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Quando a Morte é Espelho da Realidade

Horta, capital do Faial. Arquipélago dos Açores. Panorâmica da cidade. Foto J.E.M. 1992. Clique para ampliar.

Mortos ao chão,
vivos ao pão.

Adágio Açoriano

Faz-se necessária a colocação no blog de meu segundo artigo (vide post anterior) sobre o tema novela, publicado no Suplemento Antília de O Telégrafo, da cidade da Horta, capital do Faial, uma das nove ilhas do Arquipélago dos Açores. Só vieram à superfície mercê de comentários incisivos de emissora AM de São Paulo a respeito de conteúdos de novelas e reality shows, a desvirtuarem costumes. A divulgação de Um Trágico Amalgamar deu-se aos 12 de Março de 1993, após infausto acontecimento que levou a vida de jovem atriz de novela em morte violenta. Consubstanciavam-se os elementos que envolvem parte do processo de elaboração desses gênero televisivo, acrescidos dos patrocínios necessários, dos índices de audiência seguidos a cada momento e da recepção pública de um povo que assiste a essa programação movido por motivos os mais díspares. Impressionou-me, naqueles dias tormentosos, um fato relevante, que ficará em todos os compêndios de História do Brasil : o impeachment do Presidente Fernando Collor de Mello e a consequente cassação de seus direitos políticos por dez anos. Pois a tragédia a envolver a jovem atriz teve repercussão tão grande ou maior do que aquela de episódio que permanecerá seculo seculorum. O esquecimento já se abateu quase que por completo sobre o brutal assassinato. É o real tout court. Como no post anterior, mantive a ortografia da publicação em Antília.

