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“Bóris Pasternak e Alexandre Scriabine”

Nos últimos anos de vida, o elã em direção ao futuro,
o sonho desse devir atingiram uma força e uma acuidade particular.
Tornou-se impaciente e a espera começou a pesar.
A impossibilidade de traduzir, fora da música, o indizível o irritava.
Pôs-se a trabalhar com certa angústia,
como se algo o provocasse ou
como se estivesses a pressentir o tempo escoar:
‘Não mais as palavras, é tempo de se colocar à obra,
necessário se faz agir mais rapidamente, muito tempo foi perdido’.
Bóris de Schloezer (1881-1969)
(“Alexandre Scriabine”. 1975)

Neste terceiro post dedicado a Alexander Scriabine no ano de seu sesquicentenário insiro meu texto sobre o instigante depoimento do escritor Bóris Pasternak sobre Scriabine, publicado na “Nanico – homeopatia cultural” nº 13, Junho de 1996, mercê da anuência de meu dileto amigo, o sábio editor Cláudio Giordano.

Bóris Pasternak (1890-1960) lega-nos apreciações de relevante importância sobre o compositor russo, pois o conheceu ainda adolescente (1903). Seu pai, o pintor Leonid Pasternak, era amigo de Scriabine.

No texto que segue há várias considerações que fazem parte de minhas pesquisas posteriores a 1972 sobre Scriabine (centenário do compositor), publicadas no Brasil, em França e na Bélgica. Impossível algumas dessas reflexões se ausentarem nos vários posts sobre Scriabine publicados neste espaço desde 2007. Acúmulos…

“Entre os textos autobiográficos de Bóris Pasternak nos quais Scriabine está presente em sua lembrança, o ora publicado é testemunho ratificado da admiração, não desprovida de momentos frustrantes, do autor de ‘Doutor Jivago’ para com o criador de ‘Vers la Flamme’. A imensa importância dos escritos de Pasternak está em dimensionar posturas expressas pelos estudiosos do compositor, das primeiras décadas à atualidade.

Conhecem-se em 1903, Bóris nos seus 12 anos, Scriabine, músico já renomado, aos 31. O jovem evoca características de seu coetâneo ilustre encontráveis nos muitos estudos sobre o autor, entre os quais o de  Bóris de Schloezer, que conviveu com Scriabine, pois seu cunhado. Sob outro aspecto, a substancial iconografia scriabiniana evidencia um homem elegante, voltado ao dandismo, frágil, quase valetudinário.

Pasternak, no texto em questão, observa a pregação de Scriabine quanto ao ‘homem superior e amoral de Nietzsche’. Nas fronteiras do século, Scriabine lê com inusitado interesse, paixão mesmo, segundo sua filha Marina, ‘Assim Falava Zaratustra’, pensando inclusive numa ópera, jamais realizada, cujos fragmentos do libreto ficaram registrados em um carnet do compositor.

Sabe-se da influência exercida sobre Scriabine das teorias de Helena Blavatsky, cuja obra ‘A Doutrina Secreta’ marcaria o autor do ‘Poema do Êxtase’ em seu caminho em direção a uma teoria teosófica.

Pareceria correto admitir-se que a trajetória empreendida por Scriabine, resultando os vários estágios do escrever música, só poderia ser compreendida entendendo-se a amálgama compositor-pensador. Pasternak relata a partida de Scriabine rumo à Suíça, onde permaneceria alguns anos. É de 1904 um texto do compositor, escrito em um café perto de Genebra: ‘Tudo é minha criação. Eu não sou nada. Eu sou unicamente o que crio. Tudo que existe, existe apenas em minha consciência’.

