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Posicionamento que Merece Atenção

Inútil comentar que aqueles que têm em conta a Academia
tornaram-se totalmente surdos a qualquer música natural.
Formam uma casta de técnicos para os quais
o valor de toda a música se mede através da complexidade da escritura.
Para eles, o canto gregoriano e a música dos trovadores não têm interesse,
pois comportam uma só voz , resultando música fácil.
André Souris (1899-1970)

Ao considerar a proliferação de compositores e filósofos, baseando-me na observação de Serge Nigg (1924-2008),  primeiro músico francês a compor obra dodecafônica em França, na qual frisava que a partir de certo momento só era apresentado a compositores, pois “todos” assim se intitulavam, observei que, ao longo da última década a preceder minha aposentadoria em 2008, cada vez mais frequentemente alunos cursando ou egressos dos cursos de música-composição e filosofia pronunciavam-se como compositores e filósofos. Mais penetram em elucubrações a partir das tendências multidirecionadas da composição e do pensar, mais acentuadamente tentam diminuir as definitivas contribuições de compositores que permanecerão. André Souris, autor da epígrafe, menciona J.S.Bach, Beethoven e Debussy como alguns exemplos, “vítimas” de determinadas correntes “composicionais”. No pensar filosófico, Russell Jacoby e Vitor J. Rodrigues (vide blogs 21/03/2009 e 14/08/2010, respectivamente) já sinalizavam  empáfias similares às apontadas.

Quanto à música, seria possível constatar que a ascensão dos meios eletroacústicos, que não necessariamente implicou qualidade dos “compositores”, camuflou capacidades, em parte embaçando-as por “falta” de parâmetros de julgamento, levando à multiplicação de autores. Dezenas e dezenas de compositores têm obras selecionadas para as Bienais de Música Contemporânea aqui e alhures. Serge Nigg observa: “Diria que todos foram subitamente tocados pelas graças das musas”. Seria isso crível?  Como bem intuía  o grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro (1850-1923): “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável”.

O compositor e pensador francês François Servenière escreveu-me após a leitura do blog de 5 de Julho, a considerar vários fatores influentes nessa multidirecionada diversidade de meios de composição da atualidade. Sente em França o peso de tendências institucionais corroborando a edificação de”mitos” inacessíveis, ininteligíveis para a grande maioria daqueles que labutam em áreas como música e filosofia. Elegem-se oráculos de suas gerações e assim são tratados pela mídia “especializada”. Extraí segmentos de sua longa mensagem.

“Para retornar ao tema de seu blog, só posso, infelizmente, pensar como você. ‘O hábito não faz o monge’ e os estudos de composição, como os de filosofia, não tornam aspirantes a  compositores ou filósofos realmente capazes. O tempo se encarregará da decantação, se  houver. A sequência de minha vida musical revelou-me uma verdade imanente: O melhor gramático não faz automaticamente um artista, um compositor, um escritor ou um filósofo. Para que o artista ou o pensador flua há a necessidade de outra flama, que implica a compreensão  íntima e a partilha das forças do Universo em si. Não nego que as matemáticas constituem uma das forças que arquitetam a música e o Universo, se bem que música e Universo existam antes das matemáticas, estas relativamente recentes. Todavia, tenho a mais extrema reserva em relação aos compositores que entram na música pelas matemáticas. Diria mesmo que, se eles entram por essa porta, não encontrarão aquilo que procuram, como no caso do ‘albergue  espanhol’ (lugar por onde passam pessoas de diversas procedências). Os compositores que vivem a acrescentar sons e notas, sob pretexto da infalibilidade de modelo matemático (o caso da série aplicada a todos os parâmetros musicais é um dos maiores equívocos teórico-musicais, a mais extrema incompreensão do material original da música), apenas produzem dramas acústicos e desentendimento literário para os ouvidos do público.

