Navegando Posts em Literatura

Domingos Peixoto e a dedicação a um instrumento basilar

Conhecer melhor a história da nossa História,
neste reencontro com as memórias,
faz-nos compreender decididamente Aveiro
e sermos mais competentes
nos caminhos de construção de mais e melhor futuro.
João Ribau Esteves
Presidente da Câmara Municipal de Aveiro (2018)

A literatura específica sobre o órgão, instrumento que acompanha a cristandade e que, desde a Alta Idade Média, teve desenvolvimento extraordinário, tem títulos significativos e reveladores, mercê também dos constantes “progressos” quanto à sua feitura através dos séculos. A bibliografia extensa revela sempre maravilhamentos, graças à abrangência e à majestade do instrumento. Se o cravo, em suas várias feituras, sofreu  modificações, mas permaneceu silente durante o século XIX; se os instrumentos de corda continuaram basicamente sem alterações; se o piano se beneficiou da revolução industrial, que resultou na utilização do aço e na tábua harmônica mais forte, a resistir à tensão das cordas; o órgão estaria sempre in progress devido à sua complexidade, a envolver uma quantidade enorme de materiais, apresentando-se, certamente, como o mais completo entre todos os instrumentos. Entre as suas insofismáveis qualidades tem-se a infinita variedade de timbres.

Domingo Peixoto, professor de órgão, estudioso perspicaz do seu instrumento eleito, já legou vários trabalhos literários relevantes sobre o tema, além de coordenar  temporadas organísticas e dedicar-se à restauração instrumental. Resenhei neste espaço uma obra sua anterior (vide blog: “Júlia D’Almendra e o Movimento Organístico em Portugal”, 09/09/2017).

Nessa derradeira turnê à Europa, recebi de Domingos Peixoto um de seus livros, este a pormenorizar “Os Órgãos Históricos de Aveiro” (Câmara Municipal de Aveiro, 2018). O autor primeiramente relata que registros da presença do órgão em Portugal remontam às primeiras décadas do século XIV. Na história de Aveiro menciona a presença de três comunidades religiosas fundadas durante um século, de 1423 a 1524. O instrumento permaneceu durante os séculos vindouros a ser indispensável nos ofícios religiosos, num amálgama com o coro. O mais antigo órgão barroco em Aveiro, da igreja da Vera Cruz, tem a data no someiro, 1753, instrumento construído por Juan Fontanes de Maqueyra.

O autor observa que, já na primeira metade do século XVIII, “o organista terá cada vez mais a função de acompanhar o canto litúrgico, cujo texto passará progressivamente a ser cantado na íntegra. Começará, assim, a desenhar-se um novo cenário no palco litúrgico: o diálogo passará a ser não entre o órgão e o coro, mas entre dois grupos de cantores, ou entre os cantores e uma comunidade/assembleia, que o organista acompanhará de forma contínua”.

Domingos Peixoto mostra-se didata vocacionado, pois desde o primeiro capítulo, “Contextualização”, o leitor se familiariza com os porquês do órgão na comunidade em três basilares contextos: socioeconômico, religioso e litúrgico. Em todos os outros nove capítulos referentes a órgãos de Aveiro, Peixoto historia e pormenoriza, da procedência à feitura, revelando intimidade com todo o material utilizado em cada órgão, fruto da engenhosidade de organeiros, fato que amplia enormemente a pesquisa, mercê da diversidade. Se o resultado sonoro tem certa similaridade entre os vários instrumentos, a estrutura de cada órgão determinaria timbres personalizados. Peixoto detém-se nessa investigação criteriosa, na diversificação dos tubos verticais nas suas variadas dimensões; naqueles em chamada, geralmente não uniformes no que tange ao direcionamento das cornetas, podendo ser horizontais, verticais ou com inclinações diversas; na tubaria como um todo. A ausência de pedaleira nos órgãos ibéricos, que inibe os graves mais profundos, talvez tenha privilegiado a feitura de tubos menores para determinados órgãos. Atento aos registos de cada instrumento, pormenoriza-os. As talhas barrocas em madeira, realizadas por mestres especializados, merecem também a atenção do autor.

