Navegando Posts em Artes

Generosidade dos leitores

Por mais longe que o espírito alcance,
não vai tão longe quanto o coração.
Provérbio chinês

Comoveram-me as inúmeras mensagens recebidas. Já me referi bem anteriormente às palavras de D. Henrique Golland Trindade, reverendíssimo arcebispo de Botucatu, meu padrinho de crisma, que a uma pergunta que lhe formulei nos anos 1950 a respeito da vaidade, respondeu-me sabiamente: “O santo orgulho é louvável”. Creio que metas periódicas vencidas podem trazer essa sensação, que deve ser entendida naturalmente. Minhas constantes surdas alegrias têm esse componente proferido pelo saudoso prelado.

Bem acima da média foram as mensagens. Arquivo-as carinhosamente. As palavras lisonjeiras estão presentes e, apesar de escrúpulos naturais quanto ao teor dos elogios, servem de força motriz a guiar-me na música e na escrita. Separei onze e-mails, que compartilho com os leitores.

Ricardo Tacuchian, compositor e membro da Academia Brasileira de Música, enviou-me a mensagem: “A espantosa cifra que você alcançou de 1 milhão de acessos a seu blog, sempre dedicado a uma apaixonada militância pelos altos valores da cultura, da arte e da literatura, é uma prova de que ainda existe, entre as pessoas, um potencial, ainda que silencioso, de preservação do que há de mais elevado em nossa tradição. Ao contrário do que vulgarmente se pensa, o que está escandalosamente decantado em prosa e verso na mídia comercial e seu incondicional espaço à cultura de massa não exclui os anseios de uma outra força de pensamento que não aparece no dia a dia, mas que está latente, consciente ou inconscientemente, na alma de uma parcela significativa da população. Cabe a artistas e intelectuais como você manter viva a fé e os valores que não morreram, mas apenas estão amortecidos. Sua luta é contra a mediocridade, sem nunca atacá-la explicitamente, mas mostrando o outro lado do mundo criativo e solidário em que vivemos. Seu empenho é preservar o elo que liga o passado com novas conquistas do espírito do presente e as expectativas do futuro. Se este elo se rompe a humanidade estará definitivamente perdida. Seu entusiasmo é dividir com os leitores sua rica experiência, conquistada através dos contatos com figuras exponenciais, com os livros que você leu, com as viagens que realizou e pela música que você tirou do esquecimento e nos proporcionou conhecê-la. Você está sempre correndo, objetiva e metaforicamente falando. Com isso aumenta o seu fôlego e o de seus leitores. Precisamos, sim, preservar nossa respiração para enriquecer nosso pensamento e nossa alma. É exatamente o que você faz na vida. Você tem razão: ‘respirar não pede férias’. Assim, até o texto da próxima semana”.

Idalete Giga, gregorianista e Diretora do Centro Ward de Lisboa, encaminhou o e-mail: “Em primeiro lugar quero felicitá-lo pelo seu Blog ter atingido um milhão de acessos em dez anos e meio! Um milhão é muito significativo, sobretudo tratando-se de um Blog que não aborda trivialidades, banalidades que são o comum hoje em dia, não só na Net, mas nos meios de comunicação social em geral. Felizmente, há cada vez mais leitores a procurar outros universos que rejeitam a mediocridade, o escândalo político e/ou sexual  e outras misérias humanas.

Que as suas ideias surjam como límpidas cascatas e que as musas nunca o abandonem para que possa continuar a escrever, sem medos, sem preconceitos, sem o insuportável politicamente correto, os variados e ricos temas que desenvolve semanalmente no seu blog!

José Maria Pedrosa Cardoso, professor da Universidade de Coimbra e musicólogo, enviou a mensagem: “Bravo… bravíssimo! Para ti, querido Amigo… e para a tua comprometida equipa! Admirável capacidade, invejável aplicação, exemplar trabalho. Muitos parabéns! Que possas chegar aos dois milhões, com a mesma possibilidade de admiração da nossa parte. Todos aprendemos uns dos outros, mas de ti aprendemos muito mesmo: com a tua música, que nos regala, com as tuas corridas, que aplaudimos, e com a tua escrita que nos enche as medidas. Até aos sábados todos das nossas vidas”.

