Navegando Posts em Cotidiano

Frente ao Inevitável

Radiografia pré-operatória. Seta a indicar a articulação da base do polegar esquerdo. Clique para ampliar.

O estudo de piano necessita prolongados esforços.
Esses não implicam lutar contra a natureza.
Uma mão normal é feita para tocar piano
e todo pianista que não compartilha dessa convicção
é indigno de sua arte.

Marguerite Long (Le Piano de Margueite Long)

Ao estudar a integral dos Estudos para piano do grande compositor russo Alexander Scriabine (1872-1915), apresentando-a em 1977, deparei-me com um problema singular, a quase total inexistência da passagem do polegar em sua opera omnia para o instrumento. Ter-me debruçado sobre a totalidade da produção de Scriabine levou-me a considerar hipóteses que mereceram um laudo médico sur le tard.
No início dos anos 80 conversei com o Prof. Dr. Heitor Ulson, competente especialista de cirurgia da mão, sobre um mal do qual Scriabine teria sofrido em sua mão direita (1890), o que o impossibilitou, durante certo período, de tocar com as duas mãos e, posteriormente, utilizar de maneira a mais econômica possível a chamada passagem do polegar. O cirurgião aventou a possibilidade de o compositor russo ter sofrido do mal de De Quervain, síndrome descoberta por Fritz de Quervain (1868-1940), cirurgião suíço, mal este descrito em 1895 (tenossinovite do extensor e abdutor do polegar). Para artigo que redigi para revista especializada francesa, o Dr. Ulson escreveu esclarecedora nota de rodapé, a posicionar sua teoria (Quelques Aspects Comparatifs dans les Langages Pianistiques de Debussy et Scriabine. In: “Cahiers Debussy”, Paris, Centre de Documentation Claude Debussy, nouvelle série, nº 7-1983, pgs. 24-37). Apreendi através de colegas pianistas que mestres russos acataram nossas teorias e admitiriam posteriormente que não havia sido detectada até então essa particularidade do técnico-pianístico em Scriabine, ou seja, a sua quase que absoluta rejeição à passagem do polegar e, paradoxalmente, o emprego acentuado de grandes aberturas da mão direita e da esquerda (esta por analogia) em sua extraordinária criação. Sob aspecto outro, as citações bibliográficas voltadas à suposta inflamação da mão direita e datadas do final do século XIX ainda perduravam. A causa da provável inflamação, segundo consenso, foi provocada por estudos pianísticos excessivos. O jovem Scriabine teria sido, inclusive, tratado com óleo de rícino e frequentado estância termal.
Em meados dos anos 90 – à época, a beirar os sessenta anos – comecei a sentir dores nas articulações da bases dos polegares. Aconselhado por amigo, consultei reumatóloga conceituada. Após examinar pormenorizadamente minhas mãos, disse-me que já tocara muito em minha vida, sugerindo que, doravante, o ideal seria tocar apenas para meu deleite. Com a maior serenidade !!! Escusado dizer que levantei-me, paguei a consulta e deletei por completo o vaticínio contra natura de minhas intenções e índole.
Durante os estudos pianísticos observava, progressivamente, o mal se avantajar. Consultas abalizadas com o ilustre Dr. Heitor Ulson, primo irmão de minha mulher Regina, resultavam sempre no esclarecimento a levar-me à certeza da intervenção cirúrgica. Fatalmente ela iria ocorrer. Tivera experiência outra quando, no final dos anos 80, o Dr. Ulson me operou de uma tenossinovite estenosante (dedo em gatilho), com amplo sucesso. Contudo, no mal que progredia nos polegares, eu só sabia protelar. Gravações no Exterior desde 1995, recitais com repertórios tantas vezes a solicitarem um limite sonoro extremo nas altas intensidades eram precedidos por fortes doses de anti-inflamatórios cada vez mais poderosos. Mas, com receio da intervenção, persistia em evitar o inevitável.
Foi após a gravação dos dois CDs na Bélgica e da longa tournée em Portugal em Maio último que o processo chegou ao limite. Dores e inchaço, mormente na região do polegar da mão esquerda. Algumas obras do extraordinário Lopes-Graça exigiam sessões longas de grande impacto e num processo técnico-pianístico em que as mãos permanecem em ampla abertura. Ao regressar, radiografias apontavam para a imperiosa necessidade de cirurgia reconstrutiva. A inflamação da base da articulação dos polegares, denominada Rizartrose, lá estava instalada, a não sugerir sofismas. Acatei o competente diagnóstico e agendamos à operação para o dia 5 de Julho último. Tinha a certeza da escolha do cirurgião. Decisão irrevogável. O médico Heitor Ulson, Prof. Dr. do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNICAMP, Coordenador da Área de Cirurgia da Mão e Ex-Presidente da Associação Brasileira de Cirurgia da Mão, teria a acurada atenção que o tornou respeitado no Brasil e no Exterior.
Para a elaboração de um post elucidativo para leigos, músicos e médicos, solicitei ao cirurgião um laudo esclarecedor, inclusive com imagens, tanto da radiografia como do ato cirúrgico. As fotos tiradas durante a cirurgia podem causar impacto, daí ter, para a ilustração em menor formato, inserido uma tarja azul sobre a área que estava sob intervenção cirúrgica. Se o prezado leitor se interessar, poderá clicar sobre a imagem para visualizar a foto ampliada sem tarja. Contudo, não recomendo essa vizualização àqueles mais sensíveis. Friso, o post só foi feito com a mútua anuência do paciente e do cirurgião. Aliás, o ato cirúrgico, que foi bem documentado, é parte da apresentação que o Dr. Heitor Ulson fará durante o XIº Congresso da Confederação Internacional da Sociedade de Cirurgia da Mão, a ser realizado entre os dias 30 de Outubro a 5 de Novembro em Seul, na Coréia do Sul.
Eis o precioso depoimento:
“Atendendo a seu pedido sobre o procedimento cirúrgico a que tivemos a honra de submetê-lo recentemente, passo a considerar os fatos mais relevantes: Inicialmente, a afecção – assim chamada de ‘osteo-artrose da base do polegar’ (Rizartrose) – é bastante frequente, acometendo principalmente as mulheres em torno ou após a menopausa. Entretanto, não poupa os homens e está em ascensão, pois as faixas etárias mais elevadas são crescentes em todo o mundo. Vivemos mais e nos desgastamos mais! Estes ‘desgastes’ ou alterações degenerativas também são influenciados por fatores genéticos, hormonais, ocupacionais e ainda por outros, menos conhecidos. Quando o estágio de desgaste da superfície cartilaginosa da junta é avançado, ocorre atrito das partes ósseas expostas, produzindo cada vez mais dor e limitação funcional correspondente ao polegar que, sozinho, representa 42% da função da mão. Assim, ou nos adaptamos temporariamente à situação dolorosa – que tende a progredir de forma variável na intensidade e velocidade, porém quase sempre para pior – ou procura-se tratamento médico-cirúrgico.

