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A passagem natural direcionada à renovação

Qual é esta sensação nova?
Que nasce em nós?
Que misteriosamente
Em nós desperta?
Alexander Scriabine (1872-1915)
(“L’Acte Préalable”)

Foram muitas as mensagens salientando com ênfase e simpatia a minha continuação na atividade pianística em solo europeu, continente dezenas de vezes visitado para recitais e outras vertentes musicais. Agradeço a todos pelos gestos de solidariedade. Não obstante, esse término europeu foi longamente gestado durante a pandemia. Estou a me lembrar de ter lido em sites e periódicos que muitos artistas de teatro já idosos encerraram naquele triste período as suas atuações frente ao público. Várias vezes neste espaço teci comentários sobre a dádiva da ação artística, pois, diferentemente dos esportes que sinalizam já na terceira ou quarta década o caminho final, nós que trabalhamos com a arte não temos cronologia determinada. Há variações, mas prioritariamente depois de se adentrar largamente a terceira idade.

A preponderar sobre todas as possibilidades, vem o sentimento de gratidão a todos os amigos, mormente em Portugal, Bélgica e França, que jamais deixaram de me apoiar em projetos por vezes não desbravados. Interpretar o extraordinário repertório do passado, verdadeiro culto ao sagrado, é venturoso, mas pode dar ao intérprete a sensação da perene reprise. Tantos não têm consciência dessa situação, pois, ao adentrarem o circuito de concertos com exigências específicas, obliteram reflexões. A grande pianista Marta Argerich, que forjou sua carreira no repertório tradicional, teceria comentário fulcral a respeito da atividade de concertista consagrada: “O prazer é raro. No palco, encontramo-nos diferentemente do que em casa, não realizamos os mesmos gestos com as mãos frias, os joelhos tremem, a coriza se instala. A interpretação se modifica. Após, o peso dos olhares sobre você… O efeito do ouvinte sobre você… e que julga. Não suporto ser prisioneira de uma programação, eu que hesito… Hoje, quando a admiram, fixam a sua agenda para daqui a três anos. De pensar, tenho pesadelos” (1997, apud, Jean-François Arcier, ‘Le Trac – stratégies pour le maîtriser’, 2004). Sviatoslav Richter, na sua monumentalidade interpretativa, não chegaria no final da existência a dizer que, num balanço geral, não estava feliz com o todo da carreira? Guardando as devidas proporções desses mestres, apesar do prazer em tocar obras pertencentes ao grande repertório que estudei com afeto, foi principalmente nas redescobertas de tesouros ocultos, no estudo do repertório pouco frequentado e nas interpretações de segmento da música contemporânea que eu mais me identifiquei. De Johan Kuhnau (1660-1722) a François Servenière (1961-), Eurico Carrapatoso (1962-) e Maury Buchala (1967-), os três últimos entre os mais recentes, encontrei o caminho a ser percorrido, fosse ele pouco trilhado ou inédito. Logicamente houve o tributo a saldar, pois jamais tive empresário, essencialmente por motivos repertoriais. A agenda se tornou forçosamente escassa, fator que me possibilitou a liberdade de desvendar um universo de criações quase jamais visitadas ou brotadas nestas últimas décadas de mentes privilegiadas. Estou a me lembrar do notável compositor e ensaísta cubano-norte americano Aurelio de la Vega (1925-2022) que me honrou com bela composição “Homenaje” (1987), por ocasião do centenário de Villa-Lobos. Gravei-a em Sófia na Bulgária para o CD “Music of Tribute”, juntamente com obras do nosso grande compositor e de outros que prestaram homenagem a ele. Foi lançado pelo selo Labor nos Estados Unidos. Posteriormente, Aurelio enviou-me várias mensagens, sempre que “Homenaje” era interpretada pelo planeta por vários pianistas. Nos programas vinha a menção do meu nome como dedicatário. Escrevi-lhe para agradecer e lhe indagar o porquê da permanente menção nessa obra realmente singular. Respondeu-me que jamais a teria escrito se não tivesse sido provocado. Ao longo das décadas provoquei, chegando às minhas mãos cerca de 150 músicas, a maioria apresentada em público, compostas por muitos compositores relevantes do mundo. Como dizia sempre meu padrinho de crisma, que oficiou em 1963 meu casamento com Regina: sentir o “santo orgulho”.

