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Quando a recepção aos textos precedentes ganha potencial relevo

É o insatisfeito, como era natural,
que junta alguma coisa à realidade;
desde que o homem se encontre bem de vida,
a força que o levava a criar,
seja qual for o domínio,
afrouxa e estaca.

Agostinho da Silva
(“Sete cartas a um jovem filósofo”)

O blog sobre a criação na juventude da idade adulta e na maturidade da idade adulta provocou inúmeras mensagens, sendo que a do compositor e pensador francês François Servenière foi de tal abrangência e dimensão que mereceria ser exposta ao leitor. Aguardei o término das festividades do Natal e do Ano Novo para publicá-la. Servenière tece comentários sobre o texto do médico e especialista Elliot Jaques, tema do blog de 15 de Dezembro, acrescentando dados que certamente despertarão atenção especial dos seguidores de meu blog semanal. O pensamento de Servenière leva sempre a um amplo campo reflexivo, passível de ser polemizado. Essa postura é um dos fatores de interesse de suas mensagens. Um privilégio para mim tê-lo tantas vezes como partner de meus blogs. Abrimos pois 2019 com tema relevante. François Servenière expõe:

“Fiquei interessado pelo artigo que encerrou a série sobre o jovem compositor português António Fragoso, morto precocemente vítima da gripe espanhola em 1918, na idade de 21 anos. Seu post abordou temas profundos e, como sempre acontece com seus textos, parte-se de um tema particular para se chegar à reflexão geral.

Primeiramente, entendo de interesse todos os comentários efetuados pelo médico canadense Elliot Jaques sobre a crise do meio da existência.

Concernente à criatividade e às idades mais favoráveis, tinha opiniões de certa forma estanques quando via todos esses gênios da música, da pintura e da literatura atingidos por alguma moléstia e abatidos pela morte antes dos quarenta anos. Estavam eles, como todos os criadores, aliás, imersos ainda jovens no efeito turbo dos hormônios do crescimento. Sabemos que a produção desses hormônios, verdadeiras anfetaminas destinadas ao crescimento e à reprodução da espécie no período em que os gametas têm mais potencial, diminui no sangue nas fronteiras dos trinta anos. Seria imaginar que os hormônios fizeram seu trabalho de transmissão do que há de melhor do DNA e que, passado esse período, o corpo humano não tivesse mais nenhuma utilidade para a continuação da espécie. Essa situação hormonal leva-me a pensar nos salmões subindo com energia delirante os rios e cachoeiras mais difíceis do Grande Norte – após um a três anos nos oceanos – até o lugar onde nasceram, a fim de desovar e, após, deixarem-se morrer no local, esgotados e não mais servindo para qualquer outra atividade, tendo pois completado o ciclo das gerações.

Essa metáfora tem relevo quando estudamos a vida de dois dos maiores gênios da musica em quantidade e em qualidade, Mozart (35 anos) e Schubert (31 anos). Morreram, cérebros e corpos esgotados pela vida criativa alucinante. Em ambos os casos, 626 e quase 1000 opus, respectivamente, existências abreviadas que ensejam algumas estatísticas musicologicamente comprovadas sobre os dois e outros criadores de grande talento que morreram precocemente:

- começaram a compor muito jovens;
- escreveram delirantemente, arruinando suas saúdes;
- repetiram-se inúmeras vezes, sendo que algumas obras ‘intermediárias’ serviram de rascunhos e de maquetes para as obras-primas que viriam a seguir, as cumeeiras criativas;
- viveram em períodos onde a esperança de vida era frágil (30-40 anos) e tinham consciência aguda da brevidade da existência.

Havia a percepção clara e generalizada de que o corpo humano não estava preparado face às grandes pandemias que assolavam a Europa periodicamente, a aumentar paradoxalmente a pujança criativa, pois sabiam que o fluxo da ampulheta seria rápido e desfavorável. Acredito com convicção que a vida criativa desses compositores, prematuramente desaparecidos, assemelhar-se-ia a um gigantesco tornado e que o término do fenômeno estaria por volta dos 30 anos.

