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Entrevista de raro interesse

A mundialização devia estar feliz.
Ela é uma dama das camélias: infectada.

O vírus é a flor do mal
crescendo ao contato do mundo interior e exterior.

Sylvain Tesson
(Entrevista: “Que ferons-nous de cette épreuve?”)

Meu dileto amigo, compositor François Servenière, enviou-me recente entrevista do aventureiro e escritor Sylvain Tesson a tecer reflexões sobre o confinamento devido ao COVID-19. A entrevista, concedida a Vincent Tremolet de Villers e publicada inicialmente no Le Figaro aos 19 de Março último, teve outra edição pela Gallimard em Tracts de crise, nº 23.

Uma das qualidades de Sylvain Tesson em suas entrevistas é a agilidade de raciocínio, quase sempre coerente e original. A larga experiência que adquiriu em suas andanças pelo mundo, que resultaria em uma bibliografia considerável (vide no menu: Livros,   Resenhas e Comentários – lista), faz com que, da inquietação pelo confinamento, Tesson passe a refletir sobre o significado dessa exclusão social, assim como a respeito do humano diante do COVID-19. Frente às seis perguntas do entrevistador, o escritor se posiciona com clareza.

Primeiramente entende que a ultramundialização terá avaliação efêmera no futuro. Acredita que, desde a queda do muro de Berlin, o materialismo e a banalização das relações humanas via internet fazem com que “o digital complete a uniformização”.  A partir dessas premissas, Tesson caracteriza aspecto fulcral: graças às reações rápidas impostas pela mundialização, fomos levados ao “fique confinado”, algo impensável anteriormente. Tem dúvidas sobre o pós-COVID-19, passado o que ele denomina pangonligate, referente à possível transmissão por pangolins ou morcegos.

Tesson comenta a posição do catastrofista, que faz parte dessa atração do homem pela morbidez. “Para certos profetas da catástrofe, não há necessidade de inventar o futuro, nem de suavizar a análise, tampouco de se lançar inteiramente na conservação daquilo que se mantém. O infeliz fundamentalista anuncia o inferno de Bosch, mas estoca patês. Muitos esfregam as mãos e dizem: ‘Nós bem que avisamos!’ Não perceberam que o pontapé inicial partiu de um pequeno animal parecido com um panzer vestido por Paco Rabane”. Instado pelo entrevistador sobre quais conselhos poderia dar de seu confinamento, Tesson acrescenta: “Você percebeu a nossa chance? Durante quinze dias o Estado assegura a mordomia de nosso confinamento forçado. Há um ano, parte do país queria derrubar o Estado. De repente, tem-se consciência: é mais agradável sentir uma crise na França do que na Curlândia Oriental. O Estado se revela como Providência que não exige devoção. Pode-se cuspir sobre ele, mas ele virá socorrê-lo”.

Tesson observa dado relevante que faz toda a diferença nesse confinamento forçado, a vida interior que parte da humanidade desconhece: “Tenho compaixão pelos que passarão dias longe de um jardim”. A pensar possivelmente no letrado com acesso à cultura como ideal, considera essa compaixão estendida “àqueles que não amam a leitura e que ‘não têm a menor noção que um Rembrandt, um Beethoven, um Dante ou um Napoleão existiram’, como escreve Stefan Zweig no início do Jogador de xadrez”.

Crítico mordaz de aspectos da tecnologia voltados à imagem nas telas, seja ela televisiva ou através das engenhocas que invadiram o planeta, mormente neste século, afirma: “Abram os livros. Diante de uma tela vocês estarão duas vezes confinados!” Insiste em outro segmento da entrevista: “Tomamos consciência de evidências esquecidas. Citemo-las: Ficar em casa não significa detestar seu vizinho. Os muros são membranas de proteção e não blindagens hostis. Eles são perfurados por portas e podemos escolher abri-las ou fechá-las. Ler não significa se aborrecer”.

