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Sylvain Tesson a buscar correspondência hodierna

Quando se tem um diamante nas mãos,
não nos fascinamos pela estrutura molecular do carbono,
mas sim, primeiramente, pelos seus reflexos.
Sylvain Tesson

Nos anos da juventude, a leitura da Ilíada e da Odisseia em edição reduzida, foi realizada com entusiasmo, a provocar admiração por todos os personagens que percorrem pelas magistrais criações atribuídas a Homero. Leitura que fez a mente viajar naquela magia da Grécia Antiga. Os poemas, que perduram há cerca de 2.500 anos, causam debruçamento contínuo de estudiosos e leigos, aqueles abordando-os sob as mais diversas orientações, literárias, sociais, geográficas, históricas, mitológicas…, estes buscando o convívio imaginário com os personagens extraídos da mitologia grega – deuses, demiurgos, heróis, homens, mulheres belas ou odientas, assim como animais e monstros -, todos desfilando pelos poemas de Homero.

Sylvain Tesson esteve presente neste espaço desde o início da presente década. Foram 15 livros resenhados ou comentados. Sua intrepidez, ao percorrer o planeta a pé ou de bicicleta, narrando suas aventuras em livros consagrados, tornaram-no um dos mais ventilados escritores franceses. É um dos meus autores preferidos no gênero.

Ao escrever “Un été avec Homère” (France, Équateurs/Humensis – France Inter, 2018), Sylvain Tesson, já no prefácio, precisa o roteiro basilar: evidenciar que o todo da Ilíada e da Odisseia chega a nós como prenúncio da história da civilização, decorridos 25 séculos, dando ênfase às últimas décadas. Para o leitor, necessária se faz a inserção de dois parágrafos que indicam o roteiro dessas projeções propostas por Tesson. Escreve:

“Século XXI: O Oriente Médio se dilacera, Homero descreve a guerra; Os governadores se sucedem, Homero pinta a sanha devoradora dos homens; os curdos combatem com heroísmo em suas terras, Homero conta a história de Ulisses para retomar seu poder usurpado; as catástrofes ecológicas nos aterrorizam, Homero pincela o furor da natureza diante da loucura do homem. Todo evento contemporâneo encontra eco do poema ou, mais precisamente, cada sobressalto histórico é o reflexo da premonição homérica.

Abrir a Ilíada ou a Odisseia corresponde a ler um jornal. Esse diário do mundo, escrito de modo definitivo, fornece a certeza de que nada muda sob o céu de Zeus: o homem continua fiel a si mesmo, animal grandioso e desesperado, inundado de luz e recheado de mediocridade. Homero permite a economia de uma assinatura de jornal.”

Seriam pertinentes essas adequações à nossa realidade? Se considerarmos o todo das duas obras de Homero em dois temas essenciais, o longo embate troiano (Ilíada), assim como o labiríntico retorno de Ulisses a Ítaca (Odisseia), não é difícil entender que as condições essenciais do homem moderno frente às mais complexas situações lá estariam. O teatro de William Shakespeare, dois mil anos após, não pode igualmente favorecer aproximações com a realidade atual, visto que os ingredientes basilares de hoje lá estariam configurados?

Para realizar “Un été avec Homère” Tesson refugia-se numa pequena ilha, Tino, no mar Egeu, a fim de, em outro contexto, ao do teatrólogo russo Constantin Stanislavsky, viver o clima dos dois poemas épicos de Homero. Afirma: “Basta estagiar algum tempo ao vento sob uma luz cambiante para sentir-se isolado numa ilhota do arquipélago das Cíclades.”

