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Uma vida dedicada à Música

A íntima união da oração e da arte,
da melodia e da palavra que canta por si própria,
ou da melodia que canta sem palavras
prolongando para além dela o que a palavra não pode dizer…
tudo é oração e arte,
a qual mais encanta, prende e eleva,
quanto mais perfeita a técnica em que se baseia a sua interpretação.
Júlia d’Almendra

O recente livro do organista Domingos Peixoto, “Júlia d’Almendra e o movimento organístico em Portugal” (Lisboa, By the Book, 2017), presta tributo a uma das mais expressivas figuras da música portuguesa no século XX, Júlia d’Almendra (1904-1992). A presente obra tem preciosas colaborações de Idalete Giga (coordenação da obra) e de Mariana Rosa (coordenação de textos e recolha iconográfica). Em blog bem anterior busquei traçar um pouco do perfil musical e humano da notável gregorianista (vide “Júlia d’Almendra – Uma existência a cultuar a Música”, 19/01/2013).

Domingos Peixoto, professor e organista, realizou trabalho investigativo de imenso valor ao revelar de maneira expressiva parte do grande contributo de Júlia d’Almendra para a Música Portuguesa, mormente nos aspectos essenciais voltados ao canto gregoriano, à pedagogia específica e ao sensível impulso que propiciou à expansão do ensino de órgão em Portugal.

Sabiamente, ao dividir o livro em dez capítulos Domingos Peixoto não deixa de historiar o ensino e a prática organística em Portugal na primeira metade do século XX. Pormenoriza a importância do Conservatório Nacional (Lisboa), instituição na qual seria professor titular de órgão, evidenciando o papel do estabelecimento no cenário português. Mostra-se figura plenamente capacitada para o intento a que se propôs.

O autor, ao definir Júlia d’Almendra como personalidade maior numa verdadeira cruzada, a fim de legar ao país o que havia de mais sedimentado e hodierno em torno do órgão instrumento, comprova o esmero e cuidado da gregorianista no sentido de cercar-se de intérpretes e professores europeus, mormente os da Escola Francesa, promovendo uma verdadeira e profícua “revolução” no que tange à importância do órgão na música sacra. Como consequência, a didática aplicada ao instrumento, a formação de inúmeros organistas e a difusão por todo Portugal da criação específica. Peixoto salienta igualmente a dedicação de Júlia d’Almendra e seu empenho extremado para que nada pudesse impedir esse desenvolvimento.

Ao longo de mais de dez anos de blogs ininterruptos, tenho salientado a importância fundamental da viagem para um jovem que pretenda estudar música em país que preserva tradições e que mantém na excelência o ensino criterioso e a prática interpretativa. É mais fácil para um jovem que estagia por bom período sorver a cultura de um povo. Poderá, ao regressar, tornar-se um “embaixador” cultural do país que o abrigou para aperfeiçoamento. Mais difícil essa “prática diplomática” para um denominado jovem na idade madura, que se desloca além fronteiras para trabalhos acadêmicos, mas impregnado por fatores vários de seu país de origem, que se tornam “amarras” para  a absorção mais harmoniosa.

Júlia d’Almendra, nascida em Tráz-os-Montes (Samões-Vila Flôr), pertencia a uma família que cultuava valores voltados à tradição. Pai e irmão prestaram relevantes serviços ao país. Quando viaja para a França, a fim de aperfeiçoamento junto ao Instituto Gregoriano de Paris, fá-lo já a antever a plena atuação vocacionada à música sacra, mais especificamente ao canto gregoriano. Não por acaso, defende com brilhantismo sua tese orientada pelo notável Henri Potiron, em Paris, a versar sobre a figura máxima da música francesa, Claude Debussy, encontrando ecos dos cantos gregorianos, conscientes ou não, na obra debussysta. Exemplos demonstrados por Júlia d’Almendra testemunham essa apreensão por parte de Debussy (d’Almendra, Júlia. Les modes Grégoriens dans l’oeuvre de Claude Debussy. Paris: Gabriel Enault, 1950).

Domingos Peixoto presta uma inestimável colaboração no sentido de dignificar Júlia d’Almendra, infelizmente não reconhecida como deveria ser em seu país, apesar do hercúleo empenho de sua ex-discípula e excelente gregorianista Idalete Giga. Revela-nos Domingos Peixoto aspectos marcantes nesse leque aberto por Júlia d’Almendra. Entre esses: a sua atuação como administradora, a intensa campanha voltada à divulgação competente da prática organística, a sensível qualidade na escolha dos professores que deveriam atuar nos estabelecimentos por ela criados, o Centro de Estudos Gregorianos (1953), sob o patrocínio do Instituto de Alta Cultura e o posterior Instituto Gregoriano de Lisboa (1976). Consideremos outros aspectos mais que não pertencem ao tema do livro, como o fato de ter introduzido em Portugal o Método Ward (criado por Justine Ward 1879-1975), ter criado a Semana de Canto Gregoriano em 1950, que durante muitos anos realizou-se em Fátima e hoje, em sua 66ª edição, acontece em Viseu sob a direção de Idalete Giga; a criação da revista “Canto Gregoriano”, da qual foi diretora e articulista de mérito, a corroborar a divulgação da música sacra.

