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A realização maior de um músico de imenso talento

Que o querer tenha sua origem e seu apoio
em coração aberto à nobreza, à beleza e à justiça;
de outro modo é apenas gume fino e duro de faca;
por isso mesmo frágil,
na sua aparente penetração e resistência.
Agostinho da Silva
(“Considerações”)

O Talento é dom singular, a possibilitar contudo incontáveis destinações. Necessário em qualquer atividade, para que objetivos sejam alcançados em alto nível. Na área musical, o talento só resulta plenamente se houver harmonização de vários ingredientes que integram o músico completo. O compositor pode ser hábil ao escrever música, tudo está posto na partitura, mas se lhe faltar a criatividade, perder-se-á na poeira do tempo. O instrumentista pode ser habilíssimo sob a égide técnica, mas se não existir a essencial transmissão do que está a ser executado, faltar-lhe-á algo, ou muito. Há também o talento multidirecionado, raro, integralizado.

Durante minhas décadas como professor na Universidade de São Paulo tive o grato prazer de receber em minha classe de piano vários talentos amplos e quantidade de outros para os quais a música representava, hélas, apenas uma possibilidade de alguma realização profissional. Afirmei em muitos blogs, ao longo de quase dez anos, que não aceitava em minha sala alunos que tivessem como finalidade única participar de concursos pianísticos. Teria que conviver com discípulo com apenas uma fixação em mente, geralmente abstraído da verdadeira missão de um músico e de um aprimoramento humanístico necessário. Interessava-me, sim, formar o músico, não o simples tecladista. Dizia aos alunos que tocar bem é fulcral, mas não deve ser a única meta, pois a formação cultural homogênea possibilita o vislumbre de um norte, in conditio sine qua non. Sem a abertura da mente, lacunas são perceptíveis e podem tornar-se crônicas e irrecuperáveis.

Menos de dois anos antes de minha aposentadoria, em 2008, bateu à porta de minha sala na Universidade um aluno por quem tinha simpatia, mas não convívio. Em mais de uma oportunidade cheguei a ouvi-lo tocar, mercê da deficiência acústica notória existente àquela altura nas salas de aula do Departamento. Não sei se persiste. Sabia-o talentoso e, inclusive, promissor regente coral. Procurou-me por ter sido dispensado pelo professor que me antecedera em sua orientação pianística. Luiz Guilherme Godoy, olhar firme a não permitir tergiversação, cativou-me de imediato. Quis ouvi-lo e, à medida que tocava uma obra complexa e de grande interesse, o “Estudo nº 1″ de Osvaldo Lacerda, percebi de imediato que estava diante de um diamante raro em processo de lapidação. Logo após contou-me sua trajetória, pois, paralelamente ao curso universitário, estudava com o competente professor e pianista da Escola Municipal de Música, Renato Figueiredo. Durante muitos anos Renato foi mestre e, diria, mentor humanístico de Luiz Guilherme, pois ajudou-o a trilhar o longo caminho… O então aluno tem gratidão eterna a Renato e à sua esposa Fabiana, convidando-os, inclusive, para padrinhos de seu casamento, realizado em Viena. Gratidão, princípio fundamental para a harmonização de nosso interior. Externou-a também em relação à minha orientação, comovendo-me. Certamente guarda lembranças edificantes de outros mestres. Um belo caráter.

Foi com imenso gosto que acompanhei seus estudos até a brilhantíssima conclusão na universidade. Ele formado e eu aposentado, durante muitos meses ainda o assisti em minha casa com alegria e certeza de sua realização futura. Minha mulher Regina e eu conversávamos sobre essa “santa” altivez de Luiz Guilherme. Talento saindo pelos poros, execução firme, consciente, e o olhar sempre direto. Suas interpretações demonstravam a compreensão da obra musical além da partitura. Fiel ao texto, Luiz Guilherme demonstrava a rara qualidade da criatividade. Um pianista com reais méritos que se tornaria um ótimo pianista acompanhador, caminho indispensável para seu trilhar iluminado.

Lutou acirradamente pela subsistência. Orgulhava-se de sua origem. Seu dia era interminável, pois tinha pequenas atividades musicais para conseguir o prosseguimento de seus estudos. Renato Figueiredo e eu, nesse período difícil para Luiz Guilherme, demos esse apoio musical e externávamos plena amizade. Regina e eu tivemos o jovem promissor à nossa mesa em mais de um almoço, sempre nesse entendimento sereno.

