Navegando Posts em Cotidiano

Corridas recentes rememoradas

Parte do treinamento de um corredor
consiste em expandir os limites da sua mente.
Kenny Moore

Não estou a me lembrar da data precisa, mas há muitos anos mencionei num post encontro com amigo que não via desde os anos 1980. Afonso é seu nome. Esse encontro deu-se entre 2008 e 2010, creio. Comunicara ao amigo meu entusiasmo pelo blog e Afonso passou a lê-lo. Não mais o vi, mas por vezes recebia suas mensagens. Após o último blog, Afonso, que mora fora do Brasil, escreveu-me a dizer que não perde o post semanal. Comentou o último, sugerindo-me escrever e postar algumas fotos das corridas. Hesitei em fazê-lo, mas finalmente traçarei algumas linhas sobre provas das quais participei ultimamente, sempre com entusiasmo.

Pressupõe-se que o participante de corridas de rua realize treinos regulares. Como diz meu amigo maratonista, Nicola, se o corpo estiver preparado, a mente levará o corredor a qualquer parte. Há fortes razões para essa assertiva e treino três vezes por semana de 8 a 10km. Certeza de que o objetivo durante a prova será alcançado e que o corpo não claudicará.

Aos companheiros de corridas que conheci nesses quase 10 anos e 155 provas das quais participei, outros foram agregados. Sempre que se dá o encontro, antes e depois das provas, é notória a alegria. Não há competição, por vezes perniciosa maneira de indispor as pessoas, mas sempre, impreterivelmente, o prazer de estar bem cedo a viver o entendimento. Essa disposição é importante, pois há metas individuais amalgamadas ao entusiasmo coletivo pelas passadas e pelo companheirismo que, naturalmente, deságuam na qualidade de vida. Desta, fala-se muito como única razão, mas ela perde o caráter essencial se não houver a precedê-la o viver “aqui e agora”. Bem escreveu minha neta Ana Clara – em Maio me tornará bisavô de Catarina -, quando completei 100 corridas de rua, ao assinalar as etapas até o momento das largadas. Da inscrição à retirada do kit, ao número de peito colocado com os alfinetes, ao chip no tênis e à ida ao local indicado para a corrida, geralmente às 7:00hs. Preparativos que começam ao despertar às 4:30hs, sempre feliz pelo que deverá ocorrer. Por volta das 5:30hs, Batoré e seu irmão Ronaldo já estão em frente à minha casa e de carro ou de ônibus vamos às muitas corridas oferecidas em São Paulo ou em municípios e cidades próximas.

A célebre frase de Guerra Junqueiro que repito sempre em meus textos, “o tempo é insubornável”, foi bem assimilada. Convivo com ela diariamente e entendo como absolutamente natural essa passagem inabalável. Como guardo todas as fotos das corridas e as cronometragens, colando-os em já vários álbuns, percebo que em dez anos os tempos tornaram-se mais preguiçosos e, mesmo sempre a correr, a “máquina” já está mais lenta. Como metáfora, estou a me lembrar de nossa infância-adolescência quando, com meus pais e irmãos, descíamos até Itararé, bem perto da ilha Porchat, onde tínhamos um apartamento. No regresso pela Estrada Velha e, posteriormente, pela via Anchieta, os carros mais velhos subiam sôfregos, mas subiam. Não é assim entre os humanos? Assistir à passagem do tempo é de extraordinária valia. Tempo inexorável, “insubornável”, mas intenso. Hoje, “ao fio dos anos e das horas” – recorrendo a uma obra para piano do grande Lopes-Graça – em algumas corridas chego a ser o mais idoso entre milhares. Contudo, como não admirar meu colega de corridas Antônio Lopes, que já participou de mais de 800 provas de rua e que no primeiro semestre estará a completar 90 anos? Nunca o vi andar, sempre a correr, um motorzinho que respeita seus limites. Exemplo!!! Em várias provas fomos medalhistas nas nossas faixas etárias.

