Navegando Posts em Literatura

Para Facilitar Acessos

Charge de Luca Vitali. Clique para ampliar.

Compreender é rodear, mas também penetrar,
e, quando renunciamos a colocar alguma coisa em um círculo,
há a chance de se chegar ao seu centro, ou seja,
uma outra maneira de tecer explicações.
Tentemos este segundo procedimento,
que nos é mais acessível.

Henri-Fréderic Amiel

Magnus me propõe: “porque não ter no menu do blog um item destinado aos livros que você leu, comentou ou resenhou? Creio que o leitor poderá, através de uma listagem, obter, inclusive, conhecimento maior de suas preferências”. Confesso que hesitei inicialmente. Aliás, é muito difícil ter eu uma decisão imediata sobre qualquer coisa. Questão inalienável de estilo. Mas, após pensar, telefonei ao fiel amigo, a dizer que aceitara a sugestão. Finalizei a lista a partir do primeiro blog, datado de Março de 2007.
A elaboração trouxe-me várias certezas. Primeiramente, a de que há nítida preferência pelo multidirecionamento. Se livros de Música mostram-se em evidência, outros, voltados a diversas áreas, têm-me proporcionado agradável companhia. Romance, poesia, aventura, reflexões frequentaram nesses últimos anos o segmento Literatura do blog. Por vezes pormenorizei-me mais em determinado tema. Atração ou fascínio. Um autor, uma temática precisa, um gênero em especial. Nosso batimento cardíaco não é o mesmo durante o dia, assim também as escolhas podem oscilar. Uma só verdade, a constância, pois a leitura desde tenra idade faz parte de meu respirar.
Durante as décadas da vida acadêmica preferenciei bibliografia mais uniforme. Teses em andamento, orientações e livros concernentes à minha área. Ainda nesse longo período, não deixava de visitar as leituras paralelas. Enriqueciam-me, a partir do olhar diferenciado que delas emanava. Com a chegada da aposentadoria, o horizonte, livre de quaisquer névoas que pudessem ofuscar o descortino da vida restante, mostrou-se translúcido, e a inteira possibilidade do livre arbítrio, do retorno às escolhas literárias antes da Academia, antolharam-se-me como do prazer pleno. Prazer este que se estende de um livro profundo sobre música, sempre presente, à narrativa de um alpinista, a um conto singelo, à poesia que encanta, ou ao mistério da morte traduzido em tantos textos onde a incógnita se faz mestra, mormente nas interpretações que dela apreendem os sábios da região himalaia.
Para uma organização mínima dessa listagem busquei, no final de cada indicação bibliográfica, colocar a data em que a resenha ou comentário foi postado. Refiro-me aos dois. Resenhas, mesmo que bem tardias, preenchem basicamente um post integral, enquanto que comentários de livros são feitos, nada além de um parágrafo. Essa colocação explica a leitura da obra e a lembrança que vem à superfície quando determinado tema leva-me à consideração de conceito pertinente. Daí ter colocado um livro do grande pensador português Agostinho da Silva e um segundo sobre o autor, não resenhados, tampouco comentados como mereceriam, mas sempre citados em inúmeras epígrafes, preferencialmente quando um determinado assunto penetra uma profundidade maior. Visitação constante aos seus ensinamentos. Os deliciosos adágios açorianos, em dois volumes, encantaram-me desde os recitais que realizei nos Açores