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Dois momentos de Willy Corrêa de Oliveira

Pés acostumados a andar
Não podem parar.
Adágio Popular Açoriano
(Ilha do Pico)

Em blogs recentes sobre o livro “Passagens”, de Willy Corrêa de Oliveira, observei que décadas compartilhando o mesmo Departamento da USP não foram suficientes para uma aproximação efetiva. Sim, tivemos um relacionamento de colegas, mormente em torno de uma gravação que realizei em 1989 no Rio de Janeiro para LP integralmente dedicado ao compositor. Acompanhou-me durante os registros fonográficos, mas a gravação não vingou, mercê da desvairada atitude do Presidente Collor de Mello, que desativaria parte da estrutura da FUNARTE.

O reencontro recente, mais do que uma simples “passagem”, estreitou vínculos que desconhecíamos. Temos nos encontrado com frequência e temas retesados durante decênios emergem. Gravações históricas, literatura, arte… Não poderia imaginar que esse estreitamento fosse possível e tem sido singularmente benéfico para ambos. Nessa decadência progressiva da cultura erudita como um todo e da musical em particular, esses longos encontros têm sido extremamente prazerosos.

Transmitirei ao leitor dois curtos textos de Willy: o primeiro, uma  pitoresca narrativa da visita com sua esposa Marta à ponte levadiça de Langlois, em Arles, França, que mereceu cerca de dez obras pintadas por Van Gogh em 1888. O texto dedicado a Marta data de 2018:

“O trem para Arles teria um pequeno retardo, por problemas técnicos, dizia o alto-falante da estação. Aguardamos, com o tempo nublado, a espera ardente. Em Arles, já descemos com o céu azul estático da Provença inspirando uma caminhada de alguns quilômetros até à Pont de L’Anglois, com vento ao rosto, ao longo da margem do canal, margeado, do lado direito, por carroças e trailers de ciganos, a Marta aflita: o ermo nos envolvia, e a passos largos, vencendo o trajeto, sem viva alma outra, nem ciganos à vista, só o vento mais tenso, um pesadelo a que, a custo, ela sobrevivia, célere; enfim, próximos à ponte, divisamos turistas cobrindo-se o rosto com suas máquinas fotográficas, e ela acalmou-se como se emersa de um mau sonho, o contentamento pela aura suave, a ponte bem a passos adiante. Chegamos a um atril, gentes em torno, exibia uma cópia do quadro do Rijiksmuseum (de Otterlo), ali onde – exatamente – ele se encontrava, Van Gogh, quando a eternizou.

Solavanco na alma me estremeceu – a ponto de quase cair. O coração espoucando febril eu ia e vinha ao atril e via a ponte, sua ossaria no ar – o azul por trás – azul. Lance de pura exaltação, impetuoso delírio, precipitações. E voltava até à ponte e tornava ao atril e completava o quadro – visionária vertigem – auspiciando as lavadeiras, o torvelinho de água. Vivi Van Gogh, a ponte mais viva em mim, ali, de que naquela manhã em que ele transpirara.

Por insistência da Marta, retornamos a pé, pelo mesmo caminho, ela tranquila trazendo sua ponte (bem no coração) e ritardando a tarde um quanto que, ao anoitecer, pudéssemos chegar ao Grand Café du Forum com a luz mais pactuada com a do ‘Café, le soir’. A realidade como um sonho de cristal.

De volta a Aubagne, noite andada, a insônia completou o dia de Arles. Mais não escrevo aqui por inútil, não diria da vigília brava, da exaltação alucinada, extravasada, extravagada. Dias passados, encontrei num sebo o volume ‘La Provence de Van Gogh’, de Jean Paul Clebat e Pierre Richard. Mencionavam que a ponte de L’Anglois não era a que eu havia experimentado. Outra tinha sido, distante, em local – hoje desfigurado – à margem da atual Grand Avenue, cerca de dois quilômetros da versão mentida pela indústria de turismo.

Nunca mais volto lá.

Envoi: Walter Benjamin, valha-nos!”.

Extraio do livro “Voragem” (São Paulo, Luzes no Asfalto, 2010) – resultado de curso de cinco palestras que Willy Corrêa de Oliveira apresentou no Departamento de História da USP – parágrafos que apreendem na essência aquilo que também penso sobre o momento cultural que vivemos. Willy, ao falar sobre a composição – no meu caso, bem similar, acrescente-se, sobre a interpretação –, revela seu estágio atual como criador e pensador, a dizer: “Escrever música, para mim, tornou-se algo semelhante a um louco que aplacasse sua loucura escrevendo cartas; como não dispõe de destinatário, não tem para quem escrever, com quem se corresponder, escreve para si mesmo. Vai ao Correio, como todo mundo que tem cartas para enviar, sela, e manda para seu próprio endereço. E aguarda. E continua a escrever outras. O fato é que meu espírito claudicava, andava com dificuldade. Mas, consciente de que buscava arte, agora, em outra clave.

