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Missivas Cativantes de Musicista Norte-Americana

Posso afirmar que este livro é um bom livro,
tão bom como Charles Auchester, meu romance preferido,
e espero que ele fará compreender aos jovens que,
para se chegar ao conhecimento pleno de qualquer arte,
há a necessidade de muitos anos de estudo, de esforços e de disciplina.
O poeta H.W. Longfellow (1807-1882) ao editor das cartas,
após ter ouvido a leitura do manuscrito.

A literatura sobre música escrita durante o vasto período romântico tem características específicas. As biografias salientam a presença do herói, os escritos sobre a história apresentam períodos idealizados e as brisas românticas parecem circular em espaços etéreos. Compositores que deixaram larga produção epistolar debruçam-se sobre afetos os mais variados, mudanças de humor, nostalgia e dor. A troca de cartas entre memorialistas natos bem evidencia um universo muito distante de nossa atualidade.

Durante minha formação em Paris, na transição dos anos 1950-1960, um de meus prazeres era buscar nos bouquinistes livros que me pudessem entreter nos momentos de descontração. Obras epistolares me interessavam muito e lembro-me da  leitura das cartas de um mestre da língua francesa, Gustave Flaubert (1821-1880), ao seu colega russo, o poeta e escritor Ivan Turgueniev (1818-1883); a riquíssima troca de correspondências entre Wagner e Liszt, entre tantas outras obras do gênero. Aprende-se muito com essas confissões que se metamorfoseiam ao passar para personagens criados, literária e musicalmente. Em uma das investidas, encontrei o livro Music Study in Germany, na tradução francesa de Mme B. Sourdillon do original em inglês, sob o título Lettres d’une Musicienne Américaine (Paris, Dujarric, 1907, 299 pgs.). Interessou-me, li alguns trechos, mas em plena época de estudos pianísticos que chegavam, por vezes, a dez horas diárias, posterguei a leitura para… mais tarde. Chamou-me a atenção àquela época o precioso prefácio do ilustre compositor francês Vincent d’Indy (1851-1931) que, estando na Alemanha para estudos, conhece fortuitamente Amy Fay. Tantas outras literaturas percorridas durante décadas e o livro de Amy Fay acabaria em uma estante, bem ao alto. Há poucos meses, buscando outra obra a fim de fundamentar um texto, encontrei ao fundo de prateleira as cartas de Amy Fay à sua irmã Harriet Melusina Fay (Zina), primeira mulher do ilustre Charles S. Peirce (1839-1914), lógico, filósofo, matemático e também conhecido como o “pai do pragmatismo”.

Se a trajetória de Amy Fay, após a permanência durante  anos na Alemanha a partir de 1869, a fim de estudar piano, seria muito profícua não apenas para a didática pianística, mas através de incontáveis passos empreendidos no desiderato de fazer ver à sociedade o relevante papel que a mulher teria de desempenhar, considere-se que a força dessa valorosa musicista teria vindo desses anos a trabalhar seu instrumento com alguns dos maiores mestres do período.

O livro é simplesmente delicioso e traz a cada página traços marcantes das personalidades das figuras ilustres e de estudantes seus colegas, da vida musical em Berlin e Weimar, dos concertos e saraus, dos interiores das casas, dos passeios empreendidos, um deles com sua irmã e Charles Peirce. Diálogos mantidos com músicos relevantes dão a veracidade que pode ser comprovada através de estudos realizados, mormente a partir da segunda metade do século XX, por historiadores e musicólogos.

Foi uma privilegiada ao estudar com mestres como Carl Tausig (1841-1871), Theodor Kullak (1818-1882), Franz Liszt (1811-1886) e Ludwig Deppe (1828-1890). Ao visitar Friedrick Wieck (1785-1873), pai de Clara Schumann, comenta inclusive alguns aspectos ligados à sua didática. Debruça-se sobre cada professor e seus ensinamentos, distingue claramente métodos de ensino, características humanas no trato com alunos, interpretação de notáveis músicos como Joseph Joachim (1831-1907), Clara Schumann (1819-1896), Anton Rubinstein (1829-1894), Hans von Bülow (1830-1894), e capta na essência o perfil psicológico de um compositor que  admirava, mas de temperamento complexo, Richard Wagner (1813-1883).

