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Sem a menor possibilidade de melhora

Hoy ya nadie es inculto o, mejor dicho, todos somos cultos.
Ahora todos somos cultos de alguna manera,
aunque no hayamos leído nunca un libro,
ni visitado una exposición de pintura, escuchado un concierto,
ni adquirido algunas nociones básicas de los conocimientos humanísticos,
científicos y tecnológicos del mundo em que vivimos.
Mario Vargas Llosa
(“La Civilización del espectáculo” 2012)

O acúmulo das décadas tende a acurar a observação, realidade multidirecionada a depender do conteúdo de impactos diários que interferem na apreciação. Nas áreas em que o humano atua, transformações naturais, no decorrer dos decênios, servem de balizamento no todo. Poder-se-ia dizer que a observação, essa qualidade benfazeja, acentuada com o passar dos anos, preferencialmente conduz a um saudosismo. É natural, sempre foi assim. Quantas e quantas vezes a frase “No meu tempo…” é dita para atribuir vantagens ao passado que não mais volta? Sim, temos de nos adequar. Tenho como exemplo meu saudoso pai, que, ao completar 100 anos, comprou um computador, escrevendo na nova engenhoca seu sétimo livro, que deveria ser lançado uma semana após uma queda que sofreria e que o levaria ao óbito meses após. Sua observação era diariamente atualizada. Creio que exceção absoluta.

Não compro jornais e revistas há mais de 20 anos, acompanhando online o noticiário de nosso país, assim como o internacional. Cada cidadão sabe onde encontrar o que lhe interessa. Essa prática possibilita uma “atualização” constante, e o fato de ler artigos de múltiplas tendências corrobora a formação opinativa.

Lê-se sempre mais acentuadamente, nos principais provedores de internet, o pretenso debate ideológico. Majoritariamente enfadonho, pois dirigido e supertendencioso, a depender da orientação dirigente. Não se debate, opina-se de acordo com enraizadas ideologias. Rarissimamente há textos isentos. Triste realidade a acometer jornalistas que não conseguem ser imparciais. Sem falar em periodistas camaleões, louvadores de determinada tendência e que partem para outra posição bem oposta sem o menor rubor. Nesta instalados, insistem à exaustão, a denegrir determinado personagem da política ou do judiciário, antes louvado.

Ao escrever que a cultura erudita estava num declínio sem volta, Mario Vargas Lhosa, em “La Civilización del Espectáculo”, apenas conceitua triste realidade que está a se acentuar de maneira vertiginosa. Estou a me lembrar do competente acadêmico Nilo Scalzo (1929-2007), editor-chefe do Suplemento Literário e do Suplemento Cultural – Suplemento Cultura de “O Estado de São Paulo”. Colaborei de 1980 a 1990 com artigos agendados bem previamente. Nilo Scalzo reunia sua equipe para pautar matérias que deveriam ser publicadas no ano seguinte, geralmente a contemplar efemérides significativas nas várias áreas, a abranger literatura, artes, música, ciência… Quando entendia fato relevante indispensável, ponderava eu na reunião que precisaria de três páginas, a fim de ter espaço necessário à temática. Nilo Scalzo aquiescia e foram vários meus artigos nessa dimensão em Suplemento que era semanal e robusto. Minhas colaborações foram publicadas no livro “Encontros sob Música”, (Belém, Cejup, 1990), tendo eu a honra de ter sido prefaciado pelo saudoso Nilo Scalzo.

A menção a esse período poderia parecer ao leitor nostálgica de minha parte. Como não entender como hecatombe o que se lê nos principais provedores de internet? No noticiário fundamental, a apontar importância de determinado acontecimento, geralmente político-judiciário, com espaço nem sempre à altura do fato em si, anexam besteirol ilimitado dos chamados “famosos”, personagens que pululam em profusão, geralmente incensados pela insensatez de seus atos insignificantes, mas que os provedores sabem ser destino certo de milhões de seguidores enfeitiçados pelos “iluminados” por possantes holofotes. Despreza-se a Cultura com C maiúsculo, sim, em detrimento de superficialidades idiotizadas que acabam por destruir moral, costumes, família… Em nome da liberdade da comunicação, o que se vê é uma ilimitada visão a tornar o caricato, verdade; palavras de baixíssimo calão, naturalidade aplaudida; a distração da realidade, o divertimento duvidoso; a profusão de “possibilidades sexuais”, a divulgação do equívoco essencial, pois antinatural; a vestimenta destroçada, moda. Estou a me lembrar de comentário de meu ilustre amigo, o musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso. Em Oeiras, Portugal, ao ver passar por nós uma mulher com jeans rasgado, moda presente e altamente aceita, comentou: “Trata-se de uma ofensa aos pobres”. Completou “um necessitado prefere receber uma calça bem velha, mas rasgada é um escárnio”. Sinal dos tempos. Creio que doravante ainda assistiremos degringoladas mais acentuadas. O tempo infalível.