No ano que ora finda participei pela primeira vez de duas corridas na mesma manhã. Inscrito para a Global Energy (10km no campus da USP), recebi telefonema do Consulado Geral de Portugal em São Paulo para participar da Maratona de Revezamento Pão de Açúcar. Aquiesci. Dias após, por impossibilidade por parte de três membros do Consulado, fui consultado no sentido de conseguir mais três corredores para integrarem o octeto. Elson Otake e os meus dois companheiros habituais, Batoré e Ronaldo, estes também participantes da Global Energy, fecharam o octeto. Só pedi para que fôssemos os últimos a correr, pois, após a Global Energy, ainda teria de dirigir até o Parque do Ibirapuera e, a correr, atravessar com meus amigos todo o parque, do monumento dos Bandeirantes até a outra ponta, próxima à IV Centenário, pois lá estava montada a tenda. Desta, tive de correr mais um bom km até a passagem do comprovante de pulso na Av. Moreira Guimarães e que me foi entregue por Elson Otake. De lá, mais 5,2km até nova passagem da braçadeira, desta vez ao Ronaldo. Valeu a experiência. As fotos ilustram momento das duas provas.

Participei de diversas corridas do Circuito da Longevidade Bradesco Saúde em São Paulo e em Campinas. Muito bem organizadas, têm alguns milhares de inscritos. Na prova de Outubro de 2017 ganhei medalha de participação, mochila e dois troféus: da faixa etária e… como o mais idoso.

Um dos percursos mais agradáveis é o oferecido pelo Circuito Ruas e Rios na etapa do Jardim Botânico. Nos caminhos de terra batida e asfalto percorremos trechos no Jardim Botânico e, noutros, no Jardim Zoológico. A visualização de aves exóticas nos lagos, elefantes, tigres, girafas e tantos outros animais dá a essa corrida uma menção diferenciada.

Nem todas as empresas que promovem corridas têm organização digna de registro. Mencionaria as principais Corridas basicamente impecáveis: Juventus, promovida pelo simpático clube da Moóca; Esporte Clube Pinheiros; Trigo é Saúde; Shopping União em Osasco; Circuito da Longevidade Bradesco Saúde; Bombeiros no Ipiranga; Centro Histórico; Circuito Ruas e Rios; Monte Líbano. Também vale registrar o calendário, seletivo em número de participantes, organizado por equipes como a Corre Brasil (participo assiduamente de seus treinos), Neuri Dantas e Trilopez.

As várias etapas do Circuito Athenas pela marginal do Rio Pinheiros têm interesse. Contudo, é um absurdo o preço cobrado no estacionamento, onde todas as tendas estão montadas. Prefiro chegar de ônibus. Lamentável verificar que uma das empresas renomadas de São Paulo “burla” o estatuto dos idosos, que as obriga a conceder 50% de desconto para esses corredores, estabelecendo um cálculo diferenciado para que tal redução ocorra de maneira parcial. Enfim, há sempre aqueles que buscam o lucro maior, endemia brasileira.

Espero que Afonso encontre tempo além fronteiras para praticar corridas. Trata-se realmente de uma atividade sob todos os aspectos salutar, agradável e que exige disciplina e vontade, fatores que nos conduzem à tão decantada qualidade de vida.

At a friend’s suggestion, I resume the subject of running, mentioning the benefits for body and mind; the pleasure of interacting with other runners; listing my favorite races among the many of the race calendar; accepting the fact that I’m getting older (my body doesn’t work as well as it used to when I began running almost ten years ago); stressing that even amateur runners need discipline and will power, but the final outcome increased feeling of well-being is worth the effort.

 

Congraçamento durante treino e episódio a não ser esquecido

Um dos privilégios concedidos àqueles que evitaram morrer jovens
é o direito abençoado de ficarem velhos.
A honra do declínio físico está esperando,
e você precisa se acostumar com essa realidade.
Haruki Murakami

Participei de cinco provas da São Silvestre, tradicional corrida da cidade. De 2008 a 2012 estive a correr com muita alegria. Em 2011 mudaram novamente o trajeto e comumente estão a direcioná-lo para vias outras, a depender de intenções ou interesses mediáticos e de dirigentes. Mudanças de horários foram várias, da lendária chegada à meia noite ao período da tarde e, mais recentemente, à plena manhã do dia 31 de Dezembro. A mística desapareceu definitivamente. São bem claros os interesses dos meios televisivos!!! A prova da tarde conflitava com a festa que se realiza na Av. Paulista horas após, mas com o povo chegando bem cedo para as festividades de cunho “artístico” bem duvidoso.

Em 2012 participei pela última vez da hoje descaracterizada São Silvestre, com número de participantes a cada ano maior, tantos sem inscrições. A maioria só começa realmente a correr após dois ou três quilômetros, mercê das dezenas de milhares de atletas amadores, pois são pouquíssimos os de ponta. Um corredor a menos como veemente protesto, milhares d’outros que superlotam as ruas e avenidas para gáudio de promotores e da mídia.

