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Intenção se realiza

Agora eu extraio as confidências das velhas bonecas de Chouchou e aprendo a tocar tambor, pensando em La Boîte à Joujoux.
Claude Debussy (carta ao seu editor Jacques Durand, 25/07/2013)

O dileto amigo Elson Otake, responsável pela introdução de minhas gravações no Youtube desde Julho de 2010, sempre me provocava: “precisamos postar La Boîte à Joujoux no Youtube”. Primeiramente relutei, mercê do aguardo dos 70 anos da morte do autor da história e das ilustrações de La Boîte…, André Hellé (1871-1945), prazo determinante relativo aos direitos autorais. Em segundo lugar, fazia-se necessária a colocação da obra no Youtube não apenas através da música, mas também com as singelas pinturas e o texto que acompanham o discurso musical de  Claude Debussy. Outras introduções de minhas gravações no aplicativo que exigiram um debruçamento maior, como Viagens na Minha Terra de Fernando Lopes-Graça (1906-1994), ou mesmo as Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste de Francisco de Lacerda (1869-1934) e as seis Sonatas Bíblicas de Johann Kuhnau (1660-1722), foram minuciosamente montadas por Elson Otake. Quanto às Sonatas Bíblicas, primeira obra programática na história para teclado, a inserção no Youtube foi minuciosamente planejada. La Boîte à Joujoux não deixa de ser uma obra programática, com as frases seguindo o desenrolar do discurso musical.

A insistência de Elson resultou. Para amenizar a montagem, sempre realizada na plena amizade, inicialmente quis poupá-lo, pois não adicionaria o texto que segue paralelo na partitura. Elson não desistiu e voltou a sugerir. Acatei e dediquei-me à rígida cronometragem para que esses “acoplamentos” se dessem como se deve. Não contente, Elson sugeriu fazer também a versão para o inglês. Consultei minha dileta amiga, Professora Jenny Aisenberg, que se encarregou generosamente da impecável versão. Música, ilustrações e texto bilíngue tiveram a cuidadosa edição de Elson para essa singularíssima composição de Debussy. O amálgama se deu.

A criação mágica de Debussy não surgiu espontaneamente. André Hellé (1871-1945), pintor e escritor francês, autor de várias obras dedicadas ao universo infantil, propôs a Debussy, em Fevereiro de 1913, a criação musical para um ballet pour enfants. Apesar de ser um ballet para crianças e tendo já dedicado à sua filha Claude-Emma (Chouchou) a suíte Children’s Corner (1906-1908), interessou-se pela temática e pelas singelas ilustrações, compondo no mesmo ano La Boîte à Joujoux, publicada pela editora parisiense A. Durand & Fils no final de 1913. Em espaço relativamente curto, Debussy compõe seus três ballets: Khamma (1911-1912), Jeux (1912-1913) e La Boîte à Joujoux (1913), os dois primeiros para orquestra, e La Boîte…, original para piano e orquestrada após por André Caplet. A primeira audição se deu nesse formato em Paris, em 10 de Dezembro de 1919, não com marionetes, como desejava Debussy, mas sim com personagens.

Essa sensível criação, Debussy, como fizera anos antes com a suíte Children’s Corner, dedicou La Boîte à Joujoux à sua filha Chouchou. Escreve a Jacques Durand aos 27 de Julho de 1913: “… a alma das bonecas é mais misteriosa  do que Maeterlinck supõe e suporta mal a falsidade na qual se acomodam tantas almas humanas”.

Em La Boîte à Joujoux Debussy revisita sutilmente ideias contidas em Children’s Corner, em alguns Préludes, reutiliza o tema de Le petit nègre (1909) quando da apresentação do Le soldat anglais no primeiro quadro, aproveita o tema do coro dos soldados da ópera Fausto, de Gounod, quando da “tropa em marcha” do segundo quadro, a Marcha Nupcial de Mendelssohn ao final do terceiro quadro, assim como temas de cariz popular, como Il pleut bergèreFanfan la Tulipe, en avant. Sob a égide do pós-criação, Debussy lembrar-se-á de algumas ideias de La Boîte à Joujoux ao compor as duas magníficas Sonatas para violoncelo e piano (1915) e violino e piano (1916-1917).