Uma das grandes virtudes do livro em apreço terá sido o resultado de intensa pesquisa, a abordar Júlia d’Almendra como criadora das instituições mencionadas, decorrência da acolhida ascendente das Semanas Gregorianas na formação de cantores e regentes corais a partir de 1950. É louvável o empenho de Júlia d’Almendra na organização do Centro Gregoriano de Lisboa, na elaboração curricular e na busca sem trégua dos nomes basilares em cada área do conhecimento específico. Quando faço referência ao fato de um músico, após estágio sedimentado em países onde a cultura erudita é tradição, regressar à sua terra e se tornar um “embaixador” do país que o abrigou, tenho em mente, como exemplo transparente, Júlia d’Almendra. O estágio em França, para  elaboração de tese junto ao Instituto Gregoriano de Paris, fê-la admiradora inconteste da cultura musical francesa. Entre as principais escolas organísticas na Europa prepondera a francesa, a marcar decididamente escolhas que d’Almendra faria no futuro como dirigente em Portugal. Professores do Instituto Gregoriano de Paris, do Conservatório Nacional Superior de Paris, da Universidade Sorbonne e da Escola César Franck compuseram o corpo docente do Centro Gregoriano de Lisboa, e mais tarde, do Instituto Gregoriano de Lisboa. Os nomes referenciais em França estiveram em terras lusíadas para apresentações ou permanências mais ou menos longas para cursos específicos. Peixoto enumera-os criteriosamente, a evidenciar contributos individuais marcantes, que corroboraram a edificação de uma escola organística portuguesa. Alguns desses nomes respeitáveis, tantas vezes presentes para regerem cursos durante as Semanas Gregorianas, merecem citação. Primeiramente Édouard Souberbielle (1899-1986), um dos grandes organistas de sua época, e Jean Guillou (1930-  ),  extraordinário  organista e compositor, titular emérito da Igreja de Saint-Eustache, em Paris. Estiveram a ministrar aulas e oferecer recitais Claude Bouglon, Michel Jolivet, Arsène Bedois, André Sierkierski (polonês) e titular do órgão de Saint-Médard em Paris, Pierre Doury e Gaston Litaize. Frise-se que Júlia d’Almendra levaria a Lisboa, para aulas de abertura do ano letivo e posteriores cursos, respeitáveis organistas e musicólogos franceses, como Jacques Chailley (1910-1999), que manteria durante décadas amizade profunda com a ilustre gregorianista portuguesa, Auguste Le Guennant  (1881-1972),  Norbert Dufourcq (1904-1990), Geneviève de La Salle (1904-1993),  Edith Weber (1925- ), Claude Terrase (1925-2008), neto do compositor homônimo, Germaine Chagnol (1926-2014), Pierre Gazin, um dos últimos alunos do legendário Marcel Dupré (1886-1971). Contudo, a figura mais marcante e duradoura para a sedimentação definitiva dos ensinamentos da fabulosa escola francesa de órgão foi sem dúvida Antoine Sibertin-Blanc (1930-2012), que, radicado em Portugal desde 1961, esteve à testa não só dos cursos de órgão como de matérias teóricas (vide blog “Ad Memoriam – Antoine Sibertin Blanc – Um músico na acepção do termo”, 25/03/2017).

Os aprofundamentos de Domingos Peixoto conduzem o leitor às contribuições trazidas por músicos de outros países, mormente da Itália. Júlia d’Almendra receberia uma das maiores honrarias do Vaticano, a Medalha “Pro Ecclesia et Pontifice”, distinção atribuída pelo Cardeal Montini, futuro Papa Paulo VI, em 1953, pelo empenho de d’Almendra em favor da divulgação da música sacra em Portugal.

Domingos Peixoto, em seu precioso livro, aborda com precisão os programas dos cursos de órgão ofertados pelas entidades dirigidas por Júlia d’Almendra no decorrer das décadas e posteriormente debruça-se sobre o órgão que a gregorianista mantinha em sua morada à Rua d’Alegria, 25, 1º andar. Vai às origens do projeto, à difícil adaptação no apartamento, qualidades e problemas do instrumento e seu destino final.

“Júlia d’Almendra e o movimento organístico em Portugal” é livro obrigatório para todos que buscarem o conhecimento maior do ensino e da divulgação do órgão em Portugal na segunda metade do século XX. Gerações são tributárias do esforço maiúsculo de Júlia d’Almendra.