Um Trágico Amalgamar

“Heitor Aghá Silva, em artigo a constatar a realidade das novelas brasileiras exibidas no Arquipélago, e o comentário d’além mar deste correspondente sobre aspectos de um todo a abranger os bastidores das novelas, possivelmente desconhecidos pelo povo açoriano, tiveram a exemplificá-los um infausto acontecimento, ocorrido no dia 28 de Dezembro último na cidade do Rio de Janeiro. Uma das actrizes da novela em exibição foi brutalmente assassinada, após os ensaios, pelo personagem que com ela contracenava.
Ficção e realidade colidiram, a resultarem n’uma tragédia inédita no Brasil, colocando a nu o deplorável estado do gênero e evidenciando o alcance a beirar o surrealismo que a telenovela atinge junto à população, que avidamente a consome. A falência moral e ética do gênero telenovela é a consequência da incúria da escolha de um tema e do texto mutuamente fragilizados, da seleção dos ‘artistas’, da necessidade de se atingir índices de audiência, negligenciando-se quaisquer objetivos educativos, da recepção angustiada por telespectador desesperançado nessa crise permanente por que passa o país e que vê na telenovela o ‘bálsamo’ – aparência da fuga -, o refúgio para as angústias do cotidiano.
Denunciávamos, em artigo anterior, que parte dos ‘artistas’ das telenovelas pertencente a uma classe média é recrutada nos ambientes urbanos e, muito mais que a qualidade do ‘actor’ ou da ‘actriz’ a ser erigida, conta a presença física, que deve causar impacto. Despreparadas, muitas das ‘actrizes’ brevemente estarão a estampar seus corpos nus em revistas específicas.
Os ‘artistas’, mitificados pela presença diária nos lares, confundem-se no ideário do espectador com os seus próprios personagens, familiares e de convívio. A tragédia que existe no cotidiano adquire dimensões amplas quando ocorre na realidade com um dos personagens fictícios das telenovelas. Presentemente, milhões de brasileiros assistem a mais uma dessas produções, onde, novamente, o precário texto, sempre manipulável ao sabor das oscilações dos gostos, está de mãos dadas com o todo absurdo. Lamentavelmente a novela atual deverá um dia entrar nos lares açorianos.
Voltemos ao acontecido. Dois dos personagens jovens que integram o elenco perpetuam-se em discussões corriqueiras e emocionais. Na ficção, o rapaz tem ciúmes doentios da jovem, bonita, que representa papel descontraído. Na vida real, ele é casado e a sua mulher, recém saída da adolescência em seus 18 anos, está grávida de quatro meses. Os ciúmes desta pelo marido, que vive personagem na ficção televisiva, somados à anormalidade psíquica do mesmo, compõem a antecâmara do crime. Após gravação de um capítulo em que a jovem encerra o namoro, este chora, frise-se, na ficção. Algumas horas após, na realidade, marido e mulher estarão a golpear fatalmente, com dezoito perfurações, a actriz de 22 anos.
O Brasil, na manhã do dia 29 de Dezembro, assistia à declaração do impeachment do Presidente Collor de Mello pelo Senado Federal e, em longa sessão posterior, que se prolongaria até a madrugada de 30 de Dezembro último, à cassação dos direitos políticos do então ex-presidente até o ano 2000. A tragédia ficção-realidade que se abatera sobre o país conseguiu paralelismo em todos os meios de comunicação, com o desdobramento político inédito no Brasil, para o qual, durante quase um ano, a população voltara as atenções.
Horas após o brutal crime, milhares de pessoas saíram às ruas do Rio de Janeiro e o que se viu foi absoluta identificação. Choravam pela vítima e pediam vingança, como se a personagem imolada fosse a mãe, a irmã, a namorada, a mulher, a filha. Outra simbiose se processava. No cemitério ou junto à Delegacia de Polícia, durante dias, um público absurdo buscava vaticinar o veredicto para os réus e, na histeria, idolatrar os mitos vivos que visitavam os lugares citados.
A maior rede de televisão que produz novelas no Brasil, por sua vez, aproveitou-se da tragédia para ampliar os seus índices de audiência com a maciça divulgação dos pormenores da tragédia. A morbidez, o desrespeito, a culpabilidade não entendida como culpa, mas como um processo acidental, tudo a evidenciar a profunda e abissal amoralidade, a ausência de qualquer ética.
Anteriormente escrevíamos sobre as modificações que os textos sofrem no decorrer de uma novela, motivadas por pesquisas sucessivas, o que corrobora a literatura de sofrível qualidade. A morte real não impede, contudo – antes, é audiência -, que a personagem continue a desfilar juventude, graça e alegria durante os capítulos que gravou bem antecipadamente, até o derradeiro, na noite de seu destino fatal. Suprimir esses capítulos? Nem esse respeito foi prestado à memória da vítima. Incita-se o telespectador ao convívio com o peristilo da fatalidade. E, a agravar, a autora do texto, na vida real, é a mãe da jovem assassinada, o que, no imbroglio, dimensiona o equívoco.
Contra a força dos media, temos poucos instrumentos de defesa. Contudo, de um último não podemos abdicar, o da denúncia. A receptividade ficaria a cargo das consciências”.

Horta, capital do Faial. Arquipélago dos Açores. Conservatório Regional. Foto J.E M. 1992. Clique para ampliar.

Dezessete anos se passaram. O que mudou? Basicamente nada. Antes, houve recrudescimento. Continua o desfile de aviltes aos costumes. A acrescer, os reality shows escabrosos em exibição e o desrespeito à lhaneza de um povo. Se o homem simples ou o letrado assiste a essas programações não seria pela intensidade da mídia e pela falta de opções na TV aberta? Dezessete anos em que o vernáculo também tem sido sacrificado por modismos que sucumbem à força de outros modismos. E de pensar que o jovem pode votar aos dezesseis, um ano a menos do que a redação do artigo em pauta ! Hélas, indefeso, o cidadão espera. As forças controladoras são muito poderosas. Fica-se à mercê.