O livro reúne parte considerável da correspondência à irmã, pois as mais íntimas não foram selecionadas por Zina. Não obstante, importa considerar que o panorama pianístico interpretativo e pedagógico, através da qualidade dos personagens, está nitidamente delineado.

Amy Fay, nesses anos germânicos, relata preferencialmente suas impressões musicais como estudante de piano, ouvinte e observadora da vida nas cidades em que esteve. É minuciosa ao  olhar para os interiores das casas, dos quartos, dos salões, pois nada lhe passa desapercebido. Sob aspecto outro, tem o gosto pela natureza e por vezes a descreve. Seria contudo no imenso conteúdo verossímil, e não tratado nos muitos compêndios biográficos ou da história da música, que a coletânea de cartas de Amy Fay adquire importância imensa, a apontar para as dezenas de edições nos Estados Unidos, assim como nas várias traduções feitas da obra.

Através do relato de Fay pode-se entender que pouco teria mudado em muitas das práticas didático-musicais. A denominada master class era algo habitual nos cursos oferecidos por Tausig, Kullak e Liszt, como exemplos. Reuniam alunos escolhidos, tutelados ou não, amigos e  visitantes.  Quanto ao repertório, as Sonatas de Beethoven, obras de Schumann, Chopin e Liszt eram as mais frequentadas. A missivista citou a irritação de Liszt quando uma aluna apresentou-lhe o Scherzo em si bemol menor de Chopin, pois, apesar da grande amizade e admiração que manteve com o compositor polonês, já estaria cansado de ouvir a conhecida obra. Em relação à mesmice repertorial, Amy Fay cita aquele que mais lhe transmitiu ensinamentos técnico-pianísticos, Ludwig Deppe, que também foi regente, diretor da Ópera Real e professor de piano da Imperatriz da Alemanha. Uma aluna apresentou ao maestro o Concerto para piano e orquestra nº 5 de Beethoven. Comenta a missivista “Ela havia preparado o grande concerto em mi bemol de Beethoven, que todos tocam aqui. Deppe sentiu, ao ouvi-la, o mesmo enfado e dificuldades que Liszt no que se refere ao scherzo em si bemol de Chopin. ‘Pobres regentes somos nós!’ diz ele, continuarão os artistas a nos trazer sempre o concerto em mi bemol de Beethoven? … Hoje todo mundo quer o grande repertório. A grande torrente rápida está na moda, mas quem pode simbolizar no seu toque o riacho e suas ondulações e as rugas graciosas nesse oscilar delicado! Ninguém mais destina sua interpretação a essas bonitas passagens”. Amy Fay ainda observa: “Contudo, o professr Deppe escutou pacientemente, pela milésima vez, o concerto em mi bemol que a jovem Steiniger apresentou”. O leitor poderá observar que a repetição repertorial, que reiteradamente tenho criticado, não é prática recente, mas tendência que se prolonga por bem mais de dois séculos!

Para um músico, sobretudo pianista, o conjunto epistolar de Amy Fay, escrito na Alemanha durante os anos de estudos, revela as tipicidades ainda existentes na transmissão professor aluno, quando em nível elevado. Tausig, jovem, impetuoso e pianista destacado, é apresentado com características pedagógicas a depender de provável “ciclotimia”. Kullak, autor de tantos métodos de piano, mormente os estudos de oitavas, surge como mestre capaz de solucionar os problemas do aluno através do exemplo em sala de aula. Liszt, generoso, atencioso, mas a atentar para as grandes linhas de uma obra, tem a aura do demiurgo. Seria contudo Deppe o professor que, sur le tard, propiciaria o trabalho técnico-pianístico laboratorial que se fazia necessário. Amy Fay teve não só de refazer desde exercícios e estudos que são a base do aprendizado de todo pianista, como, a partir de observação arguta, transmiti-los por escrito à sua irmã. Basicamente, a técnica dos cinco dedos apreendendo na abrangência escalas, arpejos, acordes, assim como a posição correta das mãos, articulação, relaxamento para a melhor execução e pedal representariam um regresso aos “princípios”, após ter trabalhado com mestres excelsos. Em nenhum instante se insurge contra o fato, apenas lamenta não ter iniciado o seu aperfeiçoamento na Alemanha pela orientação de Deppe. Considere-se que esses princípios fundamentais de Deppe são ainda muitíssimo válidos.

