Navegando Posts em Música

Recepção em Portugal nos tempos dos LPs

Le progrès en art ne consiste à l’étendre ses limites,
mais à les mieux connaître.
Georges Braque

Há tempos não apresentava Ecos, manifestações de interesse dos leitores que acompanham meus blogs. Dois comentários vindos de Portugal, escritos por amigos que não se conhecem, mas que, por incrível coincidência, abordam precisamente o contato auditivo com a interpretação de Guiomar Novaes através dos antigos LPs, fazem com que prazerosamente divulgue essas mensagens plenas de um “sabor” muito especial, nessa rememoração de tantas décadas passadas. Três outras mensagens paulistanas transmito ao leitor.

António Meneres é arquiteto e tem entre seus méritos pesquisas e divulgação no âmbito do patrimônio arquitetônico. Escreve:

“O texto que tive a ‘honra’ de receber trouxe-me à memória um antigo LP que eu muitas vezes ouvi na casa da Quinta do Romeu, fundada por meu bisavô Clemente Menéres que, com 16 anos, embarcou para o Rio de Janeiro, onde um velho parente tinha o seu negócio de ‘secos e molhados’…, expressão brasileira que aqui ninguém conhece…, e aos 17 casou-se com a filha, sua prima.

De regresso a Portugal, começou a comprar cortiça em Trás-os-Montes e lá, próximo a Mirandela, mandou construir uma bela casa que, infelizmente, sofreu um enorme incêndio e ficou em cinzas, isto em 1944… tinha eu 14 anos.

Foi construída no local outra moradia, que ainda visito, embora muito raramente.

Mas, nos anos 50, um meu tio avô, seu filho, procurava os meus conselhos de jovem arquitecto para mandar fazer melhorias nas casas dos empregados desta grande propriedade (ele, meu bisavô, foi adquirindo parcelas com sobreiros, durante a sua longa vida) e ainda hoje é a maior propriedade em Trás-os-Montes, embora extremamente fragmentada.

Mas vamos ao assunto: – quando eu regressava a casa, depois de um dia passado em cima do jeep nas aldeias próximas onde residiam alguns dos empregados, tomava o meu duche e ia para a sala, ligava o gira-discos e colocava um LP, julgo da His Master’s Voice, com o concerto para piano e orquestra nº 20 de Mozart interpretado justamente por Guiomar Novaes (quase me apetecia roubá-lo para o ouvir mais vezes no Porto, mas, como desde pequeno ouvia minha mãe dizer que era muito feio fazer isso, sempre procurei seguir esse bom conselho).

Era, de facto, o disco que sempre escolhia….eu, que não distingo um Dó de um Ré, ficava sempre deliciado, logo de início, com aquela introdução espantosa e quando o piano aparece, então eu entrava num outro mundo.

Não me sei explicar de outro modo…..sei que gostava de levar para o outro mundo este concerto, a par dos quartetos de Beethoven, um conjunto que sempre me faz pensar que só um génio pode organizar na sua mente (em especial os últimos),….o que nunca pode ouvir como nós, felizes mortais.

Pois do nº 20 tenho um LP interpretado por Svjatoslav Richter e mais recentemente em CD com a interpretação de Malcon Bilson, um pianista de que nunca tinha ouvido falar….mas julgo que deveria ter também a mensagem de Maria João Pires, gravada pela Deutsche Grammophon.

Tudo isto, repito, sem distinguir um Dó de um Ré, tal é o poder da Música dentro de mim……Como me arrependo de não ter perguntado sobre Mozart, e também sobre Schumann, ao velho Óscar da Silva, que acabou os seus dias acolhido em casa de uma sua antiga aluna e vizinha de casa de meus pais em Leça… e como eu era amigo dos filhos da senhora, sempre procurava conversar com o senhor Óscar, como sempre era tratado carinhosamente naquela casa. Óscar da Silva, aluno de Clara Schumann, disse-me que o seu exame final em Leipzig foi o também belo concerto para piano de Schumann (naturalmente, digo eu).

E, por hoje, por aqui me fico”.

Óscar da Silva (1870-1958), compositor e exímio pianista, legou uma produção onde não falta o apelo à virtuosidade. O seu idiomático técnico-pianístico estaria a atender às suas mãos, naturalmente possuidoras de grande abertura”. Em digressão a Portugal em 2009 apresentei algumas criações de Óscar da Silva.