Foto: Ortoclínica Manus. Clique para ampliar.

Foto: Ortoclínica Manus. Clique para ampliar.

Foto: Ortoclínica Manus. Clique para ampliar.

Há várias décadas os cirurgiões especialistas da área procuram resolver essa situação aflitiva e os métodos variam bastante, indo de operações sobre partes moles ou articulares, com ou sem próteses. Para os casos onde há demanda de movimentos mais amplos, variados e, se possível, indolores, a técnica cirúrgica por mim preferida é a biológica, esta usando tecidos do próprio paciente. Reconstroem-se ligamentos após a ressecção parcial do osso ‘doente’ (trapézio) e introduz-se em seu lugar uma porção de massa muscular da eminência tenar, que servirá de coxim amortecedor das pressões exercidas na ‘nova’ junta, quando forem realizadas as diversas modalidades de pinça entre o polegar e os demais dedos. O pós-operatório costuma ser tranquilo, com imobilização temporária em tala gessada – 3 a 4 semanas – apenas envolvendo polegar e punho, ficando livres os dedos para uso parcial da mão. A reabilitação no geral completa-se com o importante auxílio de terapeuta da mão, sendo bem tolerada, durando 5 ou 6 semanas com sessões semanais e podendo ser necessário o uso de órtese à noite para a manutenção da posição correta. Anexo, para melhor ilustrar, uma radiografia pré-operatória da articulação da base do seu polegar esquerdo, recém-operado (trapézio metacarpiano) e que facilmente demonstra o grau de desgaste já avançado. Incluo também demonstração da técnica, utilizando-se a massa muscular tenar como ‘almofadinha’ a preencher o espaço ampliado da junta após a remoção dos tecidos ‘doentes’. No seu caso, tem sido importante a sua total colaboração para a obtenção do resultado funcional precoce. Nem sempre, contudo, encontramos tal determinação, a qual certamente o tem levado a retomar os seus estudos, enfrentando teclado com agilidade, precisão e duração, o que muito surpreendeu pelo resultado. Finalizo, caro José Eduardo, profícuo concertista, pesquisador, professor acadêmico e importante difusor internacional de autores brasileiros, parabenizando-o pelos seus resultados.” Heitor J. R. Ulson Ortoclínica Manus e Hospital Samaritano São Paulo, SP e-mail: ortoclínicamanus@ig.com.br

Polegar em recuperação. Cicatriz em destaque. Foto: Elson Otake. Clique para ampliar.

