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Sylvain Tesson e os Oleodutos da Ásia Central 

Não li os jornais, mas vivo assim mesmo.
Vou bem, faço progressos nesse aperfeiçoamento da calma interior.
Canto, passeio cabeça descoberta a contemplar o céu, a noite.
Knut Hamsun

Escrever é condensar a vida comprimindo-a entre as camadas de papel.
A página branca me angustia:
Terei eu papel suficiente para descrever o que vejo?
Sylvain Tesson

Confesso que admiro a obra literária de Sylvain Tesson. A experiência viva, solitária, sem subterfúgios por territórios inóspitos do planeta não é apenas a aventura pela aventura, pois há sempre um motivo para as prolongadas excursões. Causaram-me curiosidade os títulos de seus livros quando numa livraria em Paris dois anos passados. Questionado por mim a respeito do autor, o livreiro nada soube informar. Adquiri três obras e gostei imenso. Na recente viagem à capital francesa, vários amigos já estavam a ler com o maior interesse a obra de Sylvain Tesson. Anteriormente já resenhara três de seus livros: Petit traité sur l’immensité du monde e L’axe du loup (28/05/2011), assim como La marche dans le ciel – 5.000 km à pied à travers l’Himalaya (25/02/2012), caminhada essa percorrida em companhia de Alexandre Poussin.

Sylvain Tesson tem a sabedoria de um “eremita” andarilho. Diferentemente do que faz o romance a partir da criação de personagem(s), Sylvain Tesson é figura que tece reflexões à medida que os espaços vão sendo transpostos. O imenso acúmulo de quilômetros percorridos a pé ou de bicicleta pelo mundo fê-lo ver in loco povos, costumes, a natureza bela ou preferencialmente inóspita e, como afirma, “a solidão é minha fiel companheira”. Preenche a realidade com rico imaginário e a metáfora parece ser seu porto seguro. Se lhe falta nessa área a poética plena de encantamento de Saint-Exupéry, que amalgama realidade e devaneio, sobra-lhe  pragmatismo.

Em Éloge de l’énergie vagabonde (France, des Équateurs, 2007), Tesson realiza possivelmente a sua mais árdua e árida aventura, ao percorrer a Ásia Central do Ubequistão à Turquia seguindo a rota da tubulação que serve para levar o petróleo e que atravessa o Azerbajão, a Geórgia e o Kurdistão. Mares internos – Aral, Cáspio e Negro – são circundados ou aflorados, e em bicicleta ou a pé Sylvain Tesson realiza o seu “périplo” terrestre até chegar ao Mediterrâneo na Turquia. Escreve: “A inspiração dessa viagem surgiu de minha paixão pelos oleodutos. Os tubos me obsecam e seus traçados  me encantam. Posso contemplar durante horas as estrias desenhadas na rede sobre as cartas de geografia. Assemelham-se aos intestinos de algum deus da energia que teria feito hara-kiri diante das ameaças da penúria dos hidrocarburetos”. Acrescenta, em outro segmento: “Um pipeline é um fantasma da cartografia, uma cicatriz no terreno tão retilínea como um traço sobre um mapa”.