Clique para ouvir o Concerto para piano e orquestra nº 20 em ré menor K. 466 de Mozart na interpretação de Guiomar Novaes, sob a regência de Hans Swarowsky. Gravação de 1953.

https://www.youtube.com/watch?v=TgVq3HQwWPI

Romeu Pinto da Silva, também formado em arquitetura, tendo estudado igualmente no Conservatório Nacional, teve ativa ação diretiva em várias Instituições voltadas às artes em Portugal. Chamou-me atenção o impacto simultâneo que o blog anterior causou nos dois ilustres amigos portugueses. Por sua vez, Romeu Pinto da Silva escreve:

“Fique sabendo que me emocionou muito o facto de você me ter falado da grande Guiomar de Novaes. Foi ela que, tinha eu entre 14 e 15 anos, me deu a conhecer o 4º concerto para piano e orquestra de Beethoven. Um LP de 25 cm Panthéon, que guardo religiosamente como uma autêntica relíquia e do qual  tenho cópia em CD, carinhosamente feita por mim há já muitos anos. Suponho que o meu Amigo conhece esta gravação, com a Orquestra Sinfónica de Viena dirigida pelo colossal Otto Klemperer.

O desaparecimento da Guiomar não é caso único! O que é feito do Wilhelm Backhaus e do Arhur Schnabel???

Mas…. temos agora os Trifonov’s.…..e outros quejandos…..

Estou-lhe muito grato por ter trazido até a minha ‘quarentena’ a evocação da grande Música de Guiomar Novaes”.

O arquiteto paulista Marcos Leite comenta: “Mais um belo texto e resgate da memória cultural-musical tão desprezada pelos pobres meios de comunicação. Não conheci pessoalmente Guiomar Novais nem Magdalena Tagliaferro, mas tenho com ambas ligações indiretas. Luiz Octávio, filho de Guiomar, foi amigo do meu pai, gentil e educado, recordo com pesar seu precoce e trágico desaparecimento. Quanto à Tagliaferro, minha filha foi aluna da Fundação, que infelizmente teve que encerrar suas atividades devido às dificuldades de manutenção, a despeito do empenho e dedicação da direção. Lembro ainda de gravações de ambas em discos 78 rpm originários da Casa Sotero, que era do meu avô. Situada na Rua São Bento, além de pioneira na gravação de discos, importava instrumentos musicais e partituras. Alguns anos após o falecimento do meu avô, no começo dos anos 60, a família vendeu a loja. Tempos idos…”.

Gildo Magalhães, professor titular da FFLECH, escreve: “Ótimo relembrar Guiomar Novaes! O comentário sobre o YouTube foi mordaz e certeiro!”

A professora titular aposentada da USP, Maria Stella Orsini, autora do livro mencionado no blog anterior sobre Guiomar Novaes, observa: “Que felicidade ver a sua homenagem para a nossa intérprete maior neste Dia das Mães”.

Tantas outras mensagens teceram rasgados elogios à Guiomar Novaes. Trazem esperanças.

I received many messages with comments on the previous post about the great pianist Guiomar Novaes. By coincidence, two of my Portuguese friends who do not know each other have written about the emotion felt when listening to Guiomar’s music in the distant days of long-playing records. Many other readers praised her talent with rapturous applause.  I have selected some of the messages and they are the post of this week.

 

 

 


Um fenômeno autêntico

Superb control of every pianistic resources.
New York Times

É ciência subir os Himalaias
E criar matemática sem fim
Mas é cultura vê-la poesia
E ter os Himalaias dentro em mim
Agostinho da Silva

Ao longo dos anos tenho insistido no progressivo esquecimento dos nomes mais significativos da arte do piano de antanho. A aferição mais exata se processa quando acessado o YouTube. Intérpretes precedidos de mídia espetaculosa, munidos de alta virtuosidade, causam forte impacto diante do público que se entusiasma com recordes a serem quebrados. Não obstante, tantas dessas interpretações são musicalmente questionáveis. Acresce-se a coreografia, que se estende das expressões faciais aos gestos excessivos, assim como, em determinados casos, às indumentárias chamativas, quesitos esses que alcançam acessos altíssimos, centenas de milhares ou milhões deles. A máquina mediática tem poderes ilimitados e, desde que o intérprete seja aceito nessa engrenagem, automaticamente a ascensão se dá. Se méritos existem, realidades também comprovam motivos da divulgação.

