Navegando Posts em Cotidiano

Dois momentos de Willy Corrêa de Oliveira

Pés acostumados a andar
Não podem parar.
Adágio Popular Açoriano
(Ilha do Pico)

Em blogs recentes sobre o livro “Passagens”, de Willy Corrêa de Oliveira, observei que décadas compartilhando o mesmo Departamento da USP não foram suficientes para uma aproximação efetiva. Sim, tivemos um relacionamento de colegas, mormente em torno de uma gravação que realizei em 1989 no Rio de Janeiro para LP integralmente dedicado ao compositor. Acompanhou-me durante os registros fonográficos, mas a gravação não vingou, mercê da desvairada atitude do Presidente Collor de Mello, que desativaria parte da estrutura da FUNARTE.

O reencontro recente, mais do que uma simples “passagem”, estreitou vínculos que desconhecíamos. Temos nos encontrado com frequência e temas retesados durante decênios emergem. Gravações históricas, literatura, arte… Não poderia imaginar que esse estreitamento fosse possível e tem sido singularmente benéfico para ambos. Nessa decadência progressiva da cultura erudita como um todo e da musical em particular, esses longos encontros têm sido extremamente prazerosos.

Transmitirei ao leitor dois curtos textos de Willy: o primeiro, uma  pitoresca narrativa da visita com sua esposa Marta à ponte levadiça de Langlois, em Arles, França, que mereceu cerca de dez obras pintadas por Van Gogh em 1888. O texto dedicado a Marta data de 2018:

“O trem para Arles teria um pequeno retardo, por problemas técnicos, dizia o alto-falante da estação. Aguardamos, com o tempo nublado, a espera ardente. Em Arles, já descemos com o céu azul estático da Provença inspirando uma caminhada de alguns quilômetros até à Pont de L’Anglois, com vento ao rosto, ao longo da margem do canal, margeado, do lado direito, por carroças e trailers de ciganos, a Marta aflita: o ermo nos envolvia, e a passos largos, vencendo o trajeto, sem viva alma outra, nem ciganos à vista, só o vento mais tenso, um pesadelo a que, a custo, ela sobrevivia, célere; enfim, próximos à ponte, divisamos turistas cobrindo-se o rosto com suas máquinas fotográficas, e ela acalmou-se como se emersa de um mau sonho, o contentamento pela aura suave, a ponte bem a passos adiante. Chegamos a um atril, gentes em torno, exibia uma cópia do quadro do Rijiksmuseum (de Otterlo), ali onde – exatamente – ele se encontrava, Van Gogh, quando a eternizou.

Solavanco na alma me estremeceu – a ponto de quase cair. O coração espoucando febril eu ia e vinha ao atril e via a ponte, sua ossaria no ar – o azul por trás – azul. Lance de pura exaltação, impetuoso delírio, precipitações. E voltava até à ponte e tornava ao atril e completava o quadro – visionária vertigem – auspiciando as lavadeiras, o torvelinho de água. Vivi Van Gogh, a ponte mais viva em mim, ali, de que naquela manhã em que ele transpirara.

Por insistência da Marta, retornamos a pé, pelo mesmo caminho, ela tranquila trazendo sua ponte (bem no coração) e ritardando a tarde um quanto que, ao anoitecer, pudéssemos chegar ao Grand Café du Forum com a luz mais pactuada com a do ‘Café, le soir’. A realidade como um sonho de cristal.

De volta a Aubagne, noite andada, a insônia completou o dia de Arles. Mais não escrevo aqui por inútil, não diria da vigília brava, da exaltação alucinada, extravasada, extravagada. Dias passados, encontrei num sebo o volume ‘La Provence de Van Gogh’, de Jean Paul Clebat e Pierre Richard. Mencionavam que a ponte de L’Anglois não era a que eu havia experimentado. Outra tinha sido, distante, em local – hoje desfigurado – à margem da atual Grand Avenue, cerca de dois quilômetros da versão mentida pela indústria de turismo.

Nunca mais volto lá.

Envoi: Walter Benjamin, valha-nos!”.