Eurico Carrapatoso, compositor português e professor do Conservatório Nacional, escreveu:  Um milhão de acessos! É obra. Tanto brain storm que o meu amigo tem causado pelos quatro cantos do mundo! Invejável, o poder da tua pena, da tua mensagem. Bem hajas pela partilha de um mundo interior tão pleno de luz e de tal relevo no pensamento.
Como diria Sophia de Mello Breyner:

Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol

Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema

Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo

Flávio Araújo, radialista e articulista esportivo do país, escreveu: “São seus leitores que o felicitam pela qualidade, força e lucidez do que escreve. Que o seu incentivo continue servindo de exemplo para mim e para tantos. Parabéns e obrigadíssimo”.

Marcos Leite, arquiteto e maratonista, comenta: “Parabéns pelo número alcançado!!! Com tantas porcarias enchendo as telas através da internet, seu blog é uma iguaria das mais finas a satisfazer meu apetite de textos agradáveis, cultos e elegantes. E ecléticos também, com a vantagem de eu compartilhar interesse pelos mesmos assuntos que você tão bem aborda e domina”.

Maria Izabel Ramos, nonagenária, amiga que foi de meus pais e das gerações seguintes, tem acompanhado os blogs desde 2007, repassando-os à legião de amigos: “Mais uma vez tenho a grande satisfação de enviar-lhes o sempre esperado blog do nosso amigo, pianista e escritor José Eduardo Martins, no qual estão preciosos comentários sobre sua rica correspondência virtual, que atinge 1.000.000 de acessos. Somos felizes por ser agraciados pela riqueza de seus blogs”.

Lucita Brisa, jornalista, escritora e prima de Regina, escreve: “Um milhão de abraços pelo seu primeiro milhão! E mais um, especial, pelo esmerado texto com que V. nos brindou neste blog comemorativo! Assim continue pelos próximos dez anos e meio – pelo menos!

Gildo Magalhães, professor titular da USP, escreve: “Sensacional o blog sobre seu blogar. Parabéns pelo número redondo, mas também por saber que um blog seu vale mais do que um milhão de tantos outros…. E esperamos pacientemente os dois milhões de acessos!”

Waldenyr Caldas, igualmente professor titular da USP, comenta: “estou feliz por saber que seu blog atingiu esta cifra maravilhosa de 1.000.000 de publicações!!! Acompanho desde o inicio e ja li excelentes posts que você publicou”.

François Servenière, compositor e pensador francês, partner de circa uma centena de posts, estende-se: “É uma honra fazer parte de seus colaboradores regulares. Pergunto-me sempre quais as razões pelas quais escrevo semanalmente, sempre a comentar os seus blogs. Você fala das musas, endossando palavras de meu compositor fétiche, Maurice Ravel. Realmente elas surgem quando nos colocamos à mesa para escrever. Todavia observei que é o mecanismo físico de sentar-se para escrever que faz funcionar o cérebro já predisposto a essa tarefa. O cérebro não é idiota. Ele ativa as funções necessárias solicitadas, exatamente como uma máquina. O indivíduo dá a ordem, as engrenagens começam a funcionar. Espanta-nos sempre a chegada súbita das ideias quando nos colocamos a  trabalhar, na composição como na escrita. Penso que é o reflexo pavloviano, como o que se nos apresenta na insalivação quando vemos um tablete de chocolate.

Alguns itens do seu post despertaram particularmente minha atenção:

- a regularidade diária do cappuccino e da maçã que Regina lhe traz. Digo para mim mesmo ‘que amor!’, no duplo sentido ‘que mulher amorosa’ e que ‘devoção’;

- pensei profundamente no nosso saudoso Luca Vitali, como cada vez que vejo Éthers de l’Infini. Seus sublimes desenhos acompanham doravante a minha vida através do site. Que felicidade tê-lo conhecido, se bem que num espaço temporal tão curto!

