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Livros Portugueses sobre Música

Books are the quietest and most constant of friends; they are the most accessible and wisest of counsellors, and the most patient of teachers.
Charles W. Eliot

A aquisição em Lisboa de uma sacola resistente, no regresso à minha cidade-bairro, Brooklin, foi necessária. Já trazia da Bélgica um bom material discográfico e partituras contemporâneas. Em Portugal, durante as atividades musicais por diversas cidades, fui cumulado de livros, CDs e outras partituras por ilustres músicos e pensadores amigos. Para um país de dimensões pequenas, é extraordinária a qualidade e o número de bons livros sobre música que estão constantemente a surgir. Debruça-se Portugal sobre a criação musical dos séculos XVI e XVII à contemporaneidade e importantes contributos estão sempre a nascer, demonstrando pulsação salutar.
José Maria Pedrosa Cardoso, Professor da Universidade de Coimbra, que já escrevera obra de fôlego a abordar o Canto da Paixão (José Maria Pedrosa Cardoso. O Canto da Paixão nos Séculos XVI e XVII – A Singularidade Portuguesa. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006, 560 págs.) particulariza seu olhar sobre aspectos outros do período e realiza estudo referencial sobre tema ainda pouco estudado (José Maria Pedrosa Cardoso. Cerimonial da Capela Real – Um Manual Litúrgico de D. Maria de Portugal – 1538-1577 – Princesa de Parma. Lisboa, INCM – Fundação Calouste Gulbenkian, Março de 2008, 157 págs.). Tem-se obra igualmente profunda, e Pedrosa Cardoso, latinista e musicólogo competente, investiga os manuscritos pertinentes, dá-lhes a “atualidade” necessária, e revela igualmente aos interessados, particularidades essenciais da escrita musical dos documentos estudados.

Fernando Lopes-Graça (1906-1994), compositor da maior expressão mundial, tem suas obras pouco a pouco editadas, e surgem trabalhos literários a abordar a sua opera omnia composicional, assim como o seu pensar arguto e ideologicamente convicto, a dimensionar ainda mais sua produção musical. Percorre o século XX em quase toda a sua totalidade a produzir sempre com intensidade e competência. Três obras recém-publicadas merecem destaque. Marchas, Danças e Canções teve uma republicação em tamanho reduzido a partir da 2ª edição, impressa em 1981. Acompanha a partitura riquíssimo CD-Rom com a integral da obra gravada em 1999 pelo Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música, sob a direção de José Robert, com acompanhamento de Madalena Sá Pessoa ao piano; cronologia da vida e da obra do compositor; iconografia e biografia, entre tantas outras preciosas informações. Mereceu a publicação o apoio de diversas entidades portuguesas.
Um estudo necessário à compreensão das origens de Lopes-Graça, nascido em Tomar, foi realizado por Antônio de Sousa, Professor da Escola de Música Canto-Firme em Tomar, que buscou inserir o compositor na problemática da cidade-berço junto à formação básica e de juventude de Lopes-Graça. Acompanha o compositor em todos os seus contactos posteriores com a cidade. A vivência do autor do livro, na cidade de Tomar, insere não apenas um conteúdo afetivo, como também historiográfico (António de Sousa. A Construção de uma Identidade – Tomar na Vida e Obra de Fernando Lopes-Graça. Tomar, Cosmos, 2006, 254 págs.).
Mário Vieira de Carvalho, Professor da Universidade Nova de Lisboa, presta mais uma importante contribuição à memória do compositor tomarense (Mário Vieira de Carvalho. Pensar a Música, Mudar o Mundo: Fernando Lopes-Graça. Porto, Campos das Letras, 2006, 267 págs.). Na obra, o autor, que há décadas debruça-se sobre o compositor, revela fatos fundamentais à compreensão do universo edificado por Lopes-Graça. Dele consta a relação documental sobre o músico existente nos Arquivos da PIDE/DGS, órgão da polícia salazarista. O livro, dividido em três partes, contém nos anexos a documentação mencionada. Nas partes, aborda não apenas aspectos plurifacetados de Lopes-Graça, como analisa determinadas criações do compositor. Faz sentido refletirmos sobre essa permanente vigilância policial que Lopes-Graça sofreria durante a período do ditador Salazar.

