Navegando Posts publicados por JEM

A recepção competente

Mountains are not fair or unfair
they are just dangerous.
Reinhold Messner (1944-  )
(Pioneiro na escalada dos 14 picos acima dos 8.000 metros)

Naviguer est une activité qui ne convient pas aux imposteurs.
Dans bien des professions,
on peut faire illusion et bluffer en toute impunité.
En bateau, on sait ou on ne sait pas.
Eric Tabarly (1931-1998),
(navegador e escritor francês)

Ao longo de mais de nove anos foram inúmeros os blogs a priorizar as ascensões à imensa cadeia de montanhas do Himalaia e do Karakorum. Especialmente dois posts tiveram de minha parte mudança de posição. Faço-a presententente, após leituras posteriores de especialistas da área, alguns alpinistas de muitos méritos. Maurice Herzog, que teria sido o primeiro a subir em um cume acima dos 8.000 metros, o Annapurna (1950), herói nacional em França, foi contestado, inclusive por dois motivos essenciais: não deixou nenhuma marca no topo da montanha e relegou para plano inferior seu companheiro de cordada Louis Lachenal. O alpinista René Desmaison, em seu livro comentado neste espaço (vide: Les Forces de la Montagne, 10/11/2012), é bem cáustico sobre a personalidade de Herzog. Em termos brasileiros, também comentei o livro de Waldemar Niclevicz (vide “Um sonho chamado K2″, 06/09/2008). Contestações de colegas e alpinistas lançaram dúvidas quanto a determinados feitos confessados por Niclevicz. O certo é que a área do alpinismo tem fantásticos esportistas e figuras colocadas sob suspeitas, pois certas “conquistas” podem ter sido fantasiosas. Não desprezemos os holofotes, que atraem e dimensionam “personalidades”. Atraídas pelas luzes e por patrocinadores ávidos, mentes tendem a divagar, supervalorizando feitos ou criando lendas não contestadas por falta de elementos probatórios.

O compositor e pensador François Servenière, admirador, como eu, de tantas modalidades esportivas, foi montanhista de cordada na juventude, tendo ascendido  até 4.200 nos Alpes, montanhas nos Pirineus e praticado esqui a 3.000 metros. Um acidente, sem consequências para outras atividades, impediu-o de galgar outras elevações. Após a leitura do blog a relatar o memorável feito do alpinista português João Garcia, tema do blog anterior, Servenière escreve:

“Neste sábado, ao ler os dizeres da capa do livro de João Garcia e a foto do alpinista, disse-me imediatamente: Eis mais um!!! Outro atleta conseguiu ultrapassar a barreira mítica dos 14 picos acima dos 8.000, todos na cadeia do Himalaia e do Karakorum. Não fosse eu compositor, teria certamente também continuado o alpinismo como meta de vida. Enfim, escolhemos nossos caminhos. Aos 20 anos era eu um ‘traseiro entre duas cadeiras’, como se diz em França, e meu credo eram os 3 M (MER, MONTAGNE, MUSIQUE). Para mim, três cadeiras, mas a aspiração musical ditou mais forte. Não lamento, apesar de ter permanecido uma ponta de nostalgia. Ao findar o serviço militar, deveria partir para os Alpes. Uma só razão dissuadiu-me, pois após um treinamento esportivo na caserna, simulação de combate, no qual eu era realmente dotado, graças ao fato de ter a agilidade de um símio, caí e tive uma tríplice entorse cervical que me levou a seis meses de intenso tratamento com uma trava no pescoço, handicap para sempre nesses meus almejos das alturas. Continuei a praticar esqui em alto nível, mas a escalada, nunca mais. Duro golpe para o atleta que fui, ao subir os Pirineus por várias faces durante mais de uma década.

Quando leio seus blogs sobre montanhismo, também uma de suas paixões, vem-me água na boca, mercê de uma contínua visitação ao Google para vislumbrar faces, passagens, paredões encontráveis na montanhas. Impossibilitado, voltei-me às duas outras paixões, o mar e a música”. Para o leitor, ficaria claro que a minha impossibilidade de realizar esses sonhos deveu-se aos estudos de piano, fato já relatado em blogs bem anteriores.

