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Crônicas singelas e envolventes

Há livros que resultam em mais do que livros.
São rituais de um culto centrado em certo pedaço do mundo;
são chamados à vida de pessoas interessantes que morreriam de fato
se não fossem assim evocadas;
são poemas de bem querer ideados com talento e escritos com elegância,
mente clara  e coração acelerado.
Este livro, o de Maria Amélia Blasi de Toledo Piza é um deles.
Hernâni Donato (1922-2012)
(Membro da Academia Paulista de Letras)

Botucatu é cidade que pertence ao meu universo de afetos. Dediquei-lhe posts nesses 11 anos de blogs ininterruptos. Desde 1954 lá me apresento, sempre a ter a renda total dedicada à Vila dos Meninos, obra fundada pelo meu saudoso padrinho de crisma, o ilustre prelado D. Henrique Golland Trindade, arcebispo de Botucatu.

Meu último recital deu-se em 2013, no auditório da Faculdade Santa Marcelina, organizado pela professora Maria Amélia Blasi de Toledo Piza. Ofereceu-me dois livros. Resenhei neste espaço “Botucatu Notas Musicais” (vide blog 02/11/2013). O segundo, “Por que amo Botucatu”, perdeu-se nas minhas estantes. Reencontrei-o ultimamente. De pequeno formato e não caudaloso, acompanhou-me nestes últimos dias. Crônicas amorosas, curtas, a reverenciar a cidade que Maria Amélia tanto ama (Por que amo Botucatu. São Paulo, Scortecci, 2003).

As crônicas, breves, pontuais, com contornos singelos, pueris talvez, retratam fielmente a figura de Maria Amélia, generosa na amizade, estimada pela sociedade local e no meio universitário. Seus trabalhos acadêmicos, dissertação de mestrado e tese de doutorado, versaram sobre os artistas plásticos descendentes do compositor Henrique Oswald. Defendeu-os junto à UNESP.  Magníficos contributos. Abordei essa valiosa contribuição no post mencionado.

“Por que amo Botucatu” está disposto em 67 breves crônicas, nas quais Maria Amélia focaliza situações vividas, mormente na infância e na juventude. Perpassa basicamente as situações possíveis de um cotidiano que se perdeu com o tempo, pois os relacionamentos em todos os níveis mostravam-se diretos, sem subterfúgios. Alguns exemplos desse dia a dia repetitivo retirados da coletânea de crônicas, mas ricos em afetos, merecem ser citados: Zula, uma pagem especial, Os doces da Serafina, A Padaria Esmeralda, Tchocolates, Palanque na praça, Procissão do Encontro, Seu Germano pipoqueiro, A Selaria São José, Retiro espiritual no colégio, A estação de trem, Tradição pianística, Aula de pintura, A banda do Salim, Flores de cerejeira, Professoras de piano, O galinho da  Aparecida, Um Conservatório na cidade, Filmes em casa e tantos outros. Vê-se que Maria Amélia exerce o dom da observação, pois contempla a sociedade como um todo, e o olhar pormenorizado leva à lembrança  reveladora do interior da autora. Dedicar-se-ia à pintura, à música e à vida acadêmica.

Entre as crônicas, a leitura de delicado texto O Thesouro da Juventude levou-me à considerações sobre nossa geração, que sorveu a coletânea com avidez. Abordei em blog bem anterior (vide “Thesouro da Juventude”, 17/10/2009) a rica enciclopédia juvenil e meu apego à coleção que meus pais me ofereceram na adolescência, conduzindo-me a tantas “descobertas” durante a leitura integral  dos 18 volumes. Sob outra égide, com  uma sensibilidade plena, Maria Amélia dedica-lhe uma crônica que ratifica o fascínio que o “Thesouro da Juventude” exerceu sobre  gerações. Transcrevo-a na íntegra, após a autorização da autora:

“Havia um programa que meu irmão Francis e eu gostávamos muito de fazer, embora sofrêssemos por isso: era ir à consulta com o Dr. Júlio Lorenzon. Ele era excelente dentista e morava numa casa à Rua Amando, poucos metros acima do Bosque.