A título final,  diria que cheguei a interpretar  alguns corais e Prelúdios e Fugas de Bach no órgão existente na residência de Júlia d’Almendra, pois durante dez anos ficava sempre hospedado em sua morada, quando de meus recitais em Portugal. O instrumento já apresentava problemas que foram se acentuando, mas Júlia ouvia a sorrir essas obras excelsas. Nossa amizade, que se iniciou em torno de Claude Debussy – Júlia prefaciaria meu livro “O som pianístico de Claude Debussy” (São Paulo, Novas Metas, 1982) -  prolongar-se-ia até os últimos dias da notável gregorianista (1992). No Centro de Estudos Gregorianos apresentei-me sempre a tocar obras de Debussy, Estudos (integral), suítes, peças avulsas e La Boîte à Joujoux. Presente aos recitais, o notável organista Antoine Sibertin-Blanc, o ilustre crítico Humberto d’Ávila e Idalete Giga. Nosso relacionamento, na época das cartas manuscritas e dos correios morosos (ainda o são no Brasil), renderia mais de 40 missivas de Júlia d’Almendra e outras tantas minhas, assim como cartões postais. Chamava-me sempre de irmão em Debussy. Hoje essas cartas estão depositadas no Centro Ward de Lisboa. Poucos meses antes de sua morte, sabedora de meus aprofundamentos em Debussy, nosso sempre tema para conversas, levou-me à sua rica biblioteca e me ofereceu todos os livros preciosíssimos sobre o mestre francês escritos na primeira metade do século XX, que adquirira durante seus estudos em Paris. Lembro-me sempre da Julinha, assim a tratava, com muitas saudades. Uma figura histórica na cultura musical portuguesa, rigorosamente impecável. Vida inteiramente dedicada à Música, sem quaisquer outros interesses.

This post is an appreciation of the book “Júlia d’Almendra e o Movimento Organístico em Portugal” that has just been released (Lisbon, By the Book, 2017). Written by organist Domingos Peixoto, it pays tribute to Júlia d’Almendra, one of the greatest musical figures of the 20th century in Portugal thanks to her actions to boost the teaching of organ music at her time. Author Domingos Peixoto, piano and organ teacher at the National Conservatory of Lisbon, is up to the task. The book is mandatory reading for those who want to know more about the history of organ music in Portugal in the second half of the last century and about Júlia d’Almendra, expert in Debussy and Gregorian chant, who so far has not received in her country the recognition a professional with her accomplishments would deserve, despite the Herculean efforts of her follower Idalete Giga, current director of the Centro Ward de Lisboa, founded by Júlia d’Almendra.

 

 

O pensamento de François Servenière em torno do tema

- On gouverne mieux les hommes par leurs vices que par leurs vertus.
- Le peuple est le même partout. Quand on dore ses fers, il ne hait pas la servitude.
- Le mot de “vertu politique” est un non-sens.
- Ce n’est pas possible ; cela n’est pas français.
- Une societé sans réligion c’est comme un vaisseau sans boussole.
Napoleão Bonaparte (1769-1821)

A figura de Napoleão fascinava-me na juventude, pois aos 16 anos já havia lido obras do historiador francês Octave Aubry (1881-1946) em torno do Imperador. Um certo romantismo permeava esses livros. Com o passar do tempo, a leitura de outras obras levou-me para uma posição mais crítica. Faz parte de nossas transformações à medida que os acúmulos acontecem.

A recepção ao blog anterior foi bem expressiva. Em mensagens curtas houve elogios e críticas à figura de Napoleão Bonaparte, suas conquistas e derrotas em campo de batalha, assim como suas decisões em tantas áreas que tiveram guarida na legislação e na vida do povo francês ao longo dos séculos. Concentrar-me-ei na longa e substanciosa apreciação de François Servenière, compositor de mérito e um arguto pensador francês. Para aqueles que me honram com a leitura semanal é sem dúvida de grande interesse o posicionamento de um conhecedor profundo da música, da literatura e da história da França.

“Berezina é um episódio típico sobre o qual o francês não gosta de falar, salvo em caso de uma derrota catastrófica política, emocional, humana, pessoal ou esportiva. Berezina é nossa referência absoluta em termos de psicologia negativa. E há razões. Temos também Trafalgar, Waterloo, as últimas Guerras, em registros de batalhas perdidas antes mesmo de terem começado… Jamais perdemos uma batalha sem causa. Derrotas ensanguentadas, trágicas, aquelas dos ‘galos’ se achando mais fortes do que todo mundo! O drama francês, sempre em atraso no início de uma guerra – ‘quem nos quer mal?’ – , um povo obrigado a fazer a guerra pelo fato de estar acuado, pressionado pelos inimigos, mas globalmente incapaz e despreparado para o combate, sob os aspectos material, psicológico e físico, como também derrotados antes do combate pela presença de uma ideologia pacifista. O que teria feito a avestruz para não ter nascido na França? Mesmo encurralados hoje pela presença de 100.000 possíveis combatentes islamitas (um pequeno exército, segundo estimativas de estrategistas do Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália…), continuamos a preferir os passarinhos, os programas ecumênicos de televisão, as séries adocicadas, o cinema egocentrado germânico e acender velas quando tragédias surgem, como recentemente no Reino Unido, que gritou em coro ‘vocês não terão nosso ódio!’ Ganha-se uma guerra com esse gênero de afirmação? Lembremo-nos do tout va bien, Madame la Marquise. Num outro plano completamente distinto, vocês têm a referência da semifinal da Copa do Mundo de 2014.

