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Utopia?

A escuta se forma pouco a pouco,
e três ou quatro gerações modificam os ouvidos de uma nação.
Voltaire (1694-1778)

A profética frase do grande escritor, ensaísta e filósofo francês, contida em uma de suas missivas ao se referir à música, pode ser aplicada a qualquer área do conhecimento. Voltaire teria ido além, pois vaticina nessa carta que o interlocutor “dar-lhe-á notícias daqui a cento e cinquenta anos”. Essas “três ou quatro gerações” de que nos fala o ilustre pensador têm sido abreviadas, pois a escuta teve uma transformação brutal nessas últimas décadas. O gosto majoritário da juventude desligou-se da tradição erudita, popular de raiz ou elaborada a partir de diversos procedimentos como o jazz, a canção francesa e italiana, o samba-canção, a bossa-nova, como exemplos dessas criações. Transferiu-se para a parafernália acústica, à qual dezenas de milhares de alucinados acorrem quando dos megaeventos onde essa barulhada persiste madrugada adentro. Entoam a descartabilidade com a convicção de que se ouve o mito “eterno”. As cenas do último festival LollaPolooza bem evidenciam a histeria coletiva frente a ídolos que se utilizam de tantos recursos eletrônicos e visuais para favorecer a ideia do “demiurgo” vociferando “músicas” e “letras” de baixíssima qualidade, que fariam corar versejadores de canções autênticas. E, dias antes, muitos desses jovens frequentadores acampam no entorno, vindos dos rincões desse país. O sertanejo-brega e a barulhada dos trios elétricos no nordeste inebriando as massas são outras tipificações. Tem-se apenas um exemplo daquilo que Mario Vargas Llhosa entende como a decadência irrefutável da cultura tradicional.

Diariamente somos invadidos por uma quantidade crescente de mensagens eletrônicas. Há os antivírus que têm, de maneira razoável ajudado a combatê-las, mormente as “comerciais” ou aquelas imbuídas de conteúdos de toda ordem, mas nocivas. De um amigo de Portugal recebi uma foto com dizeres que, além da mensagem intrigante, provocativa, mas repleta de verdades, levou-me à reflexão. Partilho com o leitor a foto e teço algumas considerações.

A hipotética viagem para um mundo melhor, ainda mais tendo uma criança como símbolo, não seria a certeza de que neste planeta ainda se pode sonhar? O cenário mundial mostra-se instável. Europa em crise e um dos poderosos da KGB da antiga URSS, a dar sinais de senhor da guerra, estaria a vislumbrar uma Grande Rússia. Apesar da gritaria oficial do Ocidente, pouco a pouco acalenta suas aspirações, pois parece que esse mandatário permanecerá num ad eternum possível a governar o “Império”. Sob outro aspecto, regimes democráticos estáveis e com governantes probos, mormente em alguns países tradicionalmente afeitos à alternância do poder, sabem, na medida do possível, controlar seus gastos, a economia e a vida social. Estão fundamentados num pilar irrefutável, a Educação. Pode estar em alguns desses países um mundo melhor. Alternância do poder é resultado da Educação. Sem ela, a teia formada pela não compreensão por parte do povo dos problemas graves de um país, faz sucumbir liberdades inalienáveis, mercê dos votos dos rigorosamente desinformados. Tivesse o povo acesso pleno à Educação, mãe de todas as virtudes, a alternância do poder seria inevitável.

Um Mundo Melhor é o almejo da grande maioria dos humanos. Como admiti-lo, se povos de um mesmo país se digladiam em conflitos cujo estopim não teria curso houvesse ponderação e respeito, quando de fases preliminares, em que diálogos são rompidos tantas vezes por disputas inconsequentes? É o fanatismo a sufocar as mentes lúcidas.

