Navegando Posts em Cotidiano

François Servenière comenta temas essenciais

O problema dos políticos é o de mudarem o Governo:
o meu é o de mudar o Estado.
Contam eles com o voto ou a revolução.
Conto eu com o curso da História
e a minha vocação e o meu esforço de estar para além dela.
Agostinho da Silva
(“Entrevista”)

Pensara inserir, no post a seguir “Ecos de Berezina”, comentários de François Servenière que enriquecem o blog mencionado. O recital do dia 28 impediu-me a inserção, fazendo-a agora. Um dos aspectos fulcrais de Berezina foi a aceitação do jovem que entra em combate que lhe é imposto. Não haveria tempo para esse soldado, tampouco maturidade para uma reflexão maior sobre o assunto. Sob outra égide, temas a envolver ideologias, sistemas de governo, dialética permanente entre pensamentos divergentes estão contidos nas reflexões de François Servenière.

“Ao reler seu post sobre Berezina e meus comentários publicados em seu blog, compreendi melhor os caminhos tortuosos do pensamento na busca do entendimento de nossa realidade. Com efeito, qual o propósito de conhecermos a história se ela não nos leva a decifrar parte do presente? Trata-se de lição que não aprendemos jamais nos bancos escolares, pois a grande maioria dos professores não nos incita à compreensão do mecanismo de recorrência da história. Sob outro aspecto, o jovem em geral não capta as mensagens ou não tem maturidade para tal; o professor sobrecarregado não estaria disposto a propor esse mecanismo da transmissão do passado ao presente pelo fato de estar preso à ideologia progressista; a criança ou o jovem, impregnado da energia vibrante que o leva a pensar que tudo sabe e que poderá mudar o mundo, estuda os eventos históricos acumulados como uma lição obrigatória de pequenas histórias que lhe são narradas.
Na realidade, essas narrativas são galhos de uma mesma árvore e nós somos os galhos novos que nascem nas alturas. O fenômeno é clássico e universal, causa sensível da incompreensão da história pelos jovens, vítimas que são da patética e ‘eterna’ incúria das elites. Estas pensam influir sobre a história, quando na realidade, por total desprezo ao passado, são como capitães de um cargueiro diante de uma grande tempestade. Na Normandia, onde vivi durante tantos anos, sempre me indagava a respeito dessa tragédia que sacrificou jovens e que fez lotar cemitérios da segunda guerra mundial. Escrevi uma Symphony for the Braves, como você bem sabe. Trata-se de uma reflexão sobre a injustiça que consiste em matar jovens inocentes incapazes de discernir os motivos de suas presenças no campo de batalha, talvez para ‘expiar’ os erros dos poderosos, protegidos em seus palácios dourados.”.

Servenière aborda a seguir aspecto fulcral que atinge parte considerável da juventude, a alienação. Há poucos meses assistimos, pelos noticiários de TV, à absoluta falta de diretriz de quantidade apreciável de jovens alienados, acampados durante meses em barracas ao lado de um Estádio de Futebol. Meses perdidos à espera de um “cantor” do hemisfério norte, igualmente quase imberbe, pois esses brasileiros vindos dos mais variados rincões tinham de se postar na arena bem em frente ao “ídolo” desafinado. Mas a afinação acurada importa?

Continua o pensador francês: “Se os jovens conhecessem a história, revoltar-se-iam contra a constância de seus ascendentes em querer sacrificá-los em combate. Contudo, paradoxo trágico de nosso tempo, as novas gerações, pacificadas pela cultura, não mais têm a força de ir à luta para defender as fronteiras, deixando as portas abertas para que invasores determinados fixem posições, acabando por reivindicar o poder pelas urnas, processo menos violento… Processos não violentos, subreptícios, que jamais vingaram, pois todo processo de invasão não desejada de um território termina em catástrofe. Em todos os lugares do mundo.

