Navegando Posts em Cotidiano

Quando há irmanação no pensar

Clique nas imagens para ampliá-las.

 Vista da Horta, capital do Faial. Arquipélago dos Açores. 1992. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Só sei chorar em português.
Heitor Aghá Silva

Reiteradas vezes comentei com o leitor sobre minhas escutas matinais de noticiários transmitidos pelas emissoras de rádio. Ouço-os do despertar ao início de meus estudos musicais. Geralmente visito quatro delas, pois sei que, em determinado momento, comentaristas de minha preferência emitem suas opiniões. Ultimamente, uma das rádios, de enorme audiência, em reiteradas e insistentes inserções tem feito crítica ao conteúdo das novelas e de determinado reality show, em aspectos tangentes à moralidade e à deturpação dos costumes. Insiste na necessidade de haver um controle sobre conteúdos que estão a tender para uma alteração comportamental de crianças, jovens e adultos, mercê de exemplos não dignificantes, expostos em forte crescimento, a demonstrar a absoluta permissividade, perigoso caminho para a derrocada do mínimo de moralidade ainda existente nesses programas exibidos pelas telas de todo o Brasil.
Após tournée pianística pelo Arquipélago dos Açores em 1992, fui convidado pelo poeta e ensaísta Heitor Aghá Silva, da cidade da Horta, capital do Faial, uma das nove ilhas que compõem essa parte bonita do território português no Atlântico norte, para ser correspondente do Suplemento Cultural Antília, do jornal O Telégrafo. Aquiesci com muito gosto e enviei vários artigos. Ao ler pungente matéria redigida e publicada por Heitor Silva, coordenador do Antília, a respeito dos efeitos nefastos produzidos pelas novelas brasileiras em solo açoriano, escrevi dois artigos a concordar com o articulista, mas tendo ingredientes que o valoroso povo dos Açores desconhecia. Coloco-os em meu blog, pois evidenciam, quase vinte anos após, aspectos que estão em processo aumentativo e denunciados ultimamente por emissora AM de São Paulo. Transcreverei em duas etapas, pois sequenciais, a manter o texto tal qual publicado, com a ortografia configurada pelo Antília. O primeiro data de 9-10 de Janeiro de 1993.

