Navegando Posts em Artes

Leitora interessada em dados sobre magnífica Capela em Botucatu

Só é importante e pode substanciar poemas verdadeiros
o engajamento perante a vida.
Antoine de Saint-Exupéry.

Júlia Carolina Athanásio Heliodoro, engenheira florestal, doutoranda em Ciência Florestal e Pós-graduanda em Museografia e Patrimônio Cultural, escreve-me sobre tema que sempre me foi muito caro, a figura de Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), arcebispo de Botucatu, centralizando sua mensagem na Capela da Santíssima Trindade, idealização do ilustre prelado.

Transmito ao leitor sua simpática mensagem: “Estou escrevendo um artigo sobre a Capela da Santíssima Trindade do Seminário São José de Botucatu. Já pedi o empréstimo da tese da D. Maria Amélia para leitura, mas ainda assim encontro poucos relatos sobre a capela que não sejam sobre a pintura em si. Vi que o senhor conheceu nosso primeiro Bispo, que encomendou e acompanhou a obra. E participou de muitos concertos para arrecadar dinheiro para obras da igreja. Acredito que a melhor forma de enriquecer meu artigo é através da memória e oralidade. Se o senhor puder me ajudar com qualquer depoimento sobre a capela, sua construção ou sobre a relação da capela com o Bispo ou mesmo com o senhor, pode, por favor, me escrever?”

Insiro no presente blog segmento concernente a D.Henrique, pois em post bem anterior (vide “Velho Natal – Um conto singelo”, 22/12/2007) apenas menciono a Capela, sem entrar em pormenores: “Dom Henrique Golland Trindade foi uma figura extraordinária. Poder-se-ia acrescentar: homem santo ou iluminado, a depender das conceituações espiritualistas. Nascido em Porto Alegre, a vocação levou-o à formação religiosa competente. Tornou-se franciscano e atuou com intensidade frente a várias paróquias do país. Quando designado para a vida eclesiástica em Botucatu, no Estado de São Paulo, teve seu apostolado voltado aos mais simples e às crianças órfãs. Bispo e mais tarde arcebispo da diocese de Botucatu, nem por isso deixou de lado essa missão diária de assistir aos desalentados da cidade. Fundador da Congregação Diocesana das Irmãs Servas do Senhor em 1952 e da Vila dos Meninos Sagrada Família, Dom Henrique amava as Artes. A Capela da Santíssima Trindade do Seminário Arquidiocesano foi pintada por Henrique Carlos Oswald, filho do grande artista plástico Carlos e neto do não menos ilustre compositor Henrique Oswald. Em 1952, João Carlos e eu demos um recital na Igreja de São Francisco, no Largo do mesmo nome, em São Paulo. Era uma homenagem ao eminente prelado. Nos anos subsequentes, oferecíamos regularmente recitais no Colégio Santa Marcelina, em Botucatu, com a renda inteiramente destinada à Vila dos Meninos. Por várias vezes fomos passar alguns dias no Arcebispado da cidade e, orientados por Dom Henrique, apreciávamos, nos mínimos pormenores, a belíssima pintura de Henrique Carlos Oswald na ábside da Capela. Foi nosso padrinho de crisma. Em 1963, em Campinas, oficiaria o meu casamento com Regina”.

Após essa premissa, diria que a dissertação da professora, escritora e pintora Maria Amélia Blasi de Toledo Piza, defendida na UNESP-Bauru em 1997 (“Henrique Carlos Bicalho Oswald: O Mural da Santíssima Trindade em Botucatu”), estuda pormenorizadamente a expressiva Capela botucatuense pintada por Henrique Carlos Oswald com a ajuda de sua esposa, Jacyra Carvalho Oswald. Tive o privilégio de compor a banca examinadora. A ascendência do pintor Henrique Carlos Bicalho Oswald (1918-1965) é extraordinária. Seu pai, Carlos Oswald (1882-1971), foi o pioneiro da gravura em metal no Brasil e pintor de enorme qualidade. Em seguida à dissertação, Maria Amélia concentrou-se justamente na obra de seu progenitor, e sua tese de doutorado, defendida igualmente na UNESP-Bauru em 2010, versou sobre “A Poética da Luz na Obra de Carlos Oswald”. Curiosamente, se Maria Amélia realizou dois trabalhos acadêmicos sobre Henrique e Carlos, meu doutorado junto à FFLESCH-USP, em 1988, foi sobre o avô do pintor da capela, Henrique Oswald (1852-1931), o mais importante compositor romântico brasileiro. A neta do compositor, a saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, durante os anos em que a visitava mensalmente no Rio de Janeiro a partir de 1978 para aprofundamento em torno de seu avô, dizia-me convicta que seu irmão, Henrique Carlos, sofrera intensa influência de seu pai nesse caminho da contemplação mística em muitos de seus trabalhos e que a pintura do mural da Capela da Santíssima Trindade teria como estímulo adicional o convívio diário com Frei Henrique, assim Maria Isabel o chamava, pois minha dileta amiga conhecera bem o prelado antes de se tornar bispo e, mais tarde, arcebispo.