O ato voluntário de não mais retornar à Europa e já salientado neste espaço não poucas vezes poderá trazer saudosismo, mas não sentimento de tristeza. O momento chegou, como também chegaria em 2019 ao gravar meu último CD na Bélgica.

O cotidiano se apresenta mais difícil para o idoso. Uma funcionária de uma Companhia aérea, ao passar por mim nessa derradeira viagem ao Exterior, apesar de me sentir bem, perguntou se eu necessitava de uma cadeira de rodas. Declinei a sorrir. A impressão que me ficou dos aeroportos atuais é a mesma que senti ao ver em Barretos, uns bons quarenta anos atrás, após recital e visita a um frigorífico não mais existente que patrocinou o evento, o gado subindo uma ladeira e sendo empurrado. Superlotados, aqui e alhures, os aeroportos internacionais europeus, contudo, são fonte para a observação das raças, vestuários e costumes de viajantes de todas as procedências. Esse, acredito, é possivelmente o único prazer que proporciona ao observador nato. O dom da observação foi levado ao extremo da excelência através do olhar agudo de Dostoiewsky ou de Debussy, aquele atento às reações humanas, este extasiado frente às oscilações da natureza, do vento tenebroso ao oscilar das folhas que fenecem.

Gand, na Bélgica flamenga, Paris e inúmeras cidades portuguesas estarão indelevelmente presentes através da memória, mormente quatro: Lisboa; Coimbra, berço de Carlos Seixas (1704-1742); Tomar que viu nascer Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e Évora. Nesses três países vivi os melhores momentos de minha vida musical, tendo o privilégio de manter amizades perenes. Se os aprofundamentos, alicerces para os resultados, deram-se em São Paulo, mercê de essencialidades, formação com o nome maior do ensino voltado ao piano no Brasil, o russo José Kliass (1895-1970), e bem posteriormente estudos pianísticos e teóricos em Paris, foi principalmente na Bélgica, que tive o privilégio de realizar cerca de duas dezenas de recitais solo e camerísticos, assim como gravações divulgadas em CDs. Profético, meu dileto amigo-irmão gantois, André Posman, Diretor do selo belga De Rode Pomp,  já dizia em 1998: “é necessário deixar a sua herança musical”. Dos 25 CDs gravados no Exterior, a maioria se deu na mágica capela Saint-Hilarius (século XI), não distante de Gand, com  o magistral Johan Kennivé como engenheiro de som. Pouco mais de 100 peças estão presentemente no Youtube.

Vários leitores me perguntaram qual a sala que mais me causou impacto no longo caminho. Respondi-lhe que foi a Biblioteca Joanina em Coimbra, uma preciosidade do século XVIII, situada no Paço das Escolas da Universidade de Coimbra. Ao longo dos anos, inúmeras vezes, tive o privilégio de apresentar recitais naquele espaço único.

 

Clique para ouvir, de Carlo Seixas, Sonata nº 68 in A minor, na interpretação de J.E.M.:

(315) Carlos Seixas – Sonata nº 68 in A minor – José Eduardo Martins – piano – YouTube

Como assinalado em blogs anteriores, encerro definitivamente a atividade pianística pública em Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto (24/08/2023), um dos espaços que elegi ao longo das décadas, mormente pela presença do meu  saudoso e diletíssimo amigo, o imenso compositor Gilberto Mendes (1922-2016), sempre presente com sua esposa Eliane aos meus recitais na bela cidade praiana. A pedido do meu estimado amigo santista Flávio Amoreira, escritor, poeta e crítico literário do maior quilate, devo inserir não apenas obras de Gilberto Mendes, mas igualmente criações de outro santista, o também saudoso Almeida Prado (1943-2012), que estaria a completar neste ano o seu 80º aniversário. Debussy e Liszt completarão o programa.

Há ainda tantas obras que gostaria de apresentar. O repertório pianístico é oceânico e quantidade imensa de composições do passado estão ainda submersas! Haverá tempo de estudar algumas e apresentá-las na intimidade para as poucas amizades que me enriquecem o cotidiano. O blog seguirá seu curso e dois livros começam a ferver em minha mente. Quiçá os escreva, se o Tempo me for concedido.