Por duas vezes dei palestras na École Pratique des Hautes Études em Paris, a convite do notável musicólogo François Lesure, a grande referência sobre Debussy na segunda metade do século XX (vide blogs “François Lesure – 1923-2001). Uma a ratificar, através de provas, o fato de ser La Boîte à Joujoux obra original para piano, pois várias integrais para piano a descartavam, considerando-a uma redução da partitura de orquestra. Talvez essa teria sido a razão pela qual um dos mais importantes biógrafos de Debussy, Edwardo Lockspeiser, tê-la considerado uma obra menor.  Uma segunda palestra, a demonstrar que La Boîte… “descendia” dos Quadros de uma Exposição, de Moussorgsky, criação igualmente lúdica (J.E.M. “La vision de l’univers enfantin chez Moussorgsky et Debussy”. Cahiers Debussy nº 9, Centre de Documentation Claude Debussy, Ircam, Paris, 1985). Em 2002, gravei La Boîte à Joujoux para o selo belga De Rode Pomp, assim como os Quadros de uma Exposição, ratificando as propostas apresentadas.

Creio ter sido o primeiro a apresentar La Boîte… no Brasil, no longínquo 1973, continuando a apresentá-la unicamente com o conteúdo musical depositado na partitura. Apesar de pouco frequentada pelos pianistas, mais voltados às obras de Debussy ventiladas desde a existência do compositor e insistentemente repetidas, sempre que interpreto La Boîte à Joujoux a recepção, pelo encantamento dessa criação, tem sido um grande estímulo.

Já lá se vão mais de oito décadas e um dos maiores privilégios na minha vida musical foi ter sido o pianista convidado para festejar o centenário de La Boîte à Joujoux, interpretando-a na casa onde nasceu Debussy, hoje museu que leva seu nome, em Saint-Germain-en Laye, aos 4 de Janeiro de 2014 (vide blog: “Centenário de ‘La Boîte à Joujoux’, de Debussy” 04/01/2014). Interpretei-a com comentários iniciais do competente cantor lírico, comediante e metteur en scène Alexandre Martin-Varroy, que meses após encenaria La Boîte à Joujoux com outros atores a partir da partitura para piano. Na segunda parte toquei os Quadros de uma Exposição de Moussorgsky.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, “La Boîte à Joujoux”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=0nGug1ZFxKU

“The Toy Box” by Claude Debussy, from a story written and illustrated by André Hellé, is one of the most expressive works of the composer, but little performed by pianists. Originally composed for piano, for decades it was understood as a reduction from orchestra, a fact that corroborated the little publicity the work received. My dear friend Elson Otake, responsible for introducing my recordings on Youtube, has made a careful editing, preserving all of André Hellé’s illustrations as well as the narrative content that accompanies the score, both in the original French and in English.

 

A partir de uma história real, a imaginação viaja

Crê com todo o teu ser;
só assim terás atingido o máximo da dúvida.
Agostinho da Silva (“Espólio”)

Recebi de uma leitora o livro “O último duelo” (Rio de Janeiro, Intrínseca, 2021) de Eric Jager , crítico literário voltado principalmente à literatura medieval. O enredo se passa durante a Guerra dos 100 anos entre França e Inglaterra, a ter como protagonistas principais três figuras que fazem parte do histórico real da França: Jean de Carrouges, cavaleiro normando, sua esposa Marguerite e o escudeiro Jacques Le Gris. Vivendo em pleno século XIV, as três figuras permanecem na literatura francesa através dos séculos.

Tenho sempre desconfiança, possivelmente devido aos trabalhos exegéticos exigidos na Academia, ao ler pesquisas sem dúvida sérias, mas intermediadas pela imaginação do autor, fator expurgado na área da História quando de dissertações e teses. Sob outra égide, há que se destacar o desiderato maior de um autor, no caso Eric Jager, doutor pela Universidade de Columbia e professor premiado de inglês na UCLA, que, ao imaginar situações possíveis através da leitura de fontes fidedignas, angaria um número incomensurável de leitores não necessariamente interessados na veracidade dos fatos. A notoriedade de “O último duelo”, inclusive, inspirou o filme “The Last Duel”, dirigido pelo renomado Ridley Scott. Na “Nota do autor”, Eric Jager esclarece os porquês: “Todos os personagens, locais, datas e muitos outros detalhes – incluindo o que as pessoas da época disseram e fizeram, suas declarações muitas vezes contraditórias na corte, as somas pagas e recebidas, e mesmo as condições climáticas – são reais e baseados em tais fontes. Quando estas se contradizem, apresento o relato mais provável dos fatos. Quando o registro histórico é insuficiente, uso a imaginação para preencher alguns hiatos, sempre tentando ouvir as vozes do passado”. Essa escuta do imaginário, ao “complementar” fontes fidedignas, configuraria enxertos à história. Se a lacuna de uma fonte documental existe, inventá-la dirige o texto a um público menos exegético, mas necessariamente amplo, pois mais preocupado com a narrativa em si, curioso sobre o desfecho, do que com a interrogação que leva à dúvida. O esclarecimento de Eric Jager evidencia propósito claro.

