Navegando Posts publicados por JEM

15 anos de blogs ininterruptos

Aprender até morrer
Adágio Açoriano

Meu amigo Magnus Bardela foi o responsável. Após longa conversa, Magnus, que fora meu aluno durante quatro anos na USP, questiona-me: “Você deveria ter um blog”. Um blog (?), respondi incrédulo. “Sim, um blog”, reafirmou Magnus. Estávamos em casa e o amigo foi ao computador e, sem que eu soubesse, a certa altura me chamou. “Está feito”. É só escrever.  Surgia no dia dois de Março de 2007 o primeiro post, que nomeei “Praeambulum”.  Não tinha a menor ideia de que, doravante, não passaria um sábado sequer, nesses quinze anos, sem publicar um post, mesmo em situações difíceis como viagens, algumas hospitalizações que preenchem nossa passagem pela Terra e atribulações outras. Uma frase que inseri anos após sobre a constância dos posts semanais continua a nortear meus textos: “A respiração não tira férias”. Seria a não interrupção consequência da prática pianística, que merece labor diário? Talvez. Escrevi também que os textos “desciam” para a mente durante treinamentos a correr pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Fluxo sanguíneo amalgamado à corrente do pensar.

Temas iniciais continuariam a ser de suma importância, com ênfase nos grandes pianistas do passado que resultaram em posts desde o início da pandemia, mercê do sedentarismo e da escuta com maior tempo dirigida a esses grandes Mestres. Os insignes pianistas franceses Marcelle Meyer (1897-1958) e Jean Doyen (1907-1982) foram os primeiros, em 2007. Se a música tem sido prioritária, com cerca de 60% dos quase 800 posts, ela é enfocada sob várias vertentes: apreciação histórica, analítica, resenha de livros do Exterior sobre a temática Música, sempre através de um texto não esotérico, portanto não acadêmico. Estava nos estertores de minha passagem pela Academia quando adotei o blog e, se esses textos mais leves o povoam, os acadêmicos têm sido publicados no Exterior. Afinal, sem a existência deles a denominada nota de rodapé basicamente não existiria.

Nesses quinze anos, houve períodos em que meu olhar se fixou em determinados temas extramusicais e, com entusiasmo, parte de minhas leituras resultaram em posts. Houve a série dos grandes feitos nos picos mais elevados do planeta escritos por verdadeiros heróis, relatos de aventuras nas montanhas que me fascinaram, assim como a leitura dos livros de Sylvain Tesson, que narra, sempre com certo pragmatismo, as suas incursões pelos continentes, sempre com ricas observações do entorno geográfico, assim como de experiências depositadas em seu de profundis. Inseri minhas impressões sobre os livros de Tesson através dos anos. Na mesma direção, ao longo dos três lustros foram bem mais de 200 livros resenhados, mormente sobre música.

Fascina-me o cotidiano e não poucas vezes sobre ele me debrucei. Rolinhas, abelhas arapuã (enrola-cabelo), personagens que habitaram nossa casa. A colmeia das pequenas abelhas pretas sem ferrão permaneceu durante 40 anos em uma parede da morada, sustentada pela trepadeira unha-de-gato. E tantos outros fatos que meu olhar fixou…

As viagens, a fim de compromissos musicais, proporcionaram a observação de culturas e costumes. Se o Ocidente sofre com a esmagadora cultura de massa, se a cultura musical erudita de maior respaldo se fixa preferencialmente nos nomes amplamente bafejados pela mídia, as manifestações menos mediáticas se tornaram atos de resistência. Público bem menor, restrito a pequenas salas, ausência quase absoluta de divulgação. Em incontáveis posts coloco essa posição, que se tem tornado crítica. Selos seletivos, voltados ao lançamento de CDs singulares na escolha repertorial, da música antiga à contemporânea, tiveram de encerrar suas atividades na Europa. Estiolou-se a crítica nos jornais de maior circulação no hemisfério norte. Participei em 2011 de Seminário na Sorbonne em Paris sobre a crítica musical e o panorama foi dantesco. Subsiste timidamente online, sem o impacto da impressa. Por mais que dominante, a ausência do impresso e do CD, ambos em fase de desaparecimento, está a levar o homem a perder a relação fundamental com o objeto físico. O que é um blog senão um veículo de comunicação que se esvai à medida que um novo post continua o roteiro! Se bem que registrados na memória do blog, raramente o leitor volta ao passado remoto ou recente. Tudo se processa rapidamente para se estiolar pouco após o acontecido. Ondas que chegam à praia sem deixar memória.