Domingos Peixoto reserva especial atenção ao “Órgão Grande” da Igreja de Jesus. Escreve: “Lançada a primeira pedra da igreja em 1462 com a presença de D. Afonso V, o edifício do novo mosteiro seria inaugurado solenemente em 31 de Dezembro de 1464 e 1 de Janeiro de 1465. O monarca deslocar-se-ia de novo à Vila de Aveiro em 1466 para assistir à profissão das princesas religiosas. As últimas décadas do século XV foram marcadas pela presença da Infanta Dona Joana entre 1472 e 1490, ano do seu falecimento, e pelo despertar do culto à Santa Princesa”. Na realidade, cultuada, Santa Joana Princesa é apenas reconhecida pela Igreja Católica como beata.

O autor lamenta estar o “Órgão Grande” desativado. Comenta: “Uma particular interpelação é feita pela majestosa obra de arte que representa o ‘Órgão grande’ da igreja de Jesus – o ex-libris da nossa vida organística – cuja opulência rivaliza com o esplendor setecentista das festas em honra de Santa Joana; mas, dele subsiste in loco apenas a fachada”.

Domingos Peixoto constata que “… apenas dois desses órgãos estudados foram restaurados: o do coro alto da igreja de Jesus e o da igreja da Misericórdia, faz agora quinze anos… Resta-nos esperar que destas linhas brote um impulso novo à recuperação do conjunto dos órgãos históricos da cidade, uma ‘maioria silenciosa’ à espera de quem lhe dê a palavra”.

De muito interesse os apêndices de “Os Órgãos Históricos de Aveiro”, pois Domingos Peixoto aborda instrumentos já desaparecidos, outros órgãos de menor dimensão, alguns domésticos, espalhados pela cidade e vizinhança, os modernos, utilizados também em ambientes laicos, sendo que vários fabricados no Exterior. Tanto nos órgãos Históricos como em outros mais, o especialista Domingos Peixoto analisa os poucos restauros realizados.

De suma importância o debruçamento através de décadas a que se dedicou Domingos Peixoto, sempre com o olhar amoroso, legando ao leitor e à História uma obra basilar em bela edição e plena de ilustrações que corroboram o entendimento.

Dos pouquíssimos órgãos barrocos que ainda subsistem no Brasil, apenas quatro, localizados em Minas Gerais, funcionam bem. O órgão da Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, encomendado em 1779 e construído na cidade do Porto, chegou à cidade em 1798 e teve moldura entalhada, pintura e douramento realizados por artistas no Brasil. Nos anos 1982 e 1991 dei recitais a privilegiar composições de Manuel Rodrigues Coelho (1555-1635), Champion de Chambonnières (1601/2-1672), Johann Kuhnau (1660-1722), Carlos Seixas (1704-1742) e Sonatas para órgão e cordas de Mozart (1756-1791), no âmbito dos Festivais de inverno em Prados, MG (1982-1991), fundado pelo Maestro Olivier Toni (1926-2017).

Domingos Peixoto, an authority on organology, presents us with “Os Órgãos Históricos de Aveiro” (Historic Organs of Aveiro), a book that adds to other researches by the author, establishing a milestone in the unveiling of the existing organs in Aveiro, from baroque to modernity.

 

“Aspectos do pensamento político”

Tenho eu frequentemente protestado não ser escritor
– não obstante a larga atividade de plumitivo
que tenho exercido e a meia dúzia de livretos
que tenho dado à estampa.
(…) Se se nasce qualquer coisa ou marcado para qualquer coisa,
eu creio que nasci músico, marcado para a música,
e não literato ou marcado para as letras.
A minha primeira situação no mundo
foi como músico e não como publicista”.
Lopes-Graça (1906-1994)
(“Cartas com alguma moral” (1973)

Ao longo dos mais de dezesseis anos de blogs hebdomadários ininterruptos, não poucas vezes me debrucei sobre a bibliografia referente a Lopes-Graça, o mais notável compositor português do século XX, quiçá da sua história.

