Navegando Posts em Cotidiano

Quando temas que se mantinham silenciosos afloram

“Um livro atirado ao público
equivale a um filho atirado à roda.
Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte.
Que seja feliz é o que eu lhe desejo;
mas se o não for, também não verterei uma lágrima”.
Guerra Junqueiro
(Prefácio à segunda edição de “A velhice do Padre Eterno”)

Encontrar Marcelo é sempre a expectativa de ouvir perguntas ou sugestões que aguçam a mente. Das poucas vezes que o encontro na feira-livre de minha cidade bairro, Brooklin Campo Belo, as conversas se prolongam horas mais tarde em um café das cercanias. Prazerosamente fixamos encontro à tarde e as perguntas que ouvira pela manhã ganharam ênfase.

Marcelo é fiel leitor e, atento aos meus retornos à temática sobre interpretação e repertório, questionou-me sobre a tradição na composição e na literatura, assim como o tempo do intérprete musical ou do leitor de um livro frente à decifração (palavra sua) da partitura ou texto poético-literário, respectivamente. Pareceu-me mais uma proposta para aula do que um trocar opiniões enquanto estávamos degustando um curto e mais um.

O questionamento surgiu após a leitura de versos de Catherine Lechner-Reydellet publicados no blog anterior. Entendeu-os difíceis e, apesar de distantes de tendências poéticas tantas nesse bem mais de meio século, sabia-os ainda presos à tradição, mas difíceis de entendimento. Disse-lhe que também os achara difíceis e, como apontei em meu post, tive de lê-los mais de uma vez e tempo maior ainda dediquei a traduzi-los. Não obstante, em nenhum momento deixei de admirar a trama do pensar da autora nessa busca por apreender sua mensagem.

Inicialmente disse ao Marcelo que na literatura a transformação se daria no conteúdo e menos na organização das palavras. Dos meios de que dispõe o escritor, o léxico existente é fulcral e a organização do texto flui a obedecer, preferencialmente, ao que reza o preceito gramatical e ao “significado” dos vocábulos. Não obstante, a partir desse material há incontáveis maneiras de verter o que vai à mente. Tem-se o estilo, impressão digital que caracteriza o escritor de talento. Quanto à poesia, há muitas variações e quantas tendências não surgiram, estiolaram-se e ressurgiram sob outras vertentes nessas últimas décadas. Sem nomear poetas, quando uma tendência se instaura, seus “fundadores” se tornam, não poucas vezes, arautos de futuro inglório, pois processos são abandonados com o passar dos anos e a eles retornar não seria palatável para novéis vates em busca de novas diretrizes. A proliferação delas na poesia, nas artes visuais e na música nestes últimos decênios tem certa semelhança com o que se passou na bíblica Torre de Babel. No caso de Catherine Lechner-Reydellet, temos o poema a fluir em forma de texto literário e a separação que a autora faz das “linhas”, a separar conceitos que devem ser salientados, corresponde à respiração da leitura. Certamente a música deve ter influenciado, e muito, a autora, pois a respiração é imprescindível na nossa área musical e na poesia.

Ao me questionar sobre a composição e a interpretação, Marcelo aborda tema que foi objeto de blog anos atrás. Em sendo a Música a única arte a precisar do intérprete, mercê da notação musical – o texto teatral é acessível a qualquer leitor que se disponha a conhecê-lo -, ao executante cabe a tarefa do debruçamento exegético sobre a partitura. “Música, minha companheira desde os anos da infância”, frase do poeta português José Gomes Ferreira, sintetiza a escuta que acumula sons, formas, estilos e interpretações do repertório sacralizado. Tornar-se-ia evidente que esse acúmulo facilita o aprendizado nas várias fases da vida, pois obras estão armazenadas em nosso interior e mesmo a interpretação individual rarissimamente corresponderá a uma ruptura, pois há anos ou décadas está lacrada no cérebro, mercê de outras escutas. Seria mais complexo, certamente, quando a obra é contemporânea ou de um passado não redescoberto ou, ainda mais, parcialmente desvelada. Nesses casos o intérprete, ao ser o primeiro a desvendar a partitura, terá de criar a sua execução, que poderá ser guia para outras que virão, estudadas por outros músicos. Qual o seu ferramental? O legado do aprendizado e os novos aprendizados. Estou a me lembrar de dedicatória de nosso mais importante regente, Eleazar de Carvalho, na minha partitura de bolso da Sinfonia Júpiter (nº 41) de Mozart, da qual eu sempre gostei e que ele acabara de reger: “De um estudante para outro estudante. Eu, Eleazar de Carvalho, ele, José Eduardo” (segundo lustro dos anos 1950). Uma lição.

