O alpinista português João Garcia e suas façanhas

O dia do cume é meu, sim,
em que tenho o privilégio de chegar lá acima,
onde poucos chegam. Mas tudo o que ficou para trás
resulta de um trabalho de equipa.
João Garcia

A nossa maior glória não é nunca cairmos,
mas levantarmo-nos sempre que caímos.
Confúcio

Anteriormente resenhara livro do alpinista João Garcia sobre a epopeia que resultou na sua subida ao Everest em 1999 (vide blog “A mais alta solidão – O primeiro português no cume do Everest”, 28/07/2012). Após a publicação, recebi com surpresa e-mail do alpinista a comentar o post. Tantas outras aventuras relacionadas às grandes altitudes deveriam ocorrer após a trágica descida à cumeeira do planeta empreendida por João Garcia em 1999.

Nesta última viagem a Portugal procurei obras mais recentes de João Garcia e encontrei na Livraria Bertrand  no Chiado, em Lisboa, que se orgulha de ser a mais antiga do planeta, “14 – Uma Vida nos Tectos do Mundo” (Alfragide, Lua de Mel, 2013). Nesse empolgante livro, João Garcia, após conquistar os 14 mais altos picos do planeta, todos aqueles acima de 8.000, estabelece um plano para sua narrativa. Dividido em segmentos definidos, todos estão relacionadas ao número de suas conquistas naquelas alturas: 14 Pessoas, 14 Competências, 14 Montanhas, 14 Momentos, 14 Locais. O número emblemático é mencionado sistematicamente na obra, pois o alpinista foi, até o livro em pauta, um dos dez a subirem os 14 picos sem auxílio de oxigênio. Comenta: “ao utilizar oxigênio estamos a enganar a montanha e a nós próprios”.

Em vários posts dimensionei a palavra gratidão. João Garcia lega belo testemunho ao mencionar e discorrer sobre 14 pessoas que o ajudaram em seu percurso e acalentaram seus sonhos. Fá-lo igualmente ao mencionar suas 14 competências, determinantes para a confiança que adquiriu e a coragem advinda, mercê da certeza de estar preparado para o mister de galgar os 14 maiores picos do mundo. O segmento das 14 competências tem interesse particular, pois todo um passado voltado à apreensão de coisas práticas é relatado, por vezes com muito humor. Eis as “competências”: ginástica, escotismo, voleibol, rúgbi, escalada, maratonas, ultra-trail, carpintaria, eletrônica, radioamadorismo, eletrotecnia, fotografia e costura. Todas forjando habilidades que o ajudariam para o grande almejo.

Se durante muito tempo alpinistas foram apelidados de “conquistadores do inútil”, segundo palavras do autor, presentemente o alpinismo praticado pelos grandes especialistas tem-se mostrado exemplo de tenacidade e de vontade de ultrapassar obstáculos antes intransponíveis. A atitude corrobora os caminhos que o homem pode trilhar em qualquer área. Não se confunda a alta performance com a banalização representada por “legiões” que sobem, principalmente no Everest, e que nada mais são do que turistas endinheirados, para gáudio de agências que proliferam no planeta. Tantos morrem, pois a montanha tem suas regras. Despreparo físico e vaidade incomensurável encaminham essas filas indianas de humanos que anualmente inundam a cordilheira himalaia, deixando lixo de toda a espécie, inclusive tendo de abandonar corpos de infortunados pelas trilhas, pois o resgate é praticamente inviável. João Garcia enumera a porcentagem de mortes nas montanhas do Himalaia. A relação é assustadora: Annapurna (38,0), K2 (23,24), Nanga Parbar (22,3), Everest (5,7). Considere-se que há quantidade muitíssimo maior dos que tentam o Everest, simplesmente pelo fato de ser o mais alto. O marketing da montanha  não tem limites.

