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Patrimônio Musical Português em Pauta

Reiteradas vezes escrevi sobre a importância de uma revista de qualidade sobre Música escrita por experts como fator imprescindível para a ventilação de conceitos que devem permanecer. Sem bairrismos ou apadrinhamentos, todas as publicações isentas desses vícios podem conter fontes raras para a pesquisa. Foi o que buscamos fazer durante cerca de 17 anos como editor responsável da “Revista Música” da Universidade de São Paulo, desaparecida após minha aposentadoria em 2008. Ao longo dos anos tenho acompanhado a publicação de inúmeras revistas sobre música do Exterior, umas centradas em um único compositor excelso, outras analíticas estritas e outras mais que, ao proporem o multidirecionamento temático ou a precisão geográfica, cumprem objetivos relevantes.

“Glosas”, publicação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa – MPMP, tem periodicidade semestral e já está em seu quarto número. Tem cumprido com determinação, em tempos econômico-sociais críticos em Portugal, a missão de não apenas resgatar valores expressivos ou mesmo olvidados da música portuguesa, como criar um rico depositário de opiniões, geralmente inéditas, através dos resultados de entrevistas e artigos específicos sobre determinado autor.

Anteriormente já abordara “Glosas” 2 (vide Revista de Mérito – “Glosas” – O Respeito à Música pouco Frequentada. 14/01/2011). Daquele número ao presente, independentemente do visual aperfeiçoado, “Glosas” focaliza na abrangência personalidades de relevo da música em Portugal, assim como apresenta interessantíssimas contribuições não pertencentes a um núcleo temático.

A homenagem prestada a António Victorino de Almeida (1940- ) é mais do que oportuna. Compositor de mérito, pianista, escritor, comunicador nato nos meios da mídia, realizador televisivo e cinematográfico, musicógrafo, Victorino de Almeida surpreende sempre através de seus conceitos, tantos deles polêmicos. Preliminarmente, o estudo sobre ele, que ocupa 26 páginas de “Glosas”, tem a clarificação de vários músicos e competentes articulistas que buscam desvendar segmentos secretos dessa figura singular na música portuguesa. Eurico Carrapatoso, Sérgio Azevedo, Mário Zambujal, Fernando Rocha, Carla Seixa e José Fortes, diversificadamente, penetram nesse multidirecionamento humano e Victoriono de Almeida pode ser apreendido em parte. A recuperação de entrevista realizada por Francine Benoît com o talento emergente em 1948 corrobora o entendimento de algumas tendências atávicas do ilustre músico. A rica entrevista que segue esses depoimentos, concedida a Duarte Pereira Martins, se de um lado faz-nos lembrar conteúdos já expressos em livro de raro interesse (António Victorino de Almeida conta 50 anos na Música a Paulo Sérgio dos Santos. Portugal, Quimera, 2005), sob aspecto outro revela-nos o compositor curioso, mas cônscio de sua empreitada. Victorino de Almeida não expressaria nesse depoimento que “realmente eu lutei a vida inteira por salvar um conceito de música. Música! E não um conceito de experiência”? Confissão que se casa com a opinião de outro compositor de alto quilate, Eurico Carrapatoso, ao abordar a extensa criação do homenageado: “A música de António Victorino de Almeida aparenta ser conservadora, muitos dirão. Vá-se lá saber se não é por isso mesmo que a melodia victoriniana é tão generosa, tendo a harmonia, de tamanho aplomb, o rasgo próprio da química dos fluídos? E o ritmo, que é tão vivido e vivido! E a orquestração (verdadeiro motivo de inveja), que refulge como o oirinho reluzente da Ceuta quatrocentista (citando Borges Coelho, o historiador). E a forma de sua música, entrocada como o bucéfalo, que respira profundamente como o roncopata: das depressões de Morfeu aos picos de nos fazerem ranger os dentes. Não é esta a função original da música, afinal? O poder de alterar estados de consciência?”