Esse fascínio do autor poderia desestimular leitores devido à agrura do tema. Ledo engano, o longo trajeto percorrido “sem motor” dá a dimensão de Tesson. Observa tudo, e os mínimos pormenores de costumes, por vezes antagônicos, chamam a atenção do andarilho. Países da ex-União Soviética são transpostos durante o verão e temperaturas que chegam por vezes aos 52º, apesar de fatigarem Tesson, “a estepe cria o deserto em mim”, não o desestimulam. Segue o caminho da tubulação e fica impressionado pelo fato de que a poucos metros do solo a riqueza acumulada durante milhões de anos corre por pipelines em direção à Turquia de onde seguirá para o mundo, mormente os Estados Unidos. Tece considerações sobre pró e contra oleodutos. Os mais conscientes têm noção que finda a recolta – talvez uns 100 anos -, países terão de sobreviver com parcos recursos, mercê da aridez de territórios inóspitos da Ásia Central. Assistir àquela viagem do óleo bruto o angustia, mormente ao pensar que a profundeza da Terra está a se exaurir em prol do consumo exagerado em progressão geométrica. Seguir o pipeline, a pé ou de bicicleta, significa acompanhar o prenúncio de um caos que certamente virá, após todos os recursos de hidrocarburetos esgotados. Se considerado for que só os U.S.A, com população de 5% de pessoas existentes na Terra, consomem 25% dessa energia que vem das entranhas do planeta, há que se compreender determinadas atitudes dos povos da região.  Tesson capta as mensagens no dia a dia durante o percurso. Visita os postos e terminais, atravessa aldeias e cidades, tem de conviver com o tórrido calor, que por vezes o sufoca. Nada, contudo, tira seu estímulo. Não afirmaria que “a nostalgia é uma preguiça”?  Vem-lhe a metáfora do livro a partir do ouro negro: “Assemelha-se ao barril de óleo bruto. Nele dorme o pensamento. Ele se condensa entre as folhas, como os hidrocarburetos entre as camadas do subsolo. Para se liberar, a força das palavras espera o refino da leitura”.

Sylvain Tesson por vezes percorre dezenas de quilômetros em pleno sol causticante e irrita-se com o vento de proa que o impede de ir mais rápido, assim como bendiz o vento que o atinge no dorso. Contudo, não deixa de observar pormenores, que retém com rara acuidade: “O frescor da Anatólia reaviva minhas forças. Meu corpo se descontrai e recorda, pois possui a memória da felicidade”. Esse rememorar, segundo Tesson, nos faz retornar ou provar novamente aquilo que em algum dia do passado, deu-nos prazer. Escreve: “Essa energia da lembrança dos momentos felizes nos dinamiza e nos leva a querer recriá-los”.

A trajetória empreendida pela Ásia Central propicia ao autor observar costumes dos povos da vasta região. Dos muçulmanos tece comentários sobre a valoração masculina e o papel reservado às mulheres, em seus trajes típicos cobrindo por vezes todo o corpo, assim como o chamamento à oração pelo muezzim do alto do minarete. Presenciou em lugares diferentes e não fica alheio ao fato, comenta-o: “Somando-se ao espesso visco atmosférico, às dezesseis horas ecoa o chamado do muezzim. Elevo o olhar em direção ao minarete, esse mirador destinado a vigiar o caminho da fé em direção aos corações de fiéis que se encaminham sob as cúpulas. Um primeiro canto cai do céu, logo seguido por outras encantações que nascem uma a uma de cada ponto cardeal”.

A longa travessia leva Tesson à uma conclusão drástica sobre o planeta em perigo. A metáfora que elabora fá-lo refletir sobre a febre: “Ninguém pensou até agora que o aquecimento climático assemelha-se a uma febre gripal. Quando um organismo vivo sofre o ataque de um vírus, a reação inflamatória aumenta a temperatura interna e a febre se declara como uma das aliadas da luta contra o mal. O corpo combate, aquecendo. Responderá a Terra à febre causada pelo vírus que seria constituído pela humanidade?” Continua: “Não são mais as ideologias que agitam a humanidade superpovoada, tampouco o entusiasmo messiânico que a levanta, nem a agressividade dos governos que a sacode, nem os nacionalismos que a atravessam, mas a imensa pressão das necessidades crescentes e a exasperação de ter esperado tanto para satisfazê-la… A Terra assemelha-se a uma bola em chamas”. Nesse quadro pessimista, Tesson acredita que a teoria do decrescimento encontra um impasse. Ninguém está interessado em iniciar o grande caminho em direção à desaceleração. Comenta: “Na teoria, cada um está de acordo em baixar a temperatura dos motores de nossas existências, viver sem petróleo, banir o plástico. Todavia, com a condição de não ser o único. Decrescer sim, mas não de maneira individual. E ninguém começará”.

