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A partir de uma história real, a imaginação viaja

Crê com todo o teu ser;
só assim terás atingido o máximo da dúvida.
Agostinho da Silva (“Espólio”)

Recebi de uma leitora o livro “O último duelo” (Rio de Janeiro, Intrínseca, 2021) de Eric Jager , crítico literário voltado principalmente à literatura medieval. O enredo se passa durante a Guerra dos 100 anos entre França e Inglaterra, a ter como protagonistas principais três figuras que fazem parte do histórico real da França: Jean de Carrouges, cavaleiro normando, sua esposa Marguerite e o escudeiro Jacques Le Gris. Vivendo em pleno século XIV, as três figuras permanecem na literatura francesa através dos séculos.

Tenho sempre desconfiança, possivelmente devido aos trabalhos exegéticos exigidos na Academia, ao ler pesquisas sem dúvida sérias, mas intermediadas pela imaginação do autor, fator expurgado na área da História quando de dissertações e teses. Sob outra égide, há que se destacar o desiderato maior de um autor, no caso Eric Jager, doutor pela Universidade de Columbia e professor premiado de inglês na UCLA, que, ao imaginar situações possíveis através da leitura de fontes fidedignas, angaria um número incomensurável de leitores não necessariamente interessados na veracidade dos fatos. A notoriedade de “O último duelo”, inclusive, inspirou o filme “The Last Duel”, dirigido pelo renomado Ridley Scott. Na “Nota do autor”, Eric Jager esclarece os porquês: “Todos os personagens, locais, datas e muitos outros detalhes – incluindo o que as pessoas da época disseram e fizeram, suas declarações muitas vezes contraditórias na corte, as somas pagas e recebidas, e mesmo as condições climáticas – são reais e baseados em tais fontes. Quando estas se contradizem, apresento o relato mais provável dos fatos. Quando o registro histórico é insuficiente, uso a imaginação para preencher alguns hiatos, sempre tentando ouvir as vozes do passado”. Essa escuta do imaginário, ao “complementar” fontes fidedignas, configuraria enxertos à história. Se a lacuna de uma fonte documental existe, inventá-la dirige o texto a um público menos exegético, mas necessariamente amplo, pois mais preocupado com a narrativa em si, curioso sobre o desfecho, do que com a interrogação que leva à dúvida. O esclarecimento de Eric Jager evidencia propósito claro.

Foram dez anos de longa pesquisa frente a um manancial de documentos que levou o autor a tantas viagens, a fim de que sua visão dessa história, a envolver personagens que permanecem através dos séculos graças à larga documentação, fizesse com que renascessem numa narrativa harmoniosa, tornando-os conhecidos por número incalculável de leitores e, como consequência, pelos amantes do cinema.

Uma brevíssima sinopse faz-se necessária para que se conheça o enredo histórico. Está-se em pleno século XIV durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), que antagonizou França e Inglaterra. O cavaleiro normando Jean de Carrouges, que participara de várias batalhas, em um de seus retornos ouve a confissão de sua esposa, que assegura ter sido estuprada por um seu ex-amigo de combates, mas há tempos inimigo declarado, o escudeiro Jacques Le Gris. O caso, levado a várias instâncias judiciárias, recebe finalmente a decisão do Rei Carlos VI, então nos seus 17 anos, após a autorização do Parlamento de Paris, declarando que haveria o duelo entre os dois. Àquela época as penas eram implacáveis. Se perdesse, Carrouges não só morreria na arena, como sua esposa Marguerite seria queimada viva por perjúrio. Foi o último duelo oficial do gênero em França. Munidos de todo o arsenal de combate, como armadura, cavalo, lança, machado, espada e adaga, um dos combatentes encontraria a morte, tida como expressa vontade de Deus. Através da história, dúvidas permaneceram a respeito da veracidade das confissões.

Há na internet documentação sobre esse tumultuoso caso, que se prolonga ao longo dos séculos nem sempre no mesmo direcionamento, mas que ganharia ímpar notoriedade através do livro de Eric Jager e do filme dirigido por Ridley Scott.

Frise-se que Eric Jager conduz a trama de maneira a manter o leitor atento ao desenrolar do enredo e tece comentários de interesse sobre os julgamentos àquela altura e as penas fatais dos condenados, de extrema crueldade.

