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Narrativa do compositor e tributos a ele prestados

Gosto de gostar de tudo,
de viver a música em toda a sua plenitude de significados.
Me proibir, por razões ideológicas de grupo,
de gostar de uma coisa de que na verdade eu gosto, jamais!
Gilberto Mendes

Gilberto Mendes (1922-2016) foi um de nossos mais importantes compositores. Absolutamente aberto às tendências, percorreu-as conscientemente, mas sempre a deixar em suas composições as impressões digitais, marcas inalienáveis que evidenciam o talento autêntico e a seriedade de propósitos. Estivemos ligados por laços indestrutíveis de amizade desde os tempos de meu ingresso na Universidade de São Paulo em 1982 até sua morte em 2016. Nas fronteiras dos setenta anos, que indicariam sua aposentadoria, insisti para que escrevesse uma espécie de autobiografia musical, a resultar numa extraordinária defesa de tese de doutorado na qual tive o prazer de estar presente como membro da banca examinadora. O texto, com alguns ajustes, foi publicado e teve excelente guarida (“Uma Odisséia Musical – Dos mares do sul à elegância pop/art déco”. São Paulo,  Edusp, 1992). Vieram ao longo outros livros, nos quais Gilberto Mendes narrava suas aventuras musicais, opções estéticas, amizades conquistadas pelo mundo e Santos, sempre Santos, a sua cidade mágica.

Tardiamente penetraria nas narrativas idealizadas, pois seu espírito criador voltava-se aos personagens abstratos que povoavam sua mente, mas não desprovidos de nebulosas identidades. Seu livro “Danielle em surdina – Langsam” foi promissor impulso aos 91 anos (vide blog: “Danielle em surdina, Langsam”, 06/04/2013). Pouco antes do desenlace escreveu “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges”, publicado postumamente com a elucidativa apresentação de Ademir Demarchi (Santos, Realejo, 2019).

Os curtíssimos episódios dessa última publicação revelam compartimentos essenciais da personalidade de Gilberto Mendes, a realidade e a ficção. Mesclá-las, eis o objetivo alcançado. Gilberto está presente nessa autoficção sem se nomear; capta período preocupante para um grupo de militantes do Partido Comunista e Ramiro seria seu pseudônimo. À maneira de um Dostoievsky, autor que ele tanto admirava, Gilberto observa. Esteve na militância durante cerca de 20 anos e, com o advento da “Revolução” de 1964, jogou todo o material que possuía no mar de sua Santos, seu porto seguro.

Acompanhar essas brevidades é compreender que as reuniões para discussão de temas afins ao Partidão tinham igualmente outras finalidades, pretexto para conquistas amorosas regadas, por vezes, por generoso vinho. Várias classes reunidas, aqueles pertencentes à burguesia em seus matizes, os decantados “intelectuais”, assim como os portuários seguidores das cartilhas que vinham do leste europeu. Nessas reuniões havia sempre o receio de serem flagrados, mercê da ilegalidade, mas as discussões corriam soltas sobre temas concernentes à estrutura daquele núcleo, às doutrinações marxistas, aos debates sobre arte e literatura. A certa altura os temas voltaram-se igualmente à encenação de peça teatral e vários participantes encontravam nos ensaios momentos de autovalorização.

Para os que tiveram o privilégio de conviver com Gilberto sur le tard a narrativa tem uma cativante apreensão dessa participação do autor, quase sempre como um observador irônico, por vezes com fino humor, traços inalienáveis de Gilberto. Sendo “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” uma visitação às décadas longínquas vividas sob o ímpeto de uma juventude na idade madura, inserir um caso amoroso, “paixão arrebatadora”, entre o principal articulador, Rodrigo, e uma bela e misteriosa frequentadora, traria à pena de Gilberto um frescor narrativo nos seus mais de 90 anos. Não estaria o compositor a se divertir ao recordar e também dando asas à fértil imaginação?

