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Patrimônio Musical Português em Pauta

Reiteradas vezes escrevi sobre a importância de uma revista de qualidade sobre Música escrita por experts como fator imprescindível para a ventilação de conceitos que devem permanecer. Sem bairrismos ou apadrinhamentos, todas as publicações isentas desses vícios podem conter fontes raras para a pesquisa. Foi o que buscamos fazer durante cerca de 17 anos como editor responsável da “Revista Música” da Universidade de São Paulo, desaparecida após minha aposentadoria em 2008. Ao longo dos anos tenho acompanhado a publicação de inúmeras revistas sobre música do Exterior, umas centradas em um único compositor excelso, outras analíticas estritas e outras mais que, ao proporem o multidirecionamento temático ou a precisão geográfica, cumprem objetivos relevantes.

“Glosas”, publicação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa – MPMP, tem periodicidade semestral e já está em seu quarto número. Tem cumprido com determinação, em tempos econômico-sociais críticos em Portugal, a missão de não apenas resgatar valores expressivos ou mesmo olvidados da música portuguesa, como criar um rico depositário de opiniões, geralmente inéditas, através dos resultados de entrevistas e artigos específicos sobre determinado autor.

Anteriormente já abordara “Glosas” 2 (vide Revista de Mérito – “Glosas” – O Respeito à Música pouco Frequentada. 14/01/2011). Daquele número ao presente, independentemente do visual aperfeiçoado, “Glosas” focaliza na abrangência personalidades de relevo da música em Portugal, assim como apresenta interessantíssimas contribuições não pertencentes a um núcleo temático.

A homenagem prestada a António Victorino de Almeida (1940- ) é mais do que oportuna. Compositor de mérito, pianista, escritor, comunicador nato nos meios da mídia, realizador televisivo e cinematográfico, musicógrafo, Victorino de Almeida surpreende sempre através de seus conceitos, tantos deles polêmicos. Preliminarmente, o estudo sobre ele, que ocupa 26 páginas de “Glosas”, tem a clarificação de vários músicos e competentes articulistas que buscam desvendar segmentos secretos dessa figura singular na música portuguesa. Eurico Carrapatoso, Sérgio Azevedo, Mário Zambujal, Fernando Rocha, Carla Seixa e José Fortes, diversificadamente, penetram nesse multidirecionamento humano e Victoriono de Almeida pode ser apreendido em parte. A recuperação de entrevista realizada por Francine Benoît com o talento emergente em 1948 corrobora o entendimento de algumas tendências atávicas do ilustre músico. A rica entrevista que segue esses depoimentos, concedida a Duarte Pereira Martins, se de um lado faz-nos lembrar conteúdos já expressos em livro de raro interesse (António Victorino de Almeida conta 50 anos na Música a Paulo Sérgio dos Santos. Portugal, Quimera, 2005), sob aspecto outro revela-nos o compositor curioso, mas cônscio de sua empreitada. Victorino de Almeida não expressaria nesse depoimento que “realmente eu lutei a vida inteira por salvar um conceito de música. Música! E não um conceito de experiência”? Confissão que se casa com a opinião de outro compositor de alto quilate, Eurico Carrapatoso, ao abordar a extensa criação do homenageado: “A música de António Victorino de Almeida aparenta ser conservadora, muitos dirão. Vá-se lá saber se não é por isso mesmo que a melodia victoriniana é tão generosa, tendo a harmonia, de tamanho aplomb, o rasgo próprio da química dos fluídos? E o ritmo, que é tão vivido e vivido! E a orquestração (verdadeiro motivo de inveja), que refulge como o oirinho reluzente da Ceuta quatrocentista (citando Borges Coelho, o historiador). E a forma de sua música, entrocada como o bucéfalo, que respira profundamente como o roncopata: das depressões de Morfeu aos picos de nos fazerem ranger os dentes. Não é esta a função original da música, afinal? O poder de alterar estados de consciência?”