Extraio do livro “Voragem” (São Paulo, Luzes no Asfalto, 2010) – resultado de curso de cinco palestras que Willy Corrêa de Oliveira apresentou no Departamento de História da USP – parágrafos que apreendem na essência aquilo que também penso sobre o momento cultural que vivemos. Willy, ao falar sobre a composição – no meu caso, bem similar, acrescente-se, sobre a interpretação –, revela seu estágio atual como criador e pensador, a dizer: “Escrever música, para mim, tornou-se algo semelhante a um louco que aplacasse sua loucura escrevendo cartas; como não dispõe de destinatário, não tem para quem escrever, com quem se corresponder, escreve para si mesmo. Vai ao Correio, como todo mundo que tem cartas para enviar, sela, e manda para seu próprio endereço. E aguarda. E continua a escrever outras. O fato é que meu espírito claudicava, andava com dificuldade. Mas, consciente de que buscava arte, agora, em outra clave.

Mas eu sabia que agora eu escrevia pra satisfazer… tudo isso que eu tinha vontade, sob a tensão do instante. A arte como uma muleta, a arte como uma consolação, como um meio de escapar da morte. Isso! Escrever músicas tornou-se para mim, ao mesmo tempo que um lenitivo, um diálogo de vida ou morte com a criação: com a invenção de matérias do espírito, de dar forma a uma ideia, de dar a uma estrutura sua substância apropriada. E também, o fato de não encontrar na música de meu tempo uma satisfação contundente, conclusiva, como teria acontecido se eu tivesse nascido no século XIX, e conhecido Chopin… Acho que a música que ele fez teria me bastado. De verdade. Hoje, no auge do capitalismo (e por causa disso, da inexistência de uma linguagem musical e erudita comum, falada por todo mundo), tudo o que eu ouço não responde às indagações e necessidades que reclamo e necessito da arte”.

O notável poeta e escritor português Guerra Junqueiro (1850-1923) já observava: “Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, pêras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim”. Continua: “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe, veem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for sendo a distância, mais imperceptíveis se irão tornando”.

A irreversibilidade da queda cultural, a ser sentida abertamente, como exemplos claros, nas revistas, na TV aberta e nos provedores internéticos, que apresentam sempre em maior destaque a futilidade extrema das famigeradas “celebridades”, em detrimento de temas infinitamente mais relevantes, ratifica o que há de mais desprezível no homem. A morte de um dos maiores pianistas brasileiros, Fernando Lopes (1935-2019), ocorrida aos oito de Março, não mereceu uma coluna nos portais mais divulgados. Ignorância dos articulistas, mentalidade dos mandantes, resultado de estruturas há décadas falidas. Há que se lamentar. Fernando Lopes será tema do próximo blog.

Today I publish excerpts from writings by composer Willy Correa de Oliveira. In the first, he tells us of his disappointment after finding out he had been fooled by the French tourism industry in Arles; in the second passage, extracted from his book “Voragens”, the author talks about his visceral need to compose and his frustration with the classical music language of today, unable to provide an appropriate response for his perplexities and anxieties, something he believes wouldn’t happen had he lived, for example, in Chopin’s time.

 

 

 




Quando temas que se mantinham silenciosos afloram

“Um livro atirado ao público
equivale a um filho atirado à roda.
Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte.
Que seja feliz é o que eu lhe desejo;
mas se o não for, também não verterei uma lágrima”.
Guerra Junqueiro
(Prefácio à segunda edição de “A velhice do Padre Eterno”)

Encontrar Marcelo é sempre a expectativa de ouvir perguntas ou sugestões que aguçam a mente. Das poucas vezes que o encontro na feira-livre de minha cidade bairro, Brooklin Campo Belo, as conversas se prolongam horas mais tarde em um café das cercanias. Prazerosamente fixamos encontro à tarde e as perguntas que ouvira pela manhã ganharam ênfase.

Marcelo é fiel leitor e, atento aos meus retornos à temática sobre interpretação e repertório, questionou-me sobre a tradição na composição e na literatura, assim como o tempo do intérprete musical ou do leitor de um livro frente à decifração (palavra sua) da partitura ou texto poético-literário, respectivamente. Pareceu-me mais uma proposta para aula do que um trocar opiniões enquanto estávamos degustando um curto e mais um.

