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Os livros do notável compositor

Eu serializo instantes musicais das músicas de todos os gêneros,
estilos, épocas, lugares. E componho em cima.
Uma música experimental, mas à minha maneira.
Um experimento com linguagens, combinatório,
visando uma nova linguagem para um momento novo,
atemporal e globalizado.

Gilberto Mendes
(“Viver sua Música – com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevsky”. 1994)

No âmbito do Festival Gilberto Mendes, que festeja o centenário de seu nascimento, está programado para hoje, dia 14 de Outubro às 18:30, no Teatro Guarany, em Santos, um “bate-papo” sobre a obra literária de Gilberto e seu legado nessa área sensível. Flávio Viegas Amoreira, Manuel da Costa Pinto, Márcio Barreto e Zé Tahan irão expor suas posições sobre o importante legado literário de Gilberto Mendes. Haverá igualmente o lançamento do livro do escritor, poeta e crítico literário Flávio Viegas Amoreira, “Gilberto Mendes – Notas Biográficas” (2ª edição). Sinto-me honrado de ser autor do posfácio “Gilberto Mendes frente ao intérprete – Estímulo, ideia, criação e interpretação” (Santos, Imaginário Coletivo, 2022).

Quatro obras do notável músico santista foram resenhadas neste espaço (“Uma Odisséia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco”. São Paulo, Edusp-Giordano, 1994, 13/10/2007; “Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Newsky”. Santos-São Paulo, Realejo-Edusp, 2008, 04/04/2009; “Danielle em Surdina, Langsam”. São Paulo, Algol, 2013. 06/04/2013; “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges. Santos, Realejo, 2019. 10/07/2021).

É notório o caminho seguido por Gilberto ao longo de seus livros. Sem ter sido um teórico autor de tratados, mas frequentando diversas tendências composicionais, como poderia se deter em determinada técnica se o dom maior de Gilberto era a curiosidade, o encantamento pelo que se lhe apresentava, não apenas os processos de alguns de seus coetâneos ilustres, mas também de músicas que ouvia vindas de outras geografias e que o seduziam. Nos nossos tempos uspianos quantas não foram as vezes em que me alertou contra as igrejinhas, núcleos de compositores que produzem e se satisfazem nos guetos. Gilberto não se indispunha contra correntes, era um cidadão em paz.

Estou a me lembrar da trajetória do primeiro livro. Estávamos em 1990 e um certo dia Gilberto confessa que gostaria de se aposentar tendo defendido uma tese. Àquela altura a aposentadoria se dava aos 70 anos. Sugeri-lhe escrever sobre o seu caminho tão luminoso. Hesitou inicialmente, mas lentamente iniciou o exaustivo trabalho acadêmico. Insisti que, sendo tão imensa a sua posição na música brasileira, bastaria a narrativa exata dos fatos, almejos, criações e relacionamentos acumulados durante a existência. Confessar-me-ia, reiteradas vezes, que a exaustão o acometia e que não fosse a prestimosa colaboração de Eliane, sua dedicadíssima esposa, dificilmente teria forças para a recolha e seleção de vasto material. A redação iniciada por vezes era interrompida. O tempo a passar e por vezes este amigo a telefonar pedindo-lhe seguir escrevendo. Em duas ou três oportunidades evidenciou discreto incômodo com os meus apelos. Sabia eu da importância de sua tese para a literatura musical brasileira. Enfim, no limite do tempo defendeu-a com brilhantismo e eu tive o privilégio de estar na banca examinadora que contou, entre outros professores relevantes, com a presença do ilustre poeta, tradutor e crítico literário Haroldo de Campos.

Meses após Gilberto me diz que ficaria muito feliz de ver sua tese publicada. Procurei a diretoria da EDUSP. Disseram-me que o meu livro “Henrique Oswald – músico de uma saga romântica” tinha sido aprovado pela Comissão Editorial. Afirmei que esse poderia esperar e que urgia a aprovação – impossível não acontecer – do livro do Gilberto Mendes. Submetido à primeira reunião a seguir as conversações, foi aprovado e publicado em 1994 (Edusp-Giordano). Quanto ao meu Henrique Oswald, a publicação se daria no ano seguinte. Como não se comover com as palavras de Gilberto na página dos agradecimentos de “Uma Odisséia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco”, livro fruto da tese de doutorado: “Especialmente a José Eduardo Martins, que conseguiu extrair de mim este trabalho. Sem o seu incentivo não o teria feito”.