A qualidade encontrada em todo esse tributo a António Victorino de Almeida se expande em tantas outras preciosas contribuições que particularizam temas de interesse. Relevante a entrevista que o compositor e diretor artístico Jorge Salgueiro (1969- ) concede à Mónica Brito. Salientemos duas observações contundentes de Jorge Salgueiro, autor de aproximadamente 180 obras. Perguntado a quem ofereceria a revista “Glosas”, afirmaria: “Ofereceria a uma dessas pessoas que tomam decisões e que afastam os portugueses de seu país”, e à questão de um novo Jorge Salgueiro, acrescentaria: “Ainda sou novo, tenho esperança. Posso vir a mudar o pensamento do século XXI, porque não? Senão tivesse sonhos, e permanecesse apenas o lado lúcido e consciente, suicidava-me. Eu e os outros. Se não fôssemos inconscientes, no sentido de ainda sonhar, não havia criação. É esse sonho que nos faz criar a todos, a cada pessoa, não só o artista. Somos o centro do nosso mundo. Ainda que as tenha perdido, continua a ser o centro do universo. É como nós, os artistas. No sonho tudo é possível”.

Como se não bastasse o material rico para a cultura portuguesa contido em “Glosas” 4 e esboçado acima, artigos outros mostrariam o debruçar de pesquisadores sobre temas, muitos deles de total ineditismo. Destacaria a contribuição de Manuel Pedro Ferreira: “A propósito dos 750 anos do nascimento de Dom Dinis, trovador”; de João Paulo Janeiro, acurado estudo sobre o compositor napolitano David Perez (1711-1778), que, a partir de 1752, tanta contribuição prestou à música portuguesa; de Piedade Braga Santos, filha do compositor Joly Braga Santos (1924-1988), um comovente testemunho a respeito da amizade deste com Jorge Peixinho (1940-1995). A gregorianista e professora Idalete Giga faz levantamento precioso em “A música nos Salões Particulares de Lisboa no fim do século XX e na primeira década do século XX”, tecendo profícuos comentários e a enumerar salões do período e seus promotores. Considere-se igualmente o arguto artigo de Luís C.F. Henriques, em que focaliza o “Cosmopolitismo Musical na Cidade da Horta no Final do Século XIX”. Dentro da linha editorial da revista, que se propõe sempre evidenciar um músico não devidamente estudado, coube a André Vaz Pereira traçar perfil específico em “A obra para piano de Manuel Faria – uma primeira abordagem”. Tem-se ainda, na secção “Compositores a Descobrir”, um merecido estudo sobre a figura impecável na música portuguesa, o Padre Tomás Borba (1867-1950), professor do Conservatório Nacional e imortalizado através de sua atuação, durante décadas, como Diretor Artístico da Academia de Amadores de Música. Teve como seu mais ilustre aluno o grande compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994).

Contribuí para o nº 4 com artigo a abordar “Canto…” Primeiro de Fernando Lopes-Graça. Publicado no mesmo período em meu livro “Impressões sobre a Música Portuguesa”, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra em Novembro último, o texto aborda “Canto de Amor e de Morte” do compositor em seu original, pois conheciam-se apenas as duas versões realizadas pelo músico, para quarteto de cordas com piano e orquestral, respectivamente.

A ausência de interferências, que tantas vezes afeta a homogeneidade de textos diversos de uma determinada área em revistas espalhadas geograficamente, está a ser preservada na revista portuguesa. Sente-se em “Glosas” um propósito, uma identidade. Que assim persista

A few comments on issue nº 4 of Glosas, the music magazine with news, interviews and articles covering the world of classical music in Portugal.

A Valoração que se Faz Necessária

“Women have served all these centuries
as looking glasses possessing the magic and delicious power
of reflecting the figure of man at twice its natural size.”
Virginia Woolf (A Room of One’s Own)

A mulher está muito perto da Natureza;
Há nela os mesmos encantos e os mesmos perigos.
Agostinho da Silva