Nesses quinze anos estive contra a inserção de material de propaganda nos meus blogs. Quantas críticas recebi — e ainda recebo — pela não aceitação do que faz parte do cotidiano! Creio que esses posicionamentos surgem de uma realidade a cada dia mais gritante. Contudo, apraz-me receber semanalmente mensagens de leitores unicamente concentrados no texto. Um amigo, que mantém blog com temáticas outras, tem várias publicidades inseridas nas marginais do texto. Disse-me que muitos leitores escrevem, menos voltados ao conteúdo do texto e mais indagando sobre a confiabilidade de certas propagandas! Se mantive intacto o blog nessa configuração, recebendo semanalmente mensagens substanciosas sobre a temática abordada, não seria aos 83 anos que mudaria o rumo.

No meu de profundis não deixo de ter surda alegria, pois o blog tem sido o veículo a transmitir aquilo que a semana fixou como temática, tanto no sentido de aperfeiçoamento interior como nesse cotidiano a céu aberto.

Agradeço ao leitor atento que tem acompanhado essas viagens do pensar. Confesso que ele é fator determinante para que prossiga. Enquanto a mente estiver a funcionar, o blog seguirá seu curso…

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Les Niais de Sologne, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=xdKjHjNx700

My first post was published on March 2, 2007. That’s 15 years I’ve been publishing the blog, never missing a Saturday, the day the post goes public. Though I prefer writing about music, depending on the opportunity I also address topics related to arts, literature, travel and everyday life.

 

Por unanimidade, nome referencial do piano no século XX

Eu tenho os meus conceitos, outros têm os deles;
e não devem ser comparados.
Depois de tudo, música é música.
Eu toco música não porque quero ser comparada,
mas porque a adoro.
Alicia de Larrocha

Nascida em Barcelona, na Catalunha, Alicia de Larrocha, descendente de família de pianistas, foi um talento precoce e aos cinco anos se apresentou durante a Exposição Internacional em Barcelona. Essa precocidade levou-a a outras significativas apresentações, inclusive com orquestra, em vários continentes.

A carreira da Alicia de Larrocha foi uma das mais sólidas durante décadas. Intérprete irretocável de tantos autores, Mozart, Beethoven, Schubert, Chopin, Liszt, Schumann, Brahms… Foi talvez sua dedicação aos compositores pátrios, Antonio Soler, Enrique Granados, Isaac Albéniz e Manuel de Falla, que a tornaria a mais ilustre pianista na execução desse rico repertório. Vladimir Horowitz não hesita ao dizer que ninguém tocava os espanhóis como de Larrocha. Aliás, a pianista tem uma visão precisa a respeito desses autores: “Não acredito que haja um ‘melhor’ de nada nesta vida. Eu diria, porém, que Granados foi um dos grandes compositores espanhóis, e na minha opinião foi o único que capturou o verdadeiro sabor romântico. O seu estilo era aristocrático, elegante e poético, completamente diferente de Falla e Albéniz. Para mim, cada um deles é um mundo diferente. Falla foi o único que realmente capturou o espírito da música cigana. E Albéniz, penso que era mais internacional do que os outros. Embora sua música seja espanhola no sabor, seu estilo é completamente impressionista”.

Clique para ouvir, de Antonio Soler, a Sonata em Ré bemol, R. 88, na interpretação de Alicia de Larrocha:

https://www.youtube.com/watch?v=m2r4Ty9FKb4

Tivemos, Regina e eu, o privilégio de estar entre os poucos presentes (!!!) ao recital em que Alicia de Larrocha apresentou no MASP os quatro cadernos de Iberia, de Isaac Albéniz, em interpretação a não se esquecer, brindando o público, ao final, com Navarra, que poderia ser considerada  a 13ª da magnífica coletânea. Navarra foi dedicada à ilustre pianista e professora Marguerite Long, que, em seu célebre Le Piano, escreve que o pianista que critica suas mãos é indigno da arte. Alicia de Larrocha realizava proezas com suas pequenas mãos, mas com alguns atributos: o quinto dedo era  longo e a abertura entre o polegar e o indicador, ampla, permitindo-lhe as façanhas que realizava. Afirmaria: “Quem me dera ter uma extensão naturalmente ampla, mas não tenho. Não me importaria com dedos mais longos, apenas com uma mão mais espalhada. Mas com treino e trabalho árduo, consegui ultrapassar essa limitação”.