Uma certa geração de extremistas e radicais do século XX acreditava que, ao encurtar a existência por conduta desregrada, haveria acesso mais rápido à consagração universal e à elevação ao panteão dos séculos… Nada é menos exato, se falarmos unicamente da técnica e da semântica, da organização, da conceitualização, da elevação da alma, do gênio artístico, tendo-se como referencial absoluto os mestres excelsos dos séculos passados. Para esses arrivistas suicidas em busca de um sucesso rápido e retumbante a partir do escândalo (droga, a vida outlaw, hoje o pomo chic), constata-se claramente a flagrante decadência ou hecatombe criativa em comparação aos gênios que permaneceram.

Trata-se de um eufemismo de época, pois o show business mui raramente apresenta o talento encontrável em tempos idos na Idade Média, na Renascença, no período clássico e mesmo na contemporaneidade, naquilo que denominamos arte séria (sob o aspecto da linguagem). Há outra realidade igualmente exemplar: a facilidade econômica das sociedades modernas afunda o talento artístico, assim como deteriora os comportamentos. Esse fenômeno ocorre, de preferência, quando as gerações pertencentes às sociedades ocidentais atingem a idade adulta.

Na verdade, entre os contemporâneos de Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828), um século antes da profilaxia das vacinas, o stress vital devia estar no seu máximo. Pouco se fala das catedrais, construídas num período de um optimum medieval, época provavelmente mais calorosa do que a nossa, pois construídas nesse fervor artístico sob a égide do empenho coletivo de várias gerações de artesãos-artistas, poupados que foram do egoísmo contemporâneo das sociedades de super consumo. Criatividade, vida curta ou longa? Debate um pouco defasado quando relatamos as obras primas da antiguidade. No caso dos dois compositores mencionados, os últimos retratos de Mozart evidenciam traços de uma pessoa com mais de 70 anos, a se pensar nas fisionomias da atualidade. Estafado ao extremo, pai de oito filhos, dos quais apenas dois chegaram à idade adulta.

Fala-se da Pequena Idade Glacial para o período entre 1350 a 1900. Durante esse espaço de tempo, a mortalidade infantil foi enorme, assim como a fertilidade para assegurar a sobrevida da espécie, sendo que a esperança de vida se restringiu ao seu nível mais baixo, comparável àquele dos homens da pré-história. As pinturas de Hieronymus Bosch (1450-1516) evocam um período muito frio, quase glacial. Poder-se-ia pensar que o gênio criativo tenha sido correlativamente fraco. Pois o que aconteceu foi o contrário. Incontáveis os gênios artísticos e filosóficos que surgiram nessa Pequena Idade Glacial. Precariedade de vida pareceria associada a uma energia vital pujante do gênio criativo levado ao extremo…

Socialmente poderemos fazer um paralelo com a soma imensa das grandes obras produzida sob regimes totalitários. A restrição pareceria ser parâmetro importante. Mas, e a liberdade? É bem difícil responder abruptamente. A se considerar conjunturas históricas com tais diferenciais de saúde pública, de sistemas políticos, poder-se-ia considerar uma idade ideal para a criatividade? O que é certo é que, atualmente, o gênio é inversamente proporcional ao conforto a beneficiar criadores. Mais eles são inflados, incensados, menores esforços eles fazem para sair da rotina, do comum, das banalidades”. Em blog bem anterior (vide O Criativo – Quando apropriações estranhas criam distorções. 25/04/2009), considerava a apropriação indevida da palavra criativo, há tempos tão a gosto do profissional de propaganda e marketing. Vulgarizaram o termo. A publicidade atual evidencia tantas e tantas vezes o caminho da repetição em todas as áreas, pois se uma publicidade ganha grande visualização, outros “criadores” das muitas empresas, para produtos da mesma área, seguem o abominável caminho da repetição. As empresas a abrigarem “criadores” não estariam nessa zona “inflada, incensada, rotineira, banalizada, de conforto”, como expõe, sobre outra égide, Servenière?

O pensador francês prossegue: “O show business é o enterro da arte excepcional do passado. Quando se fundem na mesma expressão social, negócios e criação, o resultado é uma linguagem empobrecida no limite da precariedade, do sucesso fácil. A frase imbecil ‘todo mundo é um artista’ simboliza a triste realidade”. O funk não representa o que de mais desprezível existe sob o rótulo inapropriado de manifestação musical?