A qualidade encontrada em todo esse tributo a António Victorino de Almeida se expande em tantas outras preciosas contribuições que particularizam temas de interesse. Relevante a entrevista que o compositor e diretor artístico Jorge Salgueiro (1969- ) concede à Mónica Brito. Salientemos duas observações contundentes de Jorge Salgueiro, autor de aproximadamente 180 obras. Perguntado a quem ofereceria a revista “Glosas”, afirmaria: “Ofereceria a uma dessas pessoas que tomam decisões e que afastam os portugueses de seu país”, e à questão de um novo Jorge Salgueiro, acrescentaria: “Ainda sou novo, tenho esperança. Posso vir a mudar o pensamento do século XXI, porque não? Senão tivesse sonhos, e permanecesse apenas o lado lúcido e consciente, suicidava-me. Eu e os outros. Se não fôssemos inconscientes, no sentido de ainda sonhar, não havia criação. É esse sonho que nos faz criar a todos, a cada pessoa, não só o artista. Somos o centro do nosso mundo. Ainda que as tenha perdido, continua a ser o centro do universo. É como nós, os artistas. No sonho tudo é possível”.

Como se não bastasse o material rico para a cultura portuguesa contido em “Glosas” 4 e esboçado acima, artigos outros mostrariam o debruçar de pesquisadores sobre temas, muitos deles de total ineditismo. Destacaria a contribuição de Manuel Pedro Ferreira: “A propósito dos 750 anos do nascimento de Dom Dinis, trovador”; de João Paulo Janeiro, acurado estudo sobre o compositor napolitano David Perez (1711-1778), que, a partir de 1752, tanta contribuição prestou à música portuguesa; de Piedade Braga Santos, filha do compositor Joly Braga Santos (1924-1988), um comovente testemunho a respeito da amizade deste com Jorge Peixinho (1940-1995). A gregorianista e professora Idalete Giga faz levantamento precioso em “A música nos Salões Particulares de Lisboa no fim do século XX e na primeira década do século XX”, tecendo profícuos comentários e a enumerar salões do período e seus promotores. Considere-se igualmente o arguto artigo de Luís C.F. Henriques, em que focaliza o “Cosmopolitismo Musical na Cidade da Horta no Final do Século XIX”. Dentro da linha editorial da revista, que se propõe sempre evidenciar um músico não devidamente estudado, coube a André Vaz Pereira traçar perfil específico em “A obra para piano de Manuel Faria – uma primeira abordagem”. Tem-se ainda, na secção “Compositores a Descobrir”, um merecido estudo sobre a figura impecável na música portuguesa, o Padre Tomás Borba (1867-1950), professor do Conservatório Nacional e imortalizado através de sua atuação, durante décadas, como Diretor Artístico da Academia de Amadores de Música. Teve como seu mais ilustre aluno o grande compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994).

Contribuí para o nº 4 com artigo a abordar “Canto…” Primeiro de Fernando Lopes-Graça. Publicado no mesmo período em meu livro “Impressões sobre a Música Portuguesa”, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra em Novembro último, o texto aborda “Canto de Amor e de Morte” do compositor em seu original, pois conheciam-se apenas as duas versões realizadas pelo músico, para quarteto de cordas com piano e orquestral, respectivamente.

A ausência de interferências, que tantas vezes afeta a homogeneidade de textos diversos de uma determinada área em revistas espalhadas geograficamente, está a ser preservada na revista portuguesa. Sente-se em “Glosas” um propósito, uma identidade. Que assim persista

A few comments on issue nº 4 of Glosas, the music magazine with news, interviews and articles covering the world of classical music in Portugal.

