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O pensamento abrangente de André Souris

Uma forma sempre é conquistada
sobre outra forma da qual ela aparenta manter traços.
Nem precocidade, tampouco o gênio
permitem retomar diretamente a vida:
ser precoce é somente copiar mais cedo.
André Malraux

Uma das diferenças basilares entre blog privado e as publicações mediáticas é o tempo. Basicamente jornais e revistas, premidos pelo imediatismo decorrente de um lançamento de livro previamente divulgado pelos meios de comunicação, concentram resenhas, tantas vezes redigidas às pressas, sobre edições recentes. Quando determinado livro de passado remoto ou não tão distante recebe o olhar acalentado pelo passar dos anos, poderíamos situar a crítica como comentário. Desvinculada de pressões, o comentário de livro não hodierno tende a receber maior debruçamento por motivos vários, a preponderar o tempo de decantação daquele que se propôs a escrever.

Ao longo dos anos, inúmeras vezes mencionei no espaço reservado ao blog o livro “Conditions de la Musique” (Bruxelles-Paris, Université de Bruxelles, Centre National de la Recherche Scientifique, 1976), do multifacetado músico belga André Souris (1899-1970), compositor, regente, professor, crítico, editor de obras antigas. Um grande mestre. Desde sua publicação, “Conditions de la Musique” é um dos livros que mais consulto, tão forte o conteúdo reflexivo emanado em tantos compartimentos da imensidão que é a Música. No presente blog abordarei alguns aspectos dessa magnífica obra.

“Conditions de la Musique” desfila em suas 311 páginas temas essenciais da área musical. Tem-se duas seções distintas. Em uma primeira, que leva o título do compêndio e dividida em três capítulos, são estudados primeiramente segmentos essenciais da escrita musical: forma, música e escrita, a função do intérprete. Em outro capítulo: o silêncio e a música, contraponto, polifonia e harmonia, matérias instrumentais. Num terceiro, André Souris estuda as fontes da criação musical: estilo, timbre e técnicas instrumentais, as correspondências (a concepção do mundo), abordagens espirituais do músico. Na segunda seção, “Escolhas e outros escritos”, André Souris analisará com acuidade temas relativos a gêneros musicais, música e filme, literatura. Destaquem-se: “Imitação da música de cinema”, “Sartre e os músicos”, “Sobre o dodecafonismo das origens aos nossos dias”, “As fontes sensíveis da música serial”. A seguir, aborda textos fulcrais com títulos precisos: “Bach, hoje”, “O espaço mozartiano”, “Debussy e a nova concepção do timbre”, “Poética musical de Debussy”, “Debussy e Stravinsky” e “O senso do sagrado na música de Stravinsky”.  Depois, Souris retorna, sobre outra égide, aos elementos da escrita musical, como: “Notas sobre o ritmo concreto”, “Sobre alguns termos fundamentais do vocabulário musical…”, “Problemas da análise”, “Alaúde e cravo franceses por volta de 1650”.

A fim de transmitir conceitos essenciais de André Souris, de alguns desses segmentos extraí passagens que entendo de definição, pois o autor em suas colocações evita o abominável “achismo”, perigoso artifício que sensibiliza os incautos. Os escritos têm a antecedê-los a profunda reflexão.

Inicialmente vários segmentos reunidos fazem parte de seminários oferecidos e o didatismo parece evidente, mesmo que desprovido de qualquer empáfia ou doutrinação, o que é salutar. Considera que “O espírito de nossa empreitada será pois deliberadamente atual, documental e crítico. Quanto ao método, ele se inspirará na maiêutica, de maneira a deixar a cada um a liberdade de seus movimentos e talvez ajudando-o a descobrir possibilidades insuspeitas”.

Considerando a forma musical, André Souris emite conceitos de interesse: “Uma nota, uma cor, uma linha isolada são apenas abstrações. A única realidade é a ‘Gestalt’. Poderíamos traduzir aproximadamente esse termo por estrutura, organização, totalidade, mas o emprego sistemático da palavra nestes últimos vinte anos fez com que a entendêssemos sob o significado vago de forma”. Continua: “As formas são unidades orgânicas individualizadas e limitadas no espaço e no tempo; são totalidades de funções, determinadas somente pelas leis da organização. O papel essencial da teoria da forma é a de descobrir e formular essas leis”.

