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Recital de encerramento

As agências internacionais de concertos
apoderaram-se inteiramente da nossa vida musical,
onde colocam (por vezes a peso de ouro) o êxito acumulado do “centro”.
E nem sequer passa pela cabeça das instituições e dos seus “programadores”
que Brasil e Portugal, juntos,
bem podiam criar uma nova dinâmica
de efectivo intercâmbio que se projectasse
não só no espaço cultural luso-brasileiro, mas também para fora dele.
Mário Vieira de Carvalho
(Professor Catedrático de Sociologia da Música na Universidade Nova de Lisboa)

A última vez que me apresentei como recitalista de piano no Theatro Municipal de São Paulo foi aos 17 de Junho de 1963, com programa dedicado a J.S.Bach.  A progressiva destinação do Theatro Municipal às temporadas líricas, ao ballet e aos concertos orquestrais possivelmente retirou do mais tradicional teatro paulistano muitas das apresentações solo, que foram deslocadas para outras salas da cidade. Estou a me lembrar de que, na minha juventude, o Theatro Municipal abrigou apresentações de muitos dos maiores intérpretes solistas da história: Arthur Rubinstein, Claudio Arrau, Walther Gieseking, Zino Francescatti, Ruggiero Ricci, Christian Ferraz, Alexander Brailowsky, Leonid Kogan, Pierre Fournier, Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Gérard Sousay e tantos mais. Minha primeira ida ao Theatro Municipal foi para assistir ao pianista Alexander Uninsky. Tinha eu pouco mais de dez anos e o espetáculo  maravilhou-me. A todas as apresentações dos intérpretes mencionados meu irmão João Carlos e eu assistíamos entusiasmados! Quando crianças, sempre acompanhados de nossos pais.

Quanto ao Theatro Municipal, o atual prefeito João Dória realizou para a cidade um benefício cultural a ser elogiado, pois o teatro ficou em passado recente à mercê de algumas figuras hoje envolvidas com a Justiça. Propiciou o alcaide uma democratização dessa sala de espetáculos centenária. Foi pois com alegria que recebi do Senhor Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, convite para encerrar a programação “Experimenta Portugal’17″ que, durante todo o mês de Junho, mostrou à cidade eventos diversificados em vários locais, numa promoção relevante. Junho tem significado especial para Portugal, pois o dia 10 (dias de Camões) é a data nacional do país. O recital se enquadra na programação do Theatro Municipal, que às quartas-feiras, às 20:00hs, tem realizado espetáculos solistas ou camerísticos com boa aceitação pública. Está pois meu recital marcado para o dia 28 deste mês.

Para tanto, apresentarei programa luso-brasileiro que se estende do barroco à contemporaneidade. O ouvinte poderá “viajar” sonoramente através de propostas de compositores de grande valor com linguagens rigorosamente distintas. Diria, não há no programa elaborado dois estilos que se poderiam assemelhar. Aos 79 anos, poderia afirmar que, entre minhas escolhas durante a trajetória, a música de Portugal e do Brasil faz parte atuante de meu repertório, sem distinção, repartida de maneira bem equânime, inclusive em número de CDs gravados, seis brasileiros e outros seis com obras portuguesas significativas.

No programa apresentarei obras de oito autores, também selecionados equilibradamente. Inicio com duas Sonatas do compositor barroco nascido em Coimbra, Carlos Seixas (1704-1742). Seixas, falecido precocemente, legou importante criação distribuída em vários gêneros. Gozou da amizade de Domenico Scarlatti (1685-1757), que teceria elogios ao colega coimbrão, 19 anos mais jovem. Carlos Seixas compôs mais de 100 Sonatas para teclado. Na Bélgica gravei 23 Sonatas para o selo De Rode Pomp. As duas escolhidas são contrastantes, sendo a Sonata em  lá menor (71) plena de poesia e a em dó menor (16) jocosa e virtuosística, com determinadas ornamentações, recorrentes durante a obra, que fazem lembrar a técnica da guitarra.