Foram dez anos de longa pesquisa frente a um manancial de documentos que levou o autor a tantas viagens, a fim de que sua visão dessa história, a envolver personagens que permanecem através dos séculos graças à larga documentação, fizesse com que renascessem numa narrativa harmoniosa, tornando-os conhecidos por número incalculável de leitores e, como consequência, pelos amantes do cinema.

Uma brevíssima sinopse faz-se necessária para que se conheça o enredo histórico. Está-se em pleno século XIV durante a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), que antagonizou França e Inglaterra. O cavaleiro normando Jean de Carrouges, que participara de várias batalhas, em um de seus retornos ouve a confissão de sua esposa, que assegura ter sido estuprada por um seu ex-amigo de combates, mas há tempos inimigo declarado, o escudeiro Jacques Le Gris. O caso, levado a várias instâncias judiciárias, recebe finalmente a decisão do Rei Carlos VI, então nos seus 17 anos, após a autorização do Parlamento de Paris, declarando que haveria o duelo entre os dois. Àquela época as penas eram implacáveis. Se perdesse, Carrouges não só morreria na arena, como sua esposa Marguerite seria queimada viva por perjúrio. Foi o último duelo oficial do gênero em França. Munidos de todo o arsenal de combate, como armadura, cavalo, lança, machado, espada e adaga, um dos combatentes encontraria a morte, tida como expressa vontade de Deus. Através da história, dúvidas permaneceram a respeito da veracidade das confissões.

Há na internet documentação sobre esse tumultuoso caso, que se prolonga ao longo dos séculos nem sempre no mesmo direcionamento, mas que ganharia ímpar notoriedade através do livro de Eric Jager e do filme dirigido por Ridley Scott.

Frise-se que Eric Jager conduz a trama de maneira a manter o leitor atento ao desenrolar do enredo e tece comentários de interesse sobre os julgamentos àquela altura e as penas fatais dos condenados, de extrema crueldade.

Estou a me lembrar de que, após gravação de CD dedicado ao notável compositor português Fernando Lopes-Graça, em Leiria no ano de 2003, visitei, no Castelo Medieval da cidade, no alto de uma colina, a Exposição Internacional dos instrumentos de tortura autênticos usados na Idade Média. Para cada engenho fatídico havia um painel com cópia de desenho ou pintura de época, a evidenciar a utilização do instrumento de martírio. Aconselharam-me a não visitar, tamanho o impacto. Todavia, quis conhecer. Entendi os limites absolutos da tortura. Ao sair da Exposição quiseram-me vender um magnífico livro com “belíssimas” ilustrações. Respondi jocosamente à funcionária: “já não basta a Exposição?”. Na descida do belo Castelo Medieval restaurado deparei-me com várias senhoras a vomitar.

Após a leitura assisti ao filme “The last duel”, dirigido por Ridley Scott. Sendo um filme e não um documentário, mais elementos fantasiosos foram adicionados para que a condução do enredo se tornasse palatável. Se, sob uma ótica, entendo impecáveis a caracterização dos personagens, dos locais escolhidos, dos Castelos autênticos e das batalhas, a condução da história, a objetivar o grande público, está plena de intermediações criadas pelos roteiristas Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon, responsáveis pelas três partes do filme. Nestas, há repetições, pelo fato de os “roteiros” dos três personagens históricos terem, por vezes, situações semelhantes. Resulta uma imaginação ainda mais fecunda àquela do livro de Eric Jager. A escolha da iluminação dos interiores leva ao espectador a noção dos recintos de antanho, à luz de velas ou tochas, o que tem boa dose de autenticidade. Os atores Matt Damon (cavaleiro Jean de Carrouges), Adam Driver (escudeiro Jacques Le Gris), a bela Jodie Comer (Marguerite de Carrouges) estão excelentes em seus respectivos papéis tão contrastantes, assim como Ben Affleck (Conde Pierre d’Alençon). Pena que o jovem Rei Carlos VI apareça sempre como um imbecil. Reza a história que, a partir de determinada altura, teve acessos de loucura.

