Navegando Posts em Literatura

Generosidade dos leitores

Por mais longe que o espírito alcance,
não vai tão longe quanto o coração.
Provérbio chinês

Comoveram-me as inúmeras mensagens recebidas. Já me referi bem anteriormente às palavras de D. Henrique Golland Trindade, reverendíssimo arcebispo de Botucatu, meu padrinho de crisma, que a uma pergunta que lhe formulei nos anos 1950 a respeito da vaidade, respondeu-me sabiamente: “O santo orgulho é louvável”. Creio que metas periódicas vencidas podem trazer essa sensação, que deve ser entendida naturalmente. Minhas constantes surdas alegrias têm esse componente proferido pelo saudoso prelado.

Bem acima da média foram as mensagens. Arquivo-as carinhosamente. As palavras lisonjeiras estão presentes e, apesar de escrúpulos naturais quanto ao teor dos elogios, servem de força motriz a guiar-me na música e na escrita. Separei onze e-mails, que compartilho com os leitores.

Ricardo Tacuchian, compositor e membro da Academia Brasileira de Música, enviou-me a mensagem: “A espantosa cifra que você alcançou de 1 milhão de acessos a seu blog, sempre dedicado a uma apaixonada militância pelos altos valores da cultura, da arte e da literatura, é uma prova de que ainda existe, entre as pessoas, um potencial, ainda que silencioso, de preservação do que há de mais elevado em nossa tradição. Ao contrário do que vulgarmente se pensa, o que está escandalosamente decantado em prosa e verso na mídia comercial e seu incondicional espaço à cultura de massa não exclui os anseios de uma outra força de pensamento que não aparece no dia a dia, mas que está latente, consciente ou inconscientemente, na alma de uma parcela significativa da população. Cabe a artistas e intelectuais como você manter viva a fé e os valores que não morreram, mas apenas estão amortecidos. Sua luta é contra a mediocridade, sem nunca atacá-la explicitamente, mas mostrando o outro lado do mundo criativo e solidário em que vivemos. Seu empenho é preservar o elo que liga o passado com novas conquistas do espírito do presente e as expectativas do futuro. Se este elo se rompe a humanidade estará definitivamente perdida. Seu entusiasmo é dividir com os leitores sua rica experiência, conquistada através dos contatos com figuras exponenciais, com os livros que você leu, com as viagens que realizou e pela música que você tirou do esquecimento e nos proporcionou conhecê-la. Você está sempre correndo, objetiva e metaforicamente falando. Com isso aumenta o seu fôlego e o de seus leitores. Precisamos, sim, preservar nossa respiração para enriquecer nosso pensamento e nossa alma. É exatamente o que você faz na vida. Você tem razão: ‘respirar não pede férias’. Assim, até o texto da próxima semana”.

Idalete Giga, gregorianista e Diretora do Centro Ward de Lisboa, encaminhou o e-mail: “Em primeiro lugar quero felicitá-lo pelo seu Blog ter atingido um milhão de acessos em dez anos e meio! Um milhão é muito significativo, sobretudo tratando-se de um Blog que não aborda trivialidades, banalidades que são o comum hoje em dia, não só na Net, mas nos meios de comunicação social em geral. Felizmente, há cada vez mais leitores a procurar outros universos que rejeitam a mediocridade, o escândalo político e/ou sexual  e outras misérias humanas.

Que as suas ideias surjam como límpidas cascatas e que as musas nunca o abandonem para que possa continuar a escrever, sem medos, sem preconceitos, sem o insuportável politicamente correto, os variados e ricos temas que desenvolve semanalmente no seu blog!

José Maria Pedrosa Cardoso, professor da Universidade de Coimbra e musicólogo, enviou a mensagem: “Bravo… bravíssimo! Para ti, querido Amigo… e para a tua comprometida equipa! Admirável capacidade, invejável aplicação, exemplar trabalho. Muitos parabéns! Que possas chegar aos dois milhões, com a mesma possibilidade de admiração da nossa parte. Todos aprendemos uns dos outros, mas de ti aprendemos muito mesmo: com a tua música, que nos regala, com as tuas corridas, que aplaudimos, e com a tua escrita que nos enche as medidas. Até aos sábados todos das nossas vidas”.