Sendo Ilíada e Odisseia livros referenciais da cultura humanística universal, seria compreensível a vastíssima literatura sobre a temática. Ao se desviar de exposição acadêmica, antagônica à sua formação e à prática voltada à aventura pelo planeta, o caminho empreendido por Tesson no sentido de “decifrar” conteúdos, “atualizando-os”, apresenta armadilhas. Seu entusiasmo fá-lo afirmar: “Um conselho dadaísta: deixemos nossas preocupações acessórias! Lavemos nossos pratos amanhã! Apaguemos nossas telas! Deixemos chorar nossos bebês, e abramos sem tardar a Ilíada e a Odisseia para ler as passagens em alta voz, diante do mar, à janela do quarto, no cume de uma montanha. Deixemos que cresçam em nós os cantos desumanamente sublimes. Eles nos ajudarão nessa neblina do nosso tempo, pois séculos horríveis avançam. Amanhã, drones policiarão um céu poluído de dióxido, robôs controlarão nossas identidades biométricas e será proibido reivindicar uma identidade cultural”. A admiração incontida afasta-o da imparcialidade no julgamento. Falha na apreciação das obras? Em sendo “Un été avec Homère”, originalmente, programas transmitidos em 2017 pela France Inter, a transcrição, escrita na tranquilidade de Tino, mereceu talvez o aprofundamento no conteúdo e, na admiração ascendente, afastou-o do viés acadêmico. Eclode o olhar fantasista de Tesson, distante do olhar objetivo encontrável nas andanças como peregrino, vagabond e contínuo observador. Os poemas eleitos estabelecem visão inédita e reverencial. Tesson se desnuda e as mazelas do homem ao longo dos séculos frente a todos os problemas pareceriam refluxo dos espetáculos mitológicos propostos por Homero. Uma plêiade de figuras atuantes na vida política e empresarial da atualidade é mencionada, a fim de ratificar a posição de Tesson relativa à “paternidade” dos poemas de Homero com a realidade presente. Frases do autor francês com o intuito de firmar posições, por vezes soam arbitrárias ou mesmo como boutades, mas fazem parte de sua memória como aventureiro andarilho: “Homero – antes de ser personagem de biografia (que chatice!) – é uma voz, dando chance aos homens de compreenderem como eles se tornaram aquilo que são”; “A Odisseia é a narrativa de um perpétuo naufrágio”; “Odisseia, réquiem de homens perdidos”; “Odisseia é a narrativa marítima estremecida por convulsões que convergem em direção à flecha lançada por Ulisses”; “Odisseia é o pior manual de navegação jamais publicado na história da humanidade”; “Ilíada soa atual pois é o poema da guerra. Em dois mil e quinhentos anos, a sede de sangue pulsa sempre. Só o armamento mudou”; “Homero é o músico. Vivemos no eco de sua sinfonia”; “O herói de Homero se caracteriza pela força. Seu vigor é a sua nobreza. Esta permite ao herói agir e atingir seus fins. No mundo homérico, não há ação sem pujança. Nesse caso, não haveria que intenções. O herói avança como uma fera, pois feito para a guerra e o movimento”; “Ser uma vítima, eis a ambição do herói de hoje”.

Em sua leitura das duas obras capitais de Homero, Tesson pormenoriza, no segmento “L’Hubris ou la chienne égareuse”, com seis subcapítulos, o conceito húbris, oriundo da Grécia Antiga, com uma das tantas definições existentes da palavra: “a interrupção desregrada do homem no equilíbrio do mundo, injúria feita ao cosmos”. Os deuses do Olimpo, sempre a interagir com os mortais, saberiam o momento de castigar o prepotente. Aplica o conceito de húbris em tantas passagens de Homero.

O herói, tão presente na Ilíada como na Odisseia, teria chegado aos nossos tempos, como afirma Tesson: “Sua pujança metafísica alimentou a cultura europeia. Ela continua a irradiar nosso consciente coletivo. Em cada época um novo herói surge, encarregado de encarnar os valores do momento e essa figura eterna se torna doravante um tipo a abranger vários aspectos da vida social”. Presente na arte da Roma Antiga, na Renascença e na atualidade, os heróis gregos, na visão de Tesson, tem nossa guarida pelo fato de que nenhum deles é perfeito. “O tempo do Deus monoteísta distante e abstrato ainda não chegara. Vivíamos a Idade das divindades falíveis, envolventes, pois elas dançavam às margens de seus próprios abismos”.

A devoção de Tesson às duas obras referenciais de Homero fá-lo acrescentar que “Homero convoca numa corrente de palavras as imagens da natureza. As analogias elegíacas ajudam o poeta a romper a tensão narrativa. Elas assinalam que o mundo é uma vibração única onde animais, homens e deuses embarcam numa mesma aventura, complexa e explosiva. A beleza da revelação pagã se desnuda: tudo está ligado e unido nesse múltiplo viver. Um Grego não teria jamais o espírito carregado, tampouco a alma sem beleza se decretasse que um deus pudesse ser único e exterior à sua criação”. (Tradução: JEM).

