Navegando Posts publicados em setembro, 2026

Em torno de Henrique Oswald (1852-1931)

Não sou um optimista. O que sou é determinado
naquilo em que me apetece ser determinado,
e continuo convicto até entender
que a convicção estava errada e tenho de mudar.
Mas isso não tem acontecido muito.
Agostinho da Silva (1906-1994)
“Entrevista”

Após dedicarmos vários Encontros a notáveis compositores acima do equador, o Nono Encontro privé homenageia quatro compositores pátrios, mormente Henrique Oswald.

Sobre Oswald, dediquei vários blogs ao longo dos anos. Certamente o nosso mais importante compositor romântico e um dos nomes referenciais da nossa música através dos séculos. As minhas pesquisas tiveram início em 1978, mercê da colaboração extraordinária de Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do notável músico. Durante alguns anos, mensalmente ia ao Rio de Janeiro e ficava hospedado na morada do casal Mário e Maria Isabel (vide blog: Maria Isabel Oswald Monteiro, 1919-2012).  O precioso arquivo, cuidadosamente preservado pela anfitriã, dele constando partituras manuscritas autografadas, riquíssimos diários e outros mais documentos relevantes, foram paulatinamente estudados. Logicamente, as pesquisas se davam também junto à Biblioteca Nacional, ao Arquivo Nacional e à Escola Superior de Música do Rio de Janeiro.

Meu doutorado em 1988 foi pioneiro. Presentemente já foram defendidos mais de dez doutorados no Brasil e no Exterior (Estados Unidos, França e Itália), e que venham outros mais é o que se espera. No concurso para professor titular (1992) prossegui na temática oswaldiana, sendo que, posteriormente, houve a publicação do livro no qual concentrei as duas teses, “Henrique Oswald, músico de uma saga romântica” (São Paulo, Edusp, 1995). Prazer indizível se deu durante as gravações de três LPs (Funarte) e quatro CDs, estes gravados na Bélgica, unicamente com composições de Henrique Oswald para piano solo, assim como música de câmara com piano.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Tre Piccoli Pezzi”, na interpretação de J.E.M:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Menciono o histórico pelo fato de que as escolhas repertoriais deveriam sempre ter uma relação de pleno envolvimento. Como executar as músicas de um compositor sem que as suas mensagens penetrem no de profundis do intérprete? Os mais notáveis pianistas, mormente do passado, fizeram suas escolhas entre inúmeros compositores integrantes dos seus repertórios. Arthur Schnabel (1882-1951), Beethoven e Schubert; Edwin Fischer (1886-1960), J.S.Bach e Beethoven; Wilhelm Kempff (1895-1991), J.S.Bach…; Arthur Rubinstein (1887-1982), compositores românticos; Guiomar Novaes (1894-1979), Chopin, Schumann e Debussy; Walter Gieseking (1895-1956), Mozart e Debussy; Clara Haskil (1895-1960), Mozart e Chopin; Vladimir Horowitz (1903-1989), Liszt, Scriabine, Rachmaninov…; György Cziffra (1921-1994), Liszt preferencialmente. As indicações repertoriais estão ratificadas nos inúmeros documentos críticos e fonográficos. Opinando sobre colegas, Horowitz afirmava que ninguém tocava Chopin como Alfred Cortot (1877-1962) e os compositores espanhóis como Alicia de Larrocha (1923-2009).

Henrique Oswald é um dos meus eleitos e homenageá-lo em um Encontro privé faz-se necessário. As obras escolhidas são de raro encanto, pois não apenas a escrita do compositor é de extrema clareza, a partir de preceitos aos quais sempre foi fiel, como se mostra admirável no aspecto melódico.

Regina interpreta inicialmente uma criação emblemática de Villa-Lobos (1887-1959), “Alma brasileira”,  e algumas criações de Francisco Mignone (1897-1986), sendo que “Il Neige encore” é o tributo de Mignone a “Il Neige” de Oswald, peça que obteve o 1º prêmio no concurso promovido pelo jornal Le Figaro de Paris (1902), certame esse que recebeu 647 composições vindas de tantos países, tendo no júri luminares da música em França: Gabriel Fauré (1845-1924), Camille Saint-Saëns (1835-1921) e Louis Diémer (1843-1919).