Em outro livro de profundo interesse, Mário Vieira de Carvalho investiga as conseqüências da obra do compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) para a música da segunda metade do século XX (Mário Vieira de Carvalho. A Tragédia da Escuta – Luigi Nono e a Música do Século XX. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Agosto de 2007, 394 págs.). Há tempos Vieira de Carvalho já se interessava, através de textos publicados em outros países europeus, pela obra de Luigi Nono. As duas partes fundamentais que compõem o livro tratam da polêmica e abrangente questão estética e sociológica da música contemporânea no continente europeu. Os títulos e subtítulos pertinentes (Excursos; Composição, Interpretação e Dialéctica da Escuta) focalizam com agudeza a problemática do pensar e da ação musical contemporâneos.
Manuel Pedro Ferreira, Professor da Universidade Nova de Lisboa, coordenou e contribuiu com artigos essenciais, juntamente com outros especialistas, em obra que estuda compositores contemporâneos relevantes de Portugal (Manuel Pedro Ferreira, coordenador. Dez compositores Portugueses: Cláudio Carneyro, Clotilde Rosa, Constança Capdeville, Emmanuel Nunes, Fernando Lopes-Graça, Frederico de Freitas, Jorge Croner de Vasconcellos, Jorge Peixinho, Joly Braga Santos, Luís de Freitas Branco. Lisboa, Dom Quixote, 2005, 404 págs.). Acompanha a publicação um CD com obras de Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos e Emmanuel Nunes.
Dois pesquisadores competentes foram responsáveis pela edição de livro a respeito da Interpretação (Francisco Monteiro e Ângelo Martingo, coordenadores. Interpretação Musical – Teoria e Prática. Lisboa, Colibri, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, C.E.S.E.M., Universidade Nova de Lisboa, Novembro 2007, 249 págs.). Escrevi o artigo Interpretação Musical Frente à Tradição – Piano como Modelo (páginas 177-202).
Após o recital em Braga, a Professora Elisa Lessa, Diretora do Departamento de Música da Universidade do Minho, presenteou-me com um livro de memórias da violoncelista Madalena Sá e Costa, irmã da ilustre professora e pianista Helena Sá e Costa, falecida em 2006 (Madalena Sá e Costa. Memórias e Recordações. Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2008, 208 págs.). A obra apresenta iconografia significativa, a ilustrar o texto agradável da violoncelista. Um CD com músicas inéditas acompanha o livro de bela apresentação. Aos 7 de Janeiro de 1986, na Delegação Regional do Norte na cidade do Porto, Madalena Sá e Costa e eu nos apresentamos com obras de Beethoven, Oswald, Debussy e Luís Filipe Pires.
Dois livros, que não versam sobre música, recebi-os de outros amigos diletos. A competente gregorianista Idadele Giga presenteou-me com a publicação sobre o poeta e pensador Agostinho da Silva (José Florido. Reencontrar Agostinho da Silva – o Poeta e o Poema. Corroios, Zéfiro, 2006, 200 págs.). Após conhecer Leituras sobre o Himalaia em posts anteriores, Alexandre Branco Weffort ofereceu-me livro sobre texto sagrado do budismo primitivo (Dhammapada – As Palavras de Buda. Edição Bilíngüe Páli-Português – Tradução de José Carlos Calazans. Lisboa, Ésquilo, 2006, 270 págs.). Presenteara-me em 2007 com precioso livro, a corroborar o desvelamento do Mestre de Tomar (Alexandre Branco Weffort, organização. A Canção Popular Portuguesa em Fernando Lopes-Graça. Lisboa, Caminho, Agosto de 2006, 445 págs. Associou-se ao livro CD-Rom com texto, imagens e reproduções de muitas das peças focadas na coletânea). Como provocação, trouxe-me cópia de Cosmorame, de Fernando Lopes-Graça, grand recueil de pièces pour piano composées sur des airs de divers pays et consacrées à la fraternité des peuples. Aceitei o desafio e pretendo interpretar a série, nos recitais em Portugal em 2009, quando completarei 50 anos da primeira apresentação pianística em terras portuguesas, que se deu aos 14 de Julho de 1959 na Academia de Amadores de Música, a convite do compositor Lopes-Graça. Entrevistado por Alexandre Branco Weffort para seu excelente programa Cosmorama, estivemos a percorrer as Viagens na Minha Terra, de Lopes-Graça, coletânea que gravei para o selo Portugaler. A entrevista poderá ser ouvida na íntegra durante algumas semanas através de RDP –Antena 2 – Cosmorama.
Irei lendo os livros oferecidos pelos prezados amigos, à medida da passagem do tempo. No próximo post relatarei os CDs e outras partituras recebidos.