Este post tem a exemplificá-lo, no caso específico da tragédia em si, o affaire Nardoni – mais um reality show - que monopolizou a mídia nesta semana. Quantidade enorme de crimes são julgados diariamente neste país, sem que tenhamos conhecimento, pois não divulgados. A trágica morte da menina Nardoni teve repercussão nacional. Nesta semana em que o caso está a ser julgado, os meios de comunicação colocaram dezenas de profissionais a serviço do julgamento Nardoni. Seguiram o casal desde a saída dos presídios, no interior do Estado e continuaram a segui-los, até com tomadas aéreas, durante toda a semana, no percurso penitenciária-fórum e seu inverso. O que se vê, ouve-se ou lê-se nesse período, escancara com pormenores, a beirar a histeria, a tragédia. Perpassam pela mídia as possibilidades do veredicto e as entrevistas com os vários segmentos da sociedade: multidão, membros do poder judiciário, psicanalistas, advogados, peritos e a acrescer, outras situações do imaginário. Denotam os meios de comunicação, sem qualquer escolha movida pela ética – infindável a lista de julgamentos não divulgados !!! – essa busca compulsiva pela audiência e pelos leitores. Tantas notícias da maior importância na semana ficaram relegadas como apêndices ! Todavia, as inserções nos noticiários televisivos e radiofônicos dão bem a medida de que se chegou ao absurdo. Infelizmente, nestes casos, nada mais a fazer. Como no Um Trágico Amalgamar do início dos anos 90. Quousque tandem abutere Catilina patientia nostra, a célebre frase do famoso orador romano Marcus Tullius Cicero em 63 A.C., continua pela eternidade…

Resuming the subject of the Brazilian soap operas and their impact on the audience, I transcribe another article written for an Azorean newspaper in 1993. In an example of life imitating art, a soap opera actress was murdered by the co-star who played her boyfriend. Her death caused a huge commotion in Brazil and was a commercial success largely exploited by newspapers and TV news, pushing aside the coverage of President Fernando Collor’s scandals and resignation.

Quando há irmanação no pensar

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 Vista da Horta, capital do Faial. Arquipélago dos Açores. 1992. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Só sei chorar em português.
Heitor Aghá Silva

Reiteradas vezes comentei com o leitor sobre minhas escutas matinais de noticiários transmitidos pelas emissoras de rádio. Ouço-os do despertar ao início de meus estudos musicais. Geralmente visito quatro delas, pois sei que, em determinado momento, comentaristas de minha preferência emitem suas opiniões. Ultimamente, uma das rádios, de enorme audiência, em reiteradas e insistentes inserções tem feito crítica ao conteúdo das novelas e de determinado reality show, em aspectos tangentes à moralidade e à deturpação dos costumes. Insiste na necessidade de haver um controle sobre conteúdos que estão a tender para uma alteração comportamental de crianças, jovens e adultos, mercê de exemplos não dignificantes, expostos em forte crescimento, a demonstrar a absoluta permissividade, perigoso caminho para a derrocada do mínimo de moralidade ainda existente nesses programas exibidos pelas telas de todo o Brasil.
Após tournée pianística pelo Arquipélago dos Açores em 1992, fui convidado pelo poeta e ensaísta Heitor Aghá Silva, da cidade da Horta, capital do Faial, uma das nove ilhas que compõem essa parte bonita do território português no Atlântico norte, para ser correspondente do Suplemento Cultural Antília, do jornal O Telégrafo. Aquiesci com muito gosto e enviei vários artigos. Ao ler pungente matéria redigida e publicada por Heitor Silva, coordenador do Antília, a respeito dos efeitos nefastos produzidos pelas novelas brasileiras em solo açoriano, escrevi dois artigos a concordar com o articulista, mas tendo ingredientes que o valoroso povo dos Açores desconhecia. Coloco-os em meu blog, pois evidenciam, quase vinte anos após, aspectos que estão em processo aumentativo e denunciados ultimamente por emissora AM de São Paulo. Transcreverei em duas etapas, pois sequenciais, a manter o texto tal qual publicado, com a ortografia configurada pelo Antília. O primeiro data de 9-10 de Janeiro de 1993.