A “Voz e o Eco” Captados Além-Mar

“Publicado no Antília de Novembro último, ‘A Voz e o Eco’ torna-se um texto que, pela lucidez de seu autor, põe à mostra uma preocupação com esse lamentável proliferar das novelas no Arquipélago. A quantidade destas é grande, o prejuízo à identidade de um povo de riquíssima tradição cultural, proporcional ao número elevado a se processar em acelerado caminhar rumo ao impasse, pelo que se depreende do artigo em questão.
Realisticamente, o coordenador de Antília evidencia o alerta – talvez tardio – e denuncia a deteriorização advinda de um vício que, de há muito, uma minoria consciente está a apontar, sem ser ouvida, nas terras por Cabral descobertas. Contudo, Heitor Aghá Silva, ao trazer ao público faialense o conteúdo de ‘telenovelas tão pobres, tão estupidamente supérfluas, tão assustadoramente embrutecedoras (…)’, talvez desconheça – é possível – que, no Brasil, o cancro instaurado nessa espécie televisiva, hoje espalhada além das fronteiras da língua portuguesa, tem, ano após ano, corroborado o desmonte de uma cultura erigida durante séculos, a criar artificialmente valores, modismos que, longe de serem naturais – do povo à autêntica assimilação -, surgem obedecendo tantas vezes a interesses escusos de uma média manipuladora, representante de um poder incomensurável neste imenso país. Sob outro aspecto, no Brasil, quantidade de livros, ensaios e artigos, assim como teses acadêmicas, discutem a problemática da telenovela, em análises multidirecionadas.
É de se prantear receberem Portugal continental e os Açores os ‘enlatados’ prontos para o consumo, sem quaisquer interferências das mentes portuguesas. Refiro-me à deformação de um texto básico que, em vez de ter a sequência lógica do autor obedecida, sofre os impactos da pesquisa que atende aos interesses confessos e que modifica a trajectória de uma novela, a sacrificar ou não os personagens fictícios. O autor, previamente, torna-se partícipe de um circunstancial desvio, a resultar o texto final desvirtuado, descaracterizado, anacrónico e desprovido de qualquer valor literário; sendo que a ideia, essa antecâmara da criação, perde totalmente o rumo.
Frise-se, sempre, o manipular personagens novelescas é prática brasileira, a atender aspectos já distorcidos de outras categorias de distorções que o apelo frenético ao consumo estabelece. O desvio de um enredo considera, pois, a ‘realidade’ brasileira, preferencialmente de uma sociedade urbana, jovem e fácil de ser fisgada pelo anzol do capitalismo, que no Brasil é sempre nomeado de selvagem, mas que se mostra particularmente irracional, nos últimos anos.
A ‘colcha de retalhos’ que se torna a novela brasileira forma-se a partir de revistas ‘especializadas’, de altíssimas vendagens, que contam com um tipo de leitor que, basicamente, agarra-se ao novelesco a fim de se refugiar num ‘paraíso ideal’. Esses periódicos informam das tramas do estúdio de gravações à vida íntima de actores e actrizes, e os personagens fictícios se misturam ao real. O leitor dessas publicações descartáveis, de insípido amontoado de palavras, sente-se prestigiado, identifica-se com toda essa irrealidade, dá seus palpites e chega a ‘interferir’ !!! Resulta que Portugal e os Açores tombam numa grande armadilha forjada numa cultura que não lhes pertence, mas que, paradoxalmente, não é, no cerne, brasileira – entenda-se cultura de um povo -, pois urbana, básica de duas cidades, Rio de Janeiro – matriz novelesca – e São Paulo, e profundamente manipulada pelo interesse comercial dos poderosos.

