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Nuances e Percepção

Charge de Luca Vitali. Clique para ampliar.

Seria preciso não viver para negar que o mundo seja mau;
mas é nessa mesma maldade que devemos procurar
o apoio em que nos firmamos
para sermos nós próprios melhores
e, como tal, melhorarmos os outros.

Agostinho da Silva

Estava a conversar com Júlio, motorista de táxi. Tem ponto fixo não longe de minha casa. A série de descompassos, neste cotidiano que deveria ser menos amargo, fez com que o bom profissional, que encontro praticamente todos os dias, me questionasse: “o homem está se tornando de pior índole”? O tema surgiu como última gota em um copo, após o infausto acontecimento em torno de mulher desaparecida a envolver uma série de personagens, inclusive um esportista renomado. Sentei-me no banco dos motoristas e iniciamos boa troca de conceitos, ele a me propor perguntas inteligentes e eu, na medida do possível a tentar respondê-las. E assim permanecemos por um bom quarto de hora, sempre a comentar fatos últimos em que a tragédia foi epílogo, ou em que a corrupção teve mais um capítulo. Ao chegar diante do computador, a essência da conversa desfilou com dados complementares.
Desde a antiguidade discutiu-se a respeito de caráter, gênio, predisposição a ânimos. Nasce o homem já configurado em suas inclinações aos denominados bem ou mal, ou a sociedade que o circunda interfere, a modificar tendências? É como a história da origem, ovo ou galinha? Inclina-se o ser humano a apontar índoles ascendentes, generosas ou nocivas, assim como meio estável ou desestabilidade absoluta, a fim de explicações. Seria compreensível a existência de interpretações as mais díspares em defesa de uma vertente ou a conclamar as duas, ou outras mais ainda.
A sociedade atual tende, em quase todos os setores, à anestesia parcial, mas intensa, que faz vislumbrar apenas uma parte da consciência. Políticos têm o verbo mentir como verdade absoluta; a corrupção é endêmica; a máquina pública sempre em expansão é o Leviatã, o monstro que tudo devora; os impostos batem recordes a todo instante; empresários rotulam produtos com peso menor, sem contrapartida no preço, e nada acontece; a indústria automobilística alardeia aumento da produção, mesmo a saber que já não há mais espaços nas vias públicas das grandes cidades e que, celeremente, caminhamos em direção ao caos viário; o boom imobiliário chega a ser insano numa urbe sufocada como São Paulo; bancos fazem propaganda de balanços sempre ascendentes “geometricamente”; Saúde, Educação e Segurança estão sucateadas; a Justiça é lentíssima e grassa a impunidade como uma das consequências; a grande chaga da droga; a desarticulação da família. Perguntou-me Júlio se tudo isso poderia influir na índole do jovem. Claro que sim, respondi-lhe. Na medida em que células mestras da sociedade se decompõem, toda uma cadeia degenerativa se acentua. As fronteiras entre o bem e o mal já não se mostrariam precisas, mas envoltas em nuances e, ao brotar a permissividade como erva daninha, dificilmente haverá retorno. Conceitos foram alterados, a maneira de viver transformou-se. Todos os nossos sentidos têm sofrido o impacto dessas metamorfoses.
A certa altura passa diante de nós um casal de jovens com roupas estranhas, piercings e tatuagens. Júlio observa: “é isso?”. Sim, meu amigo, eis mutantes diante de nós. Tudo o que estão a evidenciar diante de nossos olhos é uma forma de auto-afirmação ou provocação. Uma mistura total. Tantas vezes essa aparência, a ser mostrada diante de seus pares nas intenções, leva o jovem aos chamados megashows, aos bailes funk, às estranhas reuniões de “tribos” ou mesmo – tênue linha a separar – à droga.