Insiste nesse tema da nocividade da alienação motivada pela fixação do homem atual nesses avanços tecnológicos: “Nós, humanos do século XXI, seguimos bem desfavorecidos nesse desafio que nos é proposto. A nova ordem digital-consumista habituou-nos a temer o vazio. A revolução digital é um fenômeno hidráulico. Internet e vaso sanitário, preenchem o espaço vacante em alta velocidade. O tubo tem sede. É necessário fluir! De repente, o confinamento impõe uma experiência do vazio. Não se deve, contudo, agir como preconiza a conexão integral: preencher tudo com qualquer coisa.” Em “Une três légère oscillation” (vide blog, 28/03/2020), o autor, sob outro olhar, comenta essa realidade. Necessário verificar que não se trata de elitismo quando Tesson sugere a leitura, assim como o acesso à cultura artística, musical, filosófica acima mencionada, através da citação de expoentes nessas áreas. O vazio viria da desinformação, da impossibilidade de o homem moderno se ater a aspectos da cultura humanística pelo massacre diário, através do baixíssimo nível de parte substancial das programações televisivas, dos sites portais e dos aplicativos das engenhocas digitais mais evidentes, que desconsideram quase completamente a cultura dita erudita, enaltecendo o lixo da imagem, dos costumes, da linguagem, atentados que desvirtuam as mentes.

Nesse período com desfecho imprevisível, em que se assiste mortos sobrepostos em valas coletivas, ouçamos de Alexandre Scriabine o Poema Trágico op. 34 na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=K0k7wUwHAn8

Tece elogios rasgados aos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde vestidos de branco, comparando-os àqueles que há dois anos atrás correram sérios riscos debelando o fogo da Catedral de Notre-Dame. Diz: “O heroísmo não mudou de definição: sacrifício de si mesmo. A nação se conscientiza de que dispõe desses dedicados servidores, que aceitam salvar ou morrer”.

Frente à reconciliação interior ou não, Tesson se posiciona: “Que faremos  após essa prova? Como sou ingênuo, acredito que os passageiros do trem cyber-mercantil chegarão a um aggiornamento.  As civilizações estabeleceram-se sobre alguns princípios: separação, reclusão, distinção, singularização, enraizamento. Confinamento, pois. Decênios foram suficientes para varrer esses conceitos em nome de uma ideologia: o globalismo igualitário preparatório à grande liquidação. A propagação massiva do vírus não é um acidente. É uma consequência”.

Tesson considera que a mundialização inevitável “não é irreversível e que a nostalgia pode propor novas direções!”. Finaliza: “ Diante da pretensa inevitabilidade das coisas, o vírus do fatalismo possui seu álcool-gel: a vontade. ‘Caminhemos’ é finalmente um maravilhoso slogan, uma vez ultrapassada essa fase”.

Verifica-se que as preocupações de Sylvain Tesson aproximam-se dos atos da grande maioria das populações atingidas pelo COVID-19. O leitor deve lembrar-se da cantoria solidária de italianos da Lombardia, epicentro do vírus na Itália, que saíam às varandas para cantar, inclusive o seu Hino Nacional. Faz lembrar tantas narrativas existentes em livros, relatos históricos, romances e poesias, nas quais grupos que seriam exterminados cantavam hinos religiosos ou pátrios. Heroísmo pré-morte certa, instantes a anteceder a tragédia.

Quanto às leituras ou atividades culturais outras, como as que menciono em termos individuais no blog precedente, dependem da formação. Para famílias onde impera harmonia, mesmo que não haja essa vocação para a leitura, assistimos pelos noticiários a tantas sugestões de atividades criativas,  inexistentes antes da pandemia, mas que unem o núcleo familiar. Sob outra égide, acentuou-se o número de separações ou, no limite máximo das incompreensões, a cifra relativa ao feminicídio. O convívio permanente entre paredes, que pode ser enfadonho para tantos, tem levado à fatalidade.

Em termos de Brasil, desassistido pela enorme classe política, o que não dizer do empobrecimento educacional, a levar moradores das favelas, das comunidades, daqueles sobre palafitas, a viverem aglomerados, basicamente sem possibilidades de reflexão mínima quanto ao mal que os atinge?

Tem carradas de razão Sylvain Tesson ao dizer que “Uma disparidade imediata se revela. Alguns têm vida interior, outros não”. Nossa classe política tem interesse em solucionar ao menos problemas práticos elementares para minimizar o desalento, a desesperança e a desassistência aos desfavorecidos? Se atiram migalhas, são apenas migalhas. Saberia a grande maioria dos integrantes dos três Poderes o que significa vida interior?

Clique para ouvir o Coral Jesus Alegria dos Homens de J.S.Bach na transcrição de Dame Myra Hess. Piano: J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=flrkpW5L4KQ

Comments on an interview given by the French writer and adventurer Sylvain Tesson and published by “Le Figaro” of last March 19. Tesson talks about his quarantine days in Paris in times of Covid-19, an experience he turns into a chance to muse over the meaning of social exclusion in the outbreak of the virus across the world, the impact of digital technologies in our lives, the world once the virus has been controlled.  As usual, Tesson’s acute intelligence and the originality of his ideas make this interview well worth reading.

