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Sylvain Tesson e os caminhos esquecidos da França

Atravessar vilarejos dava a impressão de passar em revista fachadas a meio mastro.
O que não estava fechado estava à venda,
o que estava à venda não encontrava comprador.
Os monumentos aos mortos levavam nomes gloriosos e
até os habitantes vivos vagando pelas ruas
bem poderiam se juntar à lista.

Sylvain Tesson
(“Sur les Chemins Noirs”)

Ao longo de treze livros resenhados neste espaço desde Maio de 2011 (vide menu “Resenhas e comentários – Lista”), a leitura de “Sur les Chemins Noirs” acentua determinadas constantes no pensamento de Sylvain Tesson, agregando outras, tangíveis após o grave acidente que sofreu em Agosto de 2014, ao cair de uma altura de 8-10 metros escalando as paredes da casa de um amigo em Chamonix. Esteve em coma durante bom tempo, sofreu várias fraturas, permanecendo indeléveis resquícios, sobretudo em seu rosto. Confessaria que “foi um acidente estúpido, sentia-me imortal”. Bem ele, que percorreu o mundo a pé, de bicicleta ou de moto, viveu tantas peripécias “no fio de uma lâmina” e viria a sofrer acidente prosaico nessa queda que deixou tantas sequelas.

“Sur les Chemins Noirs” (Paris, Gallimard, 2016) apresenta um caminho mais “modesto” de Sylvain Tesson, naquilo que ele mesmo confessaria nas primeiras entrevistas após o grave acidente, ao propor direcionamento mais humanitário a partir da queda brutal. O escritor aventureiro se propôs atravessar a França, percorrendo-a em linha diagonal sinuosa, no sentido sudeste-noroeste, não através das auto estradas ou de outras vias pavimentadas, mas orientando-se pelos caminhos negros, também chamados de routes jaunes, em terra batida, de pedras ou apenas trilhas. Descreve-os como “caminhos banhados de puro silêncio, miraculosamente vazios”. Durante o longo trajeto não negligencia ferrovias desativadas. Distanciou-se durante todo o percurso das cidades maiores, pois interessava-o aprofundar-se nesses espaços ruralistas, tantos deles ainda vivendo à la manière dos séculos anteriores.

A longa viagem pelos caminhos negros o faz inteirar-se dos costumes, hábitos, desconfianças e mutismo desses personagens rurais perdidos em seus rincões e tendo acesso ao pequeno povoado, onde não faltam os ingredientes atávicos, o café, a barbearia, a quitanda e os prestadores de serviços. Quando dialoga com o homem rural, fá-lo sempre de maneira curta, sem qualquer ligação de mínima intimidade. Para o leitor que acompanhou as longas viagens de Tesson pelo planeta, sente-se que o contato com outros povos, da Rússia e da Ásia Central, como exemplos, são bem mais humanos. Seria possível entender que nessa empreitada – possivelmente devido aos problemas faciais – a inseparável flauta, tão presente em vários livros como elemento primeiro comunicante com o próximo, estivesse ausente. Ficaria a impressão, pode parecer paradoxal, de que Tesson teria maior prazer no contato com essas etnias tão distantes do nosso conhecimento. Esse “cartão de visitas” sonoro, tantas vezes mencionado em narrativas anteriores, que encantava os moradores dos yurts (tenda redonda mongol) espalhados pela vasta planura da Mongólia, assim como habitantes de outras regiões longínquas,  desaparece em “Sur les Chemins Noirs”. Estou a me lembrar de dedicatória de Sylvain Tesson a uma pergunta que lhe formulei em manhã de autógrafos em Paris aos 12 de Janeiro de 2014: “O único momento em que não sou melancólico é quando escuto música triste, que se encarrega do fardo de minha pena”. Sete meses após, sofreria o acidente. O sonoro flautado inexiste como elo durante toda a travessia pelos caminhos negros, assim como qualquer traço de entusiasmo, mesmo quando amigos, isoladamente, com ele se encontravam para caminhadas durante poucos dias.