A “Voz e o Eco” Captados Além-Mar

“Publicado no Antília de Novembro último, ‘A Voz e o Eco’ torna-se um texto que, pela lucidez de seu autor, põe à mostra uma preocupação com esse lamentável proliferar das novelas no Arquipélago. A quantidade destas é grande, o prejuízo à identidade de um povo de riquíssima tradição cultural, proporcional ao número elevado a se processar em acelerado caminhar rumo ao impasse, pelo que se depreende do artigo em questão.
Realisticamente, o coordenador de Antília evidencia o alerta – talvez tardio – e denuncia a deteriorização advinda de um vício que, de há muito, uma minoria consciente está a apontar, sem ser ouvida, nas terras por Cabral descobertas. Contudo, Heitor Aghá Silva, ao trazer ao público faialense o conteúdo de ‘telenovelas tão pobres, tão estupidamente supérfluas, tão assustadoramente embrutecedoras (…)’, talvez desconheça – é possível – que, no Brasil, o cancro instaurado nessa espécie televisiva, hoje espalhada além das fronteiras da língua portuguesa, tem, ano após ano, corroborado o desmonte de uma cultura erigida durante séculos, a criar artificialmente valores, modismos que, longe de serem naturais – do povo à autêntica assimilação -, surgem obedecendo tantas vezes a interesses escusos de uma média manipuladora, representante de um poder incomensurável neste imenso país. Sob outro aspecto, no Brasil, quantidade de livros, ensaios e artigos, assim como teses acadêmicas, discutem a problemática da telenovela, em análises multidirecionadas.
É de se prantear receberem Portugal continental e os Açores os ‘enlatados’ prontos para o consumo, sem quaisquer interferências das mentes portuguesas. Refiro-me à deformação de um texto básico que, em vez de ter a sequência lógica do autor obedecida, sofre os impactos da pesquisa que atende aos interesses confessos e que modifica a trajectória de uma novela, a sacrificar ou não os personagens fictícios. O autor, previamente, torna-se partícipe de um circunstancial desvio, a resultar o texto final desvirtuado, descaracterizado, anacrónico e desprovido de qualquer valor literário; sendo que a ideia, essa antecâmara da criação, perde totalmente o rumo.
Frise-se, sempre, o manipular personagens novelescas é prática brasileira, a atender aspectos já distorcidos de outras categorias de distorções que o apelo frenético ao consumo estabelece. O desvio de um enredo considera, pois, a ‘realidade’ brasileira, preferencialmente de uma sociedade urbana, jovem e fácil de ser fisgada pelo anzol do capitalismo, que no Brasil é sempre nomeado de selvagem, mas que se mostra particularmente irracional, nos últimos anos.
A ‘colcha de retalhos’ que se torna a novela brasileira forma-se a partir de revistas ‘especializadas’, de altíssimas vendagens, que contam com um tipo de leitor que, basicamente, agarra-se ao novelesco a fim de se refugiar num ‘paraíso ideal’. Esses periódicos informam das tramas do estúdio de gravações à vida íntima de actores e actrizes, e os personagens fictícios se misturam ao real. O leitor dessas publicações descartáveis, de insípido amontoado de palavras, sente-se prestigiado, identifica-se com toda essa irrealidade, dá seus palpites e chega a ‘interferir’ !!! Resulta que Portugal e os Açores tombam numa grande armadilha forjada numa cultura que não lhes pertence, mas que, paradoxalmente, não é, no cerne, brasileira – entenda-se cultura de um povo -, pois urbana, básica de duas cidades, Rio de Janeiro – matriz novelesca – e São Paulo, e profundamente manipulada pelo interesse comercial dos poderosos.