João Garcia é um herói português. Um dos grandes. Determinado, após ter chegado ao cume de duas montanhas acima dos 8.000 metros, o Cho Oyu (8.201) e o Dhaulagiri (8.167) em 1993 e 1994, respectivamente, tenta duas vezes o Everest (1.848), atingindo o pico apenas em 1999, na trágica aventura que provocaria a morte de seu dileto companheiro belga Pascal Debrouwer. Como autocrítica, evidencia os vários erros cometidos, mormente ao permanecer cerca de uma hora no cume, e a desastrosa descida na qual seu amigo desapareceria. Hospitalizado, Garcia perderia posteriormente as falangetas dos dedos das mãos e o nariz, por necrose devido ao congelamento. Comenta que  “a maior parte dos acidentes fatais dão-se na descida, quando estamos mais cansados e, em alguns casos, menos concentrados”.

A vontade do intento arrefeceu-se durante certo tempo, mas em 2001 ei-lo a conquistar o Gasherbrum II (8.034) e, em 2004, o  Gasherbrum I (8068). Na ordem, seguiriam as subidas aos cumes de mais nove acima dos 8.000 metros: Lhotse (8.516 – 2005), Kangchenjunga (8.586 – 2006), Shishapangma (8.013 – 2006), K2 (8.611 – 2007), Makalu (8.481 – 2008), Broad Peak (8.047 – 2008), Manaslu (8.156 – 2009), Nanga Parbat (8.126 – 2009) e Annapurna (8.091 – 2010).

Dois outros segmentos de “14 – Uma Vida nos Tectos do Mundo”, finalizam a obra. Focaliza 14 momentos fulcrais, desde a ida de bicicleta à serra da Estrela ao profissionalismo soberano. Não deixa de pormenorizar-se em 14 locais, entre os quais Marraquexe, o Pico (Ilha do Pico – Açores), Mendoza (estadia para a ascensão ao Aconcágua (6.961 – 1996). Frise-se que João Garcia também subiu ao cume mais alto das sete montanhas dos  continentes: América do Sul, Ásia, América do Norte, Europa, Antártida, África e Austrália, citados por Garcia, respectivamente.

O fato de que nas várias secções do livro temas se entrecruzam faz com que muitas passagens sejam retomadas para o fluxo de uma nova narrativa. O processo apenas ajuda a memorização dos ricos relatos de João Garcia.

Considere-se que em praticamente todos os capítulos o autor enfatiza que, sem disciplina, preparo físico, concentração e vontade férrea, jamais teria conseguido tais feitos. Há quase que uma obsessão nessas ratificações. Reconhece seus méritos e, sem empáfia, mas com respeito ao leitor, demonstra que é cônscio das grandes performances realizadas. Comenta “Acima dos oito mil metros, temos muitas vezes a experiência única e assustadora de não estarmos sozinhos, apesar de não haver ninguém junto de nós. O cérebro está afectado pela falta de oxigênio, o esforço físico é muito violento, parece que, simultaneamente, perdemos discernimento mas ganhamos um sentimento mais agudo de consciência. Existe uma outra pessoa, um amigo imaginário, que nos ajuda a superar as dificuldades. É o tipo de miragem que ocorre quando enfrentamos situações extremas…”. Miragem ou um Poder Maior? O certo é que a determinação desse intrépido aventureiro português é extraordinária. “Dos fracos não reza a história”, segundo o maior vate da língua portuguesa, Luís Vaz de Camões. João Garcia estará indelevelmente na História do alpinismo mundial de alta performance. A História rezará.

This post is an appreciation of the book “14 – Uma Vida nos Tectos do Mundo” (14 – A Life on the Roofs of the World), written by the highly experienced mountaineer João Garcia, the first Portuguese climber to reach the summit of Everest (1999) without supplemental oxygen, an adventure that cost him fingertips and part of the nose due to frostbite. Unabated, his passion for climbing continued and he is one of the very few to have summitted the world’s 14 peaks above 8000m and the seven summits of the seven continents. A story of discipline, focus and burning determination, qualities without which such conquests would have been impossible.