O ruralismo francês, cortado por esses chemins noirs, põe à mostra o descaso do Estado e a volúpia das empresas que, ao se interessarem por algum rincão, trazem o “progresso”, destroem tradições e têm interesses tantas vezes estranhos. Como arguto observador, não deixa de notar os animais domésticos, basicamente familiarizando-se à distância. Essas observações, paradoxalmente, excluem o pormenorizar lugares percorridos, não havendo qualquer vestígio de uma interpretação turística. Se tantas vezes a natureza o impacta, essa é anônima, perdida em um desses chemins noirs. Sob outro aspecto, fica mais evidente, nesse corte dos extremos do território francês, sudeste-noroeste num sentido longitudinal, um possível menor envolvimento com a geografia em comparação com as narrativas anteriores. Seria possível supor que atravessar sua França, país do chamado primeiro mundo, a observar a precariedade dos caminhos, das casas esparsas, da desassistência do Estado, do mutismo do homem rural desesperançado frente ao “progresso”, tenha provocado em sua mente um recrudescimento de aversão aos avanços em quase todas as áreas e o desprezo pelas elites. O pensamento de Tesson, nesse caminhar, mergulha nos tempos da idade da pedra até os feudais, tempos imóveis, segundo ele. O progresso sem controle fá-lo refletir sobre a velocidade dos acontecimentos, pois “a ode à ‘diversidade’, à ‘troca’, à ‘comunicação do universo’ surgia como o novo catecismo dos profissionais da produção cultural na Europa”. O observador verifica as consequências em torno dessa volúpia para que as coisas aconteçam: “os vales se viram afligir pelas grandes auto-estradas, as montanhas pelos túneis, o azul do céu pelas linhas brancas dos longos voos. A paisagem tornou-se uma decoração de passagem”. Verifica, ao percorrer vilarejos, “a presença de frutos e legumes tropicais na mais modesta quitanda”. Coloca uma questão nessas elucubrações sobre a mundialização: “por que não aceitamos que um ladrão de maçãs se introduza num pomar e por que permitimos que uma manga do Brasil reine numa quitanda d’Ardèche? Onde começa a infração?”. Comenta com certa dose de humor: “E interessei-me por uma inovação instalada em frente à Igreja: uma ‘máquina distribuidora de pães’ substituía a padaria. Um euro depositado na fenda e lá vinha a baguete. A máquina foi vandalizada. Moralidade à francesa: quando falta pão, o povo se revolta; quando faltam padeiros, ele quebra as máquinas”. Com quase resignação: “A ruralidade instituiu-se como princípio de resistência a toda empolgação. Escolhendo o sedentarismo, criou-se uma ilha no fluxo. Aprofundando-se nos caminhos negros, navegamos de ilha em ilha. Há um mês eu abro caminho no arquipélago”.

Alguns aspectos extraliterários devem ser abordados. Após o trauma sofrido, a lenta recuperação o obrigaria a uma intensa fisioterapia. Contrariando recomendações, o escritor aventureiro preferiu andar e atravessar o território francês. Diversamente dos livros anteriores, são inúmeras as menções de Tesson ao cansaço, às longas caminhadas. Constantes as lembranças do trauma sofrido. A narrativa não o esquece e praticamente todas as sequelas são homeopaticamente distribuídas em “Sur les Chemins Noirs”, de maneira por vezes pungente. O inveterado amante da vodka e das longas caminhadas, com estágio como “eremita” no lago Baikal, confessa: “Bebi para toda a vida nesses últimos anos, afogado nas caravanas de lembranças dos rios de vodka. Presentemente, acabou! A torneira mágica fechou”. Em outra menção, tem-se: “Foi-me proibido o vinho, mas eu podia ainda embebedar-me do vazio”. Rememora as décadas como viandante: “vinte anos nesse jogo sobre cumeeiras para, hoje, caminhar como uma idosa”. Durante o longo percurso, uma irônica observação, após ter dormido em um mosteiro: “Enriqueci-me com os 20 euros que recebi no mosteiro, pois uma velha senhora teve piedade ao ver meu rosto desfigurado: ‘Reze uma missa, para quem você quiser’, e lembrei-me de minha mãe, que jamais me teria feito tal pedido”. Encharca-se de medicamentos que o afligiam: “Acrescentaria as doses de colchicine para as complicações cardíacas e os produtos para atenuar as dores nas pernas. Incendiei minha vida, queimei as veias, dei um salto para escapar do incêndio e agora arrasto-me sobre os caminhos com uma inflamação geral que a medicina controla”. Jocosamente comenta: “tentemos não cair no rio, pensava eu passando por uma ponte, isso evitará à região uma poluição química”. Praticamente todas as partes do corpo afetadas pela queda em Chamonix são contempladas. A audição diminuiu e comenta noite em pequeno hotel onde, durante o jantar, a televisão estava em alto volume: “A vantagem da meia surdez está no fato de já termos o volume reduzido”.

