Quando a escrita se torna respiração
Porque ser fiel, em primeiro lugar, é ser fiel a si mesmo.
Saint Éxupéry (1900-1944)
“Citadelle” (cap. CLXXV)
Foi aos 2 de Março de 2007 que, após uma conversa na qual relatava alguma lembrança de décadas passadas, meu ex-aluno e amigo Magnus Bardela me perguntou qual a razão de eu não ter um blog. Frequentador de nossa casa àquela altura, Magnus foi ao computador a fim de verificar algo e me chamou logo após. “Criei um blog em seu nome e é só começar a escrever”, disse ele. Atônito, sem conhecer nada desse “mecanismo”, escrevi um curto texto que nomeei “Preambulum”, a pensar na introdução da Partita nº 5, de J.S.Bach, que integrava meu repertório. Como ilustração, coloquei a foto da primeira caneta tinteiro que ganhei de meus pais quando completei 14 anos, uma Parker Júnior. Finalizava o primeiro post com uma frase que se tornou grata realidade: “Doravante, você leitor está convidado a realizar essa viagem. Que sejamos cúmplices. Bem haja”!
Passaram-se quase 19 anos e com entusiasmo escrevi blogs publicados sempre no minuto cinco dos sábados e desde aquela data jamais deixei de inserir um post ao final da semana. Chegamos ao milésimo e o fato me faz rememorar. Ausente do país inúmeras vezes para atividades musicais, ainda nessas temporadas não deixava de publicar o blog, assim como logo após algumas cirurgias. Depois do primeiro ano tive a nítida sensação de que, instintivamente, o blog apreendia tema de qualquer ordem que me causara impressão maior. Sob outra égide, cerca de trezentos livros resenhados se tornaram parte natural das leituras que me marcaram (vide menu: Livros: Resenhas e comentários – lista). Reiteradas vezes mencionei em meus blogs que a respiração não pede férias, assim como minha prática pianística e os escritos.
Os blogs, de Março de 2007 a Março de 2011, resultaram em três livros, “Crônicas de um observador”, publicados pela Pax e Spes do meu dileto amigo Claudio Giordano. Deixei de publicá-los por múltiplas razões. Hoje teríamos 16 livros. Alguns leitores fiéis me escreveram ao longo dos anos dizendo que imprimem e guardam em pastas os blogs publicados, fato que muito me sensibiliza.
Relendo posts ao longo dos anos, verifiquei certas flutuações em termos de temática. A palavra “observador”, utilizada no conjunto de textos nos quatro primeiros anos e que se estenderia ainda por certo tempo, teve como motivo o olhar mais voltado a muitos episódios do cotidiano, tantos deles que me encantaram. Houve uma fase em que as altas montanhas, a pontificar a cordilheira do Himalaia, me fascinaram e sintetizei em posts uma série de livros sobre o assunto. Assim também o fiz ao ler mais de 10 livros do intrépido aventureiro francês Sylvain Tesson (1953-). Com o passar dos anos, o aumento das viagens ao Exterior, a fim de atividades musicais mais acentuadas, sem declinar do cotidiano, voltei-me às experiências vividas nessas turnês, aos músicos excelentes com quem tive o privilégio de conviver, à Música e à eterna leitura seletiva, sempre a pensar na transmissão ao meu leitor. Houve um período em que me pormenorizei na série de extraordinários pianistas do passado, muitos deles hoje pouco acessados no Youtube ou no Spotify, assinalando sempre que, sem o conhecimento de suas gravações históricas, pode se perder o fio condutor que nos leva, como prioridade, ao respeito à mensagem do compositor e à imaginação extraordinária daqueles intérpretes unicamente voltados à essência musical. Fazia a crítica a determinadas performances atuais, tantas delas excepcionais sob o aspecto técnico-pianístico, mas, em inúmeros casos, sem a aura poético-espiritual. Insisti em vários posts a respeito de outro fator dominante nos dias de hoje: holofotes possantes, indumentária inúmeras vezes chamativa, tudo a fazer parte do espetáculo, algo não existente no passado, quando o objetivo do intérprete era tão somente o conteúdo musical a ser transmitido. Se o leitor acessar gravações daqueles mestres excelsos do passado interpretando determinada obra, verificará o pouco número de ouvintes na atualidade, diferentemente dos efeitos de performances hodiernas que, chamativas, atingem visualizações elevadíssimas para certos intérpretes mais ventilados.
Paradoxalmente, a quase absoluta ausência da crítica musical nos últimos tempos é uma trágica realidade. Por volta de 1955 havia em São Paulo (3 milhões de habitantes) 12 críticos que pautavam os concertos realizados na cidade, de celebridades ou daqueles que se apresentavam no início de suas trajetórias. Na maioria, os críticos eram músicos atuantes ou teóricos. Hoje, a cidade tem 12 milhões. Críticos desses eventos? Comentei ao longo dos anos essa situação de queda que se estende, diga-se, a outras áreas da Cultura.
