Navegando Posts em Literatura

Um notável músico-pensador argentino

Por que insistir em afirmar que um artista se sacrifica pelo seu ideal:
seria mais razoável considerar que é o ideal que o sacrifica.
Ou, mais uma vez, pode-se supor que, se há sacrifício,
é sempre em nome de uma vocação,
o que diminui a martirologia dos sacrificados.

A verdadeira maturidade só começa
quando o homem toma consciência efetiva da sua própria solidão.

Juan Carlos Paz
(“Memorias I”)

Um dos prazeres do leitor é regressar a um livro décadas após a leitura. Meu dileto amigo, arquiteto António Menéres, após sólida carreira em Portugal, deixou impressões em seu livro autobiográfico “Crônicas contra o esquecimento” (vide blog: 29/07/2007). Como define bem o apreço que adquirimos pela obra impressa! Escreve Menéres: “Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir adivinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para me facilitar outros e novos convívios”. Deu-se o mesmo ao ver a lombada de um livro numa estante bem alta, subir a escada metálica e voltar a visitá-lo quase cinquenta anos após!  Ratifica a apreensão que se tem hoje dos livros online, assim como do já quase sepultamento dos CDs. Perde-se o contato físico e dificilmente há o retorno àquilo que jaz nos arquivos “voláteis”. Dir-se-ia que uma névoa está a se tornar cada vez mais densa, a nos separar daquilo que denominávamos biblioteca individual. Quanto às públicas, tantas delas extraordinárias, poderão brevemente ter o nome substituído pelos termos “Museu dos Livros”. Um dos meus amigos só frequenta literatura pelo tablet. À minha pergunta se saberia apontar alguns dos livros assimilados, respondeu-me que não saberia. Os tempos atuais apagarão a memória “física”? Temo pela fatalidade.

“Alturas, tensiones, ataques, intensidades. (Memorias I)”, de Juan Carlos Paz (Buenos Aires, De La Flor, 1972), possivelmente jamais teria retornado para uma nova leitura não fosse a sua presença silenciosa na mais elevada estante. O debruçar atual apenas se adequou perfeitamente aos nossos dias, mercê também do perfil do compositor, teórico e pensador argentino.  Não há defasagem no seu pensar que surge já nas primeiras décadas do século XX e se desenvolve com coerência até pouco antes de sua morte em 1972. O pensamento do autor é atualíssimo e fica patente que há um recrudescimento quanto aos aspectos preocupantes elencados por Paz, a evidenciar sua extraordinária visão atemporal.

Após estudos em Buenos Aires, Juan Carlos Paz aperfeiçoou-se em Paris na Schola Cantorum, sob a didática de Vincent d’Indy. Foi um dos fundadores do “Grupo Renovación” (1929) e em 1936 funda os célebres “Conciertos de la Nueva Música”. Paz foi talvez o mais influente incentivador da música contemporânea na Argentina, sendo o introdutor da técnica dos doze sons estabelecida por Arnold Schoenberg, técnica por Paz abandonada em detrimento de uma linguagem mais experimental, diferentemente do compositor francês Serge Nigg (1924-2008), que foi o primeiro a compor obra dodecafônica em França, rejeitando-a poucos anos após a favor de criações mais tradicionais (vide: “Serge Nigg – Captar o passado, Apreender o presente, Pressentir o futuro”, 04/03/2011). Apesar de não ter composto muito, a produção de Juan Carlos Paz tem interesse. Deter-me-ei nos aspectos que não envolvem a técnica composicional, temática pertencente a um outro fórum que não este dos posts semanais com destinação mais eclética.

Clique para ouvir de Juan Carlos Paz, “Ritmica Ostinata”:

(541) Juan Carlos Paz – Ritmica Ostinata – YouTube

No livro em apreço tem-se basicamente o pensamento multicultural do compositor. Técnica de composição, tradição e vanguarda, sociedade, repertório, recepção pública, arguto senso crítico a respeito do estágio da música no século XX. Inseridas no livro, reflexões múltiplas sobre o cotidiano observado com agudeza. Nada é despiciendo em sua avaliação. Anota e transcreve, por vezes é anedótico quando o olhar e a mente captam um momento transformado em frase jocosa. Um aspecto fulcral do pensamento de Juan Carlos Paz é a coerência argumentativa, seja na avaliação a mais aprofundada, como no supérfluo tratado com humor ou desalento.