Em blog sobre a São Silvestre no início de 2013 escrevia: “Após cinco participações na corrida de São Silvestre, a mais tradicional do Brasil, deixarei de frequentá-la. A morte do cadeirante Israel Cruz Jackson de Barros (31/12/2012), que poderia ter sido evitada fosse conservada a descida harmoniosa da Avenida da Consolação, e não a imposição da perigosa e íngreme descida da rua Major Natanael, verdadeira ‘pirambeira’, evidenciou o descompromisso com a razão primordial do evento, a corrida como congraçamento e não para satisfazer interesses ‘estranhos’. Denunciara o percurso num blog no início de 2012, a anteceder ao infausto acontecimento, mas os ouvidos da organização mantiveram-se tampados (vide blog “Corrida de São Silvestre e Equívocos – Quando interesses estranhos Sobrepõem-se à Alegria de Milhares”, 07/01/2012). Mencionei  nesse post o preceito latino abyssus abyssum invocat (abismo a chamar outro abismo)”. Nada a fazer.

É lamentável que o herói, que desapareceu por absoluta falta de previsibilidade de organizadores despreparados, tenha sido esquecido. Morrer durante uma corrida acontece desde o primeiro maratonista, Pheidippides, que sucumbiu ao correr cerca de 35km até Atenas para anunciar a vitória contra os persas na célebre batalha de Maratona em 490 a.C. Rarissimamente  acontece, mas corredores sem acompanhamento médico e técnico estão sujeitos a sofrer ataque cardíaco fulminante. Contudo, a morte do cadeirante Israel Cruz Jackson de Barros não poderia ter acontecido. Durante as duas corridas da São Silvestre que realizei a descer a rua Major Natanael, uma delas durante chuva torrencial, vi corredores caírem, tropeçarem ou escorregarem. Um absurdo que continuará até que alterem novamente trajetos e horários. Israel  Jackson deveria ser homenageado a cada corrida, mas esse ato implicaria a permanente revelação da falta de prudência da organização.

Pertenço a uma equipe organizada, a Corre Brasil, dirigida pelo dedicado Professor Augusto César Fernandes de Paula, assessorado pela esposa Val e boa equipe. Já treinamos a subir o Pico de Jaraguá, a percorrer o Caminho do Sal, antiga rota de terra daqueles que, no período colonial, subiam a Serra do Mar para abastecer de sal os povoados do alto da região, posteriormente cortada pela antiga estrada asfaltada São Paulo-Santos. Todos os anos, a Corre Brasil realiza em Dezembro, treinos simulados para os que desejam participar da Corrida de São Silvestre, na qual estão inscritos inúmeros integrantes da equipe. Com amigos corredores percorremos com entusiasmo esse trajeto durante o “treinão”. Outras equipes fazem o mesmo. Todavia, por princípio irrevogável, não desço a Major Natanael, a pirambeira trágica, mas sim a Avenida da Consolação, com declive prazeroso. Dou algumas voltas pelo Theatro Municipal, desço até o Largo do Paissandu e daí passo novamente pelo Theatro, viaduto do Chá, Faculdade de Direito e, após leve descida, enfrento a subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, lenda que está na mente do povo. Jornalistas e narradores há décadas teimam em defini-la como um enorme desafio. Lendas são transmitidas através da oralidade e essa consolidou-se, tornando-se temida no imaginário popular. Dosando-se passadas e respiração, o aclive é percorrido sem quaisquer problemas. Foi a décima vez que subi a Brigadeiro e a cada ano, apesar do avanço etário, esse trecho me parece mais familiar, mormente se subimos no treinamento -  sempre em um domingo – na contramão pela via do ônibus, com plena visibilidade, o que permite, com tranquilidade, passarmos para a calçada, essa temerária. É lógico que, para os atletas de ponta que desenvolvem velocidades admiráveis, principalmente os quenianos, etíopes, marroquinos e outros africanos, é nessa subida que se dá a diferença entre eles e os comuns mortais durante a São Silvestre. Curiosamente, nesse treino, como desci a Avenida da Consolação, realizei um menor trajeto e, ao subir a Brigadeiro, fui ultrapassado por um queniano que participou do ensaio. Como um bólido desapareceu segundos após com suas passadas largas, suas pernas finas e um DNA surpreendente. Encontrei-o no final e, sorridente, disse-me que fizera o percurso em tempo não muito maior do que seus compatriotas, com os quais correrá no dia 31. Realmente!!!

