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Esquecimento em publicações relevantes

Car la technique, c’est le son.
Alain Lompech

Abordei no post anterior descaso de nossos países irmãos quanto à efetiva divulgação de seus vultos mais expressivos. Portugal e mormente o Brasil pouco fazem para que ilustres músicos, escritores e pintores de mérito sejam conhecidos nos países em que a cultura erudita ainda é cultivada em vários níveis. Despreparo daqueles que mantêm o poder, desinteresse de agentes e da mídia. Dessas três categorias culturais, a música é a mais sacrificada, como se para governantes e promotores a música de concerto fosse realmente de menor expressão do que artes correlatas. Acentuadamente a música descartável, efêmera e de qualidade duvidosa invade espaços e mentes das novas gerações. Não observado com profundidade, esse distanciamento se agudiza entre as duas manifestações, a que perdura durante séculos e a efêmera, que, à maneira de Leviatã, conquista inteiramente a escuta de gerações de adeptos, para gáudio da indústria do espetáculo.

Há alguns anos li o livro “Les Grands Pianistes du XXème Siècle”, de Alain Lompech (Paris, Buchet Chastel, 2012). Ao todo, 44 pianistas entre os maiores, nascidos de 1873 a 1947, são evocados em relatos não profundos, mas a salientar aspectos até desconhecidos das biografias publicadas. Talvez ao autor a ideia de transmitir determinados fatos, por vezes triviais, pudesse dar às narrativas uma maior aproximação do leitor com o artista em pauta. Essa proximidade torna a leitura agradável, sem contudo ultrapassar os limites até de crônicas bem elaboradas. Tantas são as vezes que Alain Lompech, para melhor enquadrar o pianista no cenário proposto, insere algum outro nome relevante, não necessariamente pianista, a complementar seu desiderato de apresentar o pianista em seu labor, nas especificidades interpretativas, no contato com o público e com seus diletos, no convívio social e na recepção crítica. Sem ser profundo, “Les Grands Pianistes du XXe Siècle” chega a agradar. Para músicos e parcela considerável do público que frequenta concertos os nomes são bem conhecidos, de Sergei Rachmaninov (1873-1943) a Catherine Collard (1947-1993) e mais os outros 42 pianistas que nasceram entre essas datas limites.

Se, para explicar a ascendência pedagógica de Edwin Fischer (1886-1960), o autor debruça-se sobre seu mestre Martin Krause – um dos últimos alunos de Liszt -, professor que foi de Claudio Arrau e de meu mestre durante seis anos, José Kliass, igualmente o faz quando aborda Vladimir Sofronitzki (1901-1961), pormenorizando o pianista que o antecedeu, Anton Rubinstein (1829-1894), a explicar uma sequência da denominada escola pianística russa. Essas inserções complementam um conhecimento maior da formação de cada intérprete mencionado no livro.

Um dos aspectos mais marcantes em “Les Grands Pianistes du XXème siècle” refere-se aos repertórios. Frisa bem o autor a quantidade de “concertos históricos” realizados pelos pianistas nascidos no século XIX e que prosseguiram brilhantes carreiras durante a primeira metade do século XX, por vezes algumas poucas décadas mais. Arthur Rubinstein (1887-1982) é um deles. Lembraria que, durante meus anos de aperfeiçoamento em Paris, ainda era relativamente comum essa façanha. Chamaram minha atenção e de meus colegas àquela altura comentários a respeito de uma série de 17 recitais diferentes oferecidos por Arthur Rubinstein. Não me recordo a cidade onde se deu essa extraordinária realização. Curiosa a observação do autor ao afirmar que Arthur Rubinstein – nenhuma relação de parentesco com o mencionado Anton Rubinstein – era “polonês de nascimento, alemão de educação musical, francês de educação intelectual, mas de coração espanhol e brasileiro”. Complementa que isso se deve às turnês pelo Brasil, amizades com a intelligentzia do país e o fato de ter “descoberto” o jovem Villa-Lobos. Acrescentaria que frequentou a morada do nosso mais importante compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931), dele se tornando amigo. Dos pianistas brasileiros, dois são lembrados: Guiomar Novaes (1896-1979) e Nelson Freire (1944- ).