Mas eu sabia que agora eu escrevia pra satisfazer… tudo isso que eu tinha vontade, sob a tensão do instante. A arte como uma muleta, a arte como uma consolação, como um meio de escapar da morte. Isso! Escrever músicas tornou-se para mim, ao mesmo tempo que um lenitivo, um diálogo de vida ou morte com a criação: com a invenção de matérias do espírito, de dar forma a uma ideia, de dar a uma estrutura sua substância apropriada. E também, o fato de não encontrar na música de meu tempo uma satisfação contundente, conclusiva, como teria acontecido se eu tivesse nascido no século XIX, e conhecido Chopin… Acho que a música que ele fez teria me bastado. De verdade. Hoje, no auge do capitalismo (e por causa disso, da inexistência de uma linguagem musical e erudita comum, falada por todo mundo), tudo o que eu ouço não responde às indagações e necessidades que reclamo e necessito da arte”.

O notável poeta e escritor português Guerra Junqueiro (1850-1923) já observava: “Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, pêras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim”. Continua: “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe, veem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for sendo a distância, mais imperceptíveis se irão tornando”.

A irreversibilidade da queda cultural, a ser sentida abertamente, como exemplos claros, nas revistas, na TV aberta e nos provedores internéticos, que apresentam sempre em maior destaque a futilidade extrema das famigeradas “celebridades”, em detrimento de temas infinitamente mais relevantes, ratifica o que há de mais desprezível no homem. A morte de um dos maiores pianistas brasileiros, Fernando Lopes (1935-2019), ocorrida aos oito de Março, não mereceu uma coluna nos portais mais divulgados. Ignorância dos articulistas, mentalidade dos mandantes, resultado de estruturas há décadas falidas. Há que se lamentar. Fernando Lopes será tema do próximo blog.

Today I publish excerpts from writings by composer Willy Correa de Oliveira. In the first, he tells us of his disappointment after finding out he had been fooled by the French tourism industry in Arles; in the second passage, extracted from his book “Voragens”, the author talks about his visceral need to compose and his frustration with the classical music language of today, unable to provide an appropriate response for his perplexities and anxieties, something he believes wouldn’t happen had he lived, for example, in Chopin’s time.

 

 

 




O estilo sob a ótica de André Souris

Jamais senti tanto entusiasmo ao trabalhar…
Ainda tenho muito a dizer!
Há tantas coisas musicais que jamais foram realizadas…
Claude Debussy (1914)

O blog anterior não apenas suscitou comentários a apontar o conteúdo de “Conditions de la Musique” de André Souris. Solicitam-me explorar mais os temas que menciono no post precedente. Fá-lo-ei certamente ao longo do ano. O espaço a que me proponho no blog, a tangenciar várias temáticas culturais, abrigará outras captações desse instigante e abrangente livro do músico belga. Comprometi-me a escrever um novo post a prosseguir comentários, mormente os posicionamentos de André Souris sobre estilo, J.S.Bach, Mozart, Debussy e Stravinsky. Gustavo, leitor assíduo e violinista de uma igreja evangélica, sugere pormenorizar-me no estilo, tema tratado pelo autor e mencionado no blog anterior. Atendo ao seu pedido e insiro no presente o pensamento de André Souris sobre estilo, tecendo no decorrer alguns comentários.

A preceder essas colocações, transmito ao leitor a opinião do  compositor e pensador francês François Servenière sobre o post da semana que passou. Escreve:

“Interessei-me pelo artigo sobre o livro de André Souris, que acabo de comprar via internet, pois desconhecia a publicação. Lembro-me de você já ter mencionado o livro. Também li textos interessantes sobre o princípio da Gestalt. Compartilho integralmente e não de hoje esses pontos de vista sobre a forma musical, como expresso no blog anterior, pois se trata de pura abstração que encontra sua fonte primeira nos princípios da melopeia sobre a base literária. Após, a música de desprende da literatura para se tornar uma entidade inteiramente à parte.