A reabilitação se processa. Dois dias após a cirurgia, com faixas e tala gessada, já dedilhava com o conhecimento do médico, com muita dificuldade e dores evidentes, cinco minutos diários. Foi assim durante todo o longo mês de Julho, com aumento progressivo do tempo até meados de Agosto. Abdiquei nesse período dos treinos e corridas, seguindo orientação estrita do cirurgião. Uma queda poderia por tudo a perder. Preparei-me progressivamente para o recital a fazer parte do Curso O Som de Portugal, que será oferecido na Casa de Portugal de São Paulo e a ser ministrado pelo ilustre musicólogo e professor da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso, entre os dias 25-29 de Outubro. Será o tema do próximo post. O recital do dia 27, unicamente dedicado à música portuguesa, não terá obras de forte impacto – sonoridades altíssimas -, pois a paciência e a esperança na recuperação completa, que deverá acontecer dentro de seis a sete meses segundo o especialista, apontam para o caminho da prudência.
Em Fevereiro será a vez do polegar da mão direita. E a saga continua…

For many years I’ve been suffering from rhizarthrosis, a chronic and progressive wear of the cartilage of the joint at the base of the thumb. I’ve always postponed surgery, but the extreme exposure of my hands due to the piano practice made it unavoidable: I could no longer stand the pain. This post is a detailed account of the surgical technique used on my left hand three months ago and of the post-surgery treatment given by the doctor himself, the hand surgery specialist Dr. Heitor Ulson.

Quando os Minutos Parecem Eternos

Extraordinária foto de Guilherme Kastner/Diário de Guarulhos/Futura Press, 22/09/10. Clique para ampliar.

Granizo de pelouros e frechas.
Mas o granizo de balas,
que sobre eles caia incessante,
desconcertou-os totalmente.

Arnaldo Gama (O Segredo do Abade)

