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A gênese de inúmeras conceituações

Dans la vie on n’a jamais le temps…
(Carnets V – 2 )

Si je suprime l’arbre je suppprime
les messages que je puis recevoir.
(Carnets III – 123)
Saint-Exupéry

A leitura dos Carnets (Paris, Gallimard, 1999 – 1º edição, 1975) de Saint-Exupéry poderia desconcertar leitores assíduos do piloto-escritor. Redigidos entre 1936 e, possivelmente, 1942, durante a ebulição de Terre des Hommes (1939), e a anteceder Pilote de Guerre (1942), Le Petit Prince (1943), Lettre à un otage (1943-1944) e Citadelle, obra póstuma, os Carnets apresentam uma série de reflexões sobre o condicionamento do homem frente à História. A conviver com a obra literária de Saint-Exupéry, constantemente revisitada, mormente Citadelle, a leitura bem tardia dos Carnets foi-me reveladora de outras mais reflexões do autor.

Os Carnets, sob uma ótica, têm viés que pode desorientar o leitor; sob outra égide revelam na acepção o pluralismo de Saint-Exupéry, a sua abrangência humanista à antiga, pois seu pensamento perpassa literatura, política, ideologias, economia, religião, assim como temas não abordados em sua obra literária, como física e mecânica. Essa visão do mundo sob várias facetas poderia ser comparada ao multidirecionado pensar durante o iluminismo em pleno século XVIII em França.

Na introdução de Pierre Chevrier tem-se o modus faciendi desses Carnets: “Saint-Exupéry tinha consigo, no bolso interior de sua vestimenta, uma caderneta encadernada em couro macio, na qual consignava suas reflexões as mais diversas. É fácil detectar, durante a leitura desses apontamentos, aqueles que lhe servirão como aide-mémoire para trabalho posterior, outros que ele desenvolvia para clarificar seu próprio pensamento ou mesmo vários que surgiam como uma exclamação”. Os Carnets foram escritos tantas vezes em situações incômodas, como em voo ou em carro, o que fez com que algumas palavras se tornassem ilegíveis.

Os textos inseridos nos Carnets não foram escritos para ser publicados, diferentemente de outro recentemente resenhado neste espaço, Une très légère oscillation, de Sylvain Tesson, nitidamente pensado para publicação. Esse descompromisso dos Carnets com o futuro, se sob um aspecto faz fluir reflexões inúmeras vezes sem continuidade ou frases isoladas, sob outra égide, mercê da prolixidade temática, não incita à leitura de maneira sequencial. Há temas precisos voltados a áreas de conhecimento de Saint-Exupéry, como mecânica, física, matemática, economia e salários, política num período de transformações sensíveis pré-Segunda Guerra e seus primórdios, temas tratados com terminologia apropriada, distanciando-os do leitor habituado aos seus romances e narrativas. Para desconhecedores de determinadas dessas áreas, voltadas a experimentos de ordem mais “técnica”, a leitura pode tornar-se ininteligível. Não tendo ligação com romances que tiveram plena aceitação, há, nos Carnets, reflexões não continuadas que estarão metamorfoseadas em seus livros, mormente em Citadelle.

Desfilam na Agenda e nos cinco Carnets que integram o livro – cada Carnet com as reflexões numeradas -, vários personagens, a grande maioria desconhecida hoje, mas que faziam parte de um amplo cotidiano, presencial ou não, do autor.

Entre as numerosas conceituações, muitas sem continuidade, considera, através de sua visão humanista, que políticos não têm de “fundamentar conceitos, pois esse é trabalho do espírito e através dele a humanidade caminha”.

Entende similaridade entre domínio espiritual e intelectual e que “uma civilização oferece ordenamento na natureza e no homem. Uma civilização oferece a riqueza do coração”. Essa junção de valores humanistas percorrerá toda sua obra literária

A se orientar por princípio basilar negligenciado, mormente em nosso país, observa que “o povo não pede a realização de sua vontade, mas sim de ter direito à educação, à compreensão”.