Éloge de l’Énergie Vagabonde é livro de grande interesse, mormente pelo fato de o “profeta” andarilho ter percorrido lentamente essa imensa teia que leva o ouro negro ao consumo crescente e desmesurado. Há profunda coerência em toda a narrativa e o final bem poderia ser uma das frases de Sylvain Tesson no início do livro: ” O capitalismo é a redução do intervalo entre o momento em que compramos um objeto e o trocamos”.

This post is an appreciation of the book “Éloge de l’Énergie Vagabonde”, in which the French geographer and world traveler Sylvain Tesson tells about his long march through the harsh steppes of Central Asia, following the route of the pipelines that convey oil to the rest of the world, while musing on different cultures, human condition and the future of civilization.

 

            

Respostas às Sábias Perguntas

Y aura-t-il  la nécessité à terme, dans la “guerre” psycologique artificielle
installée entre les différents courants et langages de la musique actuelle,
d’imposer un moratoire  pour que ne surgissent pas des incompéhensions définitives
qui pourraient nuire à l’essence de la musique
dont la base devrait être communion et harmonie ?
François Servenière (uma das perguntas destinadas à Témoignages)

Dans des textes précedents, vous avez fait preuve de méfiance
vis-à-vis de certains congrés et des actes de ceux-ci,
comme par rapport à d’autres publications universitaires.
Est-ce que vous maintenez cette position assez polémique ?
J.F. Bannwart (uma das questões propostas)

Após a participação em duas bancas de doutorado na Université Paris-Sorbonne em Janeiro-Fevereiro de 2011, a ilustre professora Danièle Pistone chama-me à sua sala e convida-me para ser um dos personagens da série “Témoignages”, uma das publicações do atuante Observatoire Musical Français, do qual ela é diretora. Senti-me honrado, mormente pelo fato de que três respeitadas figuras me precederam: Maria Paz Santibañez (2008), Jean-Louis Orengia (2008), Serge Nigg (2010). Sobre este último, notável compositor e pensador francês, escrevi um post (vide Serge Nigg – Captar o Passado, Apreender o Presente, Presentir o Futuro, 04/03/2011). O presente livro, José Eduardo Martins – un pianiste brésilien (Entretiens avec José Francisco Bannwart & François Servenière, 122 p.), publicado pelo OMF sob a égide da Université Paris-Sorbonne, teria gestação de mais de um ano.

Madame Danièle Pistone deu-me a liberdade da escolha de um ou dois entrevistadores. José Francisco Bannwart, doutor en musicologia pela Sorbonne, e François Servenière, compositor e pensador francês, foram os preferenciados. O primeiro, pelo longo convívio desde os tempos da Universidade de São Paulo, quando foi meu aluno em curso de extensão, tendo realizado posteriormente brilhante mestrado sob minha orientação. Integrei o júri que avaliou sua consistente tese de doutorado, defendida junto à Université Paris Sorbonne. Morou em Paris durante oito anos, ficando responsável não apenas pela formatação de Témoignages 4, como formulando e colhendo perguntas pertinentes de músicos franceses. Mantenho com François Servenière, compositor e pensador francês, uma assídua correspondência, principalmente depois do início de 2011. São mais de 700 páginas em que discutimos música, artes, literatura, política… Tendo escrito substancioso texto sobre todos os meus 22 CDs gravados no Exterior, competiria a ele formular segmento de perguntas objetivas, intrigantes e substantivas. Coube ao grande amigo parisiense, Antoine Robert, a tarefa da revisão de meu texto em francês.