Prossegue Servenière: “Vejo com prazer que João Garcia faz parte doravante do panteão dos melhores alpinistas do planeta. Essas figuras, após o primeiro entre eles, Reinhold Messner, são atletas acima dos conceitos habituais. Envio-lhe a lista desses destemidos, e João Garcia está na 11º posição entre aqueles que, em ordem cronológica, subiram sem oxigênio auxiliar nos 14 picos mais altos do mundo (http://www.altissima.org/alpinistes-14-8000.html), e em 19º na contagem geral (com e sem oxigênio). Nenhum francês ou brasileiro nessa lista! Quanto à França, entende-se, e seria possível dizer que a síndrome da trapaça de Maurice Herzog, em detrimento de Louis Lachenal, ainda perdura entre nós. Impressiona-me e alegra-me verificar que um país encantador como Portugal, pouco mais de três vezes maior do que a nossa Normandia, seja berço de tantos gênios em todos os domínios. Quando sentimos a primazia europeia da universidade de Coimbra, podemos acrescentar que naquele país sopra o espírito e isso me marcou”. Servenière esteve em Coimbra em 2011, ano em que foi lançado meu livro Impressões sobre a Música Portuguesa, após recital em que apresentei obras do notável compositor português Francisco de Lacerda, assim como criações de Eurico Carrapatoso e do próprio François Servenière. Este continua em sua bela mensagem: “Há qualquer coisa de particular naquelas terras lusitanas! Essa sensação é nítida quando ouço cada música lá composta. Aqui em França, o meu espírito exprime-se também direcionado à montanha, a morada dos Deuses. Diria que os meus 3 M contêm uma lógica: atingir os cimos, os grandes espaços, aproximar-me do universal. João Garcia é universal como os americanos que caminharam na lua. Como descer desse Olimpo? Quantos não perderam suas vidas ao descer, pois estariam inebriados pela felicidade de seus feitos? Mais do que o esforço físico, apreendi que a montanha representa o completo domínio de si mesmo, da mente, pois tudo lá está, nas meninges, mormente quando as pernas exaustas obedecem às ordens emanadas do pensamento firme. É incrível o fato de João Garcia acumular os 14 picos acima  dos 8.000!. Uma vocação, um destino, uma programação mental desde a infância, isso requer tantos sacrifícios! É tão difícil realizar 10% do que eles conseguiram. Estarrece-me o K2, o cume dos cumes, pois o Everest ‘parece ser’ atualmente um boulevard. Se bem que anualmente morram principalmente os despreparados, pois esse tipo de aventureiro, desconhecedor da força da montanha, invadiu o Everest já há muito tempo.

Finalizando, trata-se de um outro mundo que não o nosso, mas o mesmo, numa visão  metafórica, nessa intenção de chegar à cumeeira. Da qualidade, no caso. Certo dia disse a um de meus produtores, para o qual eu trabalhava como compositor e orquestrador, que meu interesse voltava-se ‘ao Everest da música’… Nunca mais ele me chamou para um trabalho seu. Na realidade, apenas externei minhas ambições musicais. Levou-me a mal e como ele era compositor e eu escrevia uma grande parte de suas músicas… Mentalidade pequena!

João Garcia integra o verdadeiro panteão, aquele dos ilustres que conservam a humildade”.

Foi com alegria que recebi mensagem de João Garcia a comentar meu último blog. Ratifica a sua íntegra posição de admitir o erro, quando raramente ele ocorre, no caso, reparando-o: ” Sim, sou apologista de que é normal cometer erros, mas não voltar a repetir os mesmos erros!”. Corrobora o final da mensagem de Servenière.

This post resumes the subject of mountaineering, now with an e-mail message received from the French composer François Servenière. A mountain climber in his youth, he has read the post about João Garcia and makes valuable comments on this risky activity, never to be taken lightly.

 

 

O alpinista português João Garcia e suas façanhas

O dia do cume é meu, sim,
em que tenho o privilégio de chegar lá acima,
onde poucos chegam. Mas tudo o que ficou para trás
resulta de um trabalho de equipa.
João Garcia

A nossa maior glória não é nunca cairmos,
mas levantarmo-nos sempre que caímos.
Confúcio

Anteriormente resenhara livro do alpinista João Garcia sobre a epopeia que resultou na sua subida ao Everest em 1999 (vide blog “A mais alta solidão – O primeiro português no cume do Everest”, 28/07/2012). Após a publicação, recebi com surpresa e-mail do alpinista a comentar o post. Tantas outras aventuras relacionadas às grandes altitudes deveriam ocorrer após a trágica descida à cumeeira do planeta empreendida por João Garcia em 1999.