Servenière continua: “Uma conclusão rápida deve, pois, nos induzir à ideia de que as piores condições de vida aumentam consideravelmente o instinto criativo, que é integralmente relacionado ao instinto vital. Esse instinto pode atingir seu ápice aos 20, 40, 60, 80 anos. É evidente que a juventude transmite uma energia eruptiva em suas obras. Mas seriam elas profundamente pensadas, organizadas, arquitetadas, perenizadas? Enfim, a ciência e o saber acumulados durante a senectude verão nascer produções raras, que terão certamente maior pertinência. Não obstante, haveria a necessidade de o artista ter uma longa existência e saber organizar socialmente seu viático (sucesso, ensino, negócios, outro métier…) para ainda persistir a vontade de criar aos 80 anos. Os insucessos potenciais e recorrentes da vida podem reduzir toda vontade criativa a zero muitíssimo antes da chegada à idade avançada. Quantos não são os artistas que param toda a atividade bem rapidamente diante de um fracasso e partem para outra ocupação? Uma imensa maioria. Nem o talento, nem a força do talento, nem a pujança criativa renovada são ofertados a todo mundo. Na idade de 60 anos, os resistentes às vicissitudes da vida de artista são exceções em suas gerações.

Basicamente não se pode sinceramente criar grandes obras sem que se seja um faminto pela vida. Pareceria evidente. Sob outro aspecto, a depressão destrói tanto o instinto criativo como a vitalidade.

Numa outra apreensão, a luz do sol tem papel fundamental no humor das pessoas, terapia para as depressões sazonais, segundo confirmações da medicina desde o fim do século XX. O outono e o inverno nos deixam sombrios, enquanto a primavera é a fonte da juventude, de criatividade, de fluxo de hormônios, mercê do aproveitamento pleno da seiva. Quantos não foram os artistas do passado que, em carruagens, desceram às terras do Mediterrâneo ou realizaram a curta travessia do Mare Nostrum rumo ao Norte da África, ou mesmo atravessaram oceanos em busca de outros hemisférios, simplesmente para evitar que o ato criativo tivesse uma queda? Legiões. Não por acaso, a Califórnia tornou-se um dos centros mais criativos do planeta nas últimas décadas… Cria-se mais em espaços de bom humor e energia, geografias essas onde o sol nos invade com excesso de Vitamina D. No passado há exemplos dessas cidades florescentes, plenas de sol benfazejo: Roma, Florença, Atenas.

Se essa apologia ao sol é válida, consideremos que o Astro Rei representa o exemplo da superficialidade, do descompromisso, enquanto a pouca luz existente nas estações frias da nossa Europa favorece a introspecção e o aprofundamento. O hedonismo se opondo naturalmente à austeridade. A metáfora é possível e contraditória, praias e mosteiros. Ambos favorecem, à sa manière, a criatividade, embora por caminhos rigorosamente diferentes.

Ao observarmos esse parâmetro climático para falar sobre criatividade e hedonismo, emergem dois polos essenciais da cultura humana, aquele do norte – países frios – outro do sul – países quentes. Considerando a concepção europeia de arte, há forma, estilo, ambiente que poderíamos considerar como mediterrâneos, tendo como centro a Itália, assim como outra, nórdica, centrada na Alemanha. Duas culturas extraordinárias, nascidas na Europa e espalhadas para o mundo. A Itália e a Alemanha resumiram as oposições de estilo e pensamento. J.S.Bach (1685-1750) e Antonio Vivaldi (1678-1741), Richard Wagner (1813-1883) e Giuseppe Verdi (1813-1901) não seriam exemplos nítidos?

A cultura mediterrânea pareceria mais superficial e hedonista, enquanto a nórdica mais cerebral e conceitual. Encontraremos grande quantidade de músicas muito sensíveis na Itália, berço histórico da ‘lacrimosa’, enquanto a Alemanha nos oferecerá as formas musicais mais científicas, pensadas, organizadas e com resultados surpreendentes. A ciência pareceria alemã, a sensibilidade, italiana. É claro que essa definição esquemática se torna simplista. Há o contraexemplo, pois gênios italianos serão considerados ‘alemães’ e esses, ‘italianos’. São incontáveis os ‘vazamentos’ culturais e assimilações mútuas.