- gostei imenso das suas considerações sobre a vida: trabalho, regularidade, exercícios, esporte, atividades cerebrais, família. Logicamente nada a ver com o brilhantismo escancarado cotidianamente pela mídia para os denominados famosos. Mas atenção: o seu trabalho não visa ao imediatismo, ele é seguro e ficará. A superficialidade dos stars e suas mensagens passarão como a poeira levada pelo vento. Nós construímos árvores centenárias e sólidas arquiteturas… Pouco nos importa o número de CDs vendidos ou o número de lugares nas arenas. Conhecemos por acaso os nomes dos que estiveram a representar nos estádios na antiguidade, verdadeiros demiurgos venerados? Não. Mas os dos escritores e filósofos, sim.

Sinto-me feliz de estar em França, mas ao seu lado nestes últimos seis anos de maneira regular. Nós nos conhecemos pela internet em 2007… Verifico a data de meu primeiro e-mail… Vou retomar o fluxo de nossa correspondência no nosso dossier personnel, pois é necessário atualizá-lo. Já ultrapassamos 2.000 páginas de correspondência ininterrupta transatlântica!!!”. (Tradução: JEM)

Agradeço, de coração aberto, a todos os generosos leitores que me escreveram enviando mensagens de estímulo. Sintam-se representados através daqueles que estão presentes neste post.

Many readers congratulated me for reaching 1.000.000 page views. I selected some of the messages received for the post of this week. And once more, thanks to all my readers for stopping by.

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Comunico ao leitor que em Outubro estarei na UNIBES CULTURAL, em São Paulo, para uma série de palestras com temática inédita: “O intérprete frente à gravação”. Abordarei temas como: preparação de repertório, escolha do local ideal para a gravação, qualidade do piano e competência absoluta do engenheiro de som, após 22 anos de gravações e 23 CDs gravados na Bulgária, Portugal e principalmente na Bélgica. Faixas dos CDs serão ouvidas e fatos pertinentes relatados. As palestras (09, 16 e 23/10, das 19 às 22hs) são direcionadas para músicos, jovens intérpretes que almejam gravar e público que frequenta concertos e atividades afins. No dia, 31/10, apresentarei recital para o público em geral. No programa, obras de Johann Kuhnau, Willy Corrêa de Oliveira, Gilberto Mendes, François Servenière, P.I.Tchaikovsky e A.Scriabine. As inscrições poderão ser feitas através do site http://unibescultural.org.br/cursos/viva-a-cidade/interprete-frente-gravacao/710

O pensamento incisivo e arguto de François Servenière

Os adeptos do academismo formam uma casta de técnicos
para os quais o valor de toda música é avaliada pela complexidade escritural.
Para eles, por exemplo,
o canto gregoriano e a música dos trovadores
são desprovidos de interesse,
pois compreendem  uma só voz, portanto música fácil.
Para eles Bach é um acrobata do contraponto,
Beethoven um trabalhador da forma e Debussy, um hábil harmonista.
André Souris (1899-1970)
(“Conditions de la Musique”)

A epígrafe faz-me lembrar o encontro casual que tive em Londres durante Congresso sobre a obra de Claude Debussy na década de 1990. Um jovem escocês de idade madura, egresso dos bancos universitários e sabedor de meu projeto de Estudos Contemporâneos para piano, ofereceu-me um Estudo. Ao verificar a partitura, constatei que seria impossível tocá-lo, pois havia por vezes quatro pentagramas contendo escrita impossível de ser executada por um só pianista, andamentos desproporcionais, acrobacias sem nexo. Perguntei-lhe se alguma vez compusera uma Fuga. “Trata-se de forma ultrapassada”, respondeu (sic). A pronta resposta inviabilizou sequer um diálogo. Comento o episódio em meu livro publicado em Paris pela Université Sorbonne (“José Eduardo Martins – un pianiste brésilien”, Série Témoignage – 4, 2012).