Um belo dia, Luiz Guilherme chegou à aula muito sorridente. Obtivera bolsa para a Europa. Alegria plena do velho professor e igualmente de seu mestre Renato.

Luiz Guilherme singrou mares, sempre com o pensamento cônscio do  valor autêntico, mas a guardar qualidades ímpares, a simplicidade e a gratidão. Disciplina, concentração, dedicação extrema fariam com que, pouco a pouco, completasse cursos em Portugal, na Alemanha e na Áustria, aperfeiçoando-se com mestres irretocáveis, um deles brasileiro, o pianista Paulo Álvares.

A ascensão de Luiz Guilherme evidencia bem o talento extraordinário do músico de apenas 28 anos de idade. A base sólida instrumental fê-lo estagiário como pianista preparador da Wiener Singakademie, coro da Konzerthaus de Viena, nas programações do biênio 2013-2014  junto a maestros como Sir Simon Rattle, Valerye Gergiev e Gustavo Dudamel. Logo a seguir, em 2015, teria a indicação para assistente da direção artística da instituição, que o levou a apresentações em centros essenciais da Europa.

O grande talento, possuidor de mente privilegiada, extraordinária formação musical, friso, bom senso e vontade férrea, fez com que atingisse nesse 2016 cumeeira jamais alcançada por músico brasileiro. Após rigorosíssima seleção de nível internacional foi apontado para o cargo de Kapellmeister (mestre de capela) do mais famoso conjunto vocal de meninos do planeta, os “Meninos Cantores de Viena”. A crítica europeia não cessa de elogiá-lo e uma delas destaca sua interpretação “autenticamente vienense”. A agenda de Luiz de Godoy estende-se até 2019 e o jovem brasileiro estará a conduzir o célebre coro em turnês pela Europa, Ásia e América do Norte.

Noite Feliz pelos Meninos Cantores de Viena

Saliente-se que nesses três anos em um dos mais importantes centros musicais do mundo, Viena, Luiz Guilherme já acumula outras funções de extrema responsabilidade que lhe foram confiadas, mercê desse talento hors série que enfatizo sempre: regente na Wiener Songakademie, Konzerthaus e da Chorakademie da Ópera Estatal de Viena.

Em uma de suas últimas mensagens (05/12), respondendo a um e-mail que lhe enviara, escreve: “Ainda não havia respondido por ter ficado o dia todo envolvido com longos ensaios da Missa in Tempore Belli, de Haydn, na companhia agradabilíssima e sob a direção exemplarmente respeitosa de Zubin Mehta. Esse grande maestro trabalhou hoje pela primeira vez com as ‘minhas crianças’ para um concerto que se realizará na semana que vem. Tendo chegado em casa agora, vim direto para o computador para redigir este e-mail”.

Adeste Fideles pelos Meninos Cantores de Viena

Repasso ao leitor um fato do cotidiano que me foi transmitido pelo dileto amigo Carlos Augusto Souza Lima, que, em recente viagem à Europa, visitou-o em Viena. Luiz Guilherme fê-lo ouvir um ensaio com os Meninos Cantores. Este findo, pediu para que um dos meninos, de apenas 11 anos, permanecesse na sala, a fim de cantar uma música para Carlos Augusto. O miúdo, natural da Albânia, cantou de maneira angelical uma pequena peça, a emocionar o visitante.

Toda essa ascensão de Luiz Guilherme de Godoy teve reconhecimento extraordinário, pois recebeu no dia 10 de Dezembro, em Viena, o Prêmio da Fundação Erwin Ortner, concedido anualmente a uma só personalidade do universo coral europeu. A lista que vem desde 1988 não deixa dúvidas quanto ao mérito insofismável de Luiz de Godoy.

Quanto à Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy torna-se certamente, entre alguns que lá se formaram com méritos e desenvolvem carreiras brilhantes, o nome maior em sua história na área musical.