No capítulo reservado à “La Musique et l’Écriture”, Souris apreende a sensação da escuta do compositor ao ouvir pela primeira vez uma sua criação: “Não receio revelar um segredo, geralmente bem guardado! O autor que ouve pela primeira vez sua música de orquestra mergulha num cenário outro. Ele havia imaginado os temas, as nuances, as harmonias, os movimentos dos quais ele se considerava o mestre e criador, e eis que ele ouve outra coisa daquilo previsto. Escuta uma música que, exatamente, não é dele. Fato curioso, raramente ele sofre. Sua única preocupação é a seguir encontrar os traços de seu trabalho de escrita, reconhecer os temas, esquemas, ritmos. Uma vez certo de ter reconhecido esses materiais, não lhe resta outra coisa senão aceitá-los – e por vezes glorificar-se diante de seus confrades”.

Sobre a prevalência do piano: “Quanto à composição, ela se reduz mais e mais no emprego de receita de escrituras. A invenção real não poderia eclodir que sobre um instrumento. Foi a música para piano que basicamente se beneficiou e, como todos os compositores tocavam piano, toda composição foi inicialmente concebida para esse instrumento para ser a seguir, por um jogo de escrita, passada para outros instrumentos e, mesmo de maneira ampla, para orquestra”.

Quanto ao intérprete, temática tantas vezes colocada neste espaço, André Souris tem posicionamento singular. Segundo ele – consideremos o compositor seu coetâneo -, “o compositor deve ter para com o intérprete uma política de prudência, observar seus reflexos, distinguir em seu comportamento tudo que possa servi-lo e tudo que possa ser rejeitado. Em suma, deve o compositor estudar a psicologia do intérprete, se ele quiser recuperar sobre a sua composição um certo poder perdido”. Se esse procedimento não é possível em relação aos compositores do passado, ficaria o alerta para os executantes no sentido do rigor frente à partitura contemporânea.

Estende seu pensamento ao tripé compositor, intérprete e ouvinte, tema igualmente recorrente, mas com uma percepção de interesse no olhar de André Souris: “A relação entre os três é extremamente diversa, por vezes contraditória, outras, mais confusa. Para o ouvinte, compositor e intérprete fazem parte de uma só coisa, mesmo que ele acredite distingui-los. Na realidade, o ouvinte preocupa-se pouco com as intenções do autor e só tem interesse pelo que ouve, o que, reflexão feita, temos que aprovar”.

Souris pormenoriza as atitudes do intérprete: “Seu desejo de música é primeiramente de ordem íntima, estritamente limitado a si mesmo. Ele mantém com seu instrumento um comércio orgânico que lhe proporciona prazeres elementares. Fazer o som, isso provoca uma alegria sensual, como o ato de mastigar uma boa pasta, moldar a argila. O trabalho do som leva-o a um estado sonhador entorpecido o qual lhe compraz, sonho até certo ponto biológico e que retira do instrumento que faz nascer o som a qualidade substancial. Por esse ato elementar, o instrumentista se torna seu próprio instrumento”.

André Souris se indispõe com a quantidade de matérias da área musical a que o aluno é submetido no capítulo reservado às “Démarches spirituelles du musicien”: “O que me parece mais grave nos estudos musicais é que eles extenuam a sensibilidade auricular através de trabalhos forçados sobre os instrumentos. Isso ocorre porque o aprendiz virtuose produz o som durante dez horas por dia e na sequência seu estudo, ao invés de ser orientado para o som que ele produz, é inteiramente concentrado sobre os meios de o produzir. Basta abrir não importa qual obra consagrada ao piano, por exemplo, para nos inteirarmos da preocupação predominante ou mesmo excessiva dos pedagogos”.

“Conditions de la Musique” armazena quantidade de considerações da maior abrangência. No próximo blog comentarei alguns outros escritos contidos no livro de André Souris, mormente os que se estendem de J.S.Bach à música serial.

Comments on the book “Conditions de la Musique”, written by André Souris (1899-1970), the multifaceted Belgian composer, conductor, teacher and music critic. Souris, a real master in his field, addresses the various compartments of the art of  Music with proficiency and originality. In the present blog I mention some aspects of this excellent work, which I visit on a regular basis since it was first published.