Eurico Carrapatoso, compositor português e professor do Conservatório Nacional, escreveu:  Um milhão de acessos! É obra. Tanto brain storm que o meu amigo tem causado pelos quatro cantos do mundo! Invejável, o poder da tua pena, da tua mensagem. Bem hajas pela partilha de um mundo interior tão pleno de luz e de tal relevo no pensamento.
Como diria Sophia de Mello Breyner:

Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol

Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema

Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo

Flávio Araújo, radialista e articulista esportivo do país, escreveu: “São seus leitores que o felicitam pela qualidade, força e lucidez do que escreve. Que o seu incentivo continue servindo de exemplo para mim e para tantos. Parabéns e obrigadíssimo”.

Marcos Leite, arquiteto e maratonista, comenta: “Parabéns pelo número alcançado!!! Com tantas porcarias enchendo as telas através da internet, seu blog é uma iguaria das mais finas a satisfazer meu apetite de textos agradáveis, cultos e elegantes. E ecléticos também, com a vantagem de eu compartilhar interesse pelos mesmos assuntos que você tão bem aborda e domina”.

Maria Izabel Ramos, nonagenária, amiga que foi de meus pais e das gerações seguintes, tem acompanhado os blogs desde 2007, repassando-os à legião de amigos: “Mais uma vez tenho a grande satisfação de enviar-lhes o sempre esperado blog do nosso amigo, pianista e escritor José Eduardo Martins, no qual estão preciosos comentários sobre sua rica correspondência virtual, que atinge 1.000.000 de acessos. Somos felizes por ser agraciados pela riqueza de seus blogs”.

Lucita Brisa, jornalista, escritora e prima de Regina, escreve: “Um milhão de abraços pelo seu primeiro milhão! E mais um, especial, pelo esmerado texto com que V. nos brindou neste blog comemorativo! Assim continue pelos próximos dez anos e meio – pelo menos!

Gildo Magalhães, professor titular da USP, escreve: “Sensacional o blog sobre seu blogar. Parabéns pelo número redondo, mas também por saber que um blog seu vale mais do que um milhão de tantos outros…. E esperamos pacientemente os dois milhões de acessos!”

Waldenyr Caldas, igualmente professor titular da USP, comenta: “estou feliz por saber que seu blog atingiu esta cifra maravilhosa de 1.000.000 de publicações!!! Acompanho desde o inicio e ja li excelentes posts que você publicou”.

François Servenière, compositor e pensador francês, partner de circa uma centena de posts, estende-se: “É uma honra fazer parte de seus colaboradores regulares. Pergunto-me sempre quais as razões pelas quais escrevo semanalmente, sempre a comentar os seus blogs. Você fala das musas, endossando palavras de meu compositor fétiche, Maurice Ravel. Realmente elas surgem quando nos colocamos à mesa para escrever. Todavia observei que é o mecanismo físico de sentar-se para escrever que faz funcionar o cérebro já predisposto a essa tarefa. O cérebro não é idiota. Ele ativa as funções necessárias solicitadas, exatamente como uma máquina. O indivíduo dá a ordem, as engrenagens começam a funcionar. Espanta-nos sempre a chegada súbita das ideias quando nos colocamos a  trabalhar, na composição como na escrita. Penso que é o reflexo pavloviano, como o que se nos apresenta na insalivação quando vemos um tablete de chocolate.

Alguns itens do seu post despertaram particularmente minha atenção:

- a regularidade diária do cappuccino e da maçã que Regina lhe traz. Digo para mim mesmo ‘que amor!’, no duplo sentido ‘que mulher amorosa’ e que ‘devoção’;

- pensei profundamente no nosso saudoso Luca Vitali, como cada vez que vejo Éthers de l’Infini. Seus sublimes desenhos acompanham doravante a minha vida através do site. Que felicidade tê-lo conhecido, se bem que num espaço temporal tão curto!