Nesta última viagem a Portugal procurei obras mais recentes de João Garcia e encontrei na Livraria Bertrand  no Chiado, em Lisboa, que se orgulha de ser a mais antiga do planeta, “14 – Uma Vida nos Tectos do Mundo” (Alfragide, Lua de Mel, 2013). Nesse empolgante livro, João Garcia, após conquistar os 14 mais altos picos do planeta, todos aqueles acima de 8.000, estabelece um plano para sua narrativa. Dividido em segmentos definidos, todos estão relacionadas ao número de suas conquistas naquelas alturas: 14 Pessoas, 14 Competências, 14 Montanhas, 14 Momentos, 14 Locais. O número emblemático é mencionado sistematicamente na obra, pois o alpinista foi, até o livro em pauta, um dos dez a subirem os 14 picos sem auxílio de oxigênio. Comenta: “ao utilizar oxigênio estamos a enganar a montanha e a nós próprios”.

Em vários posts dimensionei a palavra gratidão. João Garcia lega belo testemunho ao mencionar e discorrer sobre 14 pessoas que o ajudaram em seu percurso e acalentaram seus sonhos. Fá-lo igualmente ao mencionar suas 14 competências, determinantes para a confiança que adquiriu e a coragem advinda, mercê da certeza de estar preparado para o mister de galgar os 14 maiores picos do mundo. O segmento das 14 competências tem interesse particular, pois todo um passado voltado à apreensão de coisas práticas é relatado, por vezes com muito humor. Eis as “competências”: ginástica, escotismo, voleibol, rúgbi, escalada, maratonas, ultra-trail, carpintaria, eletrônica, radioamadorismo, eletrotecnia, fotografia e costura. Todas forjando habilidades que o ajudariam para o grande almejo.

Se durante muito tempo alpinistas foram apelidados de “conquistadores do inútil”, segundo palavras do autor, presentemente o alpinismo praticado pelos grandes especialistas tem-se mostrado exemplo de tenacidade e de vontade de ultrapassar obstáculos antes intransponíveis. A atitude corrobora os caminhos que o homem pode trilhar em qualquer área. Não se confunda a alta performance com a banalização representada por “legiões” que sobem, principalmente no Everest, e que nada mais são do que turistas endinheirados, para gáudio de agências que proliferam no planeta. Tantos morrem, pois a montanha tem suas regras. Despreparo físico e vaidade incomensurável encaminham essas filas indianas de humanos que anualmente inundam a cordilheira himalaia, deixando lixo de toda a espécie, inclusive tendo de abandonar corpos de infortunados pelas trilhas, pois o resgate é praticamente inviável. João Garcia enumera a porcentagem de mortes nas montanhas do Himalaia. A relação é assustadora: Annapurna (38,0), K2 (23,24), Nanga Parbar (22,3), Everest (5,7). Considere-se que há quantidade muitíssimo maior dos que tentam o Everest, simplesmente pelo fato de ser o mais alto. O marketing da montanha  não tem limites.

João Garcia é um herói português. Um dos grandes. Determinado, após ter chegado ao cume de duas montanhas acima dos 8.000 metros, o Cho Oyu (8.201) e o Dhaulagiri (8.167) em 1993 e 1994, respectivamente, tenta duas vezes o Everest (1.848), atingindo o pico apenas em 1999, na trágica aventura que provocaria a morte de seu dileto companheiro belga Pascal Debrouwer. Como autocrítica, evidencia os vários erros cometidos, mormente ao permanecer cerca de uma hora no cume, e a desastrosa descida na qual seu amigo desapareceria. Hospitalizado, Garcia perderia posteriormente as falangetas dos dedos das mãos e o nariz, por necrose devido ao congelamento. Comenta que  “a maior parte dos acidentes fatais dão-se na descida, quando estamos mais cansados e, em alguns casos, menos concentrados”.

A vontade do intento arrefeceu-se durante certo tempo, mas em 2001 ei-lo a conquistar o Gasherbrum II (8.034) e, em 2004, o  Gasherbrum I (8068). Na ordem, seguiriam as subidas aos cumes de mais nove acima dos 8.000 metros: Lhotse (8.516 – 2005), Kangchenjunga (8.586 – 2006), Shishapangma (8.013 – 2006), K2 (8.611 – 2007), Makalu (8.481 – 2008), Broad Peak (8.047 – 2008), Manaslu (8.156 – 2009), Nanga Parbat (8.126 – 2009) e Annapurna (8.091 – 2010).

Dois outros segmentos de “14 – Uma Vida nos Tectos do Mundo”, finalizam a obra. Focaliza 14 momentos fulcrais, desde a ida de bicicleta à serra da Estrela ao profissionalismo soberano. Não deixa de pormenorizar-se em 14 locais, entre os quais Marraquexe, o Pico (Ilha do Pico – Açores), Mendoza (estadia para a ascensão ao Aconcágua (6.961 – 1996). Frise-se que João Garcia também subiu ao cume mais alto das sete montanhas dos  continentes: América do Sul, Ásia, América do Norte, Europa, Antártida, África e Austrália, citados por Garcia, respectivamente.