Estou a me lembrar de que, após gravação de CD dedicado ao notável compositor português Fernando Lopes-Graça, em Leiria no ano de 2003, visitei, no Castelo Medieval da cidade, no alto de uma colina, a Exposição Internacional dos instrumentos de tortura autênticos usados na Idade Média. Para cada engenho fatídico havia um painel com cópia de desenho ou pintura de época, a evidenciar a utilização do instrumento de martírio. Aconselharam-me a não visitar, tamanho o impacto. Todavia, quis conhecer. Entendi os limites absolutos da tortura. Ao sair da Exposição quiseram-me vender um magnífico livro com “belíssimas” ilustrações. Respondi jocosamente à funcionária: “já não basta a Exposição?”. Na descida do belo Castelo Medieval restaurado deparei-me com várias senhoras a vomitar.

Após a leitura assisti ao filme “The last duel”, dirigido por Ridley Scott. Sendo um filme e não um documentário, mais elementos fantasiosos foram adicionados para que a condução do enredo se tornasse palatável. Se, sob uma ótica, entendo impecáveis a caracterização dos personagens, dos locais escolhidos, dos Castelos autênticos e das batalhas, a condução da história, a objetivar o grande público, está plena de intermediações criadas pelos roteiristas Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon, responsáveis pelas três partes do filme. Nestas, há repetições, pelo fato de os “roteiros” dos três personagens históricos terem, por vezes, situações semelhantes. Resulta uma imaginação ainda mais fecunda àquela do livro de Eric Jager. A escolha da iluminação dos interiores leva ao espectador a noção dos recintos de antanho, à luz de velas ou tochas, o que tem boa dose de autenticidade. Os atores Matt Damon (cavaleiro Jean de Carrouges), Adam Driver (escudeiro Jacques Le Gris), a bela Jodie Comer (Marguerite de Carrouges) estão excelentes em seus respectivos papéis tão contrastantes, assim como Ben Affleck (Conde Pierre d’Alençon). Pena que o jovem Rei Carlos VI apareça sempre como um imbecil. Reza a história que, a partir de determinada altura, teve acessos de loucura.

Acredito que a leitura do livro e o consequente filme possibilitem reflexões sobre a realidade dos fatos e comparações com acontecimentos hodiernos.

“The Last Duel”, a book by Eric Jager, a literary critic and specialist in medieval literature, is of interest. The author has done researches in reliable sources, but uses his imagination to fill in gaps in the real story. It reached huge audiences, turning into a motion picture directed by Ridley Scott. Book and film, despite deviations from reality, present the last judiciary duel held in 14th-century France between a knight, a squire and, as a pivot, the wife of the first, with themes that echo powerfully until today.

 

Ecos de “Tendências da composição”

Recepção seletiva a respeito de tema polêmico

O artista não conquista pela vida, mas pela imitação;
cada forma é originalmente
a luta de uma forma potencial contra uma forma imitada.
André Malraux (1901-1976)
(Psychologie de l’art)

Entre as muitas mensagens recebidas, selecionei sete, que abordam o complexo período que atravessamos no campo das artes, mormente, no caso, o da criação musical desde parte considerável do século XX. Apontar os gigantescos avanços tecnológicos, neles inserido o acesso à internet, já se tornou lugar comum. Essas transformações influíram decididamente na conduta do homem frente à ética, à moral, mercê de liberações discutíveis, assim como acentuando três dos mais desprezíveis males da humanidade, o egocentrismo, o descaso social e a corrupção, esta que em nossas terras tornou-se endêmica.   Caminhos que se descortinam sem volta, hélas. Já adentrado na oitava década, percebo que essas mudanças foram de ordem tsunâmicas, colocando por terra inúmeras conquistas do homem através de milênios. Passo a passo caminhou a humanidade, mas nesses últimos decênios as alterações se mostram em patamares sem precedentes.

As rupturas no campo da denominada música clássica, erudita ou de concerto, termos que poderão perder validade nessa avalanche transformadora, são incontáveis. Como exemplo, em pleno século XVIII, com os arcaicos meios de comunicação e de deslocamentos, em Alemanha, França, Espanha, Portugal e Itália compositores professavam cartilhas bem próximas sobre as formas musicais, basicamente homogêneas nesses países, com variantes certamente. Seguiam-se padrões, respeitavam-se as conquistas adquiridas, que se tornavam democráticas. Os compositores delas se beneficiaram. As inovações paulatinamente eram assimiladas por todos os criadores. Se talento houvesse, obras-primas estariam garantidas. Incontáveis. A ausência do efêmero fez com que as formas pudessem sedimentar-se, um dos fatores essenciais para a abundância criativa. O “Traité de l’Harmonie réduite à ses principes naturels” (1722), de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), teria validade prioritária durante quase dois séculos!