No ato de compor, jamais pensei nas matemáticas, jamais, mesmo considerando ser meu espírito rigoroso e matemático. Sob outro prisma, sempre estive em concordância com recomendações de Debussy, bem antes de conhecer suas frases e conselhos históricos. Nunca deixei de pensar no prazer. Fui por ele guiado. Permanentemente me perguntava como Debussy deveria fazê-lo no ato da composição: ‘Se você quiser levar o prazer aos seus ouvintes, torna-se absolutamente necessário  começar por ter prazer ao compor’. Desde que sentia o prazer desaparecer de minha partitura, eliminava a passagem ‘não prazerosa’, sem qualquer remorso. Por várias vezes fiz ligações ou junções pela técnica composicional pura, pela sintaxe teórica e as cadências. Todavia, permanentemente as aperfeiçoava da mesma maneira que o pedreiro faz junções artísticas ao manusear belas pedras ou um marceneiro realiza cuidadoso encaixe para associar dois bonitos pedaços de madeira entalhados. Após muitos anos de labor, creio ter chegado a um êxtase que bem antes, numerosos compositores excelsos sentiram, como Gabriel Fauré. É o momento em que concluo que teria dificuldade em ensinar música teórica, tantos são os termos e ‘teorias’ agregados de ordem acadêmica que surgem nessas novas tendências, ininteligíveis para o público no resultado final, a composição.

Cheguei a um ponto onde a música sai de meu cérebro (como sempre, mesmo nos tempos de juventude, quando a ausência técnica freava o processo criativo, evidentemente) diretamente sobre a partitura, sem interface acadêmica. Nenhuma outra reflexão sobre a técnica musical aparece no ato criativo, só ‘o prazer como regra’ a guiar meu mouse e meus dedos a partir do comando cerebral. Essa regra é minha condutora e sempre o foi. Ao contrário dos teóricos, a prática (práxis), o material a ser trabalhado, limado, recortado, lapidado, interessava-me. Única razão de viver na música, nela pensar. Recusei funções docentes na Universidade de Rouen e na École Nationale de Musique em Laval. Entendia não ser o ensino meu caminho primordial.

Quando você aborda esses temas, apreendo fortemente seu ponto de vista, que me parece essencial e central. Assiste-se hoje em França a figuras institucionais em postos de poder se atribuírem títulos (de glória) de compositores, de ‘criativos’ que, na realidade, não merecem. Justificam esses títulos e postos por seus magistérios no Collège de France, o cume do ensino no país para todas as ciências enquanto que suas músicas convencem um número bem pequeno de ouvintes. Eis um caminho tortuoso evidente do sistema atual, que encoraja não somente esse tipo de carreira, mas também provoca o desvio da verdade ‘eu sou um compositor’ ou sou um ‘filósofo’,  pelo razão de se ter estudado nas grandes instituições do mais alto nível  (o status de compositor considerado um pouco como  função administrativa, com intenções de luta para a ascensão social e profissional em direção ao ápice, quando o essencial seria o desenvolvimento da mente criativa). Considerem-se igualmente os modelos típicos de carreiras mediáticas maiores, mas duvidosas sob o aspecto essencial da arte, só obtidas pelos portadores de diplomas e títulos e saberes de toda ordem. Essa situação para compositores, filósofos, escritores… O sistema demonstra, pois, que basta ser o melhor gramático para ser adulado como o melhor artista institucional. Onde estão as obras mestras? Busca-se sempre! E aí reside o profundo, manifesto e trágico erro. Vemos estranhos sábios, e a música (a verdadeira, a linguagem do coração) desaparece pouco a pouco de seus propósitos musicais institucionais. ‘Atentem para a minha música inteligente’, dizem eles! ‘Os senhores não a compreendem, e eu vou explicá-las durante seis horas, pois’. ‘Sim, ela é inteligente, mas ela não me causa qualquer efeito, ela não me diz nada’, responde em coro o público. ‘O que importa’, respondem os compositores institucionais, ‘se o povo não ama nossa música, nossos propósitos ou nossa ideologia, mudemos o povo, divulguemos, divulguemos nossas obras sem cessar, até que o povo nos compreenda’… E eis que nos sentiríamos num Stalag ou Goulag, ou nas escolas de reenquadramento mental das ditaduras ou mesmo tendo de engolir o Pequeno Livro Vermelho, sem compreender o que realmente está escrito, recitando à maneira pavloviana propostas que não nos interessam.

