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O Requinte Sonoro como Fim

Par ailleurs, je me persuade, de plus en plus,
que la musique n’est pas, par son essence,
une chose qui puisse se couler dans une forme rigoureuse et traditionelle.
Elle est de couleurs et de temps rytmés…
Claude Debussy
(Carta ao seu editor e amigo Jacques Durand. Pourville, 3 de Setembro de 1907)

As comemorações relativas ao sesquicentenário de nascimento de Claude Debussy (Saint-Germain-en-Laye, 22 de Agosto de 1862), apesar de tímidas em nosso país, trazem à pauta um dos maiores compositores da história. A importância de Debussy é incomensurável em toda a decorrência do século XX.

Se em sua formação haveria indícios de certa rebeldia contra métodos de ensino e mesmo à Instituição, seria contudo nas fronteiras dos séculos XIX-XX que, decididamente, Debussy  posicionar-se-ia como um compositor preocupado com a qualidade sonora a sobrepor a forma.  Não lhe agradando uma primeira versão de Reflets dans l’eau, primeira das peças do primeiro caderno de Images para piano (1904-1905), Debussy, em carta ao seu editor Jacques Durand, escreveria uma frase paradigmática “… resolvi, pois, compor uma outra, sobre dados novos e segundo as mais recentes descobertas da química harmônica…”. Se em tantas missivas o compositor emprega metáforas, a incursão definitiva num processo que estava a ser alimentado desde os últimos anos do século XIX faz-se “oficial”. Considere-se a  gestação da extraordinária ópera Pelléas et Mélisande  (1902), que duraria 10 anos!!!

Nestes últimos decênios têm surgido métodos analíticos variados, não descartando tabelas numéricas e gráficos, para não mais me alongar, distantes de outras tradicionais. Se enquete fosse feita entre os intérpretes, pouquíssimos consultam esses novos caminhos, por vezes áridos e cerceadores, bem mais frequentados na Academia ou por outros interessados não intérpretes, friso. Mesmo as análises tradicionais, que vigoravam durante a existência do compositor, não lhe causavam impacto. Aliás, o músico francês não gostava de ver suas obras analisadas, segundo o compositor Charles Koechlin (1867-1950). No caso de Debussy, compositor que causaria efeitos inalienáveis na música do século XX, da criação erudita à música de cinema e tantas outras vertentes, a observância de suas mensagens já estaria a apontar desideratos precisos. Confessaria bem tardiamente, em 1915,  ao seu amigo Bernardo Molinari, que “… estamos ainda na ‘marche d’harmonie’, e raros aqueles a quem basta a beleza do som”. Essa constatação englobaria um universo criativo outro que, para Debussy, era o fulcro de suas intenções. Buscar a essência essencial e, nesse caminho absoluto, distanciar-se do fulgurante, da explosão sonora tão característica em muitos compositores do romantismo e do século XX, assim como de elucubrações estruturais e formais. A busca sonora implicaria forçosamente a opção clara, contrária ao refletor ofuscante. As baixas intensidades propostas no conjunto de sua obra são testemunhos eloquentes, pois cerca de 80% de sua opera omnia navega entre p e pp; portanto, nas sonoridades seletivas. Essa escolha teria tributos a pagar. Debussy é conhecido majoritariamente por quantidade relativamente pequena de sua obra. Distante de estatísticas quantitativas relativas a de alguns de seus coetâneos, a produção debussyniana é até restrita, mas impecavelmente construída. Dizia o músico francês que escrevia quando sentia a necessidade de fazê-lo.