Para músicos, preferencialmente pianistas, Saint-Exupéry explana longa conceituação sobre destinação da riqueza a um carro de luxo e a um piano de cauda: “A aristocracia do dinheiro não coincide com a aristocracia verdadeira. As reformas sociais devem se ater à renovação de certa aristocracia, como também dispor uma economia que permita consumir tudo. Se é chocante comprar-se um piano de cauda face a um morador de rua que passa fome, não significa o fato que a compra de um piano não seja infinitamente digna do homem. Primeiramente será necessário permitir ao morador de rua comer, sim, mas não agir demagogicamente a impedir a compra de pianos de cauda. De fato, tem-se não uma solução econômica, mas um retorno moral que infelizmente se prende à noção mesma de grandeza, de luxo, de dignidade e de elevação espiritual. A distribuição de pianos de cauda para moradores de rua resultaria zero (um franco por homem e a cada ano…) e é bom que se conserve numa sociedade esse móvel de emulação, essa esperança ou, mais exatamente, essa imagem da grandeza humana. Os membros de um povo que possuem uma rainha têm um pouco do sangue real correndo em suas veias,”.

Inúmeras reflexões sobre sistemas políticos estão inseridas nos Carnets. Reiteradamente Saint-Exupéry retorna ao tema, o que demonstra sua preocupação no peristilo da 2ª Grande Guerra. Também pormenoriza-se nas várias categorias de classes sociais. Essas reflexões, por vezes repetitivas em apontamentos distanciados, refletem a tensão vivida no período.

Segmentos maiores ou menores que compõem os Carnets propiciam, por vezes, reflexões curtas à maneira de aforismos, essa sentença breve que encerra a síntese de uma reflexão. A menção a alguns faz-se oportuna:

O instinto de identidade é mais forte do que aquele de conservação.

Do homem eu não me pergunto ‘qual o valor de suas leis’, mas ‘qual é seu poder criador’.

Por que a verdade conceitual leva-me a verificar a verdade da observação? (Entre Newton e o louco há pouca diferença).

Assim são as leis da natureza.  Primeiramente a ordem, que é a “expressão” da natureza.

Psicanálise. O homem quer formular aquilo que sente. Se não formula, ele inventa os atos.

Trata-se de saber se eu prefiro o homem livre ou não – mas eu prefiro o homem que é livre.

Depreende-se dos Carnets a propensão para a busca, “visionária” talvez, de uma igualdade. Se condena a ganância pelo lucro no sistema capitalista, faz também duras críticas ao socialismo. Esse pensar liberto de amarras não o torna indiferente. Se questiona tantas vezes, em outras mais reflexões posiciona-se e nesse redesenho cresce o pensador voltado à problemática do destino do homem e de sua condição. A leitura dos Carnets torna-se instrumento relevante, a corroborar o entendimento de suas obras literárias, mormente pelo fato de estarmos diante de fragmentos ou esboços. (tradução: JEM)

Comments on the book “Carnets”, by the French writer and aviator Antoine de Saint-Exupéry, made up of fragments of notes and thoughts not thematically linked, often jotted down on-the-go and saved in a leather bound pocket journal Exupéry carried with him. The author being a multi-faceted talent, such notes cover a wide range of topics: literature, politics, economics, religion, as well as technical subjects, like physics and mechanics. Not intended for publication, they served as an “aide-mémoire” for the author himself, with some ideas developed later in his fiction. Though just fragments, the Carnets are a useful reading for a better understanding of Saint-Exupéry’s literary work.

 

 


Entrevista de raro interesse

A mundialização devia estar feliz.
Ela é uma dama das camélias: infectada.

O vírus é a flor do mal
crescendo ao contato do mundo interior e exterior.

Sylvain Tesson
(Entrevista: “Que ferons-nous de cette épreuve?”)

Meu dileto amigo, compositor François Servenière, enviou-me recente entrevista do aventureiro e escritor Sylvain Tesson a tecer reflexões sobre o confinamento devido ao COVID-19. A entrevista, concedida a Vincent Tremolet de Villers e publicada inicialmente no Le Figaro aos 19 de Março último, teve outra edição pela Gallimard em Tracts de crise, nº 23.

Uma das qualidades de Sylvain Tesson em suas entrevistas é a agilidade de raciocínio, quase sempre coerente e original. A larga experiência que adquiriu em suas andanças pelo mundo, que resultaria em uma bibliografia considerável (vide no menu: Livros,   Resenhas e Comentários – lista), faz com que, da inquietação pelo confinamento, Tesson passe a refletir sobre o significado dessa exclusão social, assim como a respeito do humano diante do COVID-19. Frente às seis perguntas do entrevistador, o escritor se posiciona com clareza.