Na medida em que, por processos inusitados, Scriabine caminha, o distanciamento se processa em relação às técnicas composicionais da juventude, sendo praticamente impossível entender-se como sendo do mesmo compositor Prelúdios e Mazurkas dos primeiros anos e os Poemas, Sonatas e Estudos escritos nas fronteiras da morte. Sob outra égide, o pensador em aceleração contínua e em plena vibratilidade delirante estabelece um elo com o Criador, em sendo ele, Scriabine, o Criador: ‘eu vos exalto à vida através do meu carinho e do charme misterioso de minhas promessas (…) eu sou o centro do universo e o universo está perto do centro’ (‘Cahiers inédits’ 1904-5). Curiosamente, os elos que fazem entender serem do mesmo compositor obras de períodos díspares são os do idiomático pianístico ou aqueles constituídos pelos motivos neurótico-obsessivos, separados entre si pelos silêncios (pausas), com o decorrer dos anos cada vez mais angustiantes.

Se as reminiscências de Bóris Pasternak afloram, deixando transparecer evocações precisas, objetiva e subjetivamente, a respeito de um de seus ídolos, alguns aspectos desse passado distante podem remeter ao levantamento de questões e à formulação de hipóteses: que razões, conscientes ou não, teriam levado Pasternak a abandonar a música? O conservadorismo que levou Pasternak a criticar – apesar da diferença etária, frise-se – os ‘novos meios de expressão’ de Scriabine e de outros autores não refletiria o pensamento sacralizado da maioria da sociedade a que pertencia e que consumia a cultura plena de conteúdos ocidentais ligados à tradição? O ressentimento quanto a Alexandre Scriabine não terá origem na inatingibilidade, por parte de Pasternak, ao talento pleno do autor das Sonatas ‘Missa Negra’ e ‘Missa Branca’?

Seria possível visualizar Bóris Pasternak ouvindo Scriabine a executar ao piano fragmentos reduzidos da Terceira Sinfonia ou ‘Divino Poema‘ op. 43 nas dachas perto de Moscou. Imediatamente antes, compusera os oito Estudos op. 42, plenos da mais ampla virtuosidade.

Clique para ouvir, de Alexandre Scriabine, os Estudos op 42 nº 1 e  nº 5 (Affanato) na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=Vz13JKEZKRI

https://www.youtube.com/watch?v=Z1UvhEy0N0w

Saliente-se ter sido Scriabine pianista de méritos a executar, preferencialmente na Rússia e na Europa, composições suas. Permaneceriam na mente de Bóris Pasternak a qualidade pianística singular e a criatividade fulgurante de Scriabine. O ‘eu tocava pessimamente e lia música como criança aprendendo a soletrar’ e a certeza de que o criar música – entenda-se compô-la mostrava-se em discrepância com o fazer música – entenda-se executá-la – poderia ter sido diferentemente absorvido por Pasternak se o modelo sonoro scriabiniano registrado na adolescência, bidimensionado criação-práxis, não tivesse sido tão mágico. O abandonar a música mereceria ser repensado como fruto da impossibilidade do nivelamento.

Pasternak ouvia a música russa e a ocidental que se tornaram familiares. O seu ouvido aceitaria essencialmente mensagens do código romântico pleno. Scriabine, na sua trajetória místico-criativa, que o leva a uma escrita ousada, distancia-se dessa escuta sacralizada por Pasternak. Se este entende a ‘fase intermediária’ das terceira e quinta Sonatas, paradoxalmente capta conteúdos de obras bem anteriores e plenas da mais intensa exacerbação emotiva – como os Estudos op. 8 e os Prelúdios op. 11 – como totalmente contemporâneos’, quando de fato já não o eram. A criatividade de Scriabine, fruto do amálgama ascensão em direção ao Cosmos-Música, fá-lo atingir níveis do mais preciso vanguardismo nos anos que antecederam a sua morte. O próprio Scriabine dos últimos Poemas e Sonatas disso tinha consciência e, ao tocar em público em sua consagrada carreira de pianista, dava à plateia a oportunidade de ouvir preferencialmente suas criações anteriores, romanticamente comprometidas, portanto. Bóris Pasternak seria assim o exemplo desse ouvinte, pronto a captar mensagens da mais intensa comunicação.