- gostei imenso das suas considerações sobre a vida: trabalho, regularidade, exercícios, esporte, atividades cerebrais, família. Logicamente nada a ver com o brilhantismo escancarado cotidianamente pela mídia para os denominados famosos. Mas atenção: o seu trabalho não visa ao imediatismo, ele é seguro e ficará. A superficialidade dos stars e suas mensagens passarão como a poeira levada pelo vento. Nós construímos árvores centenárias e sólidas arquiteturas… Pouco nos importa o número de CDs vendidos ou o número de lugares nas arenas. Conhecemos por acaso os nomes dos que estiveram a representar nos estádios na antiguidade, verdadeiros demiurgos venerados? Não. Mas os dos escritores e filósofos, sim.

Sinto-me feliz de estar em França, mas ao seu lado nestes últimos seis anos de maneira regular. Nós nos conhecemos pela internet em 2007… Verifico a data de meu primeiro e-mail… Vou retomar o fluxo de nossa correspondência no nosso dossier personnel, pois é necessário atualizá-lo. Já ultrapassamos 2.000 páginas de correspondência ininterrupta transatlântica!!!”. (Tradução: JEM)

Agradeço, de coração aberto, a todos os generosos leitores que me escreveram enviando mensagens de estímulo. Sintam-se representados através daqueles que estão presentes neste post.

Many readers congratulated me for reaching 1.000.000 page views. I selected some of the messages received for the post of this week. And once more, thanks to all my readers for stopping by.

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Comunico ao leitor que em Outubro estarei na UNIBES CULTURAL, em São Paulo, para uma série de palestras com temática inédita: “O intérprete frente à gravação”. Abordarei temas como: preparação de repertório, escolha do local ideal para a gravação, qualidade do piano e competência absoluta do engenheiro de som, após 22 anos de gravações e 23 CDs gravados na Bulgária, Portugal e principalmente na Bélgica. Faixas dos CDs serão ouvidas e fatos pertinentes relatados. As palestras (09, 16 e 23/10, das 19 às 22hs) são direcionadas para músicos, jovens intérpretes que almejam gravar e público que frequenta concertos e atividades afins. No dia, 31/10, apresentarei recital para o público em geral. No programa, obras de Johann Kuhnau, Willy Corrêa de Oliveira, Gilberto Mendes, François Servenière, P.I.Tchaikovsky e A.Scriabine. As inscrições poderão ser feitas através do site http://unibescultural.org.br/cursos/viva-a-cidade/interprete-frente-gravacao/710

O blog como respiração

Se a inspiração quiser aparecer, sabe perfeitamente onde há-de me encontrar.
Maurice Ravel

Temos sempre de relativizar cifras. Se considerarmos a música de concerto, clássica ou erudita, espetáculos podem lotar salas e teatros de 1.500 lugares, quiçá 2.000. Um Rock in Rio leva 100.000 pessoas ou muitíssimo mais. Neste caso, música ou associação de tantas parafernálias? A realidade, contudo, é clara. Há blogs que conseguem milhões de acessos diários. Política, esporte, frivolidades têm espaços garantidos nas mentes de legiões. Também transparente realidade.

Após dez anos e seis meses de blogs hebdomadários, que jamais tiveram interrupção, publicados sempre no quinto minuto do sábado, não posso negar estar imbuído de surda alegria. Dos 50 acessos semanais no longínquo mês de Março de 2007 aos 4.000 presentes, foi um crescer a conta-gotas que em nenhum momento alterou meu prazer de escrever. Remonta à juventude esse “instinto”, desde os textos publicados em “O Arauto” do Liceu Pasteur, onde estudava. O grande escritor e poeta Guerra Junqueiro (1850-1923) já tecera metáfora ao afirmar que escrevia “pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, peras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica”. No meu modesto caso é a respiração, fatalidade orgânica que não precisa de estímulo, ela existe tão somente. A não interrupção, graças às musas que jamais me abandonaram, é decorrência da certeza de que essas figuras etéreas e inspiradoras conhecem a hora determinada onde me encontrar, de madrugada diante do computador. Valho-me de Ravel. E as musas chegam na invisibilidade de suas silhuetas decantadas em prosa e verso e grafadas desde a Antiguidade. Sinto-as presentes, pois o fluxo narrativo jorra de imediato, não sem premeditação. Respirar não pede férias.