Rememorando o que não foi mencionado no blog de 2007, diria que, durante as várias visitas a Botucatu a convite de D. Henrique e sempre a tocar, o arcebispo, meu padrinho de crisma, sempre apresentava, pleno de encantamento, a pintura da ábside, comentando seus personagens, muitos “recriados” a partir de figuras que Henrique Carlos conhecera. Foi de D.Henrique a ideia arquitetônica da capela. Sentia um “santo orgulho”, como afirmou-me reiteradas vezes ao adentrar a capela em estilo românico. A inspiração veio após conhecer as igrejas da península itálica do primeiro milênio. Como afirma Maria Amélia em sua dissertação: “A riqueza decorativa daquelas igrejas, construídas singelamente em tijolos aparentes, se reservava para o interior, onde pinturas ou mosaicos coloridos compunham cenas da história sacra. Inspirada nessas basílicas, porém com as proporções reduzidas harmoniosamente pelo arquiteto Benedito Calixto de Jesus Netto (1910-1972), a Capela da Santíssima Trindade apresenta o típico plano trinitário: átrio, nave e ábside, em cuja concha foi pintado o mural”. A restauração da Capela, realizada entre 2004-05, deu-se graças à comunidade botucatuense, mormente aos três idealizadores da causa, Padre Antônio Pedroso, então pároco da Catedral, Maria Amélia Blasi de Toledo Piza e Rita de Cássia Athanásio, trabalho exaustivo que teve o acompanhamento de Júlia Carolina Athanásio Heliodoro, todos no árduo empenho para obtenção de verbas.

Atendendo ao pedido de Júlia Carolina para que comentasse outras passagens a envolver D.Henrique, diria que meu convívio com o padrinho prolongou-se primeiramente até 1958, ano em que viajei para Paris com bolsa oferecida pelo governo francês, lá permanecendo cerca de quatro anos. Quando em rápida visita à capital francesa, fui aguardá-lo na estação ferroviária juntamente com minha colega, a pianista Odile Robert. Após meu regresso continuei a visitar Botucatu para recitais. Didaticamente, durante três anos, mensalmente viajava para a cidade, a fim de orientar jovens pianistas estudantes do Colégio Santa Marcelina. Mesmo nesse período, em todas as estadas visitava a Capela da Santíssima Trindade e, sentado, permanecia durante um bom tempo a meditar. Confesso à Júlia Heliodora que nenhuma igreja ou outra capela brasileira tem para mim essa mística inefável. Despojamento arquitetônico, ausência de artifícios, pintura de rara beleza…

Mencionaria outra passagem de meu blog de 2007 sobre a figura de D. Henrique: “No início da década de 1970, dera um recital em Botucatu e no dia seguinte, bem cedo, fui visitá-lo na Vila dos Meninos, onde há muito se recolhera. Encontrei-o ajoelhado, naquela manhã fria, a podar umas rosas. Tentei levantá-lo. Disse-me que estava bem. Perguntei ainda como se sentia após a renúncia da arquidiocese muito tempo antes, a fim de cuidar de crianças desamparadas. Baixou o capuz e serenamente respondeu: ‘Enquanto eu tiver forças nos braços para levantar e louvar a Deus, estarei bem’. Grande orador sacro, seus sermões não apenas cativavam pela profundidade dos ensinamentos, mas igualmente pelo vernáculo impecável. Escreveu vários livros, entre os quais Matt Talbot – O Operário Penitente e Nossos Pobres Contos”. Conservo-os com expressivas dedicatórias.