Some reflections on the end of my performances in Europe, in Belgium and Portugal. I will continue to play in private, just for my family and a closed circle for friends.

Encerra-se a breve e derradeira turnê

O que impede de saber não são
nem o tempo nem a inteligência,
mas somente a falta de curiosidade.
Agostinho da Silva
(”Pensamento em Farmácia da Província”)

Após os recitais em Gand e Lisboa, que marcaram o encerramento da minha atividade pianística na Europa, dei duas palestras, em Évora e Coimbra.

Desde o início do século apresento-me no Eborae Musica, prestigiada Escola de Música de Évora, sempre tão bem conduzida pela Professora Helena Zuber. Convidou-me para uma palestra com exemplos musicais para um público preferencialmente constituído por jovens estudantes de música do estabelecimento. Sempre que estive em Évora, os recitais se deram no Convento dos Remédios, na bela Igreja Nª Senhora dos Remédios, joia da arte barroca, hoje não mais destinada ao culto religioso.

Estou a me lembrar de um enigmático conceito do jornalista e historiador Joaquim Palminha Silva (1945-2015), que tive o prazer de conhecer na bela cidade, exposto em seu instigante livro “Évora cidade esotérica e misteriosa” (Europress, 2005): “…a cidade de Évora hipnotiza ainda hoje de forma intensa todos e cada um, graças à existência duma velada força magnética, espiritual, praticamente indecifrável”.

O propósito da palestra era claro, transmitir à juventude princípios que norteiam uma existência voltada à Música. Fi-lo, a compreender as intenções da Profª Helena Zuber. Enumerei alguns pontos que acredito basilares: disciplina; concentração; compromisso efetivo; dedicação; respeito às intenções dos ilustres compositores; desviar-se das concessões que deturpam desideratos precisos; distanciar-se dos holofotes, tantas vezes o canto das sereias; ater-se a dois fundamentos fulcrais, amor à Música e ser curioso. Creio que uma frase do grande músico francês Pierre Boulez (1922-2016) traduz o alcance conceitual do músico: “É necessário ter, diante da obra que escutamos, interpretamos e compomos, um respeito profundo como diante da existência, como uma questão de vida ou de morte”. Ao longo das décadas, mais e mais me convenço de que a Música requer determinados sacrifícios, diferentes certamente de tantas outras atividades. O intérprete, no caso, não pode prescindir do estudo do instrumento escolhido, num labor diário que o faz crescer. Esse “sacrifício” não se concretiza como tal não fosse o amor pela Música. A cada conquista do instrumentista há um prazer indizível, próprio dessa mágica dedicação.

Após a palestra interpretei algumas peças de compositores portugueses e também uma transcrição extraordinária, o “Prelúdio e Fuga em lá menor” de Bach-Liszt que, gravado pelo técnico Gavela, da equipe do Eborae Musica, brevemente estará no Youtube. Vários alunos vieram ter comigo após o evento, a fim de questionar-me sobre temas voltados à nossa área de atuação.

Esteve presente no Eborae Musica o compositor e professor João Francisco Nascimento. Uma alegria. Dele interpretei, já no longínquo 2012, um instigante e precioso Estudo que muito me agrada: “Fúria, Volutas e Saraivadas”. Seu colega, o ilustre Eurico Carrapatoso, recomendou-me essa peça, que tive imenso prazer em interpretar.

Clique para ouvir, de João Francisco Nascimento, Estudo “Fúria, Volutas e Saraivadas”, gravado na Igreja Nª Senhora dos Remédios, em Évora, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=AWyITgFlKZI

Como nas tantas outras oportunidades, fomos conduzidos até Évora pela dileta amiga, gregorianista impecável e regente coral, Professora Idalete Giga.

Coimbra. Estou a me recordar das viagens que fiz de comboio nas décadas de 1980-1990, a sair de Lisboa para o Norte de Portugal a fim de recitais programados. Habitualmente há rápida parada em Coimbra, antecedida pelo lento deslizar do comboio ao atravessar o rio Mondego, momentos para o vislumbre da torre da Universidade fundada em 1290. Foi em 2004 o convite do Professor Catedrático João Gouveia Monteiro, notável medievalista, e do saudoso Professor Doutor José Maria Pedrosa Cardoso, musicólogo ilustre, para recital de piano e palestra no Colóquio “Carlos Seixas de Coimbra”, a festejar o tricentenário de nascimento do grande músico conimbricense. Apresentei-me num recital inteiramente dedicado ao compositor na magnífica Biblioteca Joanina. Ao longo dos anos, cerca de uma dezena de vezes lá me exibi com repertórios vários, mas sempre a inserir no programa criações de Seixas e de outros autores portugueses. Certamente o mais belo cenário que vivenciei durante a minha atuação como pianista.