O questionamento surgiu após a leitura de versos de Catherine Lechner-Reydellet publicados no blog anterior. Entendeu-os difíceis e, apesar de distantes de tendências poéticas tantas nesse bem mais de meio século, sabia-os ainda presos à tradição, mas difíceis de entendimento. Disse-lhe que também os achara difíceis e, como apontei em meu post, tive de lê-los mais de uma vez e tempo maior ainda dediquei a traduzi-los. Não obstante, em nenhum momento deixei de admirar a trama do pensar da autora nessa busca por apreender sua mensagem.

Inicialmente disse ao Marcelo que na literatura a transformação se daria no conteúdo e menos na organização das palavras. Dos meios de que dispõe o escritor, o léxico existente é fulcral e a organização do texto flui a obedecer, preferencialmente, ao que reza o preceito gramatical e ao “significado” dos vocábulos. Não obstante, a partir desse material há incontáveis maneiras de verter o que vai à mente. Tem-se o estilo, impressão digital que caracteriza o escritor de talento. Quanto à poesia, há muitas variações e quantas tendências não surgiram, estiolaram-se e ressurgiram sob outras vertentes nessas últimas décadas. Sem nomear poetas, quando uma tendência se instaura, seus “fundadores” se tornam, não poucas vezes, arautos de futuro inglório, pois processos são abandonados com o passar dos anos e a eles retornar não seria palatável para novéis vates em busca de novas diretrizes. A proliferação delas na poesia, nas artes visuais e na música nestes últimos decênios tem certa semelhança com o que se passou na bíblica Torre de Babel. No caso de Catherine Lechner-Reydellet, temos o poema a fluir em forma de texto literário e a separação que a autora faz das “linhas”, a separar conceitos que devem ser salientados, corresponde à respiração da leitura. Certamente a música deve ter influenciado, e muito, a autora, pois a respiração é imprescindível na nossa área musical e na poesia.

Ao me questionar sobre a composição e a interpretação, Marcelo aborda tema que foi objeto de blog anos atrás. Em sendo a Música a única arte a precisar do intérprete, mercê da notação musical – o texto teatral é acessível a qualquer leitor que se disponha a conhecê-lo -, ao executante cabe a tarefa do debruçamento exegético sobre a partitura. “Música, minha companheira desde os anos da infância”, frase do poeta português José Gomes Ferreira, sintetiza a escuta que acumula sons, formas, estilos e interpretações do repertório sacralizado. Tornar-se-ia evidente que esse acúmulo facilita o aprendizado nas várias fases da vida, pois obras estão armazenadas em nosso interior e mesmo a interpretação individual rarissimamente corresponderá a uma ruptura, pois há anos ou décadas está lacrada no cérebro, mercê de outras escutas. Seria mais complexo, certamente, quando a obra é contemporânea ou de um passado não redescoberto ou, ainda mais, parcialmente desvelada. Nesses casos o intérprete, ao ser o primeiro a desvendar a partitura, terá de criar a sua execução, que poderá ser guia para outras que virão, estudadas por outros músicos. Qual o seu ferramental? O legado do aprendizado e os novos aprendizados. Estou a me lembrar de dedicatória de nosso mais importante regente, Eleazar de Carvalho, na minha partitura de bolso da Sinfonia Júpiter (nº 41) de Mozart, da qual eu sempre gostei e que ele acabara de reger: “De um estudante para outro estudante. Eu, Eleazar de Carvalho, ele, José Eduardo” (segundo lustro dos anos 1950). Uma lição.