Ao bater à minha porta na universidade, Luiz Guilherme deixava ao largo mágoas que poderiam desviá-lo dos altos desígnios que já pululavam em sua  mente privilegiada. Tantos não resistem aos momentos difíceis… Vivendo em Viena de incontáveis tradições exemplares, totalmente diversa de nossa realidade, hélas, escreve Luiz Guilherme (22/12): ” Mesmo num país como a Áustria, onde música é matéria obrigatória nas escolas desde sempre, onde todo professor de ensino infantil tem que tocar um instrumento e cantar – no concurso de admissão! -, onde o ingresso para a ópera custa 3 euros… mesmo aqui há muitas medidas no sentido de tornar a arte ainda mais acessível, para atingir a todos os que possam se beneficiar dela. E a gente, por aí, indo na contramão disso, perdendo orquestras, perdendo festivais. Que tristeza!”. Nosso lamentável cotidiano cultural sem quaisquer perspectivas de melhoras!

Conhecendo o caráter íntegro de Luiz de Godoy, tenho a convicção de que o futuro revelará o sábio semeador das mensagens musicais. O diamante foi lapidado e já pertence aos teatros e salas espalhados pelo mundo. Renato Figueiredo e eu acompanharemos com felicidade interior intensa, essa luminosa carreira que se apresenta.

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Estava a inserir o post no presente blog, quando recebo de meu diletíssimo amigo e grande compositor português, Eurico Carrapatoso, um link que leva à sua criação “Dece do Ceo”, a partir de soneto do vate maior de nossa língua, Luiz Vaz de Camões. A obra foi estreada no último dia 17, no monumental Convento de Mafra, e teve como intérpretes: Joana Seara (soprano), Coro infantil, Coro misto e Coro de Câmara da Academia de Música de Santa Cecília, seis órgãos históricos comandados por Rui Paiva, Direção do maestro António Gonçalves (vide blog “Dece do Ceo” 28/05/16). Tão logo no YouTube indicarei o link aos leitores.

Nesse ambiente natalino insiro outra obra sublime de Eurico Carrapatoso interpretada pelos seguintes músicos: Angélica Neto – Soprano,  António José Carrilho e Sofia Norton – Flautas de Bisel, Jenny Silvestre – Cravo, Coro e Ensemble instrumental Olisipo sob a direção de Armando Possante.

Ó meu Menino (excerto do Magnificat em Talha Dourada)

A todo leitor que me tem acompanhado nessa longa jornada a observar as insólitas transformações por que passa o cotidiano mundial, desejo um Natal de intenso congraçamento em torno da data maior da cristandade.

This post is about the brilliant career of my former student at Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy. From a humble background, he has had to overcome countless difficulties to pursue his dreams. With unique talent, he got a scholarship to Europe, studying in Portugal, Germany and Austria. Today he is choral conductor of the best known choir in the world, the Vienna Boys’ Choir and has just received the Erwin Ortner Award, given annually for a personality active in the field of collective singing in Europe. Luiz Guilherme is no doubt the greatest name in the history of Universidade de São Paulo in the area of music education and matter of pride for his former mentors, pianist Renato Figueiredo (Municipal School of Music) and me.

 


 

 

 

Planejamento consciente x ausência de profissionalismo

A morte do jardineiro não lesa uma árvore.
Contudo, se você ameaçar a árvore,
então o jardineiro morre duas vezes.
Antoine de Saint-Exupéry
(“Citadelle” – capítulo V)

Antônio já havia lido o blog anterior sobre a tragédia a envolver a equipe da Chapecoense, comissão técnica, dirigentes, jornalistas e convidados, deixando 71 mortos e seis gravemente feridos, estes, felizmente em recuperação. Natural de Jaraguá do Sul, igualmente do Estado de Santa Catarina, como Chapecó, Antônio fez pergunta pertinente: “Pode uma equipe bem mais modesta, como a Chapecoense, competir na igualdade com times imensamente mais ricos?”. Inicialmente disse-lhe que gosto imenso de futebol desde a tenra infância, mas não seria a pessoa indicada para responder. A certa altura perguntou-me sobre a Portuguesa, time pelo qual torci muito, até o episódio a envolver sua estranha queda para a série B, mercê da “troca” de posições e da “ascensão” estranhíssima do Fluminense, time que havia merecidamente caído para a série B no campo de futebol, friso bem. Aliás, o Fluminense tem tradição nesses recursos no famigerado tapetão.

Que o futebol é uma paixão para centenas de milhões de aficionados espalhados pelo mundo não há a menor dúvida. Rarissimamente um torcedor muda de time. A fidelidade é tão maior avaliada se a compararmos com a dos “amores eternos”, pois o número de dissoluções de casamento em breve tempo de união é fato. Acredito que apenas a religião compete com o futebol no item fidelidade, assim mesmo com boa desvantagem.