Se o livro é riquíssimo nessas observações que passam ao largo dos tratados de história ou das biografias, pois vivenciadas  por observadora sensível e atenta, não descartemos determinados tópicos de humor. Escreve Amy Fay na carta enviada à irmã da cidade de Weimar no dia 24 de Julho de 1873: “Segunda-feira tive um dos mais agradáveis tête à tête com Liszt, motivado pelo acaso. Tive a oportunidade de ir ao seu encontro e, coisa estranha, ele estava só, ocupado na escrita. Insistiu para que ficasse alguns instantes e tivemos uma conversa alegre e descontraída. Era a primeira vez que eu conseguia conversar realmente com Liszt. Ele estava bem espirituoso. Falamos da faculdade da mímica e ele contou-me uma anedota bem divertida sobre Chopin. Disse-me que, quando jovem, alguém revelara-lhe que Chopin tinha um dom de imitar personagens. Pediu, pois, que o amigo viesse à sua casa evidenciar essa habilidade. Certo dia Chopin o visita, coloca uma peruca loira e se veste com a indumentária de Liszt. ‘Eu era bem loiro nessa época, disse Liszt. Tendo um de meus amigos chegado,  Chopin foi ao seu encontro a imitar de maneira tão perfeita a minha voz que o visitante, acreditando dirigir-se a mim,  marcou um encontro para o dia seguinte. E eu estava no quarto. Não é extraordinário?’, completou”.

Quantas não foram as trocas de cartas entre estudantes fora de seus lares com familiares? Quantas obras não ficaram no ostracismo o mais abissal? Várias foram as confluências que levaram Music Study in Germany à grande difusão. Primeiramente, deve-se à irmã da autora, Harriet Melusina Fay, a edição, em 1880, da correspondência epistolar selecionada.  Outros fatores, como as qualidades de observação e redação de Amy Fay; os seis anos na Alemanha, um dos centros referencias para a música na Europa; conseguir ser aceita em classes de professores de primeiríssima linha e que permaneceram na história da música, como Liszt e Tausig na performance e Kullak e Deppe na didática; haver conhecido Wagner, Hans von Bülow, Joachim, Clara Schumann, Anton Rubinstein e tantos outros e deles traçar perfis acentuados; comentar recitais e concertos; narrar interiores das casas e a culinária típica; discernir costumes e o pulsar das cidades por onde passou; interpretar coleguismo e outros  pormenores vistos e assimilados fazem da obra em apreço, lida por mim na tradução francesa publicada em 1907, uma narrativa real. Seus personagens flutuam desde então na imensa bibliografia sobre música, sempre in progress. Verdadeiro deleite para o leitor. O livro pode ser encontrado através da internet nos sites especializados, pois continua a ser editado na língua inglesa. 

My comments on the book “Music Study in Germany”, written by the American pianist Amy Fay, in which – through letters written to her sister – she gives a vivid account of her music studies abroad from 1869 to 1875. The volume has had countless reissues and it can be explained by the fact that Amy Fay studied with la crème de la crème of those days: Franz Liszt, Theodor Kullak, Carl Tausig, Ludwig Deppe. She also went to concerts of celebrated musicians of the time, like Wagner, Anton Rubinstein, Clara Schumann. Observant, she offers little known details of her teachers’ methods and personalities, impressions of her concert-going experiences and of German customs and manners. A delightful detailed portrait of an era with an endless stream of luminaries, highly recommended for classical music enthusiasts.