Epígrafe e breve comentário antecedem as incisivas e argutas observações do compositor e pensador francês François Servenière, dentro de contexto muito próximo do que ocorre atualmente nas Universidades. Desloca-se Servenière da interpretação pianística mencionada no último post e penetra no campo da composição, duas atividades ligadas indissoluvelmente, criação e interpretação, a primeira a cumprir desiderato primordial, a segunda a desempenhar relevante tarefa, difundir sonoramente a composição. Cria-se e preserva-se. Servenière tece reflexões de muito interesse, uma visão diferenciada daquilo que entende como o artista criador. A dimensão de sua mensagem impede-me, hélas, de utilizá-la na íntegra. Portanto, segmentos essenciais apresento ao leitor.

“Eis onde me leva o pensamento após a leitura de seu post nesta manhã. O blog tem como origem a experiência de seu ex-aluno, Maury Buchala, em Paris e desperta muito interesse. A partir dele tenho sugestões, pois você aborda as qualidades necessárias para o jovem que tem de resistir ao entorno competitivo e, como acréscimo, permanecer distante do país de origem. A experiência de Maury é significativa. Todavia, em minha opinião, você baseou sua reflexão e resumiu a análise da realização artística em geral a partir de um polo da arte que o José Eduardo conhece bem, que é o desenvolvimento do intérprete através de sua formação via mestres, principalmente no Exterior.

Separemos nessa análise, a meu ver, o ‘artista intérprete’ e o ‘artista criador’. Basicamente, dois seres que têm poucos pontos em comum no domínio mental. Uma outra observação sobre o artista criador. Creio que não será o estudo das Letras que levará à carreira de escritor. O criador de artes aplicadas, como arquitetura ou escultura, deverá conformar-se com as regras acadêmicas para que suas obras se tornem viáveis, até sob o aspecto da avaliação pública. O pintor terá o reconhecimento de seu valor pelo talento, apesar de não poucas vezes ter passado pela formação acadêmica, curta ou longa, conforme sua disposição. No caso do compositor, o ato criativo resultará do fato de sentir uma força interior que, na realidade, pouco terá a ver com sua formação acadêmica. Estamos falando de algo que está acima ou abaixo de considerações.  Não será o estudo acadêmico que fará um músico escrever música, apesar de, por vezes, o conhecimento ajudar a emancipar seu espírito em direção a alturas insuspeitas. Não obstante, ele deverá seus resultados ao talento, antes de mais nada, e à sua vontade imperiosa de escrever notas e mais notas para atingir objetivos, pois seu espírito foi formatado pelos acervos advindos da família, da curiosidade, do exercício constante, do acaso, da genética… O estudo dos instrumentos, das partituras, a prática escritural, a reprodução dos modelos poderão levar o estudioso à compreensão das técnicas necessárias  e de seu universo, mas jamais lhe darão o talento da escrita. Jamais. Quantos são aqueles que estiveram nas classes de composição? Quantos saíram e mereceram  justo reconhecimento? Uma ínfima, ínfima, ínfima minoria. O real artista criador, que se exprime pelos recursos de seu tempo com todo empenho, encontrará meios e técnicas para manifestar talento e energia, na medida de suas necessidades. Poderá ou não encontrar suas técnicas na Academia. Frise-se que Mozart não fez Conservatório”. Acrescentaria às considerações de Servenière frase de Claude Debussy (1862-1918) ao se referir aos anos da juventude: “O Conservatório é sempre esse lugar sombrio e sujo que nós conhecemos, onde a poeira das más tradições permanece ainda nos dedos” (carta a  André Caplet, 25/11/1909).

Como contraponto, colocaria a posição do professor titular da USP, Gildo Magalhães, que comenta o blog anterior:

“Bela reflexão, com a qualidade que apenas a maturidade pode conferir. Dentro de campo totalmente diverso que foi o meu como engenheiro, pude também apreciar suas palavras, tendo vivido de 1973 a 74 nos EUA e de 1983 a 84 na Alemanha. Tenho, porém, alguma reticência quanto à influência da vida voltada ou não para a academia, embora eu nem pensasse na carreira acadêmica quando morei no exterior. Penso que a falta de imersão cultural no sentido amplo não depende de a carreira ser acadêmica ou não, tendo conhecido muitos ignorantes neste sentido, acadêmicos ou não, assim como grandes cultos que não tinham passado do ensino primário e outros, raros, do ambiente acadêmico”. Professor da História da Ciência na FFLECH-USP, Gildo Magalhães tem conhecimento musical praticando piano quase todos os dias.