 

 

Quando arguta sugestão leva a recordações

Se temos de esperar,
que seja para colher a semente boa
que lançamos hoje no solo da vida.
Se for para semear,
então que seja para produzir
milhões de sorrisos,
de solidariedade e amizade.
Cora Coralina (1889-1985)

Durante o VI Simpósio Internacional de Musicologia, que se realizou na cidade de Goiânia entre os dias 13 e 17 de Junho, e tema do blog anterior,  um aluno, que ouvira numa das sessões do Encontro comentários a respeito de minha relação com a cidade desde o final década de 1970, perguntou-me quais seriam essas ligações anteriores. Não lhe respondi no momento e disse que poderia pensar em texto para meu blog. Atendo ao seu questionamento.

Naqueles anos mencionados, após palestras e recital na cidade a abordar a obra para piano de Claude Debussy, apresentação realizada no Musika – Centro de Estudos, no dia 1º de Abril de 1981, recebi convite da competente professora e pianista Glacy Antunes de Oliveira, diretora da escola, para orientar algumas professoras e alunos. Musika desempenhou papel relevante na vida cultural da cidade. Durante dois ou três anos, mensalmente viajava para Goiânia às sextas-feiras à noite para aulas que se prolongavam durante o sábado e o domingo pela manhã. Foi um período muito significativo para mim, pois anualmente me apresentava em recitais interpretando obras relevantes, mas pouco frequentadas.

Lembro-me que me impressionava  a transformação de Goiânia,  inaugurada efetivamente em 1937. Trinta anos após, já era uma  cidade próspera e visível se tornava seu crescimento, mormente para um não habitante. A relação amistosa que mantive com todos os alunos não poderia ser melhor. Tinha imensa alegria no convívio em torno de um piano. Não apenas os ouvia como conversávamos sobre música, apontava leituras importantes e tocava inúmeras obras durante as aulas. Entre os alunos, a competente professora Ana Guiomar Rêgo Souza, que tão bem co-presidiu o VI Simpósio e que desempenha magnífico trabalho frente à Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade de Goiás.

Em não poucos blogs escrevi que priorizo sempre a formação do músico e o pianista, a depender do talento, poderá emergir paralelamente ao seu desenvolvimento como humanista. O amálgama é imperativo.

Cercado pela atenção dos que frequentavam as aulas mensais, não poderia deixar de mencionar um fato curioso, hilariante até, e que é lembrado com humor quando estou em Goiânia. O pai de uma das alunas, fazendeiro e ótimo contador de histórias de caçadas, ofereceu-nos, a todos os que cursavam as aulas, um lauto almoço preparado pela sua dedicada esposa. Ao fim, disse-me que me reservara surpresas. Vieram à mesa amostras de suas caças. Agradeci com negativa diplomática, mas o bom homem fez-me degustar um pouco de cada caça. Tudo em quantidades bem pequenas, não sem antes comentar  como conseguira o feito. Lá estavam amostras dos mais variados animais silvestres de pequeno e de grande porte, várias qualidades de peixes, aves do Araguaia e até jacaré. Mantinha todo o “zoo” em congeladores bem robustos. Pouquíssimas horas antes de meu retorno a São Paulo, já no aeroporto, a fauna se rebelou em minhas entranhas. Inesquecível!!! Após essa experiência, jamais saí de dieta espartana, ou carne ou peixe (um só tipo de cada).

Foram muitos os retornos a Goiânia para recitais e palestras.Propunha sempre uma conversa no Musika e, posteriormente, na EMAC/UFG, sobre o repertório a ser apresentado à noite. Igualmente tenho lembranças duradouras das récitas nos anos 1990 promovidas pela Escola de Música dirigida irmã de Gyovana Carneiro, professora da UFG.  Nos programas, obras referenciais, mas pouco frequentadas. É tão vasto o repertório, e repetem-se prioritariamente as mesmas composições!!! Desde 2007, inúmeros blogs comentam essa situação, que se perpetua entre nossos intérpretes. Raras as exceções que contemplam a obra-prima que, oculta, espera ser revelada. Isso só acontece se lá formos, aos arquivos, às prateleiras de lojas especializadas e, hoje, à internet. O manancial é riquíssimo, inesgotável diria, e apenas aguarda o momento do desvelamento.