Apresentação do Dr. César Nogueira

Crê com todo o teu ser;
só assim terás atingido o máximo da dúvida.
Agostinho da Silva

A apresentação de meu livro “Impressões sobre a Música Portuguesa” deu-se em Coimbra aos 3 de Novembro último. Entre os ilustres professores doutores que se pronunciaram a respeito durante a cerimônia de lançamento, César Nogueira, musicólogo e regente coral em Coimbra, leu seu texto e acaba de envià-lo via internet.  À gentileza do gesto do pesquisador, soma-se a sua anuência, a meu pedido, para que inserisse a arguta apresentação em meu blog. Publico-a pois,  pelo fato, in adendo, de que durante vários meses, mercê da indicação dos competentes Professores Doutores João Gouveia Monteiro e José Maria Pedrosa Cardoso, o Dr. César Nogueira esteve à testa das revisões de um livro que tem cerca de 60 exemplos musicais, mormente em dois artigos analíticos. Se o prefácio do notável musicólogo e Professor Catedrático Mário Vieira de Carvalho sobrevoa a engajada literatura contida, analisando-a impecavelmente sob a égide de uma realidade que existe, hélas, nas culturas luso-brasileiras, o Dr. César Nogueira penetra em campo hermenêutico mais pragmático e pormenoriza determinados textos. É com prazer, pois, que partilho com meus leitores o texto de apresentação do competente  músico.

“Começo por agradecer à IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, pela oportunidade e a honra que me concedem de, aqui, hoje, participar na apresentação de IMPRESSÕES SOBRE A MÚSICA PORTUGUESA, Panorama, Criação, Interpretação, Esperanças.

Permita-me o autor, Sr. Professor José Eduardo Martins, pianista e musicólogo, iniciar a minha exposição, com uma primeira impressão, que ficou da leitura atenta do seu livro. Assim, não na forma, mas na substância, a obra parece-me claramente organizada segundo duas posturas distintas assumidas pelo autor. Numa, o Senhor Professor fala de si, como homem que também é músico. Na outra, respeita a atitude do músico que também é homem. Não se trata de enquadrar os textos destas duas classes distintas em partes físicas diferentes na organização textual já que estas duas posturas manifestam-se, entrecruzadas, em toda sua a narrativa. Na primeira, José Eduardo Martins deixa transparecer os traços fundamentais das raízes familiares, da formação e as linhas de conduta da sua personalidade no convívio com as múltiplas individualidades que se foram cruzando consigo. Apresenta-nos, aí, passagens plenas de afecto e de sensibilidade que vão construindo, no leitor, uma espécie de lastro onde se instala a ideia da vontade de conhecer, também, este brasileiro tão aportuguesado ou, vice-versa, este português – com a sua licença – tão abrasileirado. Dos testemunhos de José Eduardo Martins, fica-nos a ideia que, este homem, conheceu todo o meio musical português dos últimos 50 anos. Júlia d’Almendra, João de Freitas Branco, Sequeira Costa, Tânia Achot, Ivo Cruz (pai e filho), Lopes-Graça, Jorge Peixinho, Vieira Nery, Mário Vieira de Carvalho e Pedrosa Cardoso são alguns dos nomes que perpassam nos seus escritos, detendo-se mais nuns do que noutros, evidentemente. Destaco, neste registo – diria eu – assumidamente intimista, o texto: ‘A transparência através das cartas’, onde se evidencia a amizade, ‘em Debussy’, com a pedagoga e ‘debussysta’, Júlia d’Almendra.

De todo modo, em qualquer das duas posturas, é tanto o respeito e, mesmo, o amor pela música portuguesa e pelos seus cultores locais, que, em José Eduardo Martins, de facto, cumpre-se – não só neste seu livro mas, especialmente, na sua vida – um pouco da, sempre adiada, aliança cultural permanente entre Portugal e o Brasil. É bem sabido que todos temos desaproveitado, sistematicamente, esse património intangível mas muito real, que radica na circunstância de dois povos partilharem uma mesma língua, e tudo o mais, de comum, que esta condição comporta. José Eduardo Martins e a sua vida são a excepção a esta regra determinista e implacável que teima em separar o que é junto por nascimento e natureza. A este desígnio refere-se Mário Vieira de Carvalho, no prefácio a ‘Impressões Sobre a Música Portuguesa’, quando afirma, cito: ‘É neste contexto que a singularidade de José Eduardo Martins se agiganta. Ao longo de mais de cinquenta anos, não se limitou a manter e expandir contactos, a promover intercâmbios, como já o tinham feito Lopes-Graça e Jorge Peixinho ou, por exemplo, Gilberto Mendes. Foi muito mais além. Dedicou-se de uma forma continuada à investigação da música portuguesa’. E mais adiante, acrescenta, relativamente à postura de alguns intérpretes portugueses, mais alheios à produção composicional nacional: ‘Poucos ousam escapar ao cânone hegemónico nas salas de concerto ou na produção fonográfica: como se o intérprete precisasse do prestígio do cânone para se sentir ele próprio prestigiado enquanto intérprete, e a música portuguesa fosse um sacrifício, um ónus, que não valesse a pena’.