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes, Sonatina à la Mozart (1951), na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4

Na nonagésima década, a ironia gilbertiana estaria implícita nesse tratamento em que, ao não penetrar no âmago da doutrinação partidária, menos voltado aos fundamentos do núcleo do Partidão que deveriam ser a essência das reuniões, confere aos vários participantes da trama interesses tão alheios, com exceções. Meio século após, apesar de sempre ser simpático às teses da esquerda, assim como foi aberto a tantas tendências composicionais, Gilberto não tinha o menor pendor para o fanatismo ideológico e nos deixou uma grande lição nesse sentido. “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” é um exemplo.

Flávio Viegas Amoreira é escritor, poeta e jornalista. Em sua profícua atividade teve a grata ideia de homenagear Gilberto Mendes com um “esboço”, como ele bem afirma, de uma biografia almejada para 2022, ano do centenário do compositor. Literato, buscou concentrar nas páginas de “Gilberto Mendes – notas biográficas” (Santos, Imaginário Coletivo, 2021) as relações intensas do músico com poetas e escritores, contemporâneos ou não. Seis “prefaciantes”, em breves e precisas palavras, testemunham a admiração pelo homenageado, apreendendo facetas características do imenso Gilberto Mendes: Charles A. Perrone, “Concertos novo-musicais!”; Luiz Zanin Orichi, “O espírito livre de Gilberto Mendes”; Carlos Conde, “Um perfil (também) humano”; Edson Amâncio, “Gilberto Mendes”; João Carlos Rocha, “Carta a Gilberto”; Madô Martins, “Cabelos Brancos”. Essas expressivas apresentações dimensionam a proposta de Flávio Viegas Amoreira e enriquecem suas “notas biográficas”. É um outro olhar sobre o compositor, a evidenciar seu direcionamento voltado igualmente à literatura, à poesia em especial e ao cinema. Gilberto me confessaria que suas idas semanais para assistir aos filmes que escolhia levavam-no ao encantamento desde o instante em que, sentado ao lado de sua esposa Eliane, “que se tornou uma segunda mãe”, segundo Gilberto, as luzes se apagavam paulatinamente e os toques sonoros criavam o clima necessário.

As “notas biográficas” de Flávio Viegas Amoreira têm significado amplo. Fixa período fulcral na formação de Gilberto Mendes: “Aquele período, entre 35 e 40, foi ápice da década ideológica e concomitante ao período de formação estética de Mendes: geração inoculada com brilho de Hollywood mesclado ao cinema alemão, ainda não contaminado pelo nazismo, o advento do mercado editorial brasileiro com traduções de Freud, Mann, Brecht, o conhecimento dado aos trópicos de Fernando Pessoa, Marcel Proust, todos experimentos tributários de James Joyce, os romances de gozo e fruição de Somerset Maugham, Charles Morgan e a prosa conceitual de Chesterton e Audous Huxley, sem falar no onipresente Joseph Conrad”.

Entendê-lo nesse labirinto literário-poético, onde há o olhar atento de um cinéfilo absoluto, é missão complexa, assim como o foi no caso de Claude Debussy, que apreendeu um universo de tantas tendências antes de pender para o simbolismo sem o qual, apesar de certamente não explicar Debussy, não se pode compreender a formação de sua linguagem. Quantos não foram os poetas por ele visitados em suas sublimes Mélodies? Gilberto percorre esse caminho a abraçar tendências outras ao concretismo por ele tão fequentado. Amoreira comenta: “Sempre senti tão gêmeos o trabalho do poeta com o do compositor: extraímos do nada, absolutamente nada mais do que qualquer outro artista, pura entrega de alma para almas laçadas por uma perícia inconsútil e invisível. No começo o compositor nasceu poeta mesmo sem o poema escrito”. No caso das Proses Lyriques (1892-1893) de Debussy, o compositor seria o autor dos poemas. Louis Laloy, primeiro biógrafo de Debussy, escreveria em 1909 que “as mais aproveitáveis lições não lhe vieram da parte dos músicos, mas de poetas e pintores”. Se Flávio Viegas Amoreira assinala até o “autodidatismo” de Gilberto Mendes, a visão aberta ao mundo, fruto em parte dessa visão marítima de sua Santos tão amada a partir do fluxo de navios com todas as bandeiras, a diversidade da escolha dos poetas de correntes tão diversas atenderia à essência essencial do compositor, voltada ao universal.