Clique para ouvir, de Carlos Seixas, Sonata nº 50, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=uIUhQc_giNs

O convite do Professor Gouveia Monteiro para a apresentação do meu segundo livro publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra resultou na palestra de apresentação que proferi na belíssima sala nobre da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, não sem antes as intervenções da atual Diretora da BGUC, Professora Carlota Simões, e do Prof. Gouveia Monteiro, que fez a leitura de substancioso texto de sua lavra, a historiar a importância da Música dos tempos de Confúcio (m. 479 a. C) à Grécia Antiga, Roma, Idade Média, levando-nos até a contemporaneidade. Guardarei no coração as palavras do Profº Gouveia Monteiro ao se referir a este músico. Na minha fala, salientei o meu apreço incondicional à Cultura Portuguesa. O segundo livro, ora publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, IUC, “Impressões sobre a Música Portuguesa” e outros temas (II), apresenta 63 textos extraídos do meu blog, a grande maioria direcionada à Música Portuguesa, mas a abarcar olhares lançados a outras áreas da Cultura  de Portugal: literatura, poesia, aventura e personalidades.

Docentes relevantes da Universidade estiveram presentes. Entre eles: “Prof. Alexandre Dias Pereira, ex-Diretor da Imprensa da Universidade de Coimbra, a sua Diretora-Adjunta, Dra. Maria João Paez, e integrantes da IUC, entre os quais a Dra. Maria de Lurdes Leston. Presente também à sessão, o Prof. Manuel Portela, atual Diretor das Bibliotecas da Universidade e que fez a primeira saudação no evento. Após a palestra, a convite do Prof. Gouveia Monteiro e da esposa Leonor, minha filha Maria Beatriz e eu vivemos momentos inefáveis na morada do casal.


De regresso a Lisboa, convidado pelo competente escritor e jornalista Joaquim Vieira, assisti em sua morada ao documentário que brevemente será lançado sobre o grande compositor Fernando Lopes-Graça. Joaquim Vieira colheu material precioso através de entrevistas com músicos relevantes que cultuam a obra do mestre nascido em Tomar. Honra-me ter participado do documentário com breves comentários.

Ao alçar voo em direção ao Brasil, Maria Beatriz tirou bela foto. Encerra-se o ciclo que me levou mais de cinquenta vezes a Portugal. Há décadas me manifesto a dizer que jamais diferenciei meu afeto entre os dois países. Se a influência paterna foi decisiva desde a infância, a consolidação se deu através do convívio privilegiado que mantive em terras lusíadas com figuras que permanecerão no meu de profundis. Tenho certa idiossincrasia pela inteligência artificial, mercê de avanços que se processam com velocidade a não dar tempo para a assimilação, mormente nos meus 85 anos. Contudo, o WhatsApp permite a perenização dos afetos através dos contatos imediatos.

Haverá mais um recital, que se dará em Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto no dia 24 de Agosto. Escolhi a cidade praiana para a derradeira apresentação pública. A fidelidade de uma amizade em torno da música é a responsável. O insigne compositor da segunda metade do século XX, saudoso amigo Gilberto Mendes (1922-2016), nasceu em Santos e foram várias as apresentações no Museu, sempre com a presença de Gilberto Mendes e a esposa Eliane.

My musical activity in Europe comes to an end. Lectures were given in Évora and Coimbra, the city that launched my second book, “Impressões sobre a Música Portuguesa e outros temas” (Impressions on Portuguese Music and other subjects). I will continue to play, but privately for a small circle of friends. Research will continue and two books are in mind. The 70 years of public performances, usually in small rooms (my preference), with a repertoire that preferably includes rediscovered or contemporary works of value, have been a gift in my already long existence.