Alain Lompech dedica bom espaço à excelsa pianista Marcelle Meyer (1897-1958). Lembro-me que cheguei em Paris com bolsa do governo francês no ano da morte da pianista. Durante os anos que permaneci na capital da França praticamente seu nome não era lembrado. Sabia-a extraordinária, pois na juventude meu pai adquirira a obra para teclado de Jean-Philippe Rameau (dois LPs) e a de Igor Stravinsky por Marcelle Meyer. Nas minhas muitas viagens posteriores à França, seu nome permanecia sempre bem abaixo de sua excepcional qualidade. Lompech observa que a pianista preferia outras atividades àquela de “estar cortejando empresários, a fim de realizar a grande carreira internacional que seu talento certamente mereceria e que na realidade não aconteceu”. Frequentou e gravou repertório do barroco à Stravinsky, foi a intérprete do “Groupe des Six”, que lutava por uma arte genuinamente francesa e se opunha ao wagnerismo e ao até então denominado impressionismo. Gravaria obras de Debussy, Ravel (integral), Mozart, Beethoven, Schubertt e Chopin, apresentando-se com orquestra sob a regência dos grandes nomes de seu tempo. Um de meus primeiro blogs foi sobre Marcelle Meyer (vide: “Marcelle Meyer – A redescoberta merecida”, 06/03/2007)

Lembrar de Marcelle Meyer, nascida em França, diga-se, hoje totalmente reconhecida, faz considerar a ausência no livro de Alain Lompech do grande Vianna da Motta, tema do blog anterior. Quando afirmo que não há a devida divulgação de Vianna da Motta em esfera internacional, e essa publicidade teria de ser originária de instituições do governo português ligadas à cultura, é pelo fato de que ocultá-lo tem triste resultado, pois apequena o que é expressivo em Portugal. Em dois livros referenciais sobre pianistas, Vianna da Motta não é estudado: “Great Pianists on Piano Playing”, de James Francis Cooke (New York, Dover, 1999), e “Great Contemporary Pianists Speak for Themselves”, de Elyse Mach (New York, Dover, 1991). Os autores se debruçam sobre 30 e 25 pianistas, respectivamente. No caudaloso “Los Grandes Pianistas” (Buenos Aires, Javier Vergara, 1990), de Harold Schonberg (1915-2003), conhecido crítico do New York Times, Vianna da Motta é mencionado entre muitos e mereceu um pequeno parágrafo de oito linhas nas 419 páginas do livro, mormente por ter sido aluno de Franz Liszt. Nessas reduzidas linhas observa: “Nas poucas vezes que deu concertos despertou admiração” (sic). Justamente Vianna da Motta que se apresentou centenas de vezes em inúmeros países e foi detentor de imenso repertório!!!

Acredito que teria de haver uma ampla divulgação de sua obra como compositor em termos mundiais. Certamente o pianista Vianna da Motta emergiria nessa promoção. Se tantos pianistas são lembrados e a eles capítulos são dedicados, por que não Vianna da Motta!!! Está por merecer uma maior acolhida internacional.

A few thoughts on the oblivion of some great pianists by the media and musical associations. Think for example of the brilliant French pianist Marcelle Meyer, who even at her time has never received from the media the recognition a performer with her accomplishments would deserve. Her name passed into obscurity shortly after her death, and only recently her reputation as one of the greatest keyboard virtuosi of the XXth century in French was reestablished. The multitalented Portuguese pianist, composer and conductor Vianna da Motta was not so fortunate. Because little has been invested in the promotion of his works outside Portugal, he is virtually unknown outside the boundaries of his native country. Had this been done and today his name would have received the international acclaim he deserves.