em 1992. Frequentemente sei que nas lombadas do vasto adagiário encontrarei a epígrafe que corresponde às intenções do texto. Populares, o conteúdo desses tomos presta-se às temáticas mais intrincadas. A menção aos dicionários de minha preferência fez-se necessária, pois continuo a ter certa idiossincrasia por outros, bem mais atualizados, que incluem neologismos que nos cercam, mas que estão distantes da precisão vernacular daqueles que merecem minhas permanentes consultas. Em outro enfoque, a mídia imperativa, a forçar termos de moda, tão logo estes caem em desuso torna rapidamente estiolado o efêmero. Contudo, não deixo de, por vezes, frequentar essas atualidades. Apesar de tê-las sob o olhar através da internet, nem sempre me aprazem.
Conversava com a querida amiga e colega acadêmica Jenny Aisenberg. Dizia-lhe que a liberdade que o blog me proporcionou faz com que a resenha, para mim, necessite da participação viva do autor a quem presto tributo. Entendo que as citações de trechos maiores ou menores de obra estudada propiciam, àqueles que porventura desconhecem o escritor, o conhecimento prévio de excertos, mesmo que selecionados por olhar particularizado. A resenha unicamente voltada à erudição pode extinguir-se na erudição, sobretudo quando ela vem acompanhada de notas de rodapé. Mal acadêmico necessário que, se de um lado esclarece, sob outro ângulo é a ferramenta utilizada na Universidade para a insuspeição e, sob outro mais – tantas vezes a depender de secretas intenções individuais -, traduz a nefasta erudição estereotipada. A presença da obra nessas preciosas citações que seleciono, sem notas pois, corresponde ao caminhar de mãos dadas com o autor homenageado. Diria, sem qualquer empáfia, que a sensação é a do diálogo, ele a jorrar o ensinamento, eu a tentar transmitir o que foi captado. Magnus entenderia que esse olhar em direção à inserção de segmento tem a ver com a minha prática musical, quando o intérprete está perenemente a olhar, a ouvir, a sentir e a tocar o discurso musical. A frase do autor como presença constante.
No menu à direita do blog há, a partir de agora, o item Resenhas e Comentários. O leitor terá, ao nele clicar, a lista por ordem alfabética das obras resenhadas ou comentadas. Sempre haverá a possibilidade de uma busca junto às livrarias físicas ou virtuais, ou até aos alfarrabistas, quando de obras fora de catálogo. Contudo, convido o leitor a escrever-me, via contact do site, se obra difícil de ser encontrada tornar-se porventura inacessível.
Livros continuam a chegar pelas mãos de amigos ou pela minha própria curiosidade. Obras de passado remoto ou mais próximo, que jamais foram por mim visitadas, são a salvaguarda de um debruçar em que a esperança de autores ascendentes pode também ser a nossa. Faz entender que, como observava Miguel Torga, um texto sempre tem precedente, alguém que já pensou aquilo que tentamos traduzir, mesmo que sob outra tonalidade. Inconscientemente, somos parte de uma construção sem fim aparente. Este só chegará quando o homem encontrar sua cadência interior, antítese daquele que não se preocupa com os pósteros, com a leitura, tampouco com os valores humanísticos, mas insiste em seus anseios de ganância que levam à destruição da espécie humana, homeopaticamente. Temos de acreditar, ainda.