São sempre as mesmas palavras e os mesmos males face à falta de coragem dos que decidem, dirigentes fracos (escolhidos à imagem de seu povo) e animados por desejos espúrios: a reeleição, as vantagens, a corrupção embutida e seus lugares confortáveis”. Não seria esse o quadro atual de nosso país atolado num lamaçal, mercê de governos que nos levaram ao pântano neste início do século?”. Servenière continua: “Parcela do povo grita ‘vivam os dirigentes fortes!’ E assistimos às consequências: milhares e milhares de cadáveres. Os cadáveres das guerras não seriam produtos da fraqueza ou da força do poder? Complexa questão filosófica, cujo alpha não consegui desvendar, tampouco o omega. Enquanto certas ideologias ulteriores do século XX querem liberar o homem de suas correntes, inversamente cerceiam-no em processos de perda da liberdade ainda mais virulentos, sendo que, em consequência da aplicação drástica de ideologias mortíferas, criou-se a legislação a condenar os ‘crimes contra a humanidade’

A partir de frase de Georges Benjamin Clémenceau (1841-1929), Servenière aborda a seguir fato concreto que assola grande parte da juventude: “É necessário um pouco de ordem e um pouco de desordem”. Segundo o compositor e pensador francês, referindo-se a esses jovens: “revoltam-se naturalmente, a fim de fixar seus territórios, contra a autoridade do pai, contra a ordem estabelecida. Como toda geração, eles têm a flama em suas lutas pela vida, como nós a tivemos. Todavia, reproduzirão o mesmo esquema educativo e coercitivo para com seus filhos e assim perpetuam o processo… ‘Tudo deve se transformar para que nada mude’. Vocês, brasileiros, têm um pé sobre cada campo: ‘ordem e progresso’, tradicionalmente direita e esquerda… que simbolizam nossa situação corporal instalada sobre dois pés, dirigida por dois cérebros. Não empregamos em França a fórmula metafórica ‘o coração à esquerda e a carteira à direita’ para exprimir essa dualidade existente? Têm graça a política e a filosofia! Os debates não são novos e se reproduzem a cada geração desde o advento da espécie humana, e muito antes entre os animais, cujos comportamentos adotam situações de submissão e de autoridade, de luta pelo poder, mas também de sabedoria e de instinto acurado… Malgrado os grandes pensadores que se ‘debruçaram’ sobre tais questões universais, as conjunturas sucessivas não fazem mais que reproduzir aos movimentos do balanço à mercê dos eventos que se sucedem. E como o desequilíbrio permanente, à imagem das forças estelares dos Éthers de l’Infini, é característico da sociologia humana, nossas respostas sociais e políticas são sempre as mesmas, idênticas… Sucedem-se umas às outras: ‘remetamos em ordem toda essa desordem’, e após, ‘remetamos um pouco de desordem nessa ordem plena’, parecem-me os mecanismos sociais automaticamente correntes… E assim até o fim dos tempos… Nosso espírito não estaria em permanente dialética a confrontar necessidades vitais: descongestionar a ordem em nossa cabeça e em nosso corpo; posteriormente tentar restabelecer a ordem nos pensamentos e atos confusos que nos assolam? A partir dessa dualidade, aprendemos que não há nenhuma posição congelada em nossas ideias e atos, e sim situações transitórias à imagem do balanço permanente da vida e suas manifestações, como ocorre com os ciclos multiformes da natureza. Em minha obra pianística Rhythmics and Repetitives busquei ‘fundamentar’ essas ideias e propósitos.

Numa outra abordagem, verificamos ainda hoje o processo orweliano através da internet: a mensagem progressista e libertadora ‘parece’ atraente e o controle das massas, assustador. George Orwell (1903-1950) em seu romance Nineteen Eighty Four (publicado em 1949) já preconizaria que os antagonismos filosóficos estão misturados na cabeça dos humanos para fazê-los perder sua referências ancestrais, como numa sociedade imaginária onde se diz ao indivíduo: ‘A paz é a guerra’.