Se considerei técnicas analíticas erigidas nas últimas décadas, que surgem e tendem por vezes ao mergulho no esquecimento, geralmente “criadas” por não intérpretes, consideraria que três aspectos essenciais sempre deveriam estar à testa no momento desse debruçar sonoro. Salientaria: a agógica (flutuação do andamento), a dinâmica (entre as baixíssimas intensidades e raríssimos fortíssimos) e as acentuações. Outros mais tendem a ser negligenciados no que se refere particularmente à criação pianística: a onipresente mão esquerda, à qual Debussy reserva participação extraordinária, e a ter como indicativo a absoluta preocupação com as  acentuações e a dinâmica. Nada passa ao largo quando Debussy escreve a notação da mão esquerda, muitas vezes a buscar a região mais grave do instrumento. Minha mestra, a grande pianista e professora Marguerite Long (1874-1966), intérprete de Debussy e dedicatária de autores como Isaac Albéniz (1860-1909), Gabriel Fauré (1845-1924) e Maurice Ravel (1875-1937), afirmava sempre, ao considerar as obras de Debussy e de Fauré, à nous les basses. Não por outra razão o compositor francês vem a ser o primeiro músico a tudo assinalar, mormente após o início do século XX. A problemática dos andamentos é outra questão relevante. Com preocupação assiste-se hoje, mais acentuadamente, à tendência de “forçar” os andamentos de suas obras, o que provoca, em tese, um gosto para a elevação dinâmica (intensidades). Contrariam esse quesito, assumido por tantos intérpretes, intenções expressas pelo autor não apenas em seus manuscritos musicais, como na sua monumental produção epistolar. O resultado é desastroso, pois a aceleração progressiva tende a colocar as criações debussynianas para piano, principalmente as de andamento vivo, num patamar “virtuosístico” que não apenas descaracteriza determinadas obras, mas à força da repetição provoca uma espécie de modismo com seguidores “fiéis”.

Aspectos concernentes à interpretação mereceriam ser citados. Interessariam mais ao leitor com o conhecimento pianístico. Salientaria a “magia” a ser buscada no emprego dos pedais. O da direita a seguir as flutuações mais tênues, num processo que requer um aprimoramento que deveria ser meta essencial de um pianista. Deve, nessa oscilação, distanciar-se o intérprete do pedal até o fundo, raras vezes a ser utilizado o processo. O da esquerda, una corda, a ter emprego tanto nas baixíssimas intensidades como, em tantas oportunidades, em outras mais elevadas, nessa procura de timbres seletivos. Consideraria ainda a necessidade imperiosa da denominada substituição, quando, sobre determinada tecla já apoiada por um dedo, sem que esta seja “abandonada”, o pianista  coloca um outro dedo, a fim de que o legato, um dos segredos da interpretação das obras de Debussy, se concretize. Frise-se que essa prática não estaria apenas no singular, pois, por vezes, pode-se substituir vários dedos sobre teclas já pressionadas. Exemplo típico se encontra em  Et la lune descend sur le temple qui fut, segunda peça do segundo caderno de Images.     

Tenho insistido em tema que não parece ter o menor interesse entre a maioria dos intérpretes, empresários, sociedades de concerto e público receptor. No que se refere à obra para piano, tocam-se prioritariamente as mesmas composições de Debussy, e algumas como chamarizes para plateias que se identificam com o compositor nesse restrito repertório. Exaustivamente o fato se repete. Nada a fazer. Criações como a maioria das peças avulsas, os 12 Études, La Boîte à Joujoux, como exemplos, passam ao largo. Da Suite Bergamasque, pereniza-se Clair de Lune; dos cadernos de Images, prioriza-se o primeiro, mormente Reflets dans l’eau; dos dois livros de Préludes, que perfazem 24 peças exemplares, alguns apenas são frequentados. Quase sempre os mesmos. Tendo apresentado a integral para piano em quatro recitais, no Brasil e em Portugal, poderia afirmar que Debussy é um dos poucos compositores que não têm obra menor, se bem que seria o próprio autor que consideraria os 12 Études pairando num outro cimo de excelência.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, o Estudo “Pour les arpèges composés”. Gravação realizada por J.EM. em Mullem, na Bélgica.

Em todos os gêneros abordados deixaria suas impressões digitais identificadoras do estilo. Nessas marcas, o timbre inusitado, a combinação instrumental, a qualidade sonora… Considere-se ainda a devoção à natureza, não como elemento descritivo, mas como fonte essencial para a sugestão e para o simbólico.  Tem-se em muitas de suas obras o divisor absoluto das tendências na composição. Nas inefáveis mélodies para canto e piano, como exemplos, soube escolher os poetas que permaneceram: Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Pierre Louÿs e outros ilustres mais. Sob a égide poética, tantos são os títulos de obras para piano e para orquestra de Debussy com apelo  requintado. Cuidava o compositor desse amálgama sonoro poético. Nos Préludes para piano insere os títulos no final de cada peça levando intérprete e ouvinte à sugestão. 