Quatro anos mais tarde a Edusp publicaria “Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Newsky”. Se na “Odisséia…” Gilberto revela um sem número de recordações, musicais ou não, que são fundamentais para o entendimento de período efervescente da criação musical no Brasil, com várias correntes por vezes se antagonizando, em “Viver sua Música”, liberto de certas amarras necessárias “impostas” para uma tese acadêmica, Gilberto continua a rememorar, mas encantam-no sobremaneira as terras andadas, seus personagens, sejam ilustres ou não. Um segmento me sensibilizou, revelador de uma das qualidades essenciais de Gilberto, a ternura e a imediata associação a um de seus ídolos, Stravinsky. Estando em Moscou, um dos locais icônicos visitados dentre o imenso campo geográfico percorrido, mormente quando teve obras apresentadas, ele registra:

“A maior emoção minha, nos meus dias de Moscou, foi no passeio a um campo de pioneiras, como eram chamadas as adolescentes que ali passavam parte das férias, no verão, em meio às características datchas dos arredores da cidade. Duas meninas me pegaram pelas mãos e me levaram para mostrar as variadas dependências do acampamento. Paramos num barracão para assistir um pouco ao teatrinho de fantoches que estava sendo representado. E eis que entra em cena, de repente, um novo boneco, e uma das meninas, apontando o palco, exclama, toda feliz: Petruchka! (Petruchka é uma boneca. Петрушка em russo. Ballet de Stravinsky composto em 2011. Nota J.E)

Foi um momento epifânico, de êxtase, ouvir esse nome mágico, emblemático, na voz de uma menina russa ao meu lado, segurando minha mão, na própria Rússia! O momento em que me senti realmente, profundamente, no coração da Santa Rússia de Stravinsky, de Dostoievsky, Eisenstein, do Poema Pedagógico de Makarenko!”

Nonagenário, Gilberto tudo dissera, ou quase tudo. Sente-se livre e a imaginação sobrevoa outros domínios que jamais dele se separaram desde os primeiros anos, como o encantamento pela invenção. E surgem pequenos livros, depositários de histórias outras decorrentes da inventiva. Nessa senda encantatória renova o prazer criativo. Surgem: “Danielle em Surdina, Langsam” (2013) e “Os dois amigos entraram finalmente na Rua Borges” (2019), sendo que os fatos narrados nesse último ele vivenciou, mesmo não sendo um dos personagens.

Gilberto Mendes permanecerá. Apesar do breve recuo do tempo, foi imensa a sua contribuição para a música brasileira. Metaforicamente comparo-o ao navegante que permanece temporariamente em portos determinados. Em cada escala Gilberto absorveu e criou, a atender sua admiração por determinada tendência, mas a curiosidade fê-lo navegar e tantas outras tendências, assimiladas em cada porto, o encantariam e levariam a novas criações. Essa descontração criativa, fruto da perene curiosidade, tornou-o um amante das obras dos grandes mestres da música erudita do passado, mas igualmente um admirador das big-bands norte-americanas, da autêntica música popular brasileira e de ritmos de outros portos. Sempre a navegar no imaginário, Gilberto jamais deixou de ter em sua bússola a direção ao porto seguro, sua Santos eterna nos braços de “minha mulher Eliane, que se tornou uma segunda mãe”.

É Gilberto Mendes o nome maior de nossa música a partir da metade do século XX? É-o, na medida em que frequentou com competência várias das tendências composicionais vigentes. É-o por ter, como todos os grandes mestres, imprimido suas impressões digitais em todas as suas criações. É-o no resultado auditivo, pois, assim como os grandes de antanho, sabe-se que tal composição é de Gilberto Mendes.

Aproveito o post atual para anunciar o recital que se dará no Ateneu Paulistano, em São Paulo, no sábado dia 22, oportunidade em que será apresentado o livro de Flávio Viegas Amoreira, mencionado no início deste. A anteceder o recital, o literato santista tecerá considerações sobre o conteúdo de seu livro.