Se pianista consagrada, Alicia de Larrocha também teve proeminência como professora. A acuidade, decorrente desse olhar o desenvolvimento de gerações de pianistas, fê-la, quando em entrevistas ou simples testemunhos, deixar claras as suas deduções a respeito da arte pianística, repertório, psicologia voltada à execução. Quando instada a comentar a respeito de concursos internacionais de piano, ela, que não participara dessas competições, é bem crítica em sua avaliação: “Penso que todo o sistema está errado, completamente errado. Não tem nada a ver com a música do artista. É como uma olimpíada artificial e mecânica. É apenas trabalho, trabalho, trabalho para a competição, mas e depois? Se os pianistas são bons, não precisam de uma competição. Além disso, se ganharem, apenas recebem um prêmio e uma série de concertos que, por vezes, os transformam em meras máquinas. Isso não é música, nem é arte. A grande publicidade tem algum efeito. Divulga o nome, mas quer seja um bom músico ou não, não conta muito”.

Clique para ouvir, de Schumann, Carnaval de Viena op. 26, na interpretação de Alicia de Larrocha:

https://www.youtube.com/watch?v=DaUoIcItGnE

Quanto à preparação e escolha de repertório, comenta: “Posso ser considerada principalmente como uma pianista bastante egoísta porque toco para mim mesma. E, quando partir, meu único desejo é que as pessoas tenham tido algum prazer com o meu trabalho e não pensem que eu fui uma pessoa desagradável! Eu também não olho para trás, mas teria sido uma alegria conhecer Beethoven, Bach e Schumann porque eles eram grandes artistas”.

Sob o plano voltado ao estudo pianístico, Alicia de Larrocha comenta que o dedilhado lhe era fundamental e que sempre dele se servia a fim de buscar um toque particular. Afirmaria que a mudança de dedilhado às vésperas de uma apresentação poderia ser tardia, perigosa. “É melhor ter uma dedilhação prática trabalhada com antecedência, especialmente para mim, porque a dedilhação é a base da segurança, penso eu”.

Liszt dizia que se sabe bem uma obra se conseguimos tocá-la lentamente e melhor se mais lentamente ainda… Alicia de Larrocha considera que “por vezes, também tenho de tocar uma peça muito lentamente para solidificar a memorização”.

Clique para ouvir, de Liszt, La Campanella, na interpretação de Alicia de Larrocha:

https://www.youtube.com/watch?v=R0wmi0y1Geg

Num apanhado histórico, observa: “Cada período da história da música tem mostrado gostos, modos e técnicas diferentes. Em qualquer época havia um grupo de artistas de excelência que trabalhava no mais alto nível até que pouco a pouco novos estilos e maneiras foram desgastando as suas posições e novos grandes artistas os substituíram. Ouvimos dizer que o período Romântico, por exemplo, foi o período do virtuosismo, da ênfase na técnica. Os pianos de Liszt e Chopin eram tão leves ao toque que bastava soprar sobre as teclas para produzir o som. Todavia, o som era menor e assim deveria ser porque as salas de concerto acomodavam apenas algumas centenas de pessoas, e muitos recitais eram dados em casas particulares ou em salões da moda. Mas se Liszt e Chopin tivessem de tocar num piano moderno, ninguém sabe como se comportariam”.

Clique para ouvir, de Isaac Albéniz, Triana na magistral interpretação de Alicia de Larrocha:

https://www.youtube.com/watch?v=WjvkXoNXBqw

Corroborando as palavras de Vladimir Horowitz, só poderemos endossar a magnificente interpretação da música espanhola pela excelsa pianista. Imbatível nesse repertório e extraordinárias as suas leituras de Mozart, Schumann, Liszt… Não há arestas em suas interpretações. Elas configuram uma unidade sonora raríssima. Ouvi-la, através de gravações que estão disponíveis, é motivo de raro prazer estético.