Sobre “Il Neige”, gravei-a em 1979 para um LP em um andamento mais rápido. Quando de um recital na Sala Cecília Meirelles, toquei-a como peça extraprograma. O notável compositor Francisco Mignone, presente ao evento, disse-me após o recital que Oswald tocava “Il Neige” bem mais lentamente. “Bem mais lentamente?”, indaguei. “Muito mais”, retrucou o dileto Mignone. Em 1995, ao gravar um CD na Bélgica com a integral para violino e piano do compositor, tendo o excelente Paul Klinck ao violino, houve espaço para “Il Neige” no andamento vivenciado por Mignone.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Caderno contendo oito composições em homenagem a Henrique Oswald. Universidade de São Paulo, 1985.

 

Inicio a minha parte interpretando a criação minimalista do notável Gilberto Mendes (1922-2016), “Il Neige de nouveau”, igualmente uma homenagem a Henrique Oswald e, em seguida, a célebre “Il Neige”. Na sequência, apresento composições que me são caras e que fizeram parte do meu repertório ao longo da atividade pianística pública. As “Tre Piccolli Pezzi”, compostas em Florença (1885), nunca foram publicadas e são encantadoras. Os “Six Morceaux” op. 4 (1887) é um dos vários conjuntos de peças no catálogo do compositor. O “Estudo” e a “Valse-Caprice” op. 11 nº1 são criações envolventes e de virtuosidade.

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

As novas gerações de músicos deveriam cultuar os nossos relevantes compositores que, no presente, não têm divulgação à altura. Henrique Oswald deveria ser visitado permanentemente, não apenas as suas composições para piano, mas igualmente a sua obra de câmara, sinfônica e vocal.

The Ninth private recital will focus on the piano works of Brazilian composers, particularly Henrique Oswald.

 

 

Uma população refém do descaso

A violência é o último refúgio da incompetência.

Isaac Asimov (1920-1992)

O tema veio à mente após conversa com amigos durante um café descontraído. Que estamos vivendo tempos difíceis quanto à segurança é unanimidade. Sem interrupção, a palavra foi progressivamente perdendo o seu sentido essencial nessas últimas décadas. A insegurança reina no país. Logicamente, temos de nos adaptar às transformações que, de maneira cada vez mais acelerada, ocorrem em todas as áreas. Aos leitores mais jovens, rememorar fatos vividos muitas décadas atrás estabelece comparações. Desapareceu a descontração que nos fazia caminhar pelas vias públicas sem quaisquer preocupações quanto à segurança. As conversas informais com amigos nos portões das casas, em qualquer hora do dia, eram comuns; roubos e sequestros existiam de maneira esporádica; o golpe via o antigo telefone era quase nulo, assim como tantas outras situações nas quais a segurança não era prioridade em decorrência da delinquência bem menos acentuada.

Estou a me lembrar dos anos 1950. Estudávamos, João Carlos e eu, no excelente Liceu Pasteur, período matutino. Quando ainda adolescentes, o referencial professor de piano José Kliass convenceu  nosso Pai a que, durante um ano letivo, estudássemos no período noturno, a fim de termos mais tempo – 5 ou 6 horas – de estudos pianísticos diários em uma fase fundamental. João Carlos estudou naquele período no Colégio Ipiranga e eu, no Liceu Eduardo Prado, que ficava na Alameda Pamplona com a Avenida Paulista. Após esse ano regressei ao Liceu Pasteur para finalizar o curso Clássico.

A menção ao ensino noturno tem significado expresso pelo fato de que, entre 16 e 17 anos de idade, após as aulas que findavam quinze minutos antes da meia-noite, caminhava solitário até as portas do Instituto Pasteur na Av. Paulista (algumas centenas de metros de distância) para pegar o bonde que subia a Brigadeiro Luís Antônio vindo do centro, virava à esquerda, parava em frente ao Instituto e me deixava na confluência da Av. Domingos de Morais com o início da Av. Rodrigues Alves. Daí, descia até o nº 984, nossa morada, onde chegava por volta das 0:30. Jamais fui importunado nessas caminhadas solitárias e nunca tive receio algum de ser assaltado.

Já no final do primeiro lustro dos anos 1960, a convite do notável pianista Jacques Klein (1930-1982), Regina e eu fomos jantar em casa de um de seus amigos nos morros do Rio, não distante do Outeiro da Glória. Subimos e descemos a pé sem qualquer receio, na maior descontração.