Quanto aos Costumes, a temática se acentuou nos blogs publicados nesses últimos anos, pois não há mais barreiras para a divulgação de toda espécie de conteúdo adulto à disposição em sites de grande divulgação. Realmente, um total absurdo. Infelizmente, essa nefasta “abertura” não recebe o olhar mais atento das nossas autoridades.
Após encerrar minhas atividades pianísticas públicas na Bélgica e em Portugal em 2023, assim como as gravações de CDs na região flamenga (1999-2019), finalizei no Brasil com um recital na cidade de Santos, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Agosto do mesmo ano. Não obstante, continuo a praticar como sempre e sete foram os Encontros privados que Regina e eu realizamos desde o término das minhas apresentações oficiais. Continuo, pois, a comparar a prática diária pianística à respiração, que nunca esmorece. Não apenas rememoro repertório interpretado ao longo das décadas, como incorporo composições que sempre tive vontade de estudar e circunstâncias várias me impediram de fazê-lo. As récitas resultaram em blogs sobre os repertórios apresentados.
Infelizmente, a morte de tantas figuras ilustres e amigos fiéis fez parte dos meus escritos hebdomadários. Prestei um singelo tributo a mais aos que partiram: François Lesure (1923-2001), Serge Nigg (1924-2008), Álvaro Guimarães (1956-2009), Giovanne Aronne (1937-2009), Almeida Prado (1943-2010), Roberto Szidon (1941-2011), Luca Vitali (1940-2012), Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012), Mario Ficarelli (1935-2014), Gilberto Mendes (1922-2016), Sequeira Costa (1929-2019), Fernando Lopes (1935-2019), Jorge Sampaio (1939-2021), José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), Tânia Hachot (1937-2022). Nossos saudosos pais, de Regina e os meus, também foram lembrados com emoção. Inexorabilidade que deve ser cultuada.
Este olhar o passado me fez considerar determinadas mutações, mercê da trajetória do país. O leitor que me segue desde os primeiros tempos bem sabe que eu me posicionava mais otimista, no que concerne ao Brasil, nos talvez dez primeiros anos de posts publicados. Sabe também que não penetro em temas sobre política, pois articulistas especializados e de ideologias diferenciadas o fazem com maior conhecimento. Todavia, não deixo de perceber o país à deriva em tantos aspectos. Verificamos, em vários índices mundiais abrangendo categorias diferenciadas, o nosso recuo, fato lamentável. Sob outra égide, o receio do cidadão comum de se pronunciar mais veementemente a defender suas convicções políticas, outrora amplamente livre, intensificou-se. A espontaneidade, típica do povo brasileiro, foi substituída pela cautela com palavras e textos. A charge de cunho político, tão comum nos meios de comunicação décadas atrás, estiolou-se. Esvaiu-se a espontaneidade e toda charge dos nossos dias tem de ser bem pensada antes de vir a público… O tão apregoado bordão “censura nunca mais” mereceria ser entendido na sua essência essencial.
Há quase um ano tivemos uma abrupta mudança, após 60 anos morando na mesma casa. A sanha avassaladora de uma construtora nos levou a mudar. Continuamos na mesma rua, mas doravante em um apartamento e as relações humanas, fator fundamental, continuam. Página virada e a normalidade de volta.
Tenho o hábito de redigir os blogs durante as madrugadas. Pela manhã realizo uma leitura pormenorizada e envio à minha amiga-irmã, Regina Maria, nossa vizinha desde os anos 1980, que desde o primeiro post, de Março de 2007, realiza uma revisão acurada, pois as denominadas gralhas acontecem: acentuações, falhas na digitação e outros pequenos tropeços. Faz-se necessária a revisão. Estou a me lembrar de um chiste do nosso mais relevante compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), que, ao enviar ao ilustre organista Furio Franceschini (1880-1976) a sua Sonata para órgão, a fim de que o mestre a revisasse, escreveu que, entre os maus revisores, sentia-se o pior. Certamente um jocoso jogo de palavras, pois seus manuscritos contêm pouquíssimos equívocos.
Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige!”, na interpretação de J.E.M.:
https://www.youtube.com/watch?v=n0RxYeQbBbo&t=5s
Continuarei a escrever meus posts, embora os temas nascessem durante os meus treinos correndo. Aos 87 anos, infelizmente, não mais tenho esse prazer, a conselho do notável ortopedista Heitor Ulsson, convertendo as corridas em andadas, mas cumprindo basicamente as mesmas distâncias. A frase “o tempo insubornável”, do grande poeta Guerra Junqueiro (1850-1923), tem a amenizá-la o desenvolvimento de outras alegrias, entre elas o mavavilhamento de hoje, uma extensa família, lentamente acrescida nestes 62 anos de casamento, e curtida por Regina e por mim. Música, literatura e artes em geral se tornaram ainda mais frequentes e continuarão a impulsionar o blog, até quando a frase latina ser efetivada, “Mors certa, hora incerta”. Contudo, prezado leitor, continuo a ter esperanças.
We have reached our thousandth consecutive post, published every Saturday since 2 March 2007. A significant milestone, since there has not been a single hiatus in this long period of almost 19 years.


Comentários