A recepção pública da obra de Tesson decorre do seu olhar reflexivo a partir do contato humano com geografias e raças as mais diversas (vide lista no menu do blog: “Livros – resenhas e comentários”). Ilhado em Tino, com o mar, o céu e o vento como constantes daquele espaço reduzido, seria decisivo para o entendimento de seu pensamento incisivo, claro, poético tantas vezes, que buscou, bem voluntariamente nos poemas homéricos, as comparações com a realidade de nossos dias como temática essencial. É esse processo válido? É-o na medida em que Tesson encontra nas obras homéricas a base sólida para estabelecer sua crítica plena à atualidade como um todo. Seria possível entender que não poucas vezes a aproximação da narrativa de Homero com a atualidade tenha sido “forçada”, fruto provável de uma louvação ilimitada, como afirma: “Quinze mil versos da Ilíada, doze mil da Odisseia: para que escrever ainda!” No todo, suas afirmações são pertinentes, pois a índole do ser humano em seu caminhar pela existência tem analogias com as ações dos personagens das duas obras capitais da Antiga Grécia. Afinal, o homem continua o mesmo, voltado ao bem ou ao mal e às paixões mais complexas que norteiam seu caminhar no tempo.

A diagramação de “Un été avec Homère”, com as inserções dos textos de Homero em caracteres menores e na coloração azul, facilita a leitura, a possibilitar transições. A presença dos versos e a identificação exata das citações contribuem para que a consulta às criações de Homero possa ser ampliada.

In this post I comment on the book “Un été avec Homère” (A summer with Homer), in which the French adventurer and writer Sylvain Tesson studies carefully the events of the Trojan War (the Iliad) and the return of the hero Ulysses to his homeland, the island of Ithaca (the Odyssey) — two ancient Greek poems traditionally attributed to Homer —, pondering the relation of such events to present days challenging realities. The book is good and encourages further reading on the subject, though I think some of Tesson’s analogies between past and present sound arbitrary. However, he is right in his belief in the invariability of men: their virtues and vices remain unchanged since the Trojan War.

 

 

Retorno ainda uma vez a esse tema inesgotável

Na bela técnica realiza-se o desdobramento temporal
que é imanente à atividade do gesto;
ela é dinâmica e não mecânica;
pois uma bela passagem e até um exercício tocado com graça
não são restritos à igualdade mecânica
que acreditamos ser por vezes o ideal da técnica:
a leveza espontânea que eles exigem do intérprete
vale na exata medida em que estabelecem rubatos sutis
que atestam a secreta presença de uma alma,
organizando seu tempo íntimo.
Gisèle Brelet

Opiniões divergentes podem suscitar um aprofundamento maior de debate salutar. O blog anterior exibiu parte essencial da posição do compositor francês François Servenière sobre a atual escola pianística da China, que, de maneira contundente, tem apresentado valores que se apresentam no Ocidente em escala progressiva, exibindo preferencialmente virtuosidade extraordinária, nem sempre acompanhada da devida atenção ao estilo de compositores do passado. Respeito profundamente as opiniões de Servenière, dotado de mente privilegiada, apesar de nossas considerações não serem as mesmas sobre o tema. O fato de tê-las colocado em pauta trouxe a participação de leitores para o nosso debate.

Do ilustre compositor Ricardo Tacuchian recebi mensagem a apontar posicionamento extremamente equilibrado, vendo resultados positivos nas duas vertentes, mas deixando uma dúvida no final da mensagem:

“Estou acompanhando com muito interesse o debate entre você e François Servenière sobre questões de técnica e expressividade. Até que ponto uma postura se opõe ou se soma à outra? É uma pergunta difícil de responder, como em todos os outros campos da estética. Sua posição de respeito às intenções e características dos artistas do passado são insofismáveis. Entretanto, a atualização da forma de interpretação para os tempos de velocidade de nossos dias, defendida por François Servenière, também é válida. Afinal de contas, existem três importantes fontes criativas numa obra de arte: o compositor (autor de uma proposta), o intérprete (expositor desta proposta segundo seus próprios pontos de vista) e o ouvinte (decodificador final de toda esta cadeia, na intimidade de seus centros cerebrais). E o ouvinte de hoje não estaria mais ávido de receber uma mensagem beethoviniana através dos intérpretes chineses? Me parece que a grande dificuldade é encontrar um ponto em comum entre estas duas posições, se é que isso é possível. Aliás, a citação introdutória do pianista e professor Jacques Février que você faz em seu texto anterior, sobre as mil possibilidades de interpretação de Debussy (menos uma!) de certa maneira reafirma a necessidade de se achar ‘um ponto em comum’: o respeito ao conteúdo espiritual de determinada obra. E eu pergunto: isto tem a ver com a velocidade? São perguntas para as quais não tenho respostas, mas que cada vez mais me aproximam de minhas procuradas respostas, quando leio seus autorizados textos. Mas, tenho a impressão que nunca terei uma resposta definitiva”.