Tem-se uma quase absoluta concordância. Guiomar Novaes foi o nome maior na História da arte pianística do Brasil e uma das mais importantes intérpretes do século XX. A névoa que pouco a pouco encobre notáveis intérpretes do passado também recai sobre nossa maior pianista. Tanto isso corresponde à realidade que, exemplificando, a execução da Rapsódia húngara nº 10 de Liszt, considerada singular por músicos daqui e d’alhures, inserida no Youtube aos 20/07/2011, tem pouco mais de três mil acessos!!!

Clique para ouvir a Rapsódia húngara nº 10 de Liszt na interpretação de Guiomar Novaes:

https://www.youtube.com/watch?v=vnMyqIPk8Tc

Guiomar Novaes foi um fenômeno musical, desses que surgem após tempo incontável. Tantos prodígios ou se perdem ao longo da trajetória ou têm, proporcionalmente, equiparação com tantos outros menos dotados. No caso de Guiomar Novaes deu-se uma constante que apenas acentuaria qualidades. Quando se apresenta num concurso no Conservatório de Paris aos 14 anos de idade, a concorrer a duas vagas reservadas para candidatos estrangeiros, e 387 candidatos, a imensa maioria franceses, obtém o primeiro lugar. No júri, nada menos do que Gabriel Fauré Claude Debussy e Moritz Moskowski. Nessa tenra idade apresentou obras da maior importância do denominado grande repertório romântico: O Estudo em Mi, Paganini- Liszt, a Balada em lá bemol maior de Chopin e o Carnaval op. 9 de Schumann. Ao seu amigo e regente André Caplet, Debussy escreveria aos 25 de Novembro de 1909, já desvelando qualidades inalienáveis que marcariam a trajetória da pianista ao longo da existência: “a ironia habitual dos acontecimentos quis que a postulante artisticamente mais dotada entre todos fosse uma brasileira de 13 anos. Ela não é bonita, mas tem os olhos ‘ébrios de música’ e esse poder de se isolar de qualquer presença, qualidade característica tão rara do artista”.

Ao longo desses 13 anos de blogs ininterruptos não poucas vezes comento a respeito da criança prodígio, a grande maioria estiolando-se tão logo o avanço da juventude evidencia que parte substancial da interpretação do prodígio advém da instrução do professor. A observação de Debussy seria amplamente referendada durante a longeva atividade pianística de Guiomar Novaes, que, nos seus 14 anos de fato, já apresentava relação intrínseca com a música, a torná-la uma das grandes referências na interpretação dos postulados da música romântica.

Estou a me lembrar de visitas de Guiomar Novaes à casa de meus pais e de termos tocado para a ilustre pianista. Estando a estudar o Carnaval de Viena op. 26 de Schumann, fui visitá-la em sua morada e, após a execução, ouvi conselho cuja veracidade os anos apenas ratificaram. Disse-me Guiomar Novaes que o tempo traz a reflexão e que o virtuosismo é sublimado. Afirmou que havia poucos anos compreendera o real significado do famoso Carnaval op. 9 de Schumann – obra que executara ainda adolescente no concurso mencionado.

O sábio conselho vem ao encontro de suas interpretações. Ouvindo-se algumas gravações da pianista de uma mesma obra em épocas diversas observam-se approaches outros em segmentos determinados. Existe sim uma linha mestra em suas execuções, mas com flexibilizações da frase musical mais “elásticas” que o longo convívio com seu repertório provocaria. Sob outra égide, Guiomar Novaes não foi uma intelectual no sentido estrito, como Ferrucio Busoni, Alfred Cortot, Arthur Schnabel e alguns poucos mais. O conteúdo de uma partitura é observado com acuidade, mas há sempre um sentido intuitivo em suas interpretações, dir-se-ia ser o teclado a extensão de seu de profundis, sem mais.

Diferentemente de Marguerite Long, Marcelle Meyer e outras mais que penetraram o repertório de seu tempo, Guiomar Novaes singrou os mares românticos por excelência. Gravaria dois Concertos para piano e orquestra (9 e 20) e três Sonatas de Mozart; os Concertos nº 4 e 5, assim como cinco Sonatas de Beethoven e diversas obras de Liszt e de Brahms. Todavia, preferencialmente Chopin e Schumann frequentaram seu vasto repertório romântico, do primeiro gravando os dois Concertos para piano e orquestra, e as integrais dos Estudos, Valsas, Noturnos, Prelúdios e mais obras, e do segundo, o Concerto para piano e orquestra, Papillons op. 2, Carnaval op. 9, Fantasiestücke op. 12, Estudos Sinfônicos op. 13, Cenas Infantis op. 15 e outras criações mais. Pertencente a um outro universo estilístico, gravaria de Debussy o primeiro livro de Préludes.