Acredito que a leitura do livro e o consequente filme possibilitem reflexões sobre a realidade dos fatos e comparações com acontecimentos hodiernos.

“The Last Duel”, a book by Eric Jager, a literary critic and specialist in medieval literature, is of interest. The author has done researches in reliable sources, but uses his imagination to fill in gaps in the real story. It reached huge audiences, turning into a motion picture directed by Ridley Scott. Book and film, despite deviations from reality, present the last judiciary duel held in 14th-century France between a knight, a squire and, as a pivot, the wife of the first, with themes that echo powerfully until today.

 

Ecos de “Tendências da composição”

Recepção seletiva a respeito de tema polêmico

O artista não conquista pela vida, mas pela imitação;
cada forma é originalmente
a luta de uma forma potencial contra uma forma imitada.
André Malraux (1901-1976)
(Psychologie de l’art)

Entre as muitas mensagens recebidas, selecionei sete, que abordam o complexo período que atravessamos no campo das artes, mormente, no caso, o da criação musical desde parte considerável do século XX. Apontar os gigantescos avanços tecnológicos, neles inserido o acesso à internet, já se tornou lugar comum. Essas transformações influíram decididamente na conduta do homem frente à ética, à moral, mercê de liberações discutíveis, assim como acentuando três dos mais desprezíveis males da humanidade, o egocentrismo, o descaso social e a corrupção, esta que em nossas terras tornou-se endêmica.   Caminhos que se descortinam sem volta, hélas. Já adentrado na oitava década, percebo que essas mudanças foram de ordem tsunâmicas, colocando por terra inúmeras conquistas do homem através de milênios. Passo a passo caminhou a humanidade, mas nesses últimos decênios as alterações se mostram em patamares sem precedentes.

As rupturas no campo da denominada música clássica, erudita ou de concerto, termos que poderão perder validade nessa avalanche transformadora, são incontáveis. Como exemplo, em pleno século XVIII, com os arcaicos meios de comunicação e de deslocamentos, em Alemanha, França, Espanha, Portugal e Itália compositores professavam cartilhas bem próximas sobre as formas musicais, basicamente homogêneas nesses países, com variantes certamente. Seguiam-se padrões, respeitavam-se as conquistas adquiridas, que se tornavam democráticas. Os compositores delas se beneficiaram. As inovações paulatinamente eram assimiladas por todos os criadores. Se talento houvesse, obras-primas estariam garantidas. Incontáveis. A ausência do efêmero fez com que as formas pudessem sedimentar-se, um dos fatores essenciais para a abundância criativa. O “Traité de l’Harmonie réduite à ses principes naturels” (1722), de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), teria validade prioritária durante quase dois séculos!