The book publishing market in Portugal: a panoramic view of recently released books on classical music by Portuguese authors.

Origens e Trajetória

Silêncio! Guitarra minha,
Deixa ouvir, deixa cantar,
À branda luz do luar
A virgem que adoro e sigo.
Rumores que ides passando
Pelos roseirais em flor,
Vinde ouvir o meu amor.
Sonhando amores comigo.

Simões Dias

O Fado, como expressão significativa da alma portuguesa, tem sido objeto de estudos os mais diversos quanto à qualidade de aprofundamento. É menos provável a penetração, por musicólogos ligados à universidade em Portugal, na temática que tanto revela conteúdos da raça. Explica o fato a abundante ocorrência, em terras lusitanas, da manifestação da música denominada culta ou erudita, a levar quantidade apreciável de estudiosos a se debruçar sobre uma rica informação que se estende basicamente da Idade Média aos nossos dias.
Quando um musicólogo da dimensão de Rui Vieira Nery detém-se na temática do Fado, está-se diante da avaliação competente, do levantamento histórico-musical pormenorizado e do olhar crítico insofismável. Vieira Nery tem oferecido preciosos contributos à comunidade internacional, revelando e divulgando compositores eruditos conhecidos ou não, e até mesmo anônimos que produziram em Portugal criações à altura do que se conhece em outros países da Europa, assim como observando conteúdos sociais pertinentes à Música como um todo. Escreveu mais recentemente um livro da maior importância para as culturas de nossos dias (Vieira Nery, Rui. Para uma História do Fado. Portugal, Público-Corda Seca, 2004, 301 págs.) A precedê-lo, cuidou da elaboração de 19 textos da preciosa coletânea de 20 CDs publicada pelo diário o Público, penetrando no âmago da imagem sonora do universo do fado desde as origens gravadas (“O Fado do Público”. Lisboa, Público e Corda Seca, 20 CDs, 2004). Essa enciclopédia fadista, que teve publicação hebdomadária, levaria Vieira Nery à precisa sistematização que o tempo estreito exigia. O amálgama foi absoluto. A audição de fados registrados fonograficamente e textos lúcidos do musicólogo estabeleceram a ponte necessária a ser transposta, a fim de que a obra literário-musical a seguir adquirisse o sentido de abrangência, a atender às expectativas do leigo e daqueles que captam de maneira mais contundente a linguagem musical e literária do Fado. A revisão dos textos que acompanham os CDs levou à ampliação da pesquisa sob todos os fundamentos, a tornar Para uma História do Fado em seu formato livro, um marco nesse aprofundamento que se faz necessário em torno do Fado. Este – apesar de mutações naturais – traduz expressões da alma de um povo, genuinamente autênticas, resultando em salvaguarda para o estabelecimento de critérios alentadores.