Vários pesquisadores relevantes escreveram sobre Lopes-Graça, abordando sua obra composicional e também a literária. Teses acadêmicas já foram sustentadas. Entre os estudiosos, mencionaríamos Mário Vieira de Carvalho, magnífico decano nesses aprofundamentos; Antônio de Sousa, desvendando essencialidades na formação do compositor e publicista; José Maria Pedrosa Cardoso; Alexandre Branco Weffort; Fausto Neves; Teresa Cascudo; Romeu Pinto da Silva, este tendo colhido, durante anos, preciosos depoimentos de Lopes-Graça para a montagem da “Tábua póstuma da obra de Fernando Lopes-Graça”.  Resenhei neste espaço alguns dos livros desses desbravadores dedicados ao músico nascido em Tomar.

Alexandre Branco Weffort, que anteriormente nos brindara com o significativo pormenorizar sobre “A Canção Popular Portuguesa em Fernando Lopes-Graça” (Portugal, Caminho, 2006), ofereceu-me um exemplar de seu último livro: “A força da palavra em Fernando Lopes-Graça – Aspectos do seu pensamento político” (Lisboa, Página a Página, 2021). Weffort tem sido um estudioso da criação de Lopes-Graça, não apenas a composicional, mas igualmente de seus textos literários, manancial este basilar para a compreensão do todo.

Entender Lopes-Graça compositor não seria possível sem estudar seu pensamento. Inúmeras criações necessitam da busca de subsídios essenciais. E estes estão depositados em incontáveis escritos de Lopes-Graça sobre a sua escolha ideológica, que tem origem ainda na juventude, não a buscar poder, mas sim a acreditar em credo que o acompanhou durante a existência. Diria, um puro na acepção. Quantos não são os títulos de suas composições que nos levam a esse entendimento? Seja na música coral em que o autor depositou, veladamente ou não, sua ideologia amalgamada através da colaboração, inúmeras vezes, de poetas e escritores que professavam o mesmo credo, seja também em obras para outras destinações. Perpassar parte da criação musical de Lopes-Graça é conviver com o que de mais profundo existe no seu pensar ideológico, que o levou por duas vezes às prisões, e com sua afeição às raízes da música portuguesa. O compositor de talento, que descortina horizontes novos, deixa suas impressões digitais. A despicienda imitação não faz parte do seu vocabulário criativo. Lopes-Graça deixou suas impressões digitais. Sabe-se que tal obra é oriunda de sua mente, das mais simples às de grande complexidade. Se a ideologia é determinante em obras precisas com esse desiderato, a maior parte da criação de Lopes-Graça independe dessa orientação preliminar. Sua escrita composicional tem virtudes inalienáveis.

Em “A força da palavra em Fernando Lopes-Graça”, as tantas citações extraídas por Alexandre Weffort dos dezesseis livros que compõem a opera omnia literária do compositor têm uma precípua intenção: “Assume-se também, como foco, uma vertente específica daquela obra – a do exercício da escrita enquanto publicista -, aquela vertente em que o seu gesto, interventivo e criador, se manifesta através da palavra. Procuramos, assim, conhecer a força da palavra em Fernando Lopes-Graça”. Bem anteriormente, resenhei  livro de António de Sousa ( vide blog ”Escritos lampantes da vida e obra de Lopes-Graça”, 02,06,2018), que penetra nas colaborações em jornais de Tomar, assim como na ação do ilustre tomarense frente aos percalços que adviriam com o golpe militar de 1926, a instauração do Estado Novo salazarista e a sequência persecutória.

Alexandre Branco Weffort amplia o debate através da extração sensível de testemunhos depositados na opera omnia literária de Lopes-Graça, selecionando-a, interpretando-a, no desiderato precípuo de entender o mestre em sua opção ideológica, enquanto fluía a criação musical. O aprofundamento de Branco Weffort reforça a tese de que a coerência de Lopes-Graça permeia a produção literária. Traduz igualmente o polemista que, apesar da perseguição sistemática dos regimes vigentes, mercê de suas convicções ideológicas rigorosamente contrárias a eles, prosseguiu a compor com destemor. “Canto de Amor e de Morte”, que, segundo Mário Vieira de Carvalho e Jorge Peixinho, é a cumeeira da composição em Portugal, foi composta em momento de pleno desalento. Na realidade, a imensa produção composicional de Lopes-Graça contém a chama da coragem, sem esmorecimento, em defesa dos valores que lhe serviam de alento. Weffort insere a “Carta a um amigo e antigo companheiro de luta que traiu a sua fé artística”, datada de 1944. Creio fulcral o segmento: “(…) Um homem ou se dá totalmente a uma ideia e a ela tudo sacrifica – bem-estar, interesse, consideração – ou, uma vez que a atraiçoa, nada há que o possas trazer aos braços, à comunhão dos seus antigos companheiros de luta, à amizade dos que eram seus irmãos em espírito e em verdade. Por mim, a minha norma de fidelidade foi sempre esta: ou tudo ou nada. O homem ou é ou se dá inteiro, ou posta uma vez à prova e quebrada a sua fé, a sua inteireza, nenhum pacto já é possível com o passado, ainda que o coração sangre e um pedaço da vida nos fique nas asperezas e emboscadas do caminho”.