A realidade subjacente, mesmo com o sol a brilhar, é uma: ‘A civilização democrática é a primeira na história que se equivoca face às forças que trabalham para destruí-la’ (Jean François Revel  (1924-2006), filósofo, escritor e jornalista francês).

Os intelectuais, as elites mundiais traem. Nenhuma originalidade. Eles detestam o princípio de Nação. Nem há necessidade de se falar sobre sua extensão em ‘ismos’. Eu não falo dos esportes olímpicos ou coletivos diversos, quando os países são representados: segundo eles, são baixas pulsões orgânicas, como as culturas locais, outras manifestações, quermesses, etc…. Alguns desses intelectuais que ainda perduram adularam Mao e Pol Pot, o genocida que liderou o Kmer Vermelho no Camboja! Cuba lhes é o paraíso absoluto, mas gostam de viver em torno do Central Park… Lógica também nesses casos! A globalização econômica é seu credo, atualmente… Em caso de guerra, saberão se proteger em Casablanca, Rio, em Los Angeles, nos seus resorts já preparadas para tal fim. Comparados aos povos antigos, a evolução nesse sentido foi ínfima. Encontramos sempre as mesmas oposições ideológicas, os mesmos abusos das elites, os mesmos heroísmos da ruralidade, as mesmas celebrações após vitória e os mesmos ‘resistentes’ de primeira hora sempre em primeiro plano, ‘diante das câmaras’ para obter medalhas e prebendas, após o povo ter sido sacrificado em campos de batalha. Napoleão não estaria fora do contexto, mesmo se tratarmos de temas de nossa época, pois ele evoca uma transformação radical de um antigo regime odiado em direção a um regime mais democrático. As mesmas forças estão em marcha nos dias de hoje com as instâncias superiores europeias, odiadas igualmente pelos povos.

Os períodos históricos fazem-nos pensar no boomerang que se volta contra nós. O Ocidente desfrutou de um período de paz nesses últimos 70 anos, graças ao capital com uma força incrível de inércia, mas igualmente dos espíritos doravante enfraquecidos, mercê do conforto moderno e da alimentação açucarada. Todavia, o inimigo assim não entende e quer por fim, não importa o preço, ao panorama etéreo no azul pacífico europeu. Os povos dormem, despertam assustados logo após um massacre e, antes de voltar a dormir, balbuciam ‘ah, mais um atentado!’.

Ainda não li ‘Berezina’, de Sylvain Tesson. Admiro muito sua obra e outros aspectos a ele concernentes: personalidade, escolhas, coragem, temeridade, apesar de reprovar seu desligamento deste mundo que ele despreza e que pinta com acidez, quiçá cinismo e desencorajamento. Tesson é de tal nível cultural que se desespera diante da humanidade, após ter auscultado com um bisturi todos os recantos mais abissais dos erros acumulados pelo homem. Amamos ler Tesson, pois seu estilo e sua cultura são prazerosos. Sob outra égide, precisamos nos distanciar de sua alma vital para não nos deixar poluir por suas ideias negras e desesperançosas. Há nele forças mórbidas para disputa e duelo constante com a morte, que por várias vezes dele se avizinhou. Há certamente facetas nesse duelar: voluntarismo, atração ou desprezo. O terreno no qual Sylvain Tesson protagoniza, admirável cabeça incandescida, é certamente aquele da morte. É a vida, é assim. Sua escolha. Admiro pelas mesmas razões Mike Horn”. Numa entrevista tempos após o grave acidente que sofreu ao cair da parede de um prédio que tentava escalar em Chamonix e que o levou ao coma, Tesson diria, com aparente serenidade, que espera ter morte violenta. Continua Servenière: “Encontrei alpinistas também enlouquecidos, compositores suicidas, artistas atormentados. Felizmente não faço parte de suas famílias, pois amo muito a vida para não colocá-la em risco a cada segundo, mormente pelo fato de que penso perenizar-me através de meus filhos. Bela aventura, a vida e a continuação através das gerações.

Num primeiro approach, você disse tudo da trama dramática e histórica. Aproximações líricas de Sylvain Tesson! Apesar de ainda não ter lido o livro, tem-se de considerar a personalidade de Napoleão – psicologia, loucura guerreira, egoísmo, inteligência, conhecimento dos homens em suas fraquezas e falhas – e perguntar-se. Primeiramente, antes de tornar-se Imperador, Napoleão era um militar oriundo da Revolução Francesa, apesar de que deu de ombros como Imperador a alguns de seus legados. Completa e visceralmente tornou-se opositor dos Antigos Regimes monárquicos e feudais europeus. Busca instaurar um novo mundo. É a trama de toda a sua revolta contra a Europa e a finalidade de todos os seus combates assassinos contra os regimes atuantes ao preço de milhões de mortos. Alguns, na Europa e na França, comparam Napoleão a Hitler e a Stalin! Certo, suas batalhas contra os Regimes Antigos resultaram em misérias atrozes por onde passou. Tabula Rasa. É fato. A miséria dos povos em consequência da passagem da Grande Armée tem registros históricos por toda a Europa. Apesar de todas essas atrocidades, entendo – criticam-me por assim pensar -  que o legado de Napoleão está muito acima daqueles ‘deixados’ por Hitler, Stalin, Mussolini ou Franco.