1959-2023: os limites da atuação pianística no Exterior

Pouco a pouco recuperei a memória.
Talvez a ela tenha retornado,
encontrando a lembrança que estava à minha espera.

Albert Camus (1913-1960)

Aos 14 de Julho de 1959 realizava o primeiro recital na Europa, a convite do insigne compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994). A récita se deu na Academia dos Amadores de Música em Lisboa. Por lá passaram músicos notáveis e alguns dos ilustres escritores e poetas portugueses. Entre os presentes ao recital, Dr. João Couto (1892-1968), Diretor do Museu de Arte Antiga (Janelas Verdes), o grande pianista Sequeira Costa (1929-2019) e sua futura esposa, a também ótima pianista Tânia Achot (1937-2022), o escritor e crítico musical João de Freitas Branco (1922-1989), que escreveria em “O Século” impressões a respeito da apresentação. Ficaria indelével no meu de profundis aquela noite significativa para o jovem intérprete.

Meu último recital na Europa só poderia ser em Lisboa, desta vez no Museu Nacional da Música, dirigido por Edward Ayres de Abreu, músico respeitado e incentivador das qualitativas publicações de partituras e textos sobre músicos portugueses.

No dia anterior ao recital, que se daria em 30 de Maio, dei entrevista para o consagrado programa Antena 2 da RDP, tão bem conduzido por Paulo Guerra. No longo diálogo, perguntas argutas do competente jornalista me fizeram recordar as mais de 50 visitas a Portugal para recitais, palestras e alguns júris acadêmicos. Antena 2 tem um grande alcance e, sempre após outras tantas entrevistas com Guerra ao longo dos anos, ao me apresentar em diversas cidades havia melómanos que tinham ouvido os diálogos a versar sobre música e outros temas.
No dia do recital no Museu da Música Portuguesa caminhava com minha filha Maria Beatriz, que tão bem me acompanhou, e a memória esteve a apontar as tantas amizades que já partiram. Incentivo a mais para a derradeira apresentação. Como não lembrar da imensa gregorianista Júlia d’Almendra (1904-1992), especialista igualmente em Claude Debussy? Mais de uma década de convívio em torno do compositor francês, sem contar com o fato de que, nas minhas visitas a Portugal, acolhia-me em sua morada, 25, Rua d’Alegria, 1º andar. Paulatinamente apresentei a integral de Debussy, tanto no Instituto Gregoriano de Lisboa dirigido pela mestra, como na Biblioteca Nacional. Estou a me recordar de Humberto de Ávila (1922-2006), renomado crítico e musicólogo do Diário de Notícias naqueles anos e que me privilegiou com vários comentários sobre as apresentações em Lisboa no conceituado jornal; Jorge Peixinho (1940-1994), compositor notável, amigo-irmão do nosso ilustre Gilberto Mendes (1922-2016) e meu dileto amigo também. Foi uma alegria interpretar em primeira audição duas de suas criações, sendo que o magnífico Etude V – Dei Reihe Courante me foi dedicado. O regente e musicólogo Manuel Ivo Cruz (1935-2010), com o qual mantive contatos expressivos sempre que em Lisboa. Sob sua batuta, toquei o Concerto nº 3 de Beethoven, sendo que em outra ocasião foi a vez de minha mulher, Regina Normanha Martins, com o Concerto de Carlos Seixas. José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), musicólogo notável, amigo-irmão. Tivemos vários projetos que resultaram. E na morada do casal José Maria-Manuela hospedei-me inúmeras vezes, só ou com Regina. Tantos mais músicos ou amantes da cultura povoaram minhas visitas constantes a Portugal. Se menciono alguns que já partiram, tenho a alegria do convívio com tantos outros que enriquecem o meu pensar. Desfilam na memória figuras a fazer lembrar o dizer de Albert Camus, pois “estavam à minha espera”.

Clique para ouvir, de Jorge Peixinho, Etude V – Dei Reihe-Courante na interpretação e J.E.M.:

https://www.google.com/search?q=Youtube+Jorge+Peixinho+Etude+Dei-Reihe+Courante+Martins+piano&oq=Youtube+Jorge+Peixinho+Etude+Dei-Reihe+Courante+Martins+piano&aqs=chrome..69i57.28671j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8

Público atento esteve presente no Museu Nacional da Música, espaço cercado por inúmeros instrumentos antigos, inclusive um piano doado por Franz Liszt (1811-1886) quando de sua passagem para apresentações em Lisboa (1845). O MNM carrega uma aura que propicia ao intérprete uma interação outra.

