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Duas apresentações emotivas e diferenciadas

Sob a direção segura da competente educadora, gregorianista e regente coral Idalete Giga, o Centro Ward de Lisboa desenvolve um comovente trabalho de divulgação de uma das mais importantes manifestações da música, o Canto Gregoriano, apesar de todas as dificuldades nessa atualidade voltada ao efêmero. Criado em 1988 pela notável Júlia d’Almendra, figura referencial na música portuguesa e presente em vários posts anteriores, o Centro Ward de Lisboa promove inúmeras atividades educacionais voltadas ao canto coral, mormente o sacro.

Convidado para uma palestra ilustrada em torno de Claude Debussy (dia 15), foi com imensa alegria e emoção que adentrei as dependências do Centro. Aguardava-me um velho conhecido, o piano de armário de Júlia d’Almendra, de cor preta e da marca berlinense Weber. Nele, durante dez anos, sempre que vinha a Portugal para recitais (1982-1991) estudava minhas horas necessárias, abrigado que era na morada da saudosa e ilustre amiga. Debussysta respeitada, é autora de livro fundamental publicado em França em 1948 – “Les Modes Grégoriens dans l’oeuvre de Claude Debussy” -, uma profunda investigação sobre a origem de modos gregorianos na obra do mestre francês. Mantivemos, durante as visitas anuais a Portugal, extraordinários diálogos sobre processos composicionais debussynianos. Como comentei em posts precedentes, Júlia escreveu o prefácio de meu livro “O Som Pianístico de Claude Debussy” (1982) e acompanhava-me quando de meus recitais pelas terras lusíadas. Minha gratidão é eterna à diletíssima amiga.

Não esperava emoção tão intensa. Após a palestra, interpretei algumas obras importantes de Debussy que se relacionavam ao tema proposto, à qualidade do som e à busca empreendida pelo compositor direcionada a uma nova “química harmônica” a partir de “Reflets dans l’eau”, peça que apresentei. À medida que interpretava, um turbilhão de recordações não podia deixar de afluir. Lembro-me de que minhas turnês davam-se durante o inverno e inúmeras vezes estudava de madrugada no piano de Júlia. Como o instrumento não possuía o pedal que aciona o feltro para atenuar sensivelmente o som, colocava meu cachecol sobre os martelos, de tal maneira que o piano se tornava completamente mudo e, assim, podia varar a madrugada. Estou a me lembrar que, em determinado ano, apresentei em uma semana quatro recitais diferentes na cidade de Lisboa. Arroubos da juventude da idade madura.

No dia 16 fui entrevistado pelo excelente Paulo Guerra da RTP para consagrado programa da Antena 2. Discorremos sobre Debussy e a efeméride do centenário, assim como a respeito do grande, pianista, compositor e professor português, José Vianna da Motta (1868-1948). Esteve no Brasil várias vezes entre 1896 a 1926 e privou da amizade de Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno e de outros músicos pátrios. Brevemente escreverei post sobre o extraordinário músico. Idalete Giga acompanhou-me, tecendo comentários sobre sua mestra Júlia d’Almendra e o envolvimento pleno com a obra de Debussy a partir da modalidade. A gravação da longa entrevista foi compartimentada em dois programas apresentados nos dias 17 e 18. Com ampla divulgação recebi inúmeras mensagens de ouvintes que tiveram acesso ao programa transmitido durante as manhãs pelo território português.

Dei uma palestra no dia 17 na Academia Senior da Cruz Vermelha da Parede. O tema versou sobre o intérprete na era da internet, da imagem e da mídia comprometida por tantos fatores estranhos. Convidado pelo ilustre professor José Maria Pedrosa Cardoso houve a possibilidade de considerarmos a influência dos processos mediáticos junto ao intérprete. A recepção foi muito atenta.

Como sempre, o blog entra aos sábados, cinco minutos após a meia-noite. Mercê dessa circunstância, comentarei a apresentação no Museu Nacional da Música, que se dará neste dia 19, no próximo blog. Iniciarei o recital com uma homenagem do compositor e pensador francês François Servenière ao seu insigne conterrâneo. A seguir tocarei unicamente criações de Debussy. Fotos da turnê ilustrarão o post.