Considerando-se essas misérias e desgraças, não tão diferentes das que as precederam sob os regimes políticos abjectos de Reis e Príncipes da Europa antes de 1789, a ação de Napoleão deu início e propiciou o continuum sobre este continente, relacionado a uma reforma democrática profunda que se embasa através do Código Civil que foi difundido pelos países, chegando aos países árabes e às Américas”. Apenas para esclarecimento ao leitor sobre o “Code Civil des Français” ou “Code Napoléon”, promulgado aos 21 de Março de 1804 por Napoleão Bonaparte, reúne o célebre Código regras que fundamentam o status das pessoas (livro Iº), dos bens (livro IIº) e as das relações entre as pessoas privadas (livros III e IV). Para o leitor que deseja inteirar-se mais profundamente sobre a matéria, há farta literatura, mormente nos sites franceses.

Prossegue Servenière: “Napoleão quis acabar com o Antigo Regime na Europa. Certamente foi ele um dos pais da Europa atual (seu Código Civil baseia-se nos Evangelhos, e o Tratado de Roma seguiu o mesmo caminho), mesmo a se considerar que seu poder temporal tinha todos os quesitos de um imperador romano. Reconhece-se em Júlio César a paternidade da modernidade romana e… europeia, sendo Carlos Magno seu sucessor, o que significaria a primeira ‘moagem’ da Europa ocidental. Poderemos entender ser Napoleão o pai da modernidade europeia, diga-se. Nenhum outro monarca do continente teve durante os últimos séculos tanta influência positiva sobre o que viria após sua morte, em 1821.

Os séculos XVIII e XIX deixaram montanhas de cadáveres através das conquistas… Mas havia o respeito às leis da guerra e ao inimigo derrotado; reconheciam-se bravura e inteligência, Um século após, a influência bolchevista estruturada na teoria marxista, que pregava a eliminação dos povos ‘inúteis’ (balcânicos, ucranianos, judeus, bascos, sérvios, romenos, ciganos…), fez desfilar perante nós os criminosos de guerra dos séculos XX-XXI (Stalin, Trotski, Lenine, Mao, Castro, Pol Pot, Maduro, o Estado Islâmico…). Não há possibilidade de estarem todos esses na mesma foto com Napoleão. Entre o Imperador e eles, há um mundo ao nível da moral e das realizações que perdura positivamente. Napoleão é um rio na nossa história, no qual nos banhamos um dia ou outro. Faz parte de nosso DNA.

Napoleão jamais quis exterminar os povos. Sinceramente pretendia liberá-los com suas ideias fixas militares, a fim de atingir seus fins. Combatia regimes políticos antigos, os Príncipes de linhagem, perversos, depravados, sedentos do sangue e suor de seu povo, as genealogias despóticas que se enriqueciam pelo berço e não pelo mérito. Eis sua invenção republicana: o mérito, a coragem e suas recompensas, a Legião de Honra e a Medalha do Mérito. Queria modernizar a Europa através da força das armas. Não era seu objetivo aniquilar a humanidade. Napoleão era da velha época, cheia de coragem e de honra, se bem que não ignorava nenhuma lei da guerra, de Carl von Clausewitz (1780-1831) a Sun Tzu (544 a 496 a.C.), passando por Maquiavel (1469-1527). Napoleão permanece como um sonho de grandeza, malgrado seus erros trágicos: é sempre invocado como salvação. Assim também foi De Gaulle, quando a Nação Francesa esteve no patamar mais baixo. Na realidade, os europeus reconhecem essa qualidades de Napoleão e sua ambição de elevar os povos da Europa acima das monarquias de direito divino.

Retornando a Berezina, um erro estratégico magistral que foi sem dúvida a Campanha da Rússia, fruto, como sempre, de um gigantesco pecado de orgulho. Napoleão se acreditou muito forte, inteligente, astuto, sutil, seguro de si mesmo. Não querendo ceder em nada face aos monarcas de direito divino, impregnado que estava de seu destino revolucionário e reformista. Napoleão, envergonhado e confuso, entendeu que não poderia ir mais longe. O que ocorreu nessa retirada serve ainda de lição, pois ela é abrangente, a compreender: território, clima, vantagem que os autócnes têm sobre suas terras e a dúvida quanto à proporção numérica que não mais serve em nossos dias. A inteligência estratégica sendo a mãe dos combates ganhos: os islamitas, com 10 terroristas prestes a morrer, fazem maior mal aos inimigos psicologicamente, do que uma bomba atômica. Trump teria compreendido isso ao lançar 59 tomahawks sobre uma base síria e a mais poderosa bomba americana antes das bombas A e H sobre posições do Daesh, no Afeganistão. Para poder tratar após e impor suas regras ao Islam… O futuro próximo dirá!