Témoignages nº 4 está dividido em três partes precisas. Nas extremas, Bannwart busca entender primeiramente os primórdios de minha formação, meus estudos em França com mestres insofismáveis, como Marguerite Long, Jean Doyen e Louis Saguer.  Brevemente abordo metodologias por eles empregadas, o meio musical e a crítica em França, a cultura geral que veio acoplada ao meu aprendizado, assim como as reflexões que surgiram após meu regresso ao Brasil, em que nítida defasagem no plano da cultura musical se faz ainda sentir, e a adaptação necessária, sem perder contato com o que se passava na Europa, tornou-se imperativa. Na terceira parte, Bannwart questiona e colhe impressões de músicos para formular perguntas referentes à Universidade hoje. Sou bem cético quanto aos rumos atuais da Academia e busco nessa parte sintetizar o que penso. Na universidade como um todo, e na área musical em particular, os problemas que se sedimentam e a presença da endogenia, que tantos malefícios traz à evolução do pensar criativo no campo teórico-prático; a burocracia soberana intramuros, o excesso de reuniões e relatórios preponderantemente infrutíferos; vocação x carreirismo; a pós-graduação e o simulacro representado por quantidade de teses aprovadas sem qualquer valor, mas que servem unicamente à ascensão de um mestre ou um doutor; o abandono de um tema por parte de tantos tão logo dissertação ou tese findas, o que traz um enorme prejuízo ao país que subsidiou tantas delas; a tragédia das publicações que não se debruçam mais acentuadamente sobre as contribuições internacionais relevantes.   

François Servenière criou as questões para a parte central de Témoignages nº 4. Poderia salientar que o notável músico francês estabeleceria uma ampla abertura para o debate. Suas perguntas, por vezes extensas e desdobradas,  possibilitaram a atenção sobre temas fundamentais, que compreendem a criação escrita para o cravo barroco interpretada ao piano; a interpretação da música francesa, mormente Rameau, Debussy e Fauré; a música contemporânea e seus problemas, quiçá impasses; a ininteligibilidade voluntária de certas tendências composicionais;  o desconhecimento do piano por parte de muitos autores hodiernos, que “insistem” apesar de escritas canhestras; aspectos a envolver a estética; o acaso; gravação e interpretação ao vivo e suas confluências; repertório pequeno maximizado em detrimento de um imenso tesouro voltado ao esquecimento;  a imperiosa necessidade do músico ter cultura ampla. São esses alguns dos temas tratados no segmento.

Em torno de Témoignages o calendário ultrapassou um ano. Responder a mais de 50 perguntas argutas, inteligentes e formuladas por experts  mostrou-se tarefa das mais complexas, mormente ante a diversidade do questionamento, a propiciar minha descentralização de focos concentrados. Polivalentes, multidirecionadas, abrangendo aspectos fulcrais ligados à música, as indagações de Servenière e de Bannwart (recolhidas de outros especialistas e suas também) estimulariam o entrevistado a confrontar-se unicamente com a essência temática relevante. Contudo, décadas acumuladas num caminho musical voluntário, o atual distanciamento das lides universitárias, graças à aposentadoria, fizeram-me apreender as questões como maneira de externar o meu de profundis.

A fim de comemorar a honrosa publicação, darei recital de piano em Paris no dia 28 de Janeiro, na série “Concert dans l’Atelier”. Coerente com o meu pensamento exposto em tantas respostas de Témoignages e ao longo dos posts, escolhi programa a privilegiar dois ilustres compositores que foram amigos e sofreram mútua influência: Francisco de Lacerda (1869-1934) e Claude Debussy (1862-1918), assim como três peças de François Servenière dedicadas ao compositor português nascido nos Açores.

O livro Témoignages nº 4, José Eduardo Martins, un pianiste brésilien (Entretiens avec José Francisco Bannwart et François Servenière), publicado pelo Observatoire Musical Français sob a égide da Université Paris-Sorbonne, está a ser lançado. Esse livro ficará disponível ao preço de E$ 8 sob pedido encaminhado ao seguinte endereço: Observatoire Musical Français, Université Paris-Sorbonne, 1 rue Victor Cousin 75005 Paris, ou par émail à omf@noos.fr .

Next week Sorbonne University will release my book – the 4th of the “Témoignages” series – in which I address a variety of issues related to the musical career: my early studies in Paris and the problems faced upon my return to Brazil; bureaucracy and rampant careerism at the universities; musical societies and their aversion to risks; piano performances of the Baroque repertoire; the interpretation of French composers, in special Rameau and Debussy; contemporary trends in modern classical music. Most of the questions have been posed by the French composer and intellectual François Servenière and José Francisco Bannwart, PhD in Musicology from the Sorbonne. On the occasion, I will give a recital with works by Debussy, Francisco de Lacerda and François Servenière.