A ilustração inserida no post é de autoria da excelente artista búlgara Penka Kazandjiev. Após recital que apresentei em Sófia, na Bulgária, em 1996, Penka inspirou-se em L’Isle Joyeuse de Debussy, uma das obras do programa, e com rara criatividade realizou a bela homenagem em que não falta exaltação a Leonardo da Vinci.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, “L’Isle Joyeuse”. Gravação realizada por J.E.M. em Mullem, na Bélgica.

Para o leitor interessado em se aprofundar no tema, sugeriria algumas obras exemplares: Claude Debussy, Monsieur Croche et autres récits, France, Gallimard, 1987, 361 pgs. Tem-se um conjunto de textos críticos do compositor. Claude Debussy Correspondance (1872-1918), Paris, Gallimard, 2005, 2.330 pgs. François Lesure, Claude Debussy, France, Fayard, 2003, 614 pgs. Creio ser a mais importante biografia do compositor. Recomendaria a consulta ao site www.debussy.fr  , do Centre de Documentation Claude Debussy, o mais significativo existente. Entre outras publicações, tem o Centro o renomado Cahiers Debussy, publicação anual.

Quanto às gravações, poderá o leitor consultar a ampla discografia de Claude Debussy e terá diante de si uma lista apreciável.  A escolha dos intérpretes tende a ser pessoal na maioria dos casos. Dos três CDs que dediquei à obra pianística de Claude Debussy, gravados para o selo De Rode Pomp da Bélgica, um foi reeditado no Brasil – “Doze Estudos para Piano” – pela Clássicos (www.classicos.com.br ).

In this post, a tribute to the seminal French composer Claude Debussy on the occasion we celebrate 150 years since his birth, I comment on some aspects of his works ― in particular pieces for piano ― with focus on issues such as interpretation of indications in the scores, performance and tempo, always bearing in mind that the essence of his creations lies in the use of selective instrumental timbres or, in his own words, the search for the beauty of sound.

 

 

Uma Grande Amiga Partiu

Vou catando estas palavras,
Como quem cata continhas
Para bordar no meu peito
Toda a memória que eu tinha.
Maria Isabel

Ao longo da vida podemos contar nos dedos das mãos os verdadeiros, fiéis, incomensuráveis amigos. Esses,  Portugal  reverencia com um A maiúsculo. A raridade torna-os inesquecíveis. A amizade pode surgir ao acaso e ter imediata interação. Por vezes ela vai se sedimentando aos poucos e atinge o nível da inefabilidade.

O meu encontro com Maria Isabel poderia ter sido um a mais nos tantos relacionamentos amistosos que percorrem o nosso caminhar pela vida. Permanecem essas aproximações no tangível, sem aprofundamento maior, agradáveis, diria.

Tudo aconteceu em 1978, ano em que fiquei subjugado pela qualidade das obras do nosso grande compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931). Quis conhecer parte considerável da opera omnia do músico que nasceu e morreu no Rio de Janeiro, tendo vivido muitas décadas na Itália. O musicólogo Mozart de Araújo (1904-1988) indicou-me Maria Isabel Oswald Monteiro como a guardiã do acervo familiar do avô e interessada na divulgação de suas obras. Após telefonema formal, fui visitá-la no meio de uma tarde na Rua José Linhares, 65, no Leblon. Tão logo entrei e a cumprimentei, dirigi-me a um piano de cauda Blüthner que pertencera a Henrique Oswald, e sem mais nada dizer toquei a sua mais célebre criação para piano, Il Neige! (1902). O entendimento se fez, imediato, irreversível… Maria Isabel e seu marido, o ilustre médico Mário Monteiro, convidaram-me para jantar e tive sempre a sensação de que nos conhecíamos há séculos. Já desse primeiro encontro recebi das mãos da amiga o manuscrito autógrafo de uma Berceuse inédita, composta aos 22 de Setembro de 1886.