Going on with the celebrations of composer Gilberto Mendes’ birth centennial, there will be on the 14th, at Guarany Theatre in Santos, a round table on Gilberto’s literary work. In this post I make comments about his four books, all of them reviewed in this space over the years. I also announce the recital that I will give on the 22nd of this month at the Ateneu Paulistano in São Paulo, on which occasion the book written by Flávio Viegas Amoreira, “Gilberto Mendes – biographical notes”, will be launched, with a postscript signed by me describing the 30 pieces that Gilberto Mendes dedicated to me during our intense friendship. I have presented them in several European countries.

Historiador e Diretor da Biblioteca da Universidade de Coimbra

Quem adiante não olha,
atrás fica.
(Adágio Açoriano)

Causou-me surpresa agradável verificar que, em recentes  publicações no respeitado Diário de Notícias de Lisboa, 3 e 15 de Setembro, dois diletos amigos, o compositor Eurico Carrapatoso e o Professor de História Medieval João Gouveia Monteiro, notáveis em suas respectivas áreas, responderam ao célebre Questionário Proust. No blog anterior concentrei-me nas questões respondidas pelo músico e, no presente, faço o mesmo em relação ao medievalista. É extraordinário o fato de que, após o longevo aparecimento do Confessions Album (1860), consagrado posteriormente como Questionário Proust, houvesse um apaziguamento em meados dos século XX, mas a ressurgir com intensidade em veículos mediáticos e, por extensão, entre o público em geral, basicamente com a mesma estrutura. O conteúdo das respostas às questões pode revelar acutilância plena em determinados compartimentos não expostos anteriormente pelos mais variados motivos. Diretas, sem subterfúgio, perguntas voltadas ao cotidiano, gostos e preferências até pueris contribuem para o conhecimento da personalidade daquele que em poucas palavras se desvela.

João Gouveia Monteiro, Professor de História Medieval na Universidade de Coimbra e Diretor da Biblioteca da consagrada Instituição, é um dos mais importantes conhecedores desse longo período fulcral para a Cultura do Ocidente. Neste espaço, dediquei dois posts às obras basilares de Gouveia Monteiro (vide no menu, item Livros: Resenhas e Comentários.

O professor João Gouveia Monteiro leciona desde 1982 na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde ensina História da Antiguidade Clássica, História da Idade Média, História Militar Europeia, História das Religiões e Cultura Medieval. É investigador dos Centros de História das Universidades de Coimbra e de Lisboa. Gouveia Monteiro é membro fundador e Presidente da Associação Ibérica de História Militar (séculos. IV – XVI). Uma das figuras mais eruditas que tive o privilégio de conhecer nesses quase 20 anos de sólida amizade.

A leitura de seu Questionário Proust revela sua visão do cotidiano, suas preferências e seus almejos. Curiosamente,  temos sequencialmente dois Questionários respondidos e diferenciados, ambos valorizando o humanismo tão obliterado em nossos tempos. João Gouveia Monteiro responde com franqueza e descontração, sendo admirável seu  compromisso com a atividade escolhida. À pergunta sobre seu principal defeito, a resposta não camufla a certeza para o pesquisador: “A impaciência pela demora na concretização de tarefas e projetos”. A questão relacionada ao que gostaria de ser tem consideração sensível por parte de Gouveia Monteiro: “Aquilo que sou – professor, a mais bela profissão do planeta: ‘Se não sabes, aprende. Se já sabes, ensina’ (Confúcio). Numa vida futura: músico, escritor ou intérprete”.

“A sua virtude preferida?
R: A integridade. Detesto quando se diz que ‘cada pessoa tem o seu preço’. O que resta então da dignidade humana?

A qualidade que mais aprecia num homem?
R: Uma mescla de simplicidade com sentido de humor.

A qualidade que mais aprecia numa mulher?
R: A ternura. Afinal, é isso que nos aproxima mais das nossas mães…

O que aprecia mais nos seus amigos?
R: A fidelidade no tempo longo. Amizade rima com reciprocidade.

O seu principal defeito?
R: A impaciência pela demora na concretização de tarefas e projetos.

A sua ocupação preferida?
R: Se falamos de hobbies, então a música (sobretudo piano).

Qual é a sua ideia de «felicidade perfeita»?
R: Reconhecer o melhor que há em mim e cultivá-lo. Aproveitar a parte boa dos outros e esquecer o resto. Amar e ser amado. Aceitar o tempo e usufruir da natureza.