Diria também que, nesse processo voluntário de mentira generalizada propalada nos discursos políticos de hoje, mesmo em França, pátria da literatura, onde as palavras deveriam ter significado claro, os homens voltados públicos dizem sempre o contrário. Inclusive, podemos constatar entre os mais virtuosos entre eles, aqueles da última geração, que expõem na primeira parte de uma fala, uma ideia e, ‘logo a seguir’, se desdizem sem qualquer rubor. Prática feita para agradar a categorias de eleitores, todas as cabeças, lunáticos ou solares… A cada um a escolha. Enfim, todos acabam decepcionados, pois os polos sul e norte, até segunda ordem, não estão situados no mesmo endereço. Na realidade, a vida é feita de escolhas. Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) predisse as consequências desses processos mentais deformados pela ideologia da mentira: ‘Deus ri dos homens que lamentam os efeitos, consequências das causas que eles admiram’. Não seria a mentira a ‘técnica’ absoluta empregada por políticos e empresários brasileiros, corruptos e corruptores, a fim de negarem peremptoriamente quaisquer práticas ilícitas?
Servenière finaliza: “Pensemos na complexidade das almas e dos equilíbrios humanos através das gerações, impulsionando o progresso do ideal humano: ‘Liberdade do pensamento e de expressão nas sociedades cada vez mais seguras’. Vasto programa! Esse último artefato histórico das ‘sociedades seguras’ contém o germe dos perigos de uma nova ditadura mundial, tal qual preconizada por Orwell e Aldous Leonard Huxley (1894-1963), via internet e suas derivantes… O melhor dos mundos… Não obstante, o perigo nunca está distante ‘O combate não tem fim’ é o próprio fim, apesar de que a vida não é feita que de combates… Almejamos todos a paz, no nosso de profundis, entendendo-se todas as aspirações individuais rigorosamente humanas: família, Nação, lei, amor, respeito, ordem virtude, igualdade, liberdade e fraternidade”. (tradução: J.E.M.)

Once again I publish reflections of the French composer François Servenière after reading the post “Berezina”, this time addressing issues such as weakness and corruption of decision makers, the seeds of dictatorial governments spreading around the globe, youth alienation, the dangers of ignoring the lessons of History and the links between past and present.

 

E novo livro de poemas de Ives Gandra da Silva Martins

Eu não quero ter poder
mas apenas liberdade
de falar aos do poder
do que entenda ser verdade.
Agostinho da Silva

No meio de uma tarde aprazível estava a estudar piano para próximas apresentações quando atendo à campainha e recebo um pacote vindo do escritório de meu irmão, o ilustre jurista Ives Gandra Martins. Abro-o e sou contemplado com dois presentes: a placa miniaturizada da existente  na confluência das avenidas Juscelino Kubistchek e Nações Unidas, que leva o nome de meu pai,  assim como um livro de poesias do Ives, dedicado à sua esposa Ruth.

Em blog recente escrevi sobre a Praça José da Silva Martins (vide blog “Em torno de uma praça”, 04/02/2017). Foi-lhe dado o nome de meu pai, José da Silva Martins, mercê principalmente de sua atividade literária iniciada aos 86 anos, que resultou em sete livros publicados até sua morte em 2.000, aos 102 anos. Há cerca de uma década as placas haviam desaparecido. Cartas que escrevemos, Ives e eu, aos últimos prefeitos da cidade resultaram no silêncio absoluto dos alcaides. Empossado o prefeito João Dória Junior, voltei a escrever missiva, novamente endossada pelo Ives, reivindicando o nome da praça que poderia, pela proposta aprovada de algum vereador de plantão, mudar de nome, pois a memória curta tem sido um dos entraves em nosso país. Dez dias após recebíamos a comunicação de que as placas novas haviam sido colocadas nessa praça, ora revitalizada após a construção do Shopping JK Iguatemi e a urbanização do Parque do Povo. Fui pessoalmente ao centro da cidade levar uma outra carta de agradecimento ao prefeito e o último livro de meu pai, “Breviário de Meditação”, publicado poucos meses antes de seu falecimento. O portador foi um jovem amigo, Pedro Flesch Fortes, neto de meu saudoso vizinho Walter Flesch. Pessoalmente entregou ao prefeito João Dória o livro e alguns CDs meus.

Qual não foi nossa surpresa – dos quatro filhos de José da Silva Martins – ao recebermos essa bela lembrança que nos sensibilizou muito. Fica neste post registrado o agradecimento de Ives, José Paulo, João Carlos e o meu ao Prefeito João Dória e à sua equipe da CET.

O segundo presente foi o livro de meu irmão Ives contendo 101 poemas para sua esposa Ruth. Tem-se 24 Sonetos Octogenários e 77 Haicais Brasileiros (São Paulo, Giordano – Pax &  Spes, 2017). Nele, Ives prossegue no culto à mulher amada com quem, desde o namoro, noivado e casamento convive há 64 anos!

Em soneto que lhe é dedicado tem-se:

Torna a velhice tudo mais difícil,
A inteligência morna e já sem brilho.
Outrora meu andar, próprio de um míssil,
Hoje parece trem fora de trilho.