Na arte, como na luz, há todas as cores do arco-íris, todas as gradações possíveis, todas as nuances regionais que nos induzem a pensar que não existem regras absolutas… Seria um erro se, ao contemplarmos o globo terrestre e a disposição dos países, nos dispuséssemos a acreditar que a influência do sol determinará a criação de tendências maiores ou menores. Dir-se-á que tal estilo, tal caráter é francês, alemão, russo, chinês, mexicano, brasileiro, português, espanhol, americano, africano, etc, etc. Muito sol provocaria a preguiça, a fadiga e a hedonismo, e muito frio congelaria o cérebro. Os países temperados são os privilegiados sob a esfera da criatividade: nem tão frio, nem tão quente. Não se trataria apenas de uma questão da personalidade individual, como se constata em todas as partes do mundo. Há inúmeros exemplos que estabelecem as exceções nas civilizações habituadas aos extremos…

Evidentemente, podemos analisar a personalidade individual, em todas as suas conjunturas, como integrante da vontade individual, mas que será duramente impactada pelo meio onde ela emergir. Seria um acaso o aparecimento de gênios e grandes artistas, durante séculos, em Paris, Roma, Moscou, Londres, Amsterdam? A política, a abertura de espírito e a sensibilidade dos príncipes, a riqueza do comércio, o limite das populações e as geografias climáticas favoráveis, a curiosidade das massas, a filosofia e o pensamento dominante do entorno (todos parâmetros interdependentes) tiveram papel fundamental na história da arte e não podem ser desprezados. O artista ex nihilo não existe, aquele que surge a partir no nada. Ele vem de longe, de alguma parte, de uma forja cósmica social e universal, potencializada pelo tempo e pelas gerações. É ele filho, produto de um ambiente propício, de um acúmulo de camadas, de uma predisposição mental certa, mas também de uma cultura. Ele passará ao lado de seu destino, ou não. O acaso e a necessidade farão sua obra no segmento biológico que constitui a sua vida” (tradução: JEM).

The posts about the Portuguese composer António Fragoso’s untimely death and about the Canadian psychoanalyst Elliot Jacques (creativity at different stages of life) has been given special attention by the French composer François Servenière, who sent his comments on the matter: effects of hormones on creativity, celebrity and success breeding repetition and superficiality, climatic cold and heat shaping creative thinking, the impossibility of separating an artist’s’ mental disposition from his environment. Sometimes controversial, always thought-provoking, Servenière’s views will for sure capture the readers’ attention.

 

Leitora interessada em dados sobre magnífica Capela em Botucatu

Só é importante e pode substanciar poemas verdadeiros
o engajamento perante a vida.
Antoine de Saint-Exupéry.

Júlia Carolina Athanásio Heliodoro, engenheira florestal, doutoranda em Ciência Florestal e Pós-graduanda em Museografia e Patrimônio Cultural, escreve-me sobre tema que sempre me foi muito caro, a figura de Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), arcebispo de Botucatu, centralizando sua mensagem na Capela da Santíssima Trindade, idealização do ilustre prelado.

Transmito ao leitor sua simpática mensagem: “Estou escrevendo um artigo sobre a Capela da Santíssima Trindade do Seminário São José de Botucatu. Já pedi o empréstimo da tese da D. Maria Amélia para leitura, mas ainda assim encontro poucos relatos sobre a capela que não sejam sobre a pintura em si. Vi que o senhor conheceu nosso primeiro Bispo, que encomendou e acompanhou a obra. E participou de muitos concertos para arrecadar dinheiro para obras da igreja. Acredito que a melhor forma de enriquecer meu artigo é através da memória e oralidade. Se o senhor puder me ajudar com qualquer depoimento sobre a capela, sua construção ou sobre a relação da capela com o Bispo ou mesmo com o senhor, pode, por favor, me escrever?”