Mundo Melhor. Teremos de sonhar ainda. A menininha da ilustração deseja estar nesse utópico planeta, onde a fraternidade entre as pessoas seja real; em que uma paz possível seja almejada; no qual lucro e tributos sejam apenas justos e não escorchantes; em que a família, tal qual a conhecemos de antão seja preservada e não desestruturada; onde – em nosso país particularmente -, saúde e segurança não existam apenas nos discursos de todos os candidatos em palanque, friso, todos, sem exceção; onde a palavra corrupção, mãe de todos os vícios, inexista no dicionário; no qual político seja sinônimo de honradez. Um mundo… melhor, aqui e alhures.

A photo that has recently swept the web led me to reflect on society as it is today and on the political, economic and social utopia it could be were men different.

 

 

 

 

Diálogos que Enriquecem

Só os trâmites importam.
Eles é que permanecem e não o fim,
mera ilusão do caminhante que vai de pico em pico,
como se o fim alcançado tivesse um sentido.
Assim como não há progresso sem aceitação do que existe.
Antoine de Saint-Exupéry (Citadelle, cap. XLIX)

Um dos prazeres que a vida nos oferece é o diálogo. Há inúmeras possibilidades e níveis que se apresentam. O diálogo, nessas circunstâncias, se enriquece devido aos conteúdos trocados e às experiências em áreas aparentemente antagônicas, que se intercalam e abastecem a mente. Se Carlos, paraibano, meu companheiro de corridas, é um sábio nas tarefas mais intrincadas do cotidiano como pintura, eletricidade, encanamento, estando sempre a apresentar soluções exatas para problemas que, para mim, são de dificílima resolução quando o consulto, ainda assim é funcionário exemplar de uma empresa há cerca de 27 anos. Nas corridas, aos 50 anos, Carlos é, logicamente, mais rápido, pois não carrega 25 anos a mais. Carlos ou Batoré ou, ainda, Peba (apelido de infância que vem da Paraíba, pois costumava  arrastar-se pelo chão à maneira do tatupeba existente no agreste) está sempre disposto. Nosso diálogo em torno do cotidiano tem interesse imenso, pois aprendo sempre com esse amigo de forte sotaque e linguajar simples e envolvente, que pontualmente me espera antes de raiar o dia quando das corridas oficiais de rua  em São Paulo ou no interior próximo à nossa cidade. Nas corridas de 10k é Carlos que me aguarda na linha de chegada, já com a medalha de sua participação pendurada no pescoço e com palavras estimuladoras para o velho corredor.

Num universo outro, a troca semanal de e-mails com o compositor e pensador francês François Servenière, desde 2010 mais intensamente, preenche até a presente data bem mais de 1.000 páginas!!! Música a predominar, mas também literatura, aventura, cotidiano, degradação cultural que se acentua e a política plena de subterfúgios e de escândalos de nossos dois países. Diálogo virtual a atravessar o oceano nessa velocidade que nos espanta. Nosso intercâmbio de ideias pressupõe a existência do trâmite e, quando um de nós atinge o fim proposto, a somatória do diálogo permanece, a substanciar a longa caminhada.

Selecionei alguns temas esparsos desses últimos e-mails, para transmiti-los ao prezado leitor. Escrevia eu que, acentuadamente, artigos arbitrados e livros analíticos sobre música distanciam-se de minhas preocupações atuais por motivos claros: quantos não são aqueles escritos com a finalidade precípua de contar pontos em avaliação acadêmica, quantificar currículos ou obter recursos em Instituto de Fomento para serem lidos em incontáveis congressos que pululam nas agendas universitárias? É tão claro distingui-los, mas eles tendem a ser maioria nesse impulso voltado à produção. Sim, é preciso escrever para ser respeitado como scholar e, para o medíocre ou não vocacionado, a tarefa da elaboração de um texto torna-se um fardo que é preenchido pelo vazio de ideias, pela quantidade de notas de rodapé, tantas delas forçadas, e pela precisão do número de caracteres. Muitos são aqueles artigos que, espremidos, não produzem uma gota de saber. Justamente estava a ler livro com dezenas de artigos, alguns notáveis, outros de que desistia já no primeiro parágrafo. E mais grave, esses últimos aceitos e… publicados.