O ataque epilético, nunca tratado em livros anteriores, pode ter sido provocado pelo traumatismo crânio-encefálico (TCE). Se o mal fosse anterior, creio que Tesson não teria permanecido meses, em pleno inverno, sozinho numa cabana siberiana (vide blog: “Dans les Forêts de Sibérie- Reflexões em cabana isolada na margem ocidental do lago Baikal”, 01/03/2014). Refere-se com naturalidade ao episódio. Estava Tesson a almoçar com amigo no alto de uma montanha quando lhe veio à mente a vontade de morrer: “era uma mancha negra que invadia o ser como a tinta de um choco escurece a água do mar”. Lembrar-se-ia, ao voltar a si, “era a epilepsia, o mal negro, e as fraturas de meu crânio favoreciam essas crises”.

À guisa de conclusão, Sylvain Tesson se posiciona: “Toda longa marcha tem lá seus ares de salvação. Colocamo-nos a caminhar, avançamos a buscar perspectivas nas dificuldades, evitamos os vilarejos. Encontramos abrigo para a noite, recompensamos em sonhos as tristezas do dia. Elegemos a floresta como domicílio, dormimos embalados pelas corujas, partimos pela manhã eletrizados pela empolgação da mata crescida, vislumbramos cavalos. Encontramos homens rurais mudos”. (tradução: J.E.M.).

Se, sob um aspecto, “Sur les Chemins Noirs” mais profundamente revela que os efeitos traumáticos tiveram influência na narrativa, sob outra égide o autor revela seu de profundis -  não falta um  sentido poético na narrativa -, justamente a percorrer seu território natal. Se desaparece o surdo prazer, palpável nas viagens anteriores, possivelmente a decepção ao verificar precariedades e o desinteresse do Estado, nessas bucólicas mas desprezadas terras, tenha aflorado “sentimentos” ocultos em tantas obras anteriores. Faz-me pensar no extraordinário ciclo de melodias de Modest Moussorgsky, “Sans Soleil”.

Sylvain Tesson iniciou o percurso pelos “Chemins Noirs” aos 24 de Agosto, chegando a termo aos 08 de Novembro de 2015.

In his book “Sur les Chemins Noirs” French adventurer, writer and geographer Sylvain Tesson walks across France from Southwest to Northwest  following the Chemins Noirs (black paths), the unmarked ancient routes of men and animals or abandoned railways, reflecting on government’s disregard for citizens’ needs, the greed of large corporations under the pretext that rural areas need to be “incorporated into modern France” and repeated mentions of the accident he suffered in 2014 (a ten-meter fall during roof-climbing) that took a heavy physical and mental toll on him. Also a philosopher, the 76-day adventure is a chance for Tesson to muse over issues such as nature, modern society and his impulse to challenge death.

 

Questionamentos que enriquecem

Existe apenas um canto do universo
que você pode ter certeza de aperfeiçoar,
que é você mesmo.
Aldous Huxley

O afluxo de mensagens a respeito do tema faz-me tecer outras considerações. Se, mormente após a Revolução Industrial, a Humanidade caminha para a especialização, à maneira de uma locomotiva, que do ponto zero pouco a pouco acelera, mais e mais verificamos que a especialização e uma de suas resultantes, o desenvolvimento tecnológico, caminham numa velocidade que só tende a crescer. Em todas as áreas, as transformações a partir da segunda metade do século  XX têm quase impossibilitado a fixação na mente dessas inovações de maneira perene. Impossível conter esse avanço. “Jurássicos” tornaram-se os grandes rolos de fitas de gravação, as fitas-cassete, os dats, assim como os acetatos, os 78 rotações, o long-playing e, fadado ao mesmo destino, o CD. Celulares introduzidos no Brasil há tão poucas décadas são igualmente pertencentes a uma pré-história e vemos, mercê da concorrência predatória na área dos atuais aparelhos, que mais acentuadamente acrescentam-se inovações em espaços de tempo sempre mais estreitos, corrida que obriga o consumidor à atualização imediata, mas que o leva ao desvio do essencial, o ser.