Ora, para José Eduardo Martins, a música portuguesa vale a pena e, é sobre a sua postura enquanto músico e sobre a maneira como esse músico intérprete se manifesta e reflecte sobre as suas opções estéticas e técnicas pianísticas que aqui me vou deter. E, posto este ponto prévio, que me ajuda a melhor encontrar o caminho desta intervenção, tomo a liberdade de destacar – pelo conteúdo eminentemente musicológico, na área da interpretação, da estética e da análise musical, diria eu, pura e dura – os textos sobre Carlos Seixas, Francisco de Lacerda e sobre Fernando Lopes Graça. Evidencio, ainda, um rico e bem fundamentado ensaio académico sobre interpretação: ‘Interpretação Musical frente à Tradição – Piano como Modelo’, embora, sobre ele, dada a escassez de tempo, não possa deter-me mais do que afirmar que é uma excelente peça de reflexão estética sobre a arte de interpretar reportório pianístico. Quando, atrás usei a expressão ‘pura e dura’, pretendi deixar claro que a linguagem usada, em alguns destes textos é marcadamente técnica, e a ela não terá fácil acesso o leitor menos informado nas coisas da música e, até, em concreto, se não existir alguma experiência e conhecimento básico no campo do que especificamente respeita às questões do que poderíamos chamar ‘pianismo’ ou, mais genericamente, como o próprio autor diz, ‘tecladismo’.

Assim, a título de exemplo, quando o autor alude à ‘técnica consagrada dos cinco dedos’ para, com isso, fazer valer a tese de que o piano herdou e desenvolveu aspectos técnicos e estilísticos do cravo – instrumento praticamente esquecido durante o século XIX – vale aqui lembrar que o uso do polegar foi uma conquista evolutiva da técnica do teclado e que, em 1716, em L’ART DE TOUCHER LE CLAVECIN, François Couperin defendia, ainda, o uso de se passar o 3º dedo por cima do 2º ou do 4º evitando, assim, utilizar o polegar! A generalização do uso do 1º dedo teria ainda de esperar. Em França, citando Patrick Montan, terá sido Jean-Philipe Rameau o primeiro a defender o uso deste dedo, tratando-o ainda, inicialmente, pelo seu nome anatómico e não pelo número ‘1’ com que mais tarde se rotulou. De igual modo, quando José Eduardo Martins compara Seixas com o Scarlatti, é preciso ter noções de leitura musical e perceber tipos distintos de textura. Diz o autor, e parece-me bem, que o discurso do compositor de Coimbra apresenta traços de uma certa irregularidade técnica e musical, sendo difícil, ao executante, antever, como em Scarlatti, o percurso do fraseado. Reside aí, também, parte do encanto e da qualidade do compositor – não é previsível, numa época em que, paradoxalmente, a previsibilidade era a componente estética do conforto mental. Digamos que Carlos Seixas ‘não vai’ para onde, naturalmente, as nossas mãos e dedos acham que ‘deveria ou poderia ir’. Ora, não é fácil fazer sentir isto a quem não conheça um teclado! Contudo, o modo como o discurso é organizado – simples e sem excessos estilísticos supérfluos – e porque as ideias são claras e, note-se, bem sustentadas pela experiência prática, o difícil revela-se fácil de explicar e de entender.