Gostaria de imediato de transmitir-lhe constatações:

- o som e sua organização são anteriores ao pensamento organizado, eles o precedem; sem som, nenhuma comunicação;

- a música parece paradoxal no meio das outras artes;

- na literatura, pintura, escultura, arquitetura, a evolução em direção à modernidade se faz do concreto para o abstrato;

- na música construída, parte-se do abstrato (sonhos, emoções…) para direcionar-se ao concreto. Seria no século XX a eclosão da música concreta, barulhos, imitações de barulhos múltiplos…

Nossa época pareceria destinada a uma redefinição geral. Os seres vivos são confrontados com esses maelstrons acima de nossas possibilidades e nós não somos senão que fúteis atores, átomos mergulhados na imensidade do universo e de suas forças dantescas. Não somos que transmissores dessa força que é a vida, passageiros. A música, a mais bela expressão dessa energia universal. Estou persuadido de que lerei o livro de André Souris com entusiasmo”.

A respeito do estilo, Souris considera que na visão do compositor que cria, ele é autor e observador. Estilos se consolidam através de tantas outras escutas anteriores. Escreve: “É a partir de uma música já existente que o músico descobre sua natureza e seu primeiro movimento é o de, por sua vez, falar essa linguagem. Daí serem pastiches suas criações iniciais. Sua primeira linguagem lhe é dada, sendo aquela de sua época e de seu local de origem. Sua mentalidade musical é determinada pelas formas de um estilo. Surge num estilo assim como se nasce francês ou chinês. Na Idade Média o que incitou a escrever música não foi inicialmente a louvação a Deus, mas sim as melodias gregorianas; na Renascença, não foi o fausto das cortes, mas as combinações do contraponto; no Romantismo não teria sido a contemplação da natureza, mas inicialmente os processos da harmonia e da orquestra. A primeira preocupação do músico é a de mergulhar no mundo das formas sonoras que o cercam e, no momento que conhece seu destino como criatura, confundir-se no anonimato do estilo de sua época.  Se num futuro quiser falar a sua própria língua, poderá fazê-lo a partir dos elementos que constituem a linguagem de seus contemporâneos. O estilo de uma época é pois para o músico, como aliás para o artista em geral, a fonte principal da sua criação e não é senão no interior desse estilo que lhe será possível sentir a liberdade. Na realidade, essa liberdade é relativa, e os caracteres particulares de cada autor param nos caracteres gerais de um estilo existente”. As considerações de André Souris nessa temática implicam o entendimento de uma criação cujo estilo pertence a uma época e não a outra determinada, num amplo leque. Em muitos blogs anteriores considerei que, independentemente do estilo de um período, o compositor de talento imprime à sua criação suas impressões digitais. Tem-se pois o estilo individual, que pode navegar em tendências várias. Por vezes o idiomático escritural de um compositor (ferramental) pode evidenciar outra categoria de estilo. Em publicação de 1977 eu citava o exemplo do compositor russo Alexandre Scriabine, que não pode ser reconhecido como mesmo autor em suas obras extremas da existência devido a uma extraordinária evolução na linguagem musical, mas sim detectado através de procedimentos técnico-pianísticos, como a quase absoluta ausência da passagem do polegar – em quase toda a produção – ou ainda a presença – esta sim progressiva – dos motivos neurótico-obsessivos. A ausência dessas “impressões digitais” estilísticas sinaliza na direção de obra amorfa. A não “evolução” na escrita teria um dado positivo, segundo Souris, pois “tendo o compositor iniciado sua trajetória se servindo de pastiche de determinado estilo, pode ocorrer que continue assim procedendo até o fim de seus dias. Esse segmento é majoritário e, paradoxalmente, determinante para que estilos se fixem por longos períodos”. Considera que mesmo compositores como J.S.Bach e Mozart, que “começaram por imitar determinado estilo, compuseram seguindo esse estilo de maneira automática para a transmissão de seus pensamentos mais naturais”. André Souris entende que há “incitação particular que o compositor descobre no interior de um estilo. São os pretextos fornecidos pelos artifícios da técnica”. O compositor estuda-a, convive com as tendências vigentes, aprende o “ferramental”, mas, a existir  talento, a marca inalienável da individualidade estará presente. Bastam poucos compassos para que um músico entenda que determinada  composição foi criada por Schubert, Schumann, Chopin, Liszt, Wagner, Tchaikowsky, Debussy, Fauré, como alguns dos inúmeros exemplos significativos.