Um dos maiores músicos de seu tempo

É possível que eu chame sobre mim a indignação
de muitos dos que acaso lerem estas palavras
se disser que Viana da Mota,
desaparecido ainda não há muito do número dos vivos,
era um artista grande demais para o nosso pequeno meio.
Nós nunca reconhecemos perfeitamente
o que havia de excepcional no músico que ele foi,
e pode dizer-se que, afora meia dúzia de espíritos desempoeirados que,
logo desde o início da carreira do ilustre virtuoso,
tiveram a intuição do seu valor,
nunca a generalidade dos seus concidadãos,
incluindo neles o chamado escol intelectual,
o considerou propriamente um dos
seus.
Fernando Lopes-Graça
(“Viana da Mota” – 1949)

Portugal celebra o sesquicentenário de nascimento do pianista, regente, compositor, pedagogo e musicógrafo José Vianna da Motta, notável e abrangente músico português. Em seu país estão a se prestar dignas homenagens ao seu legado importante para a cultura lusíada e mundial. Certamente é um dos maiores nomes da música de seu tempo em termos mundiais. Houvesse nascido em país com maior visibilidade, outra seria sua projeção post mortem. O mesmo não se daria com Fernando Lopes-Graça, um dos grandes compositores do século XX e pouco interpretado no Exterior? Haveria de existir uma mentalidade Cultural, com C bem maiúsculo, por parte dos governantes e promotores para que tal acontecesse.

Neste espaço fixarei dois aspectos fundamentais relativos à carreira de Vianna da Motta como pianista extraordinário,  mantenedor de um repertório vastíssimo, e as suas nove turnês pelo Brasil, que se estenderam de 1896 a 1926.

Após estudos preliminares no Conservatório de Lisboa e graças a um talento extraordinário, aos 14 anos ei-lo em Berlim, agraciado pelo rei D. Fernando II e sua consorte, a Condessa de Edla. É na Alemanha que Vianna da Motta terá o pleno desenvolvimento. Aos 19 anos estuda com Franz Liszt (1811-1886), que confia em sua ascensão. Dois anos após, com Hans von Bülow (1830-1894). Com afinco estuda composição. Terá pela Alemanha admiração e fidelidade durante toda a existência.

Compositor de reais méritos, Vianna da Motta frequentou vários gêneros, principalmente o piano solo, canto e piano, camerístico com piano, quarteto de cordas, assim como relevantes criações para orquestra, onde desponta a Sinfonia “À Pátria”. Compôs um Concerto para piano e orquestra e uma “Fantasia Dramática” para a mesma destinação.

Musicógrafo, Vianna da Motta legou obras relevantes, entre elas “Música e músicos alemães: Recordações, ensaios, críticas” (Coimbra, Instituto Alemão, 1941) e “A Vida de Liszt” (Porto, Edições Lopes da Silva, 1945). Nesta, sente-se toda a admiração do aluno pelo grande mestre, assim como a teria, sob outra égide, por Hans von Bullow, tendo inclusive colaborado com o livro “The Piano Master Classes of Hans von Bülow” (tradução em inglês – 1993 – do original em alemão – 1896). Inúmeros artigos enriquecem sua bibliografia, mormente sobre as criações de Liszt e Wagner e igualmente a respeito da técnica e interpretação pianística. Exerceu a crítica musical e sua vasta atividade epistolar continua a ser objeto de estudo e investigação por parte de musicólogos.

Pedagogo de grande mérito, formou gerações de pianistas, entre eles Sequeira Costa (1929- ), Helena de Sá e Costa (1913-2006), Nella Maissa (1914-2014) e Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Em plena Primeira Grande Guerra fixa residência na Suíça (1915-1917), onde conduziu curso de virtuosidade no Conservatório de Genebra. De 1919 até 1938 dirigirá o Conservatório Nacional de Lisboa, onde morou nesse período.

Creio firmemente que, no universo luso-brasileiro, não tivemos um vulto pianístico à altura de Vianna da Motta. Sim, pianistas excelsos do passado no Brasil são merecidamente cultuados, contudo a abrangência do pianista e músico completo português ultrapassa qualquer avaliação comparativa. Foi, sem a menor dúvida, um dos grandes pianistas de seu tempo.

Como pianista, apresentar-se-ia com o mais retumbante sucesso prioritariamente em Portugal e Alemanha, mas também realizou extensas tournées pela América do Sul, assim como recitais e concertos na França, Inglaterra, Espanha, Itália, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Privou da amizade dos maiores músicos do período, entre os quais grandes pianistas, compositores e regentes.

