemas pode ser detectado na correspondência, principalmente quando endereçada a um dos pares. Mencionaria as Lettres inédites à Tourguenieff, primor da escrita de Gustave Flaubert.

O texto redigido por compositores, em princípio, apresenta-se como uma segunda linguagem. Se o compositor Jean-Philippe Rameau (1683-1764), como exemplo entre poucos, lega tratados teóricos que perduram desde o século XVIII, nem sempre o músico tem a mesma fluência com o texto literário através das missivas. Esse compartimento íntimo, quando visitado por compositores, tem singularidade. Inúmeras as missivas de músicos que tangem às áreas da poética em comparações com as sonoridades que as povoam.

Na sequência de posts sobre compositores e seus pensamentos legados   através das cartas, lembraria que comentei recentemente a correspondência de Ludwig van Beethoven, Franz Liszt, Richard Wagner e Modest Moussorgsky, bem diferenciadas em seus conteúdos. Por vários motivos deixei por último Claude Debussy (1862-1918), mormente pelo fato de ter acompanhado sua vasta correspondência a partir de publicações que remontam à primeira metade do século XX e que, reunida e bem ampliada através de esforço hercúleo de meu saudoso amigo e notável musicólogo François Lesure (1923-2001), foi completada por seu discípulo Denis Herlin com a colaboração de Georges Liébert e publicada em 2005 (Claude Debussy – Correspondance 1872-1918, Paris, Gallimard). Dos livros anteriores, concentrados nas cartas enviadas por Debussy a ilustres coetâneos, mencionaria:  Lettres de Claude Debussy à son éditeur – Jacques Durand (1927), Claude Debussy Lettres à deux amis – Robert Godet e G. Jean Aubry (1942), Correspondance de Claude Debussy et Pierre Louÿs, (1945), Debussy et D’Annunziocorrespondance inédite (1948), Lettres inédites de Claude Debussy à André Caplet (1957), Lettres de Claude Debussy à sa femme Emma (1957), Claude Debussy Lettres – réunies et presentées par François Lesure (1980), Claude Debussy Correspondance 1884-1918 – réunie et présentée par François Lesure (1993). Número significativo de cartas foi publicado em revistas especializadas.

A revelação do de profundis, expressa tantas vezes em cartas, dificilmente o autor inseriria em artigo. O conjunto epistolar de Debussy corrobora a compreensão de seu livro Monsieur Croche, reunião de inúmeros artigos publicados em vários periódicos franceses.

O conjunto “integral” das cartas de Debussy, estendendo-se de 1872, quando o pequeno Claude Achille tinha apenas 10 anos, a 1918, ano da morte, revela um homem complexo, no dizer de seu biógrafo François Lesure: “Apesar de Debussy afirmar ser ‘simples como uma erva’ (14/07/1898), não é fácil traçar seu retrato. Se colocarmos de ponta a ponta os diversos julgamentos que dele fizeram, ficaremos perplexos sobre sua natureza profunda: selvagem, taciturno com acessos de alegria, tímido, infantil, sensível, terno, dissimulado, ciclotímico, desagradável até, como disseram”.

Depreende-se, na vastíssima correspondência de Claude Debussy ao longo de uma existência relativamente curta, a se ter como parâmetro atual a longevidade em expansão permanente, que o compositor se revela praticamente por inteiro e a quantidade de destinatários testemunha conteúdos que atendem às particularidades de cada um dos que recebiam suas cartas.

É certo que suas ligações familiares foram até difíceis durante um bom tempo. Desavenças com o pai fazem com que, durante anos, Debussy se  revele parcimonioso quanto ao progenitor. Lembremos o trauma sofrido pelo menino com a condenação e prisão de seu pai durante a Commune de Paris, insurreição parisiense em 1871. Se Claude-Achille se mantém silencioso sobre esse episódio, a partir da juventude da idade madura evidenciará relação de afeto com seus pais.