As numerosas tendências hodiernas tirariam de foco a detectação do estilo, mormente pelo fato de que elas são tantas vezes efêmeras. Contudo, ainda causam impacto a constatação dos estilos musicais do passado e as “adaptações” dos compositores frente às épocas em que atuaram. Uns poucos deram passos adiante e novos estilos surgiram. Conhecer o estilo de um criador é um dos prazeres da arte musical.

Resuming the subject of last week’s post — André Souris’ book “Conditions de la Musique” — this post addresses the author’s thoughts about music style. For him, the style of a given time is an artist’s main source of creation and only within this style he can develop an artistic language of his own.

 


O pensamento abrangente de André Souris

Uma forma sempre é conquistada
sobre outra forma da qual ela aparenta manter traços.
Nem precocidade, tampouco o gênio
permitem retomar diretamente a vida:
ser precoce é somente copiar mais cedo.
André Malraux

Uma das diferenças basilares entre blog privado e as publicações mediáticas é o tempo. Basicamente jornais e revistas, premidos pelo imediatismo decorrente de um lançamento de livro previamente divulgado pelos meios de comunicação, concentram resenhas, tantas vezes redigidas às pressas, sobre edições recentes. Quando determinado livro de passado remoto ou não tão distante recebe o olhar acalentado pelo passar dos anos, poderíamos situar a crítica como comentário. Desvinculada de pressões, o comentário de livro não hodierno tende a receber maior debruçamento por motivos vários, a preponderar o tempo de decantação daquele que se propôs a escrever.

Ao longo dos anos, inúmeras vezes mencionei no espaço reservado ao blog o livro “Conditions de la Musique” (Bruxelles-Paris, Université de Bruxelles, Centre National de la Recherche Scientifique, 1976), do multifacetado músico belga André Souris (1899-1970), compositor, regente, professor, crítico, editor de obras antigas. Um grande mestre. Desde sua publicação, “Conditions de la Musique” é um dos livros que mais consulto, tão forte o conteúdo reflexivo emanado em tantos compartimentos da imensidão que é a Música. No presente blog abordarei alguns aspectos dessa magnífica obra.

“Conditions de la Musique” desfila em suas 311 páginas temas essenciais da área musical. Tem-se duas seções distintas. Em uma primeira, que leva o título do compêndio e dividida em três capítulos, são estudados primeiramente segmentos essenciais da escrita musical: forma, música e escrita, a função do intérprete. Em outro capítulo: o silêncio e a música, contraponto, polifonia e harmonia, matérias instrumentais. Num terceiro, André Souris estuda as fontes da criação musical: estilo, timbre e técnicas instrumentais, as correspondências (a concepção do mundo), abordagens espirituais do músico. Na segunda seção, “Escolhas e outros escritos”, André Souris analisará com acuidade temas relativos a gêneros musicais, música e filme, literatura. Destaquem-se: “Imitação da música de cinema”, “Sartre e os músicos”, “Sobre o dodecafonismo das origens aos nossos dias”, “As fontes sensíveis da música serial”. A seguir, aborda textos fulcrais com títulos precisos: “Bach, hoje”, “O espaço mozartiano”, “Debussy e a nova concepção do timbre”, “Poética musical de Debussy”, “Debussy e Stravinsky” e “O senso do sagrado na música de Stravinsky”.  Depois, Souris retorna, sobre outra égide, aos elementos da escrita musical, como: “Notas sobre o ritmo concreto”, “Sobre alguns termos fundamentais do vocabulário musical…”, “Problemas da análise”, “Alaúde e cravo franceses por volta de 1650”.

A fim de transmitir conceitos essenciais de André Souris, de alguns desses segmentos extraí passagens que entendo de definição, pois o autor em suas colocações evita o abominável “achismo”, perigoso artifício que sensibiliza os incautos. Os escritos têm a antecedê-los a profunda reflexão.

Inicialmente vários segmentos reunidos fazem parte de seminários oferecidos e o didatismo parece evidente, mesmo que desprovido de qualquer empáfia ou doutrinação, o que é salutar. Considera que “O espírito de nossa empreitada será pois deliberadamente atual, documental e crítico. Quanto ao método, ele se inspirará na maiêutica, de maneira a deixar a cada um a liberdade de seus movimentos e talvez ajudando-o a descobrir possibilidades insuspeitas”.

Considerando a forma musical, André Souris emite conceitos de interesse: “Uma nota, uma cor, uma linha isolada são apenas abstrações. A única realidade é a ‘Gestalt’. Poderíamos traduzir aproximadamente esse termo por estrutura, organização, totalidade, mas o emprego sistemático da palavra nestes últimos vinte anos fez com que a entendêssemos sob o significado vago de forma”. Continua: “As formas são unidades orgânicas individualizadas e limitadas no espaço e no tempo; são totalidades de funções, determinadas somente pelas leis da organização. O papel essencial da teoria da forma é a de descobrir e formular essas leis”.