Tempo sacralizado para o criador e para o intérprete. Ao primeiro ele advém através da ideia – uns nomeiam inspiração – e o acervo adquirido na área musical determinará o fluxo para o papel pautado, hoje basicamente internético, e a composição vem à luz. Haendel, J.S. Bach, Mozart, Schubert, Liszt, Moussorgsky, entre muitos, eram rápidos na escritura. Ravel a cinzelava, retocando-a até que a composição estivesse do seu intento. Outros, como Pierre Boulez, buscavam numa versão outra ou outras a concretização de seu intento. E quanto ao intérprete, mormente o voltado à imensa produção tradicional? Ele é o eterno intermediário e sem ele a música estaria fixada apenas nas partituras. Ele a estuda preferencialmente desde tenros anos e, a continuar a trilha de uma carreira, sempre que repete determinada obra tem de reestudá-la, com menor intensidade, mas estudá-la. Se contarmos o tempo do compositor e de um intérprete, tranquilamente a este é destinado um maior debruçamento temporal sobre a obra criada. Contudo, frise-se, obra estudada desde a juventude já pode estar precedida pela escuta originária na infância. Permanece, pois. Esse pressuposto resulta numa maior familiaridade quando, pela primeira vez, a criação que perdurou pelas décadas ou séculos penetra no âmago do executante pelo olhar, pelo complexo processo mental, pelo digitar e pelo ouvir. Não obstante, ter sempre de retornar à partitura requer tempo e seria plausível entender que, ao longo de uma carreira, largamente o intérprete terá muito maior tempo de contato com a obra criada do que o compositor. Este, ao entregá-la a outrem, não mais terá controle sobre sua sorte, como reza a epígrafe do presente post.

Disse a Marcelo que, assim como com navegadores do passado, alpinistas ousados e aventureiros como Sylvain Tesson, que teve tantos livros resenhados neste espaço, o sentido da descoberta de criações coetâneas ou da redescoberta de partituras esquecidas, metaforicamente, pode ter passado pelo mesmo processo mental que leva à imperiosa necessidade de ousar. Se a imensa maioria dos intérpretes se repete, e isso é louvável, pois a permanência só subsiste através das centenárias escutas, também é de crucial importância o desbravar.

Marcelo ainda quis saber mais sobre tradição e escuta que vem da infância. Insistiu. Como se processaria esse amálgama? Comentei que a criança ou jovem que nasceu em berço propício à escuta da música erudita já teria ouvido parte essencial do repertório sacralizado. Acentuando os estudos, e sendo esse o repertório perpassado pela extensa maioria dos intérpretes – colegas ou consagrados executantes -, a escuta se sedimenta e essas obras entram automaticamente em sua mente. Estudá-las já tem a precedê-las essa escuta sedimentada e conservada. Diria que parte essencial do estudo de uma obra já está resolvida, pois a memória do que foi ouvido será ativada e até a interpretação fundamental – tradicional – já estabelece uma facilidade maior para o intérprete.

Fico sempre grato a Marcelo. É um questionador. Perguntas inteligentes são uma das mais importantes fórmulas para ativar mentes. Marcelo sabe como fazê-las.

Horas após a publicação deste post, o Professor Titular da FFLECH-USP Gildo Magalhães escreve-me sobre o tripé compositor-intérprete-ouvinte. Em blogs bem anteriores mencionei a importância da recepção da criação musical transmitida pelo executante e avaliada pelo ouvinte. Certamente teremos Ecos no próximo blog.

A chat with a friend was the starting point of this post, a reflection upon some aspects of music, such as tradition and rupture in musical writing; the relation between composer and his intermediary, the performer; the role of musical memory preceding the study of a new piece of music.