Admitido no Conservatório em 1872, revelou-se um aluno mediano, como testemunham suas atuações em várias disciplinas em que obteve láureas modestas. Teria em 1880, graças à indicação de um professor, a oportunidade de viajar à Itália e mais de uma vez à Rússia, como acompanhador de Nadejda von Meck, viúva de milionário empreendedor. Serviram esses estágios para o convívio com uma classe abastada e, possivelmente nesse período, ratifica-se o gosto de Debussy pelo não retumbante, devido talvez à antítese, que se acentuaria ao longo das décadas, da obsessiva admiração da mecenas russa por Tchaikowsky. Ainda a frequentar o Conservatório, não demonstra interesse pelo ensino na Instituição e, apesar de ter recebido o Prix de Rome com sua Cantata L’Enfant Prodigue em 1884, guardaria recordações não lisonjeiras: “O Conservatório é sempre esse lugar sombrio e sujo que nós conhecemos, onde a poeira das más tradições continua ainda nos dedos” (carta a André Caplet, 25/11/1909).

“Correspondance (1872-1918)”, em suas 2330 páginas, apreende a totalidade conhecida da atividade epistolar de Debussy e muitos de seus remetentes. Certamente ainda se encontrarão cartas ou bilhetes escritos por Debussy. Desfilam no volumoso livro em apreço cartas a intérpretes, críticos, amigos, família. A intensa ligação de Debussy com artistas de outras áreas que não a música evidencia preferências, quase a demonstrar que o compartimento musical, o compositor tinha-o de maneira singular, pessoal. Sua proximidade com poetas que enriquecerão suas melodias ou a aquela que terá com o meio simbolista é flagrante: Mallarmé, Pierre Louÿs, Paul Valéry, Henri de Régnier são exemplos.

A correspondência de Debussy perpassa artes, natureza, afetos, depressão, música essencial e ramificação que leva a inúmeros temas do cotidiano. Seria possível compreender que, após o nascimento de Chouchou em 1905, filha de Debussy e Emma, com a família estruturada e vivendo numa morada no Bois de Bologne, acima de suas possibilidades financeiras, Debussy, consagrado após a ópera Pelléas et Mélisande (1902), passe por crises perceptíveis em tantas cartas, mormente as endereçadas a poucos amigos mais próximos. A André Caplet se questiona: “Será que decididamente fui feito para uma vida doméstica?” (1907); “algumas vezes sinto-me miseravelmente só” (18/12/1911). Ao seu editor Jacques Durand escreve: “Só tenho energia intelectual; no cotidiano tropeço na menor pedra, que qualquer outro mandaria passear com um simples pontapé” (15/07/1913). Quando finaliza uma de suas obras fundamentais para piano, quiçá a mais importante, os Douze Études, confessa ao seu fiel amigo durante toda a existência, Robert Godet: “escrevi como um louco ou como aquele que deve morrer no dia seguinte” (14/10/1915).

Clique para ouvir o Étude pour les arpèges composés de Claude Debussy. Piano: JEM

https://www.youtube.com/watch?v=VCAH8fYHjSo

Creio que uma das mais apropriadas definições de Debussy por ele mesmo encontra-se num segmento de entrevista concedida a Henry Malherbe ao Excelsior e inserida no livro Monsieur Croche (11/02/1911):

“…Quem conhecerá o segredo da composição musical? O barulho do mar, a curva do horizonte, o vento nas folhas, o grito de um pássaro provocam em nós múltiplas impressões. E, no todo, sem que consintamos de maneira alguma, uma das lembranças apreendidas expande-se independentemente de nós mesmos e se exprime em linguagem musical. Traz-nos sua harmonia. Qualquer esforço que façamos, não alcançaremos algo mais justo e mais sincero. Se assim vos falo, não é para evidenciar opulência de uma moral artística, mas para provar justamente que não a tenho. Abomino doutrinas e suas impertinências”.