Uma autora a ser divulgada no Brasil

Quando o espírito
não está voltado naturalmente para o futuro,
tornamo-nos velhos.
Gustave Flaubert
(“Lettres inédites à Tourgueneff”)

Admiro profundamente o perfil da pianista, escritora e professora do Conservatório de Música e de Arte Dramática de Grenoble, Catherine Lechner-Reydellet. Nas várias atividades, Catherine se mostra competente. Se nos escritos sobre Música a autora revela constantemente um discurso didático, sóbrio, não faltando a admiração quando um contemplado em seus estudos – o ilustre compositor Olivier Messiaen – apresenta-se como fulcro das pesquisas, uma outra personagem, transfigurada, surge ao penetrar no universo da poesia ou da prosa. Estamos diante de dois patamares distintos, duas personas que só podem ser identificadas no uno indissolúvel através de duas linguagens que se amalgamam, a música e a poesia. Diria que, nesses casos, pode-se entender parcialmente o de profundis de Lechner-Reydellet. Seus textos extramusicais revelam um universo diferenciado, desde a escolha das palavras, dos conceitos ou da complexa interpretação destes. Termos inexistentes em sua literatura musical sobrevoam seu pensar e, em elos, estabelecem o ineditismo de sua poética. Esse precioso “gongorismo” estimula o leitor à busca da intenção real da autora. A releitura de tantas frases de difícil entendimento inicial, juntando-se a outras, estabelece a parcial compreensão do pensamento de Catherine. Impossível ficarmos indiferentes aos seus poemas que navegam tantas vezes no campo da prosa. De algumas frases busquei fazer uma tradução livre, a fim de que o leitor possa apreender determinadas variantes da poética de Catherine Lechner-Reydellet.

A incursão que a escritora realiza na poesia revela seus anseios em direção ao complexo entendimento homem-mulher num querer incessante, tantas vezes interrompido e recomeçado. Em “Aeternitas – Nasci – Vivere – Mori” (Paris, Harmattan 2009), a autora perscruta a eterna disputa dos ungidos pelo amor, mas cujas naturais diferenças levam a impasses:

Imóveis, suas mãos brancas
Apalpando, manipulando no ritmo das armas quentes,
Seu reflexo de alma santa, virgem e sempre tão gloriosa,
Tanto seu sorriso é lindo, tanto ele é luminoso.
até o desiderato final possível:
Atravessando os séculos, consome, perpetua,
Sobre a ignorância do mundo, aquilo que terá sido,
Nossos lugares de graça, esta unidade.

Em “Guerre oublié” (Paris, Hamattan 2013), Lechner-Reydellet se debruça sobre o homem diante de temas contrastantes, como a caminhada pela humanidade na desesperança ou a permanente memória de acertos e desacertos, impulso a outras possibilidades. A impressão que se apreende do texto poético-prosa é da constante preocupação com a temática voltada ao amor num sentido abrangente, onde não faltam o entendimento, os espinhos e a morte. Os 50 textos poéticos levam títulos simbólicos, que estariam igualmente propensos à prosa. Contudo, Lechner-Reydellet sabe extrair de cada temática a essência essencial. Se há homenagens relevantes – “Léonor Fini, decoratrice de théâtre, poète (1908-1996)” e “Pierre Emmanuel, poète et l’ami de toujours (1916-1984)” – temas outros instauram, nessa eterna dialética, caminhos para reflexão. Das cinco dezenas de textos poéticos, nenhum passa sem que sejamos levados a indagações, ao pensar. No poema 7, “Détail d’un jour”, tem-se:

Quanto tempo para calcular este ar fluido, irrespirável.
Alguns passos que farão a viagem?
Essa distância impossível, pontes, areia e pedriscos, caminhos seriam mais abordáveis,
Dois metros a mais, e o infinito, quando num relance, na solidão, no meio do deserto,
seus olhos se abrem e transpiram a bondade…

No poema nº 23, “La grâce prompte”, tem-se o tempo a passar e a rotina, o desencanto, a indecisão no julgamento:

