Conhecer o “de profundis” de um autor
Como estou frequentemente com você em espírito!
Realmente, deveria existir algum tipo de telegrafia especial para os amigos;
se existisse, qual seria o alcance e a rapidez da comunicação mental
que se estabeleceria entre os espíritos unidos pela afinidade?
Ludwig van Beethoven (1770-1927)
(carta a Friedrich Duncker, 18/02/1823)
Nas áreas específicas da música, da literatura e da ciência é mais acentuadamente possível o desvelamento parcial de um compositor, poeta, escritor ou cientista através das correspondências, de cunho intimista ou não, àqueles que partilharam amizade ou relações protocolares.
O blog anterior sobre o tema das cartas manuscritas suscitou inúmeros e-mails de leitores, todos de interesse. Um em especial foi fulcral, o do professor titular aposentado da FFLECH-USP, Gildo Magalhães, ilustre especialista em História da Ciência, várias vezes presente em meus blogs. Insiro-o no presente post, pois observa por experiência própria o estiolar da correspondência manuscrita. “Este assunto das cartas me angustia. O que vira eletrônico facilmente se perde, mas ainda temos cartas de Arquimedes para Erastótenes! Eu tenho uma vasta correspondência recebida guardada, incluindo nomes importantes mais contemporâneos da ciência, mas não existe mais a correspondência emitida. Tentei manter cartas para meus amigos de Portugal, mas debalde! Só respondiam por e-mail… Enfim, até pendrives e outros dispositivos se deterioram com o tempo, então temos mesmo de renunciar a esta prática milenar?”.
Mencionar os ativos e ilustres missivistas, vem-me à mente François-Marie Arouet, que adotou o nome Voltaire (1694-1778), escritor, historiador e filósofo francês. Uma de suas atrações foi a via epistolar, pois legou cerca de 20.000 cartas endereçadas a aproximadamente 1.800 destinatários. Essa verdadeira vocação missivista resultou na arguta observação da sua personalidade, mas igualmente de compartimentos substanciosos da atividade política, religiosa e artística da França do seu tempo. Suas críticas mordazes à realeza, ao clero, assim como a observância do cotidiano de maneira sagaz, a presença do polemista, mas do escritor tantas vezes com a escrita poética, fizeram com que Voltaire, em pleno iluminismo, legasse certamente o mais vasto documental através das cartas.
No blog anterior, “Ainda há espaço para a carta manuscrita”?, mencionei o nome de alguns compositores, entre muitos que foram ativos missivistas: Beethoven, Liszt, Wagner, Fauré e Debussy. Tantas dessas figuras referenciais trocaram cartas que revelam as personalidades definidas e seus propósitos, Liszt-Wagner, Goethe-Schiller…
Ludwig van Beethoven (1770-1827) escreveu um número expressivo de cartas que, felizmente, foram conservadas pelos destinatários, descendentes e colecionadores, configurando 1.570. O precioso corpus conhecido da sua correspondência se estende de 1787 ao ano da sua morte. “Les letres de Beethoven” (France, Actes Sud, 2010), a integral da correspondência do compositor, assim como outros documentos por ele redigidos evidenciam a personalidade do grande músico alemão. Os temas das cartas são os mais variados, desde aqueles sobre música, compreendendo as edições, e são dezenas as missivas aos editores e revisores de suas composições, revelando o precioso detalhamento por parte de Beethoven no que concerne à rigorosa observância dos seus intentos, aos relativos às amizades e aos amores, mas igualmente às finanças e ao relacionamento familiar. Redigiu também outros documentos, alguns oficiais, máxime os referentes à tutela do seu sobrinho Karl após a morte do seu irmão Carl em 1815. A surdez progressiva, que o acometeu a partir de 1796, foi tema constante com a progressão do mal. Através das cartas é possível deduzir o drama desesperante.
No testamento de Heiligenstadt (6 de Outubro de 1802), escreve: “Embora às vezes eu quisesse me considerar superior a tudo isso, infelizmente fui duramente rejeitado pela triste dupla experiência da minha audição deficiente. No entanto, não consigo me convencer a dizer às pessoas: ‘Falem mais alto, gritem, pois sou surdo’. Infelizmente, como seria possível admitir a fraqueza de um sentido que deveria ser muito mais desenvolvido em mim do que nos outros, um sentido que eu possuía outrora na maior perfeição, um sentido que certamente poucas pessoas da minha profissão possuem ou possuíram? Não, isso não é possível. Portanto, perdoe-me se, às vezes, renuncio ao prazer de sua companhia. Minha infelicidade é duplamente penosa, porque as pessoas me julgam mal. O prazer que se desfruta em sociedade, com conversas refinadas e confidências mútuas, não é possível para mim. Obrigado a viver sempre sozinho, só posso frequentar o mundo na medida do estritamente necessário; tenho de viver no exílio. Quando entro em contato com a sociedade, sinto uma angústia que me faz ferver, tanto temo o perigo de revelar minha condição — foi o que aconteceu nos últimos seis meses que passei no campo. Que humilhação, porém, quando alguém perto de mim ouvia ao longe uma flauta e eu não ouvia nada, ou quando alguém ouvia um pastor cantar e eu também não ouvia nada”. O mal se agravaria até o silêncio absoluto em 1818.
Na carta ao amigo Franz Gerhard Wegeler, (1810), redige: “Mas eu seria feliz, talvez um dos mais felizes entre os humanos, se o demônio não tivesse sua morada em meus ouvidos – Se eu não tivesse lido em algum lugar que o homem não deve abandonar voluntariamente a vida enquanto ainda puder fazer uma boa ação, há muito tempo eu já não estaria mais aqui – e isso por minhas próprias mãos – A vida é tão bela, mas para mim ela está para sempre envenenada”.
É praticamente inacreditável que algumas das suas mais importantes criações, os cinco últimos quartetos (1824-1826), as quatro últimas sonatas para piano (1817-1822), a Missa Solene (1823) e a Sinfonia nº 9 em Ré menor (finalizada em 1824), tenham sido compostas na surdez total. No quarto movimento da última sinfonia, “Ode à alegria”, com poema de Friedrich Schiller (1759-1805), Beethoven incorpora um coral. Este movimento é o mais consagrado entre todos os inseridos nas sinfonias precedentes, e imaginado e composto no mais profundo desalento quanto à existência.
https://www.youtube.com/watch?v=q0EjVVjJraA
A correspondência completa de Ludwig van Beethoven e os outros escritos anexados proporcionam ao leitor a revelação de um personagem não apenas gigantesco como compositor, mas igualmente um homem que cultua determinadas amizades, que expõe os seus afetos e que convive com a progressão inexorável que o priva do sentido mais precioso para o músico, a audição.
After careful consideration, I have transcribed some excerpts from Beethoven’s fundamental correspondence with numerous figures from a wide variety of fields, with an emphasis on music.