Um desgosto?
R: A perda de um ente querido – um familiar próximo, um grande amigo. Em comparação com isto, tudo o mais parece minúsculo.

O que é que gostaria de ser?
R: Aquilo que sou – professor, a mais bela profissão do planeta: «Se não sabes, aprende. Se já sabes, ensina» (Confúcio). Numa vida futura: músico, escritor ou intérprete.

Em que país gostaria de viver?
R: Em Portugal, o melhor país do mundo: belo, hospitaleiro, com uma identidade secular. Vivemos num cantinho do Céu. Se tivesse de mudar: talvez no Sul de França.

A cor preferida?
R: O azul-turquesa e o cor-de-rosa (duas cores muito associadas à nossa primeira infância!).

A flor de que gosta?
R: Hesito entre a rosa e a tulipa. Nas trepadeiras, o jasmim (pelo aroma) e a buganvília (pela cor). Ah, e a flor-de-lótus, símbolo da iluminação.

O pássaro que prefere?
R: O elegante flamingo; ou a pequena pomba, símbolo da paz.

O autor preferido em prosa?
R: Entre os de língua portuguesa, Eça e Mia Couto. Dos outros, Javier Marías e Tolstói. No teatro, Shakespeare.

Poetas preferidos?
R: Camões e Antero (sonetos), entre os antigos; Manuel Alegre, Ary dos Santos e Ramos Rosa, entre os modernos.

O seu herói da ficção?
R: O meticuloso e perspicaz Hércule Poirot (Agatha Christie), seguido de Daniel Sempere, o do «cemitério dos livros esquecidos» (Ruiz Zafón).

Heroínas favoritas na ficção?
R: Antígona, de Sófocles; e Penélope, de Homero.

Os heróis da vida real?
R: Ontem, Jesus, Marco Pólo, Gandhi e Mandela. Sem esquecer o nosso Pedro Nunes. Hoje, o Papa Francisco, o exemplo mais luminoso que temos.

As heroínas históricas?
R: Marie Curie (Prémio Nobel da Física e também da Química!), Beatriz Ângelo (médica-cirurgiã e feminista de causas nobres) e Eleanor Roosevelt (Direitos Humanos).

Os pintores preferidos?
R: Amadeo, Menez e Resende, entre os portugueses; Van Gogh e Monet, dos estrangeiros.

Compositores preferidos?
R: Na música clássica, Chopin, Beethoven e Carlos Seixas. Na moderna, Leonard Cohen, Paul Simon e toda a «bossa nova».
Clique para ouvir, de Carlos Seixas, a Sonata nº 68 em lá menor, na interpretação de J.E.M.:

(302) Carlos Seixas – Sonata nº 68 in A minor – José Eduardo Martins – piano – YouTube

Os nomes preferidos?
R: Nos meninos, Vasco e Jaime. Nas meninas, Leonor e Helena.

O que detesta acima de tudo?
R: Nas pessoas, a arrogância e a vaidade. No resto, a guerra, a pobreza e a destruição do meio ambiente.

A personagem histórica que mais despreza?
R: Hitler e toda a sua turma, que sabia bem o que estava a fazer.

O feito militar que mais admira?
R: A Reconquista da Península Ibérica. O desembarque aliado na Normandia. A «Revolução dos Cravos», à qual devemos quase tudo.

O dom da natureza que gostaria de ter?
R: Ouvido absoluto e talento para pintar, hélas

Como gostaria de morrer?
R: Em casa, durante o sono, perto da minha família. Enquanto ainda estiver vivo, como alguém fez questão de gravar no seu epitáfio.

Estado de espírito atual?
R: Exausto pela dificuldade do questionário… Grato pela gentileza do convite. Apreensivo pelo futuro do Mundo.

Os erros que lhe inspiram maior indulgência?
R: Os pequenos delitos cometidos por amor, ou por carência extrema.

A sua divisa?
R: «Vive uma vida boa e honrada. Quando fores velho e olhares para trás, então terás a oportunidade de a saborear uma segunda vez» (Tenzin Gyatso, XIV Dalai Lama).