Ele teria amado tanto ser ele mesmo, continuar a viver
Justamente onde o dia nasce,
Não saber que quantidade de palavras se reduziria sempre à
Quantidade de miséria.
Que no curso de um só dia, no ritmo do sol,
A ler seu grande jornal,
Ele seria incapaz de ter um julgamento sobre os outros
Pontos de vista.
Jamais as ideias claras quanto à sua vocação,
Sufocada e irreconhecível,
Meditando sobre sua sorte, um homem de imenso interesse,
Cordial e magnífico,
Mas a não acreditar que nas coisas tangíveis, um sentimento
De angústia,
Em grande escala, um dia um filósofo, um outro
Um carpinteiro,
Em permanência a se maldizer, com o tempo seu
Mal,
Nada a diferenciar a extensão de meio século.

A primeira leitura de “Le même en l’autre” (Paris, Harmattan, 2017) pode desconcertar o leitor pela ausência nominal de um personagem. Transparece em todo o livro algo de restrito, guardado, secreto. O poeta e professor Michel Cassir bem define “Le même em l’autre”: “tem-se a ligação improvável entre a mulher e seu duplo masculino, a menos que não seja o contrário, tão grande é a interioridade em movimento”. Há constante caminhar pelo cotidiano e pelo de profundis do personagem sem impressão digital, etéreo, mas a abordar alguns tópicos essenciais do condicionamento humano. Essa abrangência pode-se ler numa passagem essencial do instigante livro: “Ela buscava ver tudo, onde encontrar um refúgio, um espaço onde dormir, onde colocar suas palavras graves, sua oração límpida, ou simplesmente seu grito, sua voz que conteria, tão logo ela soubesse descrever essa ausência antiácida, para se construir e nascer uma vez por todas, nascer dele, de seu domínio, para enfim se provar que estava a viver”.

Friso, a capacidade de Catherine Lechner-Reydellet de se “metamorfosear” em veios literários tão distintos é admirável. Seria improvável conceber – não fosse a impressão digital da autora em todos seus livros – ter sido a mesma pena a percorrer textos sobre música e, num universo etéreo, as páginas a receber a poética sensível e fascinante.

Today’s post addresses three books by Catherine Lechner-Reydellet, French pianist, writer and professor at the Conservatoire de Grenoble: Aeternitas, Guerre oubliée (both in verses) and Le même en l’autre (novel). Unlike her works about music, clear and didactic, Lechner-Reydellet fictional writing is philosophical and complex, defying conventional frames and often requiring a second reading to unveil its meaning. It is sometimes hard to believe that fictional and non-fictional books have been written by the same hand, were it not for the author’s unmistakable fingerprints hovering over her varied output. Lechner-Reydellet is a multi-faceted author who seems to take on a whole new persona in her fiction. Reading it is a rewarding experience.

Reminiscências da infância

Por uma noite, em criança,
tive uma estrela que brilhou pela minha vida inteira.
Willy Corrêa de Oliveira
(Extraído da passagem “Apocalipse no fundo do quintal”)

Willy Corrêa de Oliveira é uma figura de convicções firmes em todas as áreas em que se pronuncia. Compositor de muitos méritos que viaja numa escrita multifacetada, extremamente cuidadosa e sensível. Um dos nomes essenciais da vanguarda no Brasil. Seu pensamento, rigorosamente pessoal, tem sempre profundo interesse. Diria que suas escolhas literárias, musicais e artísticas ratificam seu pensar.

Convivi com Willy durante décadas na Universidade. Éramos colegas. Acredito ter sido Willy o professor mais emblemático da Música na Universidade de São Paulo, pois parte considerável de seus alunos o veneravam e, não raro, seguiam-no pelos caminhos maltratados do entorno do Departamento. Mesmo aqueles que o criticavam jamais o faziam sob o aspecto da essência do que lhes era transmitido, mas sim por suas posturas de impacto e inusitadas frente à classe. Após nossas respectivas aposentadorias em 2008, através da compulsória, não mais o vi. Curiosamente, apesar da ausência de uma aproximação maior com Willy, tivemos dois recentes encontros em que pudemos nos entender bem amistosamente, como jamais ocorrera no campus universitário. É fato. Estamos exatamente nos 80 anos de idade e nessa faixa – é de se crer – distanciamo-nos de qualquer tentativa de simulacro. Fomos ao piano em seu estúdio e nos revezamos na mostragem que ele fez de exemplos de criações recentes e de outras, bem mais antigas, que toquei e que deverão fazer parte de meu próximo CD a ser gravado na Bélgica, na milenar Capela Saint-Hilarius em Müllem. A certa altura Willy me perguntou se tinha medo da morte. Minha resposta negativa deixou-o surpreso, pois asseverou o contrário.