This post addresses the poor quality of mainstream media reports, which favor sensational journalism — especially accounts of the private life of public figures — over substantive stuff. If gossip, scandal and banalities are what people want, that’s what the media gives them, it’s part of the business. My pessimism about today’s society has only gotten worse with time and I believe the decadence of Culture with a capital C has reached a point of no return.

A partir de um fragmento

E, entretanto, é possível que nada mude na vida que vemos;
mas seria isso a única coisa que importa,
não existimos verdadeiramente
que pelos atos que podemos ter em mãos,
como as pedras da grande estrada?
Maurice Maeterlinck

Estava a pensar em texto que escrevi bem anteriormente (vide “A comunhão das Pedras”, 20/03/07). Nele salientava meu encantamento pela reunião das pedras irregulares que, agrupadas cuidadosamente, erigiram um templo. A torre da Capela Saint-Hilarius, em Mullem, é toda em pedras, que se justapõem em harmonioso conjunto e lá estão há um milênio. Catedrais na Idade Média foram construídas por gerações de trabalhadores conhecedores de toda a técnica da construção. Nesses casos, basicamente foram erigidas com pedras regulares, magnificamente talhadas e nesse encaixe perfeito são admiradas até o presente. Fervor que passava de pai para filho nesse difícil mister de erigir catedrais. Sabiam os que iniciaram os trabalhos que pósteros continuariam a edificação. Alguns, entre legião de trabalhadores anônimos, deixaram nas partes internas das paredes seus nomes ou o de suas amadas. Monumentos de fé que guardam longo segmento da história ocidental.

O pensamento voltado à Capela Saint-Hilarius tem razões profundas. Há duas décadas lá tenho realizado minhas gravações, sempre sob a direção de um dos mais experientes engenheiros de som do planeta, Johan Kennivé. Regressarei a Mullem para a gravação de meu 25º CD, tema que será pormenorizado nos próximos blogs. A cada regresso ao Templo sinto essa comunhão que positiva a reflexão e a espontaneidade das mensagens que serão registradas pelos microfones atentos. Sei que contarei com as melhores condições possíveis. Já fui convidado para integrar lista de pianistas para gravar por selo mundialmente reconhecido. Contudo, dirigentes escolheriam a cidade, o engenheiro de som e o autor do texto dos CDs. Testemunhas assistiram à cena. Recusei diplomaticamente. Saint Hilarius é meu refúgio musical e espiritual, Johan Kennivé, o excepcional engenheiro de som, e o piano, sempre impecável.

Consultei o texto mencionado de Março de 2007. Escrevia após uma de minhas gravações: “Fico a pensar nessa comunhão das pedras. Durante mil anos elas contemplaram a vida e a morte. Sinto-me um privilegiado. Estar a repartir os sons que busco desde sempre com as pedras místicas, que juntas formam a capela de Saint-Hilarius, é um bálsamo. Não por acaso, ao tocar, meus olhos dirigem-se a esse interior mágico”.

O que me leva a pensar nesse congraçamento das pedras, motivo sempre de reflexão, é a destinação de pedras e pedras. As denominadas “nobres” saem de blocos informes e são lapidadas por ourives, verdadeiros artistas que atingem o âmago da pedra, burilando-a e dando à gema preciosa determinada forma. Essa pedra, após cravação, ornará em diversas montagens anéis, colares e outros adornos femininos.

A pedra extraída de gigantescas pedreiras têm incontáveis destinações e dimensões. Através da história, foram trabalhadas desde a Antiguidade, tanto em blocos enormes como nas dimensões menores. Sempre as admiro nos mais diferentes formatos.

Meu dileto amigo e musicólogo de mérito, José Maria Pedrosa Cardoso, e eu caminhávamos no ano passado pelos jardins de Oeiras, bem perto de sua morada em Portugal, quando comentávamos que as pedras que ornam as calçadas portuguesas têm um formato que, transplantado para o Brasil, aqui teve aceitação e, não sem razão, essas calçadas assim revestidas receberiam o nome “portuguesas”. Durante nossas andanças encontrei na sarjeta duas desgarradas em forma de “cubo”. Para espanto de meu amigo, recolhi-as e coloquei-as em minha pequena mochila.

Esses dois fragmentos, semelhantes às nossas pedras “portuguesas” difundidas nos calçadões, têm significado. Uma das pedras está sobre meu piano de estudos e a outra dei-a à neta Valentina, que aguarda de minhas viagens não uma peça artesanal com fins comerciais, mas algo que represente a essência viva da tradição de um povo. Já tem mínima coleção de “coisas”. Poder-se-ia ampliar o conceito e entender essas pedras como um dos muitos símbolos de uma nação. Quem não as conhece em Portugal? Valentina sabe que eu tenho mais apreço por esses símbolos do que por objetos com destinação à gigantesca legião de turistas.