The post of this week is a list of all the books that I commented since the beginning of this blog in March 2007, including also those that I have considered for the epigraphs.

“A Nova Ordem Estupidológica”

 Clique para ampliar.

… a exuberância dos fenômenos estupidológicos,
a sua extrema variedade,
a riqueza das suas realizações
ou a elegância dos seus refinamentos,
tudo nos faz encontrar na estupidez mais,
muito mais do que uma vacuidade,
uma ausência de inteligência.

Vitor J. Rodrigues

Sentados em uma praça no centro da Évora murada, Idalete Giga e eu tomávamos um café em tarde amena de fins de Maio último, horas antes de meu recital no Convento Nossa Senhora dos Remédios. Da música fomos para a irracionalidade encontrável hoje, em sentido ascendente, na sociedade moderna, onde valores são desprezados. O homem sofre crescentes aviltamentos de toda ordem, lamentáveis chagas rotineiras. Parte pulsante da coletividade está a entender que o ser humano vil não mede esforços no intuito de prevalecer sobre a sociedade. Diariamente convive-se com o descalabro, a mentira oficializada e os tacões, não só de coturnos periódicos, mas de calçados de grife, assim como com a insegurança ostensiva provocada por meliantes rápidos, espertos, insanos, estes a calçarem tênis. Foi quando a amiga e ilustre colega falou-me sobre dois livros do professor universitário e psicólogo clínico Vítor J. Rodrigues, Teoria Geral da Estupidez Humana (Lisboa, Livros Horizonte, 1992) e A Nova Ordem Estupidológica (Lisboa, Livros Horizonte, 1995). Ela entendia-os esgotados. Fomos a uma livraria na cidade alentejana e a funcionária conseguiu achar no almoxarifado os dois últimos exemplares. Idalete ainda tentou, via telemóvel, convidar o professor para o recital, mas este se encontrava em Paris, a participar de reunião científica.
Empregando uma metodologia a fazer certa a presença da “estupidez humana” – onipresente nas duas obras – frente à inteligência até indefesa, Vitor Rodrigues constrói uma teia em que majoritariamente a manifestação do homem passa por formas de estupidez x inteligência de toda ordem: individual, coletiva e nos mais diversos ramos da atividade. A estupidez estaria enraizada em todas as áreas, segundo ele. Contrapõe-se à inteligência sem aspirações ao carreirismo e ao poder. Como afirma o autor, “A estupidez, rainha dos assuntos humanos contemporâneos, faz sentir a sua superioridade confirmando, passo a passo, a incapacidade adaptativa dos inteligentes que, decididamente, continuam a ter grandes problemas sempre que procuram fazer valer a sua característica dominante”. Esses cidadãos teriam diretrizes quanto aos desideratos, mas, mercê da inteligência despojada, não procuram benefícios pessoais e poder. O contrário leva à instauração daquilo que Rodrigues admite como estupidologia. O termo e seus derivados, existentes ou neologismos, frequentam abusivamente as duas obras. Há fixação clara, compulsiva, a não permitir a possibilidade do desvio. Os parágrafos não se esquecem da palavra. Seguir o roteiro parcial dos dois livros permite ao leitor acompanhar e entender o discurso do psicólogo clínico como, até, visionário. Se sob um aspecto dialoga com a inteligência e a estupidez, friso, por ele proposta, sob aspecto outro por vezes realiza a “sinistra apologia” dessa estupidez como realidade absoluta, hélas, sem retorno.