Capelinhos. Ao fundo, o farol. Horta, Faial, Açores. 1992. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Quando o arguto coordenador e sensível poeta diz que ‘os povos é que criam e recriam a própria língua’, baseia-se num axioma legitimado. O ‘linguajar’ dos personagens jovens nas novelas é urbano, pertence a uma classe não popular, mas influente em todo o território brasileiro e, infelizmente em Portugal e nos Açores. Sem possibilidade de interferir, o Arquipélago recebe ‘em cheio’ o impacto do equívoco, da história manipulada, da língua portuguesa ultrajada e plena de inconsistentes e circunstanciais ‘neologismos’, do mais amplo absurdo. E o pior é que muitos desses termos temporários, que vivem à mercê do modismo, por motivos de complexa explicação igualmente entram em certo tipo de dicionário da língua portuguesa editado e reverenciado no Brasil !!!
Sob o ângulo da fala, novelas que se passam em regiões com acentuações diferenciadas apresentam, na essência, a aparência da realidade, pois o habitante dessas regiões entende errônea a pronúncia dos actores, sem as características regionais.
As trilhas sonoras atém-se ao entulho repertorial oriundo basicamente dos E.U.A. e parte musical produzida no Brasil. Para ambos os casos, discos são lançados e realizam-se apresentações dos intérpretes pelo vasto território brasileiro. É toda uma máquina de facturar.
Some-se aos desacertos um primordial, estranho, soturno retrato de uma sociedade brasileira onde a impunidade, essa mater de todos os desmandos e corrupções, impera. Frise-se, jamais compactuado pela imensa maioria do povo brasileiro, ordeira, honesta e trabalhadora – haja vista o processo de impeachment do presidente Collor de Mello, quando as massas saíram às ruas contra o descalabro e pressionaram o Congresso Nacional. Para o ‘batedor de carteiras’, denominado igualmente ‘trombadinha’, e para aquele que comete o ‘crime do colarinho branco’ (corrupção nos mais altos níveis sócio-económico-políticos), o tratamento é rigorosamente diferenciado, jamais vendo este as barras paralelas, amontoando-se o primeiro e muitos outros em prisões superlotadas.
Perguntaria: o que os açorianos têm a ver com o lamentável cotidiano desse imenso país, pleno de tantas esperanças, mas perdido nos interesses de uma minoria? É que a realidade do dia a dia penetra o vídeo, entusiasma directores comprometidos com esse surrealismo todo; e o que se vê em muitos dos finais de novelas, hoje, é o triunfo do corrompedor, a vitória dos trapaceiros, estelionatários ou mandantes da contravenção, algumas vezes fugindo descontraidamente do país na mais absoluta tranquilidade e ‘paz’. Numa dessas fugas, num avião, um personagem dirige-se ao Brasil como um todo, sorrindo pelo êxito de suas tramas sórdidas, através de gesto manual considerado, sabidamente, ofensivo. Exemplo vivo para quem assiste desprotegido, modelo ‘infinito’ para as gerações que surgem.
A indumentar toda essa parafernália, a moda dos que nas novelas actuam, representada pelas roupas informais ou esportivas, assim como bijouterias, penteados, tudo se transforma na mercadoria do day after.
‘A Voz e o Eco’ do poeta cá chegaram. Para quem os entendeu, a constatação do estrago maior, que diariamente a grande maioria das novelas brasileiras causa aos Açores. Torna-se quase impossível modificar esse estado absurdo. É necessário, contudo, persistir, denunciar o equívoco. A dificuldade é incomensurável frente à média onipotente e onipresente. Apesar dos versos de Almeida Firmino, ‘Falta-nos a voz com que protestar’, tenhamos ao menos a pena para escrever o desencanto.”