 

René Desmaison e sua Incríveis Performances

Récompense suprême d’une incompréhensible passion.
René Desmaison

Não são poucos os posts sobre montanhismo. Reiteradas vezes tenho confessado meu fascínio sobre o tema, mormente quando escrito por competentes alpinistas que viveram experiências dramáticas, trágicas ou triunfantes. Creio que a vida em parte sedentária faz-me viajar no imaginário, desde a juventude, a paraísos impossíveis. Intrépidos aventureiros, “conquistadores do inútil”,  segundo Lionel Terray, têm narrativas não desprovidas da presença da morte à espreita, sempre, proporcionando ao leitor que aprecia essa literatura momentos de profundo interesse. Já desfilaram em posts anteriores Jan Krakauer, João Garcia, Waldemar Niclevics, Vitor Negrete, Sylvan Tesson e André Poussin (sob outra égide), Maurice Herzog, Jamling Tensing Norgay, Thomaz Brandolin, narrativas sobre Malory e Irvine e mais outras histórias. Mínima literatura, que está a se enriquecer paulatinamente.

Quase todos os temas dos livros percorridos buscam os  altos cumes do planeta, os denominados 14 acima dos 8.000m. O homem a buscar quase imperiosamente o desafio frente à morte, a preferenciar o pico mais elevado. Tanto é verdade que o Everest (8.848m) é incomensuravelmente mais procurado por alpinistas profissionais e amadores do que o K2 (8.611), a pouco menos de duas centenas de metros abaixo. Recordes como metas. Ilusões que se concretizam ou se desfazem, por vezes tragicamente. Todavia, é cada vez maior a vontade do risco empreendida por alpinistas de toda sorte. Há pouco escrevi sobre o excepcional alpinista português João Garcia, que conseguiu atingir os 14 cumes acima dos 8.000m. Enviou-me gentil carta, o que muito me honra.

Geralmente, os livros sobre grandes aventuras nas montanhas partem do projeto a ser realizado, dos preparativos, da empreitada, do êxito ou da desilusão. René Desmaison (1930-2007), em seu livro Les Forces de la Montagne (Paris, Hoëbeke, 2006, 381 pgs.), teve a feliz ideia de nos fazer conhecer as origens originárias de sua vocação absoluta pelas montanhas, a escolher majoritariamente os temíveis paredões. Sua infância já estaria marcada por determinadas rebeldias e atrações pelas pequenas alturas, peraltices inusitadas, desavenças em sala de aula, enfim, René foi um verdadeiro enfant terrible. A morte da mãe obrigou-o a seguir seu padrinho a Paris. Amizades da juventude levaram-no até os rochedos de Fontainebleau e a paixão pelas desafiadoras montanhas instalou-se. A performance de Desmaison ao longo de sua vida ativa como alpinista é notável. Cerca de 1.000 escaladas, sendo 114 como pioneiro! Alpes, Himalaia, Andes foram conquistados, mormente a infinidade de picos alpinos. Motivos vários o impediram em 1959 de chegar ao topo do  Jannu (7.710m na cordilheira himalaia), considerado de muita dificuldade, tendo alcançado 7.350m com seus colegas. Em 1962, uma segunda investida com sucesso ficaria gravada indelevelmente. Picos andinos do Peru foram escalados após ter-se notabilizado nas conquistas alpinas.

As narrativas de René Desmaison prendem a atenção do leitor. Curiosamente, não se concentrou nas altas montanhas do Himalaia, mas preferencialmente nos complicadíssimos paredões dos Alpes. Picos já conquistados, se não o fossem pelas vias mais complexas, encontrariam em Desmaison o aventureiro a tentar o acesso improvável, o paredão que está sujeito à quantidade de adversidades como queda de blocos de gelo, de pedras que tantas vezes têm levado cordadas inteiras precipício abaixo.

Nesse aspecto, impressiona o número de amigos e colegas que o autor nomeia que perderam a vida em trágicas ascensões. Enumera-os e cada morte para Desmaison é quase o apelo para que continue, ao menos in memoriam. Quando nas montanhas, “a morte pode acontecer no momento que ela desejar, naquele menos esperado”, como afirma. Em Les Forces de la Montagne são inúmeros os capítulos reservados às tragédias: Jean Couzy, La mort en face, Équipée tragique au pilier Central du Freney, Les naufragés des Drus, Ascension vers l’enfer. Vitórias e tragédias são narradas com a mesma precisão por Desmaison, que chega a pormenorizar todos os procedimentos das subidas. Jean Couzy (1923-1958) foi companheiro de várias cordadas e morreria em outra aventura alpina; muitos de seus amigos sucumbiriam numa avalanche no pilar central do Freney, no Mont Blanc; o salvamento de dois alemães no difícil paredão do Drus, quando outros haviam sucumbido, são relatos minuciosos. Neste episódio, Desmaison desobedece ordens superiores, parte para o salvamento e é desligado da Companhia da qual fazia parte.