O relativismo colocado em evidência pela mídia, mais a ideologia e o marketing institucional, estabelecem o mesmo nível para todas as obras. É um equívoco, evidentemente. Não obstante, os indivíduos e os povos, desde que tenham meios, direcionam-se para os melhores produtos, para as ofertas mais qualificadas, mesmo as culturais. Não podemos resistir por muito tempo aos efeitos do Belo, e o ‘Clair de Lune’ de Debussy é aceito em quantidade apreciável de filmes. Não se trata de problema de cultura ou de ensino. Cada indivíduo é tocado pelo que é bonito, e isso está inscrito na alma dos seres vivos desde o momento que  tiveram acesso ao primeiro por do sol. A arte é solar! Não sem razão as civilizações mais expressivas do planeta tiveram o sol como Deus (Egito, Atenas, Roma, Europa…). Sol, água e o Belo. Metaforicamente, temos num plano inverso a sombra, o escurecimento, a morte, o niilismo, a frieza técnica e matemática, a supressão da vida nas obras, o risco da perda da identidade.

A política e as artes do século XX omitiram aspectos vitais da arte e da política. Retiraram a alegria, a felicidade, o partilhar, a dança, o prazer de viver e de respirar… e pariram não apenas os piores crimes da humanidade, como tiveram necessidade de bunkers para proteger suas ‘obras’ e sua ‘ciência superior’.

Eis minha prosa desta manhã, que se junta de maneira visceral e espontânea à sua, cultivada, talentosa, plena de experiências profundas e sensíveis, mas não divergente da minha. Não poderia ter um outro discurso diante das situações pelas quais você passou com esse jovem professor de filosofia que se diz ‘filósofo’. Tudo que escrevo sobre a música se aplica igualmente à área desse jovem. Como eu te compreendo!!!”  (Tradução: J.E.M.).

Às observações sensíveis sobre a composição soma-se o desvirtuamento que se amplia, em termos brasileiros, na área da filosofia. Se apontamos Russell Jacoby e Vitor J. Rodrigues, que denunciam desvios do pensar direcionados a estranhos holofotes, como não mencionar três casos típicos oriundos dos bancos universitários. “Filósofos” em pauta: uma vocifera ódio visceral contra a classe média, outro incita a invasão da propriedade privada e outra mais estimula o vandalismo. Casos recentes. Os dois primeiros de São Paulo e o terceiro do Rio de Janeiro. Se pensarmos que o último ex-presidente aplaudiu a fala em que a classe média mereceu frases descabidas e, sob outro aspecto, também tem vociferado em linguajar tantas vezes chulo a proclamar o “ódio” que a oposição teria ao seu partido, muito fácil entender que essa palavra não é pronunciada pela dita oposição. Reflexões, apenas reflexões.

P.S. Após a publicação do post da semana recebi e-mail de meu dileto amigo Magnus Bardela. Tece reflexões a partir da afirmação de Servenière pela qual “não podemos resistir por muito tempo aos efeitos do Belo”, pois somos irremediavelmente por ele subjugados. Pertinente, insiro, dias após a postagem, as considerações de Magnus:

“Concordo com o Servenière. Como já bem explicitado, é mais fácil se esconder nas sombras da técnica fria. Nem todos possuem luz própria – até no espaço sideral é assim… Sob outro aspecto, comentaria sobre o processo criativo de ‘tentativa-e-erro’ (trial and error, termo bastante usado em inglês em tantas áreas do conhecimento).

Depreendi do texto que há no método de compor do Servenière esse processo iterativo do ‘fazer – julgar/analisar – refazer’, até que se atinja um patamar de aceitabilidade. O parâmetro do aceitável é a autocrítica, o acervo técnico e a consciência do Belo e do prazer – como ele próprio escreveu. Entendo que esse procedimento criativo seja natural no homem, presente no artesão mais simplório e até nos mestres que reverenciamos. Pode ser uma obviedade, mas, para mim, é esse o processo original, movido pela curiosidade e criatividade/inventividade, resultando na expressão verdadeira do indivíduo. É uma construção de “baixo para cima”, em que as experiências se somam, se agregam, atingindo novas alturas. Por sua vez, os métodos (as ‘matemáticas’), se adotados às cegas e de maneira obtusa, sem a bagagem da experimentação, como se fossem ‘atalhos’ ou ‘fumaças’ para distração, só trariam resultados desprovidos de qualquer identidade, absolutamente vazios e sem significado. Impossível a aplicação ‘de cima para baixo’. Não há fundamento! Pergunto: Não seria essa a evidência da indiscutível necessidade dos 90% de transpiração (leia-se trabalho, empenho, interesse, dedicação, vocação direcionada) para que proporcionem, se tivermos sorte, a existência dos 10% restantes de inspiração?”