Um fato relacionado à Catedral de Botucatu relembro com clareza. Houve uma campanha para obtenção de verbas para a instalação dos sinos da Catedral. A arrecadação de um dos nossos recitais de piano em Botucatu, em 1955, foi destinada à obtenção de recursos para aquisição dos sinos. D. Henrique escreveu no Jornal Diocesano da cidade: “Que o Senhor de toda a beleza continue a orientar talentos tão peregrinos e que os queridos jovens, acompanhados por seus pais felizes, passem pela vida a semear harmonias e a semear o bem. E que o som grave do Sino do Centenário (que esperamos será uma realidade) espalhe pela nossa cidade centenária e seus arredores dois nomes de extrema simpatia, que estarão sempre ligados à sua história, como lição de desinteressada generosidade: José Eduardo e João Carlos Martins. (3-VIII-1955, Bispo Diocesano de Botucatu)”. Em 1997, após recital na cidade, subi até a torre da Catedral e li nossos nomes em alto relevo em um dos sinos. Regressei a Botucatu em 2013, igualmente para recital de piano. Comoveu-me muito o ato proporcionado pelas crianças da Vila dos Meninos, que subiram ao palco e me ofereceram uma camisa com a imagem de D.Henrique.

Sempre que convidado terei prazer em tocar na cidade dos “bons ares, bom vento”, sendo a verba aferida inteiramente dedicada à Vila dos Meninos.

A reader who is writing an article about the Holy Trinity Chapel of Botucatu, SP, has asked me to talk about my friendship with the late archbishop of Botucatu, Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), and also about the chapel (it was the archbishop’s idea to build the chapel in Romanesque style). Thus in this post I describe some episodes of my relationship with Dom Henrique, wich extended from 1952 to 1970. As to the chapel, I recommend reading the master’s thesis written by the retired university teacher, writer and painter Maria Amélia Blasi de Toledo Pisa, a serious research on the story of the chapel and in particular of its altar painting, work by Henrique Carlos Bicalho Oswald.

 

 

Temas que segmentos poderosos no Brasil insistem em negligenciar

Que noção de “patrimônio” herdamos secularmente? Não uma noção neutra.
A própria origem etimológica da palavra – do latim: patrimonium
indica a sua carga ideológica: designa o legado do pater.
Consiste no conjunto de bens do patriarca,
sobre o qual este põe e dispõe, transmitindo-o por herança.
Mário Vieira de Carvalho

O notável professor e musicólogo português Mário Vieira de Carvalho, ao abordar em sua conferência mencionada no último blog a destruição dos patrimônios material e imaterial na História, propiciou a uma considerável parcela de leitores reflexões a respeito. Sintetizo mensagens recebidas nas palavras de meu amigo Marcelo – encontro-o quase sempre na feira livre aos sábados – que observou, considerando um exemplo nosso, citadino, que São Paulo fundada em 1554, hoje com mais de 12 milhões de habitantes, praticamente nada mais tem de seu passado. O que nos resta, perguntou Marcelo? Do passado mais remoto, resquícios sem expressão; dos séculos a correr, uns mínimos exemplos. Concordamos plenamente nas prováveis causas: ausência efetiva de uma política educacional pública, incultura a grassar em nossas terras, falta de espírito de civilidade, ganância desmesurada das incorporadoras pelo lucro, corrupção que sempre existiu mas que teve a partir do início do século XXI uma avassaladora e desavergonhada ascensão.

No que se refere à destruição material, assiste-se, mormente a partir da segunda metade do século XX, ao boom imobiliário, a ter na sanha das construtoras de grandes imóveis uma das responsáveis. Diria que, sem considerar conluios que existiram e persistem nas elaborações de planos urbanísticos para a cidade, não tem havido o mínimo respeito para com a preservação das migalhas de nossa história. Ao mercado imobiliário interessa encontrar espaço conveniente e nele construir prédios que, ao longo das últimas décadas, só tendem a ser mais altos. Basicamente não há preocupação com a preservação. A depender do interesse imobiliário por determinada área, investem forte, muitas vezes estranhamente, para que projetos sejam aprovados. Sob outra égide, locais que deveriam ser destinados a parques e praças de lazer são igualmente cobiçados avidamente por incorporadoras sem preocupação com os pósteros e a cidade ressente-se dessa “invasão”. Destruição material de nosso passado arquitetônico e de nossas áreas verdes.