Mais de quarenta compositores integram a lista das gravações de Guiomar Novaes, a maioria representada por peças de curta dimensão, sendo uma das exceções a Grande Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro de Gottschalk, com vários registros seus. Criações de compositores brasileiros, entre os quais Henrique Oswald, Villa-Lobos, Francisco Mignone e Camargo Guarnieri, são contempladas em suas gravações.

Clique para ouvir, na interpretação de Guiomar Novaes, melodia de Orfeu e Eurídice de Gluck, na transcrição de Sgambati. A inspirada criação de Gluck tornar-se-ia uma das peças mais frequentadas por Guiomar Novaes em seus recitais como música extraprograma, o denominado encore. Postado aos 02/12/2010: 94.390 acessos:

https://www.youtube.com/watch?v=io-7CqUkuPI

A professora Maria Stella Orsini escreveu livro, adaptação de sua tese de livre-docência defendida em 1988 na USP, sob o título “Guiomar Novaes – uma vida, uma obra”. Na Universidade de São Paulo lecionou na graduação e pós-graduação da ECA. Publicado em 1992, “Guiomar – uma arrebatadora história de amor” (São Paulo, Companhia Ilimitada), apesar do texto bem adjetivado, tem interesse significativo pela documentação iconográfica, composta por fotografias, tantas delas inéditas, assim como pela vasta reprodução de críticas relevantes publicadas nos principais jornais das cidades onde Novaes se apresentou, mormente nos Estados Unidos, país em que teve consagração absoluta. Cartas e depoimentos integram o referido livro.

Ficaria a sugestão ao prezado leitor para ouvir as gravações inseridas no YouTube e certamente em outros aplicativos. Creio que o esquecimento que se está a processar, sobretudo em nosso país, onde o passado arquitetural foi destruído – a ter como exemplo São Paulo -, figuras ilustres também são descartadas. Tristemente olvida-se o que ocorreu culturalmente em nossas plagas, mercê dessa descontrolada ascensão do temporário idiotizado, imediatamente substituído por efêmero ainda mais vulgar. Estou a me lembrar de aluno que ingressou na USP nos anos 1980 para estudar música. Após ter sido aprovado, com ele conversei, pois estudaria piano. Falei-lhe de Guiomar Novaes. Jamais ouvira seu nome. Ao mencionar Magdalena Tagliaferro, outra notável pianista, desconhecia igualmente o que fizera, mas sabia de uma escola de piano com esse nome. Sinais dos tempos. Pouco a fazer.

Clique para ouvir a Mazurka em lá menor op. 17 n 4 de Chopin. Gravação, 1954. Postado em 30/08/2012: 1.810 acessos!!!

https://www.youtube.com/watch?v=ZLWY3ybrrHQ

Guiomar Novaes (1894-1979) is undoubtedly the greatest name in the history of Brazilian piano playing and widely considered one of the greatest pianists of the 20th century. A child prodigy that fulfilled early promises in adulthood, at 13 she took first place among 387 candidates in the entrance examination to the Paris Conservatory, with a jury composed by Debussy, Fauré and Moritz Moszkowski. Debussy was so impressed that he wrote a letter to his friend and conductor André Caplet reporting his amazement with Guiomar’s talent. She made a long and successful international career, notably in the United States. With a very large repertoire she has recorded more than 40 composers , Guiomar was particularly renowned for her interpretation of Chopin and Schumann. The musical score is studied with accuracy, but there is always something intuitive an elusive in her performances, as if the keyboard were an extension of her body. Despite her high-flying career, Guiomar Novaes is little remembered today, as proved by the number of accesses to her videos on YouTube, while some definitely junk videos may get thousands of hits daily. A sign of the times…

 


Suas lembranças tardias de três compositores fundamentais

C’est la musique souveraine
qui nous fait entrevoir les vrais dimensions de l’homme.
Georges Duhamel (1884-1966)

Após comentários resumidos no blog anterior sobre a notável pianista Marguerite Long ao longo de sua carreira de intérprete, no que concerne a colaboração da artista não apenas como intérprete essencial dos maiores compositores do período como na divulgação de suas obras, abordarei sua contribuição literária.