Através dos anos, neste espaço tenho salientado a repetição ad nauseam de repertórios, paradoxalmente qualitativos, que infelizmente não têm sofrido oxigenação. A repetição faz-se presente em nosso país e perpetuada por músicos pátrios e famosos intérpretes internacionais ou brasileiros residentes no Exterior. Programas que, passados pouquíssimos anos ou nem tanto, são repetidos sem rubor. A observação é válida se pensarmos nos intérpretes de antanho, entre eles o grande Vianna da Motta. Impressiona a sua maiúscula frequência a um repertório imenso. Seguindo-se sua trajetória desde a adolescência aos últimos anos da existência, verifica-se um acréscimo constante tanto no que tange o piano solo, como o piano camerístico e com orquestra. O musicólogo e crítico musical João de Freitas Branco, que estudou com Vianna da Motta, em sua obra referencial, “Viana da Mota” (1972), escreve, sempre com ênfase, que o pianista interpretava todas as obras de cor, inclusive a célebre “Sonata Kreutzer” de Beethoven (1770-1827) para violino e piano (tendo ao violino o grande Eugène Isaÿe – 1858-1931). Do compositor alemão foi intérprete de basicamente toda a obra: as 32 Sonatas, a integral da música de câmara com piano, os concertos para piano e orquestra. Nesta conformação, Vianna da Motta teve enorme repertório, como se lê em seus programas. Em seu imenso repertório encontram-se as principais grandes criações do período romântico, assim como criações de tantos outros, do barroco à contemporaneidade, das peças das “Ordres” de François Couperin (1668-1733) à “Islamey” de Mily Balakirev (1837-1910). De J.S.Bach vemo-lo executando parte significativa de sua criação para teclado, incluindo o “Cravo Bem Temperado”, Suítes e transcrições realizadas por seu amigo, o insigne Ferrucio Busoni (1866-1924), com quem solou a dois pianos em certa oportunidade. Admirador de Joaquim Bomtempo (1755-1842), corroborou sua divulgação, que teve continuação através da discípula, a ilustre pianista ítalo-portuguesa Nella Maissa.

O grande compositor Fernando Lopes Graça em seu substancioso livro “Viana da Mota” (1949), considera alguns atributos do pianista: “Um dos mais notáveis traços deste conjunto de faculdades virtuosísticas possuídas por Viana da Mota é a sua grande inteligência musical. As suas interpretações são sempre um modelo de clareza e de probidade artística. O seu respeito pelo pensamento dos Mestres leva-o a consultar edições, cotejando-as, criticando-as, depurando-as, até chegar ao apuramento do texto mais consentâneo não só ao estilo mas também às intenções do autor”. Continua: “Na arte de frasear, então, creio o nosso pianista dificilmente ultrapassável. Tenho ouvido os melhores virtuosos contemporâneos: insuperáveis nalguns aspectos da sua arte, nenhum deles, contudo, me parece atingir a perfeição de Viana da Mota neste capítulo importantíssimo da interpretação musical, que é o fraseado”. Após considerações sobre as muitas virtudes de Vianna da Motta, conclui: “Que mais será preciso, pois, para que se reconheça no nosso grande artista, além de tudo o que já está geralmente reconhecido, mais o seguinte, que o deve ainda elevar mais na nossa admiração e no nosso reconhecimento: que ele é, porventura, o pianista mais equilibrado de toda a brilhante plêiade dos grandes pianistas contemporâneos, como comecei a afirmar?”

Intérprete notável da obra para piano solo de Franz Liszt, inclusive os Concertos e a “Totentanz” para piano e orquestra, foi igualmente o revisor de obras importantes do compositor húngaro, juntamente com Ferrucio Busoni, para a editora Breitkopf & Härtel. Confiadas a Vianna da Motta as composições lisztianas: “Années de Pélerinage”, “Harmonies poétiques et réligieuses”, “Consolations”, “Sonata em si menor”, entre outras. Obras de Beethoven e Schumann também mereceram sua atenção com vias à edição, assim como exercícios voltados à técnica pianística a partir da transcendentes composições de Charles-Valentin Alkan (1813-1888).