Também pelo selo De Rode Pomp gravei as “Trente Six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1999), obra basilar de Francisco de Lacerda (1869-1934). Apresentei-a mais de uma vez em várias cidades portuguesas. Quando do lançamento de meu livro “Impressões sobre a Musica Portuguesa” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011), apresentei na legendária cidade universitária não apenas muitas dessas pequenas peças, como também duas homenagens a Francisco de Lacerda. O compositor francês François Servenière (1961- ) comporia “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” e o compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ), as “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste”,  inspiradas nos poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo. Pede o compositor que o intérprete leia os curtos e sugestivos poemas antes da apresentação de cada uma das peças da coletânea.

Os “Estudos Transcendentais” de Francisco Mignone (1897-1986), compostos em 1931, pertencem definitivamente ao repertório mais significativo de nossa criação musical para piano. Neles, Mignone emprega processos arrojados, mormente sob o aspecto da busca de resultados sonoros.

Em 1979 solicitei a Francisco Mignone uma obra para comemorar 20 anos de minha primeira apresentação em Lisboa. Surgiu “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, inspirado em “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões.

O longo convívio com Gilberto Mendes (1922-2016) na Universidade de São Paulo aprofundou laços de amizade. Ele me honraria com muitas obras que apresentei no Brasil e em vários países europeus. Entre essas: “Viva Villa”, “Il Neige Encore”, Sete “Estudos”, “Sonatina” e mais algumas. Muitas delas têm sido apresentadas no Exterior por pianistas de diversas nacionalidades, o que vem demonstrar que, contemporâneo, Mendes nunca foi compositor de uma única apresentação, fato rigorosamente comum entre seus pares. Para os meus 70 anos, que também seriam lembrados em Portugal, Gilberto Mendes compôs “Largo do Chiado” (2008). A curta peça evoca o fado preferido por Gilberto, “A Severa”, canção que sabia de memória desde o filme português de José Leitão de Barros datado de 1930 e primeira película sonora realizada em terras lusíadas.

De Fernando Lopes-Graça (1906-1994), compositor que tive o privilégio de conhecer e de cuja amizade privei desde 1958, gravei três CDs, a maioria com obras em primeira audição. Apresentarei “Morto, José Gomes Ferreira vais ao nosso lado”, pertencente às nove “Músicas Fúnebres”, nas quais Lopes-Graça homenageia amigos que partilhavam ideologia e conceitos artísticos e literários. Como a peça apresenta várias vezes o tema de “Jornada”, uma das canções de Lopes-Graça  sobre versos do poeta José Gomes Ferreira e pertencente às “Canções Heróicas”, antes da interpretação da composição tocarei a canção precedida da leitura dos versos do ilustre poeta português.

Júlio Medaglia (1938- ), um dos músicos mais versáteis do país, compôs uma peça para CD de Estudos Brasileiros que gravei na Bélgica e lançado pela Academia Brasileira de Música. “Zé Eduardo arpeggiando do choro” nasceu após solicitar ao amigo um choro para piano, mercê de ter ouvido uma outra composição sua do gênero dedicada ao quinteto de metais da Orquestra Sinfônica de Berlim. Um primor que continua a granjear ótima recepção.

Mantive com Jorge Peixinho (1940-1994) uma amizade que me estimulou muito no sentido de entender melhor a escrita decorrente do pensamento da Escola de Darmstadt, com a qual Peixinho tanto se identificou. Gravei duas obras do notável músico, “Villalbarosa” para o selo Labor dos Estados Unidos (2001) e, mais recentemente, o “Étude V Die Reihe – Courante” (1992) para o selo Francês ESOLEM (2017), criação que explora de maneira notável a “série” (técnica de composição baseada na disposição de 12 sons sequencialmente diferentes – total cromático da oitava) e que veio enriquecer a coletânea de Estudos para piano que iniciei em 1985 e que teria a duração de 30 anos, findando pois em 2015. Em blogs anteriores escrevi a respeito do projeto, criado com data marcada para ser finalizado. Tem-se uma panorâmica do gênero Estudo na passagem do milênio. Recebi cerca de 80 Estudos vindos de inúmeros países.