Prossegue Servenière: “Quantos não são os grandes artistas que desistiram da Academia a fim de realizar grandes carreiras, muito superiores àquelas que poderiam desempenhar se estivessem ligados aos segredos da escolaridade acadêmica, na realidade um conforto bem perigoso para o espírito livre de um criador. Quantos professores não são, em França e alhures, pretensos grandes artistas criadores, quando se mostram continuadores do pensamento dominante, necessitando reverenciá-lo para continuar recebendo os subsídios da Instituição? No reino do pensamento único, tão típico das instâncias institucionais, há mínima salvação àqueles que buscam quebrar as regras da maioria. Se observarmos a história dos grandes artistas e criadores, os autênticos, em suas épocas romperam regras ditadas pela maioria. Fato histórico inquestionável.

Ao mencionar um verso de Camões, ‘Dos fracos não reza a História’, em post bem precedente, você focaliza os que não atingem básico patamar nesse rolo compressor da vida, que é naturalmente seletivo. Assistimos, nos meios protegidos em detrimento do bom senso, à reprodução de uma aristocracia, uma nomenklatura que vive por si só, cooptando novos escolhidos segundo seus critérios de casta reacionária (na realidade, ultraconservadora), esquecendo-se de que a modernidade é um golpe de vento para o qual as suas ideias estioladas não são outra coisa que fiapos de palha. Permaneceram na história não apenas os nomes consagrados, mas os monges copistas, os instrumentistas que perpetuaram a interpretação, os inventores… Esses personagens, que gravitam em torno de benesses, apelam aos lobistas confortavelmente instalados nos arcanos do poder para que a moderninade ‘aconteça!’. Mas, diga-se, que ela não erradique os subsídios automáticos, que chegam sem outra justificativa a não ser a de assegurar o seu viático até o último dia de uma geração que, como todas aquelas que nada compreenderam dos ares do tempo que passa, acabará esquecida pela história pelo fato de não ter percebido a evolução inexorável e contínua.

Todos os grandes artistas buscaram respostas. Esses notáveis criadores baseiam-se na ciência (básica, assim compreendida), adquirida na Academia ou não, pouco ou mais. Todavia, fizeram a viagem do interior para o exterior, da interioridade em direção a um mundo desconhecido para enfim exprimirem uma nova interioridade, uma nova dimensão. Expiração, inspiração: princípio do acordeão. Majoritariamente de maneira quase exclusiva, buscaram construir novos paradigmas, realidades, percepções, pois os métodos acadêmicos pareciam esclerosados e presos a certezas e normas. Colombo e Galileu quase acabaram nas chamas… Pobre Giordano Bruno, pobre Van Gogh, pobre Baudelaire… Gênios desprezados em suas épocas. ‘O gênio deve ser desprezado em seu tempo’, assim pregaria uma regra celeste”. Acrescentaria frase de Arthur Honegger (1892-1955) a preconizar que “a primeira qualidade de um compositor é estar morto” (“Je suis compositor”, 1951).