No ambiente com oxigenação mental quase nula, em que o pensar individual desaparece, inclusive pelo excesso de decibéis, haverá sempre aqueles que, visando ao lucro a partir de rebanho cada vez maior, terão influência no comportamento desse jovem. Derrubadas quaisquer barreiras que levem a juventude a pensar, ela será presa fácil. Desapareceria a noção da responsabilidade, não mais existiria a aferição de valores. Daí para o gesto premeditado e tresloucado tem-se um caminho pequeno. O cidadão assiste passivamente, nos noticiários televisivos, à apresentação de assassinatos e desvarios cometidos, sendo que as fisionomias dos autores permanecem gélidas, hirtas e sem a menor emoção. O esportista sob suspeita, treinaria a aparentar descontração, poucos dias após ter-lhe sido imputada a possibilidade de mandante de um crime cujos pormenores se afiguram como bárbaros, mas ainda envolto em névoa. A banalidade quanto a esse possível assassinato e os outros 137 que ocorrem diariamente no país – sim, 137 é a média – estarrece ! A mídia tem farta “munição” e, paradoxalmente, vive, em parte, todo esse surrealismo até coletivo. Você, meu caro Júlio, já presenciou no campo ou no mato os abutres a rondarem animal morto? Não se sabe como e nem de onde, mas horas após lá estão eles a sobrevoar o local para a faxina a seguir. Quando acontece um mal absoluto, logo depois a mídia lá está em número enorme. Se uma nave alienígena sobrevoasse ambas as situações não faria diferenças, creio eu. A suposta naturalidade é presença constante, tanto nos hodiendos crimes, como naqueles que inundam os meios de comunicação e concernentes ao colarinho branco, igualmente sórdidos. Toda essa exposição causa impacto e neuroses de várias intensidades. Acredito, Júlio, que estamos diante de tsunamis diários e crescentes. Se você verificar a percentagem altíssima de tempo televisivo que os canais dedicam em seus noticiários ao crime seguido de morte, ao estelionato, à corrupção, à tragédia imposta pela mãe natureza, ficará pasmo. E as boas ações que acontecem todos os dias, ou às culturas? Dedicam espaço reduzido como se estivessem a mostrar a generosidade da rede de televisão. Caminhando pelas ruas de Ghent a conversar com um amigo belga, mostrou-se meu interlocutor abismado quando lhe falei de assaltos seguidos de morte no Brasil. Disse-me que entende inadmissível essa situação, banal e rotineira entre nós. E de pensar, segundo o amigo da região da Flandres, que na Bélgica há cerca de 7 a 10 assassinatos por ano, número considerado altíssimo segundo ele ! Passeávamos em bairro residencial sem grades, situação rigorosamente impossível em nossa megalópole. Chamou-me a atenção por ocasião do deplorável Mensalão, em que todos se auto declararam inocentes, alto mandatário conclamar que ninguém era mais honesto do que ele. Mais recentemente, a seguir a mesma cartilha, um outro político a dizer que não há neste país alguém com ficha mais limpa do que a sua. Faces “afirmativas” de moedas diferentes, mas moedas…
Exemplos incontáveis existem na triste senda do crime. O que me parece preocupante é a aceleração desse degenerar dos costumes. O cidadão pode sofrer os impactos e, pouco a pouco, passar pela metamorfose que forjará outra possível índole. Seria a verdadeira que estava adormecida? Leviano afirmar a respeito. Apesar de avanços, sabemos ainda pouco a respeito da mente humana. De qualquer maneira, ainda há salvaguardas. Famílias bem estruturadas em todas as camadas sociais; noções de solidariedade, respeito e generosidade incutidas desde o nascer; formação cultural como um todo a abranger valores, independentemente das classes, ainda existem. Sim, existem.
Júlio mostrou-se atento e preocupado. Bom cidadão, apregoou que espera continuar a ser o motorista que sempre foi. Que ele é atencioso e educado, eu já sabia desde há muito tempo. A sua índole é das boas. Que permaneça assim, a granjear a admiração de seus amigos e clientes.