Missivas Cativantes de Musicista Norte-Americana

Posso afirmar que este livro é um bom livro,
tão bom como Charles Auchester, meu romance preferido,
e espero que ele fará compreender aos jovens que,
para se chegar ao conhecimento pleno de qualquer arte,
há a necessidade de muitos anos de estudo, de esforços e de disciplina.
O poeta H.W. Longfellow (1807-1882) ao editor das cartas,
após ter ouvido a leitura do manuscrito.

A literatura sobre música escrita durante o vasto período romântico tem características específicas. As biografias salientam a presença do herói, os escritos sobre a história apresentam períodos idealizados e as brisas românticas parecem circular em espaços etéreos. Compositores que deixaram larga produção epistolar debruçam-se sobre afetos os mais variados, mudanças de humor, nostalgia e dor. A troca de cartas entre memorialistas natos bem evidencia um universo muito distante de nossa atualidade.

Durante minha formação em Paris, na transição dos anos 1950-1960, um de meus prazeres era buscar nos bouquinistes livros que me pudessem entreter nos momentos de descontração. Obras epistolares me interessavam muito e lembro-me da  leitura das cartas de um mestre da língua francesa, Gustave Flaubert (1821-1880), ao seu colega russo, o poeta e escritor Ivan Turgueniev (1818-1883); a riquíssima troca de correspondências entre Wagner e Liszt, entre tantas outras obras do gênero. Aprende-se muito com essas confissões que se metamorfoseiam ao passar para personagens criados, literária e musicalmente. Em uma das investidas, encontrei o livro Music Study in Germany, na tradução francesa de Mme B. Sourdillon do original em inglês, sob o título Lettres d’une Musicienne Américaine (Paris, Dujarric, 1907, 299 pgs.). Interessou-me, li alguns trechos, mas em plena época de estudos pianísticos que chegavam, por vezes, a dez horas diárias, posterguei a leitura para… mais tarde. Chamou-me a atenção àquela época o precioso prefácio do ilustre compositor francês Vincent d’Indy (1851-1931) que, estando na Alemanha para estudos, conhece fortuitamente Amy Fay. Tantas outras literaturas percorridas durante décadas e o livro de Amy Fay acabaria em uma estante, bem ao alto. Há poucos meses, buscando outra obra a fim de fundamentar um texto, encontrei ao fundo de prateleira as cartas de Amy Fay à sua irmã Harriet Melusina Fay (Zina), primeira mulher do ilustre Charles S. Peirce (1839-1914), lógico, filósofo, matemático e também conhecido como o “pai do pragmatismo”.

Se a trajetória de Amy Fay, após a permanência durante  anos na Alemanha a partir de 1869, a fim de estudar piano, seria muito profícua não apenas para a didática pianística, mas através de incontáveis passos empreendidos no desiderato de fazer ver à sociedade o relevante papel que a mulher teria de desempenhar, considere-se que a força dessa valorosa musicista teria vindo desses anos a trabalhar seu instrumento com alguns dos maiores mestres do período.

O livro é simplesmente delicioso e traz a cada página traços marcantes das personalidades das figuras ilustres e de estudantes seus colegas, da vida musical em Berlin e Weimar, dos concertos e saraus, dos interiores das casas, dos passeios empreendidos, um deles com sua irmã e Charles Peirce. Diálogos mantidos com músicos relevantes dão a veracidade que pode ser comprovada através de estudos realizados, mormente a partir da segunda metade do século XX, por historiadores e musicólogos.

Foi uma privilegiada ao estudar com mestres como Carl Tausig (1841-1871), Theodor Kullak (1818-1882), Franz Liszt (1811-1886) e Ludwig Deppe (1828-1890). Ao visitar Friedrick Wieck (1785-1873), pai de Clara Schumann, comenta inclusive alguns aspectos ligados à sua didática. Debruça-se sobre cada professor e seus ensinamentos, distingue claramente métodos de ensino, características humanas no trato com alunos, interpretação de notáveis músicos como Joseph Joachim (1831-1907), Clara Schumann (1819-1896), Anton Rubinstein (1829-1894), Hans von Bülow (1830-1894), e capta na essência o perfil psicológico de um compositor que  admirava, mas de temperamento complexo, Richard Wagner (1813-1883).