Tendo encerrado a carreira em 2003, após uma trajetória que se estendeu por 76 anos, pois iniciada ainda quando criança, pouco tempo após sofre queda e fratura o quadril, vindo a falecer em 2009 em sua cidade natal, Barcelona.

Clique para ouvir, de Enrique Granados, Dança Espanhola nº 7, na interpretação de Alicia de Larrocha;

https://www.youtube.com/watch?v=ejVPK7cEwLU

Alicia de Larrocha was one of the biggest names in piano playing in the 20th century. An eclectic interpreter, her performances of Spanish composers, according to Vladimir Horowitz, are unsurpassed. I believe some of her opinions, expressed in interviews throughout her career, are worth reading.

As cartas do compositor a André Hellé dizem muito…

Entre nós, eu nunca suportei bem a multidão…
Claude Debussy
(carta a Gabriele D’Annunzio, 10/05/1911)

A recepção do blog anterior foi animadora. Agradeço as considerações e creio que as missivas de Debussy a André Hellé corroboram entendimentos.

Como observei no último post, há tempos Elson e eu pensávamos introduzir La Boîte à Joujoux no Youtube. Como se trata de obra singular, programática e cercada de sensíveis ilustrações criadas pelo escritor e pintor francês André Hellé, várias montagens foram feitas ao longo de mais de um século. A primeira audição mundial se deu no Théatre Lyrique (10.12.1919) através da versão para orquestra, preparada pelo compositor e regente André Caplet, amigo de Debussy, embora a edição da partitura original para piano tivesse sido publicada no final de 1913. Ficaria a impressão de que La Boîte à Joujoux teve como destinação inicial a orquestra. Essa teria sido uma das razões para que uma menor divulgação da obra pelos pianistas ocorresse ao longo de muitas décadas.

Vários leitores atentos pediram que me alongasse mais nessa obra que é exceção na composição para piano de Debussy, caracterizando melhor a gênesis, o evoluir da composição até seu término, o estilo e as ideias concernentes do autor. Essas colocações têm interesse e explicam com clareza incontáveis outras situações paralelas nas obras dos compositores, ratificando a posição do escritor e naturalista Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), para o qual le style est l’homme même.

As “autocitações” de Debussy em La Boîte à Joujoux são reminiscências de motivos ou frases musicais metamorfoseados. Como não pensar em Children’s Corner, mormente em Jumbo’s Lullaby (berceuses des élephants), Serenade for the Doll e The Little Shepperd, esta última tão próxima do “Un pâtre qui n’est pas d’ici joue du chalumeau dans de lointain” (Um pastor que não é daqui toca flauta ao longe), do terceiro quadro de La Boîte…! Essas lembranças fazem parte essencial do idiomático de um autor, revelam que há, mormente em Debussy, o olhar o novo sem olvidar o passado, mesmo que a linguagem se transforme.

Antolha-se-me que La Boîte à Joujoux contém a síntese de vários procedimentos empregados por Debussy, por vezes num despojamento essencial, e que a escritura do ballet pour enfants revela elementos estilísticos inalienáveis do autor que serão projetados poucos anos após. O Étude pour les arpèges composés (1915), como um exemplo basilar, contém diversos compassos que fazem lembrar segmentos de La Boîte à Joujoux.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, o Étude pour les arpèges composés, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=VCAH8fYHjSo

No Youtube há várias versões para La Boîte à Joujoux a partir do original para piano solo: piano e algumas ilustrações, piano e declamação – frases da história contidas na partitura -, piano e teatralização, orquestra…
Como asseverei no blog anterior, sempre que apresentei em público La Boîte à Joujoux tinha em mente a criação de Debussy como composição que se sustenta independentemente de outros recursos. Interpretei-a em recitais no Brasil e no Exterior na formatação original e o público sempre compreendeu a mensagem intrínseca. Contudo, mercê dos avanços da internet, a inclusão das frases e das ilustrações não apenas norteia o ouvinte-leitor, como não interfere minimamente no discurso musical, antes, corrobora o entendimento. E possibilita em acréscimo o recurso de novamente se ouvir e se ver de imediato frase ou frases não inteiramente entendidas durante a execução de determinada passagem.