Não é difícil entender que a aceleração de tantas tendências nessas últimas décadas impossibilita o tempo de maturação e, na ânsia do ineditismo, o abandono do passado se torna o “grito” de independência, aparência da verdade. Transformações da escrita musical e teorias que surgem para fenecer sem deixar saudades, substituídas por outras igualmente transitórias e sem embasamento, fazem parte de um complexo cotidiano. É esse fato preocupante? É-o, na medida em que não deixa lastros por não fixar raízes, e por seus adeptos buscarem sem cessar erigir novas teorias para justificar “criações” como provas de “competência”. Sequer há tempo para a sedimentação. Na atualidade galopante, esses “criadores” não fixam suas impressões digitais, essência essencial que determina o estilo de um compositor. Quantas não são as tendências e, se compositores capacitados escrevem inteligivelmente, sabedores de que houve um passado e o conhecendo, já há tempos “compositores” criam “gêneros” e “formas” musicais que surgem, tantas vezes arbitrariamente, e que se estiolam com rapidez. Entre estes últimos, há aqueles que frequentam a ruidosa Torre de Babel, onde prolifera o joio sob o manto de uma parafernália de ruídos e sons, tornando-se impossível identificar a semente originária, pois se deforma o que se entende por música.  Num sentido amplo, para aqueles que tiveram sólida formação, a escrita musical, se amparada pelo talento, é explicada com coerência e não é difícil encontrarmos as raízes de uma hodierna criação meritória. Não obstante, proliferam “compositores” mais recentes que poderíamos colocar num plano de livre atiradores. E eles são muitos. Frase do ilustre compositor francês Serge Nigg (1924-2008) diz muito: “Quando um Festival especializado anuncia, como exemplo, ‘80 criações mundiais’, tem-se frio na espinha”. O mesmo ocorre com as artes plásticas. Observei, em blog bem anterior, opinião de meu saudoso amigo, Luca Vitali (1940-2013), pintor e artista de reais qualidades. Estávamos visitando uma mostra de pintores abstratos e Luca me disse algo que retive: “Não preciso me aproximar tanto de um quadro para detectar o talento”. Apontou-me alguns nessa categoria, mas salientou a presença dos oportunistas, aqueles não bafejados pelas musas. Afirmou: “esses certamente jamais realizaram um só desenho que prestasse”. Joio e trigo se confraternizando em exposição, o que demonstraria que vivemos num período complexo e possivelmente em direção a um vazio. Talvez.

Os comentários ao blog anterior foram pertinentes e agradeço a viva colaboração dos que me enviaram mensagens:

Gildo Magalhães (professor titular de História da Ciência da FFLCH – Universidade de São Paulo):

“São instigantes colocações. Acho muito forte e adequado o pensamento de que a música fala ao coração. Mas a música contemporânea costuma falar ao cérebro, então não sei se adianta para o grande público escutá-la tantas vezes quantas forem. Pode ser que, em alguns caso, sim. Mas pode não se tratar unicamente do público afeiçoado às salas de concerto, ou viciados só nos compositores mais tocados. A poesia, a pintura, o cinema que falam ao coração também sobrevivem melhor”.

Eurico Carrapatoso (compositor português e Professor do Conservatório Nacional em Lisboa):

“As aparências (ismos) iludem, por natureza agrilhoadas ao gosto pessoal, à conjuntura, à moda, às paixões humanas, enfim, elementos todos eles feridos de baixa categoria filosófica.

Só a essência importa: aquilo que é, perene, firme, verdadeiro e coerente, expresso no compromisso da honestidade e da alta filosofia.

O talento criativo não circula nos canais da moda e de suas maquilhagens. O talento criativo paira acima do tempo”.

Paulo Costa Lima (compositor e professor titular da Universidade Federal da Bahia):

“Fiquei muito feliz ao ler o seu texto sobre as tendências em composição, e também muito orgulhoso de ver a nossa cria - Imikaiá - oferecida aos leitores. Um bálsamo para esses tempos tão ásperos”.

Ricardo Tacuchian (compositor e professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro):

“Mais uma excelente e bem documentada reflexão que você faz sobre os caminhos da música contemporânea, em seu blog que sempre acompanho com avidez. Agradeço as referências generosas que você fez ao meu nome.