Não é difícil entender que a aceleração de tantas tendências nessas últimas décadas impossibilita o tempo de maturação e, na ânsia do ineditismo, o abandono do passado se torna o “grito” de independência, aparência da verdade. Transformações da escrita musical e teorias que surgem para fenecer sem deixar saudades, substituídas por outras igualmente transitórias e sem embasamento, fazem parte de um complexo cotidiano. É esse fato preocupante? É-o, na medida em que não deixa lastros por não fixar raízes, e por seus adeptos buscarem sem cessar erigir novas teorias para justificar “criações” como provas de “competência”. Sequer há tempo para a sedimentação. Na atualidade galopante, esses “criadores” não fixam suas impressões digitais, essência essencial que determina o estilo de um compositor. Quantas não são as tendências e, se compositores capacitados escrevem inteligivelmente, sabedores de que houve um passado e o conhecendo, já há tempos “compositores” criam “gêneros” e “formas” musicais que surgem, tantas vezes arbitrariamente, e que se estiolam com rapidez. Entre estes últimos, há aqueles que frequentam a ruidosa Torre de Babel, onde prolifera o joio sob o manto de uma parafernália de ruídos e sons, tornando-se impossível identificar a semente originária, pois se deforma o que se entende por música.  Num sentido amplo, para aqueles que tiveram sólida formação, a escrita musical, se amparada pelo talento, é explicada com coerência e não é difícil encontrarmos as raízes de uma hodierna criação meritória. Não obstante, proliferam “compositores” mais recentes que poderíamos colocar num plano de livre atiradores. E eles são muitos. Frase do ilustre compositor francês Serge Nigg (1924-2008) diz muito: “Quando um Festival especializado anuncia, como exemplo, ‘80 criações mundiais’, tem-se frio na espinha”. O mesmo ocorre com as artes plásticas. Observei, em blog bem anterior, opinião de meu saudoso amigo, Luca Vitali (1940-2013), pintor e artista de reais qualidades. Estávamos visitando uma mostra de pintores abstratos e Luca me disse algo que retive: “Não preciso me aproximar tanto de um quadro para detectar o talento”. Apontou-me alguns nessa categoria, mas salientou a presença dos oportunistas, aqueles não bafejados pelas musas. Afirmou: “esses certamente jamais realizaram um só desenho que prestasse”. Joio e trigo se confraternizando em exposição, o que demonstraria que vivemos num período complexo e possivelmente em direção a um vazio. Talvez.

Os comentários ao blog anterior foram pertinentes e agradeço a viva colaboração dos que me enviaram mensagens:

Gildo Magalhães (professor titular de História da Ciência da FFLCH – Universidade de São Paulo):

“São instigantes colocações. Acho muito forte e adequado o pensamento de que a música fala ao coração. Mas a música contemporânea costuma falar ao cérebro, então não sei se adianta para o grande público escutá-la tantas vezes quantas forem. Pode ser que, em alguns caso, sim. Mas pode não se tratar unicamente do público afeiçoado às salas de concerto, ou viciados só nos compositores mais tocados. A poesia, a pintura, o cinema que falam ao coração também sobrevivem melhor”.

Eurico Carrapatoso (compositor português e Professor do Conservatório Nacional em Lisboa):

“As aparências (ismos) iludem, por natureza agrilhoadas ao gosto pessoal, à conjuntura, à moda, às paixões humanas, enfim, elementos todos eles feridos de baixa categoria filosófica.

Só a essência importa: aquilo que é, perene, firme, verdadeiro e coerente, expresso no compromisso da honestidade e da alta filosofia.

O talento criativo não circula nos canais da moda e de suas maquilhagens. O talento criativo paira acima do tempo”.

Paulo Costa Lima (compositor e professor titular da Universidade Federal da Bahia):

“Fiquei muito feliz ao ler o seu texto sobre as tendências em composição, e também muito orgulhoso de ver a nossa cria - Imikaiá - oferecida aos leitores. Um bálsamo para esses tempos tão ásperos”.

Ricardo Tacuchian (compositor e professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro):

“Mais uma excelente e bem documentada reflexão que você faz sobre os caminhos da música contemporânea, em seu blog que sempre acompanho com avidez. Agradeço as referências generosas que você fez ao meu nome.

Por coincidência, há três dias ministrei a Aula Inaugural do Programa de pós-graduação em Música da UNESPAR, onde eu, em alguns momentos, comento as questões sobre a Música de nossos dias. Você verá que, com a idade, cada vez mais fico perplexo com o mundo em que vivemos e mais convencido da imprevisibilidade do futuro da humanidade. Se você tiver tempo e paciência, eu encaminho o texto em anexo”.

Ricardo Tacuchian, um dos nossos mais relevantes compositores, enviou-me seu instigante texto de recente Aula Inaugural - “Novos Tempos e a Pós-Graduação” - para os cursos da UNESPAR (Universidade Estadual do Paraná), proferida recentemente online. Creio de interesse comentá-la no próximo blog, justamente pelo fato de que tem o olhar para vários aspectos basilares da criação contemporânea frente às transformações em quase todos os campos da atividade humana.

Flávio Viegas Amoreira (poeta, contista e crítico literário):

“Esse texto e a iniciativa de rastrear as tendências, os sintomas, os ecos das novas linhas composicionais resultam brilhantes: texto e iniciativa consequente por um intérprete e musicólogo ímpar fazem falta no universo literário; costumo denominar nosso tempo de ‘tranZmoderno’, com Z mesmo: em transe ética e esteticamente. Parabéns mestre, saudades do amigo ….”