Insiro no presente blog segmento concernente a D.Henrique, pois em post bem anterior (vide “Velho Natal – Um conto singelo”, 22/12/2007) apenas menciono a Capela, sem entrar em pormenores: “Dom Henrique Golland Trindade foi uma figura extraordinária. Poder-se-ia acrescentar: homem santo ou iluminado, a depender das conceituações espiritualistas. Nascido em Porto Alegre, a vocação levou-o à formação religiosa competente. Tornou-se franciscano e atuou com intensidade frente a várias paróquias do país. Quando designado para a vida eclesiástica em Botucatu, no Estado de São Paulo, teve seu apostolado voltado aos mais simples e às crianças órfãs. Bispo e mais tarde arcebispo da diocese de Botucatu, nem por isso deixou de lado essa missão diária de assistir aos desalentados da cidade. Fundador da Congregação Diocesana das Irmãs Servas do Senhor em 1952 e da Vila dos Meninos Sagrada Família, Dom Henrique amava as Artes. A Capela da Santíssima Trindade do Seminário Arquidiocesano foi pintada por Henrique Carlos Oswald, filho do grande artista plástico Carlos e neto do não menos ilustre compositor Henrique Oswald. Em 1952, João Carlos e eu demos um recital na Igreja de São Francisco, no Largo do mesmo nome, em São Paulo. Era uma homenagem ao eminente prelado. Nos anos subsequentes, oferecíamos regularmente recitais no Colégio Santa Marcelina, em Botucatu, com a renda inteiramente destinada à Vila dos Meninos. Por várias vezes fomos passar alguns dias no Arcebispado da cidade e, orientados por Dom Henrique, apreciávamos, nos mínimos pormenores, a belíssima pintura de Henrique Carlos Oswald na ábside da Capela. Foi nosso padrinho de crisma. Em 1963, em Campinas, oficiaria o meu casamento com Regina”.

Após essa premissa, diria que a dissertação da professora, escritora e pintora Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, defendida na UNESP-Bauru em 1997 (“Henrique Carlos Bicalho Oswald: O Mural da Santíssima Trindade em Botucatu”), estuda pormenorizadamente a expressiva Capela botucatuense pintada por Henrique Carlos Oswald com a ajuda de sua esposa, Jacyra Carvalho Oswald. Tive o privilégio de compor a banca examinadora. A ascendência do pintor Henrique Carlos Bicalho Oswald (1918-1965) é extraordinária. Seu pai, Carlos Oswald (1882-1971), foi o pioneiro da gravura em metal no Brasil e pintor de enorme qualidade. Em seguida à dissertação, Maria Amélia concentrou-se justamente na obra de seu progenitor, e sua tese de doutorado, defendida igualmente na UNESP-Bauru em 2010, versou sobre “A Poética da Luz na Obra de Carlos Oswald”. Curiosamente, se Maria Amélia realizou dois trabalhos acadêmicos sobre Henrique e Carlos, meu doutorado junto à FFLESCH-USP, em 1988, foi sobre o avô do pintor da capela, Henrique Oswald (1852-1931), o mais importante compositor romântico brasileiro. A neta do compositor, a saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, durante os anos em que a visitava mensalmente no Rio de Janeiro a partir de 1978 para aprofundamento em torno de seu avô, dizia-me convicta que seu irmão, Henrique Carlos, sofrera intensa influência de seu pai nesse caminho da contemplação mística em muitos de seus trabalhos e que a pintura do mural da Capela da Santíssima Trindade teria como estímulo adicional o convívio diário com Frei Henrique, assim Maria Isabel o chamava, pois minha dileta amiga conhecera bem o prelado antes de se tornar bispo e, mais tarde, arcebispo.

Rememorando o que não foi mencionado no blog de 2007, diria que, durante as várias visitas a Botucatu a convite de D. Henrique e sempre a tocar, o arcebispo, meu padrinho de crisma, sempre apresentava, pleno de encantamento, a pintura da ábside, comentando seus personagens, muitos “recriados” a partir de figuras que Henrique Carlos conhecera. Foi de D.Henrique a ideia arquitetônica da capela. Sentia um “santo orgulho”, como afirmou-me reiteradas vezes ao adentrar a capela em estilo românico. A inspiração veio após conhecer as igrejas da península itálica do primeiro milênio. Como afirma Maria Amélia em sua dissertação: “A riqueza decorativa daquelas igrejas, construídas singelamente em tijolos aparentes, se reservava para o interior, onde pinturas ou mosaicos coloridos compunham cenas da história sacra. Inspirada nessas basílicas, porém com as proporções reduzidas harmoniosamente pelo arquiteto Benedito Calixto de Jesus Netto (1910-1972), a Capela da Santíssima Trindade apresenta o típico plano trinitário: átrio, nave e ábside, em cuja concha foi pintado o mural”. A restauração da Capela, realizada entre 2004-05, deu-se graças à comunidade botucatuense, mormente aos três idealizadores da causa, Padre Antônio Pedroso, então pároco da Catedral, Maria Amélia Blasi de Toledo Piza e Rita de Cássia Athanásio, trabalho exaustivo que teve o acompanhamento de Júlia Carolina Athanásio Heliodoro, todos no árduo empenho para obtenção de verbas.