 

 

Suas lembranças tardias de três compositores fundamentais

C’est la musique souveraine
qui nous fait entrevoir les vrais dimensions de l’homme.
Georges Duhamel (1884-1966)

Após comentários resumidos no blog anterior sobre a notável pianista Marguerite Long ao longo de sua carreira de intérprete, no que concerne a colaboração da artista não apenas como intérprete essencial dos maiores compositores do período como na divulgação de suas obras, abordarei sua contribuição literária.

Tardiamente Marguerite Long legaria suas recordações do convívio musical e amistoso com três dos principais compositores franceses desde a segunda metade do século XIX: Gabriel Fauré (1845-1924), Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937). Seria possível entender que, após tantas décadas passadas, a memória privilegiada de Mme Long pudesse, por vezes, fantasiar alguns episódios. Um eminente musicólogo francês apontou-me determinadas alterações na narrativa da pianista que, sem falsear a essência essencial do pensamento, teriam sido inseridas com o propósito de evitar a aridez do texto. Assim sendo, a escrita tem sempre um caráter agradável, até em segmentos que denotariam a presença de situações conflitantes. Poder-se-ia acrescentar que essas “alterações” ficariam mais evidentes nos diálogos travados entre a pianista e interlocutores. Sob aspas, muitas décadas após, o instante do acontecido pode ter sido “romanceado”, sem contudo  modificar o essencial.

Primeiramente debruça-se sobre Claude Debussy (“Au Piano avec Claude Debussy”, Paris, René Julliard, 1960). Desfilam em suas páginas, quantidade de testemunhos de músicos relevantes, sendo que se pormenoriza nos encontros com Debussy no segundo semestre de 1917, poucos meses antes da morte do compositor, aos 25 de Março de 1918. Debussy se encontrava em Saint-Jean-de-Luz, no “chalet Habas”, já em pleno declínio físico. Para a cidade se locomoveram três pianistas célebres: Ricardo Viñez, Joaquin Nin e Marguerite Long. Debussy escreve ao seu editor Jacques Durand em Setembro: “… entretanto, tenho a chance de estar num lugar distante onde não os ouço”. O eminente François Lesure comenta: “Lendo-se ‘Au piano avec Debussy’, de Marguerite Long, tem-se a impressão de que, durante sua estadia no chalet Habas, Debussy se ocupou prioritariamente em trabalhar com ela. Nas 169 páginas de seu livro insere tantos outros testemunhos entre as raras sessões que o músico lhe dispensou” (Claude Debussy. France, Klincksieck, 1994). Seria possível entender que décadas acumuladas tenham superdimensionado esses encontros, que na realidade existiram, mas não na dimensão apregoada, e dos quais Mme Long extrairia certamente dados preciosos que sedimentaram suas interpretações das criações de Debussy. Acredito que a contribuição maior de “Au piano avec Claude Debussy” decorra das observações interpretativas da autora sobre obras fundamentais do compositor.

Anteriormente a Debussy, Marguerite Long entrara em contato com a criação de Gabriel Fauré sem ao menos tocar até 1902 qualquer de suas composições. Revelado, Fauré e a admiração pela sua obra permanecerão por toda a existência. Como relata em seu livro, foi um dos mestres franceses do período, Antonin Marmontel, que a fez entrar em contato com as criações de Fauré e, no primeiro encontro com o compositor, interpreta a 3ª Valse-Caprice. Comenta: “Toquei a 3ª Valse-Caprice. Gabriel Fauré me escuta, atento, inquieto sem dúvida por ouvir pela primeira vez a jovem intérprete. Compreenderia ele desde o início o fervor que me animava? A alma-irmã que palpitava sob os dedos da jovem musicista? Sentiria ele que um ser, apreendendo de instinto o sentido secreto de sua música, dispunha-se a aprofundar sua obra e fazê-la ser conhecida e compreendida? Ao acabar a execução, ele parecia de tal maneira contente que  me senti recompensada e feliz”.

Em 1907, Marguerite Long estreia a Ballade de Fauré para piano e orquestra – versão da original para piano, op. 19 -, que será a obra a encerrar a bela carreira de Mme Long aos 3 de Fevereiro de 1959. Marguerite Long traça em seu livro uma síntese biográfica tardia de Fauré, de interesse para os estudiosos, certamente tendo colhido informações ao longo do convívio musical com o compositor. Relevantes os seus testemunhos sobre o círculo de amizades de Fauré. Convidada pelo músico, torna-se professora do Conservatório Nacional. Sob outro aspecto, não se furta de narrar os esforços acadêmicos, apesar de várias promessas, para que não fosse nomeada professora titular do Conservatório. Muitos anos se passaram para que enfim obtivesse o cargo. Houve desavenças com Gabriel Fauré dirimidas nos estertores da existência do compositor.