O fato de que nas várias secções do livro temas se entrecruzam faz com que muitas passagens sejam retomadas para o fluxo de uma nova narrativa. O processo apenas ajuda a memorização dos ricos relatos de João Garcia.

Considere-se que em praticamente todos os capítulos o autor enfatiza que, sem disciplina, preparo físico, concentração e vontade férrea, jamais teria conseguido tais feitos. Há quase que uma obsessão nessas ratificações. Reconhece seus méritos e, sem empáfia, mas com respeito ao leitor, demonstra que é cônscio das grandes performances realizadas. Comenta “Acima dos oito mil metros, temos muitas vezes a experiência única e assustadora de não estarmos sozinhos, apesar de não haver ninguém junto de nós. O cérebro está afectado pela falta de oxigênio, o esforço físico é muito violento, parece que, simultaneamente, perdemos discernimento mas ganhamos um sentimento mais agudo de consciência. Existe uma outra pessoa, um amigo imaginário, que nos ajuda a superar as dificuldades. É o tipo de miragem que ocorre quando enfrentamos situações extremas…”. Miragem ou um Poder Maior? O certo é que a determinação desse intrépido aventureiro português é extraordinária. “Dos fracos não reza a história”, segundo o maior vate da língua portuguesa, Luís Vaz de Camões. João Garcia estará indelevelmente na História do alpinismo mundial de alta performance. A História rezará.

This post is an appreciation of the book “14 – Uma Vida nos Tectos do Mundo” (14 – A Life on the Roofs of the World), written by the highly experienced mountaineer João Garcia, the first Portuguese climber to reach the summit of Everest (1999) without supplemental oxygen, an adventure that cost him fingertips and part of the nose due to frostbite. Unabated, his passion for climbing continued and he is one of the very few to have summitted the world’s 14 peaks above 8000m and the seven summits of the seven continents. A story of discipline, focus and burning determination, qualities without which such conquests would have been impossible.

 

 

Quando arguta sugestão leva a recordações

Se temos de esperar,
que seja para colher a semente boa
que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear,
então que seja para produzir
milhões de sorrisos,
de solidariedade e amizade.
Cora Coralina (1889-1985)

Durante o VI Simpósio Internacional de Musicologia, que se realizou na cidade de Goiânia entre os dias 13 e 17 de Junho, e tema do blog anterior,  um aluno, que ouvira numa das sessões do Encontro comentários a respeito de minha relação com a cidade desde o final década de 1970, perguntou-me quais seriam essas ligações anteriores. Não lhe respondi no momento e disse que poderia pensar em texto para meu blog. Atendo ao seu questionamento.

Naqueles anos mencionados, após palestras e recital na cidade a abordar a obra para piano de Claude Debussy, apresentação realizada no Musika – Centro de Estudos, no dia 1º de Abril de 1981, recebi convite da competente professora e pianista Glacy Antunes de Oliveira, diretora da escola, para orientar algumas professoras e alunos. Musika desempenhou papel relevante na vida cultural da cidade. Durante dois ou três anos, mensalmente viajava para Goiânia às sextas-feiras à noite para aulas que se prolongavam durante o sábado e o domingo pela manhã. Foi um período muito significativo para mim, pois anualmente me apresentava em recitais interpretando obras relevantes, mas pouco frequentadas.

Lembro-me que me impressionava  a transformação de Goiânia,  inaugurada efetivamente em 1937. Trinta anos após, já era uma  cidade próspera e visível se tornava seu crescimento, mormente para um não habitante. A relação amistosa que mantive com todos os alunos não poderia ser melhor. Tinha imensa alegria no convívio em torno de um piano. Não apenas os ouvia como conversávamos sobre música, apontava leituras importantes e tocava inúmeras obras durante as aulas. Entre os alunos, a competente professora Ana Guiomar Rêgo Souza, que tão bem co-presidiu o VI Simpósio e que desempenha magnífico trabalho frente à Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade de Goiás.

Em não poucos blogs escrevi que priorizo sempre a formação do músico e o pianista, a depender do talento, poderá emergir paralelamente ao seu desenvolvimento como humanista. O amálgama é imperativo.