Muito do pensar do autor causou-me forte impressão àquela altura, ratificando-se no presente sob outra percepção, basicamente mercê dos acúmulos após tantas décadas. No post apresento segmentos do raciocínio de Paz relativos às várias áreas frequentadas pelo compositor e teórico.

No prólogo já alerta: “A realização deste livro me divertiu, em parte e menos divertidamente, diria, motivado pelas limitações facilmente comprovadas; todavia decidi publicá-lo, não para que aqueles que o lerem aprendam a corrigir seus erros às custas dos meus, segundo a hipócrita atitude ou conselho mais ou menos velado dos autores de memórias, diários, confissões, mas para que os cometam melhor do que eu, em forma mais atrativa, intensa e divertida, se ao menos puderem”.

Sobre o ato de compor: “Para quem escrevo música, poderia alguma vez questionar-me. Afirmaria que escrevo para mim; para quem, francamente, não sei nem pensei; pois é tal a quantidade de música que se escreve, – à qual agregamos a nossa – que caberia a pergunta, à parte os porquês e para quem, simplesmente o quando e o porquê”.

Após mencionar a célebre frase de Buffon (1707-1788), Le style c’est l’homme, enumera uma quantidade expressiva de grandes compositores do passado notabilizados pelos seus estilos definidos, precisando que os que os sucederam formaram escolas e foram meros teóricos. Essa postura crítica se estende por uma série de reflexões em que condena o establishment que faz proliferar epígonos, tantos deles sem talento.

Paz considerava Moussorgsky (1839-1881) o virtual precursor do expressionismo sonoro e acrescenta: “… personifica o mais incongruente e extraordinário desafio do instinto criador contra toda retórica racionalizada na organização sonora”.

Sobre a forma musical, Paz tece considerações sobre a relação intrínseca com o de profundis de um compositor: “A música deve significar uma coincidência da investigação formal com a experiência interna do compositor; é algo que se sabe, apesar de bem esquecido por razões de tática. A grande lição de Beethoven e dos românticos em geral, e de Schönberg e Debussy em particular, consiste em demonstrar que a forma não é um molde confortável, senão a consequência externa de um processo interno”. A posição do autor não se aplicaria também à literatura, à poesia e às artes em geral?

Paz é bastante ácido com os musicólogos e os críticos: “Os musicólogos são os seres mais desprovidos de musicalidade que eu conheci. Não sentem nem entendem a música, considerando-a obstinadamente como uma vertente da arqueologia”. Ao considerar a crítica, mencionando várias áreas – literatura, música, teatro, artes plásticas – e estendendo sua posição também aos teóricos de arte, de ideologias e de religiões, comenta: “sua sabedoria se baseia unicamente na nossa ignorância, nossa benevolência e nossa credulidade”.

Quanto à repetição repertorial realizada pela grande maioria dos intérpretes, Juan Carlos Paz mostra-se crítico mordaz: “… a música é algo que rigorosamente não conta, não interessa nem ao virtuose-monstro, insensibilizado por força de repetição constante das mesmas obras, nem ao público, que só deseja ouvir mais uma vez. A indústria do concerto! Esses virtuoses são como máquinas que engolem moedas. Você deposita uma no espaço a ela reservado e imediatamente a máquina agradece enviando-lhe uma torrente de música: você paga a entrada do recital e o virtuose o recompensa fazendo-o ouvir pela milésima vez ‘a’ Polonaise de Chopin, ‘a’ Sonata ao Luar de Beethoven, La Campanella de Liszt ou a Pavane de Ravel, todo um intercâmbio de duas desconsoladoras rotinas. Resultado positivo: negócios para empresários. Nada mais”.

Ao comentar a mutação interpretativa através dos tempos, Paz polemiza sobre tema que nunca teve consenso. Observa: “O teatro, a música e a dança são as mais evasivas e menos fiéis, entre todas as artes, aos desejos e às finalidades de seus criadores. Suas limitações quanto a essa particularidade consistem em que, para se expressar junto ao público, necessitam do intérprete – ator, diretor, executante, cantor, dançarino -, na realidade deformadores das aspirações do autor, em maior ou menor dimensão”.