A explosão da violência no país se deu máxime nestas últimas décadas, em que em determinadas regiões o Estado brasileiro deixou de ter soberania, pois impossível de se entrar nesses enclaves de maneira desavisada, regiões estas nas quais as populações vivem subjugadas àqueles que comandam as comunidades. Já houve diversas mortes de incautos que, de carro ou a pé, entraram nesses territórios que proliferam em várias regiões do Brasil, perdendo suas vidas atingidos por armas de fogo dos “vigilantes”. Se cerca de 1.500 comunidades no Rio de Janeiro, e tantas outras espalhadas pelo país, hoje vivem sob os olhares permanentes dos que praticam toda espécie de ilícitos, o que esperar de um país nessas condições? Na realidade, a nossa soberania é relativa.

Atualmente, quantos não foram aqueles que, ao reagirem ao roubo de celulares, são abatidos, sendo que os malfeitores, a seguir, vão tomar cervejinha com gosto de sangue? Só em São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública, mais de 500 aparelhos são roubados diariamente, o que significa um a cada três minutos.

Décadas atrás, saíamos, Regina e filhas, nos fins de semana, frequentando com certa regularidade a mesma pizzaria de amigos, distante algumas quadras de nossa antiga morada. Atitude quase impossível na atualidade, pois os riscos durante o retorno podem ser altos. Recentemente, uma neta, seu marido e quatro bisnetos, ao saírem da missa em pleno meio-dia, sofreram assalto diante de inúmeros fiéis. Furtaram-lhes celulares e alianças. Incrédulos, os cidadãos em torno nada puderam fazer, pois os assaltantes estavam armados.

Uma de nossas filhas, assim como uma neta, tiveram recentemente seus carros roubados. Em blog bem anterior descrevi um assalto à mão armada que sofri, ocasião em que meliantes levaram o meu veículo (blog: “A outra face da Polícia”, 23/08/2008). Iniciava o post com palavras retratando o ocorrido “Que vivemos numa espécie de guerra civil neste país que pouco faz para a segurança, é fato. Sofrer assalto a mão armada é assustador. Meliantes levaram o meu carro, instantes após balearem um ancião e um policial”. Infelizmente, após quase vinte anos desse episódio, a delinquência se agigantou de maneira avassaladora. Bastaria a consulta aos órgãos especializados.

O que esperar num país em que 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 (dados oficiais divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP – e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública) e com mais de 40.000 assassinatos, sem que haja uma legislação implacável com penas elevadíssimas para os autores desses crimes? Quanto ao roubo de celulares, alianças, cartões e outros pertences, a justiça tem sido branda, mormente pelo fato de muitos autores desses atos serem soltos após a audiência de custódia, segundo noticiários, e acatados por parte da população e de partidos políticos como vítimas da sociedade.

Recentemente, a excelente violinista Elisa Fukuda sofreu assalto em sua morada. Dois violinos valiosos e de autores renomados, mais um arco precioso, assim como celulares dela e de seus irmãos músicos, foram furtados. Há uma campanha, bem difundida pelos aficionados, no sentido de recuperarem esses instrumentos indispensáveis à violinista. Em 1987, gravamos para o selo Funarte, a Sonata em Mi Maior op.36 para violino e piano, assim como o trio em sol menor op.9 para violino, violoncelo e piano de Henrique Oswald (1852-1931), deste participando o renomado celista Antônio Del Claro.

Certamente muitos dos meus leitores já sentiram a ação dos malfeitores. Estamos às portas das eleições. Segurança, Economia, Saúde, Educação, assim como a chaga aberta da corrupção praticada largamente sem pejo, deverão ser os temas essenciais abordados nos meios de comunicação a partir das propostas dos candidatos.

Oxalá cheguemos a acreditar em um futuro em que esses quatro pilares básicos possam ser a razão de um próximo governante e que a endêmica corrupção seja tratada com o maior rigor. Neste país tão conturbado, há ainda a possibilidade de se sonhar por dias melhores…

Clique para ouvir, de François Servenière, Promenade dans la Voie Lactée, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=JQDkWn1HcpQ

Security, the economy, health, education, as well as the festering scourge of corruption—these should be the key issues covered by the media based on the candidates’ proposals.