Seria possível entender que a especialização no campo internético tornou-se frenética, a impossibilitar o acompanhamento pelos adultos na idade madura. Matéria assinada por Mariana Nicodemus (“Circuitos digitais: a força dos eSports, competições organizadas de jogos eletrônicos”, O Globo – Sociedade, 13/09/2017) apenas indica a irreversibilidade dessas modalidades sempre “in progress” e que hoje mobilizam 300 milhões de pessoas no planeta. Ligas profissionais, times, ídolos e certames pelo mundo impulsionam essas recentes atividades. Confesso que durante uns 10 minutos estive recentemente a assistir pela tela a um  evento internacional. Comentários de três brasileiros “especialistas”, que irradiavam a “batalha” internética, chegavam aos meus ouvidos como sânscrito ou aramaico, pois não entendia uma só palavra. Era um emaranhado de termos e neologismos das línguas inglesa e portuguesa. Fiquei a pensar na absoluta falta de visão cultural desses comentaristas, dos jogadores frenéticos sentados diante das telas e de um público “robotizado”. Pessoalmente, entendo essas “batalhas” como uma enorme incitação à violência. Há, contudo, quantidade de “especialistas” atualizando diariamente esses jogos!!!

Minha dileta amiga, a renomada gregorianista e regente coral portuguesa Idalete Giga, comenta o último blog: “Este último, Especialização – Um caminho sem volta , é um tema muito interessante e actualíssimo. O pensamento do nosso saudoso filósofo Agostinho da Silva sobre este tema conduz-nos inevitavelmente a uma profunda reflexão…. Hoje , mais do que nunca , caminha-se para uma especialização exagerada. Contudo, o exagero poderia ser menorizado se o especialista (independentemente da “especialização”) fosse possuidor de uma Cultura Geral. Sem Cultura Geral não passamos de seres incompletos, medíocres…intelectualmente falando.

Quando hoje sabemos que tudo tem a ver com tudo, não há Ciência, seja ela qual for, que se  isole, se  feche numa concha, desconhecendo as outras. Há uma distância gigantesca entre o ‘especialista do ouvido esquerdo’ (!) e  o sábio holístico que conhece  o corpo inteiro e a correlação entre os vários órgãos. Neste poderemos confiar”.

Idalete menciona Agostinho da Silva. Valho-me de mais um comentário do notável pensador, ensaísta e poeta português em outro de seus textos: “A grande diferença entre um homem do Renascimento, com seu gênio plural, com sua infinita capacidade de ciência, de arte, de política, de guerra, de violência e de amor, de realidade e de sonho, e nós, especialistas, cada vez  sabendo mais de menos, está em que dentro deles, por um século, o medo se abolira, não o medo de prisões, de feridas ou de mortes, que é esse o menos mau, mas o medo de ser, na plena, na inesgotável riqueza que se é. Não é o ser pintor, ou poeta, ou diplomata ou administrador tão raro e tão estranho que vejamos como um gênio quem o é; o que é raro é saber-se escapar das classificações, fugir ao conforto da ficha profissional e ousar ter as ideias novas em lugar de, para conforto dos governos, levar a vida inteira lavando a poeira de ouro dos grandes mineradores”. Como se aplica seu pensamento à triste realidade brasileira!!! Em outro segmento: “Talvez, no fim de contas, não sejamos uma nação de músicos especialistas, já os há bastantes, mas de condutores de orquestras; talvez se esteja à espera de nossa vitalidade, de nossa disciplina, de nosso gesto de amparo à guia; talvez só isso falte para que harmonias subam a qualquer Deus que seja: e o saber de cada corda, de cada metal, de cada madeira, base de estrado é. Só por ele a ele” (Agostinho da Silva. “Dispersos”. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989, 931 pgs.).

O homem, que permaneceria na História através de suas realizações nos mais variados campos, da Antiguidade aos primórdios do século XX, assistia à passagem do tempo sem sofrer transformações bruscas. Aquilo que o ascendente perpetrava era seguido pelos sucessores de maneira basicamente consensual. A evolução constante, mormente a tecnológica, não permite às gerações mais velhas, que avançam etariamente, acompanhar as incessantes novidades, ao contrário das adaptações constantes das crianças, adolescentes e jovens a esses progressos.

Paradoxalmente, a aceleração tecnológica, mercê de especializações absolutas, provocaria um “desnorteamento” criativo nas artes. Se o rumo tecnológico tem levado à ascensão do consumo, graças às ofertas que se sucedem a todo vapor, na música e na literatura, mais especificamente, dá-se o inverso quanto à criatividade. Qual o compositor hodierno que ultrapassaria a produção qualitativa e soberana, mas também quantitativa, diga-se, de compositores como J.S.Bach (1685-1750), W.A.Mozart (1756-1791), Franz Schubert (1797-1828), como alguns dos tantos exemplos? O mesmo se daria na literatura e a enorme obra de François-Marie Arouet, o grande Voltaire (1694-1778), é exemplo significativo. O andamento, a cada ano mais acelerado, contamina todas as áreas. Um “criador”, se pensar valer-se de seus processos anteriores – algo rigorosamente aceito nos séculos passados -, corre o risco de ser considerado defasado pelos pares. A impossibilidade de renovar-se a cada “criação” impede-o de produzir mais, contrariando na realidade a aceleração que se dá em muitas áreas. Felizmente, correntes conservadoras têm-se insurgido contra “igrejinhas” ou guetos e buscam a harmonização de tendências, algo basicamente impossível na segunda metade do século XX.