Maria Isabel Oswald Monteiro foi uma mulher notável. Partiu aos 28 de Junho após longa enfermidade. Pertence àquela categoria imprescindível de predestinados à preservação da história. Memorialista, lutou bravamente, neste mundo cada vez mais embrutecido, insensível e destruidor do passado cultural, pela divulgação amorosa e competente de  figuras excelsas de nossas artes: o compositor Henrique Oswald e seu filho, o pioneiro da gravura em metal no Brasil, Carlos Oswald. Apoiou e incentivou todos aqueles que, de alguma forma, procuravam-na para pesquisar seus arquivos. Quando necessário, saía à luta para defender direitos inalienáveis omitidos pelo poder público. Quando da inauguração de placa comemorativa do cinquentenário da estátua do Cristo Redentor (1981) no Corcovado, Maria Isabel observou que faltava o nome de seu pai Carlos, o autor dos estudos e desenhos preliminares, que resultariam nessa que é uma das maravilhas modernas do planeta. Foi ter com o Governador e insistiu com veemência na colocação do nome de seu pai. O Governador de plantão aquiesceu, fez nova placa e o nome de Carlos Oswald lá está, na base do Cristo Redentor. Essa era a batalhadora. Também teve todo o empenho para que a coleção Carlos Oswald estivesse em lugar seguro, o Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. A meu pedido doou parte do acervo do compositor Henrique Oswald à Universidade de São Paulo. Os vários manuscritos que, ao longo de nossa longa amizade, foram generosamente por ela presenteados, deverei doar um dia à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Estudou piano e canto, diplomando-se pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro. Estudaria órgão em São Paulo com Furio Franceschini. Apresentou-se várias vezes como intérprete nas três categorias. Durante anos aperfeiçoou-se em diversas oficinas especializadas em gravura. Realizava saraus, divulgava as obras do avô Henrique, cuidava da memória da ilustre família de sua mãe. Diria, uma enciclopédia dos laços sanguíneos talentosos e diversificados, pois nada ficava alheio aos seus interesses, voltados a perenizar os ascendentes. Que heroína, sem quaisquer anseios de autopromoção! Não se esquecia do cotidiano e quantas não foram as vezes em que pude presenciar o carinho e a preocupação com os quatro filhos e tantos netos!

Após aquele primeiro encontro mágico de 1978, nunca mais deixamos de estar em contacto. Sem Maria Isabel jamais poderia ter realizado o trabalho de “redescobrimento” da obra de seu ilustre avô Henrique. Todos os meses, durante anos, passava um ou dois dias da semana em seu apartamento, àquela altura na Visconde de Albuquerque, 333, também no Leblon. Eram dois dias de trabalho intenso, em que em nenhum instante havia esmorecimento. Sentávamos em seu ateliê – Maria Isabel foi exímia gravadora – e, frente à janela que dava para o pátio interno do prédio cercado por frondosas árvores, verificávamos manuscritos de Henrique Oswald e Maria Isabel lia com carinho os diários da mãe do compositor, Carlota, e de sua mulher, Laudomia. Do primeiro, há narrativas da criança que se desenvolvia sobre o manto materno. Laudomia, por sua vez, narra o cotidiano e deste tem-se inclusive o relato do encontro do jovem em êxtase,  Henrique, com o grande Franz Liszt. Escritos em italiano, a caligrafia difícil das duas mulheres era percorrida com prazer e facilidade pela minha querida amiga. Que momentos inefáveis nós dois vivemos! Por vezes, Maria Isabel, após a leitura de episódio jocoso, dramático, trágico ou relativo ao desenvolvimento de seu avô paterno, parava a leitura e durante bom tempo comentávamos situações vividas por Henrique Oswald e sua família em Florença, preferencialmente. As cartas extraordinárias do grande libertário que foi Jean-Jacques Oswald, suíço-alemão, pai de Henrique, escritas em francês, igualmente eram lidas com empolgação, pois no início da segunda metade do século XIX lá está Jean-Jacques lutando contra a escravatura e também a favor dos imigrantes suíços que vieram para o interior de São Paulo. Chegou a ter a cabeça a prêmio a mando do Senador Vergueiro!  Família Oswald, figuras épicas que deixaram nas folhas e partituras amarelecidas pelo tempo, mas também nas telas, gravuras e desenhos, parte de nossa história.