O ‘lado negativo da influência’ de Scriabine, que levaria talvez ao ressentimento, seria a somatória da inacessibilidade ao talento excelso musical e a certeza de que um carisma etéreo, do qual Scriabine era possuidor na sua vontade de expor ideias místico-filosóficas, impusera sentimentos de difícil resolução para o escritor. A respeito da ‘certeza’ conceitual característica de Scriabine  ‘apenas ele poderia permitir-se o luxo de seu próprio egocentrismo, que suas teorias serviam apenas para ele próprio’, ou ainda o lado ‘miraculoso e premeditado, nada planejado, deliberado, desejado’, conteúdos do ‘negativo’ que ficou como influência do compositor ; Pasternak evidenciaria de um lado o poder carismático de Scriabine, de outro o sentimento frustrante da distância do pensar entre os dois, mercê do ‘egocentrismo’ do autor do ‘Poema Satânico’.

Alexandre Scriabine permanece, talvez, como o mais criativo compositor russo do século XX, sem ligações definidas com ascendentes criadores da Rússia, tampouco deixando imitadores ou discípulos. Morre em 1915 e os pósteros da Revolução de 1917 negligenciam-no nos primeiros anos, pelo fato de ter sido Scriabine um compositor com olhar aristocrático. Contudo, no momento em que o Ocidente se fascina por Scriabine, através, sobremaneira, das ações pianísticas fulgurantes de Vladimir Horowitz e Vladimir Sofronitsky, este na Rússia, tornou-se útil ao regime soviético divulgá-lo e, diga-se, fizeram-no na excelência até os estertores do Sistema.

Bóris Pasternak morreu em 1960. No velório, uma última manifestação sonoro-fascinante sobre seu corpo imóvel. Sviatoslav Richter, um dos mais completos pianistas russos, tocou durante o dia e parte da noite obras de Scriabine num piano de armário colocado bem próximo ao esquife”.

Clique para ouvir, de Alexandre Scriabine, “Feuillet d’album”, op. 45 nº 1, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=ug7MD8jWo4M

In this third post I comment on the magnificent account given by Boris Pasternak about Scriabine published in the two previous posts, raising hypotheses about the effective influence of Scriabine in the future steps of the author of Dr. Zhivago.

Recordações de Bóris Pasternak

Scriabine era um criador visionário e um místico.
Tudo o que criava, vivia, sentia, pensava
instalava-se a partir de uma experiência interior de caráter místico,
pois essencialmente incomunicável na realidade e que, entretanto,
ele se esforçava em transmitir,
tanto em sua obra musical como em seus escritos poéticos,
em suas teorias, seus projetos e em suas conversas
com aqueles que poderiam compreendê-lo.

Marina Scriabine (1911-1998) – musicóloga e filha do compositor

Neste ano comemoram-se duas efemérides de relevantes compositores, o sesquicentenário do compositor russo Alexandre Scriabine e o centenário de Gilberto Mendes, este, tema dos dois posts anteriores. A respeito de Scriabine, ao longo dos blogs desde 2007 reiteradas vezes escrevi neste espaço sobre o importante contributo do compositor e pensador russo na música como um todo.

Estava a reorganizar os meus livros quando me deparo com uma pequena publicação com nome sugestivo. Tratava-se de “Nanico – homeopatia cultural”, criação do prezado amigo e editor Cláudio Giordano. Neste em especial, nº 13, de Junho de 1996, há um artigo extraído de “An Essay in Autobiography” escrito por Bóris Pasternak (1890-1960), autor do célebre “Doutor Jivago” e Prêmio Nobel de Literatura em 1958. Recordo-me de ter conversado com Giordano, que imediatamente se interessou em vê-lo publicado, com tradução cuidadosa de nossa dileta amiga Regina Maria Pitta.

Pensei retransmiti-lo aos leitores, 26 anos após, por motivos precisos. A publicação do excelente “Nanico” era restrita e o texto de Pasternak, sendo revelador de alguns aspectos essenciais nesse cotidiano vivido pelos dois personagens, possibilitou uma maior abrangência sobre o já vasto material literário e analítico a respeito de Scriabine.

Devido à dimensão dos posts, divido o texto de Pasternak em dois, inserindo num terceiro aquele que vem logo após, igualmente publicado no mesmo número e de minha pena.