Após discorrer sobre a mentalidade de dois intérpretes que podem ter ideias diversas sobre uma determinada obra, Paz se questiona sobre a interpretação fiel. “Sabemos por acaso como Beethoven, Berlioz, Schumann, Chopin e Liszt exigiam a interpretação adequada? Constata-se pois que, não sendo desejável a versão arqueológica à base da interpretação fidedigna, que na realidade nada dela sabemos, só nos resta, para a música, o teatro e a dança, a versão perpetuamente mutante, recriada, modificada, metamorfoseada segundo o temperamento, a cultura, as afinidades ou preferências, e até a saturação do intérprete em determinado período de sua evolução ou da circunstância em que atua”.

Em vários artigos publicados no Brasil e no Exterior sobre as composições de Johann Kuhnau (1660-1722), Jean-Philippe Rameau (1683-1764) e Carlos Seixas (1704-1742), originalmente escritas para cravo e que gravei ao piano para o selo belga De Rode Pomp, observei que o silêncio de mais de um século das interpretações ao cravo faz entender que nada sabemos sobre as execuções dessa música no instrumento original, mas que a escuta, nessa relação professor-aluno, foi a responsável pela interpretação ao piano dessa imensa produção durante o longo período silencioso do cravo. Nenhum dos grandes compositores do vasto período romântico no século XIX compôs para cravo. A oralidade professoral foi fator decisivo para que a tradição da criação para o instrumento, que imperou basicamente nos séculos XVII e XVIII, não se perdesse quando interpretada ao piano.

A respeito da ópera, escreve: “Para mim, a ópera ideal seria aquela em que os cantores, em determinado instante da ação, se esquecessem de atuar”. Tradução: J.E.M.

Quantos não foram os autores que escreveram memórias? Há aquelas que se perdem nas profundezas da arqueologia social e outras que impressionam e anteveem o futuro, pois não envelhecem. Visitá-las torna-se uma possibilidade de entendermos os fracassos e os acertos da trama social e da cultura como um todo. Nessa visão, Juan Carlos Paz mostra-se um profeta após tantas décadas decorridas.

Juan Carlos Paz, Argentine composer, theorist and thinker, has been the introducer of dodecaphonism in his country. In his book of memoirs, he explores the most varied topics on music, literature, art and history, not failing to be humorous when everyday life makes an impression on him.

 

A recepção afirmativa faz leitores solicitarem outros temas

A vaidade não é um vício e sim uma doença.
Antoine de Saint-Exupéry
“Citadelle”

Erudição não é cultura. É acúmulo de informações.
Cultura pode prescindir de acúmulo de informações,
por seleção qualitativa e por capacidade de integração das recebidas.
Ives Gandra da Silva Martins
(“Reflexões sobre a vida”)

Devido à qualidade dos aforismos de Ives Gandra da Silva Martins sobre temas espinhosos, como política e judiciário, em seu recente livro “Reflexões sobre uma vida”, e mercê da absoluta incongruência que o país atravessa, sem perspectivas claras de  melhora, o post anterior teve ampla recepção, mormente por se tratar de conceitos emitidos por um dos mais notáveis juristas do país.

Não obstante as temáticas palpitantes, recebi mensagens e comunicados de leitores, ansiosos por conhecerem posições do jurista sobre temas relevantes, que se estendem da sociedade a costumes, educação, cultura, humanismo, moral e cotidiano, todos apenas mencionados no post anterior. Reuni, pois, uma série de outros aforismos contidos em “Reflexões de uma vida”, numa síntese pessoal do substancioso livro, a conter 1022 máximas.

Em continuação, ei-las:

75 – É inútil pensar que o mundo deve ser feito à nossa imagem e semelhança. É o que é. Podemos auxiliá-lo a melhorar com o nosso exemplo, palavras e obras, mas devemos nele viver sem irritações e inconformismos para que possamos ser eficazes.

80 – A velhice não é um mal senão para aqueles que não a aceitam, que querem viver como se não fossem velhos ou que se queixam das limitações que a idade traz. Para o sábio, a velhice é um bom exemplo de reflexão e de um trabalho mais eficaz, porque age com maior ordem e maior conhecimento das verdades da vida. É tempo de serenidade e não de agitação.