Era uma casa mais moderna do que as que a circundavam, e tinha uma fachada bem art-nouveau, embora fosse colada às vizinhas e alinhada com a calçada. Uma das janelas era do gabinete dentário.

Logo à porta de entrada havia um porta-chapéus, com um ou dois do próprio Dr. Júlio pendurados, que era costume só se sair à rua com paletó de terno, gravata e chapéu. A família dele era composta da esposa, dona Clotilde, e três filhas: Martha, Nazareth e Juilde.

Lá todos gostavam muito de ler, e justamente numa sala anexa havia uma estante cheia de livros, que sempre olhávamos gulosamente de longe, até que dona Clotilde teve a ideia de nos dizer para ler alguns deles, enquanto aguardávamos nossa vez de ser tratados.

Foi assim que passamos pelos contos de fadas russos, alemães, franceses, e quantos mais  estavam lá. Até que um dia pegamos um daqueles volumes encadernados em azul escuro-acinzentado, com o título em dourado: ‘O Thesouro da Juventude’. Sim. thesouro, com h, que a reforma ortográfica era pois recente, e muita gente tinha os livros na ortografia antiga. O livro correspondia a uma enciclopédia de variedades, com informações, curiosidades, jogos, reportagens sobre a vida natural do planeta, extravagâncias de outros povos, contos, lendas de vários países e muito mais. Foi como uma janela, levando-nos do mundo de ficção para outro em que a realidade era a existência de pessoas inteligentes em todas as partes do globo (Quando poderíamos imaginar?).

Quando o Dr. Júlio disse que o tratamento havia acabado, ficamos muito sem jeito, sem coragem de lhe dizer que ainda não conhecíamos nem metade dos volumes da Coleção. Mas aí o Francis apontou a estante e perguntou: podemos voltar para ler? O dentista achou a maior graça, chamou dona Clotilde e combinamos que ela emprestaria um volume por semana para nós, que levaríamos outro quando o primeiro fosse devolvido. Foi a maior festa. A Juilde era minha coleguinha no Santa Marcelina, e também excelente leitora, bem como suas irmãs Martha e Nazareth, que víamos sempre no Colégio. Por isso aquela estante era mesmo uma tentação.

Por muito tempo fizemos essas visitas regulares à estante do Dr. Júlio, até que lemos todinha a coleção. Meu pai procurou em vários lugares de São Paulo, mas a coleção estava esgotada. Alguns anos depois, um viajante da Editora José Olympio passou em casa e mamãe nos fez a surpresa de apresentar uma caixa enorme com a coleção do ‘Tesouro da Juventude’. Pronto, já não tinha o ‘h’, nem a graça que lhe conferia o privilégio de sermos atendidos com tanto carinho pelos dois, o Dr. Júlio e dona Clotilde, abrindo a janela da sala para termos mais luz e escolhermos à vontade o que queríamos ler…”.

Foram várias os livros de crônicas que apresentei ao leitor desde Março de 2007. O gênero é um dos mais agradáveis da literatura, pois apreende a síntese da observação, descrevendo-a, compartilhando-a com o leitor, tornando-o cúmplice. O instante do acontecido desfila no texto, atravessa o tempo e se instala nas poucas páginas que o abriga. Maria Amélia consegue a magia da comunicação e o leitor, brindado, desfruta das décadas vividas pela autora, tendo em acréscimo o privilégio de penetrar no âmago de uma cidade do interior paulista tão rica em tradições. “Por que amo Botucatu” é um pequeno volume, uma joia rara.

My comments after reading the book “Por que amo Botucatu” (Why I love Botucatu), written by the retired university teacher Maria Amélia Blasi de Toledo Pisa. In a series of short narratives, the author recollects events — occurring mostly in her childhood and youth — of her life in the city of Botucatu. I transcribe in full the story entitled “Thesouro da Juventude” (The Treasure of Youth), in which Maria Amélia confirms the appeal this encyclopedia has had to readers of my generation (I’ve already addressed this subject in my blog), allowing us to learn and imagine beyond our immediate and factual environment. On the whole, a delightful book, reminding us that “other times, other manners”.