“Na primavera de 1903, papai alugou uma dacha perto de Maloiaroslavets, no caminho da ferrovia Briansk (agora conhecida como Linha Kiev). Coincidiu que Scriabine fosse nosso vizinho. Até então não o conhecíamos muito bem. As duas casas, algo distantes, ficavam ao lado de uma clareira numa colina. Chegamos, como de hábito, pela manhã bem cedo. O sol, filtrando-se pelos galhos baixos que se debruçavam sobre nosso telhado, penetrava pelas janelas. Dentro, embrulhos foram abertos e alimentos, roupas de cama, frigideiras e baldes surgindo. Escapuli para a mata.

Deus, quão pulsante aquele bosque matinal! A luz do sol trespassava-o por toda parte. Sombras trêmulas embalavam seu cimo num vaivém e do emaranhado de galhos vinha aquele sempre inesperado, sempre estranho chilrear de pássaros, que começa com chamados altos, abruptos e, extinguindo-se gradualmente, repete, em sua insistência, a alternância fugidia de luzes e sombras na distância. E acompanhando a sucessão de luzes e sombras e o cantar e agitar dos pássaros pelos galhos, fragmentos da Terceira Sinfonia ou Divino Poema, composto ao piano na casa ao lado, propagavam-se e ressoavam através da mata.

Senhor, que música! Sucessivamente a sinfonia ruiu como uma cidade bombardeada e foi reconstruída, renascendo dos destroços. Seu sistema, arduamente elaborado, enchia-a até transbordar e era novo – como era nova a floresta, respirando vida e frescor, vestida de primavera naquela manhã de 1903 – não 1803, lembre-se! E assim, como na mata não havia uma única folha artificial, também a sinfonia era livre de profundidade falsa, de retórica solene, nada que soasse como Beethoven, ou Glinka, ou Ivan Ivanovich ou como a Princesa Maria Alexevna; ao contrário, seu trágico poder empinava o nariz em triunfo a tudo o que fosse respeitável e majestosamente decrépito e enfadonho, mostrando-se perniciosamente ousada, livre, frívola e essencial como um anjo caído.

Espera-se, do homem que componha tal música, que conheça a si próprio e que, em horas de lazer, seja tão tranquilo e luzente como Deus descansando no sétimo dia; e tal ele provou ser. Scriabine e meu pai frequentemente caminhavam pela estrada que passava não muito longe de nossa casa. Às vezes eu os acompanhava. Scriabine gostava de tomar impulso e depois saltar pela estrada como se, a qualquer momento, fosse deixar o chão e planar no ar. De um modo geral, desenvolvera formas várias de leveza extrema e movimentos ágeis, parecendo prestes a alçar voo. Em seu caráter, essa habilidade manifestava-se no charme bem educado e na maneira mundana de adotar um ar superficial, evitando assuntos sérios em sociedade. Mais surpreendentes eram seus paradoxos durante esses passeios pelo campo.

Conversavam, ele e meu pai, sobre o bem e o mal, a arte e a vida. Ele atacava Tolstoi e pregava o homem superior e amoral de Nietzsche. Concordavam apenas quanto à essência e aos problemas do fazer artístico; discordavam em tudo o mais. Na época eu contava doze anos. Metade de suas discordâncias estavam além de minha compreensão. Mas Scriabine conquistou-me pelo frescor de sua mente. Idolatrava-o. Concordava sempre com ele, mesmo ignorando o que queria dizer. Logo ele partiu para a Suíça, onde acabou ficando por seis anos.

No outono sofri um acidente que nos manteve no campo mais tempo do que o normal. Papai pintava a tela Pastagens Noturnas. Era uma cena de meninas de uma vila próxima, Bocharovo, cavalgando ao crepúsculo, a conduzir cavalos em direção aos prados úmidos ao pé de nossa colina. Uma tarde acompanhei-as, mas meu cavalo desembestou e, quando pulou um riacho, caí e quebrei a perna. Fiquei com uma perna mais curta do que a outra e, em consequência, fui dispensado do exército em todas as convocações.