François Servenière comenta: “Sou um pouco como você desde sempre. Na minha juventude li grande quantidade de livros teórico-musicais do passado e da atualidade. Posteriormente, essa literatura acabou por me causar enfado, como uma serpente que morde sua cauda. Como você, encontrei mais inspiração nos relatos de escritores viajantes e nas aventuras épicas que me provocam arrepios, sensação que encontro ao descobrir partituras e gravações que me entusiasmam, mesmo que concernentes à música da segunda metade do século XX. Desta, mais acentuadamente tenho dificuldade de achar composições que me deem a sensação do absoluto e das exóticas terras virgens. Consideremos que há quantidade de teses que levam os leitores a zonas totalmente estranhas ao objeto precípuo do trabalho acadêmico. Quantas não são as vezes em que o mestrando ou doutorando é órfão da criação ou da interpretação e tem a imperiosa necessidade de compensar essa criatividade frustrada por elucubrações fora de propósito. É o que fez estancar minhas críticas  sobre determinadas áreas, pois inúmeras vezes essas críticas podem ser filhas da frustração pessoal”.

Em reiterados posts abordei livros concentrados nos desafios de intrépidos aventureiros. Sob égide não distante do tema, desloquei minha atenção para os depoimentos de esportistas ou técnicos. Seus ensinamentos e a constante evolução de métodos visando ao aperfeiçoamento dimensionam nosso entendimento relativo aos quesitos essenciais para o músico: compreensão, disciplina, horas de labor, concentração, performance sem pressões. São tantos os canais televisivos de esporte e entrevistas com técnicos de todas as modalidades esportivas do Brasil e, sobretudo, do Exterior, deveriam fazer parte de diálogos entre professores de música e seus alunos. Paradoxalmente, esses ensinamentos têm analogia com procedimentos de um intérprete, assim como do corredor amador que eu insisto em ser. Acredito também que há maior atualização na técnica esportiva se comparada àquela aplicada à performance musical. Como esse processo tem a ebulição nos treinamentos (ambas as áreas)  visando ao resultado final, a execução “físico-mecânica”, estou sempre mais propenso a ouvir uma gravação de mestres do passado àquela de um jovem egresso de importantes concursos internacionais, pois nesta consigo extrair o ato performático que tantas vezes surpreende nossos sentidos, mercê da virtuosidade em expansão, e naquela transparece a essência essencial de uma obra, razão de sua perenidade. François Servenière, excelente compositor e pensador, praticou muitos esportes, entre os quais alpinismo, esqui alpino e vela. Trocamos mensagens permanentes também sobre a temática da aventura que nos apaixona, daí tantos livros que resenhei nesse espaço. O diálogo em circunstâncias internéticas tem lá seus resultados. Escreve-me Servenière: “Minha biblioteca, como a sua, está repleta desses opus marítimos e terrestres que são, na verdade, os livros que me fazem partir para ‘fora’. Sou amador dos livros de ficção científica e de conflitos marítimos, nos quais a coragem dos homens é testada no alto das montanhas, no mar, nas tempestades”. Arguta sua reflexão sobre a possibilidade da morte em circunstâncias tantas vezes provocadas pelo “instante do acontecido”, no dizer do filósofo Vladimir Jankélévitch. Servenière, ao comentar um de meus posts sobre livros de aventura, escreve: “Desde muito tempo sou fascinado pelo contraste entre a relação épica das histórias nos livros e filmes. Temos sempre a impressão de que as aventuras são vividas sob grandes orgias de músicas sinfônicas, tais como são apresentadas em documentários. Sobre esse tema, tendo praticado muito montanhismo, esqui e navegação marítima, posso confirmar que a natureza não é sonorizada em estéreo sinfônico nem em hard rock quando a tensão se apresenta palpável em circunstâncias trágicas. Muitos aventureiros do mar e das montanhas insistem permanentemente sobre esse aspecto da aventura. A maior delas, melhor organizada, com o melhor barco, com o melhor equipamento e a melhor equipe de montanhismo, para imediatamente quando algum tripulante cai no mar ou um alpinista, numa fenda. É meu pesadelo recorrente quando trabalho mentalmente à noite sobre meus projetos de travessia oceânica. Como ter a certeza de que uma queda no mar não pode acontecer? Barcos seguros afundaram e marinheiros experientes sucumbem sempre, assim como no caso dos alpinistas e suas quedas extraordinárias. Nas aventuras o risco zero não existe”. (tradução JEM).