Por coincidência, há três dias ministrei a Aula Inaugural do Programa de pós-graduação em Música da UNESPAR, onde eu, em alguns momentos, comento as questões sobre a Música de nossos dias. Você verá que, com a idade, cada vez mais fico perplexo com o mundo em que vivemos e mais convencido da imprevisibilidade do futuro da humanidade. Se você tiver tempo e paciência, eu encaminho o texto em anexo”.

Ricardo Tacuchian, um dos nossos mais relevantes compositores, enviou-me seu instigante texto de recente Aula Inaugural - “Novos Tempos e a Pós-Graduação” - para os cursos da UNESPAR (Universidade Estadual do Paraná), proferida recentemente online. Creio de interesse comentá-la no próximo blog, justamente pelo fato de que tem o olhar para vários aspectos basilares da criação contemporânea frente às transformações em quase todos os campos da atividade humana.

Flávio Viegas Amoreira (poeta, contista e crítico literário):

“Esse texto e a iniciativa de rastrear as tendências, os sintomas, os ecos das novas linhas composicionais resultam brilhantes: texto e iniciativa consequente por um intérprete e musicólogo ímpar fazem falta no universo literário; costumo denominar nosso tempo de ‘tranZmoderno’, com Z mesmo: em transe ética e esteticamente. Parabéns mestre, saudades do amigo ….”

João Afonso, meu ex-aluno que formulou perguntas que motivaram o blog precedente:

“Obrigado professor pelas respostas. Achei bem interessante a sua opinião sobre os compositores de hoje. Também acho que são muitas as escritas. Não consigo mais reconhecer quem é quem entre os muitos compositores que estão nas melhores escolas daqui da Europa.

Eliane Mendes (formada em Química e Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Católica de Santos, é viúva do compositor Gilberto Mendes):

“Como sempre, um excelente artigo, em cujo tema, por coincidência, estava pensando nestes dias, constatando o distanciamento cada vez maior do público quanto à música erudita contemporânea.

Acho que teríamos que voltar no tempo, ao século passado, onde a tendência seria da ruptura com a música erudita convencional de concerto. Acho que isso se deve ao que os alemães chamam de “espírito do tempo”, com o espírito da época pedindo por rupturas com os dogmas tradicionais, a exemplo do movimento hippie.

Sempre me questionava, quando acompanhando o Gilberto em concertos de música contemporânea, sobre a inexistência de uma linguagem própria entre a maioria dos compositores contemporâneos, o que se devia a uma falta de embasamento cultural, com a maioria deles querendo fazer uso das técnicas contemporâneas, mas sem ter conhecimento nenhum das técnicas musicais do passado.

Acho que um exemplo seria o ballet moderno, onde muitas vezes os bailarinos desprezam e até rejeitam o aprendizado do ballet clássico, fundamental para um aprimoramento técnico, assim como na pintura, com muitos pintores indo direto à pintura abstrata, rejeitando e desprezando as técnicas tradicionais.

Tudo isso leva ao vazio, a uma ausência de linguagem própria em todos setores da arte, seja na música, na pintura, na dança e até mesmo na literatura, pois sem bagagem interna nada podemos transmitir, a não ser o vazio da ignorância do Ego.

Esse vazio da ignorância do Ego pude constatar no Centro de Pesquisa de Música Eletroacústica, em Paris, onde, visitando junto com o Gilberto, pude observar até de uma maneira ridícula os músicos eletroacústicos fechados em uma sala particular, nos olhando de maneira superior, como que nos dizendo: ‘Não estão vendo que estão perturbando a criação do gênio que eu sou?’ Numa gravação pela TV Cultura, no Centro Maria Antonia, durante o Festival Música Nova, me lembro de algo que foi dito e com o que concordei plenamente: ‘Os músicos contemporâneos brasileiros dos anos 60 são muito mais modernos do que os compositores contemporâneos jovens, pois estes se direcionam para aquela época do passado recente para compor, enquanto os compositores contemporâneos mais antigos continuaram indo em frente, como o Gilberto, o Jorge Antunes e tantos outros, pois eles utilizaram todas as técnicas musicais do passado em suas obras, criando cada um deles uma linguagem nova para si mesmos’.

Enfim, em resumo, para tudo na vida, até no dia a dia, se não tivermos um embasamento, nos tornamos sem referencial, um ‘nada’, perdidos na ignorância de nosso Ego vazio. Mais uma vez obrigada pelo excelente artigo. Fico sempre esperando por eles todos os sábados, me sentindo honrada em recebê-los”.