Mas José Eduardo Martins não se fica por estas observações meticulosas, naturalmente mais caras a pianistas e cravistas. Aventura-se, sem receios nem preconceitos, na defesa e fundamentação das teses que sustentam o uso de instrumentos modernos na performance da música antiga. E fá-lo com propriedade dando exemplos felizes da consagração desta ideia – grandes pianistas, de sempre, não tiveram pejo em ler Scarlatti, Rameau ou Bach e só um certo fundamentalismo conservador é que não vê, não só a ausência de desvantagens como os benefícios que esta prática pode conquistar. Sobre Seixas, José Eduardo Martins mostra-nos as suas primeiras impressões através do contacto com a pianista polaca Felicja Blumental cujas gravações dos cravistas portugueses impressionaram muito positivamente Santiago Kastner, primeiro estudioso do compositor conimbricense. Esse contacto precoce com o compositor barroco português parece ter representado uma marca indelével de tal modo forte que José Eduardo Martins jamais deixaria de tocar, gravar e a estudar Carlos Seixas e toda a envolvente que a interpretação pianística de um barroco convoca, como muito bem se evidencia em ‘As Sonatas para Teclado de Carlos Seixas Interpretadas ao Piano’.

Francisco de Lacerda – uma espécie de ‘Um Açoriano em Paris’ à portuguesa e, segundo Bettencourt da Câmara, o primeiro compositor impressionista português – em boa hora abandonou os estudos preparatórios de Medicina, no Porto, para estudar música e abraçar uma carreira de nível internacional, principalmente como regente de orquestra. José Eduardo Martins, nos capítulos: ‘Francisco de Lacerda – O Açorianismo Universal’ e ‘Claude Debussy e Francisco de Lacerda: correspondências sonoras’, enquadra as opções estéticas do compositor da Fajã da Fagueira no contexto dos ousados ventos de mudança da Paris de fins de oitocentos e princípios de novecentos. As abissais diferenças sociais e culturais entre S. Jorge e Paris podem comparar-se aos radicais antagonismos entre os ensinamentos conservadores da Schola Cantorum que frequentou na cidade das luzes e os atrevimentos radicais da estética do tempo protagonizadas por um Satie, um Debussy ou um Ravel. Imagine-se o choque para quem, nos dizeres de Bettencourt da Câmara ‘O murmúrio das vagas e o soprar da brisa fresca foram os seus primeiros mestres de música’! Mas esse choque foi muito bem resolvido por Lacerda. Do concerto de hoje ficámos, (ou) ficaremos, com essa mesma impressão! Sem dúvida marcado pela presença de Debussy, José Eduardo Martins lembra-nos, não só mas também, da opção de Lacerda pelo miniaturismo nas suas ‘Trente-six Histoires Pour amuser les enfants d’un artiste’, sem dúvida, uma das marcas de estilo do compositor francês. Particularmente no artigo dedicado à comparação entre Debussy e Lacerda, José Eduardo Martins desce ao pormenor músico-interpretativo mais recôndito só possível ao grande especialista que é, também, neste campo, como intérprete e como musicólogo.

Lopes-Graça aparece referenciado neste livro em nove capítulos. Cinco desses capítulos são dedicados especificamente ao compositor de Tomar e à sua obra. O autor mostra um conhecimento profundo da obra de Lopes-Graça e lança pistas, mais uma vez muito endereçadas a um público especialista, sobre critérios interpretativos na obra pianística, assim como descreve aspectos analíticos do maior interesse e oportunidade sobre o compositor e pianista, introdutor do modernismo em Portugal. Em ‘Alguns Aspectos do Idiomático Técnico Pianístico e da Escritura Composicional em Quatro Obras Essenciais de Fernando Lopes-Graça’, a profusão de citações musicais, com a colagem no texto de excertos de partituras da obra de Lopes-Graça, requer, por parte do leitor, mesmo daquele mais familiarizado com arte da música, grande concentração e empenho. Diria que é um texto não para se ler, mas para se estudar.