Estamos sujeitos às surpresas, assim denominadas, pois advêm quando acreditamos que tudo está a indicar normalidade. Ao ouvir na manhã de 21 de Setembro, durante as transmissões dos noticiários pelas rádios paulistanas, que costumo acessar logo após os abomináveis programas políticos obrigatórios, apreendi que o tempo seria bom durante todo o dia, mas que pancadas de chuvas isoladas poderiam ocorrer durante a tarde. Preconizavam, sim, aguaceiros maiores e queda de temperatura para o fim da semana. Incautamente segui as previsões. Hélas, trois fois hélas, como se costuma dizer em França. Deveria viajar pela manhã, mas protelei para após o almoço.
Estou a me lembrar de duas situações relacionadas à meteorologia. Em Nova York, durante os dias fronteiriços 1987-88, a temperatura chegou aos 18º negativos. Em uma noite, liguei a televisão para saber a respeito do tempo que faria no dia seguinte. O locutor, à certa altura, disse que aproximadamente às 16:30 haveria uma enorme tempestade de neve. Deu-se a borrasca precisamente no horário. Em outra oportunidade, já comentada anteriormente, durante gravações que estava a realizar em Mullem, na Bélgica Flamenga, em gélida madrugada – estávamos no início do século XXI -, Johan Kennivé, o impecável engenheiro de som, pediu-me para interromper a performance, pois um vento com fortes rajadas deveria chegar em aproximadamente sete minutos, a provocar ruídos sobre os vitrais da Capela de Sint-Hillarius. Estranhei, interrompi a gravação e fui ter à Van de meu dileto amigo e lá tomar chocolate quente. Pois, exatamente no tempo citado, uma ventania intensa e de assustar chegou, mas dois minutos após se foi. Johan soubera por seus sensores meteorológicos.
Teria de sair de São Paulo. A revisão de livro a ser publicado no próximo ano na Europa impelia-me ao refúgio em Bragança Paulista. Quando da redação de determinados textos para o Exterior, leitura acurada de outros mais para publicação, ou escuta de CDs gravados na Bélgica para edição final, é sempre no Hotel Bragança, em frente à Praça José Bonifácio, que me recolho durante dias, pois a última revisão deve ser sempre a do autor. Assim entendo. Às 15:30, tranquilamente empreendi a curta viagem, que oscila entre pouco mais de uma hora até duas, no máximo. Tempo bom. À altura da Av. Tiradentes, o céu plúmbeo apontava para chuva que deveria cair proximamente. Fato normal. Ao atingir a marginal do Tietê – via expressa de maior afluxo do país – com o tráfego a fluir com a lentidão costumeira, a descarga veio abaixo em forma de granizo. Estava próximo ao estádio da minha infortunada equipe de futebol, a Portuguesa de Desportos, como se o proclamado São Pedro quisesse punir a nau lusitana permanentemente à deriva e a ter como estandarte a Cruz de Avis. O granizo, em formato de bolas de gude, caiu como um bombardeio. Imediatamente, a seguir velho conselho, coloquei a mão direita contra o vidro do para-brisa. Dizem que impede estilhaços. Confesso que é assustador. Durante mais de dez minutos, que pareceram uma eternidade, os “pedregulhos” de gelo, ensurdecedoramente, agiram como instrumentos de percussão no mais alto volume. Já me preparava, caso o vidro não suportasse os projéteis, para abandonar o veículo. A situação piorou, pois aqueles que estavam sob as pontes lá ficaram – proteger-se pode ter fortes doses de egoísmo e de instinto de sobrevivência -, a fim de evitar os duros impactos, o que fez o trânsito parar totalmente. Em determinado instante caiu sobre o capô um gelo do tamanho de uma bola de pingue-pongue, estilhaçando-se no vidro dianteiro. Marca indelével ficou sobre o metal.
Quando o trânsito começou lentamente a fluir, com a torrente aérea a despencar acompanhada de pedras em menor quantidade, pouco se via. O piso permaneceu imaculadamente branco por instantes. Perdi a entrada da Fernão Dias e fui parar bem longe, na direção da Penha, a seguir fluxos descontrolados pela marginal do Tietê. Entrei, a acompanhar motoristas visivelmente desorientados, por ruas que me fizeram lembrar outras localidades periféricas da cidade, com gelo ou plenas de água, e mais, com crianças a mergulhar naqueles “lagos” lamacentos ! É realmente surreal. Retornos e mais ruas inundadas. Finalmente, um bom samaritano me apontou a única possibilidade de chegar à via Dutra e de lá acessar a rodovia Fernão Dias. Ufa, consegui !
O drama não se encerrara, pois até antes de Atibaia, só chuva forte, por vezes seguida de granizos. Ao passar pelo túnel da Mata Fria, a longa descida até Mairiporã proporcionava banhos permanentes da lama que descia pelas encostas, atingia a estrada e se projetava no para-brisa, levantada pelas descidas desenfreadas de caminhões e ônibus conduzidos por motoristas irresponsáveis. Não havia, nesse longo declive, a menor possibilidade de buscar abrigo no acostamento, pois nessas situações o caos impera. A viagem durou ao todo quatro horas e meia e, ao chegar a Bragança, nenhuma só gota tinha caído na aprazível cidade. Só à noite houve aguaceiro de moderado a forte, mas de curta duração.
Segundo o meteorologista André Madeira, da Climatempo (Estadão, 22/09), “Calor e umidade colaboraram com as condições atmosféricas necessárias para a formação dessas nuvens pesadas, profundas e altas, típicas de tempestade. Essa água no topo da nuvem forma esse granizo”. Só teria de discordar de uma frase do especialista citada no jornal: “Granizo são pedrinhas de gelo”. Para quem vivencia o episódio é dantesca a cena. Sob aspecto outro, os meteorologistas afirmaram ter sido o fenômeno rigorosamente atípico, impossível de ser detectado com antecipação.
O fato é que não me recordo de situação paralela. Presenciei, ao longo da existência, chuvas, aguaceiros e tempestades intensas e variadas. Essa ficará marcada, pois certamente foi a que maior susto trouxe ao velho observador. A experiência leva-me doravante a ter mil cautelas quanto às previsões meteorológicas da cidade. Satélites e tantas outras tecnologias dão-nos certa segurança. Confiarei nas previsões… delas a desconfiar.

Tempo final 1:05:05. Clique para ampliar.