For the past years I’ve been receiving feedback from readers. One in special, the French composer François Servenière, often honors me with valuable comments on the subjects I address. His messages enrich my blog thanks to the great depth of what he writes. It was not different with his e-mail about the self-proclaimed philosophers and composers, which I quote here so that readers may see the subject in a new light.

 

 

 

 

 

 

Após Diálogo Encantador

Na Arte, aprende-se o ofício.
É bem restrito o que se pode entender como ofício em arte
e o que é possível transmitir aos outros.
Mas para sentir a necessidade de aprender esse ofício,
é preciso ser dotado de sensibilidade e vontade criativa.
Essas faculdades não se adquirem.
Desenvolvem-se exteriormente ao ofício
que não é nada mais que o material de expressão.
Georges Migot

Nem sempre a via erudita foi o mais rico canal das manifestações artísticas.
Benedito Lima de Toledo

A pergunta precisa de uma das netas deixou-me inicialmente surpreso. Indagava-me Valentina (14 anos) sobre a diferença entre a arte sacra popular e erudita, após ter-lhe mostrado algumas ilustrações em livros e pequenas imagens daquela que é a mais remota manifestação de arte desde a chegada dos portugueses em 1500 nas novas terras descobertas.

Seria pretensioso estabelecer neste espaço conceitos e definições sobre o tema. Somente em termos paulistas há literatura de interesse a respeito. Em blog bem anterior mencionei o contributo extraordinário de Eduardo Etzel, autor de nove livros referenciais, mormente sobre o que ele denominava Barroco pobre da região central do Brasil e também sobre os santeiros paulistas do Vale do Paraíba do final do século XVIII às primeiras décadas do século XX (vide blog: “Eduardo Etzel – Literatura sobre Arte Sacra no Brasil”, 25, 07, 2007). Sob outro contexto, recentemente foi lançado livro do notável arquiteto e urbanista Benedito Lima de Toledo (“Esplendor do Barroco Luso-brasileiro”. São Paulo, Ateliê, 2012), no qual o autor estuda com profundidade a arquitetura sacra portuguesa e brasileira, a buscar desvelá-la de maneira harmoniosa, interpretando igualmente as fases construtivas, a pintura, a imaginária. Para fundamentar seus argumentos, debruça-se também sobre as simples moradias ibéricas do passado remoto.

A imaginária erudita obedece preferencialmente a regras precisas. A antiga Grécia já se preocupara com as proporções do corpo humano aplicadas à escultura. Buscavam, nessa manifestação artística, a perfeição. Policleto de Argos (460-410 a.C), notável escultor grego, fixaria, através de tratado denominado “O Cânone”, regras precisas para a elaboração de seus trabalhos e que teriam enorme influência no decurso da história. O termo kanon, de origem grega, refere-se à regra, à medida. O artista, necessariamente de posse do conhecimento da mensuração correta do corpo humano, obedecerá normas. Podemos verificar que, já na Idade Média, a arte em pedra nas catedrais e mosteiros segue esse princípio da proporção. A Renascença viu eclodir artistas excepcionais, que ampliaram a noção do movimento, respeitando cânones exatos. Toda a imaginária de madeira de cunho erudito do período barroco  acompanha essas regras rigorosas. Proporções da cabeça-corpo são mantidas, mãos e pés têm dimensões adequadas, a pintura é esmerada. Não faltam aplicação de folhas de ouro e estofo de gesso para a recepção e fixação das tintas, olhos de “vidro” colocados no interior de face secionada, panejamento esvoaçante, contrariamente às vestes hirtas da imaginária medieval. Eduardo Etzel disse-me nos anos 1970, em momento de descontração, que o esvoaçar seria como se tivessem colocado ventiladores sob as vestes. Valentina gostou da comparação.