Reações inesperadas de Willy Corrêa de Oliveira são proverbiais e ficaram registradas na memória. Em 1989 fomos ao Rio para a gravação de meu último LP no Brasil para o selo FUNARTE, dele a constar unicamente obras de sua autoria que estudei com entusiasmo. Gravei extenso repertório que seria lançado no ano seguinte. O desvario do recém empossado Presidente Collor de Mello, num desastroso início de mandato, inviabilizou a edição do material gravado, assim como os projetos que estavam em andamento na Instituição. O material desapareceu, exceção à coletânea “Recife, Infância, Espelhos…”, que Willy conservaria em fita cassete e mais tarde em CD particular. Adoro essas 16 peças, que estarão definitivamente gravadas, agora nas melhores condições planetárias possíveis na planura da região flamenga da Bélgica. Estou a me lembrar de que, durante os dias no Rio de Janeiro, fomos jantar com amigos e um convidado. Este era simplesmente esverdeado. A conversa encaminhou-se para a coloração inusitada do indivíduo, que mencionou ter recebido forte e irreversível radiação. Sentado ao seu lado, Willy estava intrigado e não falava. A certa altura – já o tema das conversas era outro – perguntou ao cidadão: “Você esteve em Chernobil?”, a se referir à catástrofe nuclear ocorrida em 1986 na então República Socialista Soviética da Ucrânia. O amargurado homem negou, mas observou que sofrera radiação no Brasil (creio ter mencionado a propagada contaminação por radioatividade ocorrida em Goiânia em 1987). Willy desajeitadamente levantou-se, sem querer provocar reações, e foi-se para outro assento.

Alegrou-me a dedicatória de dois Estudos para piano de Willy: “Hanns Eisler in memoriam: für das volk der DDR” (In memoriam Hanns Eisler: para o povo da DDR), composto em 1989, e “Estudo – retrato de José Eduardo Martins”, finalizado no dia de meu aniversário em 1990. O primeiro, tema com cinco variações, é verdadeira obra-prima, e o segundo a exigir do intérprete o controle absoluto da distância intervalar, mercê da presença de semicolcheias obsessivas em presto. Belo Estudo magistralmente escrito. Apresentei-os publicamente. “Hanns Eisler – para o povo da DDR” (Deutsche Demokratische Republik) em Potsdam e Berlim em fins de Maio e começos de Junho de 1989, na antiga Alemanha Oriental, meses antes da queda do muro. Ao receber o programa em Potsdam das mãos de um administrador – deputado igualmente -, observei que faltava a razão do título, ou seja, o “povo da DDR” enfatizado por Willy. Apenas respondeu-me que havia dois regimes distintos vigentes, mas que o povo da Alemanha era um só, motivo da supressão da sigla. Ao regressar entreguei o programa a Willy Corrêa de Oliveira e a Gilberto Mendes (1922-2016), pois deste também apresentara “Um Estudo? Webern e Eisler caminham nos mares do Sul”. A reação de Willy foi imediata, questionando-me sobre a ausência da sigla DDR. Após minha explicação, recusou-se a receber o programa. Se naquele momento causou-me forte estranheza, compreenderia mais tarde que a reação condizia com um dos atributos ou virtudes de Willy, a coerência.