Capelinhos. Ao fundo, o farol. Horta, Faial, Açores. 1992. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Quando o arguto coordenador e sensível poeta diz que ‘os povos é que criam e recriam a própria língua’, baseia-se num axioma legitimado. O ‘linguajar’ dos personagens jovens nas novelas é urbano, pertence a uma classe não popular, mas influente em todo o território brasileiro e, infelizmente em Portugal e nos Açores. Sem possibilidade de interferir, o Arquipélago recebe ‘em cheio’ o impacto do equívoco, da história manipulada, da língua portuguesa ultrajada e plena de inconsistentes e circunstanciais ‘neologismos’, do mais amplo absurdo. E o pior é que muitos desses termos temporários, que vivem à mercê do modismo, por motivos de complexa explicação igualmente entram em certo tipo de dicionário da língua portuguesa editado e reverenciado no Brasil !!!
Sob o ângulo da fala, novelas que se passam em regiões com acentuações diferenciadas apresentam, na essência, a aparência da realidade, pois o habitante dessas regiões entende errônea a pronúncia dos actores, sem as características regionais.
As trilhas sonoras atém-se ao entulho repertorial oriundo basicamente dos E.U.A. e parte musical produzida no Brasil. Para ambos os casos, discos são lançados e realizam-se apresentações dos intérpretes pelo vasto território brasileiro. É toda uma máquina de facturar.
Some-se aos desacertos um primordial, estranho, soturno retrato de uma sociedade brasileira onde a impunidade, essa mater de todos os desmandos e corrupções, impera. Frise-se, jamais compactuado pela imensa maioria do povo brasileiro, ordeira, honesta e trabalhadora – haja vista o processo de impeachment do presidente Collor de Mello, quando as massas saíram às ruas contra o descalabro e pressionaram o Congresso Nacional. Para o ‘batedor de carteiras’, denominado igualmente ‘trombadinha’, e para aquele que comete o ‘crime do colarinho branco’ (corrupção nos mais altos níveis sócio-económico-políticos), o tratamento é rigorosamente diferenciado, jamais vendo este as barras paralelas, amontoando-se o primeiro e muitos outros em prisões superlotadas.
Perguntaria: o que os açorianos têm a ver com o lamentável cotidiano desse imenso país, pleno de tantas esperanças, mas perdido nos interesses de uma minoria? É que a realidade do dia a dia penetra o vídeo, entusiasma directores comprometidos com esse surrealismo todo; e o que se vê em muitos dos finais de novelas, hoje, é o triunfo do corrompedor, a vitória dos trapaceiros, estelionatários ou mandantes da contravenção, algumas vezes fugindo descontraidamente do país na mais absoluta tranquilidade e ‘paz’. Numa dessas fugas, num avião, um personagem dirige-se ao Brasil como um todo, sorrindo pelo êxito de suas tramas sórdidas, através de gesto manual considerado, sabidamente, ofensivo. Exemplo vivo para quem assiste desprotegido, modelo ‘infinito’ para as gerações que surgem.
A indumentar toda essa parafernália, a moda dos que nas novelas actuam, representada pelas roupas informais ou esportivas, assim como bijouterias, penteados, tudo se transforma na mercadoria do day after.
‘A Voz e o Eco’ do poeta cá chegaram. Para quem os entendeu, a constatação do estrago maior, que diariamente a grande maioria das novelas brasileiras causa aos Açores. Torna-se quase impossível modificar esse estado absurdo. É necessário, contudo, persistir, denunciar o equívoco. A dificuldade é incomensurável frente à média onipotente e onipresente. Apesar dos versos de Almeida Firmino, ‘Falta-nos a voz com que protestar’, tenhamos ao menos a pena para escrever o desencanto.”

Não é de se lamentar que, após tantos anos – uma quase maioridade –, a situação continue em ascensão geometricamente sombria?

Brazilian soap operas and reality shows with questionable content have been running on Portuguese television channels for ages. This post – the transcription of an article I wrote for an Azorean newspaper in 1993 – discusses their potential for influencing the indigenous culture for the worse, since the values imbedded in such TV programs are those of the society that produced them, not those of the local audience.

Divagações sobre Arte

Mário Zanini. Vagão de segunda classe. Óleo sobre tela, 1969, coleção particular.

A mais linda flor
permanece oculta.