Em mais de um blog escrevi sobre respiração e pensamento. Retorno às origens. À mente sempre surgem as ideias para o blog durante treinamentos para as corridas de rua. Vontade, determinação, disciplina, concentração, alegria… Talvez sejam muitas as outras razões. Não seria a respiração cadenciada que me remete ao ritmo e ao atavismo musical? Se o olhar e a audição captam o entorno com atenção, a mente viaja amparada pelas passadas ritmadas. Nas corridas oficiais de rua ignoro temas do blog, pois outras são as atenções, ficando alerta a todo corredor que me ultrapassa, mas também, em menor número, aos que ultrapasso. Bloqueio o nascimento das ideias. Não obstante, solitário no primeiro treino pós blog publicado, naturalmente desce um tema. Organizo-o e nele não mais penso. No treino seguinte retomo-o e estabeleço até a posição dos parágrafos na mente, momento em que uma nova configuração toma vulto. Na primeira madrugada, o post desce inteiramente sem qualquer esforço. Uma breve leitura e transmito-o à nossa vizinha e amiga, Regina Maria. Descobrirá incorreções que o jato da escrita não impede que aconteçam. Na noite seguinte, ao montá-lo com as imagens pertinentes, leio para a minha Regina. Como faz diariamente, chega serenamente enquanto digito, trazendo-me capucino durante o dia e uma maçã, noite avançada. Tem ela, muitas vezes, uma observação que me escapou. Texto publicado, a amiga e professora Jenny Aisenberg, com olhar de lince, comenta o blog semanal e, por vezes, ainda encontrará alguma incorreção. Assessorando-me pois, as musas etéreas e as presentes. O nosso maior compositor romântico, Henrique Oswald, já profetizava que o pior revisor é o autor e se considerava, nessa tarefa, o pior deles. Sigo a rotina da escrita. Tem ela seus encantos. O acúmulo das décadas nos torna ainda mais rotineiros.

Preferencialmente  privilegio a Música, e aproprio-me do título do livro em homenagem ao poeta e crítico português José Gomes Ferreira (1900-1985), “Música minha antiga companheira desde os ouvidos da infância” (diário e poemas). A seguir, o cotidiano, mais pelo ato presencial, pois nada mais somos do que “observadores peregrinos”, no dizer do filósofo e escritor indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986), que tem lá suas razões ao apontar essa presença volátil do humano sobre a Terra. E vem a literatura, diria, ligação também amorosa. De Março de 2007 até o presente já foram mais de 180 livros resenhados (vide menu: Livros – Resenhas e Comentários, lista). Nesse quesito, se a música está presente, apaixona-me a literatura voltada ao desafio, às aventuras intrépidas e as narrativas de ação, mormente se o autor tiver talento. Sylvain Tesson, o andarilho francês, autonomeado vagabond (trata-se de outro conceito que não o de nossa língua), faz parte de tantos debruçamentos que me impeliram a resenhar seus livros. Portanto, o item “Impressões de Viagens”, também constante no menu, revela admiração inconteste pelas andanças no planeta, apesar de não serem as minhas revestidas de periculosidade, tampouco de intrepidez. Todavia, todas voltadas às atividades musicais, mas que sempre propiciam espaço para a observação.