Ao final do simulado houve a confraternização de todos os integrantes da Corre Brasil, com distribuição de medalhas, sucos, sorvetes e muita alegria. Ao longo de dez anos a correr, nessa atividade amadora como tantas outras, jamais vi uma só discórdia, um só gesto que não fosse aquele voltado ao espírito esportivo, ao congraçamento e à qualidade de vida.

Que esse espírito seja o vigente neste 2018 que está a nascer. Num país eivado de criminalidades de toda a ordem, do batedor de carteira ou de celular aos poderosos empreiteiros e políticos que não chegam a esquentar suas celas nas prisões, mercê da infinidade de recursos que tornam felizes advogados do ramo, assim como da prepotência de magistrados das altas cortes que os libertam e dos indultos presidenciais (sic), os momentos de felicidade espontânea que sentimos nesses congraçamentos ligados às corridas de rua, mesmo que passageiros, tornam-se um bálsamo. Comecei a participar das provas de rua aos 70 anos. Já lá se vão 155 corridas!

Apesar desses últimos 13 anos em que a corrupção extrapolou os mais inimagináveis limites, saudemos 2018. Haverá esperanças para um Brasil a sofrer de “amoralidade endêmica” por parte daquelas figuras que se multiplicaram, mormente na vida política e empresarial? São tantas as incertezas… Continuemos a acreditar em dias melhores para o país.

In the last post of the year random thoughts wander through my mind: my love of running — the interaction with fellow runners, the rush of hormones that relieve stress and make me happier —, the new route of the traditional St. Sylvester Road Race held in São Paulo every 31 December, Brazil corruption scandals and our long road of unmet expectations.

 

 

 

Cultura, internet e outros temas…

Nos caminhos
desta vida
sou uma viandante
inconformada
buscando
a Luz da verdade
a cada instante
Idalete Giga
(“O Canto da Palavra”)

Conversei com jovens estudantes de uma Escola próxima à minha moradia. Encontro casual num café que também serve guloseimas. Entretinham-se animadamente, quando um deles me viu sentado a ler um livro volumoso e com uma caneta na mão. Sorriu e veio até minha mesa, a perguntar se era escritor. Disse-lhe que era músico, mas gostava de escrever. Verifiquei que seus colegas ficaram a me olhar e, como minha mesa era pequena, convidado, sentei-me junto aos jovens. O fato de estar a ler e a escrever pareceu algo raro para os simpáticos alunos. Conversas rápidas sobre cotidiano e futebol, tema este último que provocou gargalhadas quando lhes disse que meu time de outrora despedira-se de todas as categorias nacionais de futebol; portanto, devidamente falecido. Trata-se da Portuguesa de Desportos, de triste e melancólico fim, alijada de todas competições principais brasileiras após administrações desastrosas.

A descontração da rapaziada levou-me sutilmente a questioná-los sobre Cultura. Livros, exposições, exercício da escrita, abrangência das artes, ética, política. Como já estavam livres das aulas, mostravam-se sem pressa. De maneira unânime abominavam a classe política, a corrupção e a falta de segurança. Compartilhei das mesmas posições. Três foram assaltados e traumas ficaram. Compartilhei assalto a mão armada que também sofri em 2008.

Ao verificar que sentiam confiança nas minhas elucubrações sobre temas diversos, voltei à Cultura. Apenas um mostrou-se leitor assíduo, mas de títulos bem duvidosos. Todos os outros, seis ou sete, preferiam a internet e suas redes sociais, atentos às inovações desses aparelhos de ampla comunicação. Nenhum lia jornais e revistas. Também compartilhei essa posição, pois não mais leio jornais, tampouco revistas em estado físico, mas acesso publicações online francesas, uma inglesa e temas não tendenciosos brasileiros online. Contudo, mormente em nosso país, a poluição visual, com avalanche de publicidade invasiva online, irritante e em constante mutação é tão massacrante que o leitor realmente perde interesse. Ficaram surpresos quando lhes disse que não fazia parte nem do facebook, tampouco do linkedin ou do instagram, apenas tendo o whatsapp para fins familiares. Perguntei-lhes, após essas primeiras exposições, se me consideravam jurássico. Riram e continuei a fazer-lhes perguntas, com pleno consenso dos jovens.