Não é de se lamentar que, após tantos anos – uma quase maioridade –, a situação continue em ascensão geometricamente sombria?

Brazilian soap operas and reality shows with questionable content have been running on Portuguese television channels for ages. This post – the transcription of an article I wrote for an Azorean newspaper in 1993 – discusses their potential for influencing the indigenous culture for the worse, since the values imbedded in such TV programs are those of the society that produced them, not those of the local audience.

Divagações sobre Arte

Mário Zanini. Vagão de segunda classe. Óleo sobre tela, 1969, coleção particular.

A mais linda flor
permanece oculta.

Adágio vietnamita

Peguei o ônibus para ir ao centro da cidade, o meio mais rápido neste trânsito complexo. Há os corredores, que raramente travam. Fora dos horários de pico encontram-se sempre lugares. A terceira idade ainda tem seus poucos privilégios, e os motoristas geralmente são amáveis para com idosos. Peço licença e sento-me ao lado de um cidadão a beirar os 40 anos. Começo a ler. “Professor, o senhor não se lembra de mim?”, indagou-me. Olhei-o e o reconheci. Após mútuas saudações e real prazer nesse reencontro, perguntei-lhe a respeito de seus caminhos após se formar. Estudara comigo durante a graduação na Universidade, no primeiro lustro de 80. Continuou seus estudos musicais na Europa durante muitos anos. Voltava de aulas que ministra junto a uma escola de música, não distante de minha casa. Há tempos gostaria de conversar com seu antigo mestre a respeito de repertório pianístico, pois é professor de piano e de matérias teóricas. Culto, contou-me a respeito de suas últimas leituras, assim como de partituras que gostaria de conhecer, distantes daquele repertório super frequentado. Lembrava-se ainda de minha insistência na busca de obras pouco conhecidas, mas importantes. Marcamos um encontro que se dará oportunamente, ocasião em que mostrarei composições a meu ver fundamentais e raramente visitadas por nossos intérpretes. Foram muitos os posts em que insisti nessa necessidade de redescobrir autores. Portanto, pouparei o leitor nesse quesito.
Contudo, a nossa conversa enveredou para o caminho da obra ignota do grande público, seja ela de qualquer ordem. Comentei que nos últimos meses recebera e-mails contendo anexos que exibiam belas fotos de quadros de pintores da Rússia Imperial, do romantismo europeu como um todo e de escultores franceses do século XVIII. Fiquei realmente impressionado pela singular qualidade desses artistas absolutamente dotados, mas desconhecidos do cidadão que aprecia tradicional e socialmente as artes. E-mails que me fizeram pensar nessa absurda situação que faz proliferar apenas o conhecido ou hiperconhecido, ou seja, na essência, a redundar no empobrecimento cultural. Frisei ao ex-aluno que a arte que nos é dada conhecer assemelha-se a um leque apenas entreaberto. Sequer imaginamos toda a beleza, estivesse ele a apresentar a pintura integral. Nesses exemplos incluiria a qualidade precisa de tantos compositores belgas entre os séculos XIX e XX, a riquíssima música portuguesa desde o barroco, a culminar, como excelência, nesse grande Fernando Lopes-Graça (1906-1994) – a meu ver, um dos maiores compositores do planeta no transcorrer do século XX, infelizmente ainda não divulgado à altura de sua genialidade, apesar de esforços particularizados em Portugal. À sua obra valiosa tenho-me dedicado ultimamente. Quatro de suas extraordinárias criações deverei gravar em Maio na Bélgica, perfazendo dois CDs. E quantas mais preciosidades artísticas não há submersas por toda parte pelo esclerosamento de um Sistema ! Quantos artistas de todas as áreas permanecem sepultos ! Raras exumações acontecem: “E tudo isto a morte / Risca por não estar certo / No caderno da sorte / Que Deus deixou aberto”, como reza Fernando Pessoa.
Perguntou-me se a mesmice tinha origem precisa. Disse-lhe que marchands, empresários, editores, mídia e público, acostumados a ver, ouvir e ler o que tem circulação e o conhecido, fazem parte de um todo responsável pela situação. Comentei que sub-repticiamente autores respeitados, ao citarem exemplos nas artes, mencionam o óbvio, e a quantidade de textos sobre pintura abordando determinadas obras nos deixaria pasmos. Estariam eles cônscios desse posicionamento? Não atenderia a menção ao superdivulgado à necessidade da inteligibilidade frente ao leitor acostumado ao conhecido e perenemente repetido?