Em 2010 escrevia a respeito de tese de doutorado defendida junto à USP pela professora Susana Igayara, na qual a pesquisadora abordava obras teórico-musicais escritas no Brasil na primeira metade do século XX por professoras e educadoras musicais. Tendo integrado o júri, impressionou-me a quantidade de trabalhos publicados em período em que a mulher não alcançara patamares sequer à base de igualdade com os homens (vide Uma Tese Diferenciada – A Mulher Brasileira e seus Textos sobre Música. 14/05/2011).
Considerando-se o período a partir da segunda metade do século XIX, é possível observar leves tentativas de emancipação da mulher nas mais variadas atividades. Se George Sand (1804-1876) foi exemplo em França, há que se considerar que sempre houve, ao longo da história, a presença de mulheres que se destacaram, apesar de não aparecerem publicamente, como educadoras, heroínas, artistas, intelectuais e empreendedoras. O nítido domínio dos homens era fator preponderante para uma verdadeira “imersão” da criatividade feminina. Se Berthe Morisot (1841-1895), Mme Curie (1867-1934), Clara Schumann (1819-1896) e tantas outras tiveram reconhecimento em  vida, a grande maioria ficaria no ostracismo e outras tanto tiveram valoração post mortem. Era a regra do jogo. Camille Claudel (1864-1943) tornar-se-ia o símbolo do talento artístico que, premido pela sociedade, sucumbiu em vida. E o que dizer de Anita Malfatti (1889-1964), que ao sofrer pressões estéticas, renunciaria a um estágio na pintura que certamente faria dela uma expressão a nível mundial?

É, pois, alvissareira a publicação de um  pequeno livro a destacar mulheres que tiveram brilhantismo em Portugal em período em que imperava o “machismo”, atitude ainda tão majoritária no planeta como um  todo (Mulheres do Alentejo na República. Textos de Anastásia Mestrinho Salgado, Carlos Emílio Carapinha e Idalete Giga. Chaves, Tartaruga, 2011).

Já na Introdução há referência a essa “mulher filha da burguesia mais instruída, diplomada pelas escolas politécnicas, escolas de medicina e veterinária, etc. (médicas, professoras, artistas)” que captavam determinados ventos ideológicos que começavam a soprar em Portugal. Essa mulher, graças ao comboio, iniciava através das viagens uma nova percepção da vida e de sua posição junto à sociedade, a ter, pois, papel fundamental na emancipação feminina, não sem duros percalços. Tem-se, ainda na Introdução, que “a transversalidade entre estes grupos de mulheres acontecia em vésperas da 1ª República. Era como se todas as mulheres portuguesas sonhassem o mesmo sonho – SER MULHER”.

O espaço a que me proponho tornar-se-ia pequeno para esboçar o perfil das dezessete mulheres estudadas, que abrange as mais diversas áreas. Todas tiveram destacada atividade e lutaram nas mais variadas frentes, no intuito de dignificarem a figura feminina na sociedade. Selecionei as três breves biografias traçadas com muita competência pela professora Idalete Giga, natural de Ciborro (Montemor-o Novo), portanto, alentejana da gema: Virgínia Quaresma (1882-1973), pioneira do jornalismo moderno em Portugal, segundo a estudiosa, Eunice Muñoz (1928- ), atriz relevante, e a célebre poetisa Florbela Espanca (1894-1930).

Virgínia Quaresma, licenciada em Letras e diplomada pela Escola Normal de Lisboa, foi notável jornalista, a preferenciar em sua atividade a reportagem e a entrevista política. Atuou em alguns dos mais importantes veículos de comunicação em Portugal. Esteve várias vezes no Brasil a partir de 1912 e, durante um bom período, residiu no Rio de Janeiro, a exercer sua profissão colaborando para o Correio da Manhã, A Época e a Gazeta de Notícias. Referencial um pronunciamento junto à Sociedade Promotora do Ensino Popular em Portugal: “Ser feminista é a minha única carta de recomendação, o meu único título de glória  no mundo intelectual. E não me dispensam dessa honra em parte nenhuma, embora eu saiba muito bem que o nosso meio social, ainda em grande parte, não compreende todo o orgulho, toda a altivez, toda a satisfação de razão e de consciência que me podem advir dela”.

Eunice Muñoz é possivelmente a mais importante atriz portuguesa e foi impecavelmente “retratada” desde as primeiros passos “hereditários”, empreendidos em companhia de seus pais. Aprendeu cedo o métier e o talento desabrochou com naturalidade. Idalete Giga tem o esmero de indicar a relação de todas as peças do repertório de Eunice Muñoz, nomeando-as e a oferecer, como suporte, a cronologia e os locais das apresentações. Impressiona a quantidade de peças de teatro que Eunice apresentou e continua a oferecer aos mais variados públicos. Cinema e televisão também fazem parte de seu universo. Seu repertório é imenso. É a atriz mais premiada em toda a história da dramaturgia em Portugal.