João Afonso, meu ex-aluno que formulou perguntas que motivaram o blog precedente:

“Obrigado professor pelas respostas. Achei bem interessante a sua opinião sobre os compositores de hoje. Também acho que são muitas as escritas. Não consigo mais reconhecer quem é quem entre os muitos compositores que estão nas melhores escolas daqui da Europa.

Eliane Mendes (formada em Química e Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Católica de Santos, é viúva do compositor Gilberto Mendes):

“Como sempre, um excelente artigo, em cujo tema, por coincidência, estava pensando nestes dias, constatando o distanciamento cada vez maior do público quanto à música erudita contemporânea.

Acho que teríamos que voltar no tempo, ao século passado, onde a tendência seria da ruptura com a música erudita convencional de concerto. Acho que isso se deve ao que os alemães chamam de “espírito do tempo”, com o espírito da época pedindo por rupturas com os dogmas tradicionais, a exemplo do movimento hippie.

Sempre me questionava, quando acompanhando o Gilberto em concertos de música contemporânea, sobre a inexistência de uma linguagem própria entre a maioria dos compositores contemporâneos, o que se devia a uma falta de embasamento cultural, com a maioria deles querendo fazer uso das técnicas contemporâneas, mas sem ter conhecimento nenhum das técnicas musicais do passado.

Acho que um exemplo seria o ballet moderno, onde muitas vezes os bailarinos desprezam e até rejeitam o aprendizado do ballet clássico, fundamental para um aprimoramento técnico, assim como na pintura, com muitos pintores indo direto à pintura abstrata, rejeitando e desprezando as técnicas tradicionais.

Tudo isso leva ao vazio, a uma ausência de linguagem própria em todos setores da arte, seja na música, na pintura, na dança e até mesmo na literatura, pois sem bagagem interna nada podemos transmitir, a não ser o vazio da ignorância do Ego.

Esse vazio da ignorância do Ego pude constatar no Centro de Pesquisa de Música Eletroacústica, em Paris, onde, visitando junto com o Gilberto, pude observar até de uma maneira ridícula os músicos eletroacústicos fechados em uma sala particular, nos olhando de maneira superior, como que nos dizendo: ‘Não estão vendo que estão perturbando a criação do gênio que eu sou?’ Numa gravação pela TV Cultura, no Centro Maria Antonia, durante o Festival Música Nova, me lembro de algo que foi dito e com o que concordei plenamente: ‘Os músicos contemporâneos brasileiros dos anos 60 são muito mais modernos do que os compositores contemporâneos jovens, pois estes se direcionam para aquela época do passado recente para compor, enquanto os compositores contemporâneos mais antigos continuaram indo em frente, como o Gilberto, o Jorge Antunes e tantos outros, pois eles utilizaram todas as técnicas musicais do passado em suas obras, criando cada um deles uma linguagem nova para si mesmos’.

Enfim, em resumo, para tudo na vida, até no dia a dia, se não tivermos um embasamento, nos tornamos sem referencial, um ‘nada’, perdidos na ignorância de nosso Ego vazio. Mais uma vez obrigada pelo excelente artigo. Fico sempre esperando por eles todos os sábados, me sentindo honrada em recebê-los”.

O notável compositor Gilberto Mendes (1922-2016) compôs o “Estudo, Ex-tudo, Eis tudo Pois”, In Memoriam Jorge Peixinho, pungente criação dedicada ao ilustre compositor Jorge Peixinho (1940-1995). Ao apresentar a obra em Gent, na Bélgica (11/09/1997), o ilustre artista plástico belga Jan De Wachter (1960- ), presente ao recital, realizou os desenhos dedicados à obra de Gilberto, ao homenageado Jorge Peixinho e ao intérprete. Igualmente foi o autor do desenho a saudar “Vassourinhas” de Paulo Costa Lima, criação que também interpretei naquela récita. Como sempre, nessa última década, meu dileto amigo Elson Otake tem generosamente se ocupado da montagem e inserção de minhas gravações no Youtube.

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes, “Estudo, Ex-Tudo, Eis Tudo Pois”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=eXy69fjF-Yw

The reception to the previous blog was encouraging. I have selected seven messages from figures connected to the arts who express interesting views.