O professor titular da História da Ciência da FFLCH-USP toma um partido, a considerar a abalizada posição de François Servenière como fruto de sua experiência escritural:

“Eu me alinho com sua análise. Parece-me, e arrisco dizer, que Servenière escreveu pensando na música do tipo que é composta por ele, tão somente, e você, ao contrário, fez uma generalização muito cabível”.

Da parte do arquiteto Marcos Leite recebi o e-mail:

Quanto ao seu sempre agradabilíssimo texto, este traz a invariável pertinência da percepção que estudiosos como você e seu amigo François nos mostram e fazem entender o que escutamos, mas não temos a capacidade de, como simples amadores, traduzir o que fica limitado ao sentimento produzido pela audição. Penso. Traço paralelos a algumas situações que me são mais próximas, como, por exemplo, alguns intérpretes de jazz ou cantores da bossa nova. Volto aos clássicos e eruditos. Remexo no YouTube. Obrigado, meu amigo, por fomentar essa curiosidade cultural em tempos de valorização de ideias tão rasas”.

François Servenière nos fala dessa tendência da escola pianística chinesa, que teria vindo para ficar. Seria possível entender que, na escala vertiginosa dos avanços tecnológicos, haverá muitos recordes a serem estabelecidos. Quando insisto nessa aproximação esportes e virtuosidade instrumental é pelo fato de que a cada Olimpíada recordes também são alcançados e, frise-se, as ambições chinesas são claras, pois estão produzindo atletas para esse mister vitorioso. Contudo, no caso da Música, não estaríamos a estabelecer parâmetros que transformarão por completo os prestos e prestissimos das composições do passado? Pianistas detentores de técnicas descomunais, exemplificados por György Cziffra e Vladimir Horowitz, foram umas poucas exceções que, apesar dessas qualidades, não interferiram na interpretação de outros tantos pianistas consagrados. O que se acentua neste século é a presença de uma escola chinesa que se “globaliza” e que poderá provocar uma ruptura na própria interpretação tradicional, estruturada através das intenções dos compositores do passado. A metodologia pianística chinesa teria de agregar, a essa excepcional evolução técnico-virtuosística, a visão paralela da expressão, que só será integralizada através de um profundo estudo da cultura ocidental.

Apesar dos dois volumes referenciais de Gisèle Brelet, “L’Interprétation Créatrice”, terem sido escritos em 1951, distante mais de meio século dessa guinada da técnica pianística chinesa a impactar o Ocidente, consideremos uma sua reflexão, que atenderia aos dois posicionamentos em causa nestes dois últimos blogs a contemplar “Expressão e Técnica”. Escreve a autora: “A virtuosidade corresponde ao natural, ao ritmo natural do movimento – o tempo musical do gesto, essência secreta da música… A virtuosidade isola a essência ativa do gesto e da alma, sua forma simples, fora dos conteúdos que a mascaravam; ela é o triunfo da técnica viva, alimentando-se apenas dela e só a sustentá-la a atividade pura do intérprete e a duração viva a jorrar. Sob outra égide, essa atividade se reduz se for presa do automatismo, pois a virtuosidade se aniquilaria se a alma do intérprete, oprimida pelo peso das paixões, não pudesse mais, nesse enclausuramento, implantar prazerosamente sua fantasia criativa. Dessa maneira transparece a austeridade de uma sabedoria, mas sob a frivolidade aparente da virtuosidade. Se esta exige da alma daquele que a criou e daquele que ouve uma ascese direcionada ao seu ato fundamental, se ela a liberta de seus acidentes para fortificar sua essência, reconciliando-a com ela mesma, não seria a virtuosidade, no sentido mais nobre, virtus, virtude escondida?” (tradução JEM).

Ficaria neste espaço meus agradecimentos a François Servenière, que teceu reflexões sobre a “onda” pianística chinesa que chega ao Ocidente, possivelmente a oxigenar certos conceitos, aos inúmeros leitores tomando partido, ou da posição do ilustre mestre francês ou de meu posicionamento, assim como ao compositor Ricardo Tacuchian, que, após abalizadas considerações, deixa uma dúvida ao dizer: “tenho a impressão que nunca terei uma resposta definitiva”.