Ao se debruçar sobre Florbela Espanca, Idalete o faz com o respeito devido à grande poetisa alentejana que legou aos pósteros uma produção tão pequena, inversamente proporcional à qualidade. Florbela viveu em choque permanente, não apenas familiar, mas também com o meio social. Desde jovem quebraria regras de conduta,  graças à sua vida amorosa tão distante da rígida concepção moral de sua época e de suas irreverentes atitudes frente ao establishment. Casamentos, relacionamentos prolongados ou efêmeros motivando, sob o aspecto da criação, mesmo em temáticas outras, a presença do relacionamento amoroso, da esperança ou da desilusão e os enfrentamentos da mulher voltada à escrita. Tem ela a consciência da apreensão pública de suas obras. Esses permanentes conflitos, acrescidos de hereditariedade, levariam ao fim trágico aos 36 anos, quando a porta do suicídio tornou-se a única viável. De Charneca em Flor tem-se: “Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!” Contestada ou mesmo rejeitada por setores mais puritanos da sociedade de seu tempo, Florbela Espanca tem sido, sur le tard, cada vez mais estudada pela expressividade de seus poemas. Idalete Giga sintetiza bem o perfil humano e criativo da artista: “Quando alguém nasce para além de seu tempo, como foi o caso desta extraordinária poetisa alentejana, tal facto suscita o mais vivo interesse. Florbela Espanca estava, sem dúvida, avançada em relação à sua época em que as mulheres viviam completamente subjugadas e dependentes dos homens, fossem pais, maridos ou irmãos. Não tinham quaisquer direito, mas apenas deveres. Florbela Espanca era a antítese da mulher dependente e subjugada. Artista de rara sensibilidade poética, independente e livre pensadora, mostrou-se sempre tal como era, sem máscaras, sem preconceitos. Por isso, a sua vida foi uma luta constante, cheia de sofrimento, dificuldades, desilusões e a sua obra incompreendida pela sociedade de seu tempo”.

Ao leitor transcrevo um dos poemas de Florbela Espanca:

Mistério

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!  

 Mulheres do Alentejo na República é livro a ser visitado. Oxalá a temática, a abranger o perfil da mulher em períodos onde a emancipação mostrava-se uma heresia, surgisse mais acentuadamente. Se de um lado essas desbravadoras em busca da igualdade e do reconhecimento do valor da mulher são paulatinamente reconhecidas numa sociedade ocidental aparentemente igualitária, sob aspecto outro a mulher objeto, que se oferece aos amplos meios de comunicação, mormente na condição de desnudamento, apenas retarda a inserção feminina plena, sem restrições, em todas as áreas da atividade humana.

This post is an appreciation of the book “Mulheres do Alentejo na República” (Women from Alentejo during the Republic), written by Anastásia Mestrinho Salgado, Carlos Emílio Carapinha and Idalete Giga.  It portrays 17 women from the region of Alentejo in Portugal that have been outstanding in their specific fields of activity. For space reasons, I’m unable to mention the 17 women, thus selecting only 3 of them: Virginia Quaresma (journalist), Eunice Muñoz (actress) and Florbela Espanca (poetess). But all the personalities depicted are strong women who transcended the limits imposed to their gender, going where few women dared to go.

João Gouveia Monteiro

Não nego que os nossos jovens não leiam mais.
Por exemplo, é seguro que lêem muito mais periódicos.
E também lêem muito mais em suporte informático.
O que eu digo é que eles, em média, lêem pior,
que há uma infantilização da leitura.
E a prova é que a sua capacidade de expressão por escrito
se está a degradar fortemente.
Pelo menos entre os jovens que frequentam a Faculdade de Letras,
disso não tenho a menor dúvida.
E se é assim em Letras…
João Gouveia Monteiro

Ao longo da existência deste espaço tenho-me referido, não poucas vezes, à aptidão de quem escreve sobre determinada área. Mais me causa admiração quando um autor competente penetra no campo da síntese. Delicia-me verificar verdadeiras viagens ao miniaturismo de certos temas. Abordei recentemente o magnífico estudo de síntese de José Maria Pedrosa Cardoso ao traçar, com ímpar competência, uma História Breve da Música Ocidental (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010). Faço-o novamente não sem razões. A leitura das Crônicas de João Gouveia Monteiro, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde leciona sobretudo história europeia da Idade Média e história militar antiga e medieval, leva-me à certeza de que o espírito de síntese quando natural, sem empáfia, faz com que todos possam compreender conteúdos aparentemente intransponíveis para o leigo (Crônicas de História, Cultura e Cidadania, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011).