 


E outras considerações mais

“- Você vê, eu fui filho e depois pai de um ruralista”, diz o velho.
Entre os dois o parêntese de uma vida.
“Na minha infância, vivia-se com quatro ou cinco vacas.
Fazíamos três saint-nectaire por dia. Eles fazem hoje cento e cincoenta”.
Eu não tinha estudos necessários para compreender
a mecânica desses fenômenos,
nem dispunha da pujança intelectual para analisá-los.
Mas pressentia que nosso hóspede levantava um ponto crucial.
O sentimento de não mais habitar o barco terrestre
com a mesma graça proveniente de uma trepidação geral
embasada sobre o crescimento.
Repentinamente ele teve muito de tudo.
Muita produção, muito movimento, energia demasiada.
Em um cérebro, isso provoca a epilepsia.
Na História, denomina-se massificação.
Em uma sociedade, isso conduz à crise.
Sylvain Tesson
(“Sur les Chemins Noirs”)

Não foi exceção. “Sur les Chemins Noirs” despertou atenção por parte de leitores que apreciam o gênero professado pelo escritor-aventureiro francês Sylvain Tesson. Mensagens curtas, mas incisivas, demonstrando interesse por sua vida e obra.

Após confessar que se sentia “imortal” antes do grave acidente que sofreu, há nítida  “guinada” no pensamento de Sylvain Tesson em “Sur les Chemins Noirs”, pois o tratamento literário torna-se mais cáustico, cético e resignado, por vezes com pitadas de humor. Talvez esse ceticismo tessoniano esteja mais voltado àquilo que ele captou na Rússia, pois, “para sinalizar que ninguém se importa com o que acontece, diz-se ‘mnie po figou‘, a acolhida resignada de tudo”.  O pofiguisme (tradução francesa), presenciado em suas andanças pelos solos da Rússia (vide blog “Dans les Forêts de Sibérie”, 01/03/2014), ficaria infiltrado em seus textos anteriores decorrentes das caminhadas ou de estágio prolongado pelo solo russo. O termo, não presente em “Sur les Chemins Noirs”, está contudo impregnado em tantas páginas!

Novamente neste espaço, para meu gáudio, o compositor e pensador francês François Servenière tece comentários de interesse sobre o blog precedente.

“Li com muito interesse seu artigo sobre Sylvain Tesson. A tal ponto que decidi comprar a coleção completa do autor através da Amazon, apesar de já ter lido quatro de suas andanças pelo mundo. A par do talento incomensurável de Sylvain Tesson, deve-se salientar ser ele filho de Philippe Tesson, grande escritor-jornalista, que certamente o apoiou quando do primeiro livro, que obteve muito sucesso. Esse primeiro passo teria sido fundamental. Apesar da juventude da idade madura, Tesson atualmente tem o físico de uma senhora idosa, tão grandes as sequelas do acidente.

Minha admiração por Tesson é enorme. Conseguiu explorações sem paralelo sobre a Terra. A leitura de seu livros é um bálsamo para o coração, frequentemente desencantado, quando em nosso país muitas coisas relevantes são deletadas, como a coragem e o heroísmo, valores profundamente ancorados no meu DNA. Sylvain é um viandante que tem densidade, humor, verdade e uma visão de longo alcance, tão longa quanto as estepes da Sibéria que ele percorreu com a lentidão de suas passadas”.