Sob aspecto outro, os exércitos modernos aprenderam a acumular, bem antes das batalhas, longas ou curtas, rações de sobrevivência, doravante compactadas, ligeiras e otimizadas pela liofilização. Essa é ainda uma lição da Retirada da Rússia, entendida hoje como obrigatória nas Escolas Militares, pois a política da terra queimada ordenada pelo czar Alexandre 1º da Rússia impediu o exército heteróclito de Napoleão de se alimentar em terras percorridas. Erro estratégico, um dos últimos da história, mas que será reeditado por Hitler 130 anos mais tarde na Europa ocidental e na Rússia.

Em França, Berezina é considerada como uma derrota, quando na realidade pode também ser entendida como uma vitória francesa do General Jean-Baptiste Eblé (1783-1812). Berezina está ligada intimamente à Retirada da Rússia, esta sim uma verdadeira Berezina, no senso literal da palavra correntemente utilizada na língua francesa, pois esse episódio impregnou profundamente nossa psique de maneira absolutamente negativa. Representa o símbolo mesmo da derrota, o apogeu do desastre em todos os registros da vida. Não por acaso, a expressão popular francesa ‘C’est la Bérézina’ significa  situação de derrota ou o trágico insuperável.

Eis minhas reflexões após a leitura de seu blog apaixonante sobre tema não menos apaixonante, que nos atingirá a todos se não conseguirmos segurar o touro pelos chifres. As soluções aí estão, mas a classe política, que poderia colocá-las em pauta, não o faz por causa de negócios e também da petromonarquia… Que dizer dos povos? Vencidos antes do combate?

Não sei, mas não cesso de refletir a cada dia. Meus propósitos decorrentes da atualidade não estão fora do contexto. Estaríamos nos preparando para uma nova Berezina? Conhecemos a sequência da história, mas não a decorrência que está por vir… Teriam razão as Cassandras?”. (tradução: J.E.M.)

Resuming the subject of last week’s post, I transcribe today excerpts of an e-mail message from the French composer and intellectual François Servenière discussing positive and negative aspects of Napoleon’s accomplishments and legacy.

 

 

 

 

 

 

Sylvain Tesson en sidecar com Napoleão

Limites da abulia!
Para escapar, leio de tempos em tempos
algum livro sobre Napoleão. A coragem dos
outros nos serve algumas vezes como estímulo.
Cioran
(Cahiers, 17/01/1958)

Sylvain Tesson tem trajetória singular, mas coerente, se entendida no conjunto de sua obra. Daquele vagabond e aventureiro que subia em catedrais pelas paredes exteriores, assim como em frondosas árvores, para  passar dias nas cumeeiras, ao viajante temático que empreende longos percursos, em busca de respostas a tantos fatos e episódios históricos nebulosos, houve um longo percurso. No menu do blog o leitor tem acesso aos títulos dos livros de Sylvain Tesson e às datas em que foram resenhados (Livros – Resenhas e Comentários – Lista).

“Berezina”, de Sylvain Tesson, é livro recente (“Berezina – En side-car avec Napoléon”, Chamonix, Guérin, 2015), no qual episódio desastroso da História da França serve como tema para viagem singular do escritor aventureiro. Tesson buscou realizar o trajeto empreendido pelo Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821) na catastrófica retirada da Grande Armée de Moscou a Paris em 1812. Num Ural, sidecar russo, Tesson e seu fiel companheiro Thomas Goisque, fotógrafo de mérito, realizam, acompanhados a certa distância por outro sidecar pilotado pelos amigos russos Vassili e Vitali, o trajeto longo Moscou-Paris, em pleno inverno. O escritor Cédric Gras, outro amigo, participa de várias etapas da empreitada. Os muitos locais das tragédias são pormenorizados.

Diferentemente de outras aventuras de Sylvain Tesson, menos afeitas às precisões históricas, o autor enfrenta no presente romance um confronto de difícil posição, sem parti pris. O romance é organizado num formato a aparentar um “diálogo” imaginário, confrontando ou reforçando conceitos de acompanhantes que fixaram por escrito a desdita da retirada em 1812 e a posição do viajante de 2012. O autor de “Berezina” interpreta, sob impressões por vezes intensas, o que está a ver e a sentir ao passar por terras eivadas de sepultos ou de seus fantasmas. À medida que o percurso vai sendo transposto a temperaturas sempre muito abaixo de zero, impactos de eventos tenebrosos ocorridos dois séculos antes vão sendo acumulados. Frise-se o reforço dado aos relatos principalmente pelos escritos do general diplomata Armand Augustin Louis de Caulaincourt (1745-1813), fiel depositário de confidências de Napoleão durante a retirada da Russia, assim como os de Adrien Bourgogne (1785-1867), sargento durante a campanha russa. Essas “confissões”, e outras mais dos que vivenciaram a retirada, chegam ao limite da descrição cruenta, mas documentam a história da fatídica retirada. Passam por um crivo arguto de Tesson, que dramatiza, interpreta – colocando-se não raras vezes até como “figurante” imaginário -, pincela com cores ainda mais veementes as cenas das batalhas, o duro convívio entre soldados de tantas nacionalidades envolvidos naquela que foi denominada a Grande Armée.