O livro reúne parte considerável da correspondência à irmã, pois as mais íntimas não foram selecionadas por Zina. Não obstante, importa considerar que o panorama pianístico interpretativo e pedagógico, através da qualidade dos personagens, está nitidamente delineado.

Amy Fay, nesses anos germânicos, relata preferencialmente suas impressões musicais como estudante de piano, ouvinte e observadora da vida nas cidades em que esteve. É minuciosa ao  olhar para os interiores das casas, dos quartos, dos salões, pois nada lhe passa desapercebido. Sob aspecto outro, tem o gosto pela natureza e por vezes a descreve. Seria contudo no imenso conteúdo verossímil, e não tratado nos muitos compêndios biográficos ou da história da música, que a coletânea de cartas de Amy Fay adquire importância imensa, a apontar para as dezenas de edições nos Estados Unidos, assim como nas várias traduções feitas da obra.

Através do relato de Fay pode-se entender que pouco teria mudado em muitas das práticas didático-musicais. A denominada master class era algo habitual nos cursos oferecidos por Tausig, Kullak e Liszt, como exemplos. Reuniam alunos escolhidos, tutelados ou não, amigos e  visitantes.  Quanto ao repertório, as Sonatas de Beethoven, obras de Schumann, Chopin e Liszt eram as mais frequentadas. A missivista citou a irritação de Liszt quando uma aluna apresentou-lhe o Scherzo em si bemol menor de Chopin, pois, apesar da grande amizade e admiração que manteve com o compositor polonês, já estaria cansado de ouvir a conhecida obra. Em relação à mesmice repertorial, Amy Fay cita aquele que mais lhe transmitiu ensinamentos técnico-pianísticos, Ludwig Deppe, que também foi regente, diretor da Ópera Real e professor de piano da Imperatriz da Alemanha. Uma aluna apresentou ao maestro o Concerto para piano e orquestra nº 5 de Beethoven. Comenta a missivista “Ela havia preparado o grande concerto em mi bemol de Beethoven, que todos tocam aqui. Deppe sentiu, ao ouvi-la, o mesmo enfado e dificuldades que Liszt no que se refere ao scherzo em si bemol de Chopin. ‘Pobres regentes somos nós!’ diz ele, continuarão os artistas a nos trazer sempre o concerto em mi bemol de Beethoven? … Hoje todo mundo quer o grande repertório. A grande torrente rápida está na moda, mas quem pode simbolizar no seu toque o riacho e suas ondulações e as rugas graciosas nesse oscilar delicado! Ninguém mais destina sua interpretação a essas bonitas passagens”. Amy Fay ainda observa: “Contudo, o professr Deppe escutou pacientemente, pela milésima vez, o concerto em mi bemol que a jovem Steiniger apresentou”. O leitor poderá observar que a repetição repertorial, que reiteradamente tenho criticado, não é prática recente, mas tendência que se prolonga por bem mais de dois séculos!

Para um músico, sobretudo pianista, o conjunto epistolar de Amy Fay, escrito na Alemanha durante os anos de estudos, revela as tipicidades ainda existentes na transmissão professor aluno, quando em nível elevado. Tausig, jovem, impetuoso e pianista destacado, é apresentado com características pedagógicas a depender de provável “ciclotimia”. Kullak, autor de tantos métodos de piano, mormente os estudos de oitavas, surge como mestre capaz de solucionar os problemas do aluno através do exemplo em sala de aula. Liszt, generoso, atencioso, mas a atentar para as grandes linhas de uma obra, tem a aura do demiurgo. Seria contudo Deppe o professor que, sur le tard, propiciaria o trabalho técnico-pianístico laboratorial que se fazia necessário. Amy Fay teve não só de refazer desde exercícios e estudos que são a base do aprendizado de todo pianista, como, a partir de observação arguta, transmiti-los por escrito à sua irmã. Basicamente, a técnica dos cinco dedos apreendendo na abrangência escalas, arpejos, acordes, assim como a posição correta das mãos, articulação, relaxamento para a melhor execução e pedal representariam um regresso aos “princípios”, após ter trabalhado com mestres excelsos. Em nenhum instante se insurge contra o fato, apenas lamenta não ter iniciado o seu aperfeiçoamento na Alemanha pela orientação de Deppe. Considere-se que esses princípios fundamentais de Deppe são ainda muitíssimo válidos.