Digno de registro, Ascension vers l’enfer, inserido no livro, já rendera anteriormente uma das mais lidas obras de Desmaison, 342 Heures dans les Grandes Jorasses. O autor não mais desejava retornar ao tema, mas, a conselho de seu editor Lionel Hoëbeke, regressa àquela que se tornaria a aventura que mais o marcou durante toda a existência como alpinista e após a “aposentadoria”. Tratava-se da abertura de uma via nordeste da “ponta” Walker, nas Grandes Jorasses. Na trágica escalada ao pico, iniciada aos 10 de Fevereiro de 1971, em um temível paredão de 1.200m, após dias de intensas adversidades climáticas, seu companheiro de cordada, o jovem Serge Gousseault (1947-1971), morre de exaustão,  a evidenciar indícios que se acentuavam, como lentidão quanto ao acesso, inchaço nas mãos, falta de víveres, inanição. Desmaison permaneceria “grudado” no paredão  ao lado de seu finado amigo durante dias, a pouco mais de 80 metros do pico de 4.208m. Apesar de sinalizar para os pilotos dos helicópteros que decolaram de Chamonix, alegou-se que ventava muito. Só após a decolagem de um Alouette III do heliporto de Grenoble, aos 25 de Fevereiro, houve a possibilidade do resgate. O piloto Alain Frébault e o mecânico Roland Pin apesar de desconhecerem o trajeto conseguiram pousar numa outra face do paredão, a 4.133m, resgatando o corpo de Gousseault e Desmaison em estado deplorável. Inúmeras controvérsias  formaram-se sobre o trágico acontecimento e estão, ainda hoje, a alimentar especulações. Dois anos mais tarde, René refaz com sucesso a ascensão invernal completa da face norte da ponta Walker, caminho doravante denominado voie Gousseault. Desta vez, a cordada era composta dos experientes Desmaison, Giorgio Bertone e Michel Claret, que morreria pouco tempo após numa escalada solitária.

René Desmaison teria de enfrentar várias polêmicas. No affaire Drus, consideraram que preparava material sobre o resgate dos dois alemães para ser vendido à revista Paris Match; no das Grandes  Jorasses, acusaram-no de ter levado consigo, numa cordada arriscada, um jovem não muito experiente e não ter observado melhor o deteriorar físico de Gousseault. Em outra oportunidade, ter escalado o Mont Blanc e lá instalado material publicitário filmado por helicóptero. Todos esses acontecimentos são suficientemente defendidos por Desmaison em La Force de la Montagne com diplomacia, diria. Contudo, no caso das Grandes Jorasses, a participação do primeiro alpinista a escalar um 8.000m (Annapurna), Maurice Herzog -  prefeito de Chamonix quando da tragédia em 1971 -, ao alegar publicamente que fortes ventos impediam o resgate,  foi amplamente questionada quanto às reais intenções dessas afirmações, o que favoreceria as atitudes de Desmaison. Frise-se uma reconhecida animosidade entre os dois, fato que alimentou o affaire. Entre os muitos links que podem ser acessados pelo leitor, recomendaria um bem incisivo a respeito da triste cordada:

http://ghirardini.blogspot.com.br/2011/05/serge-gousseault-un-jeune-guide.html

Uma visita à África e a narração de certos costumes, assim como as quatro viagens andinas, quando realiza as primeiras escaladas da face sul e sudoeste do Huandoy, nos Andes peruanos, entre 1976 e 1979, encerram esse instigante livro biográfico, narrado com os pormenores mais precisos em relação a cada passo das tantas aventuras, com espírito de fraternidade em relação aos seus colegas de cordada e, por vezes, com certa dose de humor. Fica também a narrativa da natureza em suas manifestações mais antagônicas: tempestades de neve, tormentas, quedas de séracs, avalanches, contemplação do céu imaculado, visão nas alturas das distâncias imensas, as várias colorações dos espaços percorridos pelo olhar. Livro pleno de interesse.