Lembrei-me de inserir, nas várias faces do cubo irregular sobre meu piano, frases sobre pedras de escritores que sobrevoavam minha mente: Saint-Exupéry, Hermann Hesse, Somerset Maugham… e outras tantas na pedra da Valentina.

Ao vê-la sobre o piano, o amigo Jorge me perguntou: “mas ela é igual às milhões que encontramos em nossas calçadas no Brasil”. Pode bem ser, mas as duas pedras em questão atravessaram o Atlântico para ter um significado que vai bem além. Essas pedras testemunharam o ato de terem sido recolhidas e adotadas, pois certamente pertenciam a alguma calçada. Foram talhadas com muito labor por mãos operosas de experientes trabalhadores. Agrupadas como em jogo de puzzle, quantas não foram as posteriores centenas de milhares de passadas sobre elas? Ao longo da existência, Portugal e sua cultura como um todo pertencem ao meu universo de afetos.

No próximo blog comentarei o repertório escolhido para a gravação na Capela de Saint-Hilarius em Mullem e o recital que darei na pequena cidade, no dia anterior às gravações, com as obras que serão registradas. Desde 1999 tenho assim agido. As reações são diferentes diante do público e dos microfones. O importante é encontrar o amálgama. E ele se dá.

On stones — of the Saint-Hilarius chapel, of European cathedrals, of the Portuguese pavements —, their mysticism and relation to my return to Mullem to record my 25th CD.

A partir de silêncios mediáticos

É-nos dado constatar que a indústria cultural moderna,
tendo hoje a regência-mor da comunicação audiovisual que equaliza,
em todo o território nacional, gostos e costumes; práticas e modismos;
aceitação ou rejeição; o que se deve ouvir, ver e ler,
estabelecerá cada vez mais acentuadamente
os seus tentáculos ditatoriais de padrões normativos.
(Extraído de uma Aula Magna – 1993)

Recebi muitas mensagens mencionando o desconhecimento da morte do notável pianista Fernando Lopes. Uns poucos sabiam do falecimento, mas pela transmissão de amigos e colegas. Assim como alguns luminares da interpretação que se foram são lembrados até calorosamente por apreciadores da música erudita através das gravações, Fernando se incorpora a esse grupo seleto, pois legou execuções que já se tornaram históricas, como as Cartas Celestes de Almeida Prado e a integral dos Concertos para piano e orquestra de Villa-Lobos.

Meu amigo Gustavo, engenheiro e violinista amador, após elogios a Fernando Lopes, fixou perguntas que ouvi em café próximo de minha casa, local em que ficamos por bons momentos. A beirar os 40 anos de idade, diz não mais suportar os principais provedores, espaço que antes apreciava, depois de ter abandonado noticiários e programação da TV aberta. Lamenta profundamente o descaso de provedores e da TV aberta que abandonaram a divulgação de entrevistas e programação da música erudita. Curiosamente, em determinado momento disse-me que da TV Globo apenas se salvava o Globo Rural aos domingos. Fiquei surpreso, pois é o único programa a que assisto da Rede Globo, durante o café da manhã e antes dos treinos para as corridas, apesar de jamais ter tido uma denominada “vida rural”. Muito bem produzido, abrangendo entrevistas no Brasil inteiro, focaliza todos os aspectos de nosso universo rural de maneira bem agradável e instrutiva, com ótimos apresentadores que não buscam holofotes. Dessa Rede não consigo mais assistir a nenhum outro programa. Entre aqueles oferecidos pela TV por assinatura ainda vejo uns poucos, alguns com raro prazer, mormente documentários.

Gustavo entende tudo de computação, enquanto eu sou uma verdadeira toupeira, conseguindo apenas publicar meus blogs semanais, ler e responder aos e-mails recebidos e, após visitação a alguns provedores com o cuidado necessário, filtrar o noticiário que me interessa que, infelizmente, está sempre misturado à lama que cito no blog anterior. Sites de jornais da França e da Inglaterra são lidos mais naturalmente, pois não há esse amálgama indigesto.

Tendo também apreciado o final do texto precedente, Gustavo não mais acredita em uma reviravolta a trazer a Cultura erudita novamente à divulgação ampla.