Desse intenso envolvimento em torno de Henrique Oswald, sob a égide carinhosa e atenta de Maria Isabel, fui pouco a pouco construindo minha tese de doutorado, que defenderia junto ao Departamento de História da Universidade de São Paulo em 1988. Maria Isabel e o marido Mário vieram do Rio de Janeiro, o que muito me emocionou. Após a tese, a primeira realizada sobre nosso maior compositor romântico,  surgiram mais de uma dezena defendidas no Brasil e no Exterior. Quando um jovem pesquisador estava a pensar no tema Henrique Oswald, encaminhava-o à Maria Isabel e a todos ela recebia com atenção e incentivo. Se assim procedeu com a obra sonora do avô, também o fez com a criação pictórica do pai. De minha parte, sempre sob o olhar cúmplice de Maria Isabel, gravaria no Brasil, nos anos 80, quatro LPs (Funarte) e, na Bélgica, três CDs, basicamente com a obra camerística de Oswald. Quando a Edusp-Giordano publicou meu livro sobre Henrique Oswald em 1995, a alegria de Maria Isabel foi contagiante, o que a levou a publicar anos após, guardando muitas características gráficas com Henrique Oswald – músico de uma saga romântica, o seu precioso livro Carlos Oswald (1882-1971) – Pintor da Luz e dos Reflexos (Rio de Janeiro, Casa Jorge, 2000). Dizia mesmo que pai e avô deveriam estar sob o mesmo manto, daí ter buscado caminhos para certa identidade nessas duas homenagens que prestamos a Henrique e Carlos Oswald. Mulher absolutamente completa.

Quanto à obra de Carlos Oswald, Maria Isabel esteve sempre atenta à primeira tese de doutorado defendida no Brasil (2004): A Poética da Luz na Obra de Carlos Oswald. Coube à artista e professora Maria Amélia Blasi de Toledo Piza esse hercúleo trabalho acadêmico defendido junto à UNESP (Bauru). Tive o prazer de compor a banca examinadora da dissertação de mestrado da professora na mesma Universidade (1997),  que propunha estudo pormenorizado de uma obra do irmão de Maria Isabel, igualmente excelente pintor e gravador: Henrique C.B. Oswald: O Mural da Santíssima Trindade em Botucatu.

Nos últimos anos sua saúde declinaria. Conseguiu superar várias etapas e, mesmo limitada em seus movimentos e comunicação verbal, permanecia atenta a tudo o que a cercava. Nossa correspondência internética prosseguiu até bem pouco antes de uma crise mais forte. O e-mail que recebi de Maria Clara Porto, filha de Maria Isabel, dias após seu falecimento, bem traduz as qualidades inalienáveis da mãe: “…múltipla, talentosa, excelente dona de casa, mãe e avó dedicadíssima, costurava, bordava, tricotava com excelência. Cantou, tocou piano, escreveu poesias, fez gravura em metal e foi a matriarca de nossa família. Apoiou meu pai, sempre! Filha amorosa e irmã exemplar, amiga dos amigos, inteligente, sensível, viveu seus últimos anos com uma doçura que a todos cativava. Os Natais organizados por ela em torno daqueles que a serviam serão lembrados para sempre por todos, um presente escolhido para cada um deles, enfim, muito fácil falar dela, sobre ela, meu modelo, minha mãe adorada e inesquecível, que para sempre estará nos nossos corações”.  Continuará a semear o bem através do exemplo de vida que legou.

Clique para ouvir Il Neige!, de Henrique Oswald, com J.E.M. ao piano. Gravação realizada em Bruxelas.

This post is a tribute to Maria Isabel Oswald Monteiro, a dear friend that passed away last June. Granddaughter of the outstanding Brazilian composer Henrique Oswald and daughter of the painter and engraver Carlos Oswald, author of the final design of the statue of Christ the Redeemer in Rio de Janeiro, Maria Isabel grew up in a very artistic environment and studied piano, organ, singing and engraving. A memorialist, the struggled to keep alive the memory of her father and grandfather and in 1978 lovingly engaged with me in the research on Henrique Oswald’s works, focus of my PhD thesis defended at the University of São Paulo. As a result of our pioneer work, many academic papers on Henrique Oswald have appeared since then. My thesis later turned into a book and Maria Isabel, following my example, also published a book on her father Carlos Oswald, saying that father and grandfather should be equally revered. In her daughter’s words, she was “multiple, talented, excellent housewife, devoted mother and grandmother, sewing, embroidering and knitting with excellence. She sang, played the piano, wrote poetry, practiced engraving and was the matriarch of our family”. An absolutely remarkable woman, a great friend that will always remain in my heart.