É bem difícil permanecer leitor de apenas um livro de Sylvain Tesson. Ressaltaria que um dos motivos para que esse fenômeno ocorra é justamente essa noção sincera de uma verdade que ultrapassa o campo ideológico em que legião está mergulhada. O horror à injustiça não surge em seus textos como mensagem panfletária. Nos seus 46 anos, o escritor aventureiro já viveu quantas vidas? Sob outra égide, a admiração pelas suas perfomances não viria dessa nossa impossibilidade física e mental de realizá-las? O paraíso ideal de que me falava décadas atrás o meu saudoso mestre e psicanalista Eduardo Etzel, lugar em que podemos nos refugiar mentalmente em momentos difíceis, não teria paralelo com esses espaços distantes por nós admirados através da façanha do outro, mas que sabemos não poder imitar por tantas circunstâncias físicas, mentais e culturais? Servenière considera que “atingimos nossos objetivos, mas os anos dessa juventude na idade madura estão passando, Fast and Furious, e são eles os mais profícuos da existência. Alguns sonhos de evasão ainda não terminaram pelo fato de ainda estarmos concentrados na direção de nossas vidas. Um dia olhamos para o passado e lá se foram mais de 50 anos… (Servenière completará 57). Menos energia nas pernas, no coração e nos pulmões… Os anos passaram como uma torrente que desce das montanhas. Paradoxalmente, constatamos que Tesson, percorrendo anteriormente todas as grandes distâncias, queimou a vela pelas duas extremidades. Ele mesmo confessaria esse infortúnio após queda  rocambolesca dessa parede de uma casa em Chamonix, justo ele, que na primeira juventude escalou as altas catedrais e subiu frondosas árvores apenas com o auxílio das mãos”.

Antolha-se-me que um futuro incerto, a partir de metas mais econômicas para o combalido físico de Tesson, o fará priorizar o projeto humanitário por ele proclamado nas primeiras entrevistas tempos após o acidente. Resta saber o que pode ser apreendido por humanitário. Se a extensão do termo, mesmo por linhas indiretas, estiver estruturada na denúncia ao descaso não apenas do Estado, mas das empresas e até do comum mortal em tantas ações equivocadas e até predatórias, estará Tesson prestando incomensurável serviço para o bem do homem nessa sua caminhada pela História, na procura incessante de sua humanidade, mormente se considerarmos a penetração ampla do autor junto aos meios de comunicação. É absolutamente plausível que entender a limitação física modifique planos que vão sendo acalentados ao longo da existência. Teria Tesson projetos que foram definitivamente abortados? “Sur les Chemins Noirs” não representará em sua obra o início de um outro olhar, mais interiorizado, mas profundamente enriquecido pelas extraordinárias experiências inseridas em sua já vasta literatura? A observação, dom precioso que é indelével basicamente em todos os parágrafos de seus livros, onde não faltam inúmeras metáforas que levam à reflexão, e que é umas das qualidades de notáveis mestres russos como Dostoievsky e Moussorgsky, na literatura e na música, respectivamente, não é uma das características essenciais de tantos outros luminares russos pertencentes a uma cultura que Tesson tanto admira?

A atração que desperta sua literatura não atenderia ao leitor que tem consciência de uma decadência social, cultural, reflexiva e moral da sociedade atual, prenhe de fanatismos ideológicos, religiosos e de outras mais ordens? A corrupção e o descaso no mundo ocidental tornaram-se rotineiros e seus praticantes pertencem à parcela dirigente do planeta, que contamina tantas áreas da sociedade. O leitor das obras de Tesson bem entende que, nesses longos silêncios e solidão com os quais o autor se viu obrigado a conviver graças às suas escolhas, os  conceitos maturados pelas circunstâncias o conduziram à descrença nas ações das autoridades, tantas vezes agindo com intenções estranhas. Não em “Chemins Noirs”, mas em outras plagas planetárias, como nas fronteiras da Índia ou do Irã e em outras barreiras impostas pelos países, Tesson sofreu por vezes cerceamento e até prisões como viandante ao atravessar marcos divisórios. A visão que depreende do autoritarismo elementar, multum in minimo, estendendo-se aos dirigentes de países, tem uma mesma frequência em seu pensar. O grito, nesses “caminhos negros” basicamente abandonados, é escutado por todos nós. Lembramo-nos de imediato do descaso do Estado pelas terras desassistidas percorridas por Tesson, aplicável também em nossas plagas em maiores proporções, neste caso a atingir frontalmente a desassistência ao povo negligenciado.