Em vários blogs comemorativos mencionei a opção pela não inclusão de qualquer propaganda em meu blog. É possível que tal atitude decorra da total idiossincrasia que tenho pela sanha publicitária que desrespeita o momento do leitor, que obviamente é a leitura. Este, ao buscar um texto nos portais, é assaltado por infinidade de anúncios de toda sorte. A leitura é constantemente interrompida para que o visitante passe a deletar ao alto uma propaganda imensa, dos lados uma quantidade de outras que, em poucos segundos, são substituídas por outras mais. No centro, a reinar, um áudio qualquer precedido por outra longa publicidade. Ao ler textos na busca de noticiários ou artigos, geralmente plenos de erros gramaticais, o mouse “passeia”, a eliminar essa invasão publicitária, cujo teor sequer tem interesse. Seria esse um teste elementar para a eliminação de inimigos nesses jogos internéticos idiotizados tão em moda? Esse absoluto desrespeito tem se acelerado. Não poderia ser essa atitude, hoje “normatizada”, uma das nítidas tendências à distração do leitor, pois tudo passa a ser efêmero e a concentração se estiola. Sistematicamente perdem-se dados preciosos da Cultura: observação criteriosa, reflexão, assimilação, o gosto pela literatura cuidada e pela Música qualitativa.

Duas figuras não poderiam deixar de estar presentes nessa surda alegria, Magnus Bardela e François Servenière. Não fosse Magnus, possivelmente jamais teria a ideia de ter um blog. Já relatei várias vezes o fato de que o amigo certo dia me questionou a respeito de provável feitura de um blog. Hesitei no início, mas Magnus montou meu blog no dia 2 de Março de 2007, sem que na realidade soubesse eu de sua intenção, e me disse sorrindo: “Agora é só começar”. Ainda hoje, quando tenho algum problema técnico banal com meu blog, socorro-me junto a Magnus que, quase sempre, de sua morada soluciona essas dúvidas.  Confesso que nos meus 79 anos não mais tenho disposição para acompanhar a mutação “genética” constante da tecnologia. François Servenière, pensador e compositor de imenso talento, desde 2011 participa ativamente de meu blog. Seus comentários inteligentes, de um verdadeiro pensador, passeiam pelos mais variados temas que vão sendo publicados semanalmente. Não há uma só semana em que não me escreva, a comentar o novo blog. Quantos não foram os Ecos publicados após post que particularmente o interessou, com respostas reflexivas extraordinárias. Um autêntico partner.

Mencionaria por último Luca Vitali (1940-2013), imenso artista plástico e designer que faz parte de meu universo de afetos. Quantos não foram os posts por ele ilustrados. Sinto saudades das leituras que fazia ao meu saudoso amigo, artista absoluto que captava minha intenção e, sem que eu pedisse, um ou dois dias após me enviava um desenho singular. Almoçávamos todas as terças-feiras no mesmo lugar. Sua morte repentina, em Abril de 2013, fez-me durante alguns meses ter a sensação de que ele iria chegar para o almoço a sorrir, trazendo consigo suas ideias pictóricas destinadas a seus magníficos desenhos e telas. Luca, Servenière na França e eu formávamos um trio que cultuava as artes sem quaisquer outros interesses. Servenière e eu prosseguimos, e a concretização sonora da Série Cósmica de Luca seria traduzida na composição dos Études Cosmiques para piano, que tive a alegria de interpretar e gravar (selo francês ESOLEM, 2017).

Música, literatura e corridas preenchem meu cotidiano. Juntam-se às outras e decisivas dádivas, família e amigos. Meu profundo agradecimento ao leitor que me tem acompanhado nesse caminhar. Quantos não são aqueles que semanalmente, através do e-mail, enviam-me palavras de estímulo. Esse apoio faz bem e continuarei a escrever. Até quando…

This week my blog reached 1.000.000 visitors, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week and on how proud I am of such a large following. In this post I recall the subjects that are dear to me and the friends that give me support backstage. My thanks for all who helped me reach such a milestone.