Mesmo antes daquele verão arranhara um pouco o piano, conseguindo juntar alguns poucos sons de minha autoria. Agora, após meu encontro com Scriabine, desejava ardentemente compor. Naquele outono comecei a estudar teoria da composição, dedicando-me a ela durante meus seis anos restantes na escola. Trabalhei com o admirável Engel, crítico musical e teórico, e mais tarde com o professor Glière.

Ninguém tinha a mínima dúvida sobre minha vocação. Meu caminho estava traçado. Meus pais ficaram encantados com minha escolha profissional; a música seria meu destino e toda sorte de ingratidão para com eles, cujos sapatos eu era indigno de desamarrar, qualquer desobediência, negligência ou excentricidade minha passou a ser perdoada por esse motivo. Mesmo se flagrado às voltas com algum problema de fuga ou contraponto em classe, um livro de música aberto na carteira em plena aula de Matemática ou Grego, ou quando boquiaberto como um paspalho se algo me era perguntado, toda a classe vinha em minha defesa e os professores toleravam meus defeitos. E, ainda assim, desisti da música.

Desisti dela no exato momento em que tudo fazia crer estar no caminho certo e congratulações choviam sobre mim. Meu deus retornara; Scriabine voltara da Suíça trazendo suas últimas composições, entre elas O Êxtase. Foi recebido em triunfo por toda Moscou. No auge das festividades visitei-o, mostrando-lhe minhas peças. Sua reação superou todas as expectativas: escutou-me, aprovou-me, encorajou-me e abençoou-me.

Ninguém conhecia, porém, minha angústia secreta e, tivesse ela sido revelada, não me teriam acreditado. Eu progredia como compositor, mas tocava pessimamente e lia música como uma criança aprendendo a soletrar. A discrepância entre meus temas musicais, originais e difíceis, e minha falta de habilidade técnica transformou a alegria de um dom natural num tormento, até que não mais pude suportá-lo.

Como pôde tal coisa acontecer? Havia algo intrinsicamente errado em minha atitude, algo que merecia castigo. Eu tinha a arrogância adolescente, a presunção niilista dos tolos, que desprezam tudo o que parece acessível, tudo o que pode ser ‘obtido’ com aplicação. Considerava o esforço pouco criativo. ‘Na vida real’, pensava, tudo deve ser miraculoso e predestinado, nada planejado, deliberado, desejado.

Esse foi o lado negativo da influência de Scriabine em mim. Tomei-o como mestre supremo, sem imaginar que apenas ele podia permitir-se o luxo de seu próprio egocentrismo, que suas teorias serviam apenas a ele próprio. Desentendi-o infantilmente, mas as sementes de seu pensar haviam caído em solo fértil”.

Bóris Pasternak se dedicaria aos estudos musicais de 1904 a 1910. Compôs algumas obras. No belo Prelúdio nº 2 a influência de Scriabine é evidente.

Clique para ouvir, de Bóris Pasternak, “Prelúdio nº 2”, na interpretação de Eldar Nebolsin:

https://www.youtube.com/watch?v=y8nzjPhTXzY

No próximo post publicarei a segunda parte deste texto, na qual Pasternak avalia obras de fases distintas de Scriabine.

While rearranging my bookshelves I found a small publication edited by Cláudio Giordano in June 1996, “Nanico, cultural homeopathy”. It contained a testimonial by the famous Russian writer Boris Pasternak about his relationship with composer Alexandre Scriabine. His childhood memories remained intact. Pasternak’s account is worth reading, but due to its length I chose to divide it into two parts, the second to be posted next week.

Os livros do notável compositor

Eu serializo instantes musicais das músicas de todos os gêneros,
estilos, épocas, lugares. E componho em cima.
Uma música experimental, mas à minha maneira.
Um experimento com linguagens, combinatório,
visando uma nova linguagem para um momento novo,
atemporal e globalizado.

