O pensamento sem amarras da Cultura Humanística
Os meus livros imprimo-os para o público,
mas escrevo-os para mim.
Guerra Junqueiro (1850-1923)
(“A velhice do Padre Eterno”)
Cartas manuscritas foram escritas durante séculos, datilografadas a partir da segunda metade do século XIX e, com o surgimento dos computadores, passo essencial para o advento da internet, a dedicação epistolar, que mantinha a aura personagem-caneta-papel, estiolou-se basicamente por completo. Não se trata de saudosismo, mas de realidade. Missivas de figuras que permaneceram na história estão preservadas em bibliotecas pelo mundo e são fundamentais para os pesquisadores. Já há algum tempo todo esse imenso acervo, perpetrado ao longo da história, tem sido digitalizado. Contudo, frise-se, os manuscritos continuam conservados. Neles, pode-se captar a caligrafia, essa autêntica “impressão digital”, tão importante para a compreensão de outras capacitações do remetente. Considere-se que muitas daquelas figuras históricas que trocavam missivas antes da computação quase sempre guardavam em seus arquivos pessoais a preciosa correspondência recebida. A prática da escrita cursiva, rigorosamente individualizada, ainda permanece em determinadas circunstâncias, mas deixou de ser predominante graças aos avanços mencionados. A carta manuscrita apesar da sensível diminuição, ainda perdura a externar sentimentos de toda ordem e o cotidiano em suas captações voltadas à admiração ou à platitude. Sob outra égide, a mensagem escrita a mão não tem necessariamente finalidade coloquial e a multiplicidade de temas testemunha a assertiva.
Inúmeras vezes o prefácio de um livro adquire o significado de uma missiva e, se aquele é destinado à obra de um autor de gerações passadas, o preambulum representa o tributo reverencial, a propiciar ao leitor a abertura enriquecedora.
Durante a década de 1980, nas minhas visitas a Portugal para recitais e palestras ficava hospedado na morada da insigne Júlia d’Almendra (1904-1992), fundadora em 1953 do Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa e autora de precioso livro, “Les Modes Grégorians dans l’oeuvre de Claude Debussy” (1948), motivo do nosso primeiro contato. Mantivemos ao longo dos anos correspondência manuscrita ativa. Ao receber suas cartas, a simples leitura do endereçamento no envelope levava-me a deduzir seu estado de espírito, se descontraído ou preocupado. As suas mensagens originais e as minhas a ela encaminhadas estão depositadas no Centro Ward de Lisboa, dirigido pela dedicada e competente regente coral Idalete Giga, discípula de Júlia d’Almendra.
Após ter apresentado, em São Paulo inicialmente, as integrais para piano solo de Claude Debussy em quatro recitais no MASP e para piano a quatro mãos e dois pianos, juntamente com minha mulher, Regina Normanha Martins, no Teatro Cultura Artística (1980), e publicado o livro “O som pianístico de Claude Debussy” (São Paulo, Novas Metas, 1982), uma experiência que me marcou foi o privilégio de realizar aprofundadas pesquisas sobre Debussy, manuseando a sua opera omnia manuscrita para piano, mercê do privilégio que recebi do Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale de Paris e do Centre de Documentation Claude Debussy, o notável musicólogo François Lesure (1923-2001), nome maior dos estudos sobre o compositor francês na segunda metade do século XX. Durante minhas várias visitas ao Centro Debussy nas décadas de 80 e 90, estudava determinados manuscritos que me eram trazidos por funcionário da BN e, munido de luvas e uma espécie de espátula para virar as páginas, permanecia em uma sala que era fechada, após a saída do funcionário. Extraordinárias leituras que salientam, entre outros pormenores, a própria “evolução” da escrita do compositor e o rigor que lhe era característico, fato menos sensível se observada for a obra publicada.
Clique para ouvir, de Claude Debussy, “Étude pour les arpèges composés”, na interpretação de J.E.M.:
https://www.youtube.com/watch?v=VCAH8fYHjSo&t=18s
Regressando às cartas, relevantes compositores foram ativos missivistas, e a menção a alguns se faz necessária: Beethoven, Liszt, Wagner, Moussorgsky, Fauré, Debussy, fato que evidencia a prática constante que músicos tiveram em relação à escrita coloquial particularizada. Essas personalidades nem sempre se dedicavam, em suas atividades epistolares, a escrever sobre música, mas cultuavam igualmente outros valores, a natureza, o cotidiano implacável, os estados de alma, a relação amistosa, a literatura e a poesia, fatores essenciais para a compreensão do âmago da criação de seus autores. O irremediável e necessário avanço tecnológico tem propiciado o imediatismo e a pouca consideração com progressos do passado. Mui raramente um inventor se refere aos passos dados por seus predecessores. Serviram-lhe de base, mas a mídia é ávida do momento presente e a reverência àqueles que no passado propiciaram uma invenção ou descoberta, impulsionando o caminhar presente, não a estimula, mas sim o que motivará vendagem. Sob aspecto outro, os compositores contemporâneos mais ousados negligenciaram as conquistas sucessivas que permaneceram até poucas décadas atrás, resultando em um número imenso de tendências bem diferenciadas. Apesar das realizações em termos da composição musical, da obra literária e das invenções e descobertas científicas, manancial importantíssimo em todas as áreas está depositado nas correspondências manuscritas daqueles personagens que permaneceram na história.
Anos atrás, experiência certamente compartilhada com incontáveis pessoas, na troca de um computador perdi, por descuido, todo o acervo anterior e nem mesmo um técnico experiente conseguiu recuperá-lo. Na realidade, deveria paulatinamente ter salvo o conteúdo em um pen drive e não o fiz. Amadorismo puro. Evaporaram-se cartas e depoimentos de personagens fundamentais da cultura que me privilegiaram através da troca de mensagens pelo computador. Perderam-se inúmeros testemunhos fulcrais dessas ilustres personagens. Felizmente, umas tantas fizeram parte de inúmeros blogs através dos anos.
Nos próximos blogs deverei tecer comentários sobre a prática ativa de figuras basilares da Cultura Humanística, que legaram através das missivas imensa contribuição que serviu para desvelamentos.
The handwritten letter, which has endured for millennia, basically ceased to exist after the advent of the typewriter, the computer, the cell phone and the internet. Something to think about.