Finalizarei o programa com uma obra de nosso grande compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), músico que tive o privilégio de redescobrir e dele gravar cinco LPs no Brasil e três CDs na Bélgica, sendo que um quarto deverá ser lançado no próximo ano. A “Valse-Caprice” op. 11 nº 1 é simplesmente extraordinária em sua condução e apresenta temas contagiantes. Na realidade, uma grande Valsa.

Mesclar obras brasileiras e portuguesas é motivo de alegria. Todavia, vergonhosamente em nosso país não se toca música erudita ou de concerto composta em Portugal. Continuamos a reverenciar os mesmos compositores consagrados europeus, os de sempre. Por motivos que poderiam ter explicação numa análise mais profunda, passando pela colonização, teimamos em dar as costas à excelente criação musical erudita, clássica ou de concerto portuguesa. Exceções das exceções existem e ficam nessa categoria.

Convido os leitores que me têm prestigiado desde Março de 2007 através do blog a assistir um programa diversificado, que bem posiciona criações relevantes oriundas de nossos países, que deveriam ser sempre irmãos em todos os aspectos. Preservemos esse amálgama que existe a partir de tantos elos insubornáveis, eternos.

On my forthcoming recital on 28 June at the Theatro Municipal, part of the agenda of “Experimenta Portugal 17”, event promoted by the  General Consulate of Portugal in São Paulo. The recital will be entirely dedicated to Luso-Brazilian composers: Carlos Seixas, Eurico Carrapatoso, Francisco Mignone, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça, Júlio Medaglia, Jorge Peixinho and Henrique Oswald. A richly varied programme ranging from the Baroque to the present, with extraordinary works from Portugal and Brazil, “sister nations” that should be always united by genuine ties of friendship.

 

 

 

 

Foram muitos os recitais ao longo das décadas


Tempo bem empregado
curto parece.
Adágio popular açoriano

Ao longo desses anos tenho salientado meu afeto pela cidade de Goiânia, mormente graças às inúmeras amizades existentes desde os anos 1970 e que, ao longo, só foram acrescidas por vínculos com gerações mais jovens. Precisamente em 1981 dava curso sobre Debussy e o primeiro recital na cidade, após dois bons anos de visitas mensais para aulas a um grupo de professoras e alunos da Escola Musika, então sob a direção da dileta amiga e competente pianista Glacy Antunes de Oliveira, hoje aposentada como professora titular da Universidade Federal de Goiás. Portanto, os primeiros anos goianos estiveram sob a égide da Escola Musika. Creio que essa ligação profunda, que nasceu no final da década de 1970, faz com que, quando convidado para recital, palestra ou participação em júri de concurso acadêmico, invada-me uma alegria muito grande. Foram várias as visitas à cidade a convite da UFG, sempre para atividades ligadas à música.

Frise-se que Goiânia teve uma das mais destacadas pianistas brasileiras e também professora de grande valor, Belkiss Carneiro de Mendonça, pioneira da arte pianística no Estado de Goiás. Belkiss e sua discípula Glacy formaram quantidade expressiva de ótimos executantes, alguns hoje estabelecidos no Exterior. Professores da UFG da área pianística tiveram sólida orientação de ambas, que foram, diga-se, alunas de José Kliass, a meu ver o nome maior entre os professores no Brasil. Iara Bernette, Estelinha Epstein, Bernardo Segall, Anna Stella Schic estiveram sob a orientação do professor de origem russa. Meu irmão João Carlos e eu igualmente (vide blog “Escola pianística do Professor José Kliass”, 14/04/2012).

Conheci a professora Gyovana de Castro Carneiro há cerca de trinta anos. Veio a São Paulo e frequentou uma disciplina que ofereci na pós-graduação da USP. Estudou piano com Glacy Antunes de Oliveira e Consuelo Quireze, entre outros. Gyovana e sua irmã Ivana Carneiro, também professora, mantiveram uma escola em Goiânia, Pauta. Apresentei-me duas vezes a convite da Escola. Acompanhei o belo desenvolvimento musical de Gyovana, doravante docente da Universidade Federal de Goiás, até o doutorado recente defendido brilhantemente na Universidade Nova de Lisboa. Participei da banca examinadora (vide blog “Uma tese que enaltece repertório basicamente olvidado – Gyovana de Castro Carneiro e a relação amorosa com um tema”, 11/03/2017).