Seria injusto se não dissesse que os meteorologistas acertaram ! Previram, naquela terça-feira, a ficar lembrada, que frente a avançar do sul atingiria São Paulo com forte aguaceiro a partir da madrugada de domingo. Ao acordar às 5:30, para a terceira etapa (10km) do Circuito das Estações – Adidas (Primavera), temporal com trovoadas se abateu sobre a cidade. Houve alternância de chuva forte a moderada durante o aquecimento e a prova pela Av. Pacaembu e o Minhocão. Apesar de ter corrido com a bela camisa dois da Internazionale de Milano, que me foi presenteada por meu genro italiano, nem a grande cruz vermelha que a caracteriza amainou São Pedro. Creio que o festejado santo está a me penalizar. Mas dele continuarei devoto.

On the afternoon of 21 September, with meteorology predicting good weather with isolated showers, I decided to go to the neighboring city of Bragança Paulista, a one-hour trip under normal conditions. As I was driving through Marginal Tietê in São Paulo, the country’s most congested expressway, I was trapped by a severe hailstorm followed by heavy rain. Hails the size of marbles fell for more than 10 minutes, bringing traffic to a stand still. I got lost due to poor visibility and needed help to find the highway leading to Bragança, where I managed to arrive after more than 4 hours – most of the time in the rain -, just to learn that not a single drop had fallen in the city. Although based on reasonable sound data, our weather forecasts leave a lot to be desired. The only certainty is that nothing is certain.

O Leitor, Estímulo Maior

Desenho de Luca Vitali. Clique para ampliar.