Recitais em torno das obras para piano de Claude Debussy

Tenho recordações de Tomar que remontam a 1982, quando dei meu primeiro recital na cidade dos templários, convidado pela saudosa Professora Manuela Tamagnini, colaboradora e amiga da ilustre gregorianista Júlia d’Almendra (1904-1992). Durante dez anos, entre 1982 e 1991, sempre que vinha a Portugal para recitais, ficava hospedado na morada de Júlia d’Almendra em Lisboa. Foram três récitas em Tomar em anos consecutivos. Para lá me dirigia em companhia de Júlia, sempre a conduzir seu pequeno Toyota em estrada bem movimentada, anterior à construção das magníficas autoestradas que atravessam Portugal. Passaram-se os anos e só a partir do início deste século retornei à cidade, apresentando-me regularmente desde então. Em Tomar situa-se um dos monumentos mais emblemáticos da humanidade, o Convento de Cristo (início no século XII, término no século XVIII). São muitos os blogs em que escrevi sobre Tomar e a aura existente, assim como comentei ter o grande compositor Lopes-Graça nascido na cidade  em 1906. O fato de ter gravado três CDs com suas obras, muitas delas inéditas, fez com que recebesse convites para regressar, a fim de realizar recitais e palestras. A população de Tomar é estimada em cerca de 40.000 habitantes.

Neste ano estarei a apresentar apenas composições de Claude Debussy, mercê do centenário de sua morte. Na Canto Firme, Escola de tradição em toda a Região das Beiras e sub-região do Médio Tejo, deu-se a  palestra-ilustrada na tarde quinta feira, 10 de Maio, sendo que à noite realizei o recital. Dois programas, portanto. Como mencionei no post anterior, o fato de que as mais divulgadas obras de Debussy serão interpretadas por pianistas de mérito, fez-me optar pelo repertório menos divulgado, com exceções.

Canto Firme, hoje tendo a direção segura do maestro Simão Francisco, foi durante muito tempo conduzido pelo professor e regente coral António Sousa, divulgador incansável da obra vocal para coro de Lopes-Graça. Em sua casa, nos arredores de Tomar, Regina e eu sempre nos hospedamos, acolhidos generosamente por António e sua esposa, Maria do Rosário. Prioritariamente nossas conversas giram em torno de Lopes-Graça, pois António é um de seus especialistas, tendo escrito livro referencial , “A construção de uma identidade – Tomar na vida e obra de Fernando Lopes-Graça” (2006). É sempre comovente apresentar-me em Tomar. A acolhida é generosa e a aferição, feita por músicos competentes, um estímulo.

Diferentemente de Tomar, visitada ao menos dez vezes, apresento-me pela segunda vez em Guimarães. Em 2017, o recital foi programado no âmbito do Festival de Música Sacra, na Semana Santa tão bem dirigido pelo notável professor e dileto amigo José Maria Pedrosa Cardoso, nascido na cidade. A recepção acolhedora no ano passado possibilitou o retorno a Guimarães e o recital Debussy constitui-se na continuação das homenagens prestadas ao grande compositor. Torna-se patente o respeito que nutrem pela cultura. O recital está integrado na programação do Simpósio Guimaramus de Musicologia. A cidade berço, como reza a frase em muralha da cidade, “Aqui Nasceu Portugal”, assistiu em 1128 a acontecimentos extraordinários, que resultaram na criação da nação portuguesa. É notório o orgulho do cidadão vimaranense pela história de sua cidade. Escrevi posts sobre Guimarães em 2017. O recital será realizado neste sábado, 12 de Maio. Como sempre faço, apresentarei em poucos minutos aspectos fulcrais das obras a serem interpretadas. Essa fala é sempre bem vinda, mormente quando as obras são menos conhecidas.

Reitero que a breve tournê em torno de Claude Debussy é um prolongamento seletivo da integral que apresentei nos anos 1980. Devo à Júlia d’Almendra o estímulo para que apresentasse paulatinamente, naquela 0casião, as obras completas para piano. Júlia, escreveu livro fulcral sobre o compositor, “Les modes grégoriens dans l’oeuvre de Claude Debussy (1948).

De Guimarães seguiremos para Lisboa, guiados pelas mãos seguras do professor Pedrosa Cardoso. Aguardam-me três atividades, que serão sucintamente comentadas no post da próxima semana: palestra ilustrada em S. Pedro de Alcântara (15), entrevista no consagrado programa Antena 2 da RTP, conduzida por Paulo Guerra (16), e recital no Museu Nacional da Música (19).

Foram muitos os recitais ao longo das décadas


Tempo bem empregado
curto parece.
Adágio popular açoriano

Ao longo desses anos tenho salientado meu afeto pela cidade de Goiânia, mormente graças às inúmeras amizades existentes desde os anos 1970 e que, ao longo, só foram acrescidas por vínculos com gerações mais jovens. Precisamente em 1981 dava curso sobre Debussy e o primeiro recital na cidade, após dois bons anos de visitas mensais para aulas a um grupo de professoras e alunos da Escola Musika, então sob a direção da dileta amiga e competente pianista Glacy Antunes de Oliveira, hoje aposentada como professora titular da Universidade Federal de Goiás. Portanto, os primeiros anos goianos estiveram sob a égide da Escola Musika. Creio que essa ligação profunda, que nasceu no final da década de 1970, faz com que, quando convidado para recital, palestra ou participação em júri de concurso acadêmico, invada-me uma alegria muito grande. Foram várias as visitas à cidade a convite da UFG, sempre para atividades ligadas à música.