Gyovana e a pianista Ana Flávia Frazão (vide blog “Gravação de imenso valor – Um duo exemplar”, 12/11/2016) dirigem a série “Concertos em Goiânia”, que completa presentemente 10 anos de atividade constante e profícua. Gyovana mantém a Coordenação Geral e Ana Flávia, a Direção Artística. Também tive o prazer de compor o júri que conduziu Ana Flávia à carreira acadêmica na UFG, após provas contundentes.

Dois fatores básicos determinaram um afluxo enorme de público caloroso no recital do último dia 17 de Maio: a organização precisa das duas professoras e a prévia divulgação entre membros do corpo discente das mais variadas áreas da UFG. Gyovana e Ana Flávia têm mantido a chama da música erudita em período voltado a inúmeras atividades e entretenimentos outros, intensamente ventilados pela mídia e que provocam certamente o desvio de interesse dos jovens.

Tive a honra de ter entre os ouvintes professores da UFG, assim como a presença do Magnífico Reitor da Universidade Federal de Goiás, Professor Orlando Afonso Valle do Amaral. Houve a grata oportunidade de manter boa conversação com o Sr. Reitor e o ilustre médico, professor e escritor Heitor Rosa durante recepção no apartamento da professora Gyovana de Castro Carneiro. Basicamente discorremos sobre biblioteca, acervo e conservação.

Foram inúmeros os blogs nos quais enfatizo que me agradam apresentações em salas ou teatros onde há interação, ressaltando que jamais me adequaria à sistemática carreira artística a envolver empresário e apresentações repetitivas em centros visitados, tantas vezes, uma só vez em toda a trajetória. Recordo-me de conversa que mantive com colega francês que teve carreira de mérito, Alain Motard (1928-2011). Dizia-me ele nos anos 1960 que ficava sempre um certo gosto amargo durante tournées prolongadas que não se repetiriam, pois outras geografias apontavam para roteiros novos. Creio que resumia um estado de espírito que certamente acontece em inúmeras carreiras artísticas.

Numa recapitulação descontraída realizada com Gyovana, chegamos à conclusão que nesses quase 40 anos bem mais de uma dezena de vezes apresentei-me em Goiânia, interpretando preferencialmente repertórios diferenciados. Estou a me lembrar que, num breve curso no início dos anos 1980, o tema foi “O repertório pouco ou não frequentado”. Basicamente continuo nessa senha ilimitada, diga-se.

Já temos planos para a série “Concertos em Goiânia” em 2018, ano que presta tributo ao grande compositor Claude Debussy no centenário de sua morte.  Estímulos que se renovam…

This post is about my recital in Goiânia last week, the dear friends I have there and memories of many previous visits to the place, keeping in mind that my connections with the city date back to the seventies, when I gave a course on Debussy at the local university.

 

Lançamento de CD com Estudos Contemporâneos para piano

E mar vai em voo aberto
já pássaro aventureiro para as descobertas.
Maria Isabel Oswald Monteiro

Em 1985 dei início a um projeto de Estudos para piano que deveria estar concluído em 2015, fato que realmente ocorreu. Trinta anos de prazo!!! Conhecer o longo caminho e apreender uma panorâmica do gênero nessa tumultuada fronteira entre dois séculos. A finalidade era precisa, entender a evolução técnico-pianística e a criação de compositores contemporâneos a respeito desse gênero tão específico que corroborou a glória de Chopin, Liszt, Scriabine, Rachmaninov, Debussy e outros.

Vários compositores de mérito foram convidados para a feitura de Estudos. Recebi cerca de 80 Estudos ao longo de 30 anos, vindos da Europa, das Américas e do Extremo-Oriente. Inicialmente gravei Estudos Históricos, as integrais dos Estudos de Scriabine e Debussy, pois as composições do gênero criadas por Chopin e Liszt foram profusamente gravadas nessas últimas décadas. Mais tarde gravei CD com Estudos de dez destacados compositores belgas que criaram para o projeto, assim como outro CD unicamente dedicado aos Estudos brasileiros de concerto idealizados para a coletânea, exceção aos Seis “Estudos Transcendentais”, de Francisco Mignone, que datam de 1931.