92 – A imaginação, quantos males e perda de tempo não gera! Se a controlarmos, quanto não poderemos fazer; mais do que isto, quantos problemas não evitaremos?

97 – Não devemos esperar que os outros compreendam os nossos defeitos. Devemos corrigi-los. Devemos, todavia, ter tolerância com os defeitos alheios e, se possível, auxiliar as pessoas a corrigi-los, sem nenhuma atitude de prepotência, de superioridade ou de incômodo. Como amigos. Bons amigos.

99 – Vive menos quem vive para si.

158 – O verdadeiro homem luta por ideais. A vitória ou a derrota pouco importam. Importa crescer para os outros, ou melhor, para servir aos outros. E ter a consciência tranquila de que se fez o máximo.

166 – A natureza não dever ser violentada. Quando o é, o preço a ser pago é elevado. Quem não reconhecer no tempo o limite de suas forças terminará por pagar este preço, que é tanto maior quanto maior for o desconhecimento dos limites.

170 – O verdadeiro humilde é feliz. Tem de si mesmo um retrato pior do que realmente vale. O soberbo é infeliz por fazer de si uma imagem melhor do que possui, e a todo momento sua imagem real desfigura aquela que sua vaidade construiu.

183 – Como é difícil vencer o defeito dominante. O importante, todavia, é não desistir. Lutar sempre, mesmo que a vitória venha apenas no final da vida e no último momento.

184 – O tempo que passa já não podemos mais recuperar, mas podemos arrepender-nos pelos erros cometidos.  Que o tempo presente seja de tal forma vivido que dele não nos arrependamos, visto que não sabemos se o tempo futuro chegará para nós.

194 – Na vida, ou esperamos tudo dos outros e viveremos um inferno ou não esperamos nada e viveremos um paraíso, se a isso aliarmos paz interior, alegria e espírito de servir.

202 – A idade reduz as forças, mas se mantivermos a vontade, esta supre as deficiências. O mundo necessita mais de homens com vontade do que com forças.

204 – A idade gera desconforto físico. Se mostramos na pele o envelhecimento, por dentro também tudo envelhece. Só não podemos deixar a alma ficar velha. Temos que morrer com alma jovem.

219 – O trabalho até a morte torna o velho mais jovem.

233 – A vaidade é a rainha dos que acreditam que são alguém. Como são escravos, entretanto, desta rainha ardilosa, são incapazes de perceber que não são ninguém.

291 – Viver com simplicidade sem carregar coisas inúteis é símbolo de se saber viver a vida.

303 – Quanto mais conheço os radicais, mais admiro a virtude da prudência!

471 – Quem comumente critica os defeitos alheios não tem tempo de corrigir os próprios. Quem procura corrigir os próprios não tem tempo de criticar os alheios. Os primeiros vivem a vida com amargura. Os segundos, com alegria. Intoleráveis são os primeiros, amáveis os segundos.

477 – Quanta vaidade por nada! Muitas vezes as pessoas esforçam-se por ser alguém apenas para serem admiradas. Se não houvesse palco, pouco se esforçariam.

506 – Quem mente na sua vida familiar também o fará na profissional ou política.

518 – Ter o hábito, mesmo quanto às pessoas que desconfiamos, de procurar primeiro suas virtudes e depois seus defeitos – apenas se necessário – é uma boa forma de viver em paz.

560 – Levar os incômodos da velhice com bom humor é forma descontraída de reduzi-los.

569 – Não viver curtindo mágoas é a melhor forma de crescer na vida, de ser otimista e de realizar obras positivas.

626 – O verdadeiro ser humano sabe conviver, aceitando a maneira dos outros sem perder a sua e corrigindo onde a correção é possível.

641 – O verdadeiro sábio dá à riqueza a sua verdadeira importância, ou seja: pouca.

659 – O invejoso é sempre infeliz, pois coloca a felicidade onde ela não existe, ou seja, em ver a infelicidade alheia e em não aceitar o sucesso dos outros.

697 – A cultura ajuda a pessoa a crescer, mas só a busca do sentido da vida e seu encontro permite-lhe atingir a plenitude.

701 – Quem pensa ser rico porque tem muita coisa não sabe que quem tem o rico é a riqueza. Ela é que o possui, não ele a ela.