Ao sentar-me, iria continuar a leitura de A origem da obra de arte, um dos seis ensaios constantes da obra Holzweg do pensador alemão Martin Heidegger (1889-1976), na tradução francesa (Chemins qui ne mènent nulle part, France, Gallimard, 1980). Em determinado segmento, Heidegger recorrerá a uma tela de Vincent Van Gogh (1853-1890) a fim de, através de velhos sapatos de um camponês, explicar seu pensamento sobre o ser-produto do produto, passando pela sua utilidade e solidez, e chegar à transcendência a partir do desgastado par de sapatos do lavrador “Através desses sapatos passa o apelo silencioso da terra… a muda inquietude pela segurança do pão, a alegria silenciosa de sobreviver novamente à necessidade, a agonia do nascimento iminente, o arrepio sob a morte que ameaça”. Se não houver o símbolo por todos conhecido, a imaginação do leitor poderia não saber se fixar. Todavia, se outro par estivesse em hipotética obra igualmente importante, mas de pintor que, por motivos os mais díspares não teve divulgação, como passar ao leitor a carga necessária? Numa outra direção, quantos estudos, teses, artigos já não foram feitos para explicar, como exemplo entre tantos, o célebre quadro O Casal Arnolfini do pintor flamengo Jan van Eych (1390-1441)? O quadro é uma obra-prima insofismável. Contudo, qual a razão dos pesquisadores em arte fixarem-se tanto no Casal Arnolfini, analisado e dissecado de todas as maneiras ainda possíveis? “Professor, o trânsito emperrou, mas de um lado é bom conversarmos”, interrompeu-me. Continuei, pois, as divagações. Quantas extraordinárias criações de pintores do período jamais mereceram uma linha de um estudioso. Milhares de milhares de turistas ao adentrarem o Louvre correm – esse é o termo – para ver a Mona Lisa, ou La Gioconda, de Leonardo da Vinci.
Primeiramente haveria a necessidade de se partir de pesquisa virgem, o que requisitará a busca às fontes primárias e à bibliografia mais complexa. Sob aspecto outro, pelo fato da falta de comparação, a mídia silencia, pois seus modelos são basicamente os mesmos desde sempre, e marchands, agentes de programação musical ou editores, em grande maioria, preferem que assim continue. Mortos propalados efusivamente têm público cativo. Observe as programações de nossas sociedades musicais. Ad nauseam os mesmos concertos para piano e orquestra ou violino e orquestra são executados anualmente em todas as temporadas pelo país. Extraordinários? Sim. Únicos, realmente não. Num aprofundamento, não acredita você que se o público leigo soubesse que há quantidade extraordinária de concertos outros escritos também por grandes compositores, basicamente ignotos, não poderia sentir-se desapreciado, autêntico capititis diminutio de sua possibilidade de aferição? Se assim não entender, pois ele representa o elo final receptivo, nada a fazer, pois a atitude de renovação não virá nem dos agentes, tampouco dos músicos envolvidos. Sob outra égide, o público é sempre conduzido, pois não será ele a procurar o inusitado. Se a globalização tendeu para a ampliação – não entremos no quesito qualidade -, e o conhecimento se colocou à disposição de todos e de maneira veloz, paradoxalmente os mesmos arquétipos são venerados em todas as artes. Mas estes são relativamente poucos se comparados à quantidade qualitativa mantida em baús. Não creio que possa haver um ressurgimento de todos os bons autores. É impossível e, se parcela destes renascesse dos arquivos, o cidadão comum poderia desnortear-se pelo aumento excessivo da comparação. Música, literatura e outras artes sofrem o mesmo e, homeopaticamente, como que por uma quase benevolência do Sistema, um desconhecido já sepultado há muito ou pouco tempo tem exumada sua obra. Quando isto acontece, os pais da redescoberta são momentaneamente glorificados, e a mídia e os interessados se precipitam e ao tecerem elogios rasgados, sentem-se prepotentemente mais cultos. O esnobismo é uma das categorias do verniz cultural. Retirada a camada, pouco sobra. Essa é a realidade que o homem enfrenta desde séculos. E tudo indica que assim continuará.
Meu ex-aluno, hoje profissional que demonstra amar a música, reagiu bem. No íntimo, pensa aproximadamente a mesma coisa, mas como me afirmou, falta-lhe a coragem para mudar as mentalidades voltadas a um aprendizado super tradicional. A esperança veio pouco antes de chegar ao seu destino, duas ou três paradas a anteceder o centro. “Professor, passarei em sua casa” disse-me ele. “Gostaria de uma lista dessas obras que o senhor considera essenciais, mas pouco divulgadas”. Aquiesci com alegria, pois sempre acreditei nessa imensidão criativa que teimosamente o Sistema não revela. Ele desceu e segui até o ponto final a pensar que ainda poderemos fazer algo a favor do inusitado. Deixarão? O tempo dirá.