 

 

 

O tempo implacável a retardar respostas

Não corro como corria
Nem salto como saltava
Mas vejo mais do que via
E sonho mais que sonhava

Agostinho da Silva

Entre as inúmeras mensagens recebidas através do endereço eletrônico inserido no menu do meu blog muitas continham questionamentos. Anotei-os criteriosamente por categorias para respostas futuras em blocos. Busco no presente post atender às dúvidas e às questões formuladas pelos leitores.

Perguntam-me sobre a atividade musical, as preferências literárias, as corridas de rua, as viagens ao Exterior, o distanciamento das apresentações no Brasil, as gravações e até a política em nosso país… Mui dificilmente deixo de atender leitores, mormente se há questionamentos urgentes merecendo respostas imediatas por e-mail, e essas, nesse caso, saem logo após a recepção, pois mensagens se acumulam e o retorno à nova leitura torna-se quase sempre improvável. Ao se distanciar no tempo, tendem às calendas. Portanto, temas que me são caros quando questionados, mas que demandam um maior debruçamento, se não os respondo de imediato deixo-os numa lista de espera. Nesses quase 12 anos de blogs ininterruptos jamais recebi mensagem desinteressante e esse fato é reconfortante e fonte de estímulo.

Não foram poucas as mensagens lamentando a ausência das ilustrações do saudoso amigo e imenso artista Luca Vitali. Sinto muito a sua falta, pois foram dezenas de blogs que, após minha leitura durante nossos almoços às terças-feiras no Natural da Terra, tiveram charges plenas de humor, ironia e perspicácia do amigo artista. Deixou-nos em 2013. Lembrá-lo atende não apenas leitores sensíveis, como é singela homenagem que lhe presto. Sob outro patamar, elogios nunca cessaram às participações sábias do ilustre compositor e pensador francês François Servenière. Lê em França todos os blogs e incontáveis vezes inseri seus comentários. Formávamos um trio que permanece em nossas mentes. Os Études Cosmiques para piano de Servenière, que gravei na Bélgica e saíram em França pelo selo ESOLEM em 2017, estão no Youtube. Foram escritos a partir da monumental Série Cósmica, pintada (acrílico sobre tela) por Luca Vitali.

Basicamente as questões levantadas por leitores são concernentes aos temas espalhados em textos ao longo dos blogs, que tiveram início aos 2 de Março de 2007. O fato de ter, ao passar dos anos, recebido com enorme prazer a adesão crescente de leitores, implica, sob outro aspecto, o desconhecimento que novos seguidores do blog têm de temas abordados desde o início. Sem querer ser redundante, mas a buscar atender aos muitos novos leitores, respondo a várias perguntas sobre assuntos comentados nesse extenso período.

Questionam-me sobre minha ausência nas programações musicais, principalmente em São Paulo. Assiduamente me apresentava na cidade em que nasci, dos meados da década de 1950 aos anos 2000. São Paulo viveu estertores da efervescência cultural voltada à música erudita até dois ou três decênios após a metade do século. Naqueles tempos, a mídia estaria possivelmente descompromissada com o lucro advindo da ação cultural, concedendo espaços nos jornais e revistas ao que de fato interessava culturalmente à cidade, sem contrapartida. Estou a me lembrar que jamais, nas décadas em que mais atuei em São Paulo, jornais deixaram de publicar matérias, tantas vezes bem extensas, quando repertório mostrava-se relevante. Como tenho o hábito de tudo arquivar, as integrais (opera omnia) de Jean-Philippe Rameau (Auditório Itália, dois recitais em 1971) e de Claude Debussy (MASP, quatro recitais solo mais a integral para dois pianos com minha mulher Regina no Cultura Artística em 1982) mereceram ampla cobertura, gratuita diga-se, na Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde. Nessas apresentações, assim como nas das integrais das Sonatas Bíblicas de Johan Kuhnau (1972) e dos Estudos de Alexandre Scriabine (1977), ambas no MASP, havia público excedente sentado nas escadarias.