“Sur les Chemins Noirs” representaria para Tesson motivo de reorganização quanto ao rumo a seguir doravante, assim como uma possível reconstrução de um sem número de conceitos físicos e mentais, aqueles a limitar o esforço e a considerar a abstinência alcoólica, estes a entender que a lentidão pode ser, paradoxalmente, um veículo para a eclosão de tantas outras observações. “Sur les Chemins Noirs” não deixa de ser um apelo que não será escutado pelos poderosos, mas pelo leitor atento. O livro é quase um culto à nostalgia e uma crítica à modernidade em aceleração desenfreada. Um fato, contudo, traz para o leitor uma surda alegria, pois Sylvain Tesson não desaprendeu a gostar das longas caminhadas. Outras virão, esperamos.

Further thoughts on the book “Sur les Chemins Noirs” by Sylvain Tesson, this time including comments received from the French composer François Servenière, like me a great admirer of Tesson’s writings.

 

 

Sylvain Tesson e os caminhos esquecidos da França

Atravessar vilarejos dava a impressão de passar em revista fachadas a meio mastro.
O que não estava fechado estava à venda,
o que estava à venda não encontrava comprador.
Os monumentos aos mortos levavam nomes gloriosos e
até os habitantes vivos vagando pelas ruas
bem poderiam se juntar à lista.

Sylvain Tesson
(“Sur les Chemins Noirs”)

Ao longo de treze livros resenhados neste espaço desde Maio de 2011 (vide menu “Resenhas e comentários – Lista”), a leitura de “Sur les Chemins Noirs” acentua determinadas constantes no pensamento de Sylvain Tesson, agregando outras, tangíveis após o grave acidente que sofreu em Agosto de 2014, ao cair de uma altura de 8-10 metros escalando as paredes da casa de um amigo em Chamonix. Esteve em coma durante bom tempo, sofreu várias fraturas, permanecendo indeléveis resquícios, sobretudo em seu rosto. Confessaria que “foi um acidente estúpido, sentia-me imortal”. Bem ele, que percorreu o mundo a pé, de bicicleta ou de moto, viveu tantas peripécias “no fio de uma lâmina” e viria a sofrer acidente prosaico nessa queda que deixou tantas sequelas.

“Sur les Chemins Noirs” (Paris, Gallimard, 2016) apresenta um caminho mais “modesto” de Sylvain Tesson, naquilo que ele mesmo confessaria nas primeiras entrevistas após o grave acidente, ao propor direcionamento mais humanitário a partir da queda brutal. O escritor aventureiro se propôs atravessar a França, percorrendo-a em linha diagonal sinuosa, no sentido sudeste-noroeste, não através das auto estradas ou de outras vias pavimentadas, mas orientando-se pelos caminhos negros, também chamados de routes jaunes, em terra batida, de pedras ou apenas trilhas. Descreve-os como “caminhos banhados de puro silêncio, miraculosamente vazios”. Durante o longo trajeto não negligencia ferrovias desativadas. Distanciou-se durante todo o percurso das cidades maiores, pois interessava-o aprofundar-se nesses espaços ruralistas, tantos deles ainda vivendo à la manière dos séculos anteriores.

A longa viagem pelos caminhos negros o faz inteirar-se dos costumes, hábitos, desconfianças e mutismo desses personagens rurais perdidos em seus rincões e tendo acesso ao pequeno povoado, onde não faltam os ingredientes atávicos, o café, a barbearia, a quitanda e os prestadores de serviços. Quando dialoga com o homem rural, fá-lo sempre de maneira curta, sem qualquer ligação de mínima intimidade. Para o leitor que acompanhou as longas viagens de Tesson pelo planeta, sente-se que o contato com outros povos, da Rússia e da Ásia Central, como exemplos, são bem mais humanos. Seria possível entender que nessa empreitada – possivelmente devido aos problemas faciais – a inseparável flauta, tão presente em vários livros como elemento primeiro comunicante com o próximo, estivesse ausente. Ficaria a impressão, pode parecer paradoxal, de que Tesson teria maior prazer no contato com essas etnias tão distantes do nosso conhecimento. Esse “cartão de visitas” sonoro, tantas vezes mencionado em narrativas anteriores, que encantava os moradores dos yurts (tenda redonda mongol) espalhados pela vasta planura da Mongólia, assim como habitantes de outras regiões longínquas,  desaparece em “Sur les Chemins Noirs”. Estou a me lembrar de dedicatória de Sylvain Tesson a uma pergunta que lhe formulei em manhã de autógrafos em Paris aos 12 de Janeiro de 2014: “O único momento em que não sou melancólico é quando escuto música triste, que se encarrega do fardo de minha pena”. Sete meses após, sofreria o acidente. O sonoro flautado inexiste como elo durante toda a travessia pelos caminhos negros, assim como qualquer traço de entusiasmo, mesmo quando amigos, isoladamente, com ele se encontravam para caminhadas durante poucos dias.