A escolha dessa aventura de Tesson em pleno inverno, a seguir os passos de Napoleão em sua trágica retirada, acentua ainda mais o papel de seu algoz da Rússia Imperial, o general Mikhail Koutouzov (1745-1813),  derrotado na batalha de Borodino ou Moskova (40.000 soldados mortos contra 30.000 franceses que sucumbiram) durante o avanço da Grande Armée em direção a Moscou (135km), verdadeira vitória de Pirro para o Imperador da França. Koutouzov teria preconizado ao czar Alexandre 1º (1777-1825) que o “general inverno se encarregaria” de dizimar o exército do invasor. Antes da chegada da Grande Armée a Moscou  a cidade fora incendiada por ordem do czar Alexandre 1º (1777-1825), ficando sem víveres e sem a tão esperada conquista napoleônica. Terra arrasada. Imprudentemente, Napoleão e seu exército permaneceram em Moscou de 14 de Setembro a 19 de Outubro, quando foi iniciada a retirada às vésperas do inverno. Conselhos não atendidos de Caulaincourt para o Imperador mostraram-se proféticos. Durante o tenebroso retorno, seria Koutousov que estaria à testa do exército russo, fustigando a retaguarda e as laterais da Grande Armée.

As paisagens gélidas percorridas exatamente há dois séculos pelos soldados de Napoleão e aquelas presenciadas por Tesson  permanecem na imensa solidão das terras submersas sob o peso da densa neve, mas surgem recorrentes durante o texto. Confessa que correr em sidecar russo e antigo a 70, 80 km, no minúsculo anexo da moto e ocupado pelo amigo e fotógrafo Thomas Goisque, lugar do morto, como rezam os conceitos sobre esse posicionamento, fustiga corpo e alma, mas que à noite encontravam quase sempre abrigo em vilarejo ou qualquer outro lugar. Pensa nas muitas dezenas de milhares de infortunados sem quaisquer outras proteções, fustigados pelo frio e vento, apavorados pelos ataques constantes do exército imperial russo, dos cossacos ou dos camponeses, ávidos nessa tarefa de dizimar e enfraquecer o que restava da Grande Armée.

As interpretações de Tesson das narrativas de Caulaincourt ou Borgogne, considerando-se os desafortunados soldados, chega até a retirar do real a força intrínseca do passado, transformando-a tantas vezes, sem concessões na dramatização, em vislumbre mediático. Há que se considerar contudo,  mesmo para um experiente escritor-aventureiro, o impacto das visitações diárias às paragens da catástrofe sobre um cidadão francês. Dezenas e dezenas de milhares de soldados que sucumbiram foram seus compatriotas. Nessa absorção do trágico destino, Tesson enfatiza quase cinematograficamente o canibalismo que realmente existiu devido à extrema escassez de víveres. Cavalos que não mais tinham força para prosseguir eram devorados pelos infelizes combatentes, que ainda se serviam de suas peles para resguardar-se das temperaturas baixíssimas. Num arroubo romântico, Tesson considera a morte de 300.000 cavalos, divididos entre os dois exércitos beligerantes, e afirma: “Vós, Homens, vós falhastes, pois nenhuma de vossas guerras é aquela dos animais”.

Seguir o percurso desta retirada, uma das mais cruentas da História, influenciaria muitas deduções de Sylvain Tesson. Menciona números que têm sido questionados ao longo de dois séculos, mas que de todos os ângulos quantitativos analisados não deixam de impactar: das centenas de milhares de soldados preparados para a invasão, 250.000 morreram em combate ou combalidos pela fome e pelo frio e 200.000 foram feitos prisioneiros. Os russos teriam perdido 300.000 homens. Relembrar esses números é estarrecedor, mormente num espaço temporal de pouco mais de dois meses, a se considerar a retirada desde Moscou até a chegada de poucas dezenas de milhares de soldados, destruídos física e mentalmente, em terras francesas O vislumbre presente de fato aterrador em 1812 emociona o autor e o texto por vezes não camufla esse estado de espírito.

No evento dantesco da travessia do rio Berezina, sempre rumo a leste, o estrategista Napoleão, a fim de salvaguardar seu exército, acuado, sem pontes possíveis, pois os russos e cossacos obliteravam todas as possibilidades de fuga, fez construir duas pontes com incrível rapidez, uma para as tropas, outra para o material de maior peso. A seguir, temendo que os russos pudessem transpor as mesmas pontes, manda destruí-las antes que milhares de soldados franceses pudessem atravessá-las, deixando pois à mercê do exército de Koutosov o fatal destino de infortunados. Com tintas fortes, Tesson “participa” da cena, auxiliado por narradores da era napoleônica.