O caminho escolhido por Vieira Nery tem o olhar acadêmico, sem contudo apresentar as armadilhas de um texto da Academia, invariavelmente freqüentado por aqueles que a ela pertencem. Sem as regras que regem artigos e teses universitárias, dificilmente um candidato encontra o norte representado pela aceitação. Estar na Universidade de Évora e dela ser um expoente, mas entender a amplitude de um tema que, aceito na Instituição, tem, no caso de Para uma História do Fado, destinação mais ampla, é tarefa árdua, a transparecer, paradoxalmente, leveza, conteúdo e esclarecimentos, muitos deles definitivos.
O livro está dividido em sete capítulos. Neles, o autor, a partir daquilo que afirma no prefácio, como o estar ciente da “consciência tranqüila no plano do rigor de fundamentação bibliográfica e documental”, estabelece das origens à contemporaneidade a trajetória do fado. Curiosamente, data de 1822 a primeira menção à palavra Fado com conotação musical, escrita por um geógrafo italiano, Adriano Balbi, que a ele se refere como uma das danças populares “mais comuns e notáveis do Brasil”. Alguns anos após, um capitão francês faria menção à dança em terras brasileiras. Poder-se-ia dizer que os capítulos da obra não sofrem descontinuidade e os aspectos fulcrais referentes ao Fado lá estão inseridos, estrategicamente articulados num sentido harmonioso. Lê-se a importância das danças afro-brasileiras, a penetração do Fado na capital portuguesa, todas as muitas transformações que sofreria o gênero, tanto sob o aspecto da própria estrutura como das ingerências políticas. Vieira Nery percorre o roteiro do Fado, suas “mutações” através da história, dos meios menos cultos ao Teatro de Revista, assim como a prática futura nas casas típicas onde pode ser ouvido. O autor acompanha a recepção pelos meios de divulgação, desde os primórdios. Quanto ao Teatro de Revista, aponta os direcionamentos, a eclosão do Fado em palco com rica coreografia, onde não faltam bailarinos, guitarristas e outros músicos. Pormenoriza também o Fado no cinema e sua aceitação.
Ao longo desse entrelaçamento nos capítulos, ressalte-se a intrigante associação, ou contágio, poder-se-ia acrescentar, das manifestações ideológicas, do olhar atento do Estado frente ao conteúdo das letras. Frise-se que Salazar teria confidenciado ser o Fado deprimente. Após o 25 de Abril de 1974, ideologias diferenciadas e efervescentes têm atuação no gênero como um todo, até o denominado “Novo Fado”. Em sendo o Fado uma categoria musical em que a letra é absolutamente entrelaçada à música, mesmo nos textos mais prosaicos, a possibilidade de mensagem que possa ferir susceptibilidades do establishment é enorme e tem seu preço a depender dos regimes.
Para uma História do Fado é farta e pertinentemente ilustrada. Poder-se-ia dizer que nenhuma das inúmeras ilustrações deixa de ter a sua importância. O olhar corrobora a absorção do discurso de Vieira Nery. O amálgama texto-iconografia encaminha o leitor a uma viagem ao universo do Fado. Frise-se a quantidade extraordinária de músicos e artistas outros que, na pena do autor, adquirem vida e estão a permear essa saga fadista, permanente libelo da alma portuguesa, tão rica em tantos outros gêneros musicais espalhados pelo território lusitano. A vasta bibliografia enriquece o conteúdo da obra, a indicar rumos aos interessados.
É significativa a dedicatória de Rui ao seu pai, Raul, “com carinho e admiração infinitos”. Grande guitarrista que é, transmitiu ao filho ilustre a relação amorosa com o Fado.

The fado is an essential part of the Portuguese soul. This music genre has been minutely and clearly explored in the book “Para uma História do Fado”, written by the musicologist Rui Vieira Nery: its origins, development, modern-day expressions, repertoire, performers, performance setting, influence of political ideologies. An indispensable reading for anyone with a true interest in the Portuguese Fado and its history.

Edmund Hillary (1919-2008)

Everest visto do Kala Patthar no Nepal - Foto: Pavel Novak (Wikipedia)

Dans l’histoire récente, sinon contemporaine,
il est des hommes qui se sont illustrés dans des actions d’éclat,
et dont la vie de héros est devenu référence pour les générations ultérieures.

André R. Missenard

I think the whole attitude towards climbing Mount Everest
has become rather horrifying. The people just want to get to the top. They don’t give a damn for anybody else who may be in distress and it doesn’t impress me at all that they leave someone lying under a rock to die.