Atendendo ao pedido de Júlia Carolina para que comentasse outras passagens a envolver D.Henrique, diria que meu convívio com o padrinho prolongou-se primeiramente até 1958, ano em que viajei para Paris com bolsa oferecida pelo governo francês, lá permanecendo cerca de quatro anos. Quando em rápida visita à capital francesa, fui aguardá-lo na estação ferroviária juntamente com minha colega, a pianista Odile Robert. Após meu regresso continuei a visitar Botucatu para recitais. Didaticamente, durante três anos, mensalmente viajava para a cidade, a fim de orientar jovens pianistas estudantes do Colégio Santa Marcelina. Mesmo nesse período, em todas as estadas visitava a Capela da Santíssima Trindade e, sentado, permanecia durante um bom tempo a meditar. Confesso à Júlia Heliodora que nenhuma igreja ou outra capela brasileira tem para mim essa mística inefável. Despojamento arquitetônico, ausência de artifícios, pintura de rara beleza…

Mencionaria outra passagem de meu blog de 2007 sobre a figura de D. Henrique: “No início da década de 1970, dera um recital em Botucatu e no dia seguinte, bem cedo, fui visitá-lo na Vila dos Meninos, onde há muito se recolhera. Encontrei-o ajoelhado, naquela manhã fria, a podar umas rosas. Tentei levantá-lo. Disse-me que estava bem. Perguntei ainda como se sentia após a renúncia da arquidiocese muito tempo antes, a fim de cuidar de crianças desamparadas. Baixou o capuz e serenamente respondeu: ‘Enquanto eu tiver forças nos braços para levantar e louvar a Deus, estarei bem’. Grande orador sacro, seus sermões não apenas cativavam pela profundidade dos ensinamentos, mas igualmente pelo vernáculo impecável. Escreveu vários livros, entre os quais Matt Talbot – O Operário Penitente e Nossos Pobres Contos”. Conservo-os com expressivas dedicatórias.

Um fato relacionado à Catedral de Botucatu relembro com clareza. Houve uma campanha para obtenção de verbas para a instalação dos sinos da Catedral. A arrecadação de um dos nossos recitais de piano em Botucatu, em 1955, foi destinada à obtenção de recursos para aquisição dos sinos. D. Henrique escreveu no Jornal Diocesano da cidade: “Que o Senhor de toda a beleza continue a orientar talentos tão peregrinos e que os queridos jovens, acompanhados por seus pais felizes, passem pela vida a semear harmonias e a semear o bem. E que o som grave do Sino do Centenário (que esperamos será uma realidade) espalhe pela nossa cidade centenária e seus arredores dois nomes de extrema simpatia, que estarão sempre ligados à sua história, como lição de desinteressada generosidade: José Eduardo e João Carlos Martins. (3-VIII-1955, Bispo Diocesano de Botucatu)”. Em 1997, após recital na cidade, subi até a torre da Catedral e li nossos nomes em alto relevo em um dos sinos. Regressei a Botucatu em 2013, igualmente para recital de piano. Comoveu-me muito o ato proporcionado pelas crianças da Vila dos Meninos, que subiram ao palco e me ofereceram uma camisa com a imagem de D.Henrique.

Sempre que convidado terei prazer em tocar na cidade dos “bons ares, bom vento”, sendo a verba aferida inteiramente dedicada à Vila dos Meninos.

A reader who is writing an article about the Holy Trinity Chapel of Botucatu, SP, has asked me to talk about my friendship with the late archbishop of Botucatu, Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), and also about the chapel (it was the archbishop’s idea to build the chapel in Romanesque style). Thus in this post I describe some episodes of my relationship with Dom Henrique, wich extended from 1952 to 1970. As to the chapel, I recommend reading the master’s thesis written by the retired university teacher, writer and painter Maria Amélia Blasi de Toledo Pisa, a serious research on the story of the chapel and in particular of its altar painting, work by Henrique Carlos Bicalho Oswald.