Visitá-lo em Prazo Certo

(Clique nas imagens para ampliá-las)

Gil na tarefa de desbastar cabelos. Clique para ampliar.

Barba ensaboada,
meio rapada.

Adágio açoriano – S. Miguel

Um de meus primeiros posts para o blog abordou o livro Postais Paulistas, de Frederico Branco (vide Frederico Branco – A Revisitação das Imagens Perdidas, 09/03/07). Em uma das crônicas, Muito além do Vesúvio, o autor descreve velha barbearia que costumava frequentar. Não esquece nenhum pormenor e, bem mais tarde, ao referir-se a uma mais moderna, observa com certa nostalgia que “não se fazem mais barbeiros nem salões como os de antigamente. Nem clientes, como verifiquei há dias”. A descrição que Frederico Branco faz é exata se comparada àquela que mensalmente frequentava minha mente na infância. Tratava-se de uma garagem adaptada com azulejos brancos, situada bem próximo de nossa casa na Avenida Rodrigues Alves, na Vila Mariana, onde vivemos até o final da juventude.

Oficina de peruqueiro-barbeiro. França, século XVIII. Enciclopédia Diderot.

A profissão de barbeiro é muito antiga e foi-se transformando com o passar do tempo. Teve requintes no século XVIII em França. O ofício popularizou-se com o passar das décadas, a fazer parte do cotidiano. Curiosamente, no interior do Brasil, aquele que fazia o corte de cabelos e barba exercia, quando necessário, a função de “dentista”. Um boticão ajustado a um dente que estava a provocar dor, e a extração se dava. Quando de minhas incursões em busca da imaginária paulista nos anos 70-80, na região que se estende de Santa Isabel a Nazaré Paulista, no Estado de São Paulo, encontrei em um chiqueiro uma estranha cadeira completamente partida. Como andava sempre de botas naquelas ocasiões, adentrei o velho galpão, chafurdando naquela massa mole e informe, e retirei todas as partes dessa cadeira. Observei que havia resquícios de palhinha da India. A anciã, que habitava a casa simples coberta por sapé e bem próxima ao chiqueiro, disse-me que seu pai e seu avô haviam sido barbeiros e extraíam dentes. Quis saber mais e a idosa contou-me que, antes da extração, jovens ou velhos tomavam uma caneca de pinga e que, ainda menina, era a encarregada, quando ouvia o seu nome, de levar a aguardente já preparada para ser engolida de um só trago. Disse-me ainda que o pai de uma de suas comadres, que morava a tantas léguas de sua casa, desempenhara igualmente a profissão de barbeiro. Naquele mesmo dia encontrei, pois, duas cadeiras, sendo que a última estava inteira, sem palhinha, mas com uma tábua qualquer pregada, a fim de que se pudesse sentar. Serviu contudo como modelo para as restaurações que foram realizadas em São Paulo por um excelente especialista que conheci nos anos 70, Luca Miranda. Verificamos tratar-se de cadeiras de barbeiro da segunda metade do século XIX. Elegantes e funcionais, possuem um encosto regulável para a cabeça, o que proporcionava maior conforto para o freguês.

Cadeiras de Barbeiro. Século XIX. Clique para ampliar.

Todavia, foi no século XX que entre nós surgiram essas pequenas barbearias que cuidavam rotineiramente do corte de cabelos e do cuidado com a barba. Barbeiros tinham rara habilidade, nesse último caso, no manuseio da afiadíssima navalha, que ao menor descuido causava estragos, só não maiores graças ao álcool Zulu sempre à mão do profissional. Imperava a cadeira Ferrante, alta, confeccionada em ferro fundido e com a marca em letras grandes no repouso para os pés, também em ferro. Presentemente elas têm design bem diferente. Até hoje lembro-me do instrumental do barbeiro de minha infância, um descendente de imigrantes portugueses. Na minha memória ficaram tesouras comuns ou de desfiar da famosa marca Solingen; pentes de osso; bombinha a servir como vaporizador humidificante; pequena máquina manual que chegava a arranhar o pescoço e que servia para cortar com precisão pêlos os mais recalcitrantes; loção Sandar com perfume bem popular que, quando sobre a mesinha do profissional, tinha três camadas coloridas e que, antes de ser utilizada, era agitada pelo barbeiro, ficava turva e servia para o cidadão aplicar vigorosa massagem capilar; e finalmente, o talco. O corte para o miúdo, adolescente e jovem daqueles tempos era bem comum, sem nenhum sentido de esmero maior. Importava ao barbeiro desbastar o que crescera rapidamente em um mês e receber o que lhe era devido. Quando aguardávamos atendimento, revistas bem velhas serviam para fazer passar o tempo e um jornal esportivo estava à disposição. A conversa tinha como temas política e futebol, e já àquela altura a corrupção grassava. O aparelho de rádio permanecia ligado, ou dando notícias ou a tocar música popular brasileira do período.
Pertencente à classe dedicada ao trabalho que pode variar na intensidade, mercê da frequência dos clientes, geralmente o barbeiro é muito bem informado. Ouve, bem mais do que lê, e dificilmente não está atualizado quanto ao cotidiano, graças à diversidade cultural dos fregueses. Esse barbeiro de antigamente é cada vez mais raro e subsiste nos bairros, na periferia e nas cidades do interior. Profissional geralmente bem estimado pelos frequentadores. Infelizmente, o termo barbeiro, com a chegada das casas especializadas que atendem homens e mulheres, passou a ser quase que pejorativo. Atualmente nas grandes cidades, os barbeiros preferem ser denominados hairdressers ou hairstylists, e os estabelecimentos aos quais pertencem têm fachadas atraentes. Redes existem em que é notória a presença desses especialistas, não apenas mais jovens, mas também uniformizados. Como ainda pertenço às tradições, frequento os mesmos barbeiros e tanto Samuel como Gil conservam o estilo à antiga no corte e no trato. Isso me reconforta quando vou à poda dos cabelos, que teimosamente ainda cismam em crescer. Lembro-me que durante a quimioterapia, quando quase tudo veio abaixo, Samuel podava uns poucos fios desorganizados e insistia em receber apenas metade do preço tabelado.