In this post I comment on the book “Les Forces de la Montagne”, written by the French alpinist René Desmaison (1930-2007), in which he gives an account of an entire life dedicated to mountain climbing: he explains the roots of his strong inclination for mountaineering, talks about his ascents of the Alps, the Andes and the Himalayas, the new routes he has opened, the death of many friends, the controversy of the Grandes Jorasses, his epic climbing of the mountain in the Mount Blanc massif that saw the death of his partner Serge Gousseault. Desmaison also describes nature in all its contradictory manifestations: snow storms, fall of seracs, avalanches, clear skies, endless horizons with a myriad of colors. A fascinating book for lovers of adventure stories.

     

O Pensamento Crítico de François Servenière

A entidade musical apresenta, pois, essa estranha singularidade de apreender dois aspectos:
existir sucessivamente e de maneira distinta sob duas formas,
separadas uma da outra pelo silêncio do nada.
Essa natureza particular da música comanda sua vida própria e suas repercussões na vida social,
pois ela supõe duas espécies de músicos: o criador e o executante.
Igor Stravinsky 

Nenhuma obra de arte existe sem um sentido,
e o belo parece-me precisamente residir
na realização mais ou menos plena desse sentido.
João José Cochofel 

Em post bem anterior a focalizar a personalidade do compositor e orquestrador francês François Servenière destacava seu pensar e julgamento crítico. O lançamento, em Maio último, do álbum a conter dois CDs com obras do compositor português Fernando Lopes-Graça ensejou Servenière a escrever a crítica analítica das importantes obras nele contidas. Esgotada a primeira edição de Une Réflexion sur la discographie du pianiste brésilien José Eduardo Martins (São Paulo, Giordanus, 2011), pensamos, o cuidadoso editor e amigo Cláudio Giordano e eu, numa segunda, a incorporar o novo julgamento e também a corrigir pequenos equívocos de revisão da precedente edição.

Quando da publicação em 2011, François e eu, a partir de laços que se tornariam perenes, passamos a manter uma correspondência semanal intensa. Após a leitura de meus posts, Servenière os traduz na “potável” versão apresentada pelo Google e tece suas considerações. Basicamente, a condição do homem na atualidade; a música e seus caminhos por vezes sem saída e, no caso, minimamente ouvida por nichos tonitruantes; o compositor e o intérprete, suas íntimas ligações e o papel dessas duas únicas entidades que referendam a música, segundo  Igor Stravinsky; o compositor a ouvir o seu tempo, mas imbuído das referências históricas eleitas e o intérprete diante de opções entre os holofotes ou o recolhimento voltado ao aprofundamento; as políticas de nossos dois países, onde a corrupção, tanto em França como no Brasil, está a fazer parte do cotidiano, o que representa uma chaga sem cicatrização previsível; a natureza e suas manifestações voltadas ao belo ou às periódicas catástrofes; o terrorismo que grassa pelo mundo; a insatisfação dos povos; a deteriorização do idioma e… dos costumes; o bem e o mal e, a preponderar, o sentido inefável da família.  

A publicação atual permanece em francês. Teria eu de fazer a tradução. Conhecendo a qualidade vernacular de Servenière, certamente o faria com o maior cuidado possível. Infelizmente, ainda não encontrei a disponibilidade para tal mister, pensando contudo um dia verter suas Réflexions… para o português.

Em tantos posts anteriores frisei a problemática da crítica musical no Brasil,  hoje num impasse autêntico. Aliás, há décadas tenho escrito a respeito dessa quase que absoluta ausência do conhecimento musical por parte da “crítica” ou de articulistas, exceptuando-se raridades, seja no campo da composição, da interpretação ou da análise, entendendo-se, neste último caso, o conhecimento das duas outras práticas, mesmo que limitadas por motivos variados. Sob outro aspecto, a presença constante de não músicos escrevendo assiduamente sobre música tem provocado equívocos sensíveis em textos que dificilmente seriam aceitos alhures.  Não há, por parte de leitores de periódicos ou revistas, o hábito de apontar criticamente essas falhas. Aceita-se o equívoco. Infiltra-se a anestesia. Assim sendo, o simulacro perdura. Nada a fazer, creio eu, a não ser que mentes esclarecidas busquem a competência possível de ser encontrada entre tantos excelentes músicos, digo músicos, espalhados pelo país. A mídia teria interesse em procurar esses esclarecidos profissionais disponíveis? A insuficiência do conhecimento tendo continuação faz com que holofotes se dirijam à mesmice institucionalizada.