Adágio vietnamita

Peguei o ônibus para ir ao centro da cidade, o meio mais rápido neste trânsito complexo. Há os corredores, que raramente travam. Fora dos horários de pico encontram-se sempre lugares. A terceira idade ainda tem seus poucos privilégios, e os motoristas geralmente são amáveis para com idosos. Peço licença e sento-me ao lado de um cidadão a beirar os 40 anos. Começo a ler. “Professor, o senhor não se lembra de mim?”, indagou-me. Olhei-o e o reconheci. Após mútuas saudações e real prazer nesse reencontro, perguntei-lhe a respeito de seus caminhos após se formar. Estudara comigo durante a graduação na Universidade, no primeiro lustro de 80. Continuou seus estudos musicais na Europa durante muitos anos. Voltava de aulas que ministra junto a uma escola de música, não distante de minha casa. Há tempos gostaria de conversar com seu antigo mestre a respeito de repertório pianístico, pois é professor de piano e de matérias teóricas. Culto, contou-me a respeito de suas últimas leituras, assim como de partituras que gostaria de conhecer, distantes daquele repertório super frequentado. Lembrava-se ainda de minha insistência na busca de obras pouco conhecidas, mas importantes. Marcamos um encontro que se dará oportunamente, ocasião em que mostrarei composições a meu ver fundamentais e raramente visitadas por nossos intérpretes. Foram muitos os posts em que insisti nessa necessidade de redescobrir autores. Portanto, pouparei o leitor nesse quesito.
Contudo, a nossa conversa enveredou para o caminho da obra ignota do grande público, seja ela de qualquer ordem. Comentei que nos últimos meses recebera e-mails contendo anexos que exibiam belas fotos de quadros de pintores da Rússia Imperial, do romantismo europeu como um todo e de escultores franceses do século XVIII. Fiquei realmente impressionado pela singular qualidade desses artistas absolutamente dotados, mas desconhecidos do cidadão que aprecia tradicional e socialmente as artes. E-mails que me fizeram pensar nessa absurda situação que faz proliferar apenas o conhecido ou hiperconhecido, ou seja, na essência, a redundar no empobrecimento cultural. Frisei ao ex-aluno que a arte que nos é dada conhecer assemelha-se a um leque apenas entreaberto. Sequer imaginamos toda a beleza, estivesse ele a apresentar a pintura integral. Nesses exemplos incluiria a qualidade precisa de tantos compositores belgas entre os séculos XIX e XX, a riquíssima música portuguesa desde o barroco, a culminar, como excelência, nesse grande Fernando Lopes-Graça (1906-1994) – a meu ver, um dos maiores compositores do planeta no transcorrer do século XX, infelizmente ainda não divulgado à altura de sua genialidade, apesar de esforços particularizados em Portugal. À sua obra valiosa tenho-me dedicado ultimamente. Quatro de suas extraordinárias criações deverei gravar em Maio na Bélgica, perfazendo dois CDs. E quantas mais preciosidades artísticas não há submersas por toda parte pelo esclerosamento de um Sistema ! Quantos artistas de todas as áreas permanecem sepultos ! Raras exumações acontecem: “E tudo isto a morte / Risca por não estar certo / No caderno da sorte / Que Deus deixou aberto”, como reza Fernando Pessoa.
Perguntou-me se a mesmice tinha origem precisa. Disse-lhe que marchands, empresários, editores, mídia e público, acostumados a ver, ouvir e ler o que tem circulação e o conhecido, fazem parte de um todo responsável pela situação. Comentei que sub-repticiamente autores respeitados, ao citarem exemplos nas artes, mencionam o óbvio, e a quantidade de textos sobre pintura abordando determinadas obras nos deixaria pasmos. Estariam eles cônscios desse posicionamento? Não atenderia a menção ao superdivulgado à necessidade da inteligibilidade frente ao leitor acostumado ao conhecido e perenemente repetido?