O coração, porém, por ti querida,
Não segue, sendo moço, este caminho.
Tu mantiveste aceso em minha vida
O constante calor de teu carinho.

Do Senhor a vontade eu desconheço,
O tempo que dará para nós dois.
O tempo que nos deu já não tem preço,
Mas sempre espero ter tempo depois.

Sou grato a Deus o que me resta ainda
De ter-te de meu lado, calma e linda.

Mencionaria alguns haicais:

IV
Ó minha Ruth,
Que meu coração
Sempre te escute.

VII
Antigos beijos
Sangram passadas lembranças,
Quantos desejos.

XXIX
Desde o ventre,
Amei-te minha amada
Para  sempre.

Escreveria em Maio de 2015: “Quantos livros escrevi? /  Não me lembro, foram tantos, / Alguns foram para ti, / Repletos de alegres cantos”.

Certo dia disse ao irmão que, com certeza, a quantidade de poemas sinceros dedicados à sua eleita não encontra paralelo na história da literatura. Anos atrás Ives entrou para o Guiness Book, após escrever durante um ano um soneto diário. Foram quatro volumes magnificamente ilustrados pelo saudoso amigo e artista plástico Luca Vitali (1940-2013). Nesses, há também uma série de poesias dedicadas a Ruth, assim como em sua vasta bibliografia poética. Creio que deverá brevemente ter, nesse conhecido livro de recordes de toda espécie, mais uma citação. Na realidade, há que se louvar tão imensa devoção àquela que, em todas essas décadas, acompanha com carinho e dedicação seus passos por este planeta tão conturbado, em que as relações amorosas tendem a estiolar-se cada vez mais rapidamente, embora entendidas, a princípio, como perenes. À primeira tormenta tantos laços se desfazem, pois os protagonistas dos desenlaces não apreendem que o convívio de um casal está sujeito a tempestades e bonanças. As cicatrizes serão a afirmação de que feridas foram curadas, testemunhando a caminhada. A não ser que fatos graves motivem rupturas e a tolerância, hélas, desapareça, há que se elogiar a continuidade sob a égide da amizade e, por que não, do amor. Retorno ao autor da epígrafe, o notável pensador português Agostinho da Silva: “O ideal da vida deve ser acima de tudo a serenidade”.

On two gifts received last week: from São Paulo mayor, João Dória, a replica of the street sign of the public square named after my father and from my brother, the prominent jurist Ives Gandra, his last book, with poems dedicated to his wife.

 

 

O texto como respiração

Não mais tenho piedade de mim.
Todas as palavras que eu tinha de dizer
tranformaram-se em estrelas.
Guillaume Apollinaire

Atravesso o Atlântico. Olho para o relógio ainda no horário de Brasília. O ponteiro está a marcar os primeiros cinco minutos do dia 2 de Março, precisamente horário e data do longínquo 2007, data em que publiquei o primeiro post. Celebro a ocasião nas alturas, na solidão de um avião pleno, com um copo de plástico, inadequado para conter vinho tinto português, que sempre foi fiel amigo de meu saudoso pai ao longo da existência. Dizer que sinto algo, sim. O ronco abafado dos motores dimensiona surda alegria. Fosse jovem internético buscaria tirar uma selfie para guardar. Aos 78 anos, as lembranças são de outrora, bronzinas, soantes na imensidão das décadas acumuladas. D. Henrique Golland Trindade, meu padrinho de crisma, dizia para situações análogas, “santo orgulho”. Talvez sinta. Não passamos incólumes diante do tempo insubornável, mencionado pelo poeta Guerra Junqueiro. As marcas ficam, mormente se há constância na trajetória, vontade e prazer de depositar no computador o que vai na alma. Ela é infinita e, a depender do caminhar ininterrupto, manifesta-se através das reminiscências, da memória que ainda persiste em estar ligada a toda nova paisagem que o olhar perscruta. Dez anos sem ter perdido um sábado. Penso em meu pai, pois estou voando para suas terras. Dizia ele que não há férias quando se ama a causa. Para parcela das novas gerações e para os mais de 15.000 sindicatos existentes no Brasil, essa frase é inócua e preconceituosa. Talvez um dia a punam, como tantas outras hoje sujeitas a sérias censuras. Engessaram o livre pensar.

