Navegando Posts em Literatura

848 posts distribuídos através das semanas

Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo,
de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo,
da plena criação em todos os domínios,
arte, ciência, filosofia, porventura vida também.
Agostinho da Silva
(“Só ajustamentos”)

À medida que o tempo se afunila, aos 84 anos continuo a publicar os blogs de maneira hebdomadária, divulgados que são aos sábados, sempre aos 0:05 minutos. Não poucas vezes ao longo da escrita afirmei que o ato sem interregno se deve ao fato de que a respiração não pede férias, tampouco minha prática pianística. A permanência traduz o ato amoroso. Sem essa presença, inexiste a possibilidade de prosseguir pelos caminhos escolhidos.

As temáticas são as mais variadas, preponderando textos sobre música e tantas de suas variantes. Literatura, mormente resenha de livros (vide Livros – Resenhas e Comentários no menu), faz parte de minhas atenções. Predominantemente obras sobre música em seus aspectos essenciais. Ideia, criação e interpretação não apenas povoam meus anseios, como possibilitam novas aberturas. Diria que a Música se apresenta incólume à desativação ou à diminuição de interesse. Só não abordei ao longo dos anos temas sobre a nossa política, pois mantenho idiossincrasia pelas ideologias que servem à digladiação de contendores e jamais ao debate de ideias, hélas.

Textos de dois de Março de 2007 a 19 de Março de 2011 estão inseridos em três livros, sob o título “Crônicas de um observador” (I, 2008 II, 2009, III, 2011), publicados em São Paulo pela Pax Spes e esgotados. Textos sobre a Música Portuguesa e outros temas relacionados à cultura de Portugal foram publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra, o que muito me honrou, sendo que o segundo volume foi lançado recentemente e será em breve blog a abordar o porquê da minha atração pelo extraordinário pulsar criativo da pátria-mãe.

Folheando aqueles três primeiros livros, a fim de subsídios para o presente post, releio o prefácio da publicação de 2008. Apesar de um longo caminho até o presente, parágrafos do texto preliminar continuam como propósitos, e se outras paisagens do pensar surgiram, entendo-as como acúmulos, pois o itinerário já estava traçado. A aposentadoria afastou-me decididamente da vida uspiana e, outras oportunidades, sem amarras e vínculos, possibilitaram-me novos estágios da imaginação. Aquela introdução de 2008 traduzia escolhas sedimentadas na memória:

“Nos anos 90, após um recital em Gent, André Posman, diretor da organização cultural belgo-flamenga De Rode Pomp, disse-me que chegara o momento de deixar minha herança musical. Iniciava-se o ciclo das gravações no Exterior. Em 2007, no peristilo da aposentadoria junto à Universidade de São Paulo, apreendi que, mesmo a continuar a atividade pianística e os artigos acadêmicos publicados na Europa, haveria a necessidade de pensar em outra categoria de herança, livre de quaisquer amarras, simplesmente o afloramento de lembranças sedimentadas, leituras marcantes, impressões de viagem, personalidades que me ajudaram a entender o mundo, o cotidiano a me surpreender com sua magia e também distorções, a música onipresente”. Continuaria: “Os textos fluíram semanalmente sem interrupção e hoje continuam a fazer parte do meu respirar. Uma ideia a chamar a atenção é acalentada, a tornar-se post durante a madrugada, quando o silêncio e a paz interior resultam no amálgama com a escrita que está a nascer. A reunião de todos os textos datados, sem as ilustrações que acompanham cada post, fez-se necessária, a fim de que o leitor possa seguir os caminhos, da evocação e do olhar, de um músico que observa sempre surpreso o mundo que o cerca”.

Para a publicação no formato blog, as imagens inseridas em cada texto substanciam aquilo que o notável filósofo Vladimir Jankélèvich definia como “instante do acontecido”. Utilizei algumas criações de nossa filha Maria Fernanda e muitas de meu saudoso amigo, o artista plástico Luca Vitali (1940-2013) que, ao ouvir minha ideia para o blog do sábado, já idealizava o desenho. Dizia a Luca que o amigo tinha um lápis no cérebro.

Em 2007, jurássico, nada entendia da internet e ainda hoje mal posso acompanhar os avanços cotidianos na área. Devo ao meu ex-aluno e amigo, Magnus Bardela, a iniciação nessa complexa área e o acompanhamento de minha lenta evolução durante alguns anos a um plano ao menos plausível. Com o tempo consegui realizar as montagens dos blogs semanais. Os textos que nascem de madrugada e recebem uma primeira leitura continuam a ser revistos, desde aquele ano, pela dileta amiga Regina Maria Pitta. Várias vezes mencionei Henrique Oswald (1852-1931), o nosso mais importante compositor romântico, que, ao escrever ao organista Furio Franceschini (1880-1976) sobre a revisão de sua sonata para órgão pelo músico nascido na Itália, comentaria que “o autor é mau revisor e entre estes, eu sou o pior”. Geralmente, após findar um texto, leio para minha mulher Regina que, por vezes, ainda pondera algo.

Nesses dezesseis anos houve concentrações temáticas devido ao meu interesse por determinadas áreas. Montanhismo voltado ao Himalaia; livros do escritor-aventureiro francês Sylvain Tesson; cerca de 100 pianistas já falecidos e que permanecem quase sempre pouquíssimo acessados na internet, verdadeiros avatares, em detrimento de determinados “astros” da nova geração cercados pelos holofotes. A profecia de Mario Vargas Llosa, ao escrever que a cultura erudita está erodindo na atualidade, é uma realidade. Recentemente pelas ruas parisienses não realizaram passeata em favor da música erudita?

A maioria dos blogs tendo a música como tema principal quase sempre é acompanhada de algumas gravações de excelsos pianistas ou as que gravei e estão no Youtube, graças à atenção do meu dileto amigo Elson Otake.

A lembrança desta data tem suas razões, pois à medida que o tempo se afunila, jamais saberemos sobre brevidade ou prolongamento. O que me parece certíssimo é o prazer da escrita e o surgimento constante de temas que me interessam e que repasso ao leitor. É a sua fidelidade o fundamento essencial ao incentivo. Continuarei. Se a mente humana é um mistério, segredos podem ser desvelados. Mistério e segredo são entidades bem diferenciadas. Do segundo, há sempre aqueles retidos no de profundis e que afloram repentinamente, do primeiro só há o insondável.

Clique para ouvir, de Alexandre Scriabine, a “Valsa op. 38″, na interpretação de J.E.M.:

(100) Alexander Scriabin – Valse Opus 38 – José Eduardo Martins – piano – YouTube

March 2, 2007 marks the beginning of my blog and the socializing with readers. It is sixteen years of uninterrupted posts published every Saturday. In the 848 posts that I wrote I have tried to transmit my impressions when faced with cultural themes that have an impact on me, especially music.

O olhar do observador frente às manifestações de arte no Japão

Vai, portanto, o escritor, o poeta marinheiro,
com sua acuidade sentimental, sua excepcional sensibilidade,
seu temperamento de artista refinado,
o senso do típico e do pitoresco e, com a sinceridade que lhe é inerente,
traduzindo em páginas-retratos suas impressões
– verdadeiros instantâneos – de todo aquele mundo colorido,
lírico e heroico, ressumante de exótico saber.
Jorge Fonseca Júnior (1912-1985)
(“Wenceslau de Moraes e outras evocações”, 1980)

Neste segundo post a respeito de Dai-Nippon (Grande Japão), do escritor português Wenceslau de Moraes, abordarei as artes sob a observação arguta do autor. A diversidade artística japonesa não está em um capítulo especial. Moraes a dilui paulatinamente, fato que testemunha o apreço constante e amoroso. À medida que o contexto provoca a atenção acurada, a arte é louvada.

Fidelino de Figueiredo enumera da miniatura à grandiosidade, “cujo louvor em todos os tons é um ritornelo constante nos livros de Moraes, e a cerâmica, a porcelana, o cloisonné ou bronze porcelana, os metais, a arquitetura hidráulica, o lar japonês, modelo de ordem, de asseio, de galanteria nas suas leves paredezinhas de papel, tudo visto numa disposição de benevolência afetuosa, único preconceito da alma do nosso cicerone”.

Wenceslau de Moraes não pasteuriza a arte em conceitos estanques; antes, entende as particularidades de cada uma das manifestações. Inexiste a visão do turista, mas a do europeu que se radica no Japão e se amalgama com o que é pertinente às tradições locais. A natural inclinação de Moraes do todo ao pormenor, captando do gigantismo à essência do multum in mínimo, fá-lo entender os resultados da arte nipônica, sempre com um prazer invulgar.

Sobre a pintura, Moraes observa: “Bem o sabeis; a mãe da arte é a pintura; falar da pintura é falar de todas as artes. Havemos, pois, de falar da pintura. Mas antes, visto que não temos pressa, discorramos um pouco sobre os órgãos do artista que mais particularmente se interessam na criação de um objeto, seja um desenho, seja um bronze, seja uma porcelana, seja o que for, isto é, o olho e a mão, o olho que vê e a mão que executa”. Encanta-o a visualização, fruto do culto ao belo que a natureza oferece. Comenta: “Mas o dom assombrosamente predominante desse olhar nipônico, quando se trate da arte, e por ela sobejamente confirmado, é uma qualidade afetiva extrema, inconsciente porventura, pelos encantos da natureza, por tudo que é visível e belo, por todas as concordâncias da cor, da luz, da forma”. A História da arte renderia tributo através do tempo aos pintores Utamaro (1753-1806), Hokusai (1760-1849), Hiroshige (1797-1858), entre outros. Quanto a Katsushika Hokusai, estende-se, e o pormenoriza em precisas observações “…foi um idólatra, tendo na natureza o seu feitiço; e estudou, com o tenaz fervor de um iluminado, as mil e uma formas da verdade, todas as delícias da cor, todos os segredos da vida”. Saliente-se que a influência das estampas japonesas foi notória no impressionismo em França. Claude Debussy (1862-1918) se inspiraria na gravura “A grande onda”, de Hokusai, para o seu tríptico sinfônico “La Mer” e mantinha gravura de Utamaro emoldurada. Em “Poissons d’or”, terceira peça do segundo caderno de Images, o compositor teria como inspiração uma laca japonesa.

Em período efervescente das artes e da literatura em França, causaria admiração o traço único, sem falha, preciso, irremovível, a inexistir espaço para retoque nas criações das gravuras japonesas. Wenceslau de Moraes capta a essência da pintura nipônica. Sua interpretação, habituada anteriormente às pinturas ocidentais, se extasia frente à precisão oriental e às mensagens transmitidas. Eliminado o supérfluo, permanece esse traço que capta o instante do acontecido e a autenticidade do tema em pauta. Escreve: “Uma pintura japonesa é sempre uma invocação. Adivinha-se o trabalho do pincel, não se esforçando em reproduzir a natureza, não em ser criador, mas em traduzir a impressão persistente que nos fica do espetáculo da mesma natureza. Eu me explico melhor, exemplificando: o pincel nipônico não conhece a veleidade de criar uma rosa, o que só pode, bem pensado, fazer o Pai do Céu; prescinde de modelo, fá-la de cor; quando a traça não se preocupa em enganar as abelhas que venham esvoaçar sobre o papel em busca de mel para o seu cortiço; preocupa-se apenas com a flor, no que dela persiste mais intenso na reminiscência, pelos seus atributos dominantes; é como se dissesse que aquele pincel inteligente não pinta, pensa e recorda”.

Admira o kakemono, arte pintada ou caligrafada em longas tiras de seda, cetim ou papel, presentes nas moradas das várias classes sociais. Conservadas em rolos, amiúde são estiradas quando da visita de familiares e amigos, ornando os ambientes desprovidos de excessos. Moraes observa: “Não escapa à observação do amador a íntima preocupação de realces, de harmonias que existem entre o desenho e o mimo de coloração do tecido; há nessa coloração como que um misterioso estímulo do sentimento, predispondo para a melhor compreensão do assunto”.

Clique para ouvir de Tsuna Iwami, “Algo sutil e profundo”, a partir de poema de M.Miyamoto, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=tRgb1y0sStg

Moraes tem posições de interesse sobre a porcelana nipônica, historiando-a e, após, enaltecendo-a, apesar de críticas à industrialização. Considera que, apesar de os processos fabris terem origem na China, os japoneses se serviram da livre fantasia. Enfatiza pormenores dessa arte que “encanta pela gentileza das formas, pelo mimo nos desenhos, pelo brilho nos esmaltes. Na jarra, no vaso, na garrafa, no perfumador, no boião, o mais saltante enlevo está na doçura sugestiva das curvas, na geometria amorosa do nu, inédita, que parece inspirar-se na gracilidade suave de um braço, ou na redondeza túmida de um seio, ou na amplidão serpentina de um quadril. Depois vem a ingenuidade bucólica do desenho, nas florinhas que estrelam os fundos, nos insetos e nas aves que voejam, nos longes cariciosos da paisagem. Depois ainda é a harmonia inimitável das tintas e dos ouros, das cores inefáveis, banhadas na frescura eterna dos esmaltes”. A influência da louça japonesa na Europa não é esquecida pela pena moraesiana e, após mencionar as fábricas de Delft, na Holanda, e a produção em Saxe e Chantilly, comenta: “Estais julgando: é a moderna louça luxuosa da Europa devendo tudo ao Japão”.

Moraes enaltece as olarias japonesas, que datam dos primeiros séculos da era cristã. Escreve: “Acima da porcelana em méritos, como arte nacional, está a olaria japonesa. É neste ramo da cerâmica, no trabalho paciente das argilas, que o sentimento e a viva originalidade indígena atingem um primor adorável”. Após considerar a alta feição artística da faiança japonesa  “…profundamente nacional, mais ornamental que utilitária, amorosa da natureza, das formas animais, por vezes humorística e que é representada principalmente pelas inúmeras formas da estatueta, do boião de perfumes, da caixa de remédios, do perfumador, da floreira. Compreende-se efetivamente o que possa dar essa argila pastosa, obediente a todos os contatos, quando sujeita às mãos habilidosas, mais ligeiras, mais artísticas que se conhecem”.

Wenceslau de Moraes discorre sobre materiais como o bronze e a madeira, do grandioso à miniatura, dos Budas gigantes aos netsukês de madeira ou marfim. Impressiona-o o culto às imensas esculturas em bronze de Buda, os Daibutsus de Nara e de Kamakura.

Sobre o teatro, Moraes está atento: “O teatro japonês cultiva um naturalismo estranho, minucioso nos ínfimos detalhes, por vezes duma perfeição inconcebível. Não é o enredo, o mistério sentimental do drama que procura interessar o espectador; é o jogo físico, mecânico, que sugestiona a vista, e assim encaminha por indução o espírito a um grau de sentimentalidade individual e vaga, que borboleteia certamente em cada um em mil divagações, de que cada um se constitui o exclusivo auto; um surdo poderá compreender o drama, um cego, nunca”. Os Teatros Nô e Kabuki estão entre os mais renomados.

Ao comentar os cultos xintoísta e budista, Moraes escreve: “Insinua-se fortuitamente no Japão, pelo século VI da era cristã, a crença budista trazida da Coreia”. Acrescenta: “Os dogmas dos dois cultos acomodam-se, contemporizam-se de parte a parte”. Entre os deuses familiares está “Benten, a deusa das artes e da beleza, representada como uma formosa cortesã dedilhando numa espécie de guitarra indígena, o biwa”.  A gravura de Hônen Metamorfose da Lua não estaria a render culto a Tsukiyomi-no-Mikoto, o deus lua, um dos deuses da crença xintoísta?

Moraes não deixa de pontuar alguns instrumentos musicais, estes sob os dedos etéreos das gueixas: “Os instrumentos indígenas, onde pousa a alvura das mãos das gueixas, são o shamisen, o koto, o biwa, outros ainda lembrando a guitarra. O bandolim, a harpa; instrumentos de corda, adaptando-se assim obedientemente à intenção, ao vago, ao incompleto da trova, dos cantares”. A imaginação moraesiana viaja ao som instrumental e das vozes: “As cordas que gemem em trêmulos, soltam exclamações súbitas, acompanhando a voz em melancolias arrastadas; é a música da vida, o ramalhar das árvores, o sussurro das águas, o ciclo dos insetos e dos pássaros , o grito insólito do corvo cortando o espaço; por sugestão, adivinha-se nela o eterno enlevo dos sexos, a curva dardejante das borboletas brancas perseguindo-se sem se alcançarem, todos os dramas da simpatia e do desejo, da alma e dos sentidos, que constituem a lei da existência universal”.

Quanto à arte singela das moradas japonesas, Moraes as compara às “habitações dos chamados povos cultos nas civilizações ocidentais”. Nessa visão, compara o luxo das moradas europeias plenas de móveis e objetos, com a casa japonesa: “Para o lar japonês, entra-se deixando à porta os sapatos, como para um místico santuário; não procureis a sala, que não existe; o lar é da família e dos amigos íntimos; todos os aposentos são iguais, sem mobília, sem ornamentações, com a simples esteira de repouso sobre a qual os corpos se entendem em grupos afetuosos, bebendo chá, fumando, palestrando, espraiando o olhar pelos caprichos do jardim, pela paisagem distante: maciços verdes de arvoredo, lombadas flexuosas de colinas, espumas de cascatas, azuis serenos do céu e de águas que são, afinal, a portentosa ornamentação da casa japonesa”. Essa comparação com moradas ocidentais não evidenciaria o âmago do despojamento ao qual Wenceslau se propôs nessa japonização voluntária?

Não sendo possível abordar em dois posts, com o espaço a que  me proponho semanalmente, toda a riqueza de Dai-Nippon, que permeia uma multiplicidade de temas através de um olhar agudo e de um pensar privilegiado, recomendaria ao leitor que deseje saber mais sobre o escritor buscar preciosa bibliografia portuguesa, mas também brasileira, assim como as obras de Wenceslau de Moraes elencadas no post anterior.

Clique para ouvir de Tsuna Iwami, “Idade Madura”, a partir de poema de M.Miwa, na interpretação de J.E.M.:

(62) Tsuna Iwami – Maturity – José Eduardo Martins – piano – YouTube

In this second post about Wenceslau de Moraes’ “Dai-Nippon”, I focus on the artistic manifestations he has punctuated. The evidence of a voluntary and loving japanization is clear in Moraes, who gives Western readers a fascinating glimpse into old Japanese culture not with a tourist’s view, but that of the European who settles in Japan and adopts the local traditions.

A niponização de ilustre figura literária portuguesa

O Dai-Nippon é a explicação interpretativa
do que há de mais específico e diferencial na vida japonesa,
feita com um critério japonês,
que o admirável escritor não teve de compor laboriosamente,
por via didática,
mas que brotou espontâneo da sua simpatia amorosa
e do seu desapego do ocidentalismo.
Fidelino de Figueiredo

Em edição brasileira, publicado durante as comemorações dos 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão (1543-1993), Dai-Nippon, de Wenceslau de Moraes (Rio de Janeiro, Nórdica), teve justa homenagem da comunidade portuguesa, com o apoio cultural da Academia Lusíada de Ciência, Letras e Artes (da qual fui integrante) e da Aliança Cultural Brasil-Japão. Àquela altura, ofereci recital de piano na Casa de Portugal, privilegiando obras de compositores dos três países como um dos eventos da Exposição Wenceslau de Moraes, realizada entre Novembro e Dezembro de 1993 naquela tradicional Casa.

A leitura de “Dai-Nippon” fascinou-me àquela altura, inclusive pela apresentação, o ensaio magnífico de Fidelino de Figueiredo (1888-1967), notável homem público, professor, historiador e crítico literário português. Sob o título “O homem que vendeu a sua alma”, o ensaio foi publicado em 1925 no volume “Torre de Babel”.

Recentemente, uma amiga falou-me de Wenceslau de Moraes e mostrou interesse em conhecr “Dai-Nippon”. Essa chamada fez-me reler o livro, 480 anos após o desembarque português no Japão, e a impressão durante a revisitação apenas ficou ratificada e acrescida.

Considere-se que os portugueses foram os primeiros ocidentais a aportar no Japão aos 23 de Setembro de 1543. Fernão Mendes Pinto (1509-1583), aventureiro, mercador, explorador, missionário jesuíta, apesar de lá não estar nessa data, durante vinte e um anos desembarcou em terras do Oriente, e foi o autor da célebre Peregrinação, “primeira obra do japonismo literário”, segundo Fidelino de Figueiredo. Escrita tardiamente, de memória, tantas vezes sem quaisquer apontamentos, há que se perdoar equívocos, dadas as circunstâncias. Mencioná-lo se faz necessário, mormente pelo fato de que, séculos após, Wenceslau de Moraes cultuará de maneira plena o japonismo e se lembrará do autor de Peregrinação em Dai-Nippon.

Wenceslau de Moraes foi uma figura singular que, após a formação junto à Escola Naval, esteve a serviço da Marinha de Guerra Portuguesa, período em que foram várias as suas atuações de Moçambique ao Timor, Japão, Macau. Nesta cidade foi professor no Liceu e se casou com uma chinesa, Vong-lo-Chan, com quem teria dois filhos. É nomeado cônsul em Kobe em 1898, deixando esposa e filhos em Macau. As duas japonesas com viveria sucessivamente, Ó-Yoné Fukumoto e Ko-Haru, tia e sobrinha, morrem adoecidas, o que o levou à depressão. No Japão, a sua atividade literária se intensifica e, como correspondente no Exterior para diversos periódicos, delineia lentamente sua visão como arguto observador de aspectos essenciais do país, sendo que os seus relatos, mormente quando em Tokushima, seriam bem difundidos em Portugal. Com o passar dos anos, Wenceslau de Moraes sofre transformações e se japoniza. Pratica os costumes do Japão e traja-se à maneira dos habitantes locais. Faleceu em Tokushima aos 75 anos. Monumento em Tokushima e em Kobe homenageiam o escritor. Entre suas obras, salientemos: Traços do Extremo Oriente (1895), Cartas do Japão (1904), O culto do chá (1905), Fernão Mendes Pinto no Japão (1920), Ó-Yoné e Ko-Haru (1923), Os serões no Japão (1926).

Daí-Nippon é obra referencial. Após abordar sucintamente a história do Japão com o olhar de um europeu, Moraes penetra no âmago das culturas do país a descreve com admiração temas relevantes, entre estes as artes em suas modalidades, costumes, afetos, arquitetura religiosa, as moradias típicas e a economia do mobiliário, as tradições enraizadas desde tempos imemoriais, as armas e o sabre perene nas lutas marciais, a mulher japonesa — essa figura feminina delicada e gentil, inúmeras vezes exaltada em sensual poética —, o chá como elo nas relações, a morte entendida sem luto.

Após aportar inúmeras vezes em terras do Ocidente e Oriente, será no Japão que encontrará a sua tebaida. A escolha pelo país, voluntária, definitiva, acentua ainda mais a determinação de mudança em direção à japonização, e o olhar do observador ao longo dos anos saberia interpretar até pormenores que os habitantes locais, imersos em suas rotinas, porventura minimizavam. Há convicção plena em suas narrativas autobiográficas.

Clique para ouvir, de Tsuna Iwami (1923-2012), “O Mar”, a partir de poema de M. Miwa, na interpretação de J.E.M. (gravação em long play – 1979). :

https://www.youtube.com/watch?v=PK2qMzhu7IU

Creio necessário inserir alguns parágrafos basilares de Dai-Nippon, pois se houve, mormente após Hiroshima e Nagasaki, transformações em muitas áreas elencadas acima, outras tantas preservam tradições milenares. Há que se entender as observações de Wenceslau de Moraes sobre o Japão e seus costumes como escritas por um ocidental que, absorvendo o japonismo por inteiro, não deixou de tantas vezes, mesmo inconscientemente, inclinar-se à irresistível comparação entre duas culturas tão diferentes. É cônscio de que da estada dos portugueses pelo Japão, que se estende até meados do século XVII, “pouco ficou, mas ainda o bastante para assinalar até hoje a sua intensa influência momentânea. De monumentos, uma ou duas pontes de tosca alvenaria, galgando pela ribeira que serpeia por Nagasaki. De crenças, uma mística flor de cristianismo, que todas as matanças não lograram fazer murchar inteiramente e que, dois séculos depois, foi revelada numa tribo fiel de gente humilde, vivendo às ocultas na comunhão da mesma fé, ensinada pelos missionários aos trisavós. Na linguagem ficou uma multidão de palavras portuguesas, hoje inteiramente nacionalizadas; imagine-se a agradável surpresa de um português quando escuta esses vocábulos patrícios, proferidos tão longe da sua terra”. São muitos. A título exemplificativo, mencionemos os termos tabaco, bidro (vidro), copocatana (espada), conpeito (confeito), pan (pão), arigatô (obrigado), biôbu (biombo)…

Curiosamente, em Dai-Nippon o autor escreve que o japonês não cria, mas imita à perfeição, comentando que, da decadência da “maravilhosa originalidade artística deste povo, resulta por outro lado a noção profunda do seu intensíssimo dom imitativo, adaptador, dom que já hoje faz arrecear seriamente a egoísta Europa, diagnosticando-lhe não sei que futuro de lutas de competência, de arrojos pertinazes, de gente que muito quer e muito pode”. Após a Segunda Grande Guerra, o Japão derrotado, a criação do denominado Plano Colombo visou ratificar a influência dos Estados Unidos nos países que sofreram os efeitos da Guerra em países asiáticos, possibilitando investimentos na nação japonesa. Estou a me lembrar de que, na adolescência e juventude, nos primeiros lustros da segunda metade do século XX, era comum falar-se pejorativamente da imitação dos produtos ocidentais replicados no Japão. As décadas vindouras provaram a incrível recuperação do país e a inovação em tantas áreas. Hoje, o Japão integra o G7, grupo composto pelos países mais industrializados e com índices altos de desenvolvimento humano. É pois de interesse uma observação que Wenceslau de Moraes faz àquela altura: “No entretanto, o operário europeu envolve-se nas grandes lutas sociais, afrouxa no trabalho, estorce-se de miséria sobre a enxerga do lôbrego casebre, e em filhos inúteis prolifera… Não virá também um dia, longe sem dúvida, para a indústria nipônica bater-nos à porta, mais barata e mais perfeita do que a nossa? Ai, Inglaterra!”.

Reiteradas vezes Wenceslau de Moraes escreve sobre a mulher japonesa. Tem por ela admiração em quaisquer condições. Estende-se sobre a figura feminina. Busca desvendar seus mistérios. Mussumês, gueixas, anmas (massagistas cegas) são observadas em seus gestuais, seus passos delicados e em seus dramas (no caso, aquelas que vivem no bairro de prazeres mundanos em Yoshiwara).

No próximo post abordarei temas relacionados às artes em suas várias modalidades e ao culto às imagens de Budas gigantescos.

“Dai-Nippon (Great Japan) is a singular book and its author, Wenceslau de Moraes, a Portuguese writer and journalist, ended up adopting the country of the Rising Sun, becoming almost completely Japanese and dying there.