Tempo sacralizado para o criador e para o intérprete. Ao primeiro ele advém através da ideia – uns nomeiam inspiração – e o acervo adquirido na área musical determinará o fluxo para o papel pautado, hoje basicamente internético, e a composição vem à luz. Haendel, J.S. Bach, Mozart, Schubert, Liszt, Moussorgsky, entre muitos, eram rápidos na escritura. Ravel a cinzelava, retocando-a até que a composição estivesse do seu intento. Outros, como Pierre Boulez, buscavam numa versão outra ou outras a concretização de seu intento. E quanto ao intérprete, mormente o voltado à imensa produção tradicional? Ele é o eterno intermediário e sem ele a música estaria fixada apenas nas partituras. Ele a estuda preferencialmente desde tenros anos e, a continuar a trilha de uma carreira, sempre que repete determinada obra tem de reestudá-la, com menor intensidade, mas estudá-la. Se contarmos o tempo do compositor e de um intérprete, tranquilamente a este é destinado um maior debruçamento temporal sobre a obra criada. Contudo, frise-se, obra estudada desde a juventude já pode estar precedida pela escuta originária na infância. Permanece, pois. Esse pressuposto resulta numa maior familiaridade quando, pela primeira vez, a criação que perdurou pelas décadas ou séculos penetra no âmago do executante pelo olhar, pelo complexo processo mental, pelo digitar e pelo ouvir. Não obstante, ter sempre de retornar à partitura requer tempo e seria plausível entender que, ao longo de uma carreira, largamente o intérprete terá muito maior tempo de contato com a obra criada do que o compositor. Este, ao entregá-la a outrem, não mais terá controle sobre sua sorte, como reza a epígrafe do presente post.

Disse a Marcelo que, assim como com navegadores do passado, alpinistas ousados e aventureiros como Sylvain Tesson, que teve tantos livros resenhados neste espaço, o sentido da descoberta de criações coetâneas ou da redescoberta de partituras esquecidas, metaforicamente, pode ter passado pelo mesmo processo mental que leva à imperiosa necessidade de ousar. Se a imensa maioria dos intérpretes se repete, e isso é louvável, pois a permanência só subsiste através das centenárias escutas, também é de crucial importância o desbravar.

Marcelo ainda quis saber mais sobre tradição e escuta que vem da infância. Insistiu. Como se processaria esse amálgama? Comentei que a criança ou jovem que nasceu em berço propício à escuta da música erudita já teria ouvido parte essencial do repertório sacralizado. Acentuando os estudos, e sendo esse o repertório perpassado pela extensa maioria dos intérpretes – colegas ou consagrados executantes -, a escuta se sedimenta e essas obras entram automaticamente em sua mente. Estudá-las já tem a precedê-las essa escuta sedimentada e conservada. Diria que parte essencial do estudo de uma obra já está resolvida, pois a memória do que foi ouvido será ativada e até a interpretação fundamental – tradicional – já estabelece uma facilidade maior para o intérprete.

Fico sempre grato a Marcelo. É um questionador. Perguntas inteligentes são uma das mais importantes fórmulas para ativar mentes. Marcelo sabe como fazê-las.

Horas após a publicação deste post, o Professor Titular da FFLECH-USP Gildo Magalhães escreve-me sobre o tripé compositor-intérprete-ouvinte. Em blogs bem anteriores mencionei a importância da recepção da criação musical transmitida pelo executante e avaliada pelo ouvinte. Certamente teremos Ecos no próximo blog.

A chat with a friend was the starting point of this post, a reflection upon some aspects of music, such as tradition and rupture in musical writing; the relation between composer and his intermediary, the performer; the role of musical memory preceding the study of a new piece of music.

 

 

 

O tempo implacável a retardar respostas

Não corro como corria
Nem salto como saltava
Mas vejo mais do que via
E sonho mais que sonhava

Agostinho da Silva

Entre as inúmeras mensagens recebidas através do endereço eletrônico inserido no menu do meu blog muitas continham questionamentos. Anotei-os criteriosamente por categorias para respostas futuras em blocos. Busco no presente post atender às dúvidas e às questões formuladas pelos leitores.