 

 

Temas que segmentos poderosos no Brasil insistem em negligenciar

Que noção de “patrimônio” herdamos secularmente? Não uma noção neutra.
A própria origem etimológica da palavra – do latim: patrimonium
indica a sua carga ideológica: designa o legado do pater.
Consiste no conjunto de bens do patriarca,
sobre o qual este põe e dispõe, transmitindo-o por herança.
Mário Vieira de Carvalho

O notável professor e musicólogo português Mário Vieira de Carvalho, ao abordar em sua conferência mencionada no último blog a destruição dos patrimônios material e imaterial na História, propiciou a uma considerável parcela de leitores reflexões a respeito. Sintetizo mensagens recebidas nas palavras de meu amigo Marcelo – encontro-o quase sempre na feira livre aos sábados – que observou, considerando um exemplo nosso, citadino, que São Paulo fundada em 1554, hoje com mais de 12 milhões de habitantes, praticamente nada mais tem de seu passado. O que nos resta, perguntou Marcelo? Do passado mais remoto, resquícios sem expressão; dos séculos a correr, uns mínimos exemplos. Concordamos plenamente nas prováveis causas: ausência efetiva de uma política educacional pública, incultura a grassar em nossas terras, falta de espírito de civilidade, ganância desmesurada das incorporadoras pelo lucro, corrupção que sempre existiu mas que teve a partir do início do século XXI uma avassaladora e desavergonhada ascensão.

No que se refere à destruição material, assiste-se, mormente a partir da segunda metade do século XX, ao boom imobiliário, a ter na sanha das construtoras de grandes imóveis uma das responsáveis. Diria que, sem considerar conluios que existiram e persistem nas elaborações de planos urbanísticos para a cidade, não tem havido o mínimo respeito para com a preservação das migalhas de nossa história. Ao mercado imobiliário interessa encontrar espaço conveniente e nele construir prédios que, ao longo das últimas décadas, só tendem a ser mais altos. Basicamente não há preocupação com a preservação. A depender do interesse imobiliário por determinada área, investem forte, muitas vezes estranhamente, para que projetos sejam aprovados. Sob outra égide, locais que deveriam ser destinados a parques e praças de lazer são igualmente cobiçados avidamente por incorporadoras sem preocupação com os pósteros e a cidade ressente-se dessa “invasão”. Destruição material de nosso passado arquitetônico e de nossas áreas verdes.

Saudosista, estou a me lembrar da Avenida Paulista nos anos 1954-1955. Os estudos pianísticos tomavam parte considerável de meu tempo e durante o biênio estudei à noite no Liceu Eduardo Prado, na esquina da Rua Pamplona com a mais famosa avenida de São Paulo, sendo que em 1956 retornei ao Liceu Pasteur para finalizar o antigo curso Clássico. As aulas no Eduardo Prado findavam por volta das 23:30 e, após conversas com colegas, caminhava a pé da escola até as alturas do Instituto Pasteur, onde pegava o bonde que me deixava na esquina das Avenidas Domingos de Moraes e Rodrigues Alves, desta descendo até a nossa morada no número 984. Os grandes casarões da Avenida Paulista, a beleza das largas calçadas e das frondosas árvores davam um ar de imponência à via pública, a lembrar avenidas de grandes centros europeus. Muitos desses casarões ou palacetes poderiam ter sido mantidos, sobrando no presente pouquíssimos, perdidos na imensidão de grandes prédios que foram sendo construídos ao longo das décadas, sem padrão de harmonia, cada um a obedecer desiderato individual de cada projetista. Desapareceram as árvores, e as calçadas passaram a abrigar não apenas infortunados sem teto como punguistas e outras mais categorias estranhas, permanecendo quase sempre distantes de quaisquer padrões de limpeza. Presta-se a Avenida Paulista às manifestações de toda ordem. Terra de ninguém, na realidade.

Se menciono a Avenida Paulista, tantos outros exemplos espalhados pela cidade podem ser considerados, casarões com qualidade arquitetônica real destruídos pelo avanço imobiliário. Nada a fazer, pois pouco restou desse passado relativamente recente. São Paulo, com algumas lembranças do passado, é uma cidade com Alzheimer.

Se cidades brasileiras tiveram um maior respeito pelo patrimônio material, louve-se o conjunto de medidas que levou a preservá-lo. Numerosas igrejas, casarios que remontam ao século XVIII e monumentos ainda são conservados. Muito pouco para um imenso país. Geralmente encontráveis em cidades menores.