Quando François Servenière se debruçou sobre meus CDs, após nosso primeiro encontro em Paris no início de 2011, fê-lo a surpreender o intérprete que aguardava apenas um e-mail que apontasse suas ponderações. Publiquei suas reflexões no segundo semestre daquele ano. Contudo, pequenas falhas de digitação e mais a chegada de uma apreciação sobre o álbum Lopes-Graça estimularam a feitura dessa segunda edição.

A pensar num prefácio para a publicação em apreço, várias ideias vieram-me a mente. A linha coerente de Servenière, igualmente seguida para o álbum Lopes-Graça, tem o olhar  analítico de um lince.  Perfaz-se a unidade que doravante passa a existir, pois a abranger a opera omnia de minhas gravações no Exterior. A importância das considerações pormenorizadas de Servenière, que, segundo amigos músicos da França, Portugal, Holanda e Bélgica, parece ser inédita, pois a abranger o todo gravado por um intérprete, revela, sobre aspecto outro, o pensar enciclopédico do músico.

Incluo, pois, as “Notas a esta edição”, que precedem a segunda edição. 

 “Em Junho de 2012 era lançado em Portugal  o álbum a conter dois CDs inteiramente dedicados às obras para piano do notável compositor nascido em Tomar, Fernando Lopes-Graça (1906-1994), três delas inéditas em termos de registro fonográfico. Gravei-o em 2010 na mística capela Sint-Hilarius em Mullem, na Bélgica Flamenga. Compareci ao lançamento durante tournée pelo país. Sob o prestígio do selo PortugalSom, os CDs indicam a diversificação  na extraordinária criação de Lopes-Graça.

De Lisboa enviei a alguns amigos franceses e belgas o álbum em questão. François Servenière, após acurada escuta por mais de uma vez, encaminhou-me texto crítico que se vem somar às Réflexions… anteriores. O espírito detalhista do compositor-pensador se, sob um prisma, concentrou-se demoradamente no magistral Canto de Amor e de Morte, cumeeira da criação portuguesa, analisou, sob a égide histórico-sócio-musical, as Músicas Fúnebres e, sob fundamento geográfico-musical,  a coletânea Cosmorama, sem excluir a mínima peça de Música de Piano para Crianças. Todas elas estão focalizadas sob a profunda admiração do músico francês pela obra do grande compositor-pensador português que é Lopes-Graça, sem dúvida um dos maiores criadores do século XX em termos mundiais.

Nesse ano e meio de correspondência semanal chegamos a 500 páginas! Servenière comenta meus posts sobre os mais variados temas publicados no blog e devo a ele não apenas a possibilidade de diálogo com um notável músico reflexivo, mas também uma familiarização ainda mais intensa com a cultura de França. Frise-se que há comunhão quanto ao repertório pouco frequentado e Servenière defende com ardor as ‘redescobertas’ qualitativas que se contrapõem, ou melhor,  juntam-se,  em igualdade de condições, ao repertório sacralizado. Pretendemos um dia publicar nossa troca de missivas internéticas  regulares. Em uma delas tive a alegria de receber as partituras de um monumental trabalho, as suas 50 canções escritas ao longo dos últimos anos. Os quatro CDs que chegaram após dão conta da extrema diversificação no trato composicional desse singular autor.

É, pois, com imenso prazer que apresento a segunda edição ampliada dos escritos críticos sobre minhas gravações, pensadas e analisadas por um músico autêntico”.

This post is about the second edition of Françoise Servenière’s reflections upon my discography (all CDs recorded abroad). This updated edition includes his analysis of my last album with works by Lopes-Graça, released last May in Portugal.