Dos nossos dois encontros, que se prolongaram em clima extremamente cordial, recebi “Passagens” (São Paulo, Luzes no Asfalto, 2008), livro de Willy editado num formato pequeno, espécie de pasta a abrigar folhas soltas seguindo ordenação alfabética dos títulos, mas a dar liberdade ao leitor de poder fazer sua escolha, organizando-as ao seu gosto. Temos mais uma revisita de Willy à sua infância na cidade que o viu nascer, Recife. Curtas narrativas extraídas do seu de profundis, recuperando momentos, por vezes instantes, que permaneceram inalienáveis num compartimento secreto. E as pequenas passagens, inconfessas durante imensas décadas, fadadas estariam ao ostracismo não fosse a memória que a reteve. Experiências individuais, escondidas durante toda uma existência, afloram com tonalidades narrativas sedutoras. Passagens que contêm introspecção única, não transferível. A quem contaria essas observações lúdicas? Talvez uma ou outra narrativa pudesse ser conhecida. Todavia, a ideia do “livro”, dedicado ao neto Lucas Dessalien, possibilitou lidar com as reminiscências e ligar elos de uma infância feliz. As brevíssimas crônicas passam ao leitor a autenticidade. Willy as escreveu aos 70 anos, num estilo tão ao gosto da percepção dos pequeninos, a estabelecer a aura da magia. Senti esse poder imanente na coletânea para piano mencionada: “Recife, Infância, Espelhos…” de 1989.

A contracapa do livro sintetiza a origem da ideia que levaria à decantação das lembranças: “Neste livro tudo o que é contado ocorreu antes dos 10 anos de idade. Não obstante, não se trata de autobiografia porque o cotidiano nã0 foi cotado. Preferimos indigitar tão só as passagens que observadas desde certo termo da vida do passageiro, aparecessem como passos essenciais (fundamentos): aquelas que se engramaram no ser indiviso, e não só na memória”.

Compartimentados, a maioria dos mais de trinta textos tem títulos sugestivos. Tantos tratam desses lúdicos devaneios rememorados, idílios de uma só via, sonhos de miúdo a ter coleguinhas ou filhas de vizinho como referência. Estando na mesma faixa etária de Willy, também tive minhas musinhas. E como frequentavam minha mente… Willy dedica a elas várias passagens, nomeando-as ou simplesmente mencionando etereamente as pequenas figuras femininas. Seria na passagem “Memórias de Casas Novas” que Willy amplia o leque desses deliciosos idílios da infância e um desenho em espiral na folha do texto contém o nome de algumas dessas meninas. Uma frase em um desses recortes diz tanto: “Encontrei-a numa tarde e brincamos a tarde inteira, e amei-a (sem que ela soubesse) por semanas a fio”.

Uma das virtudes de Willy, tão característica na literatura russa, mormente Dostoiewsky, é a observação. Seja ao tratar do mobiliário e dos espaços onde viveu a infância, descritos nos pormenores, ou quando se fascina pela luz mutante a incidir numa sala ou terraço, o que faz com que o menino acompanhe essas transformações, à la manière de Monet e a Catedral de Rouen, o olhar do garoto recifense está sempre atento e as imagens ficariam indelevelmente gravadas na memória.

Paradoxalmente, Willy, professor que influenciou gerações, graças também à abrangência de seus conhecimentos multidirecionados, comenta em “Bandeira do Reino do Desespero”: “Fiquei no Internato do Colégio Americano Batista do Recife por um semestre (ou dois) na divisão das crianças mais tenras. Afirmavam que aprenderia mais e melhor e que a disciplina iria me fazer bem. Não foi verdade. Não aprendi nada, melhor: menos ainda. Em escola nenhuma: então e nunca”.

Em “Bestiário Besta”, Willy desfila animais domésticos, nomeando cães e pombos, discorre sobre uma patativa que comprou na feira e descobriu-se mais tarde que estava tuberculosa. No sudeste denominamos facão (o tórax seca e os ossos ficam salientes), moléstia que leva fatalmente à morte. Ficaria “furibundo com o comerciante de pássaros da feira que me havia enganado”. Teve galinha de estimação, poupada da morte certa que viria pelas mãos da Creusa, “…galinha que tinha o peito estofado (como câmara de ar inflada), mas não de vaidades… Não muito tempo após amanheceu morta. Chorei”. Estou a rememorar minha infância e o vasto quintal onde coabitavam araras, papagaios, pássaros vários, peixes em dois tanques bem grandes, galinheiro e devidas incubadoras e mais jabutis e cães. Uma festa!