Saudosista, estou a me lembrar da Avenida Paulista nos anos 1954-1955. Os estudos pianísticos tomavam parte considerável de meu tempo e durante o biênio estudei à noite no Liceu Eduardo Prado, na esquina da Rua Pamplona com a mais famosa avenida de São Paulo, sendo que em 1956 retornei ao Liceu Pasteur para finalizar o antigo curso Clássico. As aulas no Eduardo Prado findavam por volta das 23:30 e, após conversas com colegas, caminhava a pé da escola até as alturas do Instituto Pasteur, onde pegava o bonde que me deixava na esquina das Avenidas Domingos de Moraes e Rodrigues Alves, desta descendo até a nossa morada no número 984. Os grandes casarões da Avenida Paulista, a beleza das largas calçadas e das frondosas árvores davam um ar de imponência à via pública, a lembrar avenidas de grandes centros europeus. Muitos desses casarões ou palacetes poderiam ter sido mantidos, sobrando no presente pouquíssimos, perdidos na imensidão de grandes prédios que foram sendo construídos ao longo das décadas, sem padrão de harmonia, cada um a obedecer desiderato individual de cada projetista. Desapareceram as árvores, e as calçadas passaram a abrigar não apenas infortunados sem teto como punguistas e outras mais categorias estranhas, permanecendo quase sempre distantes de quaisquer padrões de limpeza. Presta-se a Avenida Paulista às manifestações de toda ordem. Terra de ninguém, na realidade.

Se menciono a Avenida Paulista, tantos outros exemplos espalhados pela cidade podem ser considerados, casarões com qualidade arquitetônica real destruídos pelo avanço imobiliário. Nada a fazer, pois pouco restou desse passado relativamente recente. São Paulo, com algumas lembranças do passado, é uma cidade com Alzheimer.

Se cidades brasileiras tiveram um maior respeito pelo patrimônio material, louve-se o conjunto de medidas que levou a preservá-lo. Numerosas igrejas, casarios que remontam ao século XVIII e monumentos ainda são conservados. Muito pouco para um imenso país. Geralmente encontráveis em cidades menores.

Mário Vieira de Carvalho afirma com firmeza que a destruição material é fruto da “ação intencional”. A destruição imaterial seria também voluntária. Ao concluir que a destruição sistemática da cultura erudita é irreversível, Mario Vargas Llosa, em “La Civilización del espectáculo”, enfatiza inclusive a deterioração dos níveis culturais como um todo. Menciona Vargas Llosa as artes plásticas nas  Bienais. Deixou de frequentá-las pela absurda ausência da qualidade da “arte” apresentada. Importa, segundo Vargas Llosa, o espectáculo, a presença maciça na mídia, afirmando que estar fora dela é permanecer, mesmo com toda qualidade individual, decididamente ignoto. A mídia não irá em busca da qualidade. Grandes patrocinadores de eventos gigantescos, que alugam espaços na mídia através da publicidade, têm fundamental influência nas matérias divulgadoras desses eventos. É uma enorme engrenagem, não sendo difícil entender que a qualidade artística, no caso, é o que menos importa. Sem precisar nomear integrantes do Rap, do Funk, do Rock, do Pagode e do falso sertanejo, das manifestações “artísticas” apresentadas em Bienais, da literatura precedida pelo marketing imperioso e da novela televisiva como exemplos, o que ocuparia imenso espaço, considere-se que a mídia os divulga ad nauseam. Ao público, seguidor do que lhes é apresentado exaustivamente, inclusive pelas redes sociais previamente inteiradas dessa gigantesca parafernália criada, não resta outra coisa a não ser a vontade imperiosa de deglutir o espectáculo de ocasião. E a preservação da cultura imaterial estruturada no passado? As novas gerações, massacradas pela intensa divulgação da qualidade duvidosa do presente, basicamente perderam contato com as culturas precedentes. A destruição imaterial se consolida impulsionada pelo apetite do lucro desmesurado. Promotores que não têm o menor verniz cultural organizam sistematicamente eventos que possam abranger a maior quantidade de um público que, também vertiginosamente, tem seu nível de conhecimento cultural reduzido a níveis baixíssimos, quando o tem. Louve-se a preservação – com que sacrifícios? – das manifestações tradicionais voltadas à dança e a cantoria de raiz, sem patrocínio, sem divulgação e que envolvem comunidades inteiras por este imenso país. Atravessam os séculos a encantar aqueles que as conhecem.