Primeiramente entende que a ultramundialização terá avaliação efêmera no futuro. Acredita que, desde a queda do muro de Berlin, o materialismo e a banalização das relações humanas via internet fazem com que “o digital complete a uniformização”.  A partir dessas premissas, Tesson caracteriza aspecto fulcral: graças às reações rápidas impostas pela mundialização, fomos levados ao “fique confinado”, algo impensável anteriormente. Tem dúvidas sobre o pós-COVID-19, passado o que ele denomina pangonligate, referente à possível transmissão por pangolins ou morcegos.

Tesson comenta a posição do catastrofista, que faz parte dessa atração do homem pela morbidez. “Para certos profetas da catástrofe, não há necessidade de inventar o futuro, nem de suavizar a análise, tampouco de se lançar inteiramente na conservação daquilo que se mantém. O infeliz fundamentalista anuncia o inferno de Bosch, mas estoca patês. Muitos esfregam as mãos e dizem: ‘Nós bem que avisamos!’ Não perceberam que o pontapé inicial partiu de um pequeno animal parecido com um panzer vestido por Paco Rabane”. Instado pelo entrevistador sobre quais conselhos poderia dar de seu confinamento, Tesson acrescenta: “Você percebeu a nossa chance? Durante quinze dias o Estado assegura a mordomia de nosso confinamento forçado. Há um ano, parte do país queria derrubar o Estado. De repente, tem-se consciência: é mais agradável sentir uma crise na França do que na Curlândia Oriental. O Estado se revela como Providência que não exige devoção. Pode-se cuspir sobre ele, mas ele virá socorrê-lo”.

Tesson observa dado relevante que faz toda a diferença nesse confinamento forçado, a vida interior que parte da humanidade desconhece: “Tenho compaixão pelos que passarão dias longe de um jardim”. A pensar possivelmente no letrado com acesso à cultura como ideal, considera essa compaixão estendida “àqueles que não amam a leitura e que ‘não têm a menor noção que um Rembrandt, um Beethoven, um Dante ou um Napoleão existiram’, como escreve Stefan Zweig no início do Jogador de xadrez”.

Crítico mordaz de aspectos da tecnologia voltados à imagem nas telas, seja ela televisiva ou através das engenhocas que invadiram o planeta, mormente neste século, afirma: “Abram os livros. Diante de uma tela vocês estarão duas vezes confinados!” Insiste em outro segmento da entrevista: “Tomamos consciência de evidências esquecidas. Citemo-las: Ficar em casa não significa detestar seu vizinho. Os muros são membranas de proteção e não blindagens hostis. Eles são perfurados por portas e podemos escolher abri-las ou fechá-las. Ler não significa se aborrecer”.

Insiste nesse tema da nocividade da alienação motivada pela fixação do homem atual nesses avanços tecnológicos: “Nós, humanos do século XXI, seguimos bem desfavorecidos nesse desafio que nos é proposto. A nova ordem digital-consumista habituou-nos a temer o vazio. A revolução digital é um fenômeno hidráulico. Internet e vaso sanitário, preenchem o espaço vacante em alta velocidade. O tubo tem sede. É necessário fluir! De repente, o confinamento impõe uma experiência do vazio. Não se deve, contudo, agir como preconiza a conexão integral: preencher tudo com qualquer coisa.” Em “Une três légère oscillation” (vide blog, 28/03/2020), o autor, sob outro olhar, comenta essa realidade. Necessário verificar que não se trata de elitismo quando Tesson sugere a leitura, assim como o acesso à cultura artística, musical, filosófica acima mencionada, através da citação de expoentes nessas áreas. O vazio viria da desinformação, da impossibilidade de o homem moderno se ater a aspectos da cultura humanística pelo massacre diário, através do baixíssimo nível de parte substancial das programações televisivas, dos sites portais e dos aplicativos das engenhocas digitais mais evidentes, que desconsideram quase completamente a cultura dita erudita, enaltecendo o lixo da imagem, dos costumes, da linguagem, atentados que desvirtuam as mentes.