Não poucas vezes mencionei que na década de 1950 São Paulo tinha cerca de 13 críticos musicais, a maioria músicos-professores respeitáveis, como Caldeira Filho (“O Estado de São Paulo”), H.J.Koellreutter e L.C.Vinholes (“Diário de São Paulo”), Arthur Kauffmann (“Folha da Noite”), Dinorá de Carvalho (“Diário da Noite”), Cyro Monteiro Brizolla (“Correio Paulistano”), Diogo Pacheco (“O Tempo”), Odette de Faria (“Shopping News”), Lilly Wolff (“Jornal Alemão”), exemplos sensíves a serem destacados. Outros tempos, certamente. Em sendo músicos, frequentavam os recitais dos intérpretes consagrados, mas também dos jovens. Opinavam com competência, incentivando o jovem talento ou indicando que caminhos outros existem. A cidade cresceu desmesuradamente e, bem inversamente, desapareceria o crítico músico de ofício, conscientemente opinativo pois, salvo alguma possível exceção. Sob outra égide, espaços nos jornais dedicados ao pulsar musical erudito existente fora dos grandes holofotes parecem não ser mais a orientação da imprensa. Basicamente desapareceram.

Foi a partir de 1995 que iniciei, aos 57 anos, gravações, no Exterior. Essa atividade foi decisiva, pois nas mais perfeitas condições tecnológicas possíveis, delas constando a qualidade indiscutível dos engenheiros de som – o saudoso Atanas Baynov, na Bulgária, e Johan Kennivé, na Bélgica -, acústicas absolutas dos locais de gravação e pianos rigorosamente impecáveis. Priorizei, dessa época ao presente, as gravações, e o CD a ser gravado em Maio deste ano na Bélgica será o 25º, que, assim como os anteriores será lançado na Europa. Essa menção à gravação é importante, pois a partir dela o recital continuou como atividade amorosa e benfazeja, mas não mais como necessidade imperiosa da apresentação pública pela mera apresentação… Esta atitude fez com que me distanciasse um pouco do público, por opção pessoal, respeitando-o e sentindo o calor que ele transmite. Paralelamente, a realidade tem mostrado que o próprio recital de piano, sob o aspecto geral, ao não ser precedido de ampla divulgação – publicidade essa destinada aos nomes amplamente divulgados no Exterior que se apresentam na cidade, ou para os intérpretes pátrios com patrocínios vários, faz com que as récitas de intérpretes que ainda resistem à sensível queda de público cheguem a ter caráter heroico. Esse fato é real e a se lamentar. Se me apresento anualmente uma ou duas vezes em São Paulo, busco fazê-lo em salas que abrigam público não numeroso, mas fiel à tradição. Sinto-me feliz em poder dar meus recitais nessas salas.

Ao leitor diria que, na década de 1990, estávamos em Belém do Pará, a grande pianista Yara Bernette (1920-2002) – uma das maiores do Continente -, o excelente violoncelista Antônio Lauro Del Claro e eu para apresentações distintas. Reunidos no terraço do Hotel em que estávamos hospedados, Bernette observou, para nossa surpresa, que o recital de piano tinha prazo certo de existência. Bernette, que durante décadas viveu em Hamburgo onde se tornaria chefe da cadeira de piano da Escola Superior de Música e Arte Dramática, observou que, independentemente dos nomes mediáticos, a grande maioria dos intérpretes estaria confinada às salas menores, pois teatros e salas monumentais não mais a abrigaria. Posteriormente, a escritora e historiadora de arquitetura Victoria Newhouse, em seu livro Site and Sound, explicita pormenorizadamente a problemática das grandes salas, muitas delas não mais ocupadas na plenitude, e a real possibilidade das salas menores. Anualmente, as visitas a Portugal e Bélgica e outras à França levam-me às apresentações que me entusiasmam, a ter sempre público seletivo em salas que abrigam umas poucas centenas de ouvintes. Creio que a explanação estaria a responder aos questionamentos de inúmeros leitores.