O presente CD de Estudos Contemporâneos (France, ESOLEM, 2017) contém criações de quatro compositores notáveis. São eles o búlgaro Gheorghi Arnaoudov (1947- ), os portugueses Eurico Carrapatoso (1962- ) e Jorge Peixinho (1940-1995) e o francês François Servenière (1961- ). A escolha desses Estudos residiria no fato de estarmos diante de quatro linguagens absolutamente distintas. Sob outra égide, fazem jus ao título do CD, “Éthers de l’Infini”, pela carga de energia cósmica e até sagrada que poderia perfeitamente ser atribuída às obras. A gravação foi realizada na capela de Saint-Hilarius em Mullem, na Bélgica flamenga. Desde 1999 minhas gravações têm sido realizadas nessa capela, sob os cuidados precisos de Johan Kennivé, excepcional engenheiro de som.

François Servenière escreveu sete “Études Cosmiques” inspirados na série de acrílicos sobre tela do imenso pintor Luca Vitali (1940-2013). O compositor explora  muitos processos consagrados na literatura técnico-pianística, legando contudo suas impressões digitais em cada Estudo. Tem-se, portanto, a virtuosidade envolvida por um sedutor senso da cor. A linguagem musical de Servenière está sempre a serviço da música, jamais a buscar a virtuosidade pela virtuosidade, que revela tantas vezes o vazio de ideias. Servenière fala direto ao coração e os sete “Études Cosmiques”, tão diversos em suas construções, traduzem o grande piano. Que ele ama Fauré, Debussy e Ravel é inquestionável. Não obstante, Servenière ama o jazz e os ritmos sedutores d’além mar. Ele observa que, devido às condições particulares do instrumento piano, “há parâmetro importante a ser dominado pelo intérprete, a fim de projetar o ambiente e a cor sonora dos ‘Études Cosmiques’ nessa acústica ou dimensão espacial — ou aquática —, como se os sons estivessem sendo lançados, sem retorno possível, no Universo… Toda a música e os segmentos estão intimamente ligados às fortes impressões iniciais sentidas após descoberta, análise e pesquisa das obras ‘abstratas’ de Luca Vitali. A exegese musical atém-se logicamente à do espaço e suas decorrências”. A morte súbita de Luca Vitali provocou forte emoção para ambos, compositor e intérprete. Alguns dias antes do falecimento, Luca Vitali (1940-2013) acabava seu último quadro da ‘Série Cosmique’, acrílico sobre tela, que ele denomina ‘Outono Cósmico’ e dedica a François Servenière, que escreveria composição in memoriam do pintor. O magnífico conjunto de sete ‘Études Cosmiques’, com ‘Outono Cósmico’, deve enriquecer doravante o grande repertório dos Estudos de Concerto para piano.

Clique para ouvir o primeiro Estudo Cósmico de François Servenière, Borboletas de Luz

Eurico Carrapatoso compôs uma “Missa sem Palavras” (cinco estudos litúrgicos). A obra, polifônica e plena de domínio escritural, encanta pela beleza de suas linhas e oferece ao intérprete a possibilidade de uma visita ao de profundis da sensibilidade. Carrapatoso nos conduz à senda que leva à descoberta de um devir pleno de paz. Revela: “Na ‘Missa sem Palavras’ o conceito de estudo está longe da asserção convencional da palavra, tão frequentemente associada à expansão do termo, tantas vezes associada à extroversão do elemento virtuosístico ou à exploração de determinados domínios técnicos de um dado instrumento. Trata-se, antes, de uma viagem pelo mundo interior, introspectiva, ao sabor das inflexões produzidas pela leitura de um texto expresso na partitura. Este texto sacro refulge no fragor bronzino do latim. Escrito na partitura, faz dela parte intrínseca. Mas não será verbalizado, no sopro da voz. Está lá para dele ser feita uma leitura íntima, secreta. O intérprete cantará os mistérios do texto canônico através dos seus dedos e não da sua voz. Os dedos serão como os de Pepino, o Breve, rei dos franceses: taumatúrgicos, operando prodígios pelo toque. Penso, por isso, que estão reunidas as condições para se lhe poder chamar ‘Estudos’, não tanto pelo desafio técnico, que sempre esteve, aliás, muito longe de ser a minha intenção, mas pelo desafio místico, dado todo o universo metalinguístico que lhe subjaz”.