Sobre literatura, nenhum deles conhecia autores franceses. Ouviram falar em aula, mas não retiveram nomes. Da Inglaterra, dois conheciam J.K.Rowling, autora da saga de Harry Potter. Silêncio sobre quaisquer outros autores, daqui e alhures!!! Sabiam resumos de livros brasileiros, necessários para o verniz literário nos vestibulares. E só. Quatro deles adoram os e-Sports, frequentando certames, mas todos têm seus times eleitos de futebol, não comparecendo aos estádios por falta de segurança!!!

Falei-lhes sobre preferências musicais. Basicamente o tema passou em branco quando abordei música erudita, clássica ou de concerto. Um apenas adentrou uma sala de concertos. Sobre a música popular brasileira, diziam não gostar, mas desfilaram inúmeros ídolos roqueiros americanos, ingleses e canadenses, assim como os de outras manifestações frequentadas por grande massa. Aquele que foi à minha mesa indagou se tocava algum instrumento. Disse-lhes que era pianista. Um deles disse que, para seu pai, o melhor pianista do mundo era Richard Clayderman (pianista que se apresentava como o maior do planeta, apenas tocando arranjos de músicas de sucesso de filmes ou do showbusiness!!!, interpretadas sofrivelmente). Não comentei nada.

Interessados que estavam nesse “interrogatório”, perguntei-lhes se frequentavam museus. Gargalharam e um deles, descontraidamente, respondeu “somos jovens”. A um novo questionamento sobre profissões, apenas dois sabiam realmente o que queriam ser.

Durante uns poucos minutos ainda fiquei a conversar sobre a cidade. Cumprimentei um a um e mostraram-se receptivos e educados. Despedi-me e voltei para casa a pensar nas novas gerações, pois os jovens eram alunos de escola conceituada.

Que a Cultura erudita no Brasil está em estado crítico é de conhecimento. A mídia, ao abordá-la, privilegia figuras carimbadas, que se repetem em jargões ditos de alta erudição, palavreados proferidos com seriedade, pretensamente filosóficos – como há filósofos neste país!!! – e as classes leitoras ou telespectadoras aplaudem como se fossem enunciados por oráculos definitivos. Não mais temos crítica cultural nas várias áreas e essas, quando publicadas, têm a assinatura de soi-disant, como bem dizem os franceses. “Tudo vai mal onde tudo vai bem”, como afirmava Roberto Campos. A superficialidade reina em nosso país à deriva.

Simpáticos, receptivos, os jovem mencionados apenas traduziam o que parte essencial de uma denominada elite tem do saber tradicional, pouco ou nada na realidade. Ao desconhecerem o passado e áreas basilares, perdem os alicerces que estruturam o conhecimento. O edifício é construído sem sustentáculos seguros e as lacunas são visíveis. Em todas as áreas, na política, nas empresas, nas universidades, quantos não são os pronunciamentos de “líderes” carentes de quaisquer conhecimentos de áreas fundamentais da história da humanidade? Pronunciam o que ouviram ontem, deliberam resultados de conchavos, vaticinam o futuro desconhecedores de lições do passado. Os jovens que tive o prazer de conhecer e cujos anseios e perspectivas pude entender são o reflexo de décadas de descuido com a Educação. Integram, hélas, o desmanche da Cultura, essa essencial para o aprimoramento do homem em sua aspiração mais equilibrada.

Fico a pensar se um cidadão percorresse as salas das Câmaras, Assembleias e Tribunais com perguntas elementares sobre Cultura. Essa classe que decide os caminhos que devemos tomar não passaria por teste elementar. E a “elite” empresarial, com raríssimas exceções? As falas dos donos das empresas que desencadearam ultimamente um desarranjo na política brasileira são inaceitáveis, a partir de analfabetismo crônico. Os donos estão presos. Até quando? Como poderemos almejar um futuro melhor se a incultura de um lado, a corrupção a corroer estruturas e a demagogia que impede avanços essenciais reinam em nosso infortunado Brasil!

Foi bom ter conhecido esses jovens. Gostei imenso da sinceridade de suas respostas. Pergunto-me em que estágio estariam milhões de outros jovens estudantes espalhados pelo país?

A conversation with some young students of a nearby elite school about general knowledge and the internet, followed by my feeling of hopelessness that comes from the perception that there is no way out from the dismantling of our educational system and the ephemeral above all else in the information age. What can we expect from a country that undervalues education, wastes its human potential, is plagued by political corruption and demagogy?