Faz-se necessária pois, neste post, a menção de inúmeros segmentos das obras, a fim de que o leitor capte essa imersão realizada pelo professor em tema polêmico. Entende que a humanidade está frente à decisiva era da estupidez humana. Essa ordem estupidológica tenderia à antropofagia. Para se obter algo na sociedade, a mentalidade estúpida deveria ser a regra. Afirma Vitor J. Rodrigues sobre os inteligentes: “Andam isolados porque ninguém os entende, quando não os põem de quarentena para evitar que alguém chegue a entendê-los. Por sua vez, a obra que deixam é quase sempre deturpada e utilizada para fins que nem afloravam à imaginação de seus autores”.
O psicólogo clínico realiza as suas experiências e as traduz. Caso típico é a interpretação feita pelos vários grupos de indivíduos, previamente selecionados, a respeito da Alegoria da Caverna, do pensador grego Platão. Os resultados para ele são significativos e ajudam, em parte, a construção de seu discurso.
Se o primeiro volume apresenta-se doutrinário, o segundo pormenoriza diversas áreas. A extensão da obra levou-me a escolher três capítulos essenciais e atemporais: A Estupidez Artística, do primeiro volume, O Assalto ao Poder e O Assalto às Universidades, estes, do segundo. Há, contudo, outros “assaltos” que, na essência, têm no vocabulário monotemático do professor – mas a levar à reflexão – o debruçar atento: Religião, Psicologia, Medicina e, a finalizar, A Arma Nuclear da Inteligência.
Vitor Rodrigues aborda em A estupidez Artística, o que considera o “… lado estético da estupidez, sem dúvida uma das suas manifestações simultaneamente mais diáfanas e mais poderosas”. Haveria sempre aqueles que se sobrepõem a outros, não pelo talento real, mas por caminhos estranhos: “Assim, a arte estúpida deve tomar a aparência de busca da beleza inteligente para poder conduzir o Homem ao estreitamento mental”. É cáustico ao afirmar que “… o artista estúpido não tem musa: tem-se a si mesmo enquanto personalidade curta.” Ao se debruçar sobre a música não poupa crítica à sua massificação exacerbada, graças a um tipo de “músico” que visa diretamente à grande aceitação pública. Esse músico estúpido, assim nomeado pelo autor, prende-se a oito preceitos: Exclusão da verdadeira criatividade; Semelhança (“… o artista estúpido se esforça por estar atento aos fenômenos do seu egocentrismo naquilo que eles têm de ressonante em relação às mais baixas paixões susceptíveis de agitar a multidão”); Ritmo; Harmonia (“… mesmo quando pareça harmônica, a música estúpida deverá conservar um caráter de excesso desequilibrante”); Mensagem a (“… apelar sempre para a agressão, a revolta, a depressão, a sexualidade física e o exagero entendidos como finalidades essenciais”); Intervenção vocal (“… alguém capaz de cantar sempre com um tom de voz muito excitado, muito irritado, muito obsceno…”); Sensações físicas (“… mais ou menos ligados à agitação emocional e ao estreitamento mental”); Efeito zumbi (“… toda a música estúpida deve, evidentemente, conduzir a estados de apagamento da inteligência e escurecimento da consciência”). E essa “música” de massa tem como “poeta estúpido” alguém que, ao utilizar palavras-chave, pouco se interessa pela construção das frases, pois o que será vociferado tem como alvo excitar os destinatários, populações catalogadas em várias categorias pelo autor. Não se pode vislumbrar nesses oito itens o quadro de determinados mega shows, nos quais todas as propostas se encaixam à perfeição?