O notável medievalista aceitou escrever quinzenalmente, durante cerca de dois anos, pequenas crônicas para o “Diário de Coimbra”. Reunidas em livro, tem-se três categorias de textos, que se concentram nas Viagens pela História, O Olhar da Cultura e Coimbra e Cidadania. A dimensão de cada texto estaria a obedecer estritamente aos espaços do jornal, duas páginas ou pouco mais na formatação em livro. E é nessa permanência da mensagem a ser transmitida por inteiro que reside a magia de Crônicas de História, Cultura e Cidadania.

Percebe-se, nas três categorias de textos, a preocupação de João Gouveia Monteiro em não deixar dúvidas quanto às suas intenções. Quando na primeira parte, Viagens pela História, dá-nos em poucas palavras verdadeiras aulas, mormente do período medieval, e rememora em datas históricas feitos militares, tratados que marcaram, uniões matrimoniais movidas por nítidos interesses, fatos heroicos. Não apenas transparece a competência inequívoca do autor, como está-se diante da História real, sem tergiversações. Seria lógico supor que tais condensações, destinadas a um público leigo, pudessem conter uma visão exegética excessiva, o que daria ao texto a certeza da informação, mas o desestímulo ao leitor ávido por notícias do cotidiano. É exatamente nesse pormenor que reside a magia do texto de João Gouveia Monteiro. O autor dá a mão ao leitor, caminha com ele, brevemente, pelo fato histórico e interpreta-o como se estivesse presente aos atos que construíram o desenrolar desse pulsar, que sempre esteve a nos conduzir.

Abre a sequência dos episódios das narrativas, Viagens pela História, com crônica que não deixa dúvidas sobre o que vai ser desenrolado: “Varo: devolve as minhas legiões!”, e o acontecimento histórico evocado, traz-nos “ao vivo” Públio Quintílio Varo, legado provincial da Germânia e antigo governador da Síria, que foi protagonista de uma das maiores humilhações do exército de Roma, quando o Império perderia três legiões, delas constando aproximadamente 15.000 homens. Deu-se a batalha a noroeste da Alemanha, próximo da Holanda. Grande tragédia no século 9 da era cristã e que levaria o Imperador Augusto a dizer, enfurecido em pleno delírio: “Quintilo Varo, devolve as minhas legiões”.

De agradabilíssima leitura os textos sobre episódios passados em Portugal e alhures na Idade Média. Detém-se em Fernão Lopes com admiração, a evidenciar as qualidades desse que foi o grande cronista da nobreza portuguesa no século XV. Denomina-o, inclusive, “cronista do povo”. Essa participação descontraída diante da História se faz sentir em tantos títulos das crônicas: “Nós iremos a Jerusalém…”, história que se passa no Egito e na Tunísia no século XIII; “O Infante D. Henrique faz anos!”; “A India com que o Gama não contava!”; “A boda que deu em revolução”, referindo-se à celebração matrimonial de D. Beatriz (filha única de D. Fernando e D. Leonor Teles) com D. Juan (rei de Castela). Feitos pela Europa são revisitados pelo autor que, nessas pílulas literárias, transmite-os ao leitor, mormente quando efeméride está a aguçar a sua memória.

No segmento a abordar “O Olhar da Cultura”, torna-se evidente o fascínio de Gouveia Monteiro pelos livros. Cerca de metade dos textos os tem como fulcro central. Insiste no tema, assistindo com certo estupor à diminuição, entre os jovens, dessa frequência indispensável ao livro: “Ter o livro como um companheiro insubstituível e que não se troca por (quase) nada”. Teme pelo futuro, pois sente o resultado através da escrita pobre dos estudantes. Em “O lugar do estudo na vida universitária” apresenta um certo ceticismo quanto ao estado atual ao qual a docência está a ser conduzida “… os investigadores são agora massacrados com pequenas tarefas burocráticas (questionários, relatórios, reuniões, formulários, fichas, etc.) em que despendem um tempo precioso. O resultado destes dois factores é inevitável: estudam muito menos e a escola a que pertencem caminha a passos largos para se tornar uma espécie de liceu superior”.