Clique para ouvir Gloria da Missa sem palavras de Eurico Carrapatoso

O compositor Gheorghi Arnaoudov é um dos mais importantes da Bulgária. Sua linguagem, livre de uma estética, traça um percurso criativo pleno de originalidade. É evidente em sua música a busca de um som puro que se propaga em ressonâncias refinadas, mercê de todo um cuidado com a pedalização, a possibilitar a permanência sonora até a extinção completa. Após recital em Sofia no ano de 1996, convidei Arnaoudov para enriquecer a coletânea de Estudos. O magnífico “Et Iterum Venturus (Ele voltará na glória), título que faz alusão ao Credo da liturgia cristã, explora os timbres do piano e a dinâmica em seus limites extremos. Estudo que valoriza os longos silêncios nascidos após a extinção absoluta das sonoridades e a preceder a continuação do discurso musical. A riqueza de “Et Iterum Venturus” está construída paradoxalmente a partir de motivos aparentemente simples que se transformam, baseados sobre fundamentais  onde preponderam o  intervalo de quinta e também sua inversão, consubstanciando papel relevante para essa viagem do ppp ao fff, pois “Ele voltará na glória”.

O “Étude V Die Reihe-Courante”, do compositor português Jorge Peixinho, foi composto três anos antes de sua morte. Era bom pianista e tocava com facilidade o repertório português de seu tempo. Nós dois realizamos uma turnê pelo Brasil em 1994, apresentando unicamente repertório português. Segundo o compositor, herdeiro de tantos processos de linguagem que ele captou durante sua estada em Darmstadt, sua música segue caminho natural. Cada obra tem ligações de parentesco com criações anteriores e, por consequência, com as que deverão ser compostas. O ‘Étude V’ apresenta uma série de fórmulas familiares na produção de Peixinho. Diria que todo um acervo técnico-pianístico, apreendido do repertório de três séculos, sofre metamorfoses. Sabe-se a origem dos procedimentos, mas estes sofrem processos de recriação. Sob aspecto outro, a presença soberana da série (Die Reihe), razão primordial da obra, apreende a concepção advinda de Arnold Schoenberg (série-tema), como a de Anton Webern (princípio estrutural). Observa o compositor: “Não se trata de uma obra serial! O ‘Étude V pretende ser uma reflexão sobre o profundo significado histórico e mítico da série, a série reificada e simbólica; uma visão crítica de seus pressupostos teóricos e filosóficos e, ao mesmo tempo, uma homenagem (comovida) ao seu papel histórico propulsor da modernidade neste vertiginoso caminhar da música no século XX”.

O conjunto de Estudos do presente CD é de riqueza singular, pois composto por grandes compositores contemporâneos que apresentam distintas propostas, mas os quatro igualmente pensadores da música. A escolha do repertório foi, portanto, intencional, o mais premeditado dos quatro CDs de Estudos que gravei anteriormente. O gênero Estudo deverá ainda, durante decênios, surpreender compositores, intérpretes e também o público. O piano agradece essas obras desafiadoras, nesse gênero propenso tantas vezes à aventura musical em seus limites extremos de execução.

This post addresses the launching of my new album “Éthers de l’Infiniti”(France, ESOLEM, 2017) on 27 April in Gent, Belgium, with works by four outstanding composers: the Bulgarian Gheorghi Arnaoudov (1947- ), the Portuguese Eurico Carrapatoso (1962- ) and his compatriot Jorge Peixinho (1940-1995) and the French François Servenière (1961- ). It is a singular set of Etudes, since it consists of great contemporary composers with different proposals, but all of them music researchers. The choice of repertoire was thus intentional. The piano appreciates such challenging contributions to a genre prone – at its extreme limits – to musical adventures that just reveal a void of ideas.