Weffort, num vasto capítulo dedicado à “Recepção do pensamento de Fernando Lopes-Graça”, debruça-se sobre trabalhos, acadêmicos ou não, de estudiosos de Lopes-Graça. O autor comenta com perspicaz atenção os escritos de Manuel Deniz Silva, Teresa Cascudo, Fausto Neves, António Pinho Vargas e Mário Vieira de Carvalho. Posicionamentos nem sempre unânimes, que enriquecem o desvelamento do músico-pensador.

No substancioso capítulo “Aspectos do pensamento político de F. Lopes-Graça”, o autor penetra em várias sendas, subcapítulos, e delineia outros traços a envolver o compositor: ideologia, práxis, recepção pública, combate ao nacionalismo como dogma e a submissão a determinados postulados musicais vindos do Exterior.

O anexo “Sobre a religião em Lopes-Graça”, Wefforf dedica-o ao musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso (1942-2021), meu saudoso amigo-irmão. Apesar de agnóstico, Lopes-Graça tem inúmeras obras sob a égide do cristianismo para várias organizações vocais e instrumentais, inclusive dois cadernos para piano solo, “Natais portugueses” (1954-1967). Pontua, nesse conjunto sacro, o “Réquiem para as vítimas do fascismo em Portugal” (1979).

Weffort comenta: “A obra musical de Lopes-Graça guia-se sobretudo por critérios estéticos, pelo que não vemos condição para estabelecer uma correlação entre a sua criação enquanto compositor e as sua posição perante a questão religiosa”.

De especial interesse o subcapítulo “O problema da recepção em Lopes-Graça”, inserido no capítulo “Aspectos do pensamento político de F. Lopes-Graça”, mormente para um intérprete. A posição de Fausto Neves tem propriedade: “É difícil a música de Fernando Lopes-Graça? Ficou claro que a música de Fernando Lopes-Graça pode pôr bastante dificuldades técnicas aos seus intérpretes. (…) A linguagem de Lopes-Graça é exigente. Excluindo as obras de carácter pedagógico ou as de carácter interventivo, Lopes-Graça escreve sem concessões, colocando na sua arte toda a honestidade e genuinidade de procedimentos”.

O fascínio pela obra para piano de Lopes-Graça se acentuou durante  minha formação pianística e teórica em França (1958-1962), muito pelo entusiasmo do extraordinário Louis Saguer, tão amigo do compositor de Tomar. Sob sugestão de Lopes-Graça, Saguer foi meu professor de matérias teóricas em Paris.

Fernando Lopes-Graça é um dos meus compositores eleitos, tendo me dedicado mais profundamente a algumas de suas obras primordiais para piano no final do século, gravando-as em primeira audição, da mais elementar sob o aspecto técnico-pianístico, “Música de piano para as crianças” (1968-1976), às de profunda estruturação composicional, “Canto de amor e de morte” (1961), “Músicas Fúnebres (1981-1991)” e, intermediando-as nesses quesitos extremos, “Viagens na Minha Terra” (1953-1954) e “Cosmorama” (1963), criações distribuídas em três CDs lançados pela Portugaler e PortugalSom. Em primeira audição igualmente, após profunda pesquisa de José Maria Pedrosa Cardoso, apresentamos, a excelente mezzo soprano Rita Morão Tavares e eu, os encantadores 12 “Cantos Sefardins” em São Paulo e várias cidades portuguesas. O ilustre compositor Eurico Carrapatoso gravou-os em vídeo quando de recital no Centro Cultural de Cascais, aos 6 de Maio de 2016. Em breve o vídeo estará no Youtube.