Instrumentos de trabalho do Sr. Gusmão, pai de Uyara. Clique para ampliar.

O tema veio a propósito de uma conversa com meu amigo e vizinho Uyara. Disse-me que encontrara os instrumentos que seu pai utilizou durante décadas, pois barbeiro em São Sebastião do Paraíso (MG). Daí a estendermos recordações foi fácil. Frisou que seu Gusmão lhe dizia que o melhor couro para afiar navalhas era o de Anta, pois a lâmina deslizava com maciez. Meu saudoso pai também desempenhara a função de barbeiro durante a mocidade na cidade de Braga, em Portugal. Um de seus fregueses, Lourenço dos Santos, que mantinha uma casa comercial importante – Casa das Novidades -, convidou-o a vir morar e trabalhar em seu estabelecimento, o que ocorreu entre 1918-28, quando nosso progenitor veio tentar a vida no Brasil, amando Portugal, mas sem jamais retornar ao torrão natal. No entanto, durante toda a existência manteria correspondência com Lourenço e descendentes, a demonstrar gratidão eterna.

JEM a cortar cabelos de um menino. La Querye, França, 1960. Clique para ampliar.

Em texto bem anterior já mencionara minhas incursões no corte de cabelos, difícil tarefa para um leigo (vide La Querye – Férias Inesquecíveis, 09/02/08). Naqueles sempre lembrados 1960-61, quando das férias no departamento de Allier, na França, “exerci” a função de barbeiro à antiga, e miúdos filhos de meus amigos submeteram-se ao coiffeur improvisado. Se pratiquei calamidade em um dos cortes, a provocar um caminho de rato que consegui nos dias subsequentes, a duras penas, tornar menos evidente, safei-me razoavelmente nesse mister que era praticado ao ar livre. A foto, não publicada no post La Querye, foi encontrada recentemente dentro de um livro que estava a consultar. De jaleco típico, estou cuidando de um dos cortes. DNA? Só bem mais tarde soube dos predicados profissionais de meu pai, como barbeiro que foi durante alguns anos da sua mocidade.
Se incontáveis profissões podem jamais cruzar a vida dos cidadãos, a de barbeiro é uma das que o homem não pode prescindir, mesmo quando a devastação capilar se apresenta evidente. Subsistirá, e é motivo a mais, simples e tranquilo, para uma boa conversa descompromissada e periódica. Após a poda, a visualização através do espelho será a prova de que o barbeiro, geralmente mantido na fidelidade durante anos, trabalhou bem e merece o nosso agradecimento.

On Barbering and Barbers:
The starting point of this post was a chat with a friend, who mentioned his father had been a barber. It made me think about the ancient profession of barbering, the barbershops of my youth – walk-in salons with their arsenal of razors, scissors, brush, bone combs, after-shave lotions, antique barber chairs – and the high-end salons of today, with their teams of usually young uniformed professionals trying to accommodate tradition with modern practices, as fashion and trends evolve.