Na substanciosa narrativa de Amoreira, após mencionar frase de Gilberto “Toda a arte é boa, está acima de critérios de qualidade”, lembrar-se-ia de frase de Schoenberg, transmitida ao seu amigo Robert Gerhard após ouvir o concerto para piano e orquestra de Grieg “Esta é a espécie de música que eu realmente gostaria de escrever”. Flávio Viegas Amoreira completa: “A música de Grieg, certamente um compositor menor, para os ‘classificadores’ implacáveis”. Essa arguta observação me faz recordar de um episódio que se deu em minha sala de aula na USP. Estava a tocar o 4ª Noturno de Gabriel Fauré quando Gilberto adentra, ouve até o final e me diz serenamente: “Daria toda minha obra em troca desse Noturno”. Lição de humildade vinda de um imenso músico! Em conversa recente com Eliane Mendes, disse-me ela que mais de uma vez Gilberto mencionou esse episódio.

Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, o 4ème Nocturne de Gabriel Fauré, na interpretação de J.E.M.:

https://embedy.cc/movies/UmMrbjZ3RFBhb24xb2VTa3NQOS8zaHpVWHFnSDErMkhEZERKZGUxODNxOD0=

Amoreira desfila em sua narrativa, nas passagens pertinentes, incontável lista de escritores, poetas, compositores, artistas plásticos e de teatro, amizades outras que trazem à luz o universo de Gilberto. Impressiona a abrangência de um músico interessado em todas as manifestações culturais e “políticas”, mantendo-se sempre solícito com todos que o procuravam. Observa: “Admirei de longe, desde sempre, Gilberto Mendes como uma celebridade artística nacional, pelas ruas de Santos em minha juventude, frequentando cinemas de mãos dadas com Eliane, caminhando pela praia… Sabia ser ele na música algo que eu gostaria de seguir na literatura: alguém entregue todo tempo ao seu ofício sagrado de criador”. Gilberto Mendes adaptou vários poemas do autor de “notas biográficas” para seu sinfônico “Alegres Trópicos, Um Baile na Mata Atlântica”.

Nesse contato permanente na cidade amada pelo músico e o poeta, uma frase de Flávio Viegas Amoreira evidencia algo não raro entre os tantos compositores sur le tard: “Mas também pude testemunhar seu desencanto com desvios da esquerda brasileira, sua preocupação ecológica crescente com destinos da Amazônia e o chorar com desastres como o de Mariana. Tinha perdido muitas  ilusões, mas ainda resistia por uma utopia muito particular de criação e motivação dos jovens”.

O centenário de Gilberto Mendes se aproxima. Certamente haverá uma série de tributos a ele prestados. Urge realizá-los.

In two recent publications, Gilberto Mendes is revealed in significant aspects of his life and work. In a short novel, Gilberto writes an autofiction depicting a tumultuous period in the 1960s, a narrative not devoid of humor. In a second book, writer, poet and journalist Flávio Viegas Amoreira provides biographical notes of great interest. As a friend of Mendes, he penetrates his poetic/literary universe, apprehending the composer’s choices. Next year we will celebrate Gilberto Mendes’ birth centennial.

Um dos nomes mais relevantes da musicologia no século XX

Poucas personalidades puderam e souberam
conduzir, como ele, várias carreiras
ou atividades paralelas enriquecendo-se mutuamente,
sendo as principais, de um lado,
a função de curador na Bibliothèque Nationale
e a de professor do ensino superior,
e, sob outra égide,
as atividades de musicólogo e de bibliógrafo,
para nos limitarmos ao essencial.

Catherine Massip

Há exatamente 20 anos, 21 de Junho, a França perdia um de seus mais notáveis musicólogos e bibliógrafos. A lembrança de François Lesure faz-se necessária neste espaço, pois sou-lhe eternamente grato. Foi ele que, ao conhecer minhas pesquisas e interpretação de toda a obra para piano de Claude Debussy, propiciou-me aberturas fundamentais em torno do imenso compositor. Abriu-me inclusive, como Diretor de Música da Bibliothèque Nationale, o estudo de toda a criação pianística de Debussy através dos manuscritos originais, experiência fulcral para aprofundamentos. À medida que as pesquisas prosseguiram, por três vezes convidou-me para palestras na École Pratique des Hautes Études em Paris, assim como para escrever, ao longo dos anos, artigos para os “Cahiers Debussy”, publicação do Centre de Documentation Claude Debussy, por ele criado.