Frise-se que Goiânia teve uma das mais destacadas pianistas brasileiras e também professora de grande valor, Belkiss Carneiro de Mendonça, pioneira da arte pianística no Estado de Goiás. Belkiss e sua discípula Glacy formaram quantidade expressiva de ótimos executantes, alguns hoje estabelecidos no Exterior. Professores da UFG da área pianística tiveram sólida orientação de ambas, que foram, diga-se, alunas de José Kliass, a meu ver o nome maior entre os professores no Brasil. Iara Bernette, Estelinha Epstein, Bernardo Segall, Anna Stella Schic estiveram sob a orientação do professor de origem russa. Meu irmão João Carlos e eu igualmente (vide blog “Escola pianística do Professor José Kliass”, 14/04/2012).

Conheci a professora Gyovana de Castro Carneiro há cerca de trinta anos. Veio a São Paulo e frequentou uma disciplina que ofereci na pós-graduação da USP. Estudou piano com Glacy Antunes de Oliveira e Consuelo Quireze, entre outros. Gyovana e sua irmã Ivana Carneiro, também professora, mantiveram uma escola em Goiânia, Pauta. Apresentei-me duas vezes a convite da Escola. Acompanhei o belo desenvolvimento musical de Gyovana, doravante docente da Universidade Federal de Goiás, até o doutorado recente defendido brilhantemente na Universidade Nova de Lisboa. Participei da banca examinadora (vide blog “Uma tese que enaltece repertório basicamente olvidado – Gyovana de Castro Carneiro e a relação amorosa com um tema”, 11/03/2017).

Gyovana e a pianista Ana Flávia Frazão (vide blog “Gravação de imenso valor – Um duo exemplar”, 12/11/2016) dirigem a série “Concertos em Goiânia”, que completa presentemente 10 anos de atividade constante e profícua. Gyovana mantém a Coordenação Geral e Ana Flávia, a Direção Artística. Também tive o prazer de compor o júri que conduziu Ana Flávia à carreira acadêmica na UFG, após provas contundentes.

Dois fatores básicos determinaram um afluxo enorme de público caloroso no recital do último dia 17 de Maio: a organização precisa das duas professoras e a prévia divulgação entre membros do corpo discente das mais variadas áreas da UFG. Gyovana e Ana Flávia têm mantido a chama da música erudita em período voltado a inúmeras atividades e entretenimentos outros, intensamente ventilados pela mídia e que provocam certamente o desvio de interesse dos jovens.

Tive a honra de ter entre os ouvintes professores da UFG, assim como a presença do Magnífico Reitor da Universidade Federal de Goiás, Professor Orlando Afonso Valle do Amaral. Houve a grata oportunidade de manter boa conversação com o Sr. Reitor e o ilustre médico, professor e escritor Heitor Rosa durante recepção no apartamento da professora Gyovana de Castro Carneiro. Basicamente discorremos sobre biblioteca, acervo e conservação.

Foram inúmeros os blogs nos quais enfatizo que me agradam apresentações em salas ou teatros onde há interação, ressaltando que jamais me adequaria à sistemática carreira artística a envolver empresário e apresentações repetitivas em centros visitados, tantas vezes, uma só vez em toda a trajetória. Recordo-me de conversa que mantive com colega francês que teve carreira de mérito, Alain Motard (1928-2011). Dizia-me ele nos anos 1960 que ficava sempre um certo gosto amargo durante tournées prolongadas que não se repetiriam, pois outras geografias apontavam para roteiros novos. Creio que resumia um estado de espírito que certamente acontece em inúmeras carreiras artísticas.

Numa recapitulação descontraída realizada com Gyovana, chegamos à conclusão que nesses quase 40 anos bem mais de uma dezena de vezes apresentei-me em Goiânia, interpretando preferencialmente repertórios diferenciados. Estou a me lembrar que, num breve curso no início dos anos 1980, o tema foi “O repertório pouco ou não frequentado”. Basicamente continuo nessa senha ilimitada, diga-se.

Já temos planos para a série “Concertos em Goiânia” em 2018, ano que presta tributo ao grande compositor Claude Debussy no centenário de sua morte.  Estímulos que se renovam…

This post is about my recital in Goiânia last week, the dear friends I have there and memories of many previous visits to the place, keeping in mind that my connections with the city date back to the seventies, when I gave a course on Debussy at the local university.