Essas divagações sobre diálogo permanente e enriquecedor com Servenière tem a dádiva da diversidade de temas. Se a música prepondera na grande maioria de e-mails trocados, e não foram poucas as vezes em que inseri segmentos expressivos do ilustre amigo, os mais variados assuntos são evocados. Divagações prazerosas que, oxalá, prossigam.

This post is about the simple pleasure of conversations with friends and acquaintances. It is illustrated by my own experience with two friends of opposing personalities. On one hand, my fellow street racer Carlos, a good-hearted and simple guy of humble birth, with infinite skills to handle the practical side of life. I turn to him in case of problems with leakages, broken tiles, car mechanics, wall painting. On the other hand, the French composer François Servenière —well known by readers of my blogs — a reflective man with whom one may talk about almost everything. Different dialogues with different types of people, but the same pleasure of being in communication with others.

 

 

 

Gesto Relevante que não Pode Ser Esquecido

Pensarem Brasil e Portugal como uma imensa possibilidade
de formação, investigação e intercâmbio artísticos.
Pensarem-se também como parte integrante do mundo lusófono e íbero-americano,
que continua a esperar em vão pelo “evento” que tarda
(“evento” entendido como estratégia ou atitude essencialmente cultural).
Há que soltar a “jangada de pedra” das amarras da sua condição periférica
e trazê-la de volta carregada de potencial contra-hegemónico.
Mário Vieira de Carvalho (26/02/2011)

Em um café de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, que apresenta ultimamente sinais de degradação mercê do descaso público, estava a conversar com amigo bem articulado em sua ligação com o meio que cultua no Brasil música erudita, de concerto ou clássica. Esse encontro se deu há alguns anos. Eu acabara de retornar de digressão anual às terras lusíadas. Perguntei-lhe sobre o que pensava da música portuguesa. Respondeu-me que dela conhecia apenas respeitada pianista nascida em Portugal, que nos visita sempre atendendo a convites das sociedades de concerto de São Paulo. Insisti: “sobre a música portuguesa”. Finalizou: “creio já lhe ter respondido”. Comentei que ter nascido em Portugal, mas a perpetrar unicamente obras sacralizadas de alhures, não significa ter relação com a música portuguesa. A presença física do intérprete cosmopolita torna-o – seja qual for a dimensão de seu valor – apenas mais um cosmopolita, mormente se ignora por completo suas raízes. Pode-se ser cosmopolita, mas a relação sanguínea fá-lo divulgar o plasma criativo que percorreu e está sempre a deslizar pelo território que o viu nascer. Divulgar a essência essencial da criação de seu torrão natal e espalhar esse constante pulsar dimensiona a estatura sociocultural de um intérprete, sua verdadeira aspiração, seu objetivo, seu distanciamento da vaidade, palavra esta que, ao ver de Saint-Exupéry não é um vício, mas uma doença. Infelizmente, não se trata de caso isolado. Sem precisar aprofundamento maior, verificamos o ardor com que intérpretes russos, franceses, italianos, alemães, espanhóis, húngaros, brasileiros e de tantas outras latitudes e longitudes divulgam com reverência o repertório sacrossanto internacional, mas igualmente aquele de seus respectivos países.