O repertório escolhido para o derradeiro recital em Lisboa teve, em parte, um expresso saudosismo, como se o intérprete estivesse a homenagear não apenas o insigne Fernando Lopes-Graça, mas a agradecer a guarida que sempre teve ao longo dos anos e as amizades profundas advindas de um convívio permanente com músicos ou amantes das sonoridades.

Como acontecera em Gand, na Bélgica, ao finalizar o último recital na Europa em Lisboa senti emoção forte, lembranças afloraram da apresentação no auditório da Academia de Amadores em Julho de 1959 e pareceu-me que o ciclo se completava definitivamente, nele a conter toda uma verdadeira devoção pela música produzida em Portugal desde, no caso, Carlos Seixas (1704-1742) ao notável Eurico Carrapatoso (1962-), diletíssimo amigo. Foi o repertório desses três séculos que busquei, quando imergi em composições excelsas portuguesas, transmitir em recitais e gravações. Essas criações fizeram parte considerável do meu repertório.

As duas Sonatas de Carlos Seixas, em lá menor (71) e em Dó Maior (8), integraram o programa, juntamente com duas breves composições de Lopes-Graça, Dança Antiga das Bagatelas e Alcobaça dançando um velho fandango, da coletânea “Viagens na Minha Terra”. Sobre estas duas, retive durante muitas décadas os manuscritos autógrafos de Lopes-Graça. Ao chegar em Lisboa em Julho de 1959, disse ao notável compositor que gostaria de incluir no programa duas de suas peças. No dia seguinte presenteou-me com os manuscritos originais acima mencionados. Não faz oito anos doei-os à Casa Verdades de Faria em Cascais, onde se encontra o espólio de Lopes-Graça.

No programa inseri outras criações que me ligavam mais precisamente à Lisboa. Em 1983, tricentenário de nascimento de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), apresentei a integral para cravo interpretada ao piano em dois recitais no Teatro São Luís. No presente, inseri a magnífica Suíte em Lá Maior. Criações de Francisco de Lacerda (1869-1934), Eurico Carrapatoso, Gilberto Mendes (1922-2016) e Francisco Mignone (1897-1986) completaram o programa.

Emoção maior espera-me após o recital. Convidados para o jantar, ao adentrarmos no restaurante Rústico-Luz, na sala maior para eventos do estabelecimento, um jantar promovido por amigos músicos portugueses, capitaneado pela ilustre regente coral e gregorianista sucessora de Júlia d’Almendra, Idalete Giga, reuniu cerca de trinta amantes da música. Resistir, quem há-de? Em dado momento, a intérprete de guitarra portuguesa Marta Pereira da Costa encantou os participantes com belas composições solo. Para finalizar, um bolo comemorativo de meus 70 anos de atividade pianística, 64 a tocar em Portugal, ratificou meu apreço incondicional à cultura portuguesa, às amizades fiéis e às terras lusitanas.

Ao longo dos blogs tenho salientado que meu afeto incondicional à música portuguesa instalado desde a juventude, a Carlos Seixas, a Lopes-Graça… apenas foi ratificado com os anos a passar. O leque se abriu. Findar os recitais europeus em Lisboa tem para este intérprete simbologia. Convenço-me de que Bélgica e Portugal, entre outros países que me são caros, como a França, são aqueles em que as raízes chegaram mais ao fundo. No caso de Portugal há os laços sanguíneos, mas a compor o amálgama existe o efeito humano, propiciado pelos elos de amizade que as décadas fortaleceram, e o musical, graças à qualidade de alguns notáveis compositores.

No próximo blog escreverei sobre as impressões da palestra com exemplos musicais na cidade de Évora, inúmeras vezes visitada para recitais, e a palestra durante o lançamento de meu segundo livro pela renomada Universidade de Coimbra, que teve, no evento, a comovente introdução do professor catedrático de História Medieval da Instituição, João Gouveia Monteiro.

The last recital in Europe was in Lisbon, the city where I first performed in Europe in 1959. The cycle comes to an end,  after 64 years of crossing the Atlantic for performances.