771 – Muitas pessoas não crescem na vida porque estão preocupados com o sucesso dos outros. Como perdem tempo e têm inveja, ficam sem tempo para crescer.

775 – Quantos vivem exclusivamente em busca de pessoas importantes para que possam dizer que as conhecem. Como não têm mérito próprio, pensam que assim agindo ganham importância.

776 – As pessoas sem mérito próprio, que julgam ser alguém pelo mérito dos outros, são pobres espelhos e não faróis a iluminar o seu meio.

784 – A podridão não gera arte. No máximo, mau cheiro e náusea.

809 – Vive melhor quem precisa de menos.

816 – O advogado deve sempre considerar seu colega adversário imbuído dos mesmos ideais que ele mesmo tem. E deve tratá-lo com a dignidade que a profissão que exerce merece ser tratada.

834 – Disse-me um amigo “A velhice não compensa”. Pensei comigo: Compensa muito se soubermos, com nossa experiência, aproveitar o tempo que nos resta.

877 –  Só podemos compreender o próximo, se formos educados como pessoas e não como ideólogos.

904 – Se alguém se destacou numa profissão, nem por isto deve exagerar nos seus honorários, mas apenas cobrar o que lhe parece justo.

907 – O doutoramento não deve representar somente a busca de um título para a carreira, mas uma real contribuição à ciência.

916 – Erasmo de Roterdã via, na vaidade dos homens, maior campo para a loucura exercer seu poder.

917 – A guerra, todavia, é a loucura das loucuras, em que o preço maior é pago pelos inocentes.

961 – Se nunca perdermos de vista que estamos aqui de passagem, a vida torna-se mais leve.

1014 – A velhice, mesmo com as limitações e achaques da idade, é período de grande aprendizado.

1021 – Sem Deus, a vida é apenas uma luta desesperada em busca de uma significação impossível de se alcançar.

Após os dois posts em que selecionei reflexões do ilustre jurista Ives Gandra, insiro o link de seu artigo publicado pela Conjur (Consultor Jurídico - conjur.com.br), divulgado no dia 28 de Novembro último (“Não haverá golpe, mas STF deve respeitar independência dos poderes”), no qual, numa brilhante síntese dos acontecimentos nesses últimos anos, Ives observa aspectos da política e do judiciário. Vale a pena conferir:

https://www.conjur.com.br/2022-nov-28/ives-gandra-democracia-harmonia-independencia-poderes

In this second post, at the request of readers, I insert reflections by the noted jurist Ives Gandra da Silva Martins on society, customs, education, culture and morals.

 

O jurista Ives Gandra da Silva Martins frente aos aforismos

O caráter das grandes mentes
leva à compreensão de muitas coisas em poucas palavras,
enquanto que mentes pequenas, pelo contrário,
têm o dom de falar muito e não dizer nada.

La Rochefoucauld (1613-1680)
(“Les Maximes”)

759 – Quando um governo é totalmente corrupto,
o governante não pode alegar desconhecimento.
Não há quadrilha sem chefe.

949 – O professor que procura impor suas convicções próprias
e as ideológicas, em conflito com os valores morais familiares
aceitos pela maioria da sociedade,
não é professor, mas apenas um agente político.

Ives Gandra da Silva Martins
(“Reflexões sobre a vida”)

O acúmulo das décadas pode ter inúmeras consequências, entre as quais os extremos. Um primeiro limite abriga desde aquele que muito realizou ao outro que, na simplicidade do existir, cultuou valores cada vez mais obliterados na atualidade, como moralidade, lhaneza, respeito, fidelidade às convicções, família… Num outro extremo, aqueles cujas condutas, sob os mais variados aspectos, estão voltadas ao temor de que jamais sejam expostas.