Em “Coimbra e Cidadania”, terceiro segmento do livro, Gouveia Monteiro revela seu amor inquestionável pela cidade, a apontar sua destinação cultural, problemas existentes nos espaços públicos; história: “Pedro e Inês: frias memórias de Janeiro”, ao se referir ao trágico romance entre Inês de Castro e D.Pedro I em pleno século XIV, e à valoração que se faz necessária da figura de El-Rei, ainda não devidamente realizada.

Quando criei meu blog, fi-lo a pensar em fugir de meus textos acadêmicos em determinados momentos. Mas, acima de tudo, senti-me livre das por vezes enfadonhas notas de rodapé e das avaliações, nem sempre confiáveis, de colegas com as mais variadas intenções. Hoje aposentado, se frequento o texto acadêmico após aprofundamentos, faço-o liberto de entraves burocráticos. Folga-me verificar nessas crônicas do ilustre medievalista João Gouveia Monteiro, a liberdade que não apaga a competência. Deliciosa a incursão do autor no cinema “histórico”. Ei-lo a comentar “Robin Hood: a história por trás da lenda” de Ridley Scott, tendo Russell Crowe como ator principal, assim como “Bannockburn: uma batalha a lembrar Mel Gibson”. Essa aparente fuga da exegese apenas dimensiona o lado humano e polifacetado de Gouveia Monteiro.

Deixei para o fim  temas relacionados ao Natal, trazendo-nos o espírito de confraternização. Em duas crônicas a efeméride aflora. Na primeira, “O Natal de 800 e a magia da História”, a lembrar que no dia 25 de Dezembro de 800 Carlos Magno era aclamado: “Naquele dia santíssimo da Natividade do Senhor, quando o rei se ergueu depois de orar na missa em frente ao túmulo do bem-aventurado Pedro apóstolo, o papa Leão colocou-lhe uma coroa na cabeça e todo o povo dos Romanos o aclamou: Vida e Vitória para Carlos Augusto, coroado por Deus grande e pacífico Imperador dos Romanos”, conforme consta nos Anais Laurissenses. Concretizava-se a aliança entre a Igreja Católica e a mais forte potência do Ocidente europeu. Em uma segunda, “Os Reis Magos e o incenso dos pagãos”, o autor se pormenoriza nas oferendas dos Três Reis Magos – Baltazar, Melchior e Gaspar – e na simbologia pagã dos presentes ofertados: ouro, mirra e incenso, explicando-as. João Gouveia Monteiro escreve: “Quanto às oferendas, se o ouro se compreende bem, por ser riqueza própria de um rei, já a exótica mirra (usada nos embalsamamentos) e, sobretudo, o incenso (uma resina que produz fumos odoríferos, provenientes de árvores da África e da Arábia), são mais intrigantes. É certo que o uso do incenso está bem atestado entre os Egípcios, os Fenícios, os Persas, os Hebreus, os Romanos e os Árabes, tendo a sua queima alastrado à China. O curioso é que só no séc. IV d.C. o incenso parece ter entrado nos hábitos dos cristãos. Até lá, ele era utilizado pelos ‘pagãos’ romanos, os ‘sacrificados’ e ‘incensados’ que, perseguidos, renunciavam a ser cristãos queimando incenso em honra dos imperadores e dos deuses do panteão romano”!

Crônicas de História, Cultura e Cidadania é obra a ser lida. Trará imenso prazer a quem tiver o exemplar, que pode ser adquirido diretamente de Coimbra: http://livrariadaimprensa.com .

Desejo a todos os meus generosos leitores um Natal pleno de alegria interior. Para os cristãos, que o significado da data penetre nos corações e nas mentes. Para os não cristãos, que a paz seja duradoura.

The post of this week is an appreciation of the book “Crónicas de História Cultura e Cidadania” (Chronicles of History, Culture and Citizenship), written by João Gouveia Monteiro, a medievalist who teaches Middle Age History and Ancient Military History at the University of Coimbra.