 

 


Uma vida dedicada à Música

A íntima união da oração e da arte,
da melodia e da palavra que canta por si própria,
ou da melodia que canta sem palavras
prolongando para além dela o que a palavra não pode dizer…
tudo é oração e arte,
a qual mais encanta, prende e eleva,
quanto mais perfeita a técnica em que se baseia a sua interpretação.
Júlia d’Almendra

O recente livro do organista Domingos Peixoto, “Júlia d’Almendra e o movimento organístico em Portugal” (Lisboa, By the Book, 2017), presta tributo a uma das mais expressivas figuras da música portuguesa no século XX, Júlia d’Almendra (1904-1992). A presente obra tem preciosas colaborações de Idalete Giga (coordenação da obra) e de Mariana Rosa (coordenação de textos e recolha iconográfica). Em blog bem anterior busquei traçar um pouco do perfil musical e humano da notável gregorianista (vide “Júlia d’Almendra – Uma existência a cultuar a Música”, 19/01/2013).

Domingos Peixoto, professor e organista, realizou trabalho investigativo de imenso valor ao revelar de maneira expressiva parte do grande contributo de Júlia d’Almendra para a Música Portuguesa, mormente nos aspectos essenciais voltados ao canto gregoriano, à pedagogia específica e ao sensível impulso que propiciou à expansão do ensino de órgão em Portugal.

Sabiamente, ao dividir o livro em dez capítulos Domingos Peixoto não deixa de historiar o ensino e a prática organística em Portugal na primeira metade do século XX. Pormenoriza a importância do Conservatório Nacional (Lisboa), instituição na qual seria professor titular de órgão, evidenciando o papel do estabelecimento no cenário português. Mostra-se figura plenamente capacitada para o intento a que se propôs.

O autor, ao definir Júlia d’Almendra como personalidade maior numa verdadeira cruzada, a fim de legar ao país o que havia de mais sedimentado e hodierno em torno do órgão instrumento, comprova o esmero e cuidado da gregorianista no sentido de cercar-se de intérpretes e professores europeus, mormente os da Escola Francesa, promovendo uma verdadeira e profícua “revolução” no que tange à importância do órgão na música sacra. Como consequência, a didática aplicada ao instrumento, a formação de inúmeros organistas e a difusão por todo Portugal da criação específica. Peixoto salienta igualmente a dedicação de Júlia d’Almendra e seu empenho extremado para que nada pudesse impedir esse desenvolvimento.

Ao longo de mais de dez anos de blogs ininterruptos, tenho salientado a importância fundamental da viagem para um jovem que pretenda estudar música em país que preserva tradições e que mantém na excelência o ensino criterioso e a prática interpretativa. É mais fácil para um jovem que estagia por bom período sorver a cultura de um povo. Poderá, ao regressar, tornar-se um “embaixador” cultural do país que o abrigou para aperfeiçoamento. Mais difícil essa “prática diplomática” para um denominado jovem na idade madura, que se desloca além fronteiras para trabalhos acadêmicos, mas impregnado por fatores vários de seu país de origem, que se tornam “amarras” para  a absorção mais harmoniosa.

Júlia d’Almendra, nascida em Tráz-os-Montes (Samões-Vila Flôr), pertencia a uma família que cultuava valores voltados à tradição. Pai e irmão prestaram relevantes serviços ao país. Quando viaja para a França, a fim de aperfeiçoamento junto ao Instituto Gregoriano de Paris, fá-lo já a antever a plena atuação vocacionada à música sacra, mais especificamente ao canto gregoriano. Não por acaso, defende com brilhantismo sua tese orientada pelo notável Henri Potiron, em Paris, a versar sobre a figura máxima da música francesa, Claude Debussy, encontrando ecos dos cantos gregorianos, conscientes ou não, na obra debussysta. Exemplos demonstrados por Júlia d’Almendra testemunham essa apreensão por parte de Debussy (d’Almendra, Júlia. Les modes Grégoriens dans l’oeuvre de Claude Debussy. Paris: Gabriel Enault, 1950).