Em “Reflexões sobre a vida” (São Paulo, Cultor de Livros, 2022), o notável jurista Ives Gandra Martins repassa, nos seus 87 anos, conteúdos essenciais de seu pensar através de 1022 reflexões. Estas abordam moralidade, costumes, religiosidade vivida plenamente como cristão leigo, mas também contemplam política e justiça. Antolha-se-me, contudo, que os momentos conturbados que estamos a viver no país e a imprevisibilidade futura levam-me a preferenciar esses dois últimos tópicos, entendendo que todos os outros temas têm plena relevância. Creio que o leitor poderá aferir o posicionamento de unicidade, através das décadas, de um dos mais respeitados juristas do Brasil. Nessa singularidade do pensar inexiste o talvez e é essa coerência que torna o Dr. Ives Gandra referência tanto na ação jurídica como na de cidadão da maior integridade. Considere-se que a prática de provérbios, axiomas e tantos mais termos de ordem moral, de costume, de orientação religiosa, de cunho popular ou não, é frequentada desde a Antiguidade.

A inserção de cada “reflexão” está precedida da numeração, pois Ives a elas retorna na medida em que escreve ao longo da existência seus pensamentos sobre variados temas.

Da leitura do livro em apreço colhi frases sobre a política e seus atores, assim como as poucas a respeito da Justiça. Ives Gandra observa que tantas são as reflexões que “Certamente, alguém já deve ter pensado como eu. O que vale neste livreto é a luta que tenho por viver o que escrevo, apesar de permanentes fracassos”. Acrescento que, ao longo das décadas, tive o privilégio de acompanhar a coerência opinativa de meu dileto irmão.

Eis algumas de suas reflexões:

208 – Os ditadores, mesmo quando fantasiam eleições manipuladas, são sempre truculentos, principalmente quando, apesar da manipulação, os opositores demonstram força.

209 – A coerência na política é virtude rara. O oportunismo, defeito comum.

210 – Quanto mais conheço o poder, mais vontade tenho de afastar-me dele. Questão de higiene mental.

224 – Os ideólogos são sempre totalitários. Pensam que têm a verdade e querem impô-la, sem respeitar a liberdade alheia. Por isto, quando conquistam o poder, se não tiverem oposição transformam-se em ditadores.

225 – A ideologia está para a sabedoria como o lixo para as flores.

226 – O sábio não precisa impor-se. Sua sabedoria e sua maneira falam por ele. O ideólogo não. Sem a força e a demagogia nada é.

244 – O magistrado deve julgar por aquilo que se encontra nos autos. Se não o fizer, macula sua profissão.

250 – Os ditadores silenciam a oposição com violência e acusações fraudulentas. Mentem para se manter no poder e fingem-se democratas quando podem manipular eleições.

251 – Na América Latina, hoje, pululam falsos democratas e autênticos ditadores.

252 – A democracia dá trabalho, pois exige diálogo à exaustão. É, todavia, o único sistema em que se pode opinar, em que o direito de defesa é assegurado e em que a imprensa e a advocacia são livres.

269 – O poder só tem sentido se for para servir.

330 – Certos intelectuais entendem que são mais competentes do que o povo e podem, em lugar deles e contra eles, definir o que é melhor para a sociedade. Assim nascem os ditadores.

331 – Por pior que seja o Parlamento, é lá que se encontra a representação da Nação. No Executivo está a maioria representada. No Parlamento, a totalidade, ou seja, a situação e a oposição.

332 – O Judiciário só pode ser um poder técnico. Legislador negativo, jamais positivo, pois não tem representação popular e pouco conhece as reais aspirações do povo.

359 – Quem almeja o poder, almeja-o para si, como forma de autorrealização. Quase sempre o poder é apenas campo de manobra para suas ambições.

360 – A corrupção é a moeda corrente do poder, em qualquer espaço ou período histórico.

399 – O poder inebria o ambicioso, mas não o torna melhor se não perceber que quem tem o poder deve servir.

401 – Quando se ataca a iniciativa privada ataca-se a geração de empregos e a evolução social. Quase sempre os que a atacam não têm qualquer habilidade para iniciativas próprias e pensam apropriar-se dos resultados alheios.

403 – Os intelectuais modernos gostam de pensar que o controle dos meios de produção pelo Estado é bom, pois gera justiça social. Desconhecem a história e esperam que, se o seu desejo se transformar em realidade, usufruirão do poder sem trabalhar, passando apenas a pensar, reunir-se e difundir suas ideias para o “povo inculto”.

415 – Quanto mais burocratas e políticos, tanto mais corrupção e atraso.