Nesse período com desfecho imprevisível, em que se assiste mortos sobrepostos em valas coletivas, ouçamos de Alexandre Scriabine o Poema Trágico op. 34 na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=K0k7wUwHAn8

Tece elogios rasgados aos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde vestidos de branco, comparando-os àqueles que há dois anos atrás correram sérios riscos debelando o fogo da Catedral de Notre-Dame. Diz: “O heroísmo não mudou de definição: sacrifício de si mesmo. A nação se conscientiza de que dispõe desses dedicados servidores, que aceitam salvar ou morrer”.

Frente à reconciliação interior ou não, Tesson se posiciona: “Que faremos  após essa prova? Como sou ingênuo, acredito que os passageiros do trem cyber-mercantil chegarão a um aggiornamento.  As civilizações estabeleceram-se sobre alguns princípios: separação, reclusão, distinção, singularização, enraizamento. Confinamento, pois. Decênios foram suficientes para varrer esses conceitos em nome de uma ideologia: o globalismo igualitário preparatório à grande liquidação. A propagação massiva do vírus não é um acidente. É uma consequência”.

Tesson considera que a mundialização inevitável “não é irreversível e que a nostalgia pode propor novas direções!”. Finaliza: “ Diante da pretensa inevitabilidade das coisas, o vírus do fatalismo possui seu álcool-gel: a vontade. ‘Caminhemos’ é finalmente um maravilhoso slogan, uma vez ultrapassada essa fase”.

Verifica-se que as preocupações de Sylvain Tesson aproximam-se dos atos da grande maioria das populações atingidas pelo COVID-19. O leitor deve lembrar-se da cantoria solidária de italianos da Lombardia, epicentro do vírus na Itália, que saíam às varandas para cantar, inclusive o seu Hino Nacional. Faz lembrar tantas narrativas existentes em livros, relatos históricos, romances e poesias, nas quais grupos que seriam exterminados cantavam hinos religiosos ou pátrios. Heroísmo pré-morte certa, instantes a anteceder a tragédia.

Quanto às leituras ou atividades culturais outras, como as que menciono em termos individuais no blog precedente, dependem da formação. Para famílias onde impera harmonia, mesmo que não haja essa vocação para a leitura, assistimos pelos noticiários a tantas sugestões de atividades criativas,  inexistentes antes da pandemia, mas que unem o núcleo familiar. Sob outra égide, acentuou-se o número de separações ou, no limite máximo das incompreensões, a cifra relativa ao feminicídio. O convívio permanente entre paredes, que pode ser enfadonho para tantos, tem levado à fatalidade.

Em termos de Brasil, desassistido pela enorme classe política, o que não dizer do empobrecimento educacional, a levar moradores das favelas, das comunidades, daqueles sobre palafitas, a viverem aglomerados, basicamente sem possibilidades de reflexão mínima quanto ao mal que os atinge?

Tem carradas de razão Sylvain Tesson ao dizer que “Uma disparidade imediata se revela. Alguns têm vida interior, outros não”. Nossa classe política tem interesse em solucionar ao menos problemas práticos elementares para minimizar o desalento, a desesperança e a desassistência aos desfavorecidos? Se atiram migalhas, são apenas migalhas. Saberia a grande maioria dos integrantes dos três Poderes o que significa vida interior?

Clique para ouvir o Coral Jesus Alegria dos Homens de J.S.Bach na transcrição de Dame Myra Hess. Piano: J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ

Comments on an interview given by the French writer and adventurer Sylvain Tesson and published by “Le Figaro” of last March 19. Tesson talks about his quarantine days in Paris in times of Covid-19, an experience he turns into a chance to muse over the meaning of social exclusion in the outbreak of the virus across the world, the impact of digital technologies in our lives, the world once the virus has been controlled.  As usual, Tesson’s acute intelligence and the originality of his ideas make this interview well worth reading.

 

 

Suas lembranças tardias de três compositores fundamentais

C’est la musique souveraine
qui nous fait entrevoir les vrais dimensions de l’homme.
Georges Duhamel (1884-1966)

Após comentários resumidos no blog anterior sobre a notável pianista Marguerite Long ao longo de sua carreira de intérprete, no que concerne a colaboração da artista não apenas como intérprete essencial dos maiores compositores do período como na divulgação de suas obras, abordarei sua contribuição literária.