O artista popular, santeiro, não teve esses conhecimentos. A intuição seria seu norte. O olhar,  sua “regra” fundamental para a elaboração das imagens. Preocupa-se com o resultado, não com a precisão das medidas. A proporção cabeça-tronco pode, eventualmente, estar dentro do cânone. Os membros superiores e inferiores e a cabeça apresentam-se tantas vezes super ou subdimensionados. Após esculpir a madeira já bem seca, aplica a pintura diretamente sobre a imagem. Nem sempre as tintas têm a qualidade adequada. Olhos são apenas pintados.

Ao ver as imagens de duas Sant’Annas, uma sentada em um simples banco (11,0 cm) e outra com a poltrona tendo no espaldar a figura de um divino (12,0 cm), Valentina me questiona sobre as diferenças entre as duas. Disse-lhe que gostaria que descobrisse. Após observar, acertou ao dizer que a cabeça de Maria, na Sant’Ana de espaldar alto, era minúscula. Microcéfala, acrescentou a sorrir. Oportunidade para explicar-lhe que a segunda tinha sido elaborada por artista sem aqueles conhecimentos do cânone e que a outra certamente foi esculpida por artista erudito. Mostrei-lhe que a Sant’Ana erudita (séculos XVIII-XIX) tinha vestes pintadas com pequenas tiras de folha de ouro. Quanto à “semierudita” (século XIX), que assim denomino, pois há quesitos de proporção adequados na Santa, as vestes têm esse esvoaçar, mas a pintura está intrinsecamente conforme às imagens de barro cozido de cunho popular, as denominadas paulistinhas, que foram confeccionadas com a utilização de moldes da segunda metade do século XVIII  a meados do século XIX. Aliás, o santeiro que esculpiu na madeira essa peça única teve certamente como modelo a paulistinha. Ainda nessa imagem, o dorso da poltrona teve tratamento rústico, contrariamente à imagem erudita, em que as tiras de ouro persistem e os cabelos de Maria estão dentro da “moda” nessa transição dos séculos XVIII-XIX.

Valentina quis conhecer outros exemplos comparativos. Expliquei-lhe que o “olhar” erudito, a seguir  regras e medidas coerentes, corria o risco da repetição. Acompanhar com critério determinado cânone poderia significar “amarra” para o artista. Ao esculpir a madeira e utilizar as tintas adequadas, a obediência à “regra” levava, quiçá, à rotina da feitura. Não por acaso, tantas e tantas imagens (entre 25,0 a 30,0 cm aproximadamente) dos séculos XVIII e XIX elaboradas no Brasil colonial, como Nª. Srª. da Conceição, São José, Santo Antônio e alguns outros santos de culto acentuado, têm semelhanças.

Vem a pergunta de Valentina. “Vovô, as paulistinhas não são repetidas e populares”? Sim,  mas, neste caso específico, temos que considerar essas peças em barro cozido  confeccionadas com moldes. Estes foram inicialmente trazidos de Portugal por beneditinos,  franciscanos e jesuítas, ordens que tiveram maior influência nos primeiros séculos da colonização. Após o  preenchimento do molde com barro (branco, preferencialmente, mas também róseo), a peça ia ao forno que chegava a atingir altíssima temperatura, daí ser vazada na sua parte inferior, a denominada peanha. O vazamento evitava rachaduras do barro nesse processo. Ao santeiro competia, depois dessa etapa, a arte final da pintura, geralmente feita com grande esmero. Mostrei-lhe três paulistinhas com idêntica representação de São Bento (ca. 480-547). Curiosamente, ao pintá-las o santeiro teve em mente as serpentes venenosas que existem na região do Vale do Paraíba. As duas imagens laterais têm a entrelaçar as vestes do santo, cobras corais; a central, possivelmente jararacuçu ou jararaca. Reza a lenda que São Bento se safou milagrosamente ao não tomar bebida envenenada por monges do mal, e a taça que continha o líquido se partiu tão logo o taumaturgo fez o sinal da cruz no coração. Para o simples homem do campo, São Bento deveria protegê-lo das picadas dos répteis peçonhentos. Disse-lhe que, majoritariamente, as paulistinhas de santas não apresentam as tais vestes esvoaçantes e que, com certeza, os moldes para a feitura das primeiras paulistinhas foram feitos no Brasil colônia por padres e frades que conheciam as proporções, os cânones, passando ao discípulo, habilidoso santeiro da região, a técnica integral, a fim de que, finalizadas, as pequenas imagens de culto pudessem povoar oratórios domésticos.