Essa premissa faz-se necessária. Rememorar François Lesure é descortinar uma mente privilegiada, brilhante, plena de sabedoria e de generosidade para com todos aqueles que, imbuídos de propostas pertinentes, procuravam-no na Secção de Música da Bibliothèque Nationale, Rue Louvois, nº 2. Foi um grande privilégio privar de sua amizade.

François Lesure foi certamente uma das figuras mais significativas da cultura musical em França, quiçá a mais enciclopédica, na segunda metade do século XX. Tendo estudado na Sorbonne, na École Pratique des Hautes Études, École de Chartes e no Conservatoire de Paris, legou nas duas Escolas mencionadas teses referenciais sobre a feitura instrumental (1948) e os instrumentistas (1950) na Paris do século XVI. Em 1954, como secretário do Repertoire International des Sources Musicales (R.I.S.M.), François Lesure seria determinante na elaboração de catálogos, mormente três (1960, 1964 e 1971), que repertoriam do século XVI ao XVIII. A dedicação à vasta produção da música antiga ocuparia parte das investigações de François Lesure. Saliente-se a colaboração efetiva de sua esposa, Anik Devriès-Lesure, na edificação dos dois volumes do “Dictionnaire des éditeurs de musique français”, que abrange dos primórdios da atividade até 1914.

Posteriormente, o musicólogo estaria na direção de publicações da coleção “Le Pupitre”, com música dos séculos XVII-XVIII (Paris, Heugel, Leduc), assim como da coleção “Patrimoine”, que privilegia compositores franceses relevantes nascidos no século XIX (Paris, du Marais). Da primeira, presenteou-me com a edição das obras de Jean-Philippe Rameau (1683-1764) para cravo (Paris, Heugel. “Pupitre”, coleção de música antiga publicada sob sua direção. Edição crítica de Kenneth Gilbert) e com o “Traité de l’Harmonie” do genial compositor (France, Klincsiek, 1992, fac simile do exemplar conservado na Biblioteca da Sorbonne. Nota bibliográfica de François Lesure), essenciais para a minha gravação da integral ao piano em Sófia, na Bulgária, em 1997 e lançada em dois CDs pelo selo belga De Rode Pomp com texto do encarte assinado pelo ilustre musicólogo.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Les Niais de Sologne”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=xdKjHjNx700

Seria em 1950 que François Lesure entraria no Departamento de Música da Biblioteca Nacional da França e, entre 1970 e 1988, diretor do Departamento. Como professor de musicologia lecionou, de 1964 e 1977, na Universidade Livre de Bruxelas, sendo que em 1977 sucedeu a Solange Corbin (1903-1973) na cadeira de musicologia da École Pratique des Hautes Études. Presidiu a Société Française de Musicologie entre 1971-1974 e 1988-1991. François Lesure foi responsável pela organização de exposições junto à Biblioteca Nacional e alhures. Uma delas teve relevo especial, “Debussy et le symbolisme”, na Villa Médicis em Roma, onde o compositor, após receber o Prix de Rome no Conservatório de Paris, estagiou entre 1885-1887. Recordo-me que François Lesure situava Debussy nessa atmosfera simbolista, rejeitando o termo impressionista. Para tanto, disse-me ele que, naquela Exposição, colocara embaixo das escadas, com pouca visibilidade, um pequeno quadro da escola impressionista, apenas para evidenciar a diminuta influência.

Especialista referencial da música a partir do século XVI, estudando aprofundadamente manuscritos editados ou não, repertoriando, catalogando, nessa importante via de elaborações bibliográficas, François Lesure teria uma relevância absoluta na edificação das fontes relacionadas, mormente as referentes a Claude Debussy. Inquestionavelmente, posicionou-se como o mais abrangente pesquisador nos estudos relacionados ao notável compositor francês na segunda metade do século XX.