Tardiamente Marguerite Long legaria suas recordações do convívio musical e amistoso com três dos principais compositores franceses desde a segunda metade do século XIX: Gabriel Fauré (1845-1924), Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937). Seria possível entender que, após tantas décadas passadas, a memória privilegiada de Mme Long pudesse, por vezes, fantasiar alguns episódios. Um eminente musicólogo francês apontou-me determinadas alterações na narrativa da pianista que, sem falsear a essência essencial do pensamento, teriam sido inseridas com o propósito de evitar a aridez do texto. Assim sendo, a escrita tem sempre um caráter agradável, até em segmentos que denotariam a presença de situações conflitantes. Poder-se-ia acrescentar que essas “alterações” ficariam mais evidentes nos diálogos travados entre a pianista e interlocutores. Sob aspas, muitas décadas após, o instante do acontecido pode ter sido “romanceado”, sem contudo  modificar o essencial.

Primeiramente debruça-se sobre Claude Debussy (“Au Piano avec Claude Debussy”, Paris, René Julliard, 1960). Desfilam em suas páginas, quantidade de testemunhos de músicos relevantes, sendo que se pormenoriza nos encontros com Debussy no segundo semestre de 1917, poucos meses antes da morte do compositor, aos 25 de Março de 1918. Debussy se encontrava em Saint-Jean-de-Luz, no “chalet Habas”, já em pleno declínio físico. Para a cidade se locomoveram três pianistas célebres: Ricardo Viñez, Joaquin Nin e Marguerite Long. Debussy escreve ao seu editor Jacques Durand em Setembro: “… entretanto, tenho a chance de estar num lugar distante onde não os ouço”. O eminente François Lesure comenta: “Lendo-se ‘Au piano avec Debussy’, de Marguerite Long, tem-se a impressão de que, durante sua estadia no chalet Habas, Debussy se ocupou prioritariamente em trabalhar com ela. Nas 169 páginas de seu livro insere tantos outros testemunhos entre as raras sessões que o músico lhe dispensou” (Claude Debussy. France, Klincksieck, 1994). Seria possível entender que décadas acumuladas tenham superdimensionado esses encontros, que na realidade existiram, mas não na dimensão apregoada, e dos quais Mme Long extrairia certamente dados preciosos que sedimentaram suas interpretações das criações de Debussy. Acredito que a contribuição maior de “Au piano avec Claude Debussy” decorra das observações interpretativas da autora sobre obras fundamentais do compositor.

Anteriormente a Debussy, Marguerite Long entrara em contato com a criação de Gabriel Fauré sem ao menos tocar até 1902 qualquer de suas composições. Revelado, Fauré e a admiração pela sua obra permanecerão por toda a existência. Como relata em seu livro, foi um dos mestres franceses do período, Antonin Marmontel, que a fez entrar em contato com as criações de Fauré e, no primeiro encontro com o compositor, interpreta a 3ª Valse-Caprice. Comenta: “Toquei a 3ª Valse-Caprice. Gabriel Fauré me escuta, atento, inquieto sem dúvida por ouvir pela primeira vez a jovem intérprete. Compreenderia ele desde o início o fervor que me animava? A alma-irmã que palpitava sob os dedos da jovem musicista? Sentiria ele que um ser, apreendendo de instinto o sentido secreto de sua música, dispunha-se a aprofundar sua obra e fazê-la ser conhecida e compreendida? Ao acabar a execução, ele parecia de tal maneira contente que  me senti recompensada e feliz”.

Em 1907, Marguerite Long estreia a Ballade de Fauré para piano e orquestra – versão da original para piano, op. 19 -, que será a obra a encerrar a bela carreira de Mme Long aos 3 de Fevereiro de 1959. Marguerite Long traça em seu livro uma síntese biográfica tardia de Fauré, de interesse para os estudiosos, certamente tendo colhido informações ao longo do convívio musical com o compositor. Relevantes os seus testemunhos sobre o círculo de amizades de Fauré. Convidada pelo músico, torna-se professora do Conservatório Nacional. Sob outro aspecto, não se furta de narrar os esforços acadêmicos, apesar de várias promessas, para que não fosse nomeada professora titular do Conservatório. Muitos anos se passaram para que enfim obtivesse o cargo. Houve desavenças com Gabriel Fauré dirimidas nos estertores da existência do compositor.