Décadas têm passado e o desconhecimento no Brasil da qualitativa música produzida em Portugal, através dos séculos, caracteriza descaso e despreparo cultural de nossas organizações de concerto. Muitos dos intérpretes que nos visitam, vindos do hemisfério norte, retornam duas, três ou tantas mais vezes. Motivos insondáveis excluem sistematicamente o músico português. Raríssimas exceções. Tantos há de grande valor que poderiam apresentar-se anualmente no Brasil. Interpretam o acervo composicional estrangeiro, mas tocam e gravam o repertório português. Se, de um lado, há desinteresse das organizações, sob outra égide portugueses e luso-descendentes, que integram as inúmeras associações “culturais” portuguesas em São Paulo, não apenas desconhecem, como não se interessam minimamente pela música de concerto composta em Portugal ou alhures. Isso é um fato real. As pouquíssimas ações realizadas não tiveram a menor sequência, o que é uma lástima.  Após mais de cinquenta anos a divulgar repertórios de nossos dois países, posso afirmar que o qualitativo composicional português dialoga tantas vezes com o que de melhor se tem em países tradicionalmente detentores de programações de seus autores consagrados. E não seria por falta de edições. Elas existem em Portugal, país tão menor que o Brasil, e obras do século XVI ao atual continuam a ser editadas. Recentemente escrevi sobre o “Passionário Polifônico de Guimarães” (vide post 23/11/2013), uma obra prima de editoração sob os cuidados do ilustre musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso.  Os mais relevantes compositores portugueses continuam a ser editados, mas nós, brasileiros, desconhecemos e evitamos interpretá-los, pois não pertencem à  “tropa de elite” constituída pelos autores superventilados, fora do sofrido “eixo cultural”  Portugal-Brasil voltado à música. Nossos intérpretes não ousam frequentá-los e, se exceções meritórias existem, não conseguem romper a barreira estabelecida. Enumerar os excelentes compositores portugueses e o valor intrínseco de suas criações seria tarefa para muitos outros posts, a somar os que já escrevi a respeito. Pregar no deserto ou na aridez de nossa cidade têm a mesma dimensão do vazio ou do desconhecimento, tout court. Na ausência de convites para que músicos de terras lusíadas realmente envolvidos com a difusão da Música Portuguesa aqui se apresentem, situação constrangedora de indigência cultural se afigura entre nós. Não sendo convidados, menor ainda a oportunidade de conhecermos o repertório português e os músicos lusíadas que o reverenciam. E estamos a falar de Brasil e Portugal, em que a relação deveria ser de amálgama pleno. Triste ilusão.