Às gerações intermediárias difícil será a adaptação às novas tecnologias. Serão assimiladas superficialmente pelos pertencente à denominada terceira idade, mas que não pairem dúvidas, a aceleração não tem fim previsível. Se num TGV ou num jato a velocidade nos inebria, com as inovações na área da tecnologia acontece o mesmo. Deslumbramento que pode até ser a antevisão do caos. O futuro responderá.

Additional considerations regarding specialization in the modern world, with focus on the unprecedented speed of technological evolution.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Um caminho sem volta

Há hoje quem esteja plenamente convencido
de que nasceu mais engenheiro do que homem;
como se já estivéssemos naquele tempo de pesadelo
em que se fabricariam homens-máquinas

de servir máquinas de servir homens-máquinas.
Agostinho da Silva

Vivemos na era das especializações em praticamente todas as áreas. Ao ler artigo publicado aos 19 de Novembro deste ano em Contrepoints, sob o título “Télémédicine c’est pour demain… ou après-demain” (artigo do The Conversation assinado por Roxana Olegeanu-Taddei e David Morquin, ambos da Universidade de Montpellier), mais acentuadamente fica exposta a necessidade imperiosa de adequação às tecnologias e à especialização daqueles que se dedicam a essa área em evolução, assim como, por parte do Estado, uma atenção maior. Ainda no campo da medicina – e em praticamente todas as áreas – a especialização tem sido quase absoluta. O denominado médecin géneraliste em França e clínico geral na língua portuguesa está a se tornar raridade. Em minhas primeiras décadas lembro-me do Dr. Semi Sauda que nos visitava e que mui raramente seu diagnóstico falhava. Auscultava meus irmãos e nossos pais e prognosticava qual caminho tomar. Cirurgiões daquela época, majoritariamente precisos, apesar dos recursos técnicos menos avançados, realizavam não apenas uma modalidade cirúrgica. Estou a me lembrar do dileto amigo Gabriel Meirelles de Miranda, médico em Pouso Alegre, Minas Gerais. Atendia em seu consultório pacientes com os mais variados males, sendo igualmente cirurgião seguro nas mais diversas especialidades (vide blog “Amizade que desafia tempo e distância – Gabriel Meirelles de Miranda”, 14/03/2015). A super especialização da medicina atual, amparada nos avanços extraordinários da tecnologia e da pesquisa científica, implicou também o custo por vezes estratosférico de determinados procedimentos. No âmbito individual, pacientes de muitos afamados especialistas sabem disso na hora do acerto. Estou a pensar numa piada que ouvi anos atrás. Paciente que visitava um otorrino disse-lhe que estava com dor em seu ouvido direito, recebendo pronta resposta do médico: “sou especialista do ouvido esquerdo”.

Sempre que tema faz-me lembrar leitura de Agostinho da Silva, recorro aos textos do filósofo, ensaísta e poeta português (1906-1994). São vários os escritos do autor sobre especialização e especialistas (Agostinho da Silva. “Citações e pensamentos”. Organizador: Paulo Neves da Silva. Alfragide, Casa das Letras, 2009). Argutos, precisos, os textos de Agostinho da Silva atingem aspectos fulcrais do tema, tanto positivos como contrários. Quantas não foram as epígrafes que retirei desse e d’outros livros do notável pensador?