Não poderia terminar sem mencionar o artigo onde José Eduardo Martins evoca a publicação recente, também pela Imprensa da Universidade de Coimbra, de ‘História Breve da Música Ocidental’. Trata-se de fazer a justiça merecida à obra, de investigador, musicólogo e professor, de José Maria Pedrosa Cardoso que, no resumidíssimo volume, consegue traçar as linhas mestras da história da música ocidental, tarefa apenas possível a quem pode, pelo profundo conhecimento, separar o essencial do acessório sem cair, ainda assim, nas malhas do banal fácil e já mais do que suficientemente repetido até à exaustão. Mas a proposta literária de Pedrosa Cardoso não é, neste livro, a de um resumo condensado. A escolha dos títulos dos capítulos revela, por si só, estar-se, realmente, perante uma outra maneira de ver e de classificar os tempos da música no tempo e, desse modo, revela-se aqui uma nova história já que história não é só a verdade mas sim, e principalmente, a interpretação da verdade.

O livro de José Eduardo Martins não é só um livro. É um livro e um CD com 40 faixas de música interpretada pelo autor. Acaso não houvesse já razões de sobra para a justificação desta edição, só o facto de se acrescentar a possibilidade de ouvir a música sobre a qual se falou, representa uma originalidade valiosa pelos grandes benefícios que transporta.

Felicito, de novo, autor e editora pela obra lançada.

Obrigado.

César Nogueira”

Acabara de finalizar o post, quando recebo do ilustre Professor Henrique Manuel S. Pereira, da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto), o comentário sobre meu livro. Compartilho-o com o leitor, que poderá acessá-lo clicando no link:

http://guerrajunqueiro.wordpress.com/2011/12/14/impressoes-sobre-a-musica-de-junqueiro/

This week’s post is a transcription of the introduction to my book on Portuguese music that was released by the Coimbra University Press last November. This introduction was written by Professor César Nogueira, musicologist and choral conductor in Coimbra.

 

E Findamos a Digressão

O Outono se expande no hemisfério norte. Faz-se sentir através da paisagem arborizada, mas a ter preferencialmente folhas caducas e poucas perenes. Sentimo-lo no percurso Tomar-Guimarães, antes da chegada a Braga. Desde a infância constitui minha estação escolhida. Se as flores primaveris encantam no despertar de longo período, seriam os tons dourados das follhas das árvores,  anunciando o longo inverno, que mais me impressionam. À medida que o carro desliza pela auto-estrada, caminhos plenos de folhas podem ser vistos. No Bom Jesus de Braga, na bela morada dos diletos amigos Teotónio e Maria Teresa Santos onde ficamos, à altura do início da célebre e longa escadaria a exibir em suas laterais, progressivamente, as capelas devocionais, de maneira mais acentuada as cores outonais podem ser sentidas. As colinas vislumbradas da morada abastecem o olhar atento. A cada dia transfiguram-se na luminosidade, pois as árvores estão a se desnudar. O solo, mormente quando raios de sol incidem obliquamente, revela todo o esplendor dos tons da serenidade, que se modificam à mais tênue brisa sobre as folhas secas. São em terra o que os Reflets dans l’eau, de Debussy, traduzem sonoramente.

Em Braga o recital teve características extraordinárias. A competente e dedicada professora Elisa Lessa coordenou uma apresentação diferenciada. Teve como colaborador o impecável Rui Feio e alunos da muito bem estruturada Escola de Música, que apresenta uma arquitetura plena de brilhantes soluções. Organizaram uma cuidadosa exposição e foram encontrar tanto em meu site, como em outros arquivos, fotos da trajetória musical amorosa do intérprete. Creio que a relação de afeto seja o primordial impulso que me leva a sempre prosseguir. Conseguiram atingir o âmago de meus 73 anos. Em um dos corredores da Escola, colocaram os cartazes alusivos. Jamais acontecera antes e me emocionei, principalmente por ter meu saudoso pai nascido no Distrito de Vila Verde, mas registrado àquela altura, nos estertores do século XIX, em Braga.