“Au piano avec Gabriel Fauré” tem capítulos preciosos nos quais a autora se debruça sobre a obra do mestre, a orientar a interpretação. Pormenoriza-se em algumas peças, exemplificando. Técnica, estilo, interpretação, memória e outros quesitos também são abordados.
Clique para ouvir o 6º Nocturne de Gabriel Fauré op.63 na interpretação de Marguerite Long:

https://www.youtube.com/watch?v=_PVNtMQ5THY

Insiro o 4º andamento da gravação histórica do Quarteto nº 2 em sol menor op. 45 de Gabriel Fauré. Os outros três instrumentistas foram luminares no período: Jacques Thibaud (violino), Maurice Vieux (viola) e Pierre Fournier (violoncelo). A gravação é plena de uma intensidade emotiva singular. Marguerite Long encerra seu comentário no libreto que acompanha o LP, lançado inicialmente em 78 rotações: “Uma palavra ainda sobre o Quarteto em sol menor. Foi ele gravado no dia 10 de Junho de 1940. Pela manhã, os alemães invadiram a Holanda. Partimos para o estúdio angustiados. Sentia a plena aflição de Thibaud: seu filho Roger combatia na linha de frente. Durante a gravação nossa emoção estava no limite e creio que essa gravação oferece uma imagem fiel. Na manhã seguinte Roger Thibaud morria heroicamente”.

Clique para ouvir o quarto andamento do Quarteto em sol menor op. 45Allegro molto,  de Gabriel Fauré

https://www.youtube.com/watch?v=B9X7ms040Tk

“Au piano avec Maurice Ravel” (Paris, Julliard, 1971) encerra o tríptico consagrado aos três maiores compositores franceses desde meados do século XIX, que se juntam ao extraordinário Camile Saint-Saëns, músico que Marguerite Long conheceu bem, interpretando suas obras, mas que não teve uma relação tão próxima como a estabelecida com Fauré, Debussy e Ravel. Tem-se, nessa homenagem a Ravel, a imensa colaboração do Professor Laumonier, que, admirador confesso do compositor, após a morte da pianista e sabedor de seu grande interesse em completar o tríplice tributo, recolheu os textos já escritos por Mme Long e terminou o livro, não sem a colaboração de músicos e aficionados pelo compositor e pela intérprete. O livro tem interesse. Há vários episódios pormenorizados e conhecidos, mas considere-se a apreciação das principais obras para piano do compositor a servir de orientação aos intérpretes.

Ao escrever “Le Piano” (Paris, Salabert, 1959), Marguerite Long lega aos estudantes, professores e pianistas uma obra de síntese. Conhecedora de basicamente todos os métodos relativos à técnica pianística, a autora não apenas apresenta exercícios novos, como realiza uma súmula de procedimentos de tantos que se dedicaram ao mister:  Charles-Louis Hanon, Louis Benoit, Beringer e outros mais. Nesse “resumo”, em poucas páginas, métodos precedentes, alguns caudalosos, são reduzidos a formulações práticas. No longo e substancioso prefácio, escreve: “Essas páginas destinam-se em princípio aos pianistas já com certo desenvolvimento ou mesmo àqueles que buscam a alta virtuosidade. Que estes não se sintam indignos de seus talentos diante dos conselhos por vezes elementares que se seguem”. Uma outra frase relevante: “O estudo de piano necessita longos esforços. Todavia, esses não consistem em lutar contra a natureza. Uma mão normal é feita para tocar piano e todo pianista que não compartilha dessa convicção é indigno de sua arte”. Tem-se pois uma “enciclopédia” de exercícios a facilitar o aprendizado, bem mais prático do que o realizado por Alfred Cortot, “Principes Rationelles de la Técnique Pianistique”, método de grande mérito, mas complexo. Marguerite Long perpassa em “Le Piano” parte essencial da técnica pianística tradicional.

Relembrar os grandes mestres do passado é imperativo. Foram eles que legaram aos pósteros as diretrizes da arte do piano. Cultuá-los enriquece nosso conhecimento musical. Saber as origens.