Quando houve o imbroglio a envolver Portuguesa e Fluminense, insólitas decisões do STJE, sediado no Rio de Janeiro, provocaram o descenso da Lusa para a segunda divisão. Desmoralizada sob o aspecto moral e ético, graças à ventilação ampla pelos meios de comunicação do processo que envolveria o comprometimento de dirigentes da Associação Portuguesa de Desportos, a descida à série D, último estágio do campeonato brasileiro, foi sequência natural. Mergulhada em dívidas impagáveis – seu estádio a ser leiloado -, segue a Lusa seu destino abissal. Comentei muito anteriormente que o melhor a fazer seria “congelar” o futebol profissional, continuando a existência da Associação em níveis esportivos diferenciados.

A partir de toda essa tumultuosa situação, deixei de torcer pela Portuguesa, sem contudo substituí-la por qualquer outra equipe. Esqueci-a e isso foi bom, pois a Lusa, sob outra égide, sempre sofreu em campo as decisões equivocadas dos árbitros, o que, aliás, era motivo de chacota por parte de torcedores de outros times, constrangimento por parte de sua diminuta torcida e vergonha para o futebol.

Atualmente assisto aos bons jogos pelo prazer de ver espetáculos de arte futebolística. Foco meu olhar nos grandes embates que se processam nos principais centros europeus. Raramente vejo jogos de nossos campeonatos, não suportando o incalculável número dos chamados passes errados no nosso futebol. Lembraria ao leitor que esse é princípio primeiro que deveria ser ensinado aos nossos jogadores, mas que técnicos, a grande maioria sem conhecimentos ao menos medianos, não transmitem aos nossos atletas. Fundamentos essenciais passam ao largo e a troca frequente de técnicos no futebol brasileiro apenas ratifica mesmices por eles praticadas. Os mais conhecidos já dirigiram os times mais “importantes” do país!!! Importa-lhes a pontuação nos campeonatos e não a edificação do futebol arte, planejado, estudado. Não seria essa uma das razões de o Brasil não receber convites para que técnicos pátrios dirijam equipes de ponta da Europa? Quando convidados por países asiáticos ou do Extremo Oriente, partem em busca do ouro e transmitem os parcos conhecimentos a um tipo de futebol ainda precário. Todo o mal está feito, pois.

Admirei a estrutura da Associação Chapecoense de Futebol desde 1973, data da fundação da agremiação, e que foi dada a conhecer ao mundo mercê do trágico acidente aéreo. Competência, dedicação sem atos desabusados, orçamento módico, mas bem administrado, e… fervor de uma população que acarinha de maneira comovente o time da simpática cidade de Chapecó. O compositor e pensador francês François Servenière escreve em sua mensagem sobre a infausto acontecimento que dizimou a Chapecoense: “Essas tragédias são raras, mas quando atingem pessoas públicas, a emoção é maior, pois fazem parte de nosso cotidiano audiovisual, como se os acidentados ‘integrassem um pouco nossa família’. Os atentados cotidianos islamitas que fazem dezenas de mortos; inundações, terremotos que ocorrem sempre, dizimando centenas ou milhares de seres humanos, representam mortos anônimos que integram estatísticas macabras, cifras que se acumulam inexoravelmente. Damos importância relativa. Quanto às figuras conhecidas mundialmente, sabemos que não mais estarão entre nós. Quando Ayrton Senna morreu em Imola, tive uma tristeza infinita, não pelo fato de ser brasileiro e porque representava, ao lado de nosso Alain Prost, um gênio das corridas de F1, com quem disputava aos domingos as poles positions nos circuitos do mundo, mas pelo fato de o termos visto morrer en direct, drama que teria o equivalente se Pelé morresse durante um jogo de futebol. Quando um deus dos estádios ou, no caso da Chapecoense, uma equipe inteira morre e pouco após presenciamos en direct o palco do acidente, presenciamos, na realidade, uma tragédia à antiga” (tradução: J.E.M.). Estou a me lembrar que menos de um minuto após aquele choque brutal que vitimou Ayrton Senna, meu saudoso pai me ligou do alto de seus 96 anos e me perguntou, após ouvir palavras ainda de esperanças pela TV: “Será que foi grave?”. Não vendo qualquer reação e assistindo a um incrível desespero daqueles que cercavam o carro, disse-lhe que, a meu ver, ele estava morto. Meu pai, com a voz embargada, desligou o telefone.