O notável compositor Gilberto Mendes (1922-2016) compôs o “Estudo, Ex-tudo, Eis tudo Pois”, In Memoriam Jorge Peixinho, pungente criação dedicada ao ilustre compositor Jorge Peixinho (1940-1995). Ao apresentar a obra em Gent, na Bélgica (11/09/1997), o ilustre artista plástico belga Jan De Wachter (1960- ), presente ao recital, realizou os desenhos dedicados à obra de Gilberto, ao homenageado Jorge Peixinho e ao intérprete. Igualmente foi o autor do desenho a saudar “Vassourinhas” de Paulo Costa Lima, criação que também interpretei naquela récita. Como sempre, nessa última década, meu dileto amigo Elson Otake tem generosamente se ocupado da montagem e inserção de minhas gravações no Youtube.

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes, “Estudo, Ex-Tudo, Eis Tudo Pois”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=eXy69fjF-Yw

The reception to the previous blog was encouraging. I have selected seven messages from figures connected to the arts who express interesting views.

 

Recepção ao filme reflexivo

Sempre tive a necessidade não só de tocar,
mas de escrever.
Alfred Brendel (1931- )

Foram inúmeras as mensagens - de músicos ou não - sobre o post anterior. Alguns já tinham visto “A última nota”. Todos os leitores que privilegiam o blog, o que muito me honra, teceram comentários positivos sobre o filme.

Chamou mais atenção o drama enfrentado pelo personagem ficcional, pianista Henry Cole, que, após décadas de carreira consagrada, entende o momento de finalizá-la. Curiosamente, o medo do palco foi pouco mencionado. Ele é real e interrompeu muitas carreiras, inclusive teria sido motivo fulcral para a decisão final de Henry Cole, o pianista protagonizado por Patrick Stewart.

Entre as tantas mensagens, destacaria a do advogado Pedro de Almeida Nogueira, que, ao mencionar uma frase minha interrogativa, constrói um conto pertinente e sugestivo, a abordar uma atividade hipotética. Com a permissão do autor transmito aos leitores o texto citado, pois ao longo da existência assisti a muitos casos de aposentados que exerceram as mais variadas funções e que se afastaram das cidades grandes para viver a tranquilidade em outras bem menores ou ainda no campo, na montanha ou no litoral.

De meu questionamento, surgiu: “Hoje a provocação e o estímulo foram grandes, quando disse: ‘Qual o momento a se pensar no encerramento de uma carreira?’. E escrevi:

QUEM ACREDITA NUM VELHO

Quando o nível de cansaço e estresse chegou ao limite e passou a influir na razão, comecei perder o equilíbrio e, antes de sucumbir, resolvi deixar tudo; os amores, a moradia, a cidade, os amigos, e o trabalho! Abandonei a profissão. Não entreguei os pontos, fui vencido. Sabe do avião em estol? Do motor que funde? Do atleta que cai sem fôlego? Do barco à vela sem vento? Pois bem, qualquer um desses era exemplo de meu estado! Tornei-me irritadiço e não queria mais ouvir explicações. Até desacreditei dos incentivos e fechei a porta do mundo que havia conquistado. Fui ou fugi para um lugar distante e bem modesto, onde não conhecia ninguém. Ali sabia que não seria aconselhado, cobrado, perguntado ou bajulado, nem estava com vontade de conversar.

Queria esse lugar! Onde eu pudesse ser eu nu! Necessitava me conhecer sem influência e sem influir, por isso a intenção de omissão e esconderijo.

Nesse novo lugar e sozinho, não teria que dar satisfações e ter obrigações. Poderia contemplar a natureza sem reserva prévia e a qualquer momento tomar um café sem formalidade, comer sem hora, tomar uma bebida em casa, no botequim, na conveniência ou onde fosse, sem ninguém acompanhando.  Iria ouvir animais e pássaros e não buzinas.

Consegui o lugar muito modesto e no desterro pensei em escrever. Ocupar o tempo com alguma coisa que gosto de fazer e sem obrigação: artigos, poesias, peça teatral e um livro!  Sempre tive muita vontade de escrevê-lo: o tema não faltava. Escolhido, a ele me dediquei dias e noites sem me encontrar. Nunca estava bom; escrevia e apagava com enorme frequência e velocidade de fazer inveja a Penélope. O tempo começou a fazer provocações e a esmorecer o entusiasmo de ficar só. Comecei a me sentir inútil. Comecei pensar na necessidade de tirar o pijama nas manhãs.