Ascender requer força da mente.
Provérbio himalaio

Às vésperas de atingir 100.000 acessos partilho com os generosos leitores que não pensava atingir essa cifra. Há blogs e blogs. Muitos conseguem esse número, ou bem maior, em apenas um dia, mercê da temática imediatista encontrável em quaisquer áreas de impacto: política, esporte-futebol, cotidiano agressivo, economia, bolsa de valores, celebridades… Tantos mais são publicados inúmeras vezes ao dia, mormente na área política, e são avidamente sorvidos por legiões de interessados. Não se trata de juízo de valor, mas de constatação. Sob aspecto outro, para determinado grupo da inteligentzia, blog representa uma categoria menor do pensar. Em parte, não sem razão.
O que me leva a esse veículo virtual formidável é a possibilidade do contacto com leitores que buscam uma outra espécie de percepção do cotidiano, não aquela desse mundo tão desvalorizado moralmente; tampouco a do sangue que escorre pelas rádios, TVs, jornais e revistas concernentes à criminalidade em expansão e sempre impune; muito menos a do consumismo exacerbado e a do sucesso pelo aplauso ou outras tantas vertentes assiduamente procuradas na internet.
Observei, no post referente aos 50.000 acessos, que já fui tentado a colocar publicidade em meu blog. Esporadicamente continuo a ser contatado. Implicaria a aceitação de um tipo velado de controle, não apenas relativo ao número de acessos, como também à possibilidade de interferência mínima nas sugestões temáticas. Por outro lado, periódicos e jornais, pragmatizados em relação a preciosos espaços, podem ter influência sobre seus articulistas habituais, a enquadrar textos ao número de dígitos por eles propostos. Estou a me lembrar que, após 10 anos a escrever regularmente para determinado suplemento cultural de jornal de grande circulação, recebi tout court orientação no sentido de que doravante caberia ao importante diário interferir na dimensão e em outros mais processos, inclusive na revisão, a suprimir frases ou segmentos naquilo que entendesse pertinente. Imediatamente deixei de colaborar, assim como outros articulistas por quem tenho o maior respeito. O pensamento cerceado é um desastre irremediável, sobretudo se considerado for que, através da década, recebera o maior respeito por parte de comissão que deliberava com os autores sobre as matérias do ano. Não haveria necessidade de dizer que esse conselho ilustre foi totalmente alterado, fatalmente não ao nível de excelência. Tempos outros vieram e não me entusiasmaram.
A realidade pessoal me impulsiona a escrever, e o ato tem de ser livre. Assim como uma composição musical a obedecer forma determinada pode ser maior ou menor, assim como um gesto de amor não pode ser mensurado, creio que, a depender do tema, torna-se imperativo o livre escoar das ideias, à la manière do rio que corre para o mar, sempre em vazão mutante. O não confinamento do espaço não implica a inexistência do espírito de síntese, apenas o redimensiona.
As nossas preferências dependem de diversos fatores. Os meus leitores, cúmplices ao captarem solilóquios vertidos em vários compartimentos da observação, têm compreendido o direcionamento voltado a categorias não muito diversificadas, mas a contemplar, no limite individual, o tema a ser comentado. Se a leitura sempre foi amiga, a resultar recensão ou interpretação do que foi apreendido, se a viagem é estímulo e fascínio, se o cotidiano – com todas as possibilidades boas e más – pertence aos passos que impulsionam e aos olhos que contemplam, seria, todavia, a “música – minha antiga companheira desde os ouvidos da infância”, no dizer do notável poeta português José Gomes Ferreira, a constância sem a menor intenção de desvio.
O fluir dos textos sem represamento dá-se em prazo certo. A gestação pode durar e durar. Temas são como a natureza. Sabemos que as estações existem, mas ignoramos qual a vestimenta precisa que elas devem exibir no quesito intensidade. Um tema que me leva à reflexão mais ampla vai sendo moldado através das semanas. Repentinamente, uma ideia complementa o raciocínio. Incorporo-a ao post e este continuará em processo de maturação. Outros, mais leves ou mais espontâneos, surgem inesperadamente ou durante os treinos solitários para as corridas. No caso, diante do computador, as ideias descem para a ponta dos dedos, e em poucos minutos o texto nasce. Mistérios do pensar.
Fábio, meu vizinho, questiona-me a respeito da ininterrupção desde Março de 2007. “Haveria compulsão”? Respondo-lhe que o escrever semanalmente, sem quaisquer pressões, é ato de respiração. E de fervor. Se um tema me interessa, continuei, naturalmente tem guarida, sendo apenas uma possibilidade de post. Quantos não são aqueles outros “enredos” que afloram ao pensar durante os sete dias? Os que podem ser convertidos permanecem no baú mental, já assinalado em posts anteriores. O desfilar dos textos não seria, em parte, a transmissão ao leitor do longo caminhar? Ao reler escritos do início dos blogs, senti-os como instrumentos da coerência e da transformação. “Todo mundo é composto de mudança”, já dizia o vate maior da língua portuguesa. E ela existe a partir dos impactos que sofremos durante a jornada. “Diário”?… insiste Fábio. Não há um só dia em que deixe de escrever algo para o blog da semana ou algum outro, bem posterior. Que seja um parágrafo apenas de post a ser publicado tanto tempo após. Essa constância estabelece parâmetros contra o esquecimento. Quantos não são os temas que surgem fulgurantes e dos quais não mais nos lembramos horas após? Se o acúmulo do viver tem seus maravilhamentos, tantas vezes coloca uma nuvem que oblitera o escoar do pensamento. Daí ter vários posts sempre em ebulição. A depender do tema, acrescento algo, e meu cotidiano se orienta para o estudo pianístico, para as leituras, para os treinos e para o viver o dia em todas as suas implicações.
Sobre a ilustração há história. Luca Vitali e eu fomos à uma reunião na Casa de Portugal de São Paulo. Durante o lento trajeto em horário de rush, perguntou-me: “Desde quando você usa gravata borboleta?” Curiosa observação. Respondi-lhe que desde a mocidade, mas com diferenças. Existem as fixas, mero ornamento masculino sem anima, pois imutáveis em seu posicionamento. Empalhadas. Aprendi naqueles tempos a fazer o nó e tenho lá meus papillons, que me dão prazer no momento de ajustá-los. Conservo-os. Um nó feito jamais é igual a outro. Estiolou-se o uso dessas gravatas, mas permaneço fiel aos meus hábitos. Luca sorriu, sem mais. Durante a conversa, surgiu o tema dos 100.000 acessos que se aproximavam. Enviou-me o desenho que ilustra o post.
Chegar aos 100.000 acessos causa-me um “santo orgulho”, parafraseando o que pensava D. Henrique Golland Trindade, ilustre prelado. Sinto-me livre ao colocar o que penso, espécie de erupção do de profundis, a guardar contudo certos cuidados.
Continuemos nessa cumplicidade. Terei imenso gosto em receber comunicação do leitor que acessar o nº 100.000. O e-mail encontra-se no contact, último item do menu do site www.joseeduardomartins.com .
É você, generoso leitor, a salvaguarda que me leva a prosseguir. Os posts fluirão. Teremos muitos outros encontros. Bem Haja !!!

On the eve of reaching 100.000 visitors to my blog, I reflect on how good it is to write with freedom, on the pleasure of posting an entry every week – a way to ponder upon life – on my love of music, a subject always present, and on how proud I am for garning such an extensive following without any advertising.