Domingos Peixoto presta uma inestimável colaboração no sentido de dignificar Júlia d’Almendra, infelizmente não reconhecida como deveria ser em seu país, apesar do hercúleo empenho de sua ex-discípula e excelente gregorianista Idalete Giga. Revela-nos Domingos Peixoto aspectos marcantes nesse leque aberto por Júlia d’Almendra. Entre esses: a sua atuação como administradora, a intensa campanha voltada à divulgação competente da prática organística, a sensível qualidade na escolha dos professores que deveriam atuar nos estabelecimentos por ela criados, o Centro de Estudos Gregorianos (1953), sob o patrocínio do Instituto de Alta Cultura e o posterior Instituto Gregoriano de Lisboa (1976). Consideremos outros aspectos mais que não pertencem ao tema do livro, como o fato de ter introduzido em Portugal o Método Ward (criado por Justine Ward 1879-1975), ter criado a Semana de Canto Gregoriano em 1950, que durante muitos anos realizou-se em Fátima e hoje, em sua 66ª edição, acontece em Viseu sob a direção de Idalete Giga; a criação da revista “Canto Gregoriano”, da qual foi diretora e articulista de mérito, a corroborar a divulgação da música sacra.

Uma das grandes virtudes do livro em apreço terá sido o resultado de intensa pesquisa, a abordar Júlia d’Almendra como criadora das instituições mencionadas, decorrência da acolhida ascendente das Semanas Gregorianas na formação de cantores e regentes corais a partir de 1950. É louvável o empenho de Júlia d’Almendra na organização do Centro Gregoriano de Lisboa, na elaboração curricular e na busca sem trégua dos nomes basilares em cada área do conhecimento específico. Quando faço referência ao fato de um músico, após estágio sedimentado em países onde a cultura erudita é tradição, regressar à sua terra e se tornar um “embaixador” do país que o abrigou, tenho em mente, como exemplo transparente, Júlia d’Almendra. O estágio em França, para  elaboração de tese junto ao Instituto Gregoriano de Paris, fê-la admiradora inconteste da cultura musical francesa. Entre as principais escolas organísticas na Europa prepondera a francesa, a marcar decididamente escolhas que d’Almendra faria no futuro como dirigente em Portugal. Professores do Instituto Gregoriano de Paris, do Conservatório Nacional Superior de Paris, da Universidade Sorbonne e da Escola César Franck compuseram o corpo docente do Centro Gregoriano de Lisboa, e mais tarde, do Instituto Gregoriano de Lisboa. Os nomes referenciais em França estiveram em terras lusíadas para apresentações ou permanências mais ou menos longas para cursos específicos. Peixoto enumera-os criteriosamente, a evidenciar contributos individuais marcantes, que corroboraram a edificação de uma escola organística portuguesa. Alguns desses nomes respeitáveis, tantas vezes presentes para regerem cursos durante as Semanas Gregorianas, merecem citação. Primeiramente Édouard Souberbielle (1899-1986), um dos grandes organistas de sua época, e Jean Guillou (1930-  ),  extraordinário  organista e compositor, titular emérito da Igreja de Saint-Eustache, em Paris. Estiveram a ministrar aulas e oferecer recitais Claude Bouglon, Michel Jolivet, Arsène Bedois, André Sierkierski (polonês) e titular do órgão de Saint-Médard em Paris, Pierre Doury e Gaston Litaize. Frise-se que Júlia d’Almendra levaria a Lisboa, para aulas de abertura do ano letivo e posteriores cursos, respeitáveis organistas e musicólogos franceses, como Jacques Chailley (1910-1999), que manteria durante décadas amizade profunda com a ilustre gregorianista portuguesa, Auguste Le Guennant  (1881-1972),  Norbert Dufourcq (1904-1990), Geneviève de La Salle (1904-1993),  Edith Weber (1925- ), Claude Terrase (1925-2008), neto do compositor homônimo, Germaine Chagnol (1926-2014), Pierre Gazin, um dos últimos alunos do legendário Marcel Dupré (1886-1971). Contudo, a figura mais marcante e duradoura para a sedimentação definitiva dos ensinamentos da fabulosa escola francesa de órgão foi sem dúvida Antoine Sibertin-Blanc (1930-2012), que, radicado em Portugal desde 1961, esteve à testa não só dos cursos de órgão como de matérias teóricas (vide blog “Ad Memoriam – Antoine Sibertin Blanc – Um músico na acepção do termo”, 25/03/2017).