Se o livro é riquíssimo nessas observações que passam ao largo dos tratados de história ou das biografias, pois vivenciadas  por observadora sensível e atenta, não descartemos determinados tópicos de humor. Escreve Amy Fay na carta enviada à irmã da cidade de Weimar no dia 24 de Julho de 1873: “Segunda-feira tive um dos mais agradáveis tête à tête com Liszt, motivado pelo acaso. Tive a oportunidade de ir ao seu encontro e, coisa estranha, ele estava só, ocupado na escrita. Insistiu para que ficasse alguns instantes e tivemos uma conversa alegre e descontraída. Era a primeira vez que eu conseguia conversar realmente com Liszt. Ele estava bem espirituoso. Falamos da faculdade da mímica e ele contou-me uma anedota bem divertida sobre Chopin. Disse-me que, quando jovem, alguém revelara-lhe que Chopin tinha um dom de imitar personagens. Pediu, pois, que o amigo viesse à sua casa evidenciar essa habilidade. Certo dia Chopin o visita, coloca uma peruca loira e se veste com a indumentária de Liszt. ‘Eu era bem loiro nessa época, disse Liszt. Tendo um de meus amigos chegado,  Chopin foi ao seu encontro a imitar de maneira tão perfeita a minha voz que o visitante, acreditando dirigir-se a mim,  marcou um encontro para o dia seguinte. E eu estava no quarto. Não é extraordinário?’, completou”.

Quantas não foram as trocas de cartas entre estudantes fora de seus lares com familiares? Quantas obras não ficaram no ostracismo o mais abissal? Várias foram as confluências que levaram Music Study in Germany à grande difusão. Primeiramente, deve-se à irmã da autora, Harriet Melusina Fay, a edição, em 1880, da correspondência epistolar selecionada.  Outros fatores, como as qualidades de observação e redação de Amy Fay; os seis anos na Alemanha, um dos centros referencias para a música na Europa; conseguir ser aceita em classes de professores de primeiríssima linha e que permaneceram na história da música, como Liszt e Tausig na performance e Kullak e Deppe na didática; haver conhecido Wagner, Hans von Bülow, Joachim, Clara Schumann, Anton Rubinstein e tantos outros e deles traçar perfis acentuados; comentar recitais e concertos; narrar interiores das casas e a culinária típica; discernir costumes e o pulsar das cidades por onde passou; interpretar coleguismo e outros  pormenores vistos e assimilados fazem da obra em apreço, lida por mim na tradução francesa publicada em 1907, uma narrativa real. Seus personagens flutuam desde então na imensa bibliografia sobre música, sempre in progress. Verdadeiro deleite para o leitor. O livro pode ser encontrado através da internet nos sites especializados, pois continua a ser editado na língua inglesa. 

My comments on the book “Music Study in Germany”, written by the American pianist Amy Fay, in which – through letters written to her sister – she gives a vivid account of her music studies abroad from 1869 to 1875. The volume has had countless reissues and it can be explained by the fact that Amy Fay studied with la crème de la crème of those days: Franz Liszt, Theodor Kullak, Carl Tausig, Ludwig Deppe. She also went to concerts of celebrated musicians of the time, like Wagner, Anton Rubinstein, Clara Schumann. Observant, she offers little known details of her teachers’ methods and personalities, impressions of her concert-going experiences and of German customs and manners. A delightful detailed portrait of an era with an endless stream of luminaries, highly recommended for classical music enthusiasts.