Coube a um grupo de jovens idealistas, e até visionários, ousar trazer ao Brasil uma série de apresentações com repertório de Portugal. Antes dessa atitude tiveram a ousadia de sacudir, de maneira por vezes incisiva, o meio musical português, ao propor uma revista sobre música portuguesa, Glosas, não tendo basicamente apoios financeiros. Formaram o “Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa” (MPMP) e foram à luta. Comandados por Edward Luiz Ayres de Abreu, jovem compositor e musicólogo, lançaram-se numa aventura plena de desafios e incertezas. Guardando-se todas as devidas proporções, os navegadores dos séculos XV e XVI também não o fizeram? Está no sangue lusíada ser intrépido. Criaram a Revista Glosas e, ao longo de vários posts, externei o meu entusiasmo pela publicação que não encontra paralelo qualitativo no Brasil. Conseguiram chegar ao número 11, sempre nessa batalha insegura em nossos dias, a qualidade sem concessão. Como é difícil, lá como cá, não sucumbir aos apelos desse mal concessivo em detrimento da qualidade!!! A certa altura Edward Luiz e sua equipe buscaram singrar os mares em busca de uma identidade lusíada espalhada pelo mundo. O idealismo tem seu tributo a pagar e o grupo do MPMP bem sabe dessa barreira, mas, de maneira altaneira, está a conseguir com imensas dificuldades seus intentos. Vários núcleos foram criados, formados por especialistas do Brasil, da África e da Ásia. O grupo português já estava consolidado, integrado pelos jovens idealistas. Consultado por Ayres de Abreu, este músico, nos seus 75 anos, teve o prazer de indicar os nomes do núcleo brasileiro. Foi-me confiada uma coluna para cada número, “Ecos d’Além Mar”, sempre a tratar de tema relacionado, de alguma forma, à música portuguesa, permeando-a também, quando se faz necessário, por elementos importantes a envolver a música brasileira. Essa integração provocou acontecimento inédito, diria, pois artigos sobre compositores brasileiros e concernentes ao nosso passado e contemporaneidade foram publicados, redigidos por especialistas pátrios. Constância antes impensável. Um número (9) teve na capa o compositor romântico brasileiro Henrique Oswald e vários textos sobre o músico. No lançamento, em Setembro último, juntamente com dois também jovens talentosos músicos portugueses (Nuno Cardoso, violoncelo e Rita Morão Tavares, soprano), apresentamos récita na belíssima sala dos espelhos do Palácio Foz em Lisboa, unicamente com as obras camerísticas de Henrique Oswald. Entusiasmo e sala repleta, friso, e o leitor saberá as razões da ênfase. Lorenzo Fernandes, Guerra Peixe, Almeida Prado, Ricardo Tacuchian e outros mais já penetraram as mentes dos leitores portugueses através de textos brasileiros sobre suas obras e atuações publicados na revista Glosas. Infelizmente, está a me parecer, mão única.

Após uma longa busca relativa a apoios, enfim obtidos, Edward Luiz e seus colaboradores resolveram atravessar o Atlântico para aqui se apresentar, trazendo na bagagem obras relevantes de vários compositores portugueses do passado à contemporaneidade e realizando palestras. Tiveram guarida em várias capitais brasileiras: Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Goiânia, Belo Horizonte e São Paulo. O grupo se espalhou e, em cada uma das cidades, recitais foram apresentados com repertório camerístico (quarteto de cordas), canto e piano, piano a quatro mãos e piano solo.

Tive o prazer de assistir, no último dia 25 de Março, ao magnífico recital do jovem e promissor pianista português Philippe Manuel Vicente Marques (22 anos) em repertório maiúsculo, pois foram ouvidas obras de Antônio Fragoso (1897-1918), João Domingos Bomtempo (1775-1842) e Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Infelizmente, a sala do Centro Cultural São Paulo era imprópria para abrigar repertório inédito de envergadura. Piano sofrível, cadeiras a ranger, ruídos constantes do metrô!!! Primeiramente, expresso a minha alegria ao ouvir o talentoso pianista interpretando criações importantes que um executante em sua idade busca evitar, pois este estará muitíssimo mais preocupado com repertórios sacralizados, a atender a programação dos concursos internacionais e das sociedades de concerto, que mantêm a hegemonia repertorial. São tantos os interesses para que essa programação se  perenize!!! E é nessa fase que tantos valores se integram de corpo e alma às obras que serão repetidas ad nauseam durante toda a vida. Isso é fato comprovado e as temporadas oficiais apenas ratificam a situação, hélas, vigente.