“A força da palavra em Fernando Lopes-Graça” é livro a ser consultado. Weffort extrai da opera omnia literária de Lopes-Graça passagens basilares, que explicam o caminhar do compositor em sua multifacetada vivência como músico pleno, pois compositor, pianista, regente coral, professor; escritor e militante comunista em período totalmente adverso a suas convicções.

Enquanto Fernando Lopes-Graça não ocupar o lugar que lhe é merecido internacionalmente, haverá uma lamentável lacuna na História da Música.

Clique para ouvir, de Fernando Lopes-Graça, “Viagens na Minha Terra”, na interpretação de J.E.M. As imagens e textos foram cuidadosamente preparados pelo ilustre musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso e sua esposa, Maria Manuela:

https://www.youtube.com/watch?v=n0PwLys54GU

Alexandre Branco Weffort, a Fernando Lopes-Graça scholar, gives us a fascinating book commenting on writings by Fernando Lopes-Graça himself and also by notable researchers of the major Portuguese composer, thus deepening our understanding of Lopes-Graça’s  ideological convictions in either politics or art.

 

Gilberto Mendes e o multidirecionamento cultural

O mar é para mim como o Céu para um crente.
Vicente de Carvalho (1866-1924)

Comparecemos, Regina e eu, à palestra do poeta, escritor e crítico literário Flávio Viegas Amoreira, que abordou “a ligação das vanguardas musicais com seus correspondentes literários, especialmente os poéticos, e os diálogos e parcerias de Gilberto Mendes com os poetas concretistas”. O evento se deu em São Paulo, no Anexo da Casa Guilherme de Almeida, no último dia 15. Após a palestra foi lançada a nova edição de “Gilberto Mendes – Notas Biográficas” (vide blog: “Gilberto Mendes em duas publicações reveladoras”. 10/04/2021). Tenho no livro pequena colaboração, a abordar as 30 peças para piano que me foram dedicadas por Gilberto Mendes ao longo das décadas.

Flávio Amoreira é possuidor de uma cultura invejável e de uma pena que alia a criatividade ao texto castiço. Sua coluna em “A Tribuna” de Santos bem atesta essas virtudes inalienáveis.

Flávio desenvolveu sua palestra a percorrer as captações de Gilberto Mendes (1922-2016), jamais preso a uma estética definida, mas sabendo sempre extrair essencialidades de determinadas tendências musicais hodiernas, assim a agir também em relação à poesia, tantas foram as correntes de poetas anteriores a ele e outros, seus contemporâneos. Ao ler uma série de poemas de vários autores, Flávio Amoreira substanciou a pluralidade gilbertiana voltada à escolha do poema que melhor se adequasse a ideia da obra musical a nascer. Outras vezes o poema levava-o a buscar a inspiração das musas e o amálgama se dava. Importa considerar que Gilberto Mendes, tendo professado inúmeras tendências, não perdeu a noção das estruturas embasadas pela tradição: “Melodia é fundamental, que me perdoem os compositores que não conseguem compor uma melodia”.

O palestrante enfatizou algo fulcral na existência do homenageado, traduzido em várias obras tendo o mar como inspiração: sua Santos, o porto seguro a abrigar aspirações musicais e anseios de vida.