Gilberto Mendes
(“Viver sua Música – com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevsky”. 1994)

No âmbito do Festival Gilberto Mendes, que festeja o centenário de seu nascimento, está programado para hoje, dia 14 de Outubro às 18:30, no Teatro Guarany, em Santos, um “bate-papo” sobre a obra literária de Gilberto e seu legado nessa área sensível. Flávio Viegas Amoreira, Manuel da Costa Pinto, Márcio Barreto e Zé Tahan irão expor suas posições sobre o importante legado literário de Gilberto Mendes. Haverá igualmente o lançamento do livro do escritor, poeta e crítico literário Flávio Viegas Amoreira, “Gilberto Mendes – Notas Biográficas” (2ª edição). Sinto-me honrado de ser autor do posfácio “Gilberto Mendes frente ao intérprete – Estímulo, ideia, criação e interpretação” (Santos, Imaginário Coletivo, 2022).

Quatro obras do notável músico santista foram resenhadas neste espaço (“Uma Odisséia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco”. São Paulo, Edusp-Giordano, 1994, 13/10/2007; “Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Newsky”. Santos-São Paulo, Realejo-Edusp, 2008, 04/04/2009; “Danielle em Surdina, Langsam”. São Paulo, Algol, 2013. 06/04/2013; “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges. Santos, Realejo, 2019. 10/07/2021).

É notório o caminho seguido por Gilberto ao longo de seus livros. Sem ter sido um teórico autor de tratados, mas frequentando diversas tendências composicionais, como poderia se deter em determinada técnica se o dom maior de Gilberto era a curiosidade, o encantamento pelo que se lhe apresentava, não apenas os processos de alguns de seus coetâneos ilustres, mas também de músicas que ouvia vindas de outras geografias e que o seduziam. Nos nossos tempos uspianos quantas não foram as vezes em que me alertou contra as igrejinhas, núcleos de compositores que produzem e se satisfazem nos guetos. Gilberto não se indispunha contra correntes, era um cidadão em paz.

Estou a me lembrar da trajetória do primeiro livro. Estávamos em 1990 e um certo dia Gilberto confessa que gostaria de se aposentar tendo defendido uma tese. Àquela altura a aposentadoria se dava aos 70 anos. Sugeri-lhe escrever sobre o seu caminho tão luminoso. Hesitou inicialmente, mas lentamente iniciou o exaustivo trabalho acadêmico. Insisti que, sendo tão imensa a sua posição na música brasileira, bastaria a narrativa exata dos fatos, almejos, criações e relacionamentos acumulados durante a existência. Confessar-me-ia, reiteradas vezes, que a exaustão o acometia e que não fosse a prestimosa colaboração de Eliane, sua dedicadíssima esposa, dificilmente teria forças para a recolha e seleção de vasto material. A redação iniciada por vezes era interrompida. O tempo a passar e por vezes este amigo a telefonar pedindo-lhe seguir escrevendo. Em duas ou três oportunidades evidenciou discreto incômodo com os meus apelos. Sabia eu da importância de sua tese para a literatura musical brasileira. Enfim, no limite do tempo defendeu-a com brilhantismo e eu tive o privilégio de estar na banca examinadora que contou, entre outros professores relevantes, com a presença do ilustre poeta, tradutor e crítico literário Haroldo de Campos.

Meses após Gilberto me diz que ficaria muito feliz de ver sua tese publicada. Procurei a diretoria da EDUSP. Disseram-me que o meu livro “Henrique Oswald – músico de uma saga romântica” tinha sido aprovado pela Comissão Editorial. Afirmei que esse poderia esperar e que urgia a aprovação – impossível não acontecer – do livro do Gilberto Mendes. Submetido à primeira reunião a seguir as conversações, foi aprovado e publicado em 1994 (Edusp-Giordano). Quanto ao meu Henrique Oswald, a publicação se daria no ano seguinte. Como não se comover com as palavras de Gilberto na página dos agradecimentos de “Uma Odisséia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco”, livro fruto da tese de doutorado: “Especialmente a José Eduardo Martins, que conseguiu extrair de mim este trabalho. Sem o seu incentivo não o teria feito”.