Perguntaram-me sobre as resenhas e qual o motivo de preferências sensíveis, como música e aventuras. Sirvo-me de frase do poeta português José Gomes Ferreira, que observava: “Música, minha antiga companheira desde os ouvidos da infância”. Temas relacionados às aventuras e conquistas do homem através dos tempos também me apaixonavam desde a tenra idade. Eis duas temáticas que sempre foram prioridades nas minhas leituras, Logicamente, tantos outros livros abordando romance, filosofia, arte, literatura epistolar e outras mais permaneceram ao longo, despertando constante interesse. Desde os meus 10 anos habituei-me à leitura, incentivado pelo nosso saudoso pai. Fazia-nos ler, pois somos quatro irmãos, um capítulo de livro por ele escolhido, sempre a priorizar a melhor literatura, preferencialmente a portuguesa – cuidado com o estilo -, e tínhamos de redigir diariamente resumo do que líamos, em apenas uma página. O pai corrigia, atribuía avaliações e uns poucos cruzeiros (moeda da época) para as sinopses precisas, sem erros. Dizia ele que o espírito de síntese era fundamento essencial na leitura e na vida. Esses cruzeiros revertiam-se em livros, escolhidos doravante por cada um de nós nas visitas que fazíamos no último sábado do mês às livrarias do centro de São Paulo. Somavam-se esses cruzeiros a outros que eram atribuídos à escuta de LPs de música clássica que nosso pai adquiria mensalmente. Após a audição escrevíamos o nome do compositor numa papeleta e nem sempre acertávamos, pois o acerto vinha após detectarmos o período histórico e o criador da composição. Nosso pai chegou a ter 5.000 LPs!!! Essas considerações são necessárias, pois a leitura virou respiração e a audição de música, uma constante, principalmente após o advento do Youtube.

Três leitores indagam-me sobre a desativada equipe de corridas TA LENTOS e as causas de seu desaparecimento. Longe de ser uma equipe como tantas, organizada oficialmente, com treinos semanais e programação, a TA LENTOS reunia cerca de 10 amigos, a grande maioria descendente de japoneses, para encontros em corridas determinadas, entre elas as provas de revezamento da Ayrton Senna (Autódromo de Interlagos) e a do Pão de Açucar (Ibirapuera). Congraçamento. alegria contagiante e a permanência na arena durante toda a competição de revezamento que para nós, oito corredores, suplantava bem as quatro horas de duração. O meu ingresso deu-se em 2008. Após sessões de quimioterapia a que me submeti para tratar de um câncer que quase me levou aos anjinhos, continuei e continuo, hoje com visitas periódicas, a frequentar o consultório da mesma médica que me acompanha desde 2004, a competente hematologista e hemoterapeuta, Drª Ana Rita Burgos Manhani. Como chefe da enfermagem da clínica em que trabalhava a Drª Ana Rita, a enfermeira Cristina Ito, ao saber que passara a correr em 2008, convidou-me a ingressar na TA LENTOS. Foram anos muito felizes participando de corridas em São Paulo, Mogi das Cruzes e Osasco. Com o desligamento de alguns, a TA LENTOS perdeu o sentido, mas não o vínculo amistoso, pois constantemente encontro três corredores da equipe, o casal Américo-Regina Umeda e André Shigueo nas muitas corridas de rua existentes. Shigueo até hoje prestigia a TA LENTOS ao vestir a camisa da equipe com desenho jocoso realizado por Luca Vitali.

Outros leitores escrevem para que opine esporadicamente sobre política. Fi-lo pouquíssimas vezes. Há incontáveis articulistas e radialistas que tratam do tema de maneira competente. Contudo, segmento expressivo entre eles que, graças à carga repetitiva do discuso com nítida orientação, é detectado facilmente pelo leitor ou ouvinte atento. Quando percebo o “ranço” partidário, passo ao largo. Creio, todavia, que a corrupção endêmica, acentuada de maneira estratosférica no Brasil neste século, verdadeiro saque aos cofres públicos, terá uma diminuição sensível com os novos governantes, mas estará longe de desaparecer, pois enraizada nessa relação espúria político-empresário. Sob outro aspecto, o povo, razão essencial de uma nação, basicamente não mais crê em nossa Justiça. Triste fato.

Por fim, as mensagens estimulantes apenas acentuam a vontade de continuar a escrever, uma de minhas grandes alegrias. Desvinculado de quaisquer interesses relacionados a patrocínios, felizmente nunca buscados, o que me possibilita a total independência, prossigo aos 80 anos escrevendo com o mesmo prazer que me levava a redigir artigos para o jornal do Liceu Pasteur, “O Arauto”, na longínqua juventude, quando em bancos escolares. E os textos continuarão a fluir, assim espero.