A certa altura da palestra, chamou-me a atenção a explanação de Flávio Amoreira sobre o pensamento de Gilberto a respeito das músicas erudita e popular, tendo inclusive, a corroborar a sua fala, lido alguns segmentos de “Viver sua Música – com Stravinsky aos meus ouvidos rumo à Av. Nevskiy” (vide blog com o mesmo título, 04/04/2009). Creio de interesse apresentar a posição segura do compositor, a “profetizar” situação que só se deteriora com o correr dos anos. Escrevia Gilberto Mendes: “E ela (música) é a única arte que tem duas categorias, a popular e a erudita. Não existe pintura popular e pintura erudita, literatura popular e literatura erudita, conforme existe na música. A existência de uma categoria de popular para a música mostra como, em toda a sua extensão, em seu todo, ela é acessível a qualquer tipo de público. A própria música popular por vezes tem aspectos eruditos. E vice-versa. Mas, paradoxalmente, a música erudita não tem nada a ver com a popular. É totalmente outro mundo, apesar de seu alcance também popular. São mundos longe de ser a mesma coisa, como pretendem os intelectuais populistas da mídia. O mundo da alta cultura inclui a cultura popular na criação de uma obra aberta, do signo novo; enquanto que o mundo da cultura popular não inclui a alta cultura, pode somente sofrer a sua influência, mas a exclui, por ser um mundo limitado pela sua obrigação de ir ao encontro do que a audiência espera. Canções de Schubert, Fauré, jamais serão ouvidas num show de música popular. Arranjos eruditos de Jobim, Chico Buarque, Paul Mc Cartney têm figurado com frequência nos concertos eruditos, sobretudo dos corais”.

Quatorze anos se passaram da publicação de “Viver sua Música”. Mercê do crescimento vertiginoso das redes sociais, acentuadamente o nivelamento entre o erudito e o popular se pulverizou, a tornar realidade inconteste a afirmação de Mario Vargas Llhosa, que já apontava em “La Civilización del espetáculo” dois aspectos essenciais: a queda vertiginosa da cultura erudita e o fato de que, sem os holofotes e a mídia, os que prosseguem criando eruditamente não existem. Os sites mais frequentados nada dedicam às manifestações eruditas, mas propagam diariamente, na área do entretenimento e dos costumes, um besteirol interminável. Impossível ao jovem em formação ficar alheio a essa abominável divulgação.

Um aspecto se me afigura irreversível. Tanto a música erudita como a literatura referencial estão em xeque. Temporadas de música de concerto pelo mundo prosseguem suas programações, mas a expansão do público no Ocidente sequer progride aritmeticamente, enquanto que a ascensão das inúmeras variantes de uma música costumeiramente entendida como popular acontece geometricamente. Mencionei semanas atrás que em Paris houve uma passeata em favor da música erudita! Tendo estudado na capital francesa durante alguns anos, entre as décadas de 1950-60, período em que a música erudita, também denominada clássica, era apresentada diariamente em teatros e salas menores, essa notícia surge como uma triste constatação da decadência cultural.  Patrocinadores, empresários e o consórcio mediático entenderam o veio da mina. Gerações são abduzidas pela massacrante divulgação de espetáculos ruidosos que são apresentados nos chamados Allianz, anteriormente estádios só para eventos futebolísticos e, por vezes, de atletismo, hoje transformados também em arenas cuja programação tem por vezes ingressos vendidos meses antes das apresentações.

Figuras “idolatradas” se apresentam. A “música”, quando não metaleira, estonteantemente ensurdecedora, leva multidão de jovens aos espetáculos e ao delírio, “renovando-se” sempre mais agressivamente através de outros processos que envolvem iluminação, gestuais histriônicos, trajes por vezes sumaríssimos que, na realidade, encobrem uma pobreza musical sem limites. Se numa arena lotada os alto-falantes transmitirem uma pergunta simples, “quem já ouviu falar em Bach, Mozart, Beethoven, Schumann”, não será improvável que apenas umas pouquíssimas vozes se pronunciem a dizer sim, vozes essas que não provocarão qualquer eco.

Um outro aspecto é também insofismável. Largamente majoritária, a criação da música popular se extingue pouco após a diminuição fatal da frequência, renascendo através de novos sucessos, que igualmente serão meteóricos e efêmeros. Uma ou outra canção ou hit de grande alcance seguirá durante curto período, estiolando-se a seguir.