A reflection upon the excess of violence and offensive material in the media and its negative consequences on the way people act: numbness in face of human suffering, acceptance of violence as a way to solve problems, antisocial behavior, lack of critical thinking, incivility. It seems the correlation between violent media and aggressive behavior is strong. Our only hope to reverse this trend is the existence in all social classes of families still able to lay a strong foundation for their children, teaching them good values and attitudes that will enable them to interact in a positive way with their environment.

Desafio Inusitado

Elson Otake e J.E.M. próximos do topo do Pico do Jaraguá. 27/06/10. Clique para ampliar.

Aprender até morrer.
Adágio açoriano

Tranquilo, permanecia em meus afazeres diários. Elson Otake, o maratonista, toca a campainha. Atendo-o sempre com prazer, pois a temática envolve a invariável corrida, treinos, técnicas e desafios. Convida-me para um exercício que seu grupo, liderado pelo excelente treinador Augusto, faria com o objetivo de subir a correr o Pico do Jaraguá. Tem-se 4.5km em aclive permanente. Disse-lhe que os acompanharia, mas que teria de regressar ao ponto de partida ao menor sinal de fadiga. Seu grupo se preparava para a subida da antiga estrada da serra do mar. São 7.5 km. Também, sempre a correr.
Confesso que fui dormir um tanto preocupado. A salvaguarda era o retorno imediato à base num caso de desistência. Minha neta Ana Clara, aos 17 anos, já se entusiasma pelas caminhadas e pequenas corridas. Acompanharia o avô nesse passeio singular.
Reiteradas vezes salientei o despojamento de Elson. Quando me convida, solidariamente abdica de sua velocidade e corre ao meu lado, estimulando-me, controlando meu percurso e sempre a perguntar se tudo vai bem. Enfim, uma grande segurança.
A manhã ensolarada e fria de um belo domingo ajudou a difícil subida rumo ao Pico do Jaraguá. Minha neta e outros caminhantes fizeram todo o trajeto, sendo que Ana Clara ainda teve entusiasmo para ir, pelas escadas, até o sopé da antena que pode ser vista, à longa distância, de tantos pontos da cidade e de estradas circunvizinhas.
Saindo-se do parque, tão dentro da cidade e tão aprazível, sentimo-nos em plena natureza. Elson e eu fomos a subir e mantendo ritmo cadenciado, respiração controlada e alegria contagiante. O caminho repleto de curvas, mas em ascensão permanente, tem muitos atrativos. Uma bela vegetação, árvores frondosas, revoada de pássaros. Um vento cortante e gelado não interferia no entusiasmo que sentíamos. Aproximadamente no meio do caminho realizamos a única brevíssima parada de uns 15 segundos, a fim de beber a água gelada de uma bica. Sempre a correr, sempre a subir.
O grupo de Elson, formado por atletas que treinam sistematicamente sob orientação precisa, tem ótimos corredores. Walquíria, uma bonita morena, passou-nos com rapidez. Realizou o trajeto de subida e descida por duas vezes. Corre com elegância, passadas largas e firmes. Sei que Elson estaria entre os mais velozes, mas transmitiu o estímulo permanente ao amigo.

Informações coletadas pelo GPS. Clique para ampliar.

Gráfico da altimetria. Clique para ampliar.

A alegria ao ter conseguido chegar ao Pico do Jaraguá correndo ininterruptamente ajuda, e muito, a auto confiança. Quase no topo, tiraram nossa foto. Elson diverte-se e o velho corredor ao lado, sério, mas infinitamente feliz, percebe que poucos metros o separam da curva que leva à descida. É bom frisar que declives acentuados podem danificar irremediavelmente as articulações intrincadas dos joelhos, daí a planejada atenção nessa segunda etapa. Todavia, os três treinos semanais pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo-Belo, já me davam uma certa esperança de poder realizar a façanha.

Ana Clara a repartir canjica com o macaquinho. Clique para ampliar.

Enfim, já de volta à base no aconchegante parque, Augusto refere-se à subida de 2.5km da Brigadeiro, trecho final da São Silvestre. Bem mais amena, comparada à do Pico do Jaraguá. Portanto, mais um estímulo. Um café matinal servido após esse duro treino serviu para o amplo congraçamento. Macacos desciam das árvores para beliscar torradas, pães ou bolos que lhes eram oferecidos. Diversão absoluta para minha neta, indisfarçável prazer para todos nós.

Após corrida, dividindo merenda com um símio do parque do Jaraguá. Foto de minha neta Ana Clara. Clique para ampliar.

Se São Paulo não tem belezas naturais, e o homem, em sua selvagem ganância, destruiu ao longo dos séculos – e sobretudo nestas últimas décadas – praticamente tudo o que pudesse lembrar a história da cidade, ainda podemos usufruir de raríssimos locais como o Parque do Jaraguá, o Jardim Botânico, os pequenos parques do Povo e do Morumbi, o Parque do Ibirapuera e alguns mais.
A confiança transmitida por Augusto deu-me certezas. Continuarei a treinar pelas ruas e a participar de algumas corridas oficiais pela cidade. Música e corridas. As afinidades, nós as estabelecemos. Os amálgamas feitos pelo homem podem ter os temperos mais variados. Dependem unicamente de nossa vontade e gosto. Uma semana após a subida ao Jaraguá já participava da segunda etapa do Circuito das Estações (inverno), evento patrocinado pela Adidas (10km). Uma multidão unida pelo mesmo espírito esportivo. Cada um dos milhares de corredores com seus objetivos ou sonhos. Contudo, nessa atividade fundamentam-se as esperanças quanto ao desempenho: ao passar pelo portal da cronometragem, todos partem com o desejo de concluir a prova; ao cruzar a mesma barreira na chegada, a agradável sensação do desafio vencido. Salvaguardas estimulantes. A prática esportiva a levar ao equilíbrio.

Circuito das Estações (2ª etapa, inverno). 04/07/10. Foto Webrun. Clique para ampliar.