Realmente não se pode acreditar numa reviravolta. A tendência é a diminuição acentuada da qualidade. Políticos e empresários se entendem muito bem. Assiste-se, numa escala geométrica, ao desprezo desses pela qualidade artística. Os governantes escasseiam as verbas para a Cultura e a pequena parcela a ela destinada é aquinhoada por grupos, sempre os mesmos, que sabem bem o caminho da fonte. As empresas estão praticamente focadas na quantidade dos consumidores e pouquíssimas são aquelas que incentivam a arte da resistência.

A destruição material tem sempre maior impacto do que a imaterial. O aniquilamento imaterial, surdo, urdido sob manto voluntário, tem sido devastador. Não quiseram implementar no governo precedente novos currículos para a História e a Literatura, abolindo períodos referenciais daquela e nomes consagrados das letras ao longo dos séculos, inclusive Camões? O pior, sem o menor rubor. Queimaram-se os cravos, instrumento considerado monárquico na Revolução Francesa, mas as partituras permaneceram, preservando-se a interpretação imaterial. Durante o período da Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) instituída pelo líder Mao Tsé-Tung, milhares de partituras e livros foram queimados e professores mortos (vide blog: “La Rivière et son secret” – A pianista Zhu Xiao-Mei e os segredos desvelados”, 06/11/2009). O que entenderia como aniquilamento surdo, sombrio, é o patrimônio imaterial que, tendo sobrevivido às hecatombes em heroico renascimento, pouco a pouco está a ser exterminado, sem revolução, sem gritos, sem massas iradas, sem a voz e o som dos menos aquinhoados, mas sim através da indiferença dos poderosos e da sanha sem limites dos tantos envolvidos com esse espectáculo aceleradamente voltado ao niilismo. Encruzilhada.

On tangible and intangible heritage and on the systematic and deliberate destruction of our national culture as a whole, since nowadays nothing seems to be worthy of preservation for the future.

 


Um tema que não se esgota

… a exuberância dos fenômenos estupidológicos,
a sua extrema variedade, a riqueza de suas realizações
ou a elegância dos seus refinamentos,
tudo nos faz encontrar na estupidez mais,
muito mais do que uma vacuidade,
uma ausência de inteligência.
Vitor J. Rodrigues
(“Teoria Geral da Estupidez Humana”)

Estava com o post praticamente findo para ser publicado neste fim de semana, quando recebo mensagem do compositor e pensador François Servenière. Referi-me a ele incontáveis vezes e nitidamente considero-o um partner de meus escritos, pois já lê com fluência nossa língua, sem poder contudo escrever, o que é irrelevante no caso, pois seus escritos apenas dignificam a arte de bem escrever nas terras de Gustave Flaubert.  As considerações surgem após os posts sobre Claude Debussy, graças ao centenário de sua morte.

Primeiramente, Servenière menciona minha observação sobre o fato de o Google ter neglicenciado efeméride tão maiúscula como o centenário da morte de Claude Debussy. Mais grave é ter ele também não ter sido lembrado pelo Google em França!!! Escreve: “Sim, Google esqueceu Claude Debussy!!! Notei essa lacuna em nosso país. Mas Google é americana e valoriza a cultura americana e determinados prêmios Nobel, nem todos, diga-se. Google trabalha para garantir centenas de milhões de acessos a seu portal. É o único critério. A qualidade da obra nada tem a ver com a notoriedade segundo Google, só o sucesso conta. Não obstante, quantos pesquisadores, pensadores ou criadores, hoje eminentes, morrem em seu século completamente desconhecidos? A maioria.