A morte a conviver no cotidiano é lembrada por Willy nas “Três Mortes prematuras” e outras mais. Causam impacto na mente da criança, daí rememorá-las com certa ênfase. O imenso pianista Wilhelm Kempff não traduziria o efeito da morte de sua avó em sua imaginação de menino em “Cette Note Grave – Les années de la jeunesse”, em uma das mais pungentes páginas do gênero?

A antagonizar essa temática, histórias plenas de jocosidade levaram-me a gargalhar: “Mijo Mortal” e “Noite de Circo”. O garotinho entraria pela primeira vez num cômodo de despejo de sua morada e urinaria em uma parede. Fê-lo muitas vezes. Certo dia “… ouvi distintamente, Sila falando para Zulmira: ‘Cheiro horrível de xixi lá no quarto de despejos. Vou pôr fogo pra quebrar o cheiro; agora: dizem que seca o xixi da pessoa que fez e que a pessoa finda morrendo de xixi secado’. Perdi – naquela hora – a paz. Vivi dos pés à cabeça a estrutura fundamental de todas as angústias”. O intento realizado por Sila levou a criança ao desespero, contemporizado pelos adultos: “Vi-me cercado de familiares que me juravam que o meu xixi não ia secar não. Que eu não morreria, não”.

“Noite de circo” é hilariante. Willy escreve: “Fomos à loja comprar um fato novo com o fito de irmos ao circo no sábado. Sempre preferi circos a roupas, mas desta feita a conjunção roupa e circo valia alegria cheia. De boa vontade dispus-me a experimentar (frente ao espelho, e aos olhos e mãos das mulheres acertando as minudências das vestes sobre o corpo), pacientemente, até a eleição final para gáudio de todos nós. Um conjunto marrom com detalhes (pala, vira das mangas e bolsos) em bege xadrez diagonal com cores combinantes. Faziam vista até para quem gosta mais de circo e brinquedos de que de roupas”. Vem a noite esperada e o maravilhamento do circo, banda a tocar, a amazona em ousadas trocas de cavalos, palhaços, chineses habilíssimos nos trapézios e… “A seguir vieram os macacos. Multidão de macacos. Nunca vistos: tantos. As luzes rodeando-os para focá-los, e distingui – Céus! – todos (às dezenas): todos vestidos como eu: todas as roupas dos macacos eram iguaizinhas à minha. Idênticas, infalivelmente da mesmíssima confecção. Senti-me macaco (igualmente) na vida”. Prossegue o autor: “Alguém pode imaginar o que é uma criança ganhar uma roupa nova para estreá-la no sábado, dia inesquecível de um circo monumental, o sorriso franco luzido (chispando dos olhos, ventas, poros), e sentar-se na arquibancada para descobrir – em mágoa – que se assemelhava a macacos, e que toda a gente já sabia, estariam de olhos nele, arregalados, risotando do menino vestido na plateia, fora do picadeiro?” Willy finaliza que “nunca conseguiram que eu tornasse a usar a trágica indumentária”.

É de se salientar a recorrência da cantiga infantil Você gosta de mim? Ela surge nomeada, com o tema simples apresentado ou harmonizada no correr do livro. Faz-me lembrar da frase do poeta português José Gomes Ferreira: “Música minha antiga companheira desde os ouvidos de criança”.

“Passagens” encanta. Willy perpassa o cotidiano do menino que ele foi nesse incessante acúmulo que pode ser tão mais marcante se vivido numa plenitude. As várias mudanças de morada acentuam a diversidade geográfica que possibilita o aguçamento do miúdo observador. Sob outra égide, Willy também encanta pelo seu personalíssimo estilo literário. Se insere por vezes belas palavras arcaicas, trabalha o vernáculo a dar elasticidade a determinados termos (neologismos?), a ratificar que a pena do escriba é a mesma que desliza pelo papel pautado.

My comments on the book “Passagens”, written by Willy Corrêa de Oliveira, former professor of composition at Universidade de São Paulo and one of the essential names among Brazilian contemporary composers. The book is a collection of reminiscences of a happy childhood spent in Recife. Reflexive sometimes, hilarious others making me convulse with laughter but always delightful, his memories are written in a very personal prose style, as unique as his musical writing. An enthralling book one savours with pleasure.