Nas nove viagens à América do Sul, Vianna da Motta não se repete. Estava sempre a apresentar repertórios renovados. Impossível compreendermos, na atualidade voltada à repetição de programas, a turnê realizada por Vianna da Motta no Brasil e na Argentina em 1902. Em São Paulo, de 29 de Junho a 9 de Julho apresenta-se com o violinista Bernardo Moreira de Sá em seis récitas. Logo após, entre 15 de Agosto a 27 de Setembro em Buenos Aires, na série de concertos históricos, nove recitais solo diferentes com cerca de 100 composições, todas memorizadas, sendo que nos dias 29 de Setembro e 13 de Outubro apresentou-se interpretando concertos para piano e orquestra!!! Durante esse período na região platina toca também em outras cidades argentinas e em Montevidéu. Em alguns de seus recitais interpretava criações suas. Mencionem-se também os concertos realizados no Brasil, Argentina e Uruguai, de 22 de Abril a 22 de Outubro de 1922. Foram cerca de 50 apresentações, principalmente como pianista e camerista, mas algumas vezes como regente. No Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires foram cerca de 10 apresentações em cada cidade. Em São Paulo rege sua Sinfonia “À Pátria”. Várias outras cidades do sul do Brasil e outras do Uruguai e Argentina foram visitadas. Essa extraordinária atividade vem sempre seguida pelas mais receptivas críticas.

Considerando-se a imensa distância entre a Europa e América do Sul naquele início de século, quando as viagens eram feitas por navios ou por carruagens a percorrer o continente, é incrível que nas nove viagens ao Brasil, de 1896 a 1926, Vianna da Motta tenha tocado em tantas cidades brasileiras, do norte ao sul do país: Belém (in memoriam de Carlos Gomes), Recife, Maceió, Juiz de Fora, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Santos, Porto Alegre, Pelotas!!! Um de seus biógrafos, João de Feitas Branco já se debruçara em Colóquio realizado em Lisboa sobre as visitas de Vianna da Motta no Brasil (1960).

No Brasil privou da amizade de alguns músicos referenciais, entre os quais Henrique Oswald (1852-1931), Alberto Nepomuceno (1864-1920), Arthur Napoleão (1843-1925), Luigi Chiaffarelli (1856-1923), entre tantos. Na revista “Glosas” (publicação do Movimento Patrimonial da Música Portuguesa, número 9, Setembro, 2013), na minha permanente rubrica, escrevi artigo a salientar o relacionamento entre o notável músico português e Henrique Oswald: “Vianna da Motta e Henrique Oswald”. A Sinfonia “À Pátria” foi estreada aos 21 de Maio de 1897 no Porto e teve a primeira audição no Brasil, no Rio de Janeiro, aos 29 de Agosto do mesmo ano. O compositor cedeu a batuta ao amigo e violinista Bernardo Moreira de Sá. No mesmo programa, Henrique Oswald interpretou seu próprio Concerto para piano e orquestra, composto em Florença em 1890. Certamente um evento histórico.

Infelizmente continua-se no Brasil a negligenciar vultos musicais portugueses relevantes. Quando de comemorações de músicos menos influentes, mas estrangeiros não portugueses, por vezes matérias são publicadas, algumas com grande destaque. O centenário de Lopes-Graça em 2006, assim como anteriormente o tricentenário de nascimento de Carlos Seixas (1704-1742), passaram ao largo. Interessa a Portugal divulgá-los com ênfase no Exterior e, ao Brasil, homenagear essas figuras maiúsculas musicais portuguesas? De qual complexo sofre a “intelectualidade” brasileira quando a música de concerto de Portugal está em pauta? Como tem razões Mario Vargas Llosa ao comentar a decadência irreversível da cultura erudita! Apesar de saber que prego no deserto, continuarei. É o que sei fazer.

The post of this week is about José Vianna da Motta (1868-1948), pianist, composer, conductor and teacher, one of the greatest talents of his time in Portugal. He has studied with Liszt and von Bülow and traveled extensively in Brazil and South America, presenting an astonishingly varied repertoire that included some great lesser known classical composers. He died in Lisbon in 1948, leaving an indelible mark in the Portuguese classical music history.