Perguntam-me sobre a atividade musical, as preferências literárias, as corridas de rua, as viagens ao Exterior, o distanciamento das apresentações no Brasil, as gravações e até a política em nosso país… Mui dificilmente deixo de atender leitores, mormente se há questionamentos urgentes merecendo respostas imediatas por e-mail, e essas, nesse caso, saem logo após a recepção, pois mensagens se acumulam e o retorno à nova leitura torna-se quase sempre improvável. Ao se distanciar no tempo, tendem às calendas. Portanto, temas que me são caros quando questionados, mas que demandam um maior debruçamento, se não os respondo de imediato deixo-os numa lista de espera. Nesses quase 12 anos de blogs ininterruptos jamais recebi mensagem desinteressante e esse fato é reconfortante e fonte de estímulo.

Não foram poucas as mensagens lamentando a ausência das ilustrações do saudoso amigo e imenso artista Luca Vitali. Sinto muito a sua falta, pois foram dezenas de blogs que, após minha leitura durante nossos almoços às terças-feiras no Natural da Terra, tiveram charges plenas de humor, ironia e perspicácia do amigo artista. Deixou-nos em 2013. Lembrá-lo atende não apenas leitores sensíveis, como é singela homenagem que lhe presto. Sob outro patamar, elogios nunca cessaram às participações sábias do ilustre compositor e pensador francês François Servenière. Lê em França todos os blogs e incontáveis vezes inseri seus comentários. Formávamos um trio que permanece em nossas mentes. Os Études Cosmiques para piano de Servenière, que gravei na Bélgica e saíram em França pelo selo ESOLEM em 2017, estão no Youtube. Foram escritos a partir da monumental Série Cósmica, pintada (acrílico sobre tela) por Luca Vitali.

Basicamente as questões levantadas por leitores são concernentes aos temas espalhados em textos ao longo dos blogs, que tiveram início aos 2 de Março de 2007. O fato de ter, ao passar dos anos, recebido com enorme prazer a adesão crescente de leitores, implica, sob outro aspecto, o desconhecimento que novos seguidores do blog têm de temas abordados desde o início. Sem querer ser redundante, mas a buscar atender aos muitos novos leitores, respondo a várias perguntas sobre assuntos comentados nesse extenso período.

Questionam-me sobre minha ausência nas programações musicais, principalmente em São Paulo. Assiduamente me apresentava na cidade em que nasci, dos meados da década de 1950 aos anos 2000. São Paulo viveu estertores da efervescência cultural voltada à música erudita até dois ou três decênios após a metade do século. Naqueles tempos, a mídia estaria possivelmente descompromissada com o lucro advindo da ação cultural, concedendo espaços nos jornais e revistas ao que de fato interessava culturalmente à cidade, sem contrapartida. Estou a me lembrar que jamais, nas décadas em que mais atuei em São Paulo, jornais deixaram de publicar matérias, tantas vezes bem extensas, quando repertório mostrava-se relevante. Como tenho o hábito de tudo arquivar, as integrais (opera omnia) de Jean-Philippe Rameau (Auditório Itália, dois recitais em 1971) e de Claude Debussy (MASP, quatro recitais solo mais a integral para dois pianos com minha mulher Regina no Cultura Artística em 1982) mereceram ampla cobertura, gratuita diga-se, na Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde. Nessas apresentações, assim como nas das integrais das Sonatas Bíblicas de Johan Kuhnau (1972) e dos Estudos de Alexandre Scriabine (1977), ambas no MASP, havia público excedente sentado nas escadarias.

Não poucas vezes mencionei que na década de 1950 São Paulo tinha cerca de 13 críticos musicais, a maioria músicos-professores respeitáveis, como Caldeira Filho (“O Estado de São Paulo”), H.J.Koellreutter e L.C.Vinholes (“Diário de São Paulo”), Arthur Kauffmann (“Folha da Noite”), Dinorá de Carvalho (“Diário da Noite”), Cyro Monteiro Brizolla (“Correio Paulistano”), Diogo Pacheco (“O Tempo”), Odette de Faria (“Shopping News”), Lilly Wolff (“Jornal Alemão”), exemplos sensíves a serem destacados. Outros tempos, certamente. Em sendo músicos, frequentavam os recitais dos intérpretes consagrados, mas também dos jovens. Opinavam com competência, incentivando o jovem talento ou indicando que caminhos outros existem. A cidade cresceu desmesuradamente e, bem inversamente, desapareceria o crítico músico de ofício, conscientemente opinativo pois, salvo alguma possível exceção. Sob outra égide, espaços nos jornais dedicados ao pulsar musical erudito existente fora dos grandes holofotes parecem não ser mais a orientação da imprensa. Basicamente desapareceram.