In this post I reply to questions  frequently posed by readers: my musical engagements, reading choices, trips, recordings, races and even my political opinions. The messages received are a stimulus to go on writing, something I do with the same enthusiasm of the time I was a student at Liceu Pasteur and a “columnist” of “O Arauto”, the school newspaper.

 

 

 

 

 

Lembranças da atividade durante o ano que ora finda

Eu parto do princípio de que, quanto mais compreendemos, mais amamos;
mais amamos, mais admiramos;
mais admiramos, mais somos felizes.
Sacha Guitry

Não foram muitos os blogs dedicados à minha participação em corridas de rua. Geralmente reservo para o fim do ano algumas considerações a respeito, fugindo à regra quando fato inusitado me impede de abordar o tema. Comecei a correr em provas oficiais em Junho de 2008, aos 70 anos, e neste final de 2018 completei minha 176ª corrida de rua. À medida que adquiri mais endurance, apesar do avanço etário, aumentei minhas participações, sempre movido por intensa alegria em integrar-me aos milhares de corredores e ter feito, ao longo, amizades que se solidificaram. Estas foram surgindo naturalmente e a temática é sempre benfazeja, a tratar de performances, tempos e, a preponderar, o prazer da convivência naquelas horas precisas.

Neste ano foram 21 corridas de rua, sempre na atitude prazerosa de realizá-las, rever companheiros e acrescentar amizades que forçosamente surgem.

Geralmente meu amigo Carlos ou Batoré, para os que o conhecem nas corridas, é o companheiro ideal. Nos domingos de provas, antes de raiar o dia, lá está ele no portão de casa pronto para a corrida dominical. Companhia preciosa, Batoré adentrou a quinta década e corre muitíssimo mais rápido do que seu amigo matusalênico, que apesar disso, nunca andou durante corridas, exceção a uma competição de 10k no bairro do Pacaembu que compreendeu o Minhocão. Nos últimos 300 metros faltaram-me as pernas e tive de andar. Ao comentar o fato com o ilustre ortopedista Heitor Ulsson (vide blog: Cirurgia da mão – Rizartrose, 09/10/2010), quis o cirurgião saber antecedentes. Disse-lhe que, na noite anterior, dera recital de piano na Associação Eubiose e após jantara com amigos. Resumindo, dormi apenas uma hora e meia. A resposta veio a galope. Meus músculos não tiveram o mínimo repouso. Aprendi.

Há corridas e corridas. Algumas muito bem organizadas, outras nem tanto. Aos 80 anos, seleciono com cuidado as provas e seus percursos. Tenho evitado as corridas noturnas, pois as realizadas na USP, no Minhocão e na marginal do Rio Pinheiros têm pontos negros, pelo excesso de árvores encobrindo a iluminação ou algumas luzes queimadas, convidando corredores a quedas prováveis. Nada como o dia e o asfalto sem máculas. Algumas provas me agradam sobremaneira. Mencionaria: Clube Juventus, Monte Líbano, Olga Kos, Trigo, Superman, Cidade de São Paulo (Parque do Ibirapuera), Stock Running (no legendário autódromo de Interlagos), Longevidade (Bradesco Seguros – Ipiranga).

Episódio jocoso ocorreu na Corrida Superman. Os corredores receberam a camisa e uma capa vermelha. Muitos participaram com esse adendo. Corri com a camisa e, dias após a prova entreguei-a ao amigo Batoré, que não conseguira se inscrever a tempo. Não queria recebê-la, a dizer que serviria para meus treinos. Disse-lhe que participar com a camisa do super herói era plausível, pois a grande maioria assim procedeu, mas treinar pelas ruas do bairro seria certamente constrangedor. Batoré aceitou o argumento e a camisa, assim como a capa vermelha, para seu neto.