O ruralismo francês, cortado por esses chemins noirs, põe à mostra o descaso do Estado e a volúpia das empresas que, ao se interessarem por algum rincão, trazem o “progresso”, destroem tradições e têm interesses tantas vezes estranhos. Como arguto observador, não deixa de notar os animais domésticos, basicamente familiarizando-se à distância. Essas observações, paradoxalmente, excluem o pormenorizar lugares percorridos, não havendo qualquer vestígio de uma interpretação turística. Se tantas vezes a natureza o impacta, essa é anônima, perdida em um desses chemins noirs. Sob outro aspecto, fica mais evidente, nesse corte dos extremos do território francês, sudeste-noroeste num sentido longitudinal, um possível menor envolvimento com a geografia em comparação com as narrativas anteriores. Seria possível supor que atravessar sua França, país do chamado primeiro mundo, a observar a precariedade dos caminhos, das casas esparsas, da desassistência do Estado, do mutismo do homem rural desesperançado frente ao “progresso”, tenha provocado em sua mente um recrudescimento de aversão aos avanços em quase todas as áreas e o desprezo pelas elites. O pensamento de Tesson, nesse caminhar, mergulha nos tempos da idade da pedra até os feudais, tempos imóveis, segundo ele. O progresso sem controle fá-lo refletir sobre a velocidade dos acontecimentos, pois “a ode à ‘diversidade’, à ‘troca’, à ‘comunicação do universo’ surgia como o novo catecismo dos profissionais da produção cultural na Europa”. O observador verifica as consequências em torno dessa volúpia para que as coisas aconteçam: “os vales se viram afligir pelas grandes auto-estradas, as montanhas pelos túneis, o azul do céu pelas linhas brancas dos longos voos. A paisagem tornou-se uma decoração de passagem”. Verifica, ao percorrer vilarejos, “a presença de frutos e legumes tropicais na mais modesta quitanda”. Coloca uma questão nessas elucubrações sobre a mundialização: “por que não aceitamos que um ladrão de maçãs se introduza num pomar e por que permitimos que uma manga do Brasil reine numa quitanda d’Ardèche? Onde começa a infração?”. Comenta com certa dose de humor: “E interessei-me por uma inovação instalada em frente à Igreja: uma ‘máquina distribuidora de pães’ substituía a padaria. Um euro depositado na fenda e lá vinha a baguete. A máquina foi vandalizada. Moralidade à francesa: quando falta pão, o povo se revolta; quando faltam padeiros, ele quebra as máquinas”. Com quase resignação: “A ruralidade instituiu-se como princípio de resistência a toda empolgação. Escolhendo o sedentarismo, criou-se uma ilha no fluxo. Aprofundando-se nos caminhos negros, navegamos de ilha em ilha. Há um mês eu abro caminho no arquipélago”.