Gilberto Mendes tem toda razão. Acrescentaria que, à maneira de um país derrotado em guerra que tem que fazer concessões, a música erudita namora por vezes com a música popular, convidando os músicos que a cultuam, mesclando programas. A exemplificação da derrota vem do oposto. Nas apresentações das tantas variações da música popular, não há o mínimo espaço para a música erudita. O excelente pianista e regente Ricardo Castro, idealizador e diretor do projeto Neojiba, que visa à inclusão social através da música, teceu comentários sobre a presença da música popular em programa da Orquestra Sinfônica da Bahia, denominado “Osbrega”, ou seja, OSBA com brega! Em post no Facebook, escreveu: “quando uma orquestra sinfônica estadual, depois de conquistar milhões inéditos para seu orçamento e poder contratar músicos excelentes, escolhe esse ‘título’ para promover um concerto [...] estamos certamente entrando em um círculo do inferno nunca Dantes visto neste país”. No mesmo aplicativo, reforçaria: “no caso em questão, a orquestra é pública e os músicos são renumerados pelos impostos dos mais pobres (rico não paga imposto no Brasil). E em um estado pobre como a Bahia, uma orquestra desse porte só se justifica porque existe um repertório que ninguém mais pode defender, proteger, divulgar e que é patrimônio da humanidade”. O maestro Carlos Prazeres, da OSBA, rebateria com os termos: “Não temos preconceito elitista. Pegar uma ‘elite’ que detém o poder do conhecimento e da cultura faz ela ficar para sempre como elite e o pobre, sempre pobre. A elite precisa se abaixar um pouco para conversar com os outros”. Reescrevo as palavras de Gilberto Mendes, que sintetizam o debate: “… a música erudita não tem nada a ver com a popular. É totalmente outro mundo, apesar de seu alcance também popular. São mundos longe de ser a mesma coisa, como pretendem os intelectuais populistas da mídia”.

Ao comunicar ao Flávio Amoreira que o post da semana seria dedicado à substancial palestra por ele proferida, enviou-me posicionamento que se coaduna com as postura de Gilberto Mendes e Ricardo Castro. Salienta: “chega a ser cruel aviltamento cultural de mídias que deveriam ter função precípua de inserir, pela Arte, gerações de jovens sem acesso às grandes expressões na literatura, música, artes plásticas….a literatura nivelada pela lei do menor esforço, as artes plásticas submetidas ao depauperamento visual e às imersões que espetacularizaram o deleite interpretativo e, na música, a `tiktokização´ bestializante de Anitas e `sofrências´ estético-comportamentais…. tudo que remeta a erudito e elaborado soa elitista, quando deveria ser motivo de integração iluminada…. nem Umberto Eco imaginaria tal degradação…´´

Constata-se que o efêmero de quase toda música de alto consumo é o reflexo de sua “qualidade” questionável. Patrocinadores, empresários ávidos pelo lucro conhecem o caminho da “renovação”, sempre mais apelativa quanto à queda qualitativa.  É o novo hit musical que será promovido e assim sucessivamente. Cantores populares que cultuam repertório romântico ainda conseguem, durante toda a existência, repetir os sucessos de antanho.

Sob outra égide, como não se encantar com a música de raiz perpetrada pelos povos do planeta. Dessa fonte, inúmeros compositores que permanecem na História buscaram elementos inspiradores. Entre eles, o notável compositor português Fernando Lopes-Graça (1906-1994), criador de uma coletânea mágica, “Viagens na Minha Terra”, em que temas e atmosfera das raízes lusitanas foram fonte de inspiração para substanciar o título similar do não menos notável escritor Almeida Garrett (1799-1854). O leitor poderá ter acesso à minha gravação através do Youtube.

Divulgado pelo Instituto de Piano Brasileiro, clique para ouvir, de Paulo Costa Lima, “Imikayá”, na interpretação de J.E.M. Costa Lima, magistralmente, desenvolve a criação inspirado em tema de raiz da Bahia:

https://www.youtube.com/watch?v=qZqE63BeleQ

Fica neste espaço, a minha admiração pela atuação permanente de Flávio Viegas Amoreira que tem batalhado tenazmente pela cultura erudita, não apenas em seus artigos publicados habitualmente em “A Tribuna de Santos”, como também em seus cursos sobre literatura.

Acredito que não se pode esmorecer. Apesar da queda acentuada da cultura erudita, haverá sempre aqueles que a perpetuarão. Música,  literatura e artes consagradas através dos séculos tendem a permanecer, apesar das pressões de tantos interesses contrários.

The precious lecture given by the writer, poet and literary critic Flávio Viegas Amoreira on the remarkable composer Gilberto Mendes is the subject of this blog.