Por fim, seria o próprio Tesson e seu companheiro Goisque que “abandonam” o que resta da Grande Armée em Vilnus (Lituânia) e seguem doravante caminho velocíssimo de Napoleão, em sua carruagem guiada por vários cavalos e oficiais de elite,  para não ser capturado pelos russos. A fuga, iniciada entre 5-6 de Dezembro, chegará ao fim na noite de 18 do mesmo mês em Paris!!! Nesse retorno vertiginoso, algumas confissões de Napoleão a Caulaincourt são mencionadas por Tesson, nessa participação “dialogal” separada por dois séculos. Tesson divaga em questionamentos imaginários que porventura teriam povoado a mente do Imperador. Entre esses: “Ao menos uma vez, em sua existência, Napoleão teria considerado as perdas humanas senão sob o ponto de vista estatístico? Suas noites foram perturbadas pela visão de um desses cadáveres? Sofreria, no silêncio da noite, por ter aberto as portas da guerra e precipitado nações inteiras no abismo?”

Interpretações sob forte estado emocional corroboram o sucesso do livro? Certamente, mas deixa ao leitor certas dúvidas quanto ao hic et nunc. Seria Cédric Gras, escritor e outro companheiro da travessia, que melhor definiria, sob o aspecto “poético”, essa presença em terras sob as quais dezenas de milhares de soldados da Grande Armée jaziam: “hectares fecundados pelas lágrimas da História, territórios sacralizados por um gesto, malditos pela tragédia, terreno que, pelos séculos, continua a emanar o eco dos sofrimentos emudecidos ou de glórias passadas. Paisagens abençoadas pelas lágrimas e pelo sangue. Aqui, houve uma tal intensidade da tragédia e espaço de tempo tão curto que a geografia não se recuperou. Sim, as árvores surgiram, mas a Terra, ela continua a sofrer. Precisamos olhar esses territórios em silêncio, pois os fantasmas ainda os assombram”.

Tesson traça uma síntese dos feitos de Napoleão a ser considerada. “Se a Revolução reduziu-se a um empreendimento de luta pela liberdade, Napoleão é o coveiro dos princípios de 1789. Seu antiparlamentarismo, seu autoritarismo, seu imperialismo guerreiro o tornam aparentado a César. Mas se a Revolução definiu-se como um combate pela igualdade, o Imperador foi seu mais ardente promotor. A igualdade civil foi sua obra técnica. A igualdade do mérito, sua obsessão moral. Em que outra época da História da França um açougueiro teve tantas chances de se tornar general, mercê de seus talentos? O ideal do heroísmo irrigou o Império em seu início”. Sylvain Tesson evoca Caulaincourt: “O Imperador desejava os caminhos abertos ao mérito, o meio de atingir sem distinção de casta, sem ser parente ou amigo de alguém próximo ou de uma favorita. Todo soldado poderia tornar-se general, duque, marechal; o filho de um camponês, de um mestre-escola, de um advogado, do prefeito, conselheiro de Estado, ministro, duque, essa nobreza não mais chocaria ninguém com o tempo, pois ela recompensaria indistintamente todo o mundo”. Tesson acrescenta “Você poderia se tornar marechal! Não mais era necessário ser bem nascido, bastava ser ardente”.

O autor critica a sociedade atual, entorpecida pelo consumo, as tantas distrações tecnológicas, o comodismo. Não acredita que, hoje, toda uma fantástica legião pudesse se unir a um líder como Napoleão, o Imperador, em causas por ele sonhadas. Afirma: “Ele havia contado alguma coisa aos homens e estes tinham a vontade de ouvir a fábula, de acreditá-la viável. Os homens estão sempre prontos a tudo desde que exaltados e tendo por pressuposto a existência do talento do orador”.

“Berezina” seduz desde o início, mas é necessário ter cautela quanto a determinadas afirmações “históricas”. O romance de Tesson se amalgama às narrativas dos que presenciaram a retirada. Seria possível entender que em alguns momentos estabelece-se uma dúvida quanto a essa fusão pretendida por Tesson. Meritória essa incrível viagem, que se soma às tantas outras ousadas aventuras do autor. Contudo, creio que, para o leitor que tiver vontade de conhecer mais o dantesco episódio da retirada napoleônica, valeria a pena consultar farta bibliografia, mormente  francesa e russa, para possível avaliação dos trágicos episódios, sendo que muitos deles jamais serão conhecidos.

I’ve just finished reading “Berezina”, by the French geographer and adventurer Sylvain Tesson, one of my favorite authors. This time, Tesson retraces Napoleon’s retreat from Moscow in winter with his Grande Armée in 1812, following the debacle of his war against the Russian tsar. While describing his present day (2012) adventure from Moscow to Paris on a motorcycle with a sidecar, Tesson — supported by memoirs written by survivors of the retreat — recalls the tragedy of Napoleon and his men on the same route 200 years ago, a human drama of horror and loss. A fascinating book that does not exclude recommendations for further reading for those interested in the French invasion of Russia.