Afirmaria em entrevista à Rádio USP-FM, São Paulo, aos 9/10/1997: “Houve uma mudança de rumo quando se deu o centenário de Claude Debussy em 1962. Já estava na Bibliothèque Nationale e, nessa instituição, há o hábito de celebrar os grandes centenários através de catálogos e exposições. Nesse ano entrei pois pela primeira vez, de uma maneira focalizada, no mundo debussista”. Em 1971 foi o responsável pela edição de “Monsieur Croche”, edição da obra crítica de Debussy (Paris, Gallimard), republicada pela mesma editora em 1987 numa edição revista e aumentada. Em 1977 é publicado o “Catalogue de l’oeuvre de Claude Debussy” (Genève,Minkoff) e, já no início da introdução, Lesure afirma que “todos os catálogos são provisórios”. A essa altura, François Lesure se preocupava não apenas com a biografia, como também com a seleção da vasta correspondência de Debussy. Quanto à primeira, posiciona-se Catherine Massip ao considerar a biografia de Debussy depositada em dois livros — “Claude Debussy avant Pelléas ou les années symbolistes” (Paris, 1992) e “Claude Debussy: biographie critique” (Paris 1994) – como “a melhor biografia de Debussy atualmente disponível”. Aliás, biografia não superada até o presente, apesar das precedentes obras de Léon Vallas (1879-1956) e Edward Lockspeiser (1905-1973), entre tantos outros que se dedicaram ao difícil mister. Quanto à reunião da correspondência de Debussy, Lesure empreendeu um trabalho de longo fôlego, inicialmente introduzindo imagens nas duas obras da década de 1970, “Claude Debussy – iconographie” (Genève, Minkoff, 1975) e “Claude Debussy – Lettres” (Paris, Hermann, 1980). Desse período até a publicação de “Claude Debussy – Correspondance – 1884-1918” (Paris, Hermann, 1993), dezenas de outras missivas manuscritas seriam divulgadas (vide blog: “Claude Debussy e a atividade epistolar”, 11/01/2020). François Lesure continuava a pesquisa com vistas à publicação da correspondência completa – provisória, se considerada sua opinião sobre catálogos, quando vem a falecer aos 78 anos, em 2001. O trabalho hercúleo de François Lesure seria completado pelo seu ex-aluno Denis Herlin juntamente com Georges Liébert (Paris, Gallimard, 2005). Ainda no universo de Debussy, Lesure foi o criador e supervisor da edição crítica da obra completa de Debussy pela Durand-Costallat, com muitos volumes já publicados, mas em andamento há décadas.

Durante as várias viagens a Paris para pesquisas relacionadas a Debussy, destaco a importância de Myriam Chimènes, a quem François Lesure confiou, a partir de 1984, a responsabilidade do “Centre de documentation Claude Debussy” por ele criado, convidando-a a fazer parte do comité de redação da Edição crítica das obras completas de Claude Debussy, acima mencionada. François Lesure foi seu orientador da tese de doutorado, a ter como tema “Khamma, ballet de Claude Debussy, Histoire et Analyse” (Université Paris IV, 1980).

No próximo blog abordarei as três viagens de François Lesure ao Brasil (1988, 1990, 1997) para conferências, entrevistas, avaliação do Departamento de Música da Universidade de São Paulo e participação em banca de livre-docência na mesma instituição.

François Lesure, bibliographer and one of the leading musicologists of the 20th century, passed away twenty years ago. Professor at the École Pratique des Hautes Études and curator of the Music Department of the Bibliotèque Nationale in Paris (1970-1988), François Lesure specialized first in 16th and 17th centuries music and later in Claude Debussy. His researches, which resulted in fundamental books, place him as the most representative scholar on the French composer in the second half of the 20th century.