Ao sentar-me, iria continuar a leitura de A origem da obra de arte, um dos seis ensaios constantes da obra Holzweg do pensador alemão Martin Heidegger (1889-1976), na tradução francesa (Chemins qui ne mènent nulle part, France, Gallimard, 1980). Em determinado segmento, Heidegger recorrerá a uma tela de Vincent Van Gogh (1853-1890) a fim de, através de velhos sapatos de um camponês, explicar seu pensamento sobre o ser-produto do produto, passando pela sua utilidade e solidez, e chegar à transcendência a partir do desgastado par de sapatos do lavrador “Através desses sapatos passa o apelo silencioso da terra… a muda inquietude pela segurança do pão, a alegria silenciosa de sobreviver novamente à necessidade, a agonia do nascimento iminente, o arrepio sob a morte que ameaça”. Se não houver o símbolo por todos conhecido, a imaginação do leitor poderia não saber se fixar. Todavia, se outro par estivesse em hipotética obra igualmente importante, mas de pintor que, por motivos os mais díspares não teve divulgação, como passar ao leitor a carga necessária? Numa outra direção, quantos estudos, teses, artigos já não foram feitos para explicar, como exemplo entre tantos, o célebre quadro O Casal Arnolfini do pintor flamengo Jan van Eych (1390-1441)? O quadro é uma obra-prima insofismável. Contudo, qual a razão dos pesquisadores em arte fixarem-se tanto no Casal Arnolfini, analisado e dissecado de todas as maneiras ainda possíveis? “Professor, o trânsito emperrou, mas de um lado é bom conversarmos”, interrompeu-me. Continuei, pois, as divagações. Quantas extraordinárias criações de pintores do período jamais mereceram uma linha de um estudioso. Milhares de milhares de turistas ao adentrarem o Louvre correm – esse é o termo – para ver a Mona Lisa, ou La Gioconda, de Leonardo da Vinci.
Primeiramente haveria a necessidade de se partir de pesquisa virgem, o que requisitará a busca às fontes primárias e à bibliografia mais complexa. Sob aspecto outro, pelo fato da falta de comparação, a mídia silencia, pois seus modelos são basicamente os mesmos desde sempre, e marchands, agentes de programação musical ou editores, em grande maioria, preferem que assim continue. Mortos propalados efusivamente têm público cativo. Observe as programações de nossas sociedades musicais. Ad nauseam os mesmos concertos para piano e orquestra ou violino e orquestra são executados anualmente em todas as temporadas pelo país. Extraordinários? Sim. Únicos, realmente não. Num aprofundamento, não acredita você que se o público leigo soubesse que há quantidade extraordinária de concertos outros escritos também por grandes compositores, basicamente ignotos, não poderia sentir-se desapreciado, autêntico capititis diminutio de sua possibilidade de aferição? Se assim não entender, pois ele representa o elo final receptivo, nada a fazer, pois a atitude de renovação não virá nem dos agentes, tampouco dos músicos envolvidos. Sob outra égide, o público é sempre conduzido, pois não será ele a procurar o inusitado. Se a globalização tendeu para a ampliação – não entremos no quesito qualidade -, e o conhecimento se colocou à disposição de todos e de maneira veloz, paradoxalmente os mesmos arquétipos são venerados em todas as artes. Mas estes são relativamente poucos se comparados à quantidade qualitativa mantida em baús. Não creio que possa haver um ressurgimento de todos os bons autores. É impossível e, se parcela destes renascesse dos arquivos, o cidadão comum poderia desnortear-se pelo aumento excessivo da comparação. Música, literatura e outras artes sofrem o mesmo e, homeopaticamente, como que por uma quase benevolência do Sistema, um desconhecido já sepultado há muito ou pouco tempo tem exumada sua obra. Quando isto acontece, os pais da redescoberta são momentaneamente glorificados, e a mídia e os interessados se precipitam e ao tecerem elogios rasgados, sentem-se prepotentemente mais cultos. O esnobismo é uma das categorias do verniz cultural. Retirada a camada, pouco sobra. Essa é a realidade que o homem enfrenta desde séculos. E tudo indica que assim continuará.
Meu ex-aluno, hoje profissional que demonstra amar a música, reagiu bem. No íntimo, pensa aproximadamente a mesma coisa, mas como me afirmou, falta-lhe a coragem para mudar as mentalidades voltadas a um aprendizado super tradicional. A esperança veio pouco antes de chegar ao seu destino, duas ou três paradas a anteceder o centro. “Professor, passarei em sua casa” disse-me ele. “Gostaria de uma lista dessas obras que o senhor considera essenciais, mas pouco divulgadas”. Aquiesci com alegria, pois sempre acreditei nessa imensidão criativa que teimosamente o Sistema não revela. Ele desceu e segui até o ponto final a pensar que ainda poderemos fazer algo a favor do inusitado. Deixarão? O tempo dirá.