É o resgate do gênio, que nada tem a ver com o resgate da glória. Você comentou o ‘santo orgulho’ e a vaidade, diálogo mantido na sua juventude com um ilustre prelado. Os que se estruturam nas vaidades não se ocupam senão dos vaidosos. O talento não vem ao caso, e os cantores, como exemplo, passam o tempo todo fazendo autopromoções. Os atores de cinema têm infinitamente maior notoriedade do que os de teatro, apesar de o talento destes ser, majoritariamente, bem maior do que o daqueles, na minha opinião. Gravar uma sequência sensível de 30 segundos é menos difícil do que interpretar em cena Shakespeare ou Molière”. Consideraria a falta de talento de grande parte dos artistas de novelas televisivas, incensados ad nauseam mercê da exposição diária. Sob outra égide, são esses televisivos os maiores beneficiados para atuar em filmes brasileiros, geralmente de baixa qualidade, mas precedidos pelos nomes “referenciais”. Quantos desses “atores” passaram por curso universitário de Artes Cênicas? Os que entram na Academia geralmente fazem-no por vocação, mas a maioria não é aproveitada, tendo de buscar as companhias teatrais pouco divulgadas. Fato.

Servenière estende suas reflexões: “Incrível o pouco tempo que essas ‘celebridades’ dedicam à sua arte, pois passam, talvez, três quartos do tempo a gerenciar suas finanças, sociedades, viagens, egos, a fim de assegurar a promoção, os contratos publicitários e as mídias que lhes servem de sustentáculo. Creio que nós não mais somos desse mundo atual. Criticá-los? Quando entrevistados, falam eles de seus sucessos, de suas fortunas, do número de espectadores, de suas superações, mas raramente da essência de suas profissões, de suas técnicas de preparo, de suas respectivas artes e, a preponderar, da paixão pela arte.

É bem assim que se passa atualmente. Quanto aos compositores dos séculos passados, eram eles majoritariamente puristas e puritanos, viviam modestamente e amavam o seu métier mais do que qualquer outra coisa. Diria, uma outra época humana! Tenho lá minhas dúvidas, pois não sei se ainda temos razão em continuar nos comportando como nossos ascendentes, pois o tempo é outro e haveria a necessidade de a ele se adaptar. Honestamente, não sei. Não sei mesmo se o futuro buscará um retorno à verdadeira expressão da arte ou se haverá uma aceleração dessa importância já desmesurada da mídia prestigiando as manifestações cada vez mais pobres artisticamente. Será que já não chegamos no fundo do poço?” (Tradução: JEM).

As observações de François Servenière, sempre argutas, coincidem com muitas que, ao longo desses 11 anos de blogs ininterruptos, temos salientado. O blog da próxima semana terá como tema livro que acabo de ler sobre as “Big Bands paulistas”, em que os autores, de maneira aprofundada, se debruçam sobre a existência dessas big bands entre os anos 1940-1970, infelizmente quase todas desativadas no presente. Preliminarmente abordarei o desvario desses conjuntos atuais, que levam dezenas de milhares de espectadores alucinados frente à parafernália das luzes, aos altos decibéis, aos “músicos” incandescidos e… à ausência da música. Servenière, ao abordar músicos e atores, sente esse verdadeiro impasse pelo qual estamos passando, tão bem observado por Mario Vargas Llosa em “La Civilización del espectáculo”. Batalhas poderão ser vencidas, mas creio que a guerra, como bem salienta Vargas Llosa, está definitivamente perdida, pois se incutiu nas mentes dos povos, como um vírus letal, essa “arte” do pleno espetáculo, ruidosa, estridente, panfletária, alucinadamente envolvida por feérica iluminação in extremis, luzes destinadas a encobrir mediocridades.

Pertencemos a uma geração que não está preparada para receber esse tsunami mediático que pouco se importa com a qualidade da arte, mas sim com o visual que causa impacto. Sem me estender, o YouTube tem incontáveis exemplos de intérpretes, no caso específico da música dita de concerto, erudita ou clássica, em que as câmeras estão muito mais preocupadas com os gestos tantas vezes preparados e histriônicos do executante do que com a arte em si. É só comprovar. Continuemos a observar. É o que nos resta.

After reading the post of last week, the French composer François Servenière sent me an e-mail message with his comments on the subject. He reflects on the terminal state of culture and on the status of art today – just a frivolous entertainment, without social function. This post is a free translation of his message, adding a few points of my own.