O cansaço das atividades desenfreadas de outrora passou e veio a reflexão de que perdera a credibilidade conseguida à custa de muito sofrimento e trabalho dedicado.  A ausência dos filhos e netos começou a incomodar. Por todo lugar que passava via avôs acompanhados. Amigos visitando amigos. Gente jogando conversa fora nos bares e restaurantes. Percebi que o arquivo da memória se descortinava diante de uma simples foto vista até sem querer ou do nome de alguém ouvido por acaso, lembrando-me de um amigo abrindo o palco do passado. Comecei a ter sistemáticas e doces lembranças que só provocam saudades, justo dessas que são só ‘mardade’, como diz Genésio de Arruda. Só agora entendi que estava em solidão, porque no primeiro momento foi gratificante ir ao banheiro com a porta aberta, como disse Antônio Maria, mas com o tempo fui percebendo que estava no mundo dos excluídos. Que lugar cinzento! O que adianta a privacidade estando a sós; muito melhor eram as interferências. Então porque ficar na solidão, se caminho com meus próprios pés? Simplesmente pela perda do elo, da interação com a profissão e a certeza de saber impossível retomá-la. Quem sai tem o lugar preenchido e o substituto impõe novo ritmo, fazendo obsoleta a volta de quem foi. Na vida não há vazios e ninguém é insubstituível.

É verdade que conceitos se incorporam às pessoas e por eles são elas rotuladas, mas com o tempo perdem a validade, principalmente sem o renovar do convívio. Até os conceitos ficam ultrapassados e passam a servir apenas de exemplo ou, quando muito, de apoio para uma afirmação. Sem atividade envelhecemos e perdemos a credibilidade.

Hoje penso que deveria ter lutado contra o stress, pelo menos para não abandonar tudo, e ter esperado pelo momento certo de encerrar a carreira!”

Todos os pianistas têm o seu dia D, programado ou alongado, quanto ao término da carreira, o que não ocorreu com Mônica de la Bruchollerie (1915-1972) e William Kapell (1922-1953), acidentados em estrada (1966) e em queda de avião, respectivamente, ou mesmo Solomon Cutner (1902-1988), que em plena carreira teve problema cardiovascular a comprometer um dos braços, décadas antes de sua morte. Nesses três casos o dia fatal, a encerrar carreiras gloriosas, foi abrupto. Aqueles que prosseguem, mesmo no declínio, são reverenciados pelo público como lendas, apesar de problemas técnico-pianísticos e falhas de memória não raras. Saber o momento de parar reflete ato de sabedoria. Nos primeiros anos deste século, o afinador do Palais des Beaux Arts de Bruxelas, Taki, afinava o piano durante os três dias de minhas gravações em Mullem. Tinha eu sessenta e tais anos e Taki me afirmou que, quando afinava o piano para as apresentações do notável pianista Alfred Brendel (1931- ), este ficava ao seu lado, a observar os mínimos detalhes. Nas nossas conversas, disse-me Taki que Brendel lhe afirmara que encerraria a carreira, em plena forma certamente, aos 75 anos. Finalizou-a aos 77, em 2008. Essa determinação pragmática merece louvor. Ao se aposentar diria que sessenta anos de carreira foram bem suficientes. Ao jornal Daily Telegraph, declararia: “”Mapeei exactamente o que faria quando me aposentasse. Durante muito tempo tive uma vida literária – não um passatempo, uma segunda vida – e é bom continuar a dar aulas e a escrever de uma forma mais focalizada”. Essa determinação expressa por Brendel longe está do pensamento da maioria dos intérpretes, que, indecisos quanto ao afastamento ainda no domínio do teclado, fazem-no por problemas acentuados pela idade, assim como dificuldades motoras outras, perda progressiva da visão ou alteração na audição. Neste caso específico, Sviatoslav Richter (1915-1997) sentiu disfunção auditiva relacionada à exatidão da altura dos sons registrados na partitura.

Empresas e serviço público têm suas regras para que, independentemente da vontade, o afastamento se processe. Para o músico não engajado em qualquer das duas opções elencadas, a decisão individual será a porta aberta para outros caminhos que preencherão a existência ou para a solidão do pensar, que pode levar a um futuro nostálgico. Sob outra égide, se deixou um legado através das gravações ou de textos relevantes, será lembrado pelas gerações de aficionados.

I received countless messages praising the Canadian movie “Coda”. In one of them, the lawyer Pedro de Almeida Nogueira sends a story based on my questioning about the moment of saying farewell to the public. To conclude, I comment further on this decisive moment in one’s career.