Foi a partir de 1995 que iniciei, aos 57 anos, gravações, no Exterior. Essa atividade foi decisiva, pois nas mais perfeitas condições tecnológicas possíveis, delas constando a qualidade indiscutível dos engenheiros de som – o saudoso Atanas Baynov, na Bulgária, e Johan Kennivé, na Bélgica -, acústicas absolutas dos locais de gravação e pianos rigorosamente impecáveis. Priorizei, dessa época ao presente, as gravações, e o CD a ser gravado em Maio deste ano na Bélgica será o 25º, que, assim como os anteriores será lançado na Europa. Essa menção à gravação é importante, pois a partir dela o recital continuou como atividade amorosa e benfazeja, mas não mais como necessidade imperiosa da apresentação pública pela mera apresentação… Esta atitude fez com que me distanciasse um pouco do público, por opção pessoal, respeitando-o e sentindo o calor que ele transmite. Paralelamente, a realidade tem mostrado que o próprio recital de piano, sob o aspecto geral, ao não ser precedido de ampla divulgação – publicidade essa destinada aos nomes amplamente divulgados no Exterior que se apresentam na cidade, ou para os intérpretes pátrios com patrocínios vários, faz com que as récitas de intérpretes que ainda resistem à sensível queda de público cheguem a ter caráter heroico. Esse fato é real e a se lamentar. Se me apresento anualmente uma ou duas vezes em São Paulo, busco fazê-lo em salas que abrigam público não numeroso, mas fiel à tradição. Sinto-me feliz em poder dar meus recitais nessas salas.

Ao leitor diria que, na década de 1990, estávamos em Belém do Pará, a grande pianista Yara Bernette (1920-2002) – uma das maiores do Continente -, o excelente violoncelista Antônio Lauro Del Claro e eu para apresentações distintas. Reunidos no terraço do Hotel em que estávamos hospedados, Bernette observou, para nossa surpresa, que o recital de piano tinha prazo certo de existência. Bernette, que durante décadas viveu em Hamburgo onde se tornaria chefe da cadeira de piano da Escola Superior de Música e Arte Dramática, observou que, independentemente dos nomes mediáticos, a grande maioria dos intérpretes estaria confinada às salas menores, pois teatros e salas monumentais não mais a abrigaria. Posteriormente, a escritora e historiadora de arquitetura Victoria Newhouse, em seu livro Site and Sound, explicita pormenorizadamente a problemática das grandes salas, muitas delas não mais ocupadas na plenitude, e a real possibilidade das salas menores. Anualmente, as visitas a Portugal e Bélgica e outras à França levam-me às apresentações que me entusiasmam, a ter sempre público seletivo em salas que abrigam umas poucas centenas de ouvintes. Creio que a explanação estaria a responder aos questionamentos de inúmeros leitores.

Perguntaram-me sobre as resenhas e qual o motivo de preferências sensíveis, como música e aventuras. Sirvo-me de frase do poeta português José Gomes Ferreira, que observava: “Música, minha antiga companheira desde os ouvidos da infância”. Temas relacionados às aventuras e conquistas do homem através dos tempos também me apaixonavam desde a tenra idade. Eis duas temáticas que sempre foram prioridades nas minhas leituras, Logicamente, tantos outros livros abordando romance, filosofia, arte, literatura epistolar e outras mais permaneceram ao longo, despertando constante interesse. Desde os meus 10 anos habituei-me à leitura, incentivado pelo nosso saudoso pai. Fazia-nos ler, pois somos quatro irmãos, um capítulo de livro por ele escolhido, sempre a priorizar a melhor literatura, preferencialmente a portuguesa – cuidado com o estilo -, e tínhamos de redigir diariamente resumo do que líamos, em apenas uma página. O pai corrigia, atribuía avaliações e uns poucos cruzeiros (moeda da época) para as sinopses precisas, sem erros. Dizia ele que o espírito de síntese era fundamento essencial na leitura e na vida. Esses cruzeiros revertiam-se em livros, escolhidos doravante por cada um de nós nas visitas que fazíamos no último sábado do mês às livrarias do centro de São Paulo. Somavam-se esses cruzeiros a outros que eram atribuídos à escuta de LPs de música clássica que nosso pai adquiria mensalmente. Após a audição escrevíamos o nome do compositor numa papeleta e nem sempre acertávamos, pois o acerto vinha após detectarmos o período histórico e o criador da composição. Nosso pai chegou a ter 5.000 LPs!!! Essas considerações são necessárias, pois a leitura virou respiração e a audição de música, uma constante, principalmente após o advento do Youtube.