 Clique para ampliar.

Em Assalto ao Poder, quarto capítulo de A Nova Ordem Estupidológica, o escritor traça perfil que faz pensar no que se propaga da política nos últimos tempos. Trata-se de radiografia au point. No segmento Pressupostos de base da Ciência Política Estupidológica, o autor menciona sete, entre os quais aquele em que se mede a capacidade do político obter votos, “… maquilhados e, numa boa parte dos casos, transaccionáveis”. No número três, Os estúpidos são donos da Verdade e proprietários da Realidade, comenta “Esta é, sem dúvida, uma das razões pelas quais eles preferem largamente vencer um debate a conquistar uma vitória para a Verdade (seria ridículo curvarem-se dessa maneira perante uma subalterna sua)”. O item A gestão do poder é um jogo: o jogo do poder tem a seguir Quando não podemos vencê-los, é preferível juntarmo-nos a eles, em que o psicólogo clínico traduz essa tendência de se encontrar “… da parte de muitos políticos estúpidos, uma habilidade excepcional para, antes de serem derrotados, se aliarem ao partido, movimento, ideia ou pessoa que iria derrotá-los. Convenhamos que isto é mais saudável do que a opção dos inteligentes que nunca se rendem perante a estupidez das ideias e procedimentos mesmo quando elas têm por si a força dos tempos e das ações eleitorais”. Verifica-se que o professor joga por vezes com a ironia, a justificar essa “era da estupidez”.
No subcapítulo Perfil do Político Estúpido Elegível, considera o autor seis itens aos quais se adequa: flexível; magnético, carismático: “… não esqueçamos: o carisma de um estúpido depende da sua aptidão para mobilizar, galvanizar e encaminhar populações com as armas da estupidez”; esgrimista verbal: “… a relação com a Verdade ou a Realidade não é importante devido aos direitos políticos sobre elas”; bom vendedor; bom líder.
Outro segmento é dedicado à Propaganda Eleitoral, onde encontramos duas menções a sedimentar o discurso: “… a arte do político estúpido assemelha-se, em parte, à do ilusionista: trata-se de fazer as pessoas acreditarem que está a acontecer aquilo que, na realidade, é bem outra coisa.” E continua: “… os únicos objectivos dignos da Nova Ordem Estupidológica são a conquista e a manutenção do poder – pagando por isso, os preços que haja a pagar; ora, nos dias que correm, a inteligência está tão desvalorizada que até sai barato aos políticos sacrificarem os valores dela…”
Nesse capítulo do Poder, aborda a Acção Governativa. Para a perpetuação dos governantes, o autor fundamenta serem necessários: consolidar o poder; convencer o público de que os seus interesses estão a ser objeto de um zelo desvelado; justificar cuidadosamente as decisões tomadas; afastar do poder as pessoas inteligentes: “Além disso, mesmo quando estão dispostos a percorrer os caminhos do acesso ao poder, os inteligentes não estão dispostos a optar pelos atalhos ditados pela estupidez e, com isso, perdem a vez face a estúpidos que, graças a esses atalhos, chegam lá mais depressa”. Sobre a convivência, observa que os políticos “… raramente se mostram tolerantes, colaborantes ou complementares frente a outros políticos – o que seria inteligentemente possível se o objectivo da campanha fosse eleger o melhor e, sobretudo, as melhores ideias governativas face a uma realidade socio-económica e cultural devidamente investigada”. Crítico, comenta: “… não se vence uma eleição com preocupações altruístas e desinteressadas (que levam imediatamente os estúpidos à desconfiança)”. Nesse critério avaliativo, enfatiza: “… um bom comando anti-inteligente na política deve, antes de tudo, assegurar-se do uso dos meios que forem precisos para atingir a finalidade de subir ao poder e ficar lá”. Conclui neste capítulo: “Obviamente, uma das preocupações dominantes consiste em conservar as pessoas inteligentes fora dos partidos”. Neste ano em que as eleições batem à porta, as considerações de Vitor Rodrigues não estariam a ter parentesco com o que se presencia? Não haveria um antropofagismo em toda essa realidade que estamos a viver?
Em post anterior abordei livro de Russel Jacoby (“Os Últimos Intelectuais” – Realidades bem Próximas, 18/03/09), em que o autor tece duras críticas à Universidade. Não distante do discurso proposto por Jacoby, Vitor Rodrigues envereda, sempre a insistir na palavra paradigma de sua exposição, nessa avaliação não desprovida de forte interesse. No capítulo Assalto às Universidades, mostra-se absolutamente cônscio de suas experiências junto à Academia e argumenta que a emergência do que ele nomeia “Comandos Anti-Inteligentes Universitários” estaria a “… desmoralizar ou obstaculizar a actividade dos inteligentes”. Observa que, na Universidade, a inteligência dedicada ao aprofundamento está sempre a correr riscos “… as ideias inteligentes têm-se visto ameaçadas de extinção (e, nalguns casos, têm-se extinto) por não serem capazes de se adaptar ao mundo humano. Pelo contrário, as ideias estúpidas, feitas à imagem e semelhança de uma parte da sociedade humana passada e actual, prosperam e desenvolvem-se em mil variantes”. O psicólogo clínico entenderia que a inteligência provoca a ira daqueles dela não possuidores.