Sob outra égide, entendo igualmente que não mais há retorno, pois  a engrenagem empresarial voltada aos grandes eventos de entretenimento e à internet, a cada momento mais devoradora, leva a juventude, preferencialmente, a não mais refletir, a distanciar-se da decantação que conduz à dedução e a resultados, a entender a língua escrita como um código mediocremente reduzido, pois esses jovens se adequam às abreviações das palavras quando em comunicação através dos antigos celulares que, hoje, adquiriram denominações mais complexas. A abreviação carrega consigo a voluntária falta de interesse pela escrita correta e o que se vê é uma verdadeira barbaridade. Twitter, Whatsapp, Instagran e outros mais aplicativos são reducionistas e agem na mente de jovens despreparados culturalmente de maneira devastadora. Essa abreviação voluntária elimina a reflexão e estimula a comunicação de um cotidiano banal.

Estava em um coletivo dias atrás e, sentado, observava cidadãos ao meu redor. Contei, apenas num flash, dezesseis pessoas lendo ou vendo algo em seus “celulares”. Estavam na faixa que se estende dos 15 aos 40 anos. Como  sentara-me em cadeira isolada mais alta, de costas para o motorista e quase em frente ao cobrador, tinha uma visão panorâmica do ônibus tri-articulado. Daquilo que pude ver, apenas uma senhora sexagenária e um senhor mais ao fundo, esse septuagenário, não acessavam nada. Ninguém lia, nem que fosse um panfleto. Alguns desses passageiros não desgrudavam seus olhos da telinha e quando enviavam mensagens escritas o faziam com extrema agilidade digital. Dois conversaram com fone de ouvido ininterruptamente da Av. Paulista à minha cidade bairro Brooklin-Campo Belo (cerca de 35 minutos para o trajeto).

Num outro contexto, os meios de comunicação propagam com ênfase a visita de bandas que aportam em nossas terras para shows com “celebridades” de vários gêneros pretensamente musicais, mas certamente muito barulhentos, e meses antes os ingressos para as Arenas imensas já estão vendidos a preço de ouro. Filas se formam, acampamentos são montados meses, semanas, dias antes do ensurdecedor evento e essa juventude à deriva clama que se não conseguir assistir a esses megashows, prefere morrer!!! Uma reportagem televisiva colheu entrevistas nesse sentido. Fato. A tragédia não está estampada nessas pretensas mortes, mas na origem originária que propiciou chegarmos a esse ponto. Agregam-se a esta o descompromisso com os estudos, a alienação, o compartilhamento entre partícipes da mesma incultura e, tantas vezes, a mortífera droga. O Estado oculta-se. Sob outra égide, o exemplo vivo dos “astros” dessa modalidade pseudomusical teriam, assim como outros de áreas esportivas o fazem, influenciado a legião de jovens, a encontrar na tatuagem uma possibilidade de identidade, uma fuga do anonimato.

Escrevi ultimamente que pequenas salas ainda abrigam recitais de música erudita, contrastando com teatros maiores, que seguem a rotina das Sociedades de Concerto. Essas salas de resistência bem menores corroboram o pulsar cultural. São várias as causas do declínio da música erudita entre os jovens: familiar, social, proliferação da internet que, à mercê das corporações interessadas financeiramente nesse vasto universo juvenil, estão a destruir raízes que se mostravam firmes. Jovens e adultos minimamente frequentam salas de concerto e o público reduzido – comparado ao que vai a espetáculos pop – atesta o desalento.

Casal amigo que encontro por vezes nos supermercados apresentou-me o filho com pouco mais de 15 anos. Conversamos e perguntei-lhe a certa altura se gostava de leitura. Em dado momento, mencionei o livro “Cuore”, de Edmondo de Amicis, lido por muitas gerações. Mostrou-se discretamente interessado e prometi entregar-lhe meu exemplar no dia seguinte. Compareceu na hora marcada no mesmo estabelecimento. Ao entregar-lhe, imediatamente disse que não leria um livro tão velho, pois minha edição é antiga e as folhas estão bem amareladas. Desejei-lhe boa sorte em seus estudos e vi nessa atitude um sinal desse distanciamento irreversível da juventude atual com o antigo. Sessenta e cinco anos antes, ao receber um livro antigo interessava-me inicialmente o conteúdo e as velhas folhas, via-as até com simpatia.

O prezado leitor a essa altura julgar-me-ia cético, pessimista, inconformado. Diria a todos, apenas um observador, nada mais. Contudo, a corroborar esse possível posicionamento, mencionaria uma amiga que recentemente leu a Aula Magna que proferi na Universidade de São Paulo após me tornar Professor Titular, “A cultura musical erudita na universidade: refúgio, resistência, expectativas” (Anfiteatro de Convenções e Congressos da USP, 4 de Março de 1993). Disse-me ela: “Você tinha mais esperanças”. Talvez tenha razão.

A brief assessment of some aspects of the cultural industry impact on society: alienation, exaggerated consumerism, non-commitment to learning, despise for art forms that belong to tradition, here included the shrinking relevancy of classical music among the new generations. My pessimism about today’s society has only gotten worse with time and I have no hope the situation will turn around.