200 casos verídicos narrados por Jorge de Souza

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de navegar
Sobre as ondas azuis o nosso pensamento!
Miguel Torga
(“História Trágico-Marítima” – Alguns Poemas Ibéricos, 1952)

Na adolescência fascinavam-me os livros de biografias e as aventuras reais. Meu saudoso pai incentivava as histórias de figuras que permaneceram na história, pois as entendia como exemplos norteadores. As epopeias e grandes aventuras pouco a pouco também preenchiam minhas estantes. Marcas indeléveis permaneceram. Nos blogs, que remontam a Março de 2007, há inúmeros livros que, após leitura, resenhava ou comentava, mormente os relativos à cadeia de montanhas do Himalaia e seu pico maior, o Everest. Com a “vulgarização” das subidas ao pico, movidas por organizações especializadas nesse mister, centenas de “curiosos” sobem anualmente e não poucos sucumbem. Perdeu-se a magia, profanaram a Deusa Mãe do Céu Sagarmatha, segundo os nepaleses, desvirtuaram o alpinismo, hoje, de turismo. Apesar dessa realidade, ainda me entusiasma a leitura dos acessos ao K2, duzentos e pouco metros menos elevado, muito mais perigoso e, por não ser o maior, pouco visitado.

Nesses últimos dez anos entusiasmaram-me as aventuras do extraordinário aventureiro francês Sylvain Tesson e resenhei mais de dez livros (vide Resenhas e Comentários no menu) em que o autor descreve com agudeza suas andanças pelo planeta, quase sempre solitário.

Nessa interminável pandemia, li em um dos portais instigante artigo sobre um navegador que, em barco pequeno, realizou a circum-navegação do planeta sem parar em terra alguma. Ao fim da matéria havia publicidade de um livro: “Histórias do Mar – 200 casos verídicos” (São Paulo, Agência 2, 4ª edição, 2020). Interessei-me e adquiri-o via internet. A conta-gotas fui lendo as duas centenas de aventuras que se estendem do início do século XVI à atualidade. O autor, jornalista Jorge de Souza, é especialista em fatos, aventuras e histórias ligadas ao mar. Criou revistas afins e tem atuação permanente na mídia.

O notável navegador Amyr Klinck opina sobre o “Histórias do Mar”: “Sensacional! Livro viciante, daqueles que a gente não consegue parar de ler”.

Rigorosamente leigo na matéria, só entrei em um barco pequeno, o famoso pô-pô-pô – denominação simpática devido ao barulho do seu motor -, abundante nas águas do rio Guamá, para uma travessia de Belém à ilha do Cumbu. Comungo a opinião do pianista René François Duchâble (vide blog: “René François Duchâble”, 30/01/2021), que tem medo de viajar de navio e que jamais o fez. Esse é meu temor também, mas o fato não invalida assistir a documentários sobre barcos pesqueiros no mar do norte, ou aventuras marítimas pungentes. Recordo-me das duas leituras, uma na juventude e outra faz alguns anos, de “A expedição Kon-Tiki” (vide blog: 29/09/2018).

Amyr Klinck, tantas vezes navegante solitário, tem toda a razão sobre o livro. Centrei-me em poucas histórias diariamente, mas a vontade era prosseguir.

Jorge de Souza é um expert na temática “mar” sob os mais variados aspectos. Historicamente narra desde aventuras, naufrágios, pirataria e aspirações que remontam aos primórdios do século XVI. Torna-se evidente que a documentação desse período e os subsequentes é bem mais escassa, mas o autor, com perspicácia, consegue imprimir “atualização” a essas aventuras marítimas de antanho.

À medida que nos aproximamos do século XX e que a navegação se torna bem mais intensa, relatos ganham configuração mais abrangente, a não ser quando há misteriosos desaparecimentos de comandantes e seus adjuntos no mar, mas não das embarcações. Não são poucas essas narrativas. Pirataria em alto mar, revolta de tripulações que, após eliminarem comandantes e ajudantes, evadiram-se em barcos salva-vidas e igualmente deles não restariam traços. Jorge de Souza sempre enfatiza essas situações. Navios fantasmas.