The last post mentioned that current trends in classical music tend to dissociate an artist’ technique and the expression of his feelings, with the French composer François Servenière and I expressing our different views on the subject. This has triggered discussions among readers, who came out in favor of one side or the other. Today I publish some of the messages received, among them the one by composer Ricardo Tacuchian, who says in his email that maybe we will never have a conclusive answer due to the difficulty in finding a common ground between the two distinctive approaches to playing an instrument.


Reflexões de Gisèle Brelet que soam atualíssimas

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Nunca é a técnica que mata a expressão,
mas a má técnica,
aquela que interpõe um mecanismo
entre o conteúdo espiritual e sua exteriorização.

Gisèle Brelet

O blog anterior teve guarida invulgar. Leitores solicitam-me mais dados sobre a autora. Recentemente em Paris perguntei a duas ilustres musicólogas a respeito. Disseram-me que Gisèle Brelet teve relevante desempenho, mas que hoje poucas referências a mantêm em evidência. Para esses atentos seguidores do blog semanal darei algumas informações, antes de tratarmos de um tema de extrema clareza proposto pela especialista e que, passadas quase sete décadas, continua atualíssimo.

Gisèle Brelet (1915-1973), musicóloga, crítica musical, pianista e filósofa francesa, teve produção literário-musicológica considerável, constituída por livros e colaborações relevantes em revistas arbitradas importantes, escrevendo sobre música e filosofia, predominantemente. Foi diretora da Bibliothèque Internationale de Musicologie a partir de 1951, a almejar uma difusão maior do pensamento musical contemporâneo. Seus livros publicados pelas Presses Universitaires de France (P.U.F.) foram traduzidos em várias línguas e seu pensamento musical e filosófico teve influência sobre inúmeros especialistas renomados, entre os quais Enrico Fubini, que nos visitou na Universidade de São Paulo, proferindo palestras e escrevendo artigo fundamental sobre o filósofo Vladimir Jankélévich para a Revista Música, da qual eu era editor responsável.

Os dois livros que compõem “L’Interprétation Créatrice” abordam questões fundamentais da interpretação. Vasta literatura musical tem tratado da temática ao longo das décadas. Não obstante, Gisèle Brelet empreende aprofundamento singular a visar a interpretação ideal. Tendo dedicado dois blogs ao primeiro volume e destacado capítulo essencial do segundo – “La musique enregistrée, musique vivante” -, no presente comentarei tópicos relevantes de tema explorado de maneira ampla pela autora neste segundo tomo: expressão e técnica. O pensamento de Gisèle Brelet envereda preferencialmente por searas subjetivas quanto à essência essencial e objetivas sob o prisma da realidade prática. Esse amálgama é uma das substâncias que tornam sua obra tão abrangente.

Brelet entende que “a arte não é senão técnica, na medida em que a técnica é o ato de exprimir-se. Todavia, podemos dizer que a arte não é senão expressão, pois inexiste técnica buscada em si e para si e que desempenharia, portanto, o papel de meio de expressão. Somente através da expressão o artista forja sua própria técnica”. A autora apreende o cerne da completude ao fundir as duas características fulcrais da interpretação. Teorias prolongaram-se através dos séculos na precisa separação de técnica e expressão, àquela voltada ao desenvolvimento mecânico, destreza imprescindível para o intérprete, mas desprovida dos elementos expressivos. Brelet nomei-a “falsa técnica”, que não atende à mínima compreensão da expressão, essencial à vivificação da obra. Sobrepõe, a essa “falsa técnica”, a “verdadeira”, direcionada ao ato expressivo. Brelet afirma: “O executante não deve, quando interpreta, pensar em cada pormenor de sua execução, o que o forçará a juntar todos os elementos de maneira exterior, resultando em uma interpretação mecânica. É necessário que ele viva na atmosfera da obra, que ele esteja no centro e na fonte de seu ser, dele a extrair todas as suas propriedades”.