Não houve data show, tão bem preparado pelo professor Pedrosa Cardoso, por motivos técnicos, mas o público reagiu extraordinariamente às obras apresentadas. Após a récita e a sessão de autógrafos de meu livro, lançado no início de Novembro pela Imprensa da Universidade de Coimbra, a professora Elisa Lessa ofereceu um jantar carinhoso na Escola. Como o recital começara às 18:00h, eis que, vinda do Porto com seu filho, chega à Escola por volta das 20:00h a notável violoncelista Madalena Sá e Costa, irmã da saudosa pianista e professora Helena Sá e Costa. Completaria 96 anos no dia seguinte, mas fez-se presente ao recital que acabara de ser realizado, pois tanto ela como seu filho, arquiteto Luís, equivocaram-se quanto ao horário. Com memória prodigiosa, lembrou-se com pormenores de nossa apresentação em Janeiro de 1986 na cidade do Porto, na Delegação Regional do Norte, onde realizamos um recital que marcou. Lembranças vieram, inclusive, do programa interpretado com empolgação. Obras de Beethoven e Luís Filipe Pires. Findo o jantar, em cumplicidade com Elisa Lessa, levamos Madalena Sá e Costa ao auditório. Uns poucos nos acompanharam. Primeiramente, saudei-a ao piano com o “Parabéns a você” e toquei Rameau, Carlos Seixas e ainda uma obra de Fernando Lopes-Graça. Regina, que adentrara à sala, sob minha insistência homenageou-a com uma Sonata de D. Scarlatti e Saci, de Villa-Lobos, completando com um “Parabéns a você” bem mais incrementado do que o meu, este, um simples coral. Uma noite a não ser esquecida.

No dia seguinte houve a última apresentação. Deu-se em Póvoa de Varzim. Organizado pela Escola de Música, tão bem dirigida pelo professor e regente José Abel Carriço, o recital teve lugar no Auditório Municipal. Um magnífico piano de concerto Fazioli, tão raro nas salas pelo mundo devido à diminuta produção esmeradamente artesanal, estava à minha disposição. Realmente um instrumento que reage às mais sensíveis intenções. Um público atento acompanhou com entusiasmo o repertório apresentado durante toda a tournée. E mostrou-se receptivo ao livro “Impressões sobre a Música Portuguesa”.

O balanço dessa peregrinação musical tem aspectos altamente positivos. Estou absolutamente convicto de que o repertório inusitado merece a guarida necessária. Continuo a insistir perante os prezados leitores de meu blog. Os ouvintes gostam dele, a depender de como os organizadores que conhecem a arte musical  promovem o evento e também, em estado sine qua nom, da maneira como ele é apresentado. É lógico supor – a constante está a demonstrar através dos tempos a assertiva – que agentes não versados em música, mas nos resultados financeiros, não têm apreço pelo novo, passado ou presente. Insistem na mesmice e empobrecem mentes, que se fossilizam na repetição. O “novo histórico” é revelador e mostra ao homem a riqueza de talentos privilegiados, que souberam compor na perfeição, mas permaneceram ignotos. Nunca é demais insistir.

Sob outra égide, a minha devoção à música para piano de Portugal, como a de nosso país em segmentos que elegi, continuará. Ainda há repertório não divulgado de raro valor. O manancial lá está, depositado em coleções particulares, em bibliotecas ou museus. Esse debruçar jamais exclui a atração pela contemporaneidade e uma das grandes alegrias que tenho como intérprete é poder revelar obras de hoje. Se François Servenière e Eurico Carrapatoso, dois notáveis compositores, integraram tematicamente o repertório da tournée que ora finda, outros autores, de Portugal, do Brasil e alhures, estarão a me interessar. Dar sentido à vida nessa revelação que se renova anualmente é realmente uma dádiva.

A digressão para 2012 já está a ser pensada. Como habitualmente faço, com exceção do recital em Coimbra, precedido da apresentação do livro na presente turnê, deverei começar por Lisboa. O Templo de Lopes-Graça, a Academia de Amadores de Música, onde dei meu primeiro recital aos 14 de Julho de 1959, a convite do compositor Lopes-Graça, continua perenemente a ser “o meu primeiro e virginal abrigo”, parafraseando o poeta Luís Guimarães Júnior.

For the last three weeks I’ve been writing about my concert tour in Portugal. This is the last post of the series, covering the recitals held in Braga and Póvoa de Varzim.