No plano acadêmico, a participação em várias bancas de pós-graduação trouxe-me a certeza de um singular empenho da UFG no sentido de formar quadro competente de docentes. Sem mencionar nomes dos postulantes, pois poderia esquecer-me de alguns, diria que o convívio à mesa julgadora com as professoras Belkiss Carneiro de Mendonça e Glacy Antunes de Oliveira foi-me sempre muito feliz. Sob o aspecto pianístico, Goiânia mostrava-se em altíssimo nível, mercê da atuação didática das duas professoras titulares da UFG. Mencionaria uma dissertação em especial, a de Othaniel Alcântara Júnior, pois o então bem jovem músico, hoje atuante docente da Instituição, apresentou a edição da magnífica Sonata para violino e piano de Henrique Oswald (1852-1931), muito bem interpretada durante sua defesa. Era mais um passo meritório para o conhecimento, que se faz a cada ano mais presente, da obra de nosso grande compositor romântico.

Foi a primeira vez que participei do Simpósio Internacional de Musicologia em Goiânia. Desde a minha aposentadoria, em 2008, não me fiz convidar para nenhum Encontro no país, mas tinha conhecimento do que se passava nesse campo tão específico. Continuava acentuadamente a me dedicar ao piano, às gravações na Bélgica e às apresentações na Europa, assim como à publicação de artigos e livros, mormente para o Exterior. Convidado, com enorme prazer verifiquei, nesta sexta edição do Simpósio, a maturidade da pesquisa na área musical apresentada e o debate de temas importantes realizado pelos participantes meritosos. Mantivemos convívio em alto nível e tive o prazer de rever colegas e conhecer outros, que já pertenciam ao meu campo de leituras. Como decano entre os docentes, senti sempre uma empatia salutar entre todos, troca de informações de nossa área e alegria de estarmos juntos. Saliente-se a presença dos quatro excelentes professores musicólogos vindos de Portugal, respeitadíssimos no Exterior.

Na abertura do VI Simpósio, a dileta amiga e competente professora Ana Guiomar Rêgo Souza, presidente e coordenadora geral, juntamente com a professora Magda de Miranda Clímaco, disse que eu era o mais antigo a frequentar musicalmente Goiânia e que, possivelmente, o arroz de pequi me tenha seduzido. Essa delícia goiana foi apenas a ponta do iceberg, pois minha relação afetiva com a cidade e amigos músicos da urbe está nas profundidades sólidas da amizade.

I’ve just arrived from the city of Goiania, where I took part in the successful Sixth International Symposium on Musicology. However, my connections with the city date back to the seventies, when I gave a course on Debussy at the local university. In this post, I talk about memories of travels to Goiania, dear friends I have there and the ever increasing maturity of research into music conducted at Universidade Federal de Goiás (UFG).

 

 


VI Simpósio Internacional de Musicologia

O especialismo favorece aquela preguiça de ser homem
que tanto encontramos no mundo,
permite ele, por outro lado,
aproveitar em tarefas úteis
indivíduos que pouco brilhantes seriam no tratamento de conjuntos.
Agostinho da Silva

Foram inúmeras as vezes que estive em Goiânia para atividades musicais, desde a década de 1970. Recitais, palestras e visitas mensais durante uns bons três anos, a fim de curso de piano a alunos e jovens professores da cidade. Poderia afirmar que Goiânia pertence ao meu mundo de afetos. Raízes fincadas.

Foi a primeira vez que fui convidado para o prestigioso Simpósio. Aquiesci com grande alegria, pois programaram um substancioso elenco de temas a ser debatido, assim como recitais durante a semana em questão. Participaria em mesa redonda, minicurso e recital de piano. Agradou-me.

O VI Simpósio Internacional de Musicologia estendeu-se durante a semana de 13 a 17 de Junho. Promovido pela Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, Centro Cultural UFG e Caravelas – Núcleo de Estudos da História da Música Luso/Brasileira/CESEM/FHSC/Universidade Nova de Lisboa, teve na presidência da coordenação geral as professoras