Os aprofundamentos de Domingos Peixoto conduzem o leitor às contribuições trazidas por músicos de outros países, mormente da Itália. Júlia d’Almendra receberia uma das maiores honrarias do Vaticano, a Medalha “Pro Ecclesia et Pontifice”, distinção atribuída pelo Cardeal Montini, futuro Papa Paulo VI, em 1953, pelo empenho de d’Almendra em favor da divulgação da música sacra em Portugal.

Domingos Peixoto, em seu precioso livro, aborda com precisão os programas dos cursos de órgão ofertados pelas entidades dirigidas por Júlia d’Almendra no decorrer das décadas e posteriormente debruça-se sobre o órgão que a gregorianista mantinha em sua morada à Rua d’Alegria, 25, 1º andar. Vai às origens do projeto, à difícil adaptação no apartamento, qualidades e problemas do instrumento e seu destino final.

“Júlia d’Almendra e o movimento organístico em Portugal” é livro obrigatório para todos que buscarem o conhecimento maior do ensino e da divulgação do órgão em Portugal na segunda metade do século XX. Gerações são tributárias do esforço maiúsculo de Júlia d’Almendra.

A título final,  diria que cheguei a interpretar  alguns corais e Prelúdios e Fugas de Bach no órgão existente na residência de Júlia d’Almendra, pois durante dez anos ficava sempre hospedado em sua morada, quando de meus recitais em Portugal. O instrumento já apresentava problemas que foram se acentuando, mas Júlia ouvia a sorrir essas obras excelsas. Nossa amizade, que se iniciou em torno de Claude Debussy – Júlia prefaciaria meu livro “O som pianístico de Claude Debussy” (São Paulo, Novas Metas, 1982) -  prolongar-se-ia até os últimos dias da notável gregorianista (1992). No Centro de Estudos Gregorianos apresentei-me sempre a tocar obras de Debussy, Estudos (integral), suítes, peças avulsas e La Boîte à Joujoux. Presente aos recitais, o notável organista Antoine Sibertin-Blanc, o ilustre crítico Humberto d’Ávila e Idalete Giga. Nosso relacionamento, na época das cartas manuscritas e dos correios morosos (ainda o são no Brasil), renderia mais de 40 missivas de Júlia d’Almendra e outras tantas minhas, assim como cartões postais. Chamava-me sempre de irmão em Debussy. Hoje essas cartas estão depositadas no Centro Ward de Lisboa. Poucos meses antes de sua morte, sabedora de meus aprofundamentos em Debussy, nosso sempre tema para conversas, levou-me à sua rica biblioteca e me ofereceu todos os livros preciosíssimos sobre o mestre francês escritos na primeira metade do século XX, que adquirira durante seus estudos em Paris. Lembro-me sempre da Julinha, assim a tratava, com muitas saudades. Uma figura histórica na cultura musical portuguesa, rigorosamente impecável. Vida inteiramente dedicada à Música, sem quaisquer outros interesses.

This post is an appreciation of the book “Júlia d’Almendra e o Movimento Organístico em Portugal” that has just been released (Lisbon, By the Book, 2017). Written by organist Domingos Peixoto, it pays tribute to Júlia d’Almendra, one of the greatest musical figures of the 20th century in Portugal thanks to her actions to boost the teaching of organ music at her time. Author Domingos Peixoto, piano and organ teacher at the National Conservatory of Lisbon, is up to the task. The book is mandatory reading for those who want to know more about the history of organ music in Portugal in the second half of the last century and about Júlia d’Almendra, expert in Debussy and Gregorian chant, who so far has not received in her country the recognition a professional with her accomplishments would deserve, despite the Herculean efforts of her follower Idalete Giga, current director of the Centro Ward de Lisboa, founded by Júlia d’Almendra.