Quatro anos mais tarde a Edusp publicaria “Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Newsky”. Se na “Odisséia…” Gilberto revela um sem número de recordações, musicais ou não, que são fundamentais para o entendimento de período efervescente da criação musical no Brasil, com várias correntes por vezes se antagonizando, em “Viver sua Música”, liberto de certas amarras necessárias “impostas” para uma tese acadêmica, Gilberto continua a rememorar, mas encantam-no sobremaneira as terras andadas, seus personagens, sejam ilustres ou não. Um segmento me sensibilizou, revelador de uma das qualidades essenciais de Gilberto, a ternura e a imediata associação a um de seus ídolos, Stravinsky. Estando em Moscou, um dos locais icônicos visitados dentre o imenso campo geográfico percorrido, mormente quando teve obras apresentadas, ele registra:

“A maior emoção minha, nos meus dias de Moscou, foi no passeio a um campo de pioneiras, como eram chamadas as adolescentes que ali passavam parte das férias, no verão, em meio às características datchas dos arredores da cidade. Duas meninas me pegaram pelas mãos e me levaram para mostrar as variadas dependências do acampamento. Paramos num barracão para assistir um pouco ao teatrinho de fantoches que estava sendo representado. E eis que entra em cena, de repente, um novo boneco, e uma das meninas, apontando o palco, exclama, toda feliz: Petruchka! (Petruchka é uma boneca. Петрушка em russo. Ballet de Stravinsky composto em 2011. Nota J.E)

Foi um momento epifânico, de êxtase, ouvir esse nome mágico, emblemático, na voz de uma menina russa ao meu lado, segurando minha mão, na própria Rússia! O momento em que me senti realmente, profundamente, no coração da Santa Rússia de Stravinsky, de Dostoievsky, Eisenstein, do Poema Pedagógico de Makarenko!”

Nonagenário, Gilberto tudo dissera, ou quase tudo. Sente-se livre e a imaginação sobrevoa outros domínios que jamais dele se separaram desde os primeiros anos, como o encantamento pela invenção. E surgem pequenos livros, depositários de histórias outras decorrentes da inventiva. Nessa senda encantatória renova o prazer criativo. Surgem: “Danielle em Surdina, Langsam” (2013) e “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” (2019), sendo que os fatos narrados nesse último ele vivenciou, mesmo não sendo um dos personagens.

Gilberto Mendes permanecerá. Apesar do breve recuo do tempo, foi imensa a sua contribuição para a música brasileira. Metaforicamente comparo-o ao navegante que permanece temporariamente em portos determinados. Em cada escala Gilberto absorveu e criou, a atender sua admiração por determinada tendência, mas a curiosidade fê-lo navegar e tantas outras tendências, assimiladas em cada porto, o encantariam e levariam a novas criações. Essa descontração criativa, fruto da perene curiosidade, tornou-o um amante das obras dos grandes mestres da música erudita do passado, mas igualmente um admirador das big-bands norte-americanas, da autêntica música popular brasileira e de ritmos de outros portos. Sempre a navegar no imaginário, Gilberto jamais deixou de ter em sua bússola a direção ao porto seguro, sua Santos eterna nos braços de “minha mulher Eliane, que se tornou uma segunda mãe”.

É Gilberto Mendes o nome maior de nossa música a partir da metade do século XX? É-o, na medida em que frequentou com competência várias das tendências composicionais vigentes. É-o por ter, como todos os grandes mestres, imprimido suas impressões digitais em todas as suas criações. É-o no resultado auditivo, pois, assim como os grandes de antanho, sabe-se que tal composição é de Gilberto Mendes.

Aproveito o post atual para anunciar o recital que se dará no Ateneu Paulistano, em São Paulo, no sábado dia 22, oportunidade em que será apresentado o livro de Flávio Viegas Amoreira, mencionado no início deste. A anteceder o recital, o literato santista tecerá considerações sobre o conteúdo de seu livro.

Going on with the celebrations of composer Gilberto Mendes’ birth centennial, there will be on the 14th, at Guarany Theatre in Santos, a round table on Gilberto’s literary work. In this post I make comments about his four books, all of them reviewed in this space over the years. I also announce the recital that I will give on the 22nd of this month at the Ateneu Paulistano in São Paulo, on which occasion the book written by Flávio Viegas Amoreira, “Gilberto Mendes – biographical notes”, will be launched, with a postscript signed by me describing the 30 pieces that Gilberto Mendes dedicated to me during our intense friendship. I have presented them in several European countries.