Alguns aspectos extraliterários devem ser abordados. Após o trauma sofrido, a lenta recuperação o obrigaria a uma intensa fisioterapia. Contrariando recomendações, o escritor aventureiro preferiu andar e atravessar o território francês. Diversamente dos livros anteriores, são inúmeras as menções de Tesson ao cansaço, às longas caminhadas. Constantes as lembranças do trauma sofrido. A narrativa não o esquece e praticamente todas as sequelas são homeopaticamente distribuídas em “Sur les Chemins Noirs”, de maneira por vezes pungente. O inveterado amante da vodka e das longas caminhadas, com estágio como “eremita” no lago Baikal, confessa: “Bebi para toda a vida nesses últimos anos, afogado nas caravanas de lembranças dos rios de vodka. Presentemente, acabou! A torneira mágica fechou”. Em outra menção, tem-se: “Foi-me proibido o vinho, mas eu podia ainda embebedar-me do vazio”. Rememora as décadas como viandante: “vinte anos nesse jogo sobre cumeeiras para, hoje, caminhar como uma idosa”. Durante o longo percurso, uma irônica observação, após ter dormido em um mosteiro: “Enriqueci-me com os 20 euros que recebi no mosteiro, pois uma velha senhora teve piedade ao ver meu rosto desfigurado: ‘Reze uma missa, para quem você quiser’, e lembrei-me de minha mãe, que jamais me teria feito tal pedido”. Encharca-se de medicamentos que o afligiam: “Acrescentaria as doses de colchicine para as complicações cardíacas e os produtos para atenuar as dores nas pernas. Incendiei minha vida, queimei as veias, dei um salto para escapar do incêndio e agora arrasto-me sobre os caminhos com uma inflamação geral que a medicina controla”. Jocosamente comenta: “tentemos não cair no rio, pensava eu passando por uma ponte, isso evitará à região uma poluição química”. Praticamente todas as partes do corpo afetadas pela queda em Chamonix são contempladas. A audição diminuiu e comenta noite em pequeno hotel onde, durante o jantar, a televisão estava em alto volume: “A vantagem da meia surdez está no fato de já termos o volume reduzido”.

O ataque epilético, nunca tratado em livros anteriores, pode ter sido provocado pelo traumatismo crânio-encefálico (TCE). Se o mal fosse anterior, creio que Tesson não teria permanecido meses, em pleno inverno, sozinho numa cabana siberiana (vide blog: “Dans les Forêts de Sibérie- Reflexões em cabana isolada na margem ocidental do lago Baikal”, 01/03/2014). Refere-se com naturalidade ao episódio. Estava Tesson a almoçar com amigo no alto de uma montanha quando lhe veio à mente a vontade de morrer: “era uma mancha negra que invadia o ser como a tinta de um choco escurece a água do mar”. Lembrar-se-ia, ao voltar a si, “era a epilepsia, o mal negro, e as fraturas de meu crânio favoreciam essas crises”.

À guisa de conclusão, Sylvain Tesson se posiciona: “Toda longa marcha tem lá seus ares de salvação. Colocamo-nos a caminhar, avançamos a buscar perspectivas nas dificuldades, evitamos os vilarejos. Encontramos abrigo para a noite, recompensamos em sonhos as tristezas do dia. Elegemos a floresta como domicílio, dormimos embalados pelas corujas, partimos pela manhã eletrizados pela empolgação da mata crescida, vislumbramos cavalos. Encontramos homens rurais mudos”. (tradução: J.E.M.).

Se, sob um aspecto, “Sur les Chemins Noirs” mais profundamente revela que os efeitos traumáticos tiveram influência na narrativa, sob outra égide o autor revela seu de profundis -  não falta um  sentido poético na narrativa -, justamente a percorrer seu território natal. Se desaparece o surdo prazer, palpável nas viagens anteriores, possivelmente a decepção ao verificar precariedades e o desinteresse do Estado, nessas bucólicas mas desprezadas terras, tenha aflorado “sentimentos” ocultos em tantas obras anteriores. Faz-me pensar no extraordinário ciclo de melodias de Modest Moussorgsky, “Sans Soleil”.

Sylvain Tesson iniciou o percurso pelos “Chemins Noirs” aos 24 de Agosto, chegando a termo aos 08 de Novembro de 2015.

In his book “Sur les Chemins Noirs” French adventurer, writer and geographer Sylvain Tesson walks across France from Southwest to Northwest  following the Chemins Noirs (black paths), the unmarked ancient routes of men and animals or abandoned railways, reflecting on government’s disregard for citizens’ needs, the greed of large corporations under the pretext that rural areas need to be “incorporated into modern France” and repeated mentions of the accident he suffered in 2014 (a ten-meter fall during roof-climbing) that took a heavy physical and mental toll on him. Also a philosopher, the 76-day adventure is a chance for Tesson to muse over issues such as nature, modern society and his impulse to challenge death.