Não há como pontuar algumas das 200 histórias, tantas trágicas, outras dramáticas e algumas hilárias. O texto de Jorge de Souza tem teor jornalístico, é leve, agradável, sem quaisquer requintes literários mais sofisticados. Talvez seja essa apreensão, independentemente de algumas histórias mais longas e elaboradas, que tornam a leitura tão agradável. Se não aborda o Titanic (mais de 1.500 vítimas), pois já se tornou um enfado retornar ao tema, creio que um pormenorizar maior sobre a tragédia marítima que atingiu 9.300 pessoas e que, no livro, tem como título “O triste fim do Titanic de Hitler”, enfatizaria ainda mais a insanidade das guerras, quando o transatlântico alemão Wilhelm Gustloff foi torpedeado por submarino russo em 30 de Janeiro de 1945, nos estertores da IIª Grande Guerra. O Titanic, cercado de glamour e aura de navio perfeito, foi a pique ao chocar-se com um iceberg; quanto ao segundo, superlotado por civis alemães em fuga e soldados feridos do regime nazista, dos certamente mais de 10.500 “passageiros” apenas 1.239 sobreviveram.

Um sobrevivente dirá décadas após: “os mortos estão tranquilos, mas nós, sobreviventes, morremos a cada dia”. Pungente documentário traduz a maior tragédia marítima em termos de vidas perdidas:

https://www.plongee-infos.com/chaque-jour-une-epave-30-janvier-1945-le-wilhelm-gustloff-la-plus-grande-tragedie-maritime-de-tous-les-temps/

A contrastar com essa magnitude, em “Histórias do Mar” Jorge de Souza conta casos até bizarros de viajantes solitários que, atingindo ou não seus objetivos, arriscaram-se pelos mais variados motivos: aventura, fuga, diversão, notoriedade, furto. Alguns se deram muito mal e levaram seus sonhos para o fundo do mar. Impressionam determinados casos de aventureiros que contam unicamente com o alimento extraído do mar — peixes, tartarugas — e do espaço, quando aves migratórias ou distantes de terra firme encontram um lugar para descansar. Nas “histórias” de Jorge de Souza sobre esses navegadores solitários o que não falta é a diversidade de condutas.

Jorge de Souza alerta sobre o descaso das autoridades que permitem que barcos superlotados de turismo ou de viajantes naveguem pelas águas brasileiras. Menciona a tragédia “do barco Novo Amapá na foz do rio Amazonas, onde morreram mais de 250 dos 600 passageiros – embora ele só tivesse capacidade oficial para 150 pessoas”. Oito meses após seria o Sobral Santos II, característica gaiola amazônica (Setembro, 1981), igualmente naufragando por falta de fiscalização, superlotado, a deixar dezenas de desaparecidos. O autor insere no livro a tragédia do  Bateau Mouche, também superlotado, que naufragaria na noite de 31 de Dezembro de 1988 na saída da Baia de Guanabara. Não há necessidade de profetizar, mas por desleixo na fiscalização tantas outras tragédias como essas serão tratadas pelo autor futuramente, hélas.

Pela abrangência, tem interesse especial o relato sobre o submarino alemão U-507, que, durante a IIª Grande Guerra, com seus torpedos afundou vários navios brasileiros em 1942. Comenta: “Foi ele, também, que decretou o trágico destino de mais de 600 brasileiros, muitos deles mulheres e crianças, ao torpedear navios de passageiros sem nenhum aviso. Foi Harro Schacht (comandante), enfim, que fez o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial, após a nação, indignada, romper sua neutralidade”. Meses após, em 1943, o submarino voltaria aos mares do sul e encontraria seu fim causado por bombas de profundidade lançadas por um avião Catalina, que escoltava comboio de navios.

Creio que o leitor poderá se interessar pelas narrativas que, por vezes, em casos específicos, são abordados por Jorge de Souza com fino humor ou ironia.

Ficaria apenas uma observação, resultado de meu desconhecimento de outras obras de sucesso do autor. Gostaria que houvesse sido inserida a extraordinária façanha de Ernest Henry Shackleton, que, na expedição à Antártida (1914-15), assistiu ao esmagamento pelo gelo de seu navio Endurance, mas que, após verdadeira epopeia, salvaria a tripulação.

Since my youth I have enjoyed books based on true adventures. Many have already been mentioned in this blog, like the ones about the Himalayan mountain range or the many books by the French adventurer Sylvain Tesson. “Histórias do Mar” (Sea Stories), written by Jorge de Souza, a journalist and editor specializing in facts occurring at sea, is a book of great interest and worth of attention. A real page turner, from beginning to end a compelling read.