Cercado pela atenção dos que frequentavam as aulas mensais, não poderia deixar de mencionar um fato curioso, hilariante até, e que é lembrado com humor quando estou em Goiânia. O pai de uma das alunas, fazendeiro e ótimo contador de histórias de caçadas, ofereceu-nos, a todos os que cursavam as aulas, um lauto almoço preparado pela sua dedicada esposa. Ao fim, disse-me que me reservara surpresas. Vieram à mesa amostras de suas caças. Agradeci com negativa diplomática, mas o bom homem fez-me degustar um pouco de cada caça. Tudo em quantidades bem pequenas, não sem antes comentar  como conseguira o feito. Lá estavam amostras dos mais variados animais silvestres de pequeno e de grande porte, várias qualidades de peixes, aves do Araguaia e até jacaré. Mantinha todo o “zoo” em congeladores bem robustos. Pouquíssimas horas antes de meu retorno a São Paulo, já no aeroporto, a fauna se rebelou em minhas entranhas. Inesquecível!!! Após essa experiência, jamais saí de dieta espartana, ou carne ou peixe (um só tipo de cada).

Foram muitos os retornos a Goiânia para recitais e palestras.Propunha sempre uma conversa no Musika e, posteriormente, na EMAC/UFG, sobre o repertório a ser apresentado à noite. Igualmente tenho lembranças duradouras das récitas nos anos 1990 promovidas pela Escola de Música dirigida irmã de Gyovana Carneiro, professora da UFG.  Nos programas, obras referenciais, mas pouco frequentadas. É tão vasto o repertório, e repetem-se prioritariamente as mesmas composições!!! Desde 2007, inúmeros blogs comentam essa situação, que se perpetua entre nossos intérpretes. Raras as exceções que contemplam a obra-prima que, oculta, espera ser revelada. Isso só acontece se lá formos, aos arquivos, às prateleiras de lojas especializadas e, hoje, à internet. O manancial é riquíssimo, inesgotável diria, e apenas aguarda o momento do desvelamento.

No plano acadêmico, a participação em várias bancas de pós-graduação trouxe-me a certeza de um singular empenho da UFG no sentido de formar quadro competente de docentes. Sem mencionar nomes dos postulantes, pois poderia esquecer-me de alguns, diria que o convívio à mesa julgadora com as professoras Belkiss Carneiro de Mendonça e Glacy Antunes de Oliveira foi-me sempre muito feliz. Sob o aspecto pianístico, Goiânia mostrava-se em altíssimo nível, mercê da atuação didática das duas professoras titulares da UFG. Mencionaria uma dissertação em especial, a de Othaniel Alcântara Júnior, pois o então bem jovem músico, hoje atuante docente da Instituição, apresentou a edição da magnífica Sonata para violino e piano de Henrique Oswald (1852-1931), muito bem interpretada durante sua defesa. Era mais um passo meritório para o conhecimento, que se faz a cada ano mais presente, da obra de nosso grande compositor romântico.

Foi a primeira vez que participei do Simpósio Internacional de Musicologia em Goiânia. Desde a minha aposentadoria, em 2008, não me fiz convidar para nenhum Encontro no país, mas tinha conhecimento do que se passava nesse campo tão específico. Continuava acentuadamente a me dedicar ao piano, às gravações na Bélgica e às apresentações na Europa, assim como à publicação de artigos e livros, mormente para o Exterior. Convidado, com enorme prazer verifiquei, nesta sexta edição do Simpósio, a maturidade da pesquisa na área musical apresentada e o debate de temas importantes realizado pelos participantes meritosos. Mantivemos convívio em alto nível e tive o prazer de rever colegas e conhecer outros, que já pertenciam ao meu campo de leituras. Como decano entre os docentes, senti sempre uma empatia salutar entre todos, troca de informações de nossa área e alegria de estarmos juntos. Saliente-se a presença dos quatro excelentes professores musicólogos vindos de Portugal, respeitadíssimos no Exterior.

Na abertura do VI Simpósio, a dileta amiga e competente professora Ana Guiomar Rêgo Souza, presidente e coordenadora geral, juntamente com a professora Magda de Miranda Clímaco, disse que eu era o mais antigo a frequentar musicalmente Goiânia e que, possivelmente, o arroz de pequi me tenha seduzido. Essa delícia goiana foi apenas a ponta do iceberg, pois minha relação afetiva com a cidade e amigos músicos da urbe está nas profundidades sólidas da amizade.

I’ve just arrived from the city of Goiania, where I took part in the successful Sixth International Symposium on Musicology. However, my connections with the city date back to the seventies, when I gave a course on Debussy at the local university. In this post, I talk about memories of travels to Goiania, dear friends I have there and the ever increasing maturity of research into music conducted at Universidade Federal de Goiás (UFG).