No capítulo reservado à “La Musique et l’Écriture”, Souris apreende a sensação da escuta do compositor ao ouvir pela primeira vez uma sua criação: “Não receio revelar um segredo, geralmente bem guardado! O autor que ouve pela primeira vez sua música de orquestra mergulha num cenário outro. Ele havia imaginado os temas, as nuances, as harmonias, os movimentos dos quais ele se considerava o mestre e criador, e eis que ele ouve outra coisa daquilo previsto. Escuta uma música que, exatamente, não é dele. Fato curioso, raramente ele sofre. Sua única preocupação é a seguir encontrar os traços de seu trabalho de escrita, reconhecer os temas, esquemas, ritmos. Uma vez certo de ter reconhecido esses materiais, não lhe resta outra coisa senão aceitá-los – e por vezes glorificar-se diante de seus confrades”.

Sobre a prevalência do piano: “Quanto à composição, ela se reduz mais e mais no emprego de receita de escrituras. A invenção real não poderia eclodir que sobre um instrumento. Foi a música para piano que basicamente se beneficiou e, como todos os compositores tocavam piano, toda composição foi inicialmente concebida para esse instrumento para ser a seguir, por um jogo de escrita, passada para outros instrumentos e, mesmo de maneira ampla, para orquestra”.

Quanto ao intérprete, temática tantas vezes colocada neste espaço, André Souris tem posicionamento singular. Segundo ele – consideremos o compositor seu coetâneo -, “o compositor deve ter para com o intérprete uma política de prudência, observar seus reflexos, distinguir em seu comportamento tudo que possa servi-lo e tudo que possa ser rejeitado. Em suma, deve o compositor estudar a psicologia do intérprete, se ele quiser recuperar sobre a sua composição um certo poder perdido”. Se esse procedimento não é possível em relação aos compositores do passado, ficaria o alerta para os executantes no sentido do rigor frente à partitura contemporânea.

Estende seu pensamento ao tripé compositor, intérprete e ouvinte, tema igualmente recorrente, mas com uma percepção de interesse no olhar de André Souris: “A relação entre os três é extremamente diversa, por vezes contraditória, outras, mais confusa. Para o ouvinte, compositor e intérprete fazem parte de uma só coisa, mesmo que ele acredite distingui-los. Na realidade, o ouvinte preocupa-se pouco com as intenções do autor e só tem interesse pelo que ouve, o que, reflexão feita, temos que aprovar”.

Souris pormenoriza as atitudes do intérprete: “Seu desejo de música é primeiramente de ordem íntima, estritamente limitado a si mesmo. Ele mantém com seu instrumento um comércio orgânico que lhe proporciona prazeres elementares. Fazer o som, isso provoca uma alegria sensual, como o ato de mastigar uma boa pasta, moldar a argila. O trabalho do som leva-o a um estado sonhador entorpecido o qual lhe compraz, sonho até certo ponto biológico e que retira do instrumento que faz nascer o som a qualidade substancial. Por esse ato elementar, o instrumentista se torna seu próprio instrumento”.

André Souris se indispõe com a quantidade de matérias da área musical a que o aluno é submetido no capítulo reservado às “Démarches spirituelles du musicien”: “O que me parece mais grave nos estudos musicais é que eles extenuam a sensibilidade auricular através de trabalhos forçados sobre os instrumentos. Isso ocorre porque o aprendiz virtuose produz o som durante dez horas por dia e na sequência seu estudo, ao invés de ser orientado para o som que ele produz, é inteiramente concentrado sobre os meios de o produzir. Basta abrir não importa qual obra consagrada ao piano, por exemplo, para nos inteirarmos da preocupação predominante ou mesmo excessiva dos pedagogos”.

“Conditions de la Musique” armazena quantidade de considerações da maior abrangência. No próximo blog comentarei alguns outros escritos contidos no livro de André Souris, mormente os que se estendem de J.S.Bach à música serial.

Comments on the book “Conditions de la Musique”, written by André Souris (1899-1970), the multifaceted Belgian composer, conductor, teacher and music critic. Souris, a real master in his field, addresses the various compartments of the art of  Music with proficiency and originality. In the present blog I mention some aspects of this excellent work, which I visit on a regular basis since it was first published.