Sob outra égide, esse post atenderia aos questionamentos de meu amigo Antônio. A importância do futebol, o esporte mais praticado no mundo, deveria sempre ter como fulcro o entretenimento sadio. Para quem gosta apenas do bom espetáculo, é um prazer vê-lo, não importa o lugar, tampouco as equipes envolvidas.Hoje, não mais como torcedor, mas como aficionado pelo esporte bretão, sinto-me bem mais confortável. Paixão existe como sentimento  positivo para a maioria dos torcedores. Ela é sadia, desde que não ultrapasse negativamente os limites da civilidade, graças à grande chaga aberta, jamais cicatrizada, a torcida organizada. O Poder Público no Brasil não tem a coragem de  extingui-la, e os uniformizados continuarão a provocar mortes sucessivas em batalhas campais, mercê do número crescente de marginais em suas fileiras. A Europa soube combatê-los com firmeza, mas em nossa plagas… Apesar de não mais ligado a um time, aguardarei com profunda simpatia a remontagem da gloriosa Chapecoense. E como ela merece ressurgir das cinzas!

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No próximo post abordarei, com enorme felicidade, a consagração inédita e maior de um jovem brasileiro no cenário mundial, Luiz Guilherme Godoy. Seu mestre durante tantos anos, e que teve papel preponderante em sua formação na Escola Municipal de Música, Renato Figueiredo, e eu, na Universidade de São Paulo nos seus dois últimos anos em minha classe de piano, sentimo-nos plenos daquele sentimento que o prelado D.Henrique Golland Trindade denominava o “santo orgulho”.

 

 



Chapecó-Medellín, amálgama da solidariedade

Imortais somos porque o tempo é consubstancial do eterno.
Agostinho da Silva

Deixei que os dias escoassem. Assisti aos inúmeros noticiários e às pungentes homenagens prestadas aos 71 mortos na tragédia aérea na Colômbia, que vitimou não apenas a equipe de futebol da Chapecoense, mas também sua comissão técnica, dirigentes da agremiação, jornalistas, convidados e tripulação. Como milhões de brasileiros e colombianos, fui tomado pela emoção. O poeta Luiz Guimarães Junior (1844-1898), no famoso soneto “Visita à casa paterna”, já apregoava “Resistir quem há-de?”.  O desaparecimento repentino  de toda uma valorosa equipe de futebol impactou o mundo. São poucos os acidentes aéreos a vitimar um time esportivo inteiro. Através das décadas, contam-se nos dedos. A comoção planetária, graças à força das comunicações instantâneas, dimensionou ainda mais o ocorrido, pois tudo era apresentado hic et nunc. A fatalidade que se abateu sobre a equipe da  cidade de Chapecó (210.000 habitantes) foi pranteada em todos os países que praticam o futebol. Fundada em 1973, a Associação Chapecoense cresceu com disciplina, vontade, dedicação e fé em seus propósitos. Da última série do Campeonato Brasileiro (D), chegaria à série B e, ao adentrar o seleto grupo da série A, mantém-se com galhardia desde 2013, a melhorar a cada ano seu posicionamento. É fato que a população inteira da cidade torce com entusiasmo pelo time, que tem levado a admiração a todo o Brasil, mercê das façanhas que se acumulam. A campanha nesta última Copa Sul Americana de Futebol demonstrou que os bravos jogadores não se intimidaram diante de equipes do continente bem mais credenciadas. O time granjeou respeito. Foi derrotando adversários potencialmente mais fortes e se fortalecendo moralmente. Faltavam-lhe dois jogos para a possível grande conquista. O adversário, Atlético Nacional de Medellín, atual campeão da Taça Libertadores da América e, possivelmente, o melhor time do momento na América do Sul, deveria ser um contendor a levar maiores chances de vitória, sem quaisquer garantias porém, pois a Chapecoense sempre lutou com um imenso destemor, além de ter sido orientada por um experiente técnico, Caio Junior, igualmente falecido no acidente.