Edmund Hillary

Em artigo exemplar, Death and Mid-life Crisis (1965), o psicanalista Elliot Jaques (1917-2003) colocaria posição a respeito de mutações em fases precisas da existência. Denominaria juventude da idade adulta a crise que se estende dos 30 aos 40 anos e maturidade da idade adulta uma outra, por volta dos 65. Seria no período da primeira que determinados impulsos criativos e de arrojos têm lugar. Afirma E. Jaques: “A crise exprime-se de três maneiras diferentes: a carreira criativa pode pura e simplesmente encerrar-se, através do esgotamento do trabalho que leva à criação, ou então através da morte; a capacidade de criar pode aparecer e exprimir-se pela primeira vez; enfim, uma mudança decisiva na qualidade e no conteúdo da criatividade pode produzir-se”. Diferentemente, na maturidade da idade adulta o futuro apresenta-se mais limitado, mas o homem está cônscio de seus acúmulos e de fases já vencidas, podendo haver “a alegria da criatividade madura e a obra, feita sob a égide do pleno conhecimento da morte subjacente, apresenta-se pois resignada, mas não vencida”.
Ao considerar-se os heróis do Himalaia, em faixas etárias que se estendem dos vinte e poucos anos aos quarenta, todos aventureiros intrépidos que, a partir do início do século XX, sonharam atingir os mais altos cumes da Terra, verifica-se que se está diante de seres privilegiados que assumiram riscos, quase sempre sobre-humanos, e a morte no ato supremo do heroísmo, ou natural após a concretização, apenas referendou obituários, mas não a ação perpetrada. Estão distantes dos atletas que preferencialmente atingem a plenitude física bem mais precocemente. Entre os alpinistas, o apogeu físico-mental dar-se-á nessa faixa demarcada por Elliot Jaques.
Impressiona a relação de montanhistas de profundo conhecimento que, em determinado ponto da carreira, tentaram o grande desafio, chegar ao topo do Everest – nome dado em 1865, a homenagear o topógrafo inglês George Everest – ou Chomolungma para os tibetanos. Da primeira medição, feita pelo topógrafo bengali Radhanath Sikhdar, à proeza da conquista do homem em 1953, decorreriam 101 anos, e em muitas expedições anteriores vidas se perderam e frustrações foram acumuladas.
A menção maior a preceder à façanha de 1953 deve-se aos ingleses George Mallory (1886-1924) e Andrew Irvine (1902-1924), que teriam chegado bem próximos do cume, mas desapareceram em circunstâncias nebulosas, tornando-se legendários. Há quem acredite que chegaram, mas o fato é que, tendo sido vistos pela última vez aos 8 de Junho de 1924, a poucas centenas de metros do ponto maior, foram aniquilados pela montanha. Irvine nunca foi encontrado. Quanto a Mallory, uma expedição em 1999 achou seu corpo e pertences (Hemmleb, Jochen; Johnson, Larry A.; Simonson, Eric R. Fantasmas do Everest – Em busca de Mallory e Irvine. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, 224 págs.). Não o resgataram, mas sim cobriram o corpo com pedras em homenagem emocionada. Tentativas de outras expedições visando à conquista do teto do mundo não obtiveram êxito. Mencione-se o extraordinário relato do francês Maurice Herzog. Ele e Louis Lachenal tornaram-se os primeiros alpinistas a conseguir atingir um topo acima dos 8.000m aos 3 de Junho de 1951, o Annapurna (8.075m), na cadeia himalaia. O feito custou a Herzog a posterior mutilação de dedos necrosados pelo arrojo. (Herzog, Maurice. Annapurna. São Paulo, Companhia das Letras, 2001, 375 págs.).

Capa da Revista National Geography de Maio 2003, edição brasileira. Foto: Yousuf Karsh, 1960

Edmund Hillary, nascido na Nova Zelândia e falecido em Auckland no último dia 11 de Janeiro, e o sherpa Tenzing Norgay (1914-1986) foram os primeiros a escalar o Everest (8.848m) no dia 29 de Maio de 1953 e esse aventura até hoje é referencial. O verdadeiro herói tem o sentido da humildade e Hillary entendia o sacrifício daqueles que o precederam perdendo a vida, ou de outros que tiveram de regressar com o sentimento da frustração. Não revelaria quem primeiro pisou o topo do mundo, dividindo a primazia com seu parceiro. Sabia que sem Tenzing Norgay, experiente homem das montanhas, que já estivera acima dos 8.000m, nada aconteceria. Após o feito, Hillary dedicou-se durante décadas a melhorar as condições de vida do povo sherpa do Nepal, fundando o Himalayan Trust, que fomentaria escolas, hospitais e o bem social. Durante esse hercúleo projeto, perdeu a mulher Louise e a filha Belinda em acidente aéreo perto de Kathmandu. Reverenciado por todos, Hillary entendeu que sua missão, finda a memorável escalada, deveria preferenciar fins humanitários e teve apoio merecido e larga divulgação. Em 2003, comemorando o cinqüentenário da façanha, seu filho Peter Hillary e Jamling Tenzig Norgay, filho de seu parceiro em 1953, realizaram a escalada. Ao chegarem ao topo, em ligação telefônica emocionada, Peter revelou ao seu pai, em Auckland, a admiração pelo feito paterno em condições muitíssimo menos seguras e assistidas, e as câmaras fixaram esses instantes históricos do diálogo em pontos tão distantes.
Edmund Hillary abominaria a subida indiscriminada ao Everest. Legiões cada vez maiores estão a subir, formando por vezes filas extensas para se chegar ao topo. Expedições custosas vindas de muitos lugares – Estados Unidos, Europa, Coréia, Japão, Rússia, China e tantos outros países – levam pessoas que pagam muito, entre estes até portadores de deficiências, ansiosos por ter seus nomes em livros de recordes. Poluem os caminhos, as trilhas, a deixarem quantidade de lixo e de cadáveres. A resposta da montanha, outrora imaculada, é contudo fatalidade para tantos.
O ano de 1996 seria o mais trágico para aqueles que tentaram a escalada. Foram 19 mortes, sendo que oito apenas no dia 10 de Maio. A narrativa pungente de Jon Krakauer em torno dessa data ficaria notabilizada (Krakauer, Jon. No Ar Rarefeito. São Paulo, Schwarcz, 2002, 269 págs.).