Servenière continua suas reflexões críticas: “Todos os maiores artistas da história não escutaram as Academias de suas épocas, mas o bom senso dos povos, seus sentimentos, seus pensamentos e suas aspirações. Em toda a face da Terra, o povo profundo impõe suas normas e seus desideratos. Os artistas maiores sentem o ar do tempo, saem de seus ateliers para sentir a passagem do vento, a sensibilidade do povo, o calor e o frio, o norte e o sul, caminham, correm, pensam e observam (como deve ser feito) a natureza. São seres ‘conscientes da existência’ e ‘imersos na vida’. Não são ‘mortos vivos’ que sofreram perfusão por parte do poder ou da Academia. Os grandes artistas percebem o l’air du temps, seja qual for a linguagem pela qual se exprimem. Os outros, os acadêmicos, os subvencionados, os seguidores, continuam no banal e no convencional, no já feito, no status quo, no imobilismo, aos pés do poder, sob a fonte dos subsídios públicos sem os quais muitos não existiriam. É uma lição que cada artista que se pretende como tal jamais deveria esquecer. Simples, é a história da arte. Não há um grande artista, um grande criador que não tenha sido menosprezado em determinado momento da vida pelas convenções de seu tempo. O artista autêntico tem por vocação destruir as convenções de sua época. É unicamente sob essa égide criteriosa que o povo, tendo conhecimento da celebridade (por vezes póstuma), entenderá a modernidade do artista. Os arcanos, minoritários em suas ‘certezas’, não terão peso face ao reconhecimento público e universal que será atribuído ao artista. As elites não fazem outra coisa que seguir o movimento, sempre com atraso, pois elas são fundamentalmente, diria ontologicamente, clientelistas. Elas seguem o movimento. Raramente são motrizes.

A arte é pois, pela sua única face criativa, a grande reveladora do que é o tempo presente face à história em seu caminho. Será necessário refutar na carreira criativa, sejam quais forem as consequências futuras, os organismos de expressão ligados ao conservadorismo representado pela Academia, a fim de melhor compreender o seu tempo, que será reproduzido na obra” (tradução J.E.M.).

As contundentes posições de François Servenière apreendem muito da realidade existente na Academia (entenda-se Universidade) e, consequentemente, naquilo que denominamos Institutos de Fomento. Mais a tecnologia avança (entenda-se, música também denominada eletroacústica), em menor escala o ensino musical baseado nos pilares da história, como contraponto e harmonia, como exemplos, é preservado na abrangência e profundidade. Minha conversa com o músico escocês mencionada no início do post é exemplo evidente. A quantidade de “laboratórios” musicais de toda ordem nas universidades – termo “chave”, atualmente –  já não seria um exemplo da distorção? Em nossas terras como em França (a partir do exposto por Servenière) haveria essa tendência voltada às benesses advindas das Instituições. Estou a me lembrar de um colega docente não pertencente às humanidades que me disse nos anos 1990 gastar mais tempo realizando relatórios de toda ordem voltados a projetos e posteriores prestações de contas do que no projeto propriamente dito (sic). A verificação dos valores de subsídios ofertados à criação musical fundamentada na eletroacústica ou tendências hodiernas, em comparação a outros destinados às diversas áreas musicais, inclusive de outras tendências da composição, já não mostraria uma constatação apontada por Servenière, mormente por se tratar da “criação” musical? Meu ilustre e saudoso amigo Gildo Soares, professor titular de Direito Internacional da USP, disse-me certa vez, em termos gerais quantos às áreas do conhecimento, que a renovação na Academia se dá de duas maneiras distintas: se o corpo diretivo for competente, buscará suprir vagas com a incorporação de docentes competentes ou ainda mais gabaritados. Ao contrário, se for medíocre, buscará ainda o mais medíocre para que este não faça frente ao status quo. Realidades.

A Academia é rigorosamente necessária. Sempre lamentei, quando integrante da Universidade, a mentalidade existente voltada ao carreirismo e à busca sem tréguas, ininterrupta, por subsídios dos Institutos de Fomento. Quando esses dois fatores ocorrem de maneira sistemática pelos docentes, acredito, todo o mal está feito. E a essência essencial? Não teria o pragmatismo da Universidade espantado a inspiração advinda das musas? Russell Jacoby (“Os Últimos Intelectuais”, São Paulo, Trajetória-Edusp, 1987) observou que o pensar livre fora dos muros da Universidade sofreu um duro revés quando docentes passaram a se preocupar unicamente com as suas carreiras nos campi universitários. Tema para mais reflexões.

Today I post comments received from two faithful readers either convicting or acquitting those who pursue academic jobs in fine arts. The French composer François Servenière draws a line between artist and creator. While the former just carries on the dominant thinking, many times depending on grants from government funding agencies, the latter refuses to ratify academic rules, subverting the conventions of a given moment in time.