O belo Noturno em ré bemol maior do promissor e infortunado António Fragoso, falecido aos 21 anos atingido pela gripe espanhola, teve interpretação a valorizar os tantos segmentos que se apresentam. Romântica, a obra enriqueceu-se pela variedade de timbres, emprego da dinâmica e da agógica, que demonstraram a maturidade do pianista. Duas sonatas de Domingos Bomtempo foram interpretadas. O compositor, basicamente desconhecido entre nós, tem criações relevantes. Suas mais de uma dezena de Sonatas são muitíssimo bem escritas (Obras para piano – edição facsimilada. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1980) e, não raras vezes, nos fazem lembrar Muzio Clementi (1752-1832) ou J.B. Cramer (1771-1958). Salientaria a Grande Sonata em mi bemol op. 9 nº 1. Bomtempo exibe clareza na construção, virtuosidade característica do período e contido lirismo no movimento central. Philippe Manuel esteve sempre a revelar com segurança e inspiração conteúdos intrínsecos da Grande Sonata, valorizando-os e provocando os ouvintes que, pasmos, ouviam obra inédita qualitativa entre nós!!! O diminuto público conheceu igualmente a Sonata op 15nº 2.

De Fernando Lopes-Graça ouvimos Variações sobre um tema popular português (1927), primeira obra de seu imenso catálogo para piano, em que o compositor já apresenta suas impressões digitais, e o culto reinterpretado do cantar e da rítmica populares portugueses já se fazem presentes, assim com um tratamento timbrístico singular. Philippe Manuel soube diferenciar as 12 variações de maneira convincente. Das seis sonatas para piano de Lopes-Graça, a Sonata nº 2 (1939) caracteriza-se por intensos contrastes, a partir dos acordes dissonantes incisivos e repetitivos iniciais, sempre recorrentes durante o discurso do Allegro giusto. O pianista captou intensamente a mensagem do Andante. Sob outra atmosfera, o hispanismo contido no  Allegro non tanto, uma das páginas que mais revelam a apreensão ibérica, fez valorizar o domínio técnico-pianístico de Philippe Manuel, que apreendeu inteligentemente a magia da flutuação de  andamentos nessa obra singular.

O brilhante recital que, anunciado, deveria merecer público numeroso, contou com cerca de 40 ouvintes privilegiados. Para este intérprete, que está a batalhar há tanto tempo no sentido de revelar a música portuguesa no Brasil, mormente Lopes-Graça, é triste verificar que os músicos de São Paulo não compareceram para ouvir um recital tão significativo. Reiteradas vezes afirmei que a história ainda estará a evidenciar que Lopes-Graça está no patamar maior da composição do século XX. Compositor a dialogar na dimensão exata com os seus grandes contemporâneos europeus e, em termos brasileiros, com Villa-Lobos. Friso, dimensão idêntica. Sem contar o grande pensador que foi, pois deixou vasta literatura sobre música da maior valia. O nosso público se interessou pelo programa? Os nossos intérpretes visitam obras de Lopes-Graça e de outras figuras referenciais portuguesas? Perdida ótima oportunidade. Contudo, nesta nossa cidade imensa, há salas perpetrando a rotina. E para esses auditórios, certamente o público acorrerá. Nada, mas nada a fazer, a não ser lamentar.

No dia 24, Edward Luiz e eu nos deslocamos a Santos, pois o dirigente do MPMP queria entrevistar o notável compositor Gilberto Mendes para publicação posterior em Glosas. Aos 91 anos, Gilberto, sempre arguto, lembrou aspectos da trajetória e sua amizade fraterna com o grande compositor português Jorge Peixinho (1940-1994). Horas de congraçamento sob a égide da música.

Many times in this post I have mentioned Glosas, the magazine that covers the world of classical music in Portugal. Visionary and bold, the group of young musicians responsible for the magazine embarked on a tour in Brazil to promote Portuguese composers, performing in some capital cities. In São Paulo, I had the privilege of listening to the exceptional performance of the young (22) and promising pianist Philippe Manuel Vicente Marques and his daring recital programme: Antonio Fragoso, João Domingos Bomtempo and Fernando Lopes-Graça. Unfortunately, the city lethargic musical milieu did not attend the recital. As I insist in saying, concert-going public and promoters prefer the obvious show pieces, fearing new and untraveled paths. It is the standard repertoire that sells tickets. More-of-the-same is safer and perpetuates the huge mistake of presuming that what’s new is not good.