A final, que seria disputada na cidade de Medellín (circa 2.200.000 habitantes), na Colômbia, tinha um significado especial para os habitantes da aprazível Chapecó, pois pela primeira vez a Chapecoense disputaria a final de um campeonato internacional. Quis o destino que essa probabilidade fosse adiada e novamente a agremiação terá de travar árduas batalhas em campo para a difícil escalada em busca do nível dos sonhos.

Acompanhei toda a homenagem que o Clube Atlético Nacional de Medellín prestou à Chapecoense. Preparada a manifestação no Estádio Atanasio Girardot, da cidade colombiana, em pouco mais de 24 horas, o que se viu foi algo único e extraordinário. Àquele que desconhecesse o tributo prestado, ficaria a impressão de que tudo fora preparado meses antes. Manifestação espontânea, organizadíssima. Tendo assistido ao longo das décadas a inúmeras aberturas de Olimpíadas ou Copas do Mundo de Futebol, jamais vi e senti, no gênero, emoção maior. Cerca de meia hora após o início, comovido, disse à Regina que estávamos a ver o ineditismo a toda prova, colocando nossa sensibilidade no limite do possível. A cerimônia transcorria e autoridades se revezavam nos pronunciamentos, intermediados por desfile fúnebre da Guarda Nacional, apresentação da Orquestra de Câmara de Medellín, presença dos jogadores do Atlético Nacional, da Comissão Técnica e dos dirigentes, em profunda homenagem póstuma. Balões brancos voaram às alturas após serem soltos por crianças, paulatinamente, a lembrar cada jogador, comissão técnica, jornalistas, dirigentes e tripulação, anunciados pela linda e sensível apresentadora. Convidado, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra, muito aplaudido, leu seu breve discurso, interrompendo-o várias vezes, tomado pela mais intensa emoção. Falando em espanhol – esteve asilado no Chile durante a ditadura militar -, ao final disse com a voz embargada que jamais em sua vida pública presenciara algo igual. O Ministro jamais poderia pensar que, durante uns bons minutos, os 40.000 presentes gritariam “Dá-lhe Chape”. Realmente, algo indescritível!!!   A Chapecoense e o Brasil estarão eternamente gratos ao país limítrofe por esse ato de solidariedade.

O futebol continua a ser uma das paixões de grande parte da humanidade. Algumas das principais equipes da Europa têm adeptos em todo o planeta, como Real Madri, Barcelona, PSG e Manchester United, entre outros. Um fabuloso esquema comercial, que envolve ingressos para os eventos, televisionamento, material esportivo e tantos outros itens, faz com que enorme cadeia ligada, por vezes, a estranhos propósitos, macule o verdadeiro ideal em torno da bola. As manifestações globais a envolver uma desconhecida equipe em termos mundiais, a Chapecoense, evidenciaram que, dentro da engrenagem diretiva ligada ao futebol, algo voltado à esperança e à solidariedade ainda dá mostras de existir.

Fiquemos apenas com esse lado positivo. A tragédia coletiva, a extrair de cada ser o sentimento humanístico que deveria guiá-lo em todos os atos da existência. As tragédias individuais cotidianas passam sempre ao largo. São tantas e servem apenas para vinhetas de noticiário, logo esquecidas. Chapecó e seu povo cresceram neste Brasil tão pleno de violência diária, de incompreensão e desigualdades. Oxalá a partir desse terrível acidente e da grande e inesquecível solidariedade do povo colombiano, que esteve sempre presente, possamos refletir mais sobre nossa extrema fragilidade frente ao imponderável e, no âmbito do futebol, entender o time adversário não como um inimigo, combatente a ser esmagado, mas como um oponente que se apresenta com os mesmos desideratos de vitória. Toda a irmanação vivida durante a semana, até que os corpos do infortúnio descessem às sepulturas, tem de ser uma luz de esperança para o futebol, ainda repleto dessas torcidas organizadas, chaga absoluta. Só poderíamos almejar que o exemplo vindo do amálgama das lágrimas e da chuva torrencial, no longo evento na Arena Condá, em Chapecó, durante as cerimônias fúnebres, jamais seja esquecido e que ilumine como um farol, mesmo com luz tênue, o caminho do entendimento. É necessário acreditar, ainda.

On the crash of the chartered flight near Medellín (Colombia) in which almost all players and coaching staff of the Chapecoense soccer team from Brazil, newsmen and crew members have been killed, the touching and extraordinary tribute to the victims held in Medellín and the display of solidarity among the sporting community in Brazil and throughout the world.