In this post I comment on books written by the outstanding French pianist Marguerite Long. Later in life, after her working and personal association with three of the great French composers of all times, she wrote “At the piano with Debussy”, “At the piano with Fauré” and “At the piano with Ravel”, books of reminiscences with musical examples to discuss the interpretation of their works. She also wrote “Le Piano”, an exercise book with a synthesis of techniques sampled from many sources, along with new exercises by the author herself, a master of the French style piano playing.

 

 

Um diário de Sylvain Tesson


Um diário íntimo é uma operação de luta contra a desordem.

Ganha-se ao se confessar pessimista,
É uma maneira ser profético.

Sylvain Tesson

Foram 16 livros de Sylvain Tesson resenhados ou comentados neste espaço, desde 2011. Na grande maioria, admirava a intrepidez de Sylvain Tesson, suas andanças e travessias majoritariamente solitárias, assim como sua visão personalíssima dos locais e seus costumes, levando-o a deduções tantas vezes de muito interesse.

Após o acidente sofrido aos 20 de Agosto de 2014, ao cair de uma altura de dez metros na tentativa de “escalar” uma casa em Chamonix, sofrendo trauma craniano e várias fraturas – acidente que o levaria ao coma induzido durante oito dias -, marcas inalienáveis permaneceram em sua face.

Sylvain Tesson já granjeara ampla repercussão antes da queda. Tive o prazer, por mero acaso, de estar presente no lançamento de um de seus livros em livraria parisiense (S’abandonner à vivre. Paris, Gallimard, 2014), sete meses antes do acidente.

Restabelecendo-se, a notoriedade foi acrescida. Entrevistas, palestras e mais livros surgiram. Seria possível entender que a etapa das grandes e perigosas aventuras, quase sempre só pela imensidão deste planeta, propiciou ao aventureiro hiper inteligente, a descrição dos locais percorridos com o olhar do observador atento, para quem o mínimo pormenor interessava. O solilóquio teria possibilitado o afloramento da narrativa criadora. Confessaria que foi longo o período de grandes riscos. Em L’Axe du Loup (blog 28/05/2011), Éloge de l’Énergie Vagabond (blog 16/03/2013) e Dans de Forêts de Sibérie (blog 01/03/2014), Tesson revelar-se-ia por inteiro, mormente nesse último livro. O isolamento em cabana às margens do lago Baikal em pleno inverno fez aflorar o de profundis em tantas passagens. Após o acidente houve transformações. Em Berezina – en side-car avec Napoléon (blog 10/06/2017), vemo-lo em extraordinária aventura não solitária, mais como um narrador que presencialmente, durante o longo percurso, conta a trágica retirada de Napoleão de Moscou em direção a Paris. Em outra aventura, atravessou transversalmente a França do sudeste ao noroeste, por vezes acompanhado por amigos. Se sob um aspecto essa narrativa tem interesse em Sur les Chemins Noirs (blog 03/02/2018), sob outro há a insistência na revisita ao trauma sofrido. O lançamento de Notre-Dame de Paris – Ô Reine de Douleur (blog 06/07/2019) atenderia a nítido interesse editorial, logo após o lamentável incêndio. Mas há uma revelação: Sylvain Tesson se converte, ele que incontáveis vezes subiu até as torres da catedral, certamente seu local emblemático. Calaram-lhe fundo as chamas destruidoras. Un été avec Homère (07/09/2019), após estadia no Mar Egeu, é reverência in loco, àquele que Tesson considera como o maior poeta da História.

Une très légère oscillation (France, Équateurs, 2017) é escrito em forma de diário, que se estende de Janeiro 2014 à primavera de 2017. Diário arguto que perpassa as observações do autor que, nesse período, escreve sobre política francesa, Estado Islâmico, incontáveis viagens pela Europa e Extremo Oriente, percursos “mais responsáveis”, quase todos por via aérea, naturalmente. O Diário tem a riqueza de não ser monotemático. O multidirecionamento do pensar leva Tesson, por vezes, a se fixar em aforismos, muitos deles tendentes à reflexão.