Continuing with the subject of prominent people’s epistolary exchange, my comments address the correspondence of Claude Debussy published in the book “Claude Debussy, Correspondence 1872-1918”, Paris, Gallimard, (2005), a gigantic effort of the French musicologist François Lesure (1923-2001) brought to completion, after his death, by his disciple Denis Herlin and editor Georges Liébert. The volume comprises the complete letters of the French composer to musicians, writers, critics, family, friends, ranging in date from 1872, when Debussy was 10 years old, to 1918, the year of his death. Addressing a wide range of topics art, emotions, affections, doubts, quotidian demands , Debussy’s correspondence reveals himself completely and, by allowing public access to his private life, unveils the human side of a musical legend.

Imenso compositor a revelar interioridades

É o povo russo que eu quero pintar.
Quando eu durmo, eu o vejo nos meus sonhos,
quando me alimento, é nele que eu penso;
quando bebo, é ele que aparece em toda a sua realidade,
grande, enorme, majestoso, magnífico, sem fardo e sem disfarce.
Modeste Moussorgsky

Após comentar as vastas relações epistolares de Beethoven, Liszt e Wagner, anunciava que ainda trataria de duas outras expressivas e distintas, as de Modeste Moussorgsky (Moscou, Éditions Radouga, 1987) e as de Claude Debussy (1862-1918). Através das cartas podemos melhor entender diversificados caminhos enveredados pelos músicos em apreço.

A vida de Moussorgsky é um longo caminhar em direção ao trágico. A ascendência nobiliárquica remonta ao século XV e, apesar de uma infância sem transtornos quanto à sobrevivência, Moussorgsky foi péssimo administrador de seus bens e em sua curta existência teve reiteradas vezes a ajuda de amigos. Integrou o Grupo dos Cinco, compositores autodidatas que buscavam se expressar musicalmente voltados às tradições populares russas, sem desmerecer o romantismo, mas adequando-o aos ideais nacionalistas. Foram eles: Alexandre Borodine, César Cui, Mili Balakirev, Modeste Moussorgsky e Nikolaï Rimsky Korsakov, todos basicamente da mesma idade. Em carta a seu fiel amigo e confidente, Vladimir Stassov, Moussorgsky escreve já nos estertores da ação do grupo: “Anunciei [com toda a delicadeza de que sou capaz] a Korsinka (Rimsky Korsakov) e a Borodine que, para salvaguardar a pureza virginal do círculo, para não nos prostituirmos, tenho a intenção de dar ordens no que concerne a nosso trabalho coletivo, ao invés de recebê-las; de colocar questões e não ser obrigado a responder; tudo isso, é claro, unicamente com a permissão de Korsinka e Borodine e em nosso nome” (31/03/1872).

Na infância o pequeno Modeste sofre decisivamente a influência de duas mulheres, sua mãe, Júlia Ivanovna, que lhe dá as primeiras noções pianísticas, e a babá, essa Niania inseparável, “contava histórias que me impediam de dormir”, presente em tantas lembranças musicais e epistolares. Já adulto, Moussorgsky encontraria obstáculos para que tivesse uma vida ao menos normal. Entrega-se à bebida, sofre de epilepsia, compõe freneticamente e nem sempre é entendido por seus pares.

A atividade epistolar de Moussorgsky, dirigida aos seus colegas do Grupo e a poucos interlocutores, entre os quais se destaca o crítico Vladimir Stassov, aborda música, preocupação com o povo, desilusões, carência afetiva, solidão. No livro “Modeste Moussorgski” há também outros temas e depoimentos de seus coetâneos.