“Au piano avec Gabriel Fauré” tem capítulos preciosos nos quais a autora se debruça sobre a obra do mestre, a orientar a interpretação. Pormenoriza-se em algumas peças, exemplificando. Técnica, estilo, interpretação, memória e outros quesitos também são abordados.
Clique para ouvir o 6º Nocturne de Gabriel Fauré op.63 na interpretação de Marguerite Long:

https://www.youtube.com/watch?v=_PVNtMQ5THY

Insiro o 4º andamento da gravação histórica do Quarteto nº 2 em sol menor op. 45 de Gabriel Fauré. Os outros três instrumentistas foram luminares no período: Jacques Thibaud (violino), Maurice Vieux (viola) e Pierre Fournier (violoncelo). A gravação é plena de uma intensidade emotiva singular. Marguerite Long encerra seu comentário no libreto que acompanha o LP, lançado inicialmente em 78 rotações: “Uma palavra ainda sobre o Quarteto em sol menor. Foi ele gravado no dia 10 de Junho de 1940. Pela manhã, os alemães invadiram a Holanda. Partimos para o estúdio angustiados. Sentia a plena aflição de Thibaud: seu filho Roger combatia na linha de frente. Durante a gravação nossa emoção estava no limite e creio que essa gravação oferece uma imagem fiel. Na manhã seguinte Roger Thibaud morria heroicamente”.

Clique para ouvir o quarto andamento do Quarteto em sol menor op. 45Allegro molto,  de Gabriel Fauré

https://www.youtube.com/watch?v=B9X7ms040Tk

“Au piano avec Maurice Ravel” (Paris, Julliard, 1971) encerra o tríptico consagrado aos três maiores compositores franceses desde meados do século XIX, que se juntam ao extraordinário Camile Saint-Saëns, músico que Marguerite Long conheceu bem, interpretando suas obras, mas que não teve uma relação tão próxima como a estabelecida com Fauré, Debussy e Ravel. Tem-se, nessa homenagem a Ravel, a imensa colaboração do Professor Laumonier, que, admirador confesso do compositor, após a morte da pianista e sabedor de seu grande interesse em completar o tríplice tributo, recolheu os textos já escritos por Mme Long e terminou o livro, não sem a colaboração de músicos e aficionados pelo compositor e pela intérprete. O livro tem interesse. Há vários episódios pormenorizados e conhecidos, mas considere-se a apreciação das principais obras para piano do compositor a servir de orientação aos intérpretes.

Ao escrever “Le Piano” (Paris, Salabert, 1959), Marguerite Long lega aos estudantes, professores e pianistas uma obra de síntese. Conhecedora de basicamente todos os métodos relativos à técnica pianística, a autora não apenas apresenta exercícios novos, como realiza uma súmula de procedimentos de tantos que se dedicaram ao mister:  Charles-Louis Hanon, Louis Benoit, Beringer e outros mais. Nesse “resumo”, em poucas páginas, métodos precedentes, alguns caudalosos, são reduzidos a formulações práticas. No longo e substancioso prefácio, escreve: “Essas páginas destinam-se em princípio aos pianistas já com certo desenvolvimento ou mesmo àqueles que buscam a alta virtuosidade. Que estes não se sintam indignos de seus talentos diante dos conselhos por vezes elementares que se seguem”. Uma outra frase relevante: “O estudo de piano necessita longos esforços. Todavia, esses não consistem em lutar contra a natureza. Uma mão normal é feita para tocar piano e todo pianista que não compartilha dessa convicção é indigno de sua arte”. Tem-se pois uma “enciclopédia” de exercícios a facilitar o aprendizado, bem mais prático do que o realizado por Alfred Cortot, “Principes Rationelles de la Técnique Pianistique”, método de grande mérito, mas complexo. Marguerite Long perpassa em “Le Piano” parte essencial da técnica pianística tradicional.

Relembrar os grandes mestres do passado é imperativo. Foram eles que legaram aos pósteros as diretrizes da arte do piano. Cultuá-los enriquece nosso conhecimento musical. Saber as origens.

In this post I comment on books written by the outstanding French pianist Marguerite Long. Later in life, after her working and personal association with three of the great French composers of all times, she wrote “At the piano with Debussy”, “At the piano with Fauré” and “At the piano with Ravel”, books of reminiscences with musical examples to discuss the interpretation of their works. She also wrote “Le Piano”, an exercise book with a synthesis of techniques sampled from many sources, along with new exercises by the author herself, a master of the French style piano playing.