Em subcapítulo, Formas de Governação Universitária, Vitor Rodrigues considera a Ditadura e o Feudalismo intelectuais. Trata-se de um jogo para a obtenção do poder e, este conquistado, atingir-se o controle intelectual dos inteligentes. Quanto ao feudalismo intelectual, o território da Universidade estaria dividido “… em feudos intelectuais (também conhecidos como ‘capelinhas do saber’). O rei, ou reitor, tem grandes dificuldades para assegurar algum tipo de unificação deste território pois cada feudo é muitíssimo independente”. Estaria a referir-se às Unidades e aos Departamentos universitários. Observa que “… esta norma, sobejamente conhecida no feudalismo e assumida por quase todos, é apenas consuetudinária – não está escrita em lado nenhum”.
Metaforicamente, Vitor Rodrigues comenta o que denomina “terrenos tabu universitários”, o que impede a penetração dos inteligentes. Minas intelectuais seriam instaladas, a implicar que “… o transgressor será vítima da explosão da mina – o que, geralmente, implica o estropiamento ou mesmo a morte da sua carreira acadêmica sob o efeito da explosão. Com efeito, uma mina intelectual possui geralmente, no núcleo, um explosivo poderoso – cólera preconceituosa concentrada – encerrado, sob pressão, num invólucro de estreiteza teórica (sem quaisquer aberturas de espírito). Caso exploda, disseminará estilhaços cortantes, sobretudo de tipo administrativo, capazes de reduzir subsídios a nada, retirar privilégios, negar instalações, até mesmo desintegrar contratos. Os estúpidos aprendem desde cedo que a simples referência a certos territórios intelectuais é, também ela, um tabu universitário. Quanto aos inteligentes, a sua imperícia em lidar com essa ordem de subtilezas, bem como a sua impetuosa curiosidade científica, tendem a conduzi-los à perdição…”.
No subcapítulo Modalidades de Assalto às Universidades, o autor observa que as áreas humanas recebem pouco na divisão orçamentária, se comparadas às tecnológicas. Haveria uma minimização do ser humano como tal, considerado até com certo desprezo pelas áreas mais aquinhoadas. Comenta a respeito do carreirismo. Aponta as barreiras que dificultam a ascensão dos mais inteligentes ou dos que, eventualmente capazes, almejam por funções diretivas. Um outro fator seria o acomodamento: “Estar numa Faculdade passa a ser um emprego como os outros, cuja finalidade principal é ‘ganhar o seu’, ou uma carreira onde, claro, alcançar fama, poder e alguma riqueza constituem os principais objetivos”.
Preocupa-se com a quantidade de Congressos, trabalhos apresentados, farto material a servir às carreiras acadêmicas. Aponta dois objetivos básicos: a obtenção de diplomas de presença e a apresentação de trabalhos científicos que pesem no currículo. Observa: ”Quantos mais destes trabalhos obtiverem publicação e quanto menos disserem, melhor será para a causa da estupidez universitária. Por essa razão, muitas das comunicações científicas a que se assiste nas Universidades em todo o lado não visam finalidades de intercâmbio de informações e/ou progresso científico; pelo contrário, ficam fechadas na finalidade de serem apresentadas e de isso poder aparecer escrito num currículo”.
Vitor Rodrigues ao abordar a Inserção activa das Universidades na Sociedade Actual se preocuparia com itens fulcrais: interesses econômicos de instâncias privadas e estaduais, referência às Fundações e Instituições do Governo; competividade desenfreada; ambições máximas; luta pelo poder, incapacidade gerencial na Universidade; outrismo (quer apático quer belicizante) ”, traduzido na perene desconfiança; interesses menores.
Por fim, faz crítica cruenta, a denominar “… mercenários do saber pois, obviamente, estão à venda e recebem dinheiro para travarem as mais diversas guerras intelectuais: a única questão é quem lhes paga, quanto lhes paga e com que paga…”.
Os dois livros são intrigantes. Se as opiniões de Vitor Rodrigues caracterizam-se por extremo rigor frente ao que ele denomina a ascensão crescente da “estupidez humana”, há que se considerar que suas teorias polêmicas levam à reflexão. O que parece evidente é a existência de categoria nada recomendável entre os humanos. Estejamos alertas.