Tardiamente Marguerite Long legaria suas recordações do convívio musical e amistoso com três dos principais compositores franceses desde a segunda metade do século XIX: Gabriel Fauré (1845-1924), Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937). Seria possível entender que, após tantas décadas passadas, a memória privilegiada de Mme Long pudesse, por vezes, fantasiar alguns episódios. Um eminente musicólogo francês apontou-me determinadas alterações na narrativa da pianista que, sem falsear a essência essencial do pensamento, teriam sido inseridas com o propósito de evitar a aridez do texto. Assim sendo, a escrita tem sempre um caráter agradável, até em segmentos que denotariam a presença de situações conflitantes. Poder-se-ia acrescentar que essas “alterações” ficariam mais evidentes nos diálogos travados entre a pianista e interlocutores. Sob aspas, muitas décadas após, o instante do acontecido pode ter sido “romanceado”, sem contudo  modificar o essencial.

Primeiramente debruça-se sobre Claude Debussy (“Au Piano avec Claude Debussy”, Paris, René Julliard, 1960). Desfilam em suas páginas, quantidade de testemunhos de músicos relevantes, sendo que se pormenoriza nos encontros com Debussy no segundo semestre de 1917, poucos meses antes da morte do compositor, aos 25 de Março de 1918. Debussy se encontrava em Saint-Jean-de-Luz, no “chalet Habas”, já em pleno declínio físico. Para a cidade se locomoveram três pianistas célebres: Ricardo Viñez, Joaquin Nin e Marguerite Long. Debussy escreve ao seu editor Jacques Durand em Setembro: “… entretanto, tenho a chance de estar num lugar distante onde não os ouço”. O eminente François Lesure comenta: “Lendo-se ‘Au piano avec Debussy’, de Marguerite Long, tem-se a impressão de que, durante sua estadia no chalet Habas, Debussy se ocupou prioritariamente em trabalhar com ela. Nas 169 páginas de seu livro insere tantos outros testemunhos entre as raras sessões que o músico lhe dispensou” (Claude Debussy. France, Klincksieck, 1994). Seria possível entender que décadas acumuladas tenham superdimensionado esses encontros, que na realidade existiram, mas não na dimensão apregoada, e dos quais Mme Long extrairia certamente dados preciosos que sedimentaram suas interpretações das criações de Debussy. Acredito que a contribuição maior de “Au piano avec Claude Debussy” decorra das observações interpretativas da autora sobre obras fundamentais do compositor.

Anteriormente a Debussy, Marguerite Long entrara em contato com a criação de Gabriel Fauré sem ao menos tocar até 1902 qualquer de suas composições. Revelado, Fauré e a admiração pela sua obra permanecerão por toda a existência. Como relata em seu livro, foi um dos mestres franceses do período, Antonin Marmontel, que a fez entrar em contato com as criações de Fauré e, no primeiro encontro com o compositor, interpreta a 3ª Valse-Caprice. Comenta: “Toquei a 3ª Valse-Caprice. Gabriel Fauré me escuta, atento, inquieto sem dúvida por ouvir pela primeira vez a jovem intérprete. Compreenderia ele desde o início o fervor que me animava? A alma-irmã que palpitava sob os dedos da jovem musicista? Sentiria ele que um ser, apreendendo de instinto o sentido secreto de sua música, dispunha-se a aprofundar sua obra e fazê-la ser conhecida e compreendida? Ao acabar a execução, ele parecia de tal maneira contente que  me senti recompensada e feliz”.

Em 1907, Marguerite Long estreia a Ballade de Fauré para piano e orquestra – versão da original para piano, op. 19 -, que será a obra a encerrar a bela carreira de Mme Long aos 3 de Fevereiro de 1959. Marguerite Long traça em seu livro uma síntese biográfica tardia de Fauré, de interesse para os estudiosos, certamente tendo colhido informações ao longo do convívio musical com o compositor. Relevantes os seus testemunhos sobre o círculo de amizades de Fauré. Convidada pelo músico, torna-se professora do Conservatório Nacional. Sob outro aspecto, não se furta de narrar os esforços acadêmicos, apesar de várias promessas, para que não fosse nomeada professora titular do Conservatório. Muitos anos se passaram para que enfim obtivesse o cargo. Houve desavenças com Gabriel Fauré dirimidas nos estertores da existência do compositor.