444 – Parlamentarismo é o regime político de responsabilidade a prazo certo, que dura enquanto o governo for responsável. No presidencialismo, mesmo sendo irresponsável um governo, sua irresponsabilidade terá de esperar o fim do mandato. No primeiro, o afastamento é “intraumático”. Noutro, se antes do prazo, traumático.

448 – Na política, há dois tipos de corruptos, a saber: os políticos que corrompem, o mais das vezes para financiar campanhas, e os burocratas, que se corrompem para enriquecer.

515 – Os governos sem escrúpulos são sempre demagógicos. O tempo pode demorar a desmascará-los, mas a verdade, enfim, sempre aparece.

516 – Quanto mais imoral o governante, mais faz da mentira sua arma principal. Esta perde sempre a última batalha.

530 – Quantas saudades dos tempos em que os que buscavam o poder respeitavam Deus, a Pátria e a Família.

544 – O estadista busca o bem de seu país mesmo que à custa do poder. O político busca o poder mesmo que à custa de seu país.

557 – Muitos, quando entram na vida pública, são tentados a roubar e roubam. E quando estão para ser expelidos, lutam desesperadamente para manter o poder, com medo de que, perdendo força sobre a política, venham a ser presos.

563 – O Poder Judiciário é um legislador negativo. Não pode dar curso a leis inconstitucionais, mas também não pode legislar.

613 – Os tiranetes precisam da demagogia e da força para governar. Tal união de elementos mantenedores do poder, todavia, com o tempo facilita sua queda quando a “verdade verdadeira” vem à tona.

630 – Os governos podem ser de esquerda ou de direita, na rotulação preferida dos ideólogos. Pouco importa. O que devem é ser eficientes.

632 – Os “progressistas” progridem pouco, porque falam sobre os fins sem preocupar-se com os meios. E por não saberem gerar os meios, buscam sempre confiscá-los.

639 – Os ricos pensam ser donos de sua riqueza, mas, na verdade, são as riquezas que são donas dos ricos.

713 – Quanto mais conheço os políticos modernos, mais vejo que sua forma de exercer o poder é podridão.

730 – A política é a arte de os políticos viverem à custa do povo, fingindo que o auxiliam. Que pena!

735 – O desonesto pode ficar rico, mas para os que o conhecem não passa de um dejeto humano.

739 – Qualquer reforma que objetive modernizar um país é sempre combatida pelos burocratas que vivem à custa de regimes arcaicos, pelos políticos que mantêm o poder por força do atraso, e pelos corruptos que usufruem da esclerose retrógrada da máquina estatal.

741 – Há três formas de um homem honesto arruinar-se. 1) Acreditar na boa fé dos governos corruptos. 2) Executar projetos na esperança de que cumpram o que prometem os governos incompetentes. 3) Seguir os conselhos dos burocratas de plantão.

875 – O Estado é um mal educador sempre que substitui a formação do cidadão como pessoa pela concepção de que deve ser coletivizado.

876 – Qualquer pessoa é sempre maior do que a ideologia dominante do Estado. Se o ensino não for voltado ao crescimento do jovem como pessoa, o educador fracassa.

880 – Todo julgador deveria ter a função de juiz como um honroso encargo e não como um cargo honorífico.

968 – Os raros estadistas na política não poucas vezes desaparecem pela mediocridade da maioria.

969 – Houve um político que presidia, nacionalmente, um partido que não objetivava o poder, mas implantar um ideal democrático de bom governo, ou seja, o parlamentarismo. Raul Pilla.

971 – Infelizmente, o Ato Institucional nº 2 encerrou o meu sonho e o de quase todos os libertadores – Partido Libertador era a agremiação. A partir daquele momento nunca mais fiz política, decisão da qual nunca me arrependi.

973 – Para muitos, a política é a arte de enganar o povo.

974 – Para outros, a política é a arte de enganar aqueles que estão ao seu lado, sem que saibam que estão sendo enganados.

1017 – Quanto mais vejo as notícias nos jornais sobre o que de errado ocorre no mundo, mais percebo como o ser humano não sabe preparar-se para a vida.

“Reflexões sobre a vida” é livro a ser consultado. Recomendo-o vivamente.

In the book “Reflections on Life”, the noted jurist Ives Gandra da Silva Martins includes maxims of his own written in the course of his life. Customs, morality, family, religion, politics and the Judiciary make up the whole. I concentrated on the last two topics.