José Maria Pedrosa Cardoso

 Clique para ampliar.

Assim como uma pedra sólida não é abalada pelo vento,
do mesmo modo o sábio
não é abalado pela censura ou pelo elogio.

Dhammapada

Aos meu alunos,
esta síntese máxima,
do que disse e deixei de dizer.

José Maria Pedrosa Cardoso (dedicatória)

Reiteradas vezes abordei a problemática do livro de determinada área escrito por especialista ou por leigo. No primeiro caso, pode-se ter, em princípio, a garantia do conhecimento da matéria. Quem escreve, a ter sob controle tema determinado, geralmente o faz com competência. Impossível não se captar a intimidade do autor com o roteiro traçado. Em senso inverso, todo aquele que escreve sobre área da qual desconhece fundamentos básicos, o que o levaria a ser entendido como amador ou soi disant, em determinado momento da narrativa evidencia a falha estrutural, mesmo que o discurso possa ter certa sedução. Infelizmente, a literatura sobre música de concerto, erudita ou clássica no Brasil tem apresentado acentuados exemplos dessas visitações não competentes, que se contrapõem a outras, felizmente de músicos os musicólogos. Se os primeiros chegam a ter guarida junto a meios de comunicação não protegidos pela visão crítica autêntica, sob aspecto outro não servem de referência, pois conceitos ou são “extraídos” de tantas obras consagradas, ou derivam de considerações arbitrárias. E todo o mal está feito. Frise-se, autores da área musical, nem sempre escrevem livros confiáveis. Todavia, obras competentes sobre Música, invariavelmente são escritas por músicos ou musicólogos de valor. E todo mérito se faz presente.
Saudara em 2009 o excelente livro de Júlio Medaglia (vide Música Maestro – Do Canto Gregoriano ao Sintetizador, 18/04/09) em que o autor, com pleno conhecimento da História da Música, percorre prazerosamente os vários períodos, explicando, a partir da experiência pessoal junto a uma infinidade de partituras, os muitos meandros que levaram a arte dos sons à contemporaneidade. Igualmente é o caso de uma nova visita à História da Música, desta vez empreendida por professor e musicólogo da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso (História Breve da Música Ocidental. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010). Poderíamos citar obras referenciais recentes de Pedrosa Cardoso, como O Canto da Paixão nos Séculos XVI e XVII: A Singularidade Portuguesa (Coimbra, IUC, 2006, 560 pgs.) e Cerimonial da Capela Real: Um Manual Litúrgico de D.Maria de Portugal (1538-1577) – Princesa de Parma (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, 157 pgs.) No livro em pauta, Pedrosa Cardoso, latinista impecável, ratifica a premissa do presente blog: “Não se pode entender e apreciar correctamente uma peça gregoriana sem conhecer o seu texto e reconhecer a funcionalidade da mesma dentro da liturgia cristã”. Afirmação que leva o leitor a confiar na competência, conditio sine qua non para a referência, pois estamos diante de um emérito conhecedor da música da cristandade, do gregoriano aos dias atuais. Já mencionara anteriormente que, no capítulo Nasce um Maestro, do livro de Medaglia, o polivalente músico dá uma verdadeira aula, mercê de acúmulos de rica experiência ao longo das décadas. Pedrosa Cardoso realiza trajetória paralela embasada no conhecimento, e faz o leitor viajar até a Renascença com leveza. Enfatiza a música desse período através dos três fatores básicos: o mecenas, o compositor e os executantes, e comenta a importância da Música Sacra e da Profana no Renascimento. Período rico na descoberta instrumental, que se expande às várias camadas sociais, e no emprego de sistemas de escrita musical que facilitariam a compreensão e divulgação da música.