Sempre é bom lembrar o período em que os livros de Brelet foram escritos, pois quase setenta anos nos separam de sua obra. Naqueles tempos tivemos intérpretes absolutos, que entenderam a transmissão da mensagem musical sob a égide técnica-expressão em amálgama perfeito. Nas últimas décadas, a arte dos instrumentos solistas, como piano, violino e violoncelo, como exemplos que podem subsistir individualmente numa sala de concerto, assiste à proliferação de intérpretes que têm a virtuosidade e, tantas vezes, o gestual como princípios que os mantêm na mídia e no “gosto” do público. Para parte considerável da plateia, geralmente ávida pela performance, importa o impacto, a virtuosidade plena, a interação que a faz levantar para aplaudir calorosamente o intérprete. Leva de pianistas virtuoses chineses tem chegado ao Ocidente. Artigo de Thierry Hilleriteau, “La revanche des pianistes chinois” (publicado no Figaro aos 17 de Março de 2011), tem transparência: “A fascinante faculdade dos chineses de poder tocar mais rápido do que os outros, Pierre Réach conhece bem. O concertista e pedagogo francês é professor honoris causa no Conservatório de Shangai. Constatou que o nível técnico médio não era melhor que o de outros centros do mundo, não acreditando em uma invasão maciça de pianistas chineses sobre a cena internacional. Todavia, ele constata que desde que um aluno se destaca de sua turma, seu nível técnico é cem vezes superior àquele dos mais brilhantes alunos de outros países”. A conclusão contundente leva à reflexão, pois não há menção à expressão, fato que a meu ver corrobora essa “associação” nítida com recordes esportivos, o que me levou a mencionar, no meu livro publicado pela Sorbonne em Paris (série “Témoignages” IV, 2012), que legião chinesa plena de virtuosidade, mas nem sempre com ideias coerentes e originais, desembarca no Ocidente. Poder-se-ia pensar em robotização?

Gisèle Brelet busca sempre o amálgama, no caso expressão e técnica, ao ponderar: “A bela técnica é sinceridade, ingenuidade reencontrada, espontaneidade de um ser que se manifesta qual ele realmente é, que não tenta trabalhar a técnica materializando sua execução”. A autora observa que “se acredita que na execução musical exista uma contradição essencial e íntima entre a técnica e a expressão, entre a austera precisão dos dedos e os sentimentos infinitamente subtis e vibrantes que a alma busca exprimir – entre o mecanismo do corpo e o dinamismo da alma. Mas, na realidade, a técnica jamais reside em um mecanismo exterior e todo corporal, mas sim em um poder interior da alma, poder natural de se construir um corpo à sua imagem e exprimir-se nele e para ele. Se poderia parecer que se contradizem expressão e técnica, é que habitualmente o executante começa desenvolvendo uma falsa técnica – um mecanismo que se revelará inadequado para os fins expressivos que ele pretende e irremediavelmente exterior ao conteúdo que ele deveria traduzir”. Brelet entende “absurda a ideia daqueles que querem que o executante trabalhe isoladamente a técnica”, observando que “a atmosfera e a técnica devem ser trabalhadas conjuntamente, que não há a técnica em si, mas um ato indivisível de expressão”.

É relevante e perfeitamente adequado à absoluta compreensão de uma obra musical entender a interpretação musical plena como a exteriorização da compreensão não apenas das intenções expressas de um compositor, mas também da cultura do período em que a criação veio à pauta, nele inserindo-se as áreas como literatura, arte e a sociedade vigente. A técnica como veículo essencial a integrar a concretude da interpretação. Gisèle Brelet afirma: “Alguns executantes possuem uma grande habilidade técnica, da qual não tiram proveito. Outros, menos dotados tecnicamente, parecem possuir, ao interpretar, uma melhor técnica que os primeiros. Na verdade, a habilidade técnica não é ainda essa técnica expressiva e verdadeira que é essencial à execução, o que a posiciona apenas como um meio”. Essa compreensão, que levaria à fusão indissolúvel de técnica e expressão, não estaria ausente na concepção mencionada acima e observada por autoridade musical em Shangai? Os pósteros poderão aferir recordes sendo ultrapassados. Esperemos que a expressão jamais seja relegada.

In this post I refer again to the 2nd volume of Gisèle Brelet’s book “L’Intérpretation Créatice”, this time with her views on technique and musical expression. According to her, an artist’s technique and the expression of his feelings cannot be dissociated. Both are part of an indivisible whole and should always be together in order to bring music to life. I would add that current trends in classical music — in special with solo instruments, such as piano, violin and cello — are much against Brelet’s conception, favoring extremes of speed and technical discipline over musicality, as if performers were trying to beat world records.