 

 

“O Primeiro Português no Cume do Evereste”

Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.
Amyr Klink

Foram muitas as minhas leituras de narrativas concentradas no montanhismo, mormente aquelas referentes à cadeia do Himalaia. Testemunhei sempre o fascínio que as aventuras empreendidas por intrépidos alpinistas causam neste intérprete e atleta amador de corridas de 10km. Muitos os relatos corajosos e trágicos que percorri sempre com grande interesse. Inúmeros livros resenhei ou comentei. A leitura de mais uma história me fez voltar ao tema.

Quando da última viagem a Portugal recebi dos diletos amigos Ana Cristina e Joaquim, ela pianista e ele a ter como hobby a corrida,  um palpitante livro de João Garcia (A Mais Alta Solidão – O Primeiro Português no Cume do Evereste, Lisboa, Caderno, 2006). Meu conhecimento das façanhas de João Garcia era quase nulo. O livro em apreço, ora  na 12ª edição, fez-me compreender mais do que todos os anteriores sobre os problemas vividos por esses visionários. Confesso que iniciei a leitura ainda no voo de regresso ao Brasil e, à medida  que lia as narrativas, pude entender os antagonismos do pensar de um alpinista. A maior parte da literatura específica existente contém uma dose bem grande de ufanismo natural por êxitos obtidos. Os pequenos equívocos, as falhas que têm de ser reparadas, o desalento ficam majoritariamente à parte nos relatos desses heróis e amantes das grandes altitudes, nessa fronteira tênue entre a realização e a auto-destruição. Os limites fronteiriços existem, estão lá, sempre a apontar as únicas possibilidades, exceção à desistência, que se traduzirá ou na depressão ou no estímulo para outro ato visionário.

Para um leigo, seria possível admitir que, mais do que a transmissão triunfalista de um alpinista-narrador, haveria o interesse em acompanhar o sonho que leva ao projeto acalentado e às suas consequências: múltiplas dificuldades encontradas, longo tempo de aclimatação à altitude,  decorrentes mudanças de humor, declínio físico e a inquebrantável vontade de atingir cumes. Sabe-se que o alpinista tem sempre a morte à espreita, seja através do chamado mal da montanha – edemas pulmonar ou cerebral por redução drástica de oxigênio em grandes altitudes – seja por fendas que se  podem abrir nas geleiras, blocos de gelo ou seracs que tombam, ou a fatalidade do abismo. João Garcia consegue, em A Mais Alta Solidão, transmitir ao leitor todas essas vicissitudes de maneira franca, sem subterfúgio e a ter como referências a solidariedade de amigos que permanecem ou que se foram, perdidos nas alturas ou nos abismos.

Atingir o topo do Everest é o sonho de quase todo alpinista. João Garcia focaliza no livro sua tentativa frustrada de atingir o cume do Everest e a dramática conquista posterior, parte de seu ambicioso projeto já realizado. Façanhas absolutamente extraordinárias tem o alpinista português empreendido. Como se não bastasse, João Garcia conquista montanhas acima dos 8.000m sem auxílio de oxigênio suplementar e, como escreve, “ao utilizar oxigênio estamos a enganar a montanha e a nós próprios”. Em post anterior já me referira ao nosso notável alpinista Vítor Negrete (vide “Espírito Livre“, 21/04/12), primeiro brasileiro a subir o Everest sem oxigênio suplementar, mas que, em decorrência, encontraria a morte poucas dezenas de metros na infausta descida.

João Garcia, a fim de fundamentar razões que o levaram a enfrentar o Everest, historia vários acontecimentos, alguns trágico, como o das expedições de 1996, nas quais houve quantidade de mortes. De uma delas há o relato dramático de Jon Krakauer (No Ar Rarefeito), um clássico da literatura sobre o tema. Para seu intento maior, João Garcia se faz acompanhar de seu grande amigo, o alpinista belga Pascal Debrouwer, a quem o livro é dedicado. Pormenores  da estada em Katmandu, a descrição pormenorizada dos costumes da cidade, meca dos escaladores dos altos picos, e a crítica mordaz ao simples turista: “Muitos passeiam uma manhã pelos arredores de Katmandu, vão até umas montanhas de onde se veem alguns picos e dizem que já fizeram um trek”. Percebe-se no esportista português o distanciamento do amadorismo e sua profunda consciência profissional. Durante a permanência no Campo-Base (5.200m) João Garcia descreve suas criações para baratear a escalada. Inventa várias peças, tem o talento para compor uma tenda que seja prática, resistente às intempéries. Tudo é meticulosamente pensado.