Mário Vieira de Carvalho afirma com firmeza que a destruição material é fruto da “ação intencional”. A destruição imaterial seria também voluntária. Ao concluir que a destruição sistemática da cultura erudita é irreversível, Mario Vargas Llosa, em “La Civilización del espectáculo”, enfatiza inclusive a deterioração dos níveis culturais como um todo. Menciona Vargas Llosa as artes plásticas nas  Bienais. Deixou de frequentá-las pela absurda ausência da qualidade da “arte” apresentada. Importa, segundo Vargas Llosa, o espectáculo, a presença maciça na mídia, afirmando que estar fora dela é permanecer, mesmo com toda qualidade individual, decididamente ignoto. A mídia não irá em busca da qualidade. Grandes patrocinadores de eventos gigantescos, que alugam espaços na mídia através da publicidade, têm fundamental influência nas matérias divulgadoras desses eventos. É uma enorme engrenagem, não sendo difícil entender que a qualidade artística, no caso, é o que menos importa. Sem precisar nomear integrantes do Rap, do Funk, do Rock, do Pagode e do falso sertanejo, das manifestações “artísticas” apresentadas em Bienais, da literatura precedida pelo marketing imperioso e da novela televisiva como exemplos, o que ocuparia imenso espaço, considere-se que a mídia os divulga ad nauseam. Ao público, seguidor do que lhes é apresentado exaustivamente, inclusive pelas redes sociais previamente inteiradas dessa gigantesca parafernália criada, não resta outra coisa a não ser a vontade imperiosa de deglutir o espectáculo de ocasião. E a preservação da cultura imaterial estruturada no passado? As novas gerações, massacradas pela intensa divulgação da qualidade duvidosa do presente, basicamente perderam contato com as culturas precedentes. A destruição imaterial se consolida impulsionada pelo apetite do lucro desmesurado. Promotores que não têm o menor verniz cultural organizam sistematicamente eventos que possam abranger a maior quantidade de um público que, também vertiginosamente, tem seu nível de conhecimento cultural reduzido a níveis baixíssimos, quando o tem. Louve-se a preservação – com que sacrifícios? – das manifestações tradicionais voltadas à dança e a cantoria de raiz, sem patrocínio, sem divulgação e que envolvem comunidades inteiras por este imenso país. Atravessam os séculos a encantar aqueles que as conhecem.

Realmente não se pode acreditar numa reviravolta. A tendência é a diminuição acentuada da qualidade. Políticos e empresários se entendem muito bem. Assiste-se, numa escala geométrica, ao desprezo desses pela qualidade artística. Os governantes escasseiam as verbas para a Cultura e a pequena parcela a ela destinada é aquinhoada por grupos, sempre os mesmos, que sabem bem o caminho da fonte. As empresas estão praticamente focadas na quantidade dos consumidores e pouquíssimas são aquelas que incentivam a arte da resistência.

A destruição material tem sempre maior impacto do que a imaterial. O aniquilamento imaterial, surdo, urdido sob manto voluntário, tem sido devastador. Não quiseram implementar no governo precedente novos currículos para a História e a Literatura, abolindo períodos referenciais daquela e nomes consagrados das letras ao longo dos séculos, inclusive Camões? O pior, sem o menor rubor. Queimaram-se os cravos, instrumento considerado monárquico na Revolução Francesa, mas as partituras permaneceram, preservando-se a interpretação imaterial. Durante o período da Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) instituída pelo líder Mao Tsé-Tung, milhares de partituras e livros foram queimados e professores mortos (vide blog: “La Rivière et son secret” – A pianista Zhu Xiao-Mei e os segredos desvelados”, 06/11/2009). O que entenderia como aniquilamento surdo, sombrio, é o patrimônio imaterial que, tendo sobrevivido às hecatombes em heroico renascimento, pouco a pouco está a ser exterminado, sem revolução, sem gritos, sem massas iradas, sem a voz e o som dos menos aquinhoados, mas sim através da indiferença dos poderosos e da sanha sem limites dos tantos envolvidos com esse espectáculo aceleradamente voltado ao niilismo. Encruzilhada.

On tangible and intangible heritage and on the systematic and deliberate destruction of our national culture as a whole, since nowadays nothing seems to be worthy of preservation for the future.