Divide-se o livro em quatro capítulos e inúmeros sub-capítulos, tendo o som como epicentro: O Som Místico da Época Medieval, O Som Humano da Época Moderna, O Som Livre da Época Contemporânea e, o mais longo, O Som Plural da Época Atual. Nesses breves capítulos, Pedrosa Cardoso caminha com o leitor, ilustrando-o, sem ser enfático. As 159 páginas da História Breve da Música Ocidental tem o mérito da síntese. Não se trata de um resumo, mas de sementes fecundas plantadas, pois esses capítulos fornecem farto material – no caso, multum in minimo – destilado de maneira sequencial, sem quaisquer obliterações. Pequenos textos que podem propiciar ao leitor olhares outros, a visar ao aprofundamento. Se as tantas Histórias da Música, das caudalosas às mais concentradas, percorrem os períodos, muitas delas a evidenciar o conhecimento do autor ou autores, não poucas vezes tem-se o conteúdo doutoral. Tornam-se referência, mas dificilmente o leigo poderá compreender.
Se do barroco, passando-se pelo classicismo e pelo período romântico – que na realidade não tem interrupção do início do século XIX a meados do século XX, mas sim vertentes agregadoras ou diferenciadas, mas românticas sempre – às fronteiras do século XXI, naquilo que Pedrosa bem define em subcapítulo como “pluralismo cultural”, seria todavia a música do último cento que atrai um olhar ainda mais pormenorizado do autor. Dir-se-ia que as múltiplas tendências surgidas após a desagregação da tonalidade fascinam Pedrosa Cardoso, pelo multidirecionamento a envolver técnicas composicionais, convivência do erudito com o popular, tecnologia, sintetizador, o concerto democratizado a abrigar tendências divergentes e, paradoxalmente, em situações de congraçamento, sob um mesmo teto. E como fonte viva e até “independente”, a presença da música de raiz, o folclorismo que pulsa e que teria um olhar diferenciado sobre a sua autêntica manifestação, mais acentuadamente a partir da segunda metade do século XIX.
O fato de a música até o século XX ter sido extremamente ventilada em infindáveis compêndios propiciaria a Pedrosa Cardoso – provável suposição – um debruçamento maior em nomes da criação musical, sobretudo da segunda metade do século XX, não se alongando sobre determinadas figuras basilares dos séculos precedentes. Seria possível aventar a falta de recuo histórico para a avaliação de inúmeros compositores pormenorizados por Pedrosa Cardoso e pertencentes ao século XX. Entende, contudo, ter sido Debussy “o grande nome da charneira dos séculos XIX-XX, tal como Monteverdi foi para os séculos XVI-XVII e Beethoven para os séculos XVIII-XIX”. Agregaria o autor, no decurso da História, Schöenberg.
A facilidade com que os vários temas são tratados por Pedrosa Cardoso, assim como a sua capacidade em tornar segmentos complexos ou controvertidos da História da Música palatáveis ao estudante e ao leigo, já bastariam para a recomendação da obra. Uma pequena observação apenas, que deveria ser entendida como um desafio. Teria faltado no significativo livro, capítulo reservado à música em Portugal. Aguarda-se sempre a sua inserção definitiva nos repertórios internacionais. Nesse cenário global irreversível, em que a música se coloca como uma das mais importantes fontes do sentir e do pensar, urge o esforço coletivo nesse desiderato de divulgação mais ampla, interna e externamente, da música criada em terras lusíadas. E Pedrosa Cardoso tem-se mostrado, através de obras anteriores, um grande defensor da música portuguesa. Quem sabe não dedique a sua pena a uma próxima História Breve da Música em Portugal?
Instigante a frase final de História Breve da Música Ocidental: “Não se sabe como será a música do futuro. Talvez esta ignorância, humildemente assumida, explique o mistério do som, que mudará, ou não, à justa medida do ser humano”.

A few comments on the book “História Breve da Música Ocidental” (A Brief History of Western Music), written by José Maria Pedrosa, musicologist and Professor at the University of Coimbra. The book gives an overview of different stylistic periods in music history from the Medieval days to the present, with a particular focus on the 20th century and the multiple tendencies that emerged as music progressed towards atonalism. Pedrosa Cardoso has a gift to express the most using the least and his short chapters are seeds inviting readers – music students and the general reader as well – to investigate further the subjects covered by the book.