O povo, constante em seus pensamentos, está expresso em carta a Vladimir Nokolski, ao tratar de uma de suas criações mais afamadas, A Noite de São João no Monte Calvo: “Você está bem a par de minhas convicções musicais para não duvidar que me é extremamente importante reproduzir fielmente as criações da imaginação popular, sejam elas quais forem, bem entendido, no limite dos meios utilizados para a escrita musical” (12/07/1867). Assim como Dostoiewsky, Moussorgsky é um observador. Frisa esse aspecto em tantas missivas: “Observo atentamente mulheres e mujiks típicos: uns e outros me são úteis. Quantos não são os aspectos inéditos na alma russa ignorados na arte! Eles são extremamente saborosos e simpáticos… Reproduzi em imagens musicais uma parcela de minhas observações da realidade e da intenção das pessoas que me são caras, transmitindo a elas impressões acumuladas”. Carta à Lioudmila Chestakova (30/07/1868). Em outra carta a Stassov, Moussorianine (assim ele assina em tantas missivas) escreve, num prenúncio dos eventos do início do século XX na Rússia: “Patinamos no mesmo lugar enquanto o povo não puder verificar com seus próprios olhos o caminho que lhe é imposto; enquanto não puder escolher, ele mesmo, a sua senda! Benfeitores buscam ver suas glórias documentadas enquanto o povo geme e, para não o fazer, embebeda-se continuamente, mas contrariamente, gemerá ainda mais forte: nós estamos, pois, sempre lá!” (16-22, 06/1872).

Moussorgsky emana conceitos sobre a condição humana, mas luta igualmente: “Os homens evoluem e, como consequência, a sociedade humana também; a compatibilidade das exigências do homem evoluído [para seu tempo] com aquelas que lhe impõe a sociedade [igualmente para o seu tempo] representa a harmonia que buscamos, e a via em direção à harmonia passa por uma luta feroz, sejam quais forem as circunstâncias”. Carta a Arséni Golénichtchev-Koutousov (02/03/1874).

O escritor e aventureiro Sylvain Tesson define bem uma palavra russa traduzida em francês como pofiguisme: “O pofiguismo não toma emprestado nem à resignação dos estoicos, tampouco ao desprendimento dos budistas. Também não ambiciona conduzir o homem à virtude pregada por Sêneca, nem dispensar méritos cármicos. Os russos pedem simplesmente que os deixem esvaziar uma garrafa, pois amanhã será pior do que hoje. O pofiguismo é um estado de passividade interior corrigido por uma força vital. O profundo desprezo por toda esperança não impede o pofiguista de desfrutar ao máximo os sabores do dia que passa” (Dans les forêts de Sibérie).

Em carta a Stassov, Moussorgsky traça quadro relacionado à técnica composicional, comparando-a em certo ponto à culinária: “Talvez tenha medo da técnica, pois é meu ponto fraco. Muitos me defendem sobre esse capítulo igualmente. Detesto, por exemplo, o costume de cozinheiras que dizem, falando de um paté em vias de ser cozido ou, mais precisamente, comido, que sua preparação exigiu ‘um milhão de pitadas de manteiga, quinhentos ovos, toda uma quantidade de brócolis, cento e cincoenta peixes e um quarto…’ Comemos o paté e achamos delicioso, mas desde que a cozinha é mencionada, vem-nos à mente uma cozinheira ou um cozinheiro eternamente sujo, o chapéu típico, um peixe eventrado sobre um outro, muitas vezes com as tripas à mostra. Outras vezes, a imaginação sugere um avental imundo de gordura, no qual por vezes ela ou ele soa o nariz, esse mesmo avental que serve para enxugar as bordas dos pratos, fazendo-os brilhantes… Pensando assim, o paté torna-se pior. As obras de arte acabadas possuem esse aspecto de castidade a interditar tocá-las com as mãos sujas: é repugnante”.