“Au piano avec Gabriel Fauré” tem capítulos preciosos nos quais a autora se debruça sobre a obra do mestre, a orientar a interpretação. Pormenoriza-se em algumas peças, exemplificando. Técnica, estilo, interpretação, memória e outros quesitos também são abordados.
Clique para ouvir o 6º Nocturne de Gabriel Fauré op.63 na interpretação de Marguerite Long:

https://www.youtube.com/watch?v=_PVNtMQ5THY

Insiro o 4º andamento da gravação histórica do Quarteto nº 2 em sol menor op. 45 de Gabriel Fauré. Os outros três instrumentistas foram luminares no período: Jacques Thibaud (violino), Maurice Vieux (viola) e Pierre Fournier (violoncelo). A gravação é plena de uma intensidade emotiva singular. Marguerite Long encerra seu comentário no libreto que acompanha o LP, lançado inicialmente em 78 rotações: “Uma palavra ainda sobre o Quarteto em sol menor. Foi ele gravado no dia 10 de Junho de 1940. Pela manhã, os alemães invadiram a Holanda. Partimos para o estúdio angustiados. Sentia a plena aflição de Thibaud: seu filho Roger combatia na linha de frente. Durante a gravação nossa emoção estava no limite e creio que essa gravação oferece uma imagem fiel. Na manhã seguinte Roger Thibaud morria heroicamente”.

Clique para ouvir o quarto andamento do Quarteto em sol menor op. 45Allegro molto,  de Gabriel Fauré

https://www.youtube.com/watch?v=B9X7ms040Tk

“Au piano avec Maurice Ravel” (Paris, Julliard, 1971) encerra o tríptico consagrado aos três maiores compositores franceses desde meados do século XIX, que se juntam ao extraordinário Camile Saint-Saëns, músico que Marguerite Long conheceu bem, interpretando suas obras, mas que não teve uma relação tão próxima como a estabelecida com Fauré, Debussy e Ravel. Tem-se, nessa homenagem a Ravel, a imensa colaboração do Professor Laumonier, que, admirador confesso do compositor, após a morte da pianista e sabedor de seu grande interesse em completar o tríplice tributo, recolheu os textos já escritos por Mme Long e terminou o livro, não sem a colaboração de músicos e aficionados pelo compositor e pela intérprete. O livro tem interesse. Há vários episódios pormenorizados e conhecidos, mas considere-se a apreciação das principais obras para piano do compositor a servir de orientação aos intérpretes.

Ao escrever “Le Piano” (Paris, Salabert, 1959), Marguerite Long lega aos estudantes, professores e pianistas uma obra de síntese. Conhecedora de basicamente todos os métodos relativos à técnica pianística, a autora não apenas apresenta exercícios novos, como realiza uma súmula de procedimentos de tantos que se dedicaram ao mister:  Charles-Louis Hanon, Louis Benoit, Beringer e outros mais. Nesse “resumo”, em poucas páginas, métodos precedentes, alguns caudalosos, são reduzidos a formulações práticas. No longo e substancioso prefácio, escreve: “Essas páginas destinam-se em princípio aos pianistas já com certo desenvolvimento ou mesmo àqueles que buscam a alta virtuosidade. Que estes não se sintam indignos de seus talentos diante dos conselhos por vezes elementares que se seguem”. Uma outra frase relevante: “O estudo de piano necessita longos esforços. Todavia, esses não consistem em lutar contra a natureza. Uma mão normal é feita para tocar piano e todo pianista que não compartilha dessa convicção é indigno de sua arte”. Tem-se pois uma “enciclopédia” de exercícios a facilitar o aprendizado, bem mais prático do que o realizado por Alfred Cortot, “Principes Rationelles de la Técnique Pianistique”, método de grande mérito, mas complexo. Marguerite Long perpassa em “Le Piano” parte essencial da técnica pianística tradicional.

Relembrar os grandes mestres do passado é imperativo. Foram eles que legaram aos pósteros as diretrizes da arte do piano. Cultuá-los enriquece nosso conhecimento musical. Saber as origens.

In this post I comment on books written by the outstanding French pianist Marguerite Long. Later in life, after her working and personal association with three of the great French composers of all times, she wrote “At the piano with Debussy”, “At the piano with Fauré” and “At the piano with Ravel”, books of reminiscences with musical examples to discuss the interpretation of their works. She also wrote “Le Piano”, an exercise book with a synthesis of techniques sampled from many sources, along with new exercises by the author herself, a master of the French style piano playing.