O blog faz parte de minha respiração tardia, como também o faz a música desde a infância. Amalgamam-se, o primeiro a externar o que navega na mente, a segunda presente diuturnamente como dádiva maior, apesar de serem gêmeos. Os dedos que caminham pelo teclado do piano só se diferenciam dos que percorrem o teclado do computador mercê  do número. Neste são só dois, que sempre insistiram, teimosa e egoisticamente, em serem apenas dois. Nada a fazer. Se as ideias sonoras pertencem ao universo encantador, razão básica de minha escolha, destilar o pensamento me agrada muito. Duas manifestações que se completam.

Pareceu-me tão rápido o escoamento da ampulheta. Estou a me lembrar dos dias que precederam o primeiro blog. No terraço de casa, meu fiel amigo Magnus Bardela, após um longo relato que fizera de uma história que presenciei, propõe-me a feitura de um blog para que outras tantas histórias arquivadas na mente descessem para o teclado. Já relatei o fato em blog que se encontra no calendário da década. Relutei com firmeza. Com a tranquilidade que lhe é peculiar, Magnus, que de meu brilhante aluno na Universidade de São Paulo passou a ser meu professor nessa intrincada área internética, foi ao meu computador e, sem que eu soubesse, criou um blog. Após, sorridente, comunicou-me o fato. Impasse. Comecei e, em dez anos, jamais um sábado ficou sem um post sobre tantos temas que me são caros: cotidiano, resenha de livros, impressões de viagens, corridas de rua e, a preponderar, a música.

Já observei anteriormente que os temas surgem durante os treinos para as provas do calendário de corridas e se organizam em parágrafos que ficam guardados na mente. Só adquirem vida nas madrugadas quando, sentado a digitar, descem da mente com celeridade,  sofrendo apenas uma leitura rápida à guisa de revisão. Envio o post à minha dileta amiga e vizinha Regina Pitta, que possui olhar de lince e não deixa passar determinados descuidos. Tinha razão o nosso grande compositor Henrique Oswald ao dizer que todo autor é mau revisor e que, entre todos, ele era o pior. O processo findo e escolhidas as imagens, preparo o material com data e horário marcados para publicação. Nesse limbo em que permanece durante uns poucos dias, ainda leio para minha mulher Regina. Ela ouve com atenção e tem quase sempre uma ou outra observação, tantas vezes pertinente.

Nesses dez anos ocorreu fato inusitado e enriquecedor. Nesse tempo tenho mantido correspondência ativa com o notável compositor e pensador francês François Servenière. Brevemente chegaremos a 2.000 páginas nas quais música, literatura, arte em geral e realidade de nossos países são temas que povoam nossas mensagens, arquivadas no Espace Professionnel de seu site. Tudo teve início em torno do insigne pianista Jean Doyen, meu professor em França e da professora de Servenière. Contudo, a troca de missivas eletrônicas tornou-se semanal, mercê dos  blogs. Servenière já lê e compreende bem nossa língua. Raramente deixa de tecer comentários sobre meus textos, substanciando-os com informações de seu acervo mental incomensurável. Tornou-se um parceiro, tantas são as vezes que Servenière tem visitado o blog com posições firmes e independentes.

Imprescindível a lembrança eterna de meu grande amigo e pintor de mérito, Luca Vitali, falecido em 2013. Ilustrou dezenas de blogs, sempre com alegria e prazer. A ilustração para este blog está em meus arquivos. Uma homenagem ao talento do Luca. No desenho e no presente voo não estaria a flutuar?

Os desígnios do Alto são misteriosos. Continuarei a escrever meus blogs amorosamente. Faz-me bem esse contato com o leitor que prestigia a coluna hebdomadária, a grande maioria anônima. Agradeço a fidelidade de todos os que estão a prestigiar a caminhada. Continuarei…

Estou a adormecer nesse longo voo, pois escrever em um tablet não é fácil. O leitor poderá se perguntar qual a razão da viagem. Farei parte de um júri de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa. Certamente o tema do próximo blog, que inicia novo decênio, será sobre a tese a ser defendida. Realmente o sono chegou…

On 2 March of this year my blog completes ten years of continuous existence. Writing this post as I fly across the Atlantic headed for Portugal, I reflect on the pleasure of posting an entry every week – a flow of ideas that come to me during my street races. In this post I recall the subjects that are dear to me, expressing gratitude for the services of those who, behind the scenes, help me in this endeavor. Thanks to all my readers!