Temas que segmentos poderosos no Brasil insistem em negligenciar

Que noção de “patrimônio” herdamos secularmente? Não uma noção neutra.
A própria origem etimológica da palavra – do latim: patrimonium
indica a sua carga ideológica: designa o legado do pater.
Consiste no conjunto de bens do patriarca,
sobre o qual este põe e dispõe, transmitindo-o por herança.
Mário Vieira de Carvalho

O notável professor e musicólogo português Mário Vieira de Carvalho, ao abordar em sua conferência mencionada no último blog a destruição dos patrimônios material e imaterial na História, propiciou a uma considerável parcela de leitores reflexões a respeito. Sintetizo mensagens recebidas nas palavras de meu amigo Marcelo – encontro-o quase sempre na feira livre aos sábados – que observou, considerando um exemplo nosso, citadino, que São Paulo fundada em 1554, hoje com mais de 12 milhões de habitantes, praticamente nada mais tem de seu passado. O que nos resta, perguntou Marcelo? Do passado mais remoto, resquícios sem expressão; dos séculos a correr, uns mínimos exemplos. Concordamos plenamente nas prováveis causas: ausência efetiva de uma política educacional pública, incultura a grassar em nossas terras, falta de espírito de civilidade, ganância desmesurada das incorporadoras pelo lucro, corrupção que sempre existiu mas que teve a partir do início do século XXI uma avassaladora e desavergonhada ascensão.

No que se refere à destruição material, assiste-se, mormente a partir da segunda metade do século XX, ao boom imobiliário, a ter na sanha das construtoras de grandes imóveis uma das responsáveis. Diria que, sem considerar conluios que existiram e persistem nas elaborações de planos urbanísticos para a cidade, não tem havido o mínimo respeito para com a preservação das migalhas de nossa história. Ao mercado imobiliário interessa encontrar espaço conveniente e nele construir prédios que, ao longo das últimas décadas, só tendem a ser mais altos. Basicamente não há preocupação com a preservação. A depender do interesse imobiliário por determinada área, investem forte, muitas vezes estranhamente, para que projetos sejam aprovados. Sob outra égide, locais que deveriam ser destinados a parques e praças de lazer são igualmente cobiçados avidamente por incorporadoras sem preocupação com os pósteros e a cidade ressente-se dessa “invasão”. Destruição material de nosso passado arquitetônico e de nossas áreas verdes.

Saudosista, estou a me lembrar da Avenida Paulista nos anos 1954-1955. Os estudos pianísticos tomavam parte considerável de meu tempo e durante o biênio estudei à noite no Liceu Eduardo Prado, na esquina da Rua Pamplona com a mais famosa avenida de São Paulo, sendo que em 1956 retornei ao Liceu Pasteur para finalizar o antigo curso Clássico. As aulas no Eduardo Prado findavam por volta das 23:30 e, após conversas com colegas, caminhava a pé da escola até as alturas do Instituto Pasteur, onde pegava o bonde que me deixava na esquina das Avenidas Domingos de Moraes e Rodrigues Alves, desta descendo até a nossa morada no número 984. Os grandes casarões da Avenida Paulista, a beleza das largas calçadas e das frondosas árvores davam um ar de imponência à via pública, a lembrar avenidas de grandes centros europeus. Muitos desses casarões ou palacetes poderiam ter sido mantidos, sobrando no presente pouquíssimos, perdidos na imensidão de grandes prédios que foram sendo construídos ao longo das décadas, sem padrão de harmonia, cada um a obedecer desiderato individual de cada projetista. Desapareceram as árvores, e as calçadas passaram a abrigar não apenas infortunados sem teto como punguistas e outras mais categorias estranhas, permanecendo quase sempre distantes de quaisquer padrões de limpeza. Presta-se a Avenida Paulista às manifestações de toda ordem. Terra de ninguém, na realidade.

Se menciono a Avenida Paulista, tantos outros exemplos espalhados pela cidade podem ser considerados, casarões com qualidade arquitetônica real destruídos pelo avanço imobiliário. Nada a fazer, pois pouco restou desse passado relativamente recente. São Paulo, com algumas lembranças do passado, é uma cidade com Alzheimer.

Se cidades brasileiras tiveram um maior respeito pelo patrimônio material, louve-se o conjunto de medidas que levou a preservá-lo. Numerosas igrejas, casarios que remontam ao século XVIII e monumentos ainda são conservados. Muito pouco para um imenso país. Geralmente encontráveis em cidades menores.