Observação sarcástica em um de seus apontamentos: “Devido ao emburrecimento ao qual é levado aquele que mergulha nos programas televisivos, é saudável saber que a invenção da telinha veio após as conquistas da agulha de costura ou da imprensa, cujas respectivas descobertas não teriam sido possíveis se a televisão tivesse preexistido”. Não poupa a internet: “Os propagandistas da internet me deixam atordoado. Que talento! Eles chamam de ‘novas tecnologias desmaterializadas’ esses aparelhos que nos deixam encoleirados, nos domesticam, nos hipnotizam”. A crítica à tecnologia levada ao excesso, estende-se à observação que tira da legião de turistas a fotografar a Torre Eiffel: “Não mais haverá narrativas de viagem, ninguém recebe o espetáculo diretamente. O que farão com todas essas imagens que roubam a possibilidade de uma emoção orgânica? Pode-se lá meditar acionando as teclas dessas engenhocas? Que mal o mundo fez para que seja fotografado dessa maneira? Só as crianças, os velhos e os pássaros olham com seus próprios olhos. São os únicos que guardarão recordações”. Estou a me lembrar de minha primeira visita ao Louvre no final de 1958. Determinado momento estava em frente à Monalisa. Fiquei a olhar meio decepcionado, mercê de tamanha divulgação que a obra de Leonardo da Vinci granjeou e granjeia. De repente assustei-me com um barulho de passadas rápidas e barulhentas. Eram turistas japoneses que ficaram em frente ao quadro, tiraram fotos em segundos e retiraram-se como haviam chegado, ruidosamente. Tesson ainda afirmaria: “O que é o progresso tecnológico? É o progresso, em nós, da certeza de que temos necessidade crucial de coisas inúteis”. Apesar de posições por vezes radicais, aos 47 anos Tesson, apreenderia a realidade, a entender que a essência da absorção das tecnologias, verdadeira hipnose em processo extremamente rápido, faz com que o surgimento de outras, mais avançadas, induza à continuação do estado hipnótico. Nada a fazer.

Ao comentar diferenças entre a cinematografia americana e russa, observa: “O filme americano implanta suas proezas técnicas. O filme russo substitui a falta de meios pela profundeza do tema. Para o primeiro, o espetáculo, para o segundo, o propósito. Um se prende aos efeitos especiais, o outro tece reflexões sobre as causas (da dor). A intensidade de uma obra não reside no fato do acúmulo da alta definição: ainda precisa haver algo a ser alcançado nesse mister. Na literatura, a preciosidade de uma caneta tinteiro não resultará em uma obra-prima. No cinema, nenhum drone elevará o valor de um filme”. Nessa temática, em outro apontamento do diário, Tesson observa: “As árvores são ‘pessoas’, como dizia Derzu Uzala, o pequeno caçador da Sibéria Oriental tornado eterno herói pelo escritor Vladimir Arseniev”.

No Diário, alguns aforismos têm interesse:

O único inconveniente do desaparecimento da humanidade é que não haverá ninguém para se alegrar pelo acontecimento.

Vantagem do alpinista: no cume, não temos vergonha de dar meia-volta.

Poluição: hálito das massas.

“Revolução Cultural” deveria ser um pleonasmo.

Outono, o perigo amarelo.

Internet: arma de fogo nas mãos de uma criança.

Paradoxo: não sou capaz de me autocriticar.

Suíça: teria medo de viver em um país com prefixo do suicídio.

Saara: viver num país onde há todas as razões para se enforcar e nenhuma árvore para fazê-lo.

Álcool: Depois da crise epilética, fui proibido de beber. Na realidade não queria me embebedar, mas regar a alma, essa planta tão vivaz.

O Diário de Sylvain Tesson, iniciado meses antes do acidente, estendendo-se de Janeiro de 2014 à primavera de 2017, tem forte dose de ironia arguta, de um pofiguismo, palavra russa tão utilizada pelo autor em obras anteriores e não no presente livro, sem tradução para o francês, tampouco para português. Segundo ele, “designa uma atitude face ao mundo absurdo e à imprevisibilidade dos fatos”. Quase todos os temas recorrentes nesse debruçamento sobre si mesmo, após atenta observação, reiteram seu discurso cáustico tantas vezes, outras tantas de humor singular. Deu-me prazer a leitura.

Um amigo me enviou, de Paris, La Panthère des neiges, livro de Sylvain Tesson publicado em Outubro de 2019 pela Gallimard. Postado àquela altura, não chegou às minhas mãos. Sobre livros e CD não recebidos, mercê de nossos correios, comentarei no próximo blog. Uma lástima.

Comments on the book “Une Très Légère Oscillation”, written from 2014 to 2017 by the adventurer, geographer and writer Sylvain Tesson. Written as a journal or diary entries, Tesson muses over a variety of issues, such as  French politics, the Islamic State, consumerism, technological society, travel stories. A varied menu presented with Tesson’s usual originality, sharpness, irony, and also humor, particularly in the aphorisms section. It gave me pleasure to read it.