Sem contar determinadas criações, como Petite Suite (piano a quatro mãos, 1888-1889), Children’s Corner (1906-1908) e La Boîte à Joujoux (1913), seria esta última a que apresenta tardiamente aspectos mais descontraídos e lúdicos, sem que o rigor estrutural perca a absoluta coerência. Foi Georges Ricou, secretário geral da Ópera-Cômica, que sugeriu a André Hellé apresentar o projeto do ballet a Debussy. Isso feito, ao responder ao autor do texto e das ilustrações, convidando-o a visitá-lo, Debussy escreve: “Acredite de bom grado que a sua ideia de um ballet não pode me deixar indiferente” (14/02/1913). A se ler, a adorada filha Claude-Emma (Chouchou – 1905-1919) estará sempre presente durante a criação. Como André Hellé obtivera sucesso com seus vários livros para crianças, entre os quais L’Arche de Noé e Les Facéties de Topsy, chien mácanique, aceitação também conseguira pelos papéis com pequenas ilustrações de bichinhos. Debussy lhe escreve para agradecer esses papéis: “Chouchou me disse que só pode escrever sobre o seu papel. Poderíamos contestá-la por essa precoce marca de gosto e de alegria?” (22/06/1913). Vítima de difteria, Chouchou faleceu aos 13 anos, pouco mais de um ano após a morte do pai.

Creio de interesse para o leitor determinadas frases da correspondência de Debussy a André Hellé. Mantêm as missivas muito do charme existente na composição.

Durante a criação, escreve a Hellé: “Desde que você acertadamente deseja que a rosa tenha importância, porque não inseri-la na primeira página? Na realidade, tudo nessa pequena tragédia resulta numa rosa descartada! Desde a existência das mulheres e das rosas, é a eterna história” (25/07/1913). Hellé insere a rosa naquele espaço, após carta de Debussy quatro dias depois, na qual ratifica: “Pediria que colocasse a rosa na capa da partitura, sob o título La Boîte à Joujoux…, pois isso resultaria em surpresa nas páginas seguintes. Aliás, essa rosa tem a mesma importância de qualquer outro personagem”. Acrescentaria o fato de que na página dos personagens – boneca, soldado e polichinelo – há, logo abaixo, o “tema” da rosa sobre o desenho, e os instigantes sinais são inequívocos, pois uma pausa de semínima com fermata e mais o sinal decrescente em direção a um pp, silêncio absoluto pois, ratificam, nessa singela anotação, o fato de que 80% da opera omnia de Debussy se situar nas baixas intensidades, configurando uma de-dinamização. Nas 25 ilustrações constantes da edição de 1913 (Durand), por 11 vezes a rosa estará presente!

A respeito de uma futura apresentação de La Boîte à Joujoux, Debussy escreve ao seu editor Jacques Durand que “a mise en scène não necessita de um mestre de ballet, pois no transcorrer da obra tem-se preferencialmente movimentos e não Passos de ballet” (19?/05/2014).
Após a morte de Debussy, André Hellé escreve à viúva do compositor, Emma Debussy: “Choro o amigo que partiu e com emoção me lembro da grande confiança que ele em mim depositou. Evoco, estarrecido, as horas cruéis e todos os sofrimentos dele, assim como os seus. Contudo, quero pensar que Debussy não pode morrer” (27/03/1918). Tradução: J.E.M.

E não morreu. Continua a ser um dos compositores mais frequentados, geralmente através de suas obras sacralizadas há bem mais de um século. La Boîte à Joujoux pouco a pouco desperta o interesse dos pianistas, independentemente de texto e imagens. Aguardemos esses passos.

Clique para ouvir, de Claude Debussy, Étude pour les note répétées, na interpretação de J.E.M. Não é difícil detectar nesse magnífico Estudo, composto dois anos após La Boîte à Joujoux, eflúvios emanados do ballet pour enfants:

https://www.youtube.com/watch?v=yFwQ_iiSVZI

Para o leitor que não teve acesso ao blog anterior, insiro novamente o link de La Boîte à Joujoux, gravação que realizei na Capela de Saint-Hilarius, Mullem, Bélgica, para o selo De Rode Pomp (2002):

https://www.youtube.com/watch?v=0nGug1ZFxKU


I have received numerous e-mails requesting further information about the genesis of “La Boîte à Joujoux”. After considerations, I insert passages of letters from Debussy to André Hellé, author of the text and the illustrations of “ballet pour enfants”, as well as two Études pour piano which, despite their abstract genre, contain effluvia from “La Boîte à Joujoux”.