Com o passar do tempo, moldes poderiam ficar danificados. Ao fazer outros, o santeiro popular das fronteiras dos séculos XIX-XX possivelmente fê-los não a obedecer cânones, como pode ser exemplificado através da paulistinha tardia de São João Batista, com sua cabeça diminuta. Ao lado de uma outra paulistinha, nota-se a diferença do cânone.

Pergunta-me Valentina:”Vovô, e as mãos e pés desproporcionais, sobretudo em imagens do Pituba?”. Tinha-lhe mostrado os livros de Etzel sobre o extraordinário santeiro da região de Santa Izabel e Nazaré Paulista, Benedito Amaro de Oliveira, o Dito Pituba (1848-1923), assim como umas poucas imagens do artista popular. Expliquei-lhe que, numa fase do santeiro, que Etzel considerava mais sensitiva, erótica talvez, na qual lavrava sobretudo imagens em barro cozido, cabeça e membros podem se apresentar desproporcionais. Isso até o final do século XIX. Quando Pituba, a atender enorme clientela de devotos, passou a produzir mais acentuadamente imagens de madeira, as proporções foram se harmonizando. Várias poderiam ser as causas: o conhecimento de estampas de santos e a penetração, no “mercado”, das imagens de gesso oco, tantas delas originárias da Itália. Pituba envelhecia, também na sabedoria. Passou a simplificar a feitura, a fim de atender à demanda crescente. Eduardo Etzel, muito apropriadamente, denomina essa última fase de mística. As duas imagens, uma de São Lázaro (século XIX), em que a cabeça do santo e as extremidades dos membros são grandes, assim como a pequena imagem de Santa Maria (retirei-lhe a pintura totalmente desgastada), em que a talha é esmerada e as proporções são exatas, evidenciam a evolução do santeiro.

Disse a Valentina que conheci nos anos 1970 em Nazaré Paulista Benedito Lopes (1904 – ?), um dos últimos santeiros vocacionados a fazer imagens para o culto. Hoje temos figureiros e até santeiros, mas a “produção” das imagens volta-se preferencialmente ao artesanato turístico, com destino  decorativo. O catolicismo teve concorrência, naqueles rincões, de várias  seitas evangélicas, que negam a imaginária sacro-religiosa. Duro golpe para a atividade do santeiro autêntico. De Benedito Lopes adquiri um presépio basicamente trabalhado na madeira. As figuras são desproporcionais, mas há interesse nessa singular feitura, mormente nas imagens de São José e de Maria. Quanto ao Menino Jesus, emprega vários materiais, o que demonstra criatividade e sentido prático: palha (verde), serragem (forro do berço e cabelos dourados do Menino Deus), palito de sorvete (berço).


Ficamos ainda a conversar sobre o tema durante um bom tempo. Mostrei-lhe outras ilustrações e imagens. Por fim, Valentina me coloca questão perspicaz: “Qual arte você prefere, a erudita ou a popular?”. Respondi-lhe que aprecio as duas manifestações da imaginária sacro-religiosa. Contudo, tenho uma tendência a admirar a criatividade e a invenção, assim também os recursos empregados pelo santeiro. Nisso Pituba excedeu. Todo o material possível que porventura tivesse utilidade, essa é a palavra, Pituba pensou e aplicou em sua gigantesca produção. Só para citar: madeira dura ou macia, a depender da destinação; barro, prego (para ligar a peanha ao restante da imagem), couro, tampinha de garrafa (a fabricação era bem recente), caixas vindas do Exterior (geralmente de pinho de riga) contendo bacalhau, óleo ou vinho para a confecção de oratórios, olhos de boneca para um São Sebastião de boa dimensão, pano, jornal… Para concluir observei que os materiais utilizados são apenas materiais. O talento, a vontade, a disciplina e a concentração do artista, movidos pelo fervor criativo, serão eles a dar vida à obra de arte. O piano pode ser tão somente uma peça decorativa. As mãos do intérprete saberão extrair as sonoridades que tendem ao encantamento. Em ambos os casos, o Belo tem de fluir, disse à minha querida neta.