Vento soprando ao contrario no Everest, visto do BC - Crédito: Rodrigo Raineri. Visite www.everest2006.com.br

Em termos brasileiros, há méritos para alguns alpinistas profissionais. Entre estes, Waldemar Niclevicz, que subiu ao Everest em 1995 e 2005 e chegou em 2000 igualmente ao topo da segunda maior montanha do mundo, o K2 (8.611m), na cordilheira de Karakorum, também no Himalaia (Niclevicz, Waldemar. Um sonho chamado K2 – A Conquista Brasileira da Montanha da Morte. Rio de Janeiro, Record, 2007, 373 págs.) Um outro notável alpinista, Vitor Negrete (1967-2006), em companhia do amigo Rodrigo Raineri, em Maio de 2006 buscou atingir o topo do Everest. Negrete se tornou o primeiro brasileiro a escalar o cume sem auxílio de oxigênio. Infelizmente, morreria na descida, no acampamento 3, a 8.300m de altitude, no Tibet. Menção a Thomaz Brandolin, que comandou a primeira expedição brasileira ao Everest em 1991, mas sem sucesso. Seu relato é dramático (Brandolin, Thomaz. Everest: Viagem à Montanha Abençoada. Porto Alegre, L&PM, 1993, 191 págs.).
Para todos os verdadeiros heróis, alpinistas competentes e vocacionados, que atingiram ou não os 8.848m do Chomolungma, houve a alegria interior, ou a frustração tantas vezes sem compensações, ou ainda a morte nas alturas. Todavia, a centelha criativa que os moveu à ação pode ter sido a mesma. Ficaria reservado a Sir Edmund Hillary e a Tenzing Norgay o louro do ineditismo da conquista do Everest, glória que os dois heróis souberam suportar com a maior humildade. A morte recente de Edmund Hillary nos leva a refletir sobre a dimensão de um dos últimos titãs ainda a levar mensagens de esperança e de alerta ao nosso planeta em perigo.

Since measurements confirmed Mount Everest as the highest peak on earth, it is impressive the number of climbers – experienced or not – who tried to reach its summit. Among the early expeditions, that of George Mallory and Andrew Irvine in 1924 became a legend when the two disappeared after being spotted for the last time a few hundred meters from the summit (Mallory’s body was found 75 years later, in 1999). Edmund Hillary and Tenzing Norgay are the first climbers known to have reached the top of the world on 29 May 1953, receiving international acclaim for their accomplishment. Among Brazilian mountaineers, Waldemar Niclevicz, Vitor Negrette, Rodrigo Raineri and Thomaz Brandolin are worth mentioning. Niclevicz made the summit twice (1995 and 2005). Negrette was the first Brazilian to reach the top without oxygen in 2006, but died during the descent. Brandolin led the first Brazilian expedition to the Everest in 1991. The attempt failed, but he published afterwards a dramatic account of his experience. Today hundreds of novice climbers with paid guides flock to Everest every year competing for a place in the limelight. Most want to get to the top for sheer exhibitionism, even leaving their peers in distress to die without attempting a rescue. Sir Edmund Hillary, who passed away last January, was critical of the modern irresponsible attitude towards climbing the Everest, something he did not view as mountaineering. A worldwide hero, he remained a modest man, devoting much of his life to promote the welfare of people in the Himalayas.