 


Heitor Rosa e a ficção embasada em personagem de nossa História ligada à Arte Sacra

Do trilho só entende quem o trilha.
Adágio Popular Açoriano

A literatura ficcional tem características próprias. Decorre da livre fantasia do autor, tanto na criação de personagens imaginários como na ressurreição de “biografados” cuja documentação é escassa ou inexiste. Quando o autor busca a ficção estruturada em figuras da História, o cuidado toma dimensões por vezes hercúleas. Em situações rigorosamente distintas, Humberto Eco em “O Nome da Rosa” e  a trama em mosteiro medieval,  Marguerite Yourcenar em “Memórias de Adriano”, numa recriação, e Jean Echenoz na fantasia sobre o cotidiano real em “Ravel”, como exemplos meritórios, percorrem essa senda que, a depender do talento e da seriedade do autor, pode ser enriquecedora ou levar ao vulgar simulacro.

A biografia fidedigna de figura relevante dificilmente deixa de ter cunho austero, pois amarras impedem quase sempre o florescimento da imaginação. Se essa ocorre sem fundamentação, pode-se chegar ao equívoco histórico, pernicioso sob todos os aspectos. Personagens da História com larga bagagem documental têm de ser tratados com merecido rigor, e não poucas vezes o debruçamento sobre fontes primárias e outras levam o autor ao impasse, geralmente resolvido com abundantes notas de rodapé ou mesmo considerações a respeito das controvérsias existentes.

A ficção pela ficção só adquire interesse se talento existir por parte do autor. A grande dificuldade da ficção “histórica” reside no peso da narrativa. Tantos foram os escritores que se embrenharam nessa seara absolutamente desprovidos de conhecimento até básico da figura representada ou de épocas definidas. E grotescos erros ficaram evidentes.

Tenho acompanhado a literatura do ilustre médico e professor universitário goiano Heitor Rosa, escritor pleno de méritos. Resenhei anteriormente “Memórias de um Cirurgião Barbeiro” (vide blog de 10/09,2016). Para tratar da figura do notável Girólamo Fracastoro (1478-1553), médico, humanista, poeta e filósofo italiano,  Rosa teve de pesquisar longamente fontes europeias in loco, a fim de colher dados referentes à ação de Fracastoro, período em que viveu, instrumental cirúrgico, medicamentos utilizados na época e sobre a sífilis, que dizimava paulatinamente gerações.

O novo livro de Heitor Rosa, “A História de André da Conceição” (Goiânia, Cânone, 2017), aborda área acalentada pelo povo goiano. Ao adentrar a seara da denominada arte sacra barroca de Goiás, que vigorou basicamente dos meados do século XVIII à segunda metade do século XIX, legando igrejas, capelas, pinturas e imagens de extraordinária valia, mercê sobretudo do despojamento, a contrastar com o que foi criado em Minas Gerais e Bahia, Heitor Rosa concentrou-se na Igreja São Francisco de Paula da antiga Vila Boa, posteriormente cidade de Goiás. Erigida em 1761 por Antônio Thomaz da Costa e outros personagens, teve o forro da capela-mor pintado  por  André Antônio da Conceição em 1869-70, segundo livros da Irmandade. Escreve o pesquisador Eduardo Etzel em livro memorável – “O Barroco no Brasil – Psicologia – Remanescentes” (São Paulo, Edusp-Melhoramentos, 1974) – em que estuda manifestações do barroco em regiões menos favorecidas (vide blog ” Eduardo Etzel – II, Literatura sobre Arte Sacra no Brasil”, 25/08/2007): “Chama a atenção nesta igreja o forro todo pintado, que se poderia considerar do século XVIII, não fossem as provas encontradas nos livros da irmandade. Tal fato mostra, ainda uma vez, como é difícil afirmar a época do acabamento das obras religiosas, salvo a data do início da construção, pois na vida de uma igreja, conta-se o início pela terminação, às vezes parcial, do arcabouço, o suficiente para comportar um altar improvisado. Daí para seu acabamento podem-se passar decênios, sem falar em reformas consequentes a  desmoronamento, acréscimos e mesmo modificações estruturais, que deformam inteiramente a construção primitiva. É preciso não esquecer estes elementos quando se julga o estado atual de uma igreja, e o exemplo da São Francisco parece-nos bastante incisivo, pois o forro fora pintado 108 anos após a data de sua construção”.