Valentina gostou das explicações. Um beijinho carinhoso foi o  delicado presente que recebi após nosso convívio.

A conversation with Valentina, my 14 year-old granddaughter, was the starting point of this post. It addresses the religious images(small sculptures of Catholic saints and angels) produced in São Paulo State by the turn of the 19th century. Using wood and fired clay, popular artists made their own readings of classical canons, what resulted in an output of great stylistic simplicity, but rich in originality and inventiveness.

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

Compositores e Filósofos, Criadores de Ideias Novas? Ou só uns Poucos

Há cinquenta anos, eu tinha contato com intérpretes,
arranjadores, inventores de melodias, orquestradores,
musicólogos, críticos, acompanhadores, improvisadores…,
mas hoje eu só encontro “compositores”!
Diria que todos foram subitamente tocados pelas graças das musas.
Serge Nigg  (1924-2008)
(“Témoignages” nº 3. Université Paris-Sorbonne, Observatoire Musical Français, 2010)

Marcos, amigo geômetra, leu o último blog em que inseri epígrafe do compositor francês Georges Migot (1891-1976), na qual observava que “a interpretação mais perigosa é certamente a ideia literária ou filosófica penetrando os meios de expressão que lhe são exteriores, na intenção absolutamente insuportável de comentá-los, como se esses meios ou processos não bastassem tão somente”. Fazia-se acompanhar por um jovem professor que se apresentou como filósofo. Imediatamente veio-me à mente o posicionamento do compositor francês Serge Nigg, que dizia que ultimamente só encontrava compositores. Durante um curto em minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, trocamos opiniões a respeito. O jovem professor de filosofia interessou-se pela epígrafe mencionada por Marcos. Perguntou-me com certa dose de um ex-catedra: “Acredita também que literatos ou filósofos não possam opinar sobre a Arte?”. Respondi-lhe que devem, mas com as reservas necessárias, pois a essencialidade da música requer conhecimento da partitura como um todo, nosso ferramental absoluto. Acrescentei  que, sem penetrar nas noções básicas da geometria, nada posso discutir com Marcos em temas afeitos à sua área.

Se houve Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Albert Schweitzer (1875-1965), Theodor Adorno (1903-1969), Vladimir Jankélévitch (1903-1985), entre os poucos filósofos que conheciam perfeitamente a trama musical, tantos outros escreveram opinando sobre música e, geralmente, sob o impacto da audição com resultados razoáveis, parciais ou negligenciáveis. Disse-lhe que me causa certo mal estar ouvir filósofos discorrerem sobre nossa área, como se essa arte sublime fosse “apenas”… uma área da cultura. Aliás, fazem-no também em relação a outras artes e à literatura. Um deles, ultimamente comparou, nesse nebuloso território da cultura voltada à leitura de autoajuda, Paulo Coelho a Saint-Exupéry, mencionando “Le Petit Prince”. Certamente desconhece “Citadelle”, monumental obra que aborda “todos os problemas do destino humano e o condicionamento do homem”, segundo Simone de Saint-Exupéry.