Mário Vieira de Carvalho afirma com firmeza que a destruição material é fruto da “ação intencional”. A destruição imaterial seria também voluntária. Ao concluir que a destruição sistemática da cultura erudita é irreversível, Mario Vargas Llosa, em “La Civilización del espectáculo”, enfatiza inclusive a deterioração dos níveis culturais como um todo. Menciona Vargas Llosa as artes plásticas nas  Bienais. Deixou de frequentá-las pela absurda ausência da qualidade da “arte” apresentada. Importa, segundo Vargas Llosa, o espectáculo, a presença maciça na mídia, afirmando que estar fora dela é permanecer, mesmo com toda qualidade individual, decididamente ignoto. A mídia não irá em busca da qualidade. Grandes patrocinadores de eventos gigantescos, que alugam espaços na mídia através da publicidade, têm fundamental influência nas matérias divulgadoras desses eventos. É uma enorme engrenagem, não sendo difícil entender que a qualidade artística, no caso, é o que menos importa. Sem precisar nomear integrantes do Rap, do Funk, do Rock, do Pagode e do falso sertanejo, das manifestações “artísticas” apresentadas em Bienais, da literatura precedida pelo marketing imperioso e da novela televisiva como exemplos, o que ocuparia imenso espaço, considere-se que a mídia os divulga ad nauseam. Ao público, seguidor do que lhes é apresentado exaustivamente, inclusive pelas redes sociais previamente inteiradas dessa gigantesca parafernália criada, não resta outra coisa a não ser a vontade imperiosa de deglutir o espectáculo de ocasião. E a preservação da cultura imaterial estruturada no passado? As novas gerações, massacradas pela intensa divulgação da qualidade duvidosa do presente, basicamente perderam contato com as culturas precedentes. A destruição imaterial se consolida impulsionada pelo apetite do lucro desmesurado. Promotores que não têm o menor verniz cultural organizam sistematicamente eventos que possam abranger a maior quantidade de um público que, também vertiginosamente, tem seu nível de conhecimento cultural reduzido a níveis baixíssimos, quando o tem. Louve-se a preservação – com que sacrifícios? – das manifestações tradicionais voltadas à dança e a cantoria de raiz, sem patrocínio, sem divulgação e que envolvem comunidades inteiras por este imenso país. Atravessam os séculos a encantar aqueles que as conhecem.

Realmente não se pode acreditar numa reviravolta. A tendência é a diminuição acentuada da qualidade. Políticos e empresários se entendem muito bem. Assiste-se, numa escala geométrica, ao desprezo desses pela qualidade artística. Os governantes escasseiam as verbas para a Cultura e a pequena parcela a ela destinada é aquinhoada por grupos, sempre os mesmos, que sabem bem o caminho da fonte. As empresas estão praticamente focadas na quantidade dos consumidores e pouquíssimas são aquelas que incentivam a arte da resistência.

A destruição material tem sempre maior impacto do que a imaterial. O aniquilamento imaterial, surdo, urdido sob manto voluntário, tem sido devastador. Não quiseram implementar no governo precedente novos currículos para a História e a Literatura, abolindo períodos referenciais daquela e nomes consagrados das letras ao longo dos séculos, inclusive Camões? O pior, sem o menor rubor. Queimaram-se os cravos, instrumento considerado monárquico na Revolução Francesa, mas as partituras permaneceram, preservando-se a interpretação imaterial. Durante o período da Revolução Cultural Chinesa (1966-1976) instituída pelo líder Mao Tsé-Tung, milhares de partituras e livros foram queimados e professores mortos (vide blog: “La Rivière et son secret” – A pianista Zhu Xiao-Mei e os segredos desvelados”, 06/11/2009). O que entenderia como aniquilamento surdo, sombrio, é o patrimônio imaterial que, tendo sobrevivido às hecatombes em heroico renascimento, pouco a pouco está a ser exterminado, sem revolução, sem gritos, sem massas iradas, sem a voz e o som dos menos aquinhoados, mas sim através da indiferença dos poderosos e da sanha sem limites dos tantos envolvidos com esse espectáculo aceleradamente voltado ao niilismo. Encruzilhada.

On tangible and intangible heritage and on the systematic and deliberate destruction of our national culture as a whole, since nowadays nothing seems to be worthy of preservation for the future.