O autor tem consciência clara de que seria inútil negligenciar a civilização de especialistas. Engloba o homem das artes, das ciências e das técnicas. Faz-se necessário o especialista capaz de lançar luzes para gerações futuras. Haveria contudo em seu pensamento uma crítica à face do especialismo que, se “favorece aquela preguiça de ser homem que tanto encontramos no mundo, permite ele, por outro lado, aproveitar em tarefas úteis indivíduos que pouco brilhantes seriam no tratamento de conjuntos”. Estende seu pensamento às lideranças, que necessariamente têm de possuir a ideia do conjunto. Ampliando o leque, à cultura geral indispensável. Menciona o comandante em suas estratégias de guerra e na ação psicológica voltada à condução de seus homens que, “na maior parte das vezes, mal sabem por que se batem”. Não falta a menção ao desejo do homem e o seu ingresso na vida política. Agostinho da Silva comenta: “… paga-o o indivíduo quando, no cumprimento de uma missão fundamental para os destinos do mundo, se arrisca a ser político e sofre todos os habituais ataques dos especialistas de um outro campo que se não lembram de que o defeito para o político não é o de não ser técnico, mas o de não ouvir os técnicos e não lhes dar em troca, a eles, o sentido largamente humano que tantas vezes lhes falta. E, mais grave, paga-o de um modo geral a própria natureza humana, que, embora gostosamente embalando a sua preguiça nas delícias do especialismo, sente ainda, mais fundo e constante, o remorso de o ser”.

Se a abrangência faz-se necessária, nas áreas das Ciências Humanas ela pode ter ramificações. Considerando-se, pode um estudioso dedicar-se décadas a um só período histórico e nele se debruçar, assim como especializar-se em um só autor, exaurindo as fontes possíveis para o desvelamento mais preciso. Seria plausível supor que a expansão do conhecimento, ao ampliar horizontes, possibilita uma maior visão da “especialidade” a ser estudada. Ao longo desses dez anos tenho salientado a necessidade imperiosa da Cultura Geral como ferramental para o aprofundamento de qualquer pesquisa nessa vasta área das Ciências Humanas.

Agostinho da Silva questiona e responde: “Em que trai o homem, sendo especialista, a sua verdadeira missão de homem? Creio que em vários pontos. Um deles seria, por exemplo, no que respeita a fraternidade humana. Impedido pela especialização, pela compartimentação do saber, pelo emprego até de uma linguagem que se torna incompreensível para quem não andar exactamente pelos mesmos caminhos, de estabelecer relações com os outros em plano verdadeiramente elevado, o especialista tende ao ideal de uma civilização em que cada minhoca fosse paciente e forçadamente cavando a sua galeria…”.

Em dois posts abordei obras que apontam malefícios da especialização quando seus praticantes miram outros interesses. Russell Jacoby (vide blog “Os últimos intelectuais”. 21/03/2009) aponta a ininteligibilidade da escrita em revistas universitárias visando ao carreirismo e ao agrado dos pares: “Artigos que outrora eram legíveis, ou pelo menos interessantes, tornaram-se absolutamente herméticos e enclausurados”. Por sua vez, afirma Victor J. Rodrigues (vide blog “Teoria Geral da Estupidez Humana” e “A Nova Ordem Estupidológica”. 14/08/2010): “De qualquer modo, vale a pena realçar a postura básica subjacente à estupidez epistemológica: fechar a mente e a consciência a tudo o que não esteja de acordo com as ideias e metodologias pelos senhores das capelinhas do saber consideradas. Isto é feito pelo recurso militante à escolástica universitária, ou seja, a um corpo de teorias, ideias epistemológicas e autores cuja autoridade não pode ser contestada pois isso é tomado como ofensa directa ao senhores feudais que acreditam nelas”.

Individual ou seletivamente coletiva, a especialização é fato irreversível. Agostinho da Silva bem afirma: “Fomos todos obrigados a ser especialistas. Logo de princípio e nos termos mais gerais”. Reitera problemas advindos: “O que há de ruim no especialismo é o ser cada um o especialista de um domínio ainda vasto demais; o mal vem aqui, como em muitos outros pontos, de se ficar em meias medidas, de se não fazer até ao fim com inteireza lógica aquilo que uma vez se começou; temos de reduzir a especialidade a um domínio tão estreito que o trabalhador possa não só apreender o que já se fez com um gasto mínimo de tempo, como ainda com o mínimo de tempo manter-se a par do que se faz pelo mundo em sua especialidade e contribuir para que ela avance”. Como não pensar na obra-prima de Charles Chaplin, “Tempos Modernos”, de 1936? A essência do fenômeno está exposta de maneira tão clara!

A especialização é fato. Ascendente, sempre. Não nos deveríamos esquecer contudo do coletivo e do caminhar do homem pela História. A visão ampla ainda se mostra como via em direção à harmonia, pois há que se pensar no amálgama das tendências.

This post considers the pros and cons of specialization in the modern world according to the Portuguese philosopher, essayist and writer Agostinho da Silva (1906-1994).