O fim de ano assinala uma corrida icônica no Brasil, a São Silvestre. Dela participei de 2008 a 2012, não me inscrevendo nas subsequentes, após a morte de Israel Cruz Jackson de Barros, o cadeirante que, ao descer a Rua Major Natanael, teve problemas com seu veículo, vindo a morrer. Após a São Silvestre de 2011 já vaticinava, infelizmente, que aquela descida não é para a extraordinária maioria de amadores participantes. Um grande corredor brasileiro do passado já me confessava àquela altura que essa descida é “criminosa” para a grande malta que pretende correr a prova. Presenciei na época pessoas que caíam. Todavia, interesses são interesses – tantas vezes estranhos e inconfessos – e o declive simpático da Avenida da Consolação foi definitivamente abandonado. Tiveram os organizadores da São Silvestre ao menos a gentileza de ter o nome de Israel Cruz Jackson de Barros inscrito em troféu a ser entregue aos vitoriosos anuais? Essa atitude não seria terem de confessar o inconfessável? Compreenda-se, jamais Israel teria morrido se a descida continuasse a ser realizada na agradabilíssima descida da Avenida da Consolação. No Direito Penal há configuração clara para situações onde não há a menor intenção para que a morte ocorra, mas ela pode ocorrer por imprudência, negligência ou imperícia. Se a morte advém por motivo natural, enfarto ou motivo outro, entendamos que faz parte de qualquer atividade esportiva. Daí a necessidade de todo corredor estar em dia com seus exames médicos periódicos: cardiológicos, densitometria óssea, pressão e outros pertinentes à prática esportiva. Assim mesmo, a fatalidade pode chegar.

Menciono a tragédia, pois integro a equipe Corre Brasil, capitaneada pelo excelente Professor Augusto César Fernandes de Paula e sua simpática esposa, Valquíria (Val). Todos os anos, a equipe realiza dois simulados da São Silvestre semanas antes do evento, domingo pela manhã. Um grupo de 100 corredores, aproximadamente. Nesses treinões desço a Av. da Consolação com alguns outros participantes, que preferem evitar a pirambeira da Major Natanael. Simulados prazerosos que desmitificam a divulgação da imprensa, que assinala sempre, digo sempre, através de locutores e escribas, que a subida da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, de pouco mais de 2km, é grande desafio. Por 12 vezes subi a Brigadeiro, cinco correndo a São Silvestre (2008-2012), sete a treinar. Aos domingos, subi-la na contramão na faixa dos ônibus é algo agradável, pois raros coletivos ou táxis descem a avenida e, ao deslumbrá-los, é só se deslocar para a calçada e logo após retornar à faixa reservada. Penso sempre nesse alarde concernente ao aclive da Brigadeiro, falso, diria, mas que está impregnado na mente do povo, que a vê como algo terrível e temível para o comum dos mortais. Diria que os treinos que a Corre Brasil realiza rumo ao Pico do Jaraguá (aclive incessante de 4,5km) é bem mais desafiador. Com prazer participo dessas subidas, bem mais tranquilas do que as descidas, por incrível que possa parecer, pois se aquelas podem até provocar outros problemas, a descida mal planejada compromete decididamente todo o intrincado mecanismo dos joelhos.

A Corre Brasil também organiza treinos periódicos no Parque do Ibirapuera aos domingos. Breve palestra, exercícios físicos em duas etapas, corrida pelo parque e quitutes posteriores servem para selar a confraternização. Tenho participado de quase todos esses treinos e fotos após os treinões selam momentos benfazejos.

Infelizmente, nossa primeira equipe, Ta Lentos, está desativada. Contudo, três da equipe ainda se encontram durante determinadas provas, como a recentíssima, dia 23 de Dezembro, no Autódromo de Interlagos. Um prazer reencontrá-los em São Paulo e nas corridas em Mogi das Cruzes.

Espero continuar a correr enquanto mente e pernas obedecerem. Meu amigo Antônio Lopes, no pórtico dos 91 anos, participa até de provas de meia maratona (21k). Um exemplo único na atualidade. É sempre bom revê-lo e verificar que suas passadas ritmadas, sem alterações, evidenciam o bem que proporciona a corrida de rua para a mente, o físico e a relação com a vida.

Desejo a todos os seguidores do blog um ano de 2019 pleno de realizações, saúde e paz. Almejamos, ao menos.

In the last post of 2018 I write about the pleasures of running and look back on the road races in which I took part: favorite routes, my running performance, the joys of meeting old friends and making new ones. Let’s hope in the year that now begins I’ll continue to have fun and enjoy the camaraderie of my teammates and other runners. I wish you all a New Year filled with promises of a brighter tomorrow.