Se já abordei o arguto senso de observação de Moussorgsky, mencione-se exemplo em que, dessa atitude, o compositor passa à prática: “Durante o trajeto de barco de Odessa a Sebastopol, havia a bordo mulheres que cantavam; à altura do farol de Tarkhankhout [onde naufragara o iate Livadia], enquanto certos viajantes começavam a sofrer enjoos, observei que duas mulheres, uma grega e uma judia, cantavam suas canções. Juntei-me a elas, que ficaram felizes e me chamaram de mestre. A propósito, tendo assistido em Odessa a ofícios em duas sinagogas, fiquei entusiasmado. Guardei dois temas hebraicos: o do cantor acompanhado pelo coral e também o executado em uníssono”. Longa carta a Stassov (10/09/1879).

Esse relato, próprio de atento observador, corrobora outros olhares de Moussorgsky, como aqueles durante a exposição de aquarelas (1874) de seu amigo Victor Hartmann falecido em 1873. O impacto levou o compositor a compor uma das obras mais emblemáticas da arte musical, os Quadros de uma Exposição para piano e futuramente orquestrados por compositores como Maurice Ravel, Dmitri Shostakovich e Francisco Mignone. Escreve a Stassov aos 12 ou 18 de Junho de 1874: “Meu caro generalíssimo, Hartmann ferve em minha cabeça como ferveu Boris (referia-se à também emblemática ópera Boris Goudonov); os sons e as ideias estão suspensos no ar, absorvo-os, lambuzo-me, a chegar apenas a rascunhar sobre o papel. Escrevo agora o nº 4, as ligações são boas (tratava-se das diversas Promenades, passeios que interligam os quadros). Quero findá-los o mais rápido e da melhor maneira possível. Minha fisionomia aparece nos intermédios. Acredito que está dando certo. Dê-me sua benção” (traduzido por JEM a partir da versão francesa do original russo).  Moussorgsky comporia em cerca de duas semanas uma obra-prima, e durante esse tempo, teria ficado autorrecluso.

Detenho-me nos Quadros... pois eles representam a síntese dessa atenta observação. Não seriam os temas dos dois judeus, Samuel Goldenberg e Schmuyle, inspirados em outras escutas, Tuilleries não lhe veio à mente após presenciar miúdos brincando, A Cabana sobre patas de galinha – moradia da feiticeira Baba-Yaga não traria a Moussorgsky as reminiscências dos contos de Niania, sua babá, que “o impediam de dormir”, o tema da Grande Porta de Kiev, a finalizar a obra maiúscula, não é certamente a lembrança inconsciente de Frère Jacques, considerando-se que as melodias do cancioneiro francês eram entoados por Nianias, tantas delas vindas de França, pois o idioma de Voltaire era quase uma segunda via nas classes mais abastadas russas?

Clique para ouvir os Quadros de uma Exposição na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

Modeste Moussorgsky, autor de obras imorredouras, como as óperas Boris Goudonov e Khovanshchina, ciclos de canções absolutos, Quarto de criança, Sem sol, Cantos e danças da morte, os Quadros de  uma exposição – um dos compositores preferidos por Claude Debussy e Igor Stravinsky -, sucumbiria no infortúnio, vítima, entre outras causas, do álcool e da epilepsia. Tem-se nos versos finais da canção escrita aos 18 anos, Onde estás pequena estrela: “A nuvem negra escondeu a estrela, e a menina foi envolvida pelo túmulo gelado”.

This post addresses the book “Modeste Moussorgsky et le drame musical russe – notice autobiographique, lettres, souvenirs de contemporains” (Éditions Radouga, Moscou, 1987), covering, among other subjects, the letter exchange between the Russian composer Modest Mussorgsky and a few interlocutors, among them the critic Vladimir Stassov and members of The Five, a group of composers that included Mussorgsky, Aleksandr Borodin, Mily Balakirev, Nikolay Rimsky-Korsakov and César Cui, all bound by the goal of creating a distinctive school of Russian music. In my view, the reading of Mussorgsky’s personal letters has particular importance if one wants to learn about his music, his psychological portrait, his shrewd understanding of the Russian people — something that has impacted on the music he wrote — or, in a word, the paths trodden by the composer in music and in life.