Invited by a friend– the marathon runner Elson Otake – I joined his team a couple of weeks ago in a singular adventure: running the Pico do Jaraguá trail inside the Jaraguá Park, a forest within the urban area of São Paulo city. The peak is the highest point of the metropolitan area and to reach it we had to face a 4,5 km run through a gradually ascending slope. I confess I was a bit afraid of failing, though it was a non-competitive training practice, but things went much better than I expected. After this hard test, the group was offered a breakfast shared with the local monkeys that came down from the trees, much to my 17 year old granddaughter’s delight. Being able to reach the summit and then sloping down the hillside again ― running well and non-stop among trees, birds and exotic animals ― was a personal achievement that made me feel very proud. A challenge met!

Aparição a Assustar Companheiras

Fantasma. Charge de Luca Vitali. Junho de 2010. Clique para ampliar.

Aquele que ressurge é um novo homem.
Provérbio vietnamita

O homem tem por característica apegar-se às referências. Em quase todas as áreas e sentidos. Elas lhe dão segurança. Perdê-las pode ocasionar as mais variadas reações, motivadas pela ligação que se formou entre seres humanos. Há referências abstratas: não as conhecemos, mas aprendemos a admirá-las ou não. O negativo conteria igualmente carga referencial, que interfere longamente ou esporadicamente sobre nós. Qual não é o impacto ao sabermos que determinada pessoa que conhecemos e estimamos desapareceu? Nos últimos dias fui surpreendido pela morte de figuras humanas sensíveis, de quem muito gostava. Por mais que a morte seja nossa única certeza, sempre há esse choque, mormente se afeto existe. Nada a fazer, a não ser nos conformarmos. Essas referências que partem permanecem com intensidade durante certo tempo e após, como bem frisava Fernando Pessoa, pouco a pouco se diluem. Tornam-se lembranças vagas, dependendo das gradações variáveis de afetos. É a realidade.
Conversávamos descontraidamente: Luca, o pintor, Elson, o maratonista, e eu. O tema surgiu com naturalidade. No pequeno parque perto de minha casa, por dois anos, em 2006-07, realizei meus primeiros trotes, a visar ao aperfeiçoamento físico. Com o passar do tempo, o espaço, com pista de 300 metros e movimento constante, tornou-se impraticável, pois aumentei as passadas, a quilometragem e fui para as ruas, a correr de 6 a 10km três vezes por semana. Luca é atento observador e o poeta do lápis ou pincel. Elson, o amigo certo. Bem mais jovem e rápido, dá-me constantemente preciosos conselhos. Autêntico guru do septuagenário corredor. Sou atento ouvinte e busco o aperfeiçoamento durante as corridas oficiais pelas avenidas e ruas da cidade.
A certa altura, Elson e eu comentamos com Luca algo inusitado. Subíamos uma das ruas de nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, quando os amigos do cantinho dos aposentados, aqueles já tantas vezes mencionado em blogs anteriores, desciam. Contaram algo curioso. Como desapareci do parquinho por volta de 2008, lembranças ficaram, pois tínha o hábito de conversar amistosamente, após os exercícios, com vários frequentadores do espaço, então aprazível. Técnicas, alongamentos, respiração, passadas, tudo era motivo para um bom papo.
Recentemente, vários de meus bons amigos aposentados, frequentadores do parque, mas inimigos dos exercícios físicos, discutiam sentados política, futebol ou o tempo – acredito firmemente – , quando, a certa altura, três senhoras que estavam a realizar marchas forçadas encontraram-se e pararam em frente ao banco. Como falavam alto, os amigos silenciaram por momentos. Foi quando uma delas, dirigindo-se às duas outras, perguntou se sabiam algo do pianista que corria pelo parque após intensas quimioterapias. Mais silenciosos ficaram meus amigos. As senhoras, após dúvidas e questionamentos, chegaram a conclusão que o pianista já deveria ter morrido. Lamentaram o possível passamento e continuaram seus exercícios. Pianista e companheiro das marchas e leves corridas. Morto e sepultado.
No encontro na rua aludida perguntei aos amigos se eles confirmaram a minha existência. Muito pelo contrário, pois, assim que as senhoras desapareceram em uma das curvas da pista, deram boas gargalhadas.
Passaram-se semanas desse episódio. Em uma manhã em que estava a estudar piano para a longa tournée de Maio último, fui atender ao toque da campainha. Imediatamente reconheci uma de minhas conhecidas que andava e corria pelo parque e, com certeza, uma das que me entendia no além. Ao me ver, uma só frase, a traduzir estupefação e alegria: “Que bom !!! Você ainda vive !!!
Na charge de Luca Vitali, Fantasma, não faltou o gavião que devorou os canários de meu vizinho Uyara (vide A Vingança do Gavião – Falco Femoralis. 11/04/08). Seu apetite voraz não poupa as “almas aladas”.

On my presumed death and resurrection and the stare of sheer amazement of a fellow runner when she saw me alive and well.