Nossa conversa penetraria doravante esse delicado tema. Desconfiado, o jovem professor do segundo grau de importante escola privada não concordou com algumas colocações propostas e indagou-me se tinha algum preconceito contra filósofos ou compositores. Prontamente disse-lhe que não e nomeei determinados livros que me acompanham durante as longas décadas, assim como de minha admiração confessa por tantos compositores qualitativos de nossos dias, tendo gravado e interpretado inúmeras obras desses autores contemporâneos do Brasil e do Exterior, frise-se bem, qualitativos. Lembrei-me de Serge Nigg que observa “essa vontade de aparecer custe o que custar como criador e não como simples intérprete”, frase certamente forte e responsável pela quantidade de compositores que pululam e que  enveredam  por caminhos onde lhes faltarão o ferramental necessário, a técnica e o talento. Situação similar acontece na área dos philos sophia. Como senti uma certa irritabilidade do jovem professor de filosofia, mudei de assunto e conversamos sobre o nosso triste futebol, sem tática, sem garra, sem nada e fazendo-nos saudosos de tradição irremediavelmente perdida, e também sobre a política que emana do Planalto, sem rumo sensato, imbuída de fatal binômio ideologia-conchavo e que já se faz sentir nos resultados econômico-sociais e nas tendências totalitárias divulgadas diariamente. Não da parte do amigo Marcos, mas senti que meu jovem interlocutor não gostou de meu posicionamento também nessa área. Despedimo-nos, não sem antes dizer aos dois que pensar livremente deveria fazer parte, in conditio sine qua non, de nossas atividades e de outras igualmente.

Curiosamente fui apresentado nesses últimos anos a alguns egressos da universidade que concluíram ou abandonaram os cursos de filosofia. Uns partiram para o magistério e outros singram novos rumos. Fica-me uma impressão não distante do que escreve Serge Nigg. Sentem-se filósofos e disso se orgulham. Assim como dediquei um post aos “criativos” publicitários, que majoritariamente inserem em cartões de visita ou revelam verbalmente o termo “criativo”, apropriando-se de uma palavra destinada a poucos (vide blog, 25/04/2009), o termo filósofo parece-me com uma carga enorme.  Se a etimologia da palavra remonta à Grécia Antiga, amigos da sabedoria, transformar o termo numa profissão como qualquer outra torna-o banal, sem mais, mormente acompanhando-se o transcurso da história, que reservou aos eleitos criativos do pensar as “graças das musas” enunciadas na epígrafe. Seria possível entender que presentemente um menor número de humanistas finda os cursos de filosofia. Poderia ser uma explicação para a proliferação de outros jovens que se autodenominam filósofos. Causa-me estranheza a atitude dessa nova geração de “filósofos”. Tratado como “filósofo” pela mídia, o jovem autoritário, um dos coordenadores do movimento dos sem-teto, não está a promover a desordem social através de invasões de terrenos e logradouros, depredações, passeatas a impedir o ir e vir do cidadão e mais proselitismo barato em entrevistas? Os governos federal, estadual e municipal só assistem a esses alucinantes distúrbios. Até quando?

Acredito que, no caso da filosofia, seria tão mais correta a designação professor de filosofia, pois aqueles que continuam acabam por entrar no magistério. Filósofo, a meu ver, teria de estar acompanhado de currículo verdadeiramente criativo a transpor fronteiras geográficas, tendo o postulante, no caso, teoria formadora de escola, entenda-se, aceita, divulgada e estudada pelos especialistas internacionais e não meramente provinciana e adulada na Academia, tantas vezes gueto de vaidades e de ideologia precisa. Se o leitor perguntar aos recém-formados em música-composição, filosofia e marketing poderá receber respostas claras sobre suas atuações, “sou compositor, sou filósofo, sou criativo”. E como dizia o ilustre Roberto Campos, “tudo vai mal onde tudo vai bem”.

Se o jovem professor mencionado no início do post ler este texto, acrescentaria que na composição há alguns criadores que quebraram as altas ondas que vão ter à praia, singraram  mares e são nomes referenciais no hemisfério norte e no Extremo Oriente. Villa-Lobos, Henrique Oswald, Camargo Guarnieri, Gilberto Mendes… Outros igualmente estão sendo divulgados e reconhecidos em termos mundiais pela qualidade de suas obras. Todavia, trata-se de espaço reservado a poucos. Pepitas de ouro no cascalho.

A chance meeting with a guy holding a degree in Philosophy reminded me of Serge Nigg’s words that open this post. As for myself, I’m also tired of students of philosophy or music composition who feel entitled to call themselves philosophers and composers, as if school benches were a talent factory, not just a place to hone the talent that very, very few have.