Heitor Rosa ficou impactado pelo forro da capela-mor, a apresentar cenas de milagres atribuídos a São Francisco de Paula e pelas iniciais do pintor dessa modesta igreja, AACD.  Quis conhecer mais sobre o artista e escreve na Introdução: “Quem foi ele? Resposta; ninguém sabe.” Seguiram-se anos de pesquisa relacionada à pintura do forro, materiais utilizados, costumes do período, poder vigente de coronel e da autoridade eclesiástica dessas pequenas vilas, a sociedade que, encerrado o ciclo do ouro, permanecia na esfera rural, as desavenças das várias irmandades, os lupanares existentes, os trajetos da antiga Vila Rica em Minas Gerais à Vila Boa em Goiás, em que ataques de índios, de quilombolas ou mesmo de onças eram comuns. Faltava erigir o herói e Heitor trabalhou em sua “ressurreição”,  a “história” de André Antônio da Conceição.

Dados históricos paralelos servem de suporte à ficção que acompanha André Antônio da Conceição, mulato, como tantos outros artistas que, principalmente a partir do século XVIII, criaram obra sacra de qualidade em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Dá-lhe olhos azuis, o que evidenciaria a ascendência paterna diferenciada. No romance, André adquire conhecimentos básicos de desenho, pintura e restauração em Vila Rica, onde mora e exerce várias funções junto a uma paróquia. Contudo, problemas relacionados à ligação passional com prostituta que ficaria grávida, mais desconfianças que sobre ele recaem injustamente, concernentes ao roubo de obras sacras, fazem com que empreenda, com um companheiro experiente, longa viagem da cidade mineira até Vila Boa, hoje cidade de Goiás. Heitor Rosa conheceu esses trajetos, por vezes perigosos.

Um dos interesses de “A História de André da Conceição” reside na descrição dessa travessia. Aldeias e vilas são descritas com suas particularidades e André da Conceição se detém mais tempo em algumas, pois, tão logo conhecidos seus dons como pintor e restaurador de igrejas, realizava alguns trabalhos para angariar dinheiro para a continuação da saga. Heitor pesquisará a alimentação do período, mencionando sempre a econômica variação durante as andanças de André e de seu companheiro.

O destino final, Vila Boa, onde se encontra a Igreja São Francisco de Paula, cujo forro sem pintura da capela-mor e um altar-mor a ser reformado levam à contratação de André por irmandade local. A ficção une-se à verdade e as iniciais de André Antônio da Conceição conduzem ao motivo maior do enredo. Sob outra égide, o herói da ficção dialoga com o mentor da Irmandade, maçom, sobre o desejo deste de ver pintado o símbolo maçônico, sendo que André teria entendido tratar-se da Santíssima Trindade. Um pequeno trecho da pintura do forro, não finalizada, possibilita ao ficcionista Heitor Rosa o desfecho derradeiro do instigante livro, que desperta interesse da primeira à última página.

Ao resenhar “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” e peripécias em  “Histórias da Creusa” (vide blog 26/10/2016), salientava os dons excepcionais do ficcionista estudioso e do contista hilariante. A mídia de São Paulo, que tanto tem saudado e premiado ficcionistas medianos, lembrar-se-ia de um autor do porte de Heitor Rosa? Ares da Província ainda permanecem no ar.

Today’s post is an appreciation of the book “A História de André da Conceição”, written by the Brazilian doctor and university teacher Heitor Rosa. It is about André da Conceição, who painted the chancel ceiling of Saint Francis of Paula church in Goiás in the years 1869-70 and whose life story is completely unknown. Fascinated by the paintings, after years of serious research Heitor Rosa was able to weave factual details and fictional characters into an interesting account of what the painter’s life might have been like. An absorbing, seductive read by an author that deserved to gain traction in the mainstream of our literary world.