Três leitores indagam-me sobre a desativada equipe de corridas TA LENTOS e as causas de seu desaparecimento. Longe de ser uma equipe como tantas, organizada oficialmente, com treinos semanais e programação, a TA LENTOS reunia cerca de 10 amigos, a grande maioria descendente de japoneses, para encontros em corridas determinadas, entre elas as provas de revezamento da Ayrton Senna (Autódromo de Interlagos) e a do Pão de Açucar (Ibirapuera). Congraçamento. alegria contagiante e a permanência na arena durante toda a competição de revezamento que para nós, oito corredores, suplantava bem as quatro horas de duração. O meu ingresso deu-se em 2008. Após sessões de quimioterapia a que me submeti para tratar de um câncer que quase me levou aos anjinhos, continuei e continuo, hoje com visitas periódicas, a frequentar o consultório da mesma médica que me acompanha desde 2004, a competente hematologista e hemoterapeuta, Drª Ana Rita Burgos Manhani. Como chefe da enfermagem da clínica em que trabalhava a Drª Ana Rita, a enfermeira Cristina Ito, ao saber que passara a correr em 2008, convidou-me a ingressar na TA LENTOS. Foram anos muito felizes participando de corridas em São Paulo, Mogi das Cruzes e Osasco. Com o desligamento de alguns, a TA LENTOS perdeu o sentido, mas não o vínculo amistoso, pois constantemente encontro três corredores da equipe, o casal Américo-Regina Umeda e André Shigueo nas muitas corridas de rua existentes. Shigueo até hoje prestigia a TA LENTOS ao vestir a camisa da equipe com desenho jocoso realizado por Luca Vitali.

Outros leitores escrevem para que opine esporadicamente sobre política. Fi-lo pouquíssimas vezes. Há incontáveis articulistas e radialistas que tratam do tema de maneira competente. Contudo, segmento expressivo entre eles que, graças à carga repetitiva do discuso com nítida orientação, é detectado facilmente pelo leitor ou ouvinte atento. Quando percebo o “ranço” partidário, passo ao largo. Creio, todavia, que a corrupção endêmica, acentuada de maneira estratosférica no Brasil neste século, verdadeiro saque aos cofres públicos, terá uma diminuição sensível com os novos governantes, mas estará longe de desaparecer, pois enraizada nessa relação espúria político-empresário. Sob outro aspecto, o povo, razão essencial de uma nação, basicamente não mais crê em nossa Justiça. Triste fato.

Por fim, as mensagens estimulantes apenas acentuam a vontade de continuar a escrever, uma de minhas grandes alegrias. Desvinculado de quaisquer interesses relacionados a patrocínios, felizmente nunca buscados, o que me possibilita a total independência, prossigo aos 80 anos escrevendo com o mesmo prazer que me levava a redigir artigos para o jornal do Liceu Pasteur, “O Arauto”, na longínqua juventude, quando em bancos escolares. E os textos continuarão a fluir, assim espero.

In this post I reply to questions  frequently posed by readers: my musical engagements, reading choices, trips, recordings, races and even my political opinions. The messages received are a stimulus to go on writing, something I do with the same enthusiasm of the time I was a student at Liceu Pasteur and a “columnist” of “O Arauto”, the school newspaper.