Há em João Garcia a vontade de não esconder enganos. Após meses de preparação e duras subidas e descidas aos vários Campos Avançados para aclimatação, Garcia e Debrouwer sentem-se prontos para o ataque ao cume. João Garcia, sem auxílio do oxigênio suplementar, vai à frente. Reconhece erros cometidos. A certa altura abandona em lugar “seguro” a  lanterna presa à testa e, posteriormente, as luvas suplementares. Ao atingir o pico mais alto do planeta durante o dia, tem dúvidas sobre se realmente lá chegara devido às mínimas elevações existentes no local, certificando-se contudo: “Ao fim de um bom bocado acabo por me convencer que o cume era ali. Até porque era o mais sujo. Ironia amarga, não é? O ponto mais alto, mais remoto do mundo, é identificável por estar sujo…”. Deslumbra-se e permanece não os pouquíssimos minutos recomendáveis, mas um tempo muito maior. Exalta a visão magnífica e o estar lá. Confessa que, devido à altitude, “já estou, há que reconhecê-lo, num misto de alucinação e mau funcionamento do cérebro, devido ao ar rarefeito”. Logo após iniciar a descida vê seu amigo Pascal que buscava, sôfrego, atingir o cume. Este insiste junto a Garcia que o acompanhe, pois o português não se deixara fotografar quando no pico. Nova ascensão, novo erro. Nas alturas permanece mais um bom tempo e, ao descer, a noite já se anunciava. Vai à frente novamente, mas sempre a aguardar o amigo. Cochila por vezes devido à exaustão, caminha às escuras, recobra forças e continua a descer. Em determinado instante, confuso, acredita que Pascal deva ter por ele passado. Ledo engano.  Sem a lanterna na testa e sem luvas apropriadas, tem consciência da série de equívocos. “Avançava agarrado às cordas geladas e nesta altura já só usava as luvas de lã, já não tinha as luvas de nylon postas. Tinha as mãos insensíveis e já não havia discernimento para avaliar a gravidade do que estava a fazer, a estupidez que era andar àquela altitude, esgotado e desidratado, apenas com luvas de lã. Foi aí que acabei de gelar as mãos”. Ao ser encontrado por amigos, inquietos pela longa demora, soube que o amigo belga não chegara. Um abismo certamente o tragou. Destino igualmente trágico aconteceria a um membro de expedição polonesa, cuja tenda ficava próxima à de Garcia.  

Saliente-se a clareza do autor ao abordar o esforço despendido por um alpinista  após atingir a zona da morte, assim considerada a marca dos 8.000m, quando, para cada passo, várias aspirações e expirações são realizadas, pois a quantidade de oxigênio nessas circunstâncias é ínfima. Essa situação provoca pensamentos confusos, difícil raciocínio justamente quando mais aguda deveria estar a mente. A longa exposição às baixíssimas temperaturas, a ausência do oxigênio suplementar e das luvas de nylon sobre as de lã resultaram num drama comum que acomete muitos alpinistas de grandes altitudes. A descida é sempre mais temida e foi ainda mais dramática para João Garcia. Saber voltar. Com extrema dificuldade os vários Campos Avançados foram atingidos: C3, C2, C1, o Acampamento Avançado e o Acampamento Base, até a segurança de um hospital. A necrose instalou-se nas extremidades dos membros de  João Garcia, que perderia as pontas de alguns dedos das mãos e dos pés, assim como segmento do nariz. Ficaria internado durante meses.

A intrepidez desse notável alpinista fê-lo reiniciar as escaladas, completando os 14 picos acima dos 8.000m e os sete mais elevados dos continentes. Para quem admira a literatura sobre montanhismo, A mais Alta Solidão é livro recomendado e estaria a evidenciar a presença de João Garcia, um dos mais importantes alpinistas da atualidade.

Comments on the book “A Mais Alta Solidão” (The Highest Solitude), written by the mountain climber João Garcia, the first Portuguese alpinist to reach the summit of Mount Everest without supplementary oxygen in 1999. In this book he recounts this dramatic experience, in which his partner Pascal Debrouwer fell to his death and João himself suffered severe frostbite, having later part of his fingers and nose amputated.