Clique para ouvir, de Carlos Seixas, a Sonata nº 50 em sol menor, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=uIUhQc_giNs

Quando em Coimbra para recital na Biblioteca Joanina, minha neta Valentina e eu estivemos várias vezes com o professor Gouveia Monteiro e sua esposa Leonor. Curiosamente, perguntou-nos sobre preferências, flores, escritores, poetas… Naqueles momentos não atinei, mas soube há dias que Gouveia Monteiro já estava a responder ao Questionário Proust. Presenteou-me com alguns de seus livros e presentemente estou a ler “Nuno Álvares Pereira – Guerreiro, Senhor feudal, Santo”, excepcional aprofundamento na lendária figura do Condestável.

In the space of just 15 days, two dear friends had their Proust questionnaire (Confessions album) published in Lisbon’s Diário de Notícias. In this post I insert the answers by the illustrious Professor of Medieval History at the University of Coimbra, João Gouveia Monteiro.

 

O compositor e suas convicções

Se fazes, és;
Se não fazes, serias.
Agostinho da Silva
(Espólio)

O denominado Questionário Proust teve origem na Inglaterra nos anos 1860 (Confession album) e ganhou celebridade a partir das respostas às questões escritas ainda na juventude por Marcel Proust (1871-1922). Descobriu-o em 1886, ainda adolescente, num álbum da filha do futuro presidente francês Félix Faure, Antoinette. Proust em mais de uma oportunidade recorreu às respostas. Inúmeras figuras representativas em todas as áreas responderam ao questionário, nele inserindo aspirações, preferências diversas, estilo, gosto. Entre esses ilustres personagens encontramos Stéphane Mallarmé, Claude Debussy, Arthur Conan Doyle, Karl Marx, Paul Cézanne, Oscar Wilde… Deve-se, contudo, às respostas de Proust em períodos distintos a divulgação ampla do questionário, que revelou muito das personalidades daqueles que se propuseram responder às cerca de 30 questões formuladas. Tendo penetrado nas várias classes sociais e entretido escritores, artistas e figuras de destaque em tantas áreas, o posteriormente nomeado Questionário Proust ainda perdura, até como apanhado a servir para determinadas áreas, como a da psicologia. Igualmente ele é utilizado em vários veículos de notícias, mormente no hemisfério norte. Segundo o escritor e romancista escocês Gilbert Adair (1944-2011), “a vantagem dos questionários, na perspectiva financeira, se resume no fato de que figuras conhecidas se abstêm de serem pagas”. Apesar de ter diminuído o seu alcance no período das duas Grandes Guerras, ressurgiria na segunda metade do século. Como exemplo, a revista Vanity Fair, a partir de 1993, estendeu o alcance do questionário a um público abrangente.

O ilustre compositor Eurico Carrapatoso, com a verve que lhe é característica indelével, respondeu ao Questionário Proust que foi publicado recentemente no relevante “Diário de Notícias” de Lisboa (03/09/2022). Enviou-me a página e, após a leitura, solicitei ao dileto amigo a divulgação neste espaço. Gentilmente Eurico aquiesceu. O português castiço, entremeado de um sabor transmontano único, fez com que eu inserisse algumas notas de rodapé relativas às palavras inusuais em nossas terras.

“A sua virtude preferida?
O ouvido.

A qualidade que mais aprecia num homem?
O talento.

A qualidade que mais aprecia numa mulher?
O talento.

O que aprecia mais nos seus amigos?
Disponibilidade para ouvir, para falar ou para estar em silêncio.

O seu principal defeito?
Pouca resistência à tentação.

A sua ocupação preferida?
Compor.

Qual é a sua ideia de “felicidade perfeita”?
Caminhar à beira-Tejo, com sol, ou viajar em estradas secundárias pelo interior de Portugal, com chuva.

Um desgosto?
Perder uma ideia que estava na ponta da língua.

O que é que gostaria de ser?
Compositor com direito à preguiça. Deploro o tempo de negócio em que nos mergulharam, que nos retira o direito ao ócio e nos transforma, à viva força, em potros de competição dispostos em linha de montagem.

Em que país gostaria de viver?
Renúncia expressa de qualquer outro país. Começo a bocejar no preciso momento em que deixo o espaço aéreo de Portugal. Enfadado, só retorno à tranquilidade quando volto a pedir uma bica curta (1) numa esplanada alfacinha, tripeira (2) ou brigantina, tanto dá, com um coreto em Si bemol à minha frente.

A cor preferida?
A do Maio florido.

A flor de que gosta?
Angélica.

O pássaro que prefere?
Rouxinol na noite de Abril, a carriça (3) na alvorada, o tordo (4) no crepúsculo de Dezembro. O melro, primo do tordo? Esse, sempre.

O autor preferido em prosa?
Camilo.

Poetas preferidos?
Pessanha, Pascoaes.

O seu herói da ficção?
Davis, jurado número 8 em “12 Angry Men”

Heroínas favoritas na ficção?
Viridiana.

Os heróis da vida real?
Meus pais, meus irmãos, minha mulher e meus filhos.

As heroínas históricas?
Rainhas de Inglaterra, não, de certeza. Prefiro rainhas da vida real. Ocorrem-me duas senhoras sem direito a pompa, circunstância e toda a sorte de protocolos ajaezados, apenas no exercício do direito de resposta: Rita Machado, filha do escritor Dinis Machado (autor de “O que diz Molero”), na forma como acertou o passo a António Lobo Antunes ao defender a memória de seu pai e demais antepassados já falecidos. A dignidade da sua resposta é solar e sonora como um sino de bronze, a lembrar o tiro certeiro de David na testa de Golias. A outra heroína é uma leitora anónima de Setúbal que respondeu de forma mortal a Maria Filomena Mónica. A socióloga afirmara num dado artigo que “havia três pessoas cultas em Portugal, se tanto.” A leitora confirmou na semana seguinte àquela publicação que eram mesmo três, sem qualquer dúvida. E enumerou-as: “Uma das pessoas cultas é a Drª Maria Filomena Mónica, pois claro. A segunda pessoa culta é o Dr. António Barreto, seu marido. E a terceira pessoa culta sou eu, evidentemente.”

Os pintores preferidos?
Rego, Souza-Cardoso, Turner, El Greco, Parmigianino, Mantegna.

Compositores preferidos?
Pedro Faria Gomes, Lopes-Graça, Poulenc, Ravel, Debussy, Bach.

Os seus nomes preferidos?
Amélia e António.

O que detesta acima de tudo?
Pedantismo de queixo altivo, e, citando Debussy no seu questionário Proust de 16 de Fevereiro de 1889, les femmes trop belles.

A personagem histórica que mais despreza?
Frei Tomás de Torquemada, a representar todos os seres sinistros respaldados no poder instituído que, com base em efabulações e toda a sorte de banhas da cobra, se arrogam à autoridade moral de julgar os outros, apoucando-os, censurando-os, prendendo-os, torturando-os, assassinando-os.

O feito militar que mais admira?
Bafordo de Valdevez (5).

O dom da natureza que gostaria de ter?
Renovar-me e remoçar todas as primaveras como o freixo (6).

Como gostaria de morrer?
A rir.

Estado de espírito atual?
A sorrir.

Os erros que lhe inspiram maior indulgência?
Todo e qualquer desvio das linhas estéticas que vão bolçando da boquinha mimada e burguesa dos tempos que correm.

A sua divisa?
“Escreve música. Deixa lá a história”.

NOTAS:

(1)   Bica curta corresponde ao café curto.
(2)  Alfacinha e tripeira, alcunhas aos que nascem em Lisboa e Porto, respectivamente.
(3)  Carriça, pássaro canoro bem pequeno pertencente à avifauna portuguesa. Assemelha-se à nossa corruíra.
(4) Tordo, pássaro canoro com penas coloridas da dimensão aproximada do nosso sabiá.
(5)  A fim de se evitar o combate dos exércitos, acordava-se o torneio medieval, a possibilitar o desempenho de cavaleiros representando as facções. Feitos durante a fundação da nacionalidade portuguesa. Século XII.
(6)  Árvore que pode atingir 30 ou mais metros de altura.

Nesse clima de descontração, clique para ouvir, de Eurico Carrapatoso, O crocodilo, sexta peça das “Six Histoires d’Enfants pour amuser un Artiste”, na interpretação ao vivo de J.E.M. :

https://www.youtube.com/watch?v=mpiX2kyJA1M

The remarkable Portuguese composer Eurico Carrapatoso answered the famous Proust questionnaire (Confession Album) that was recently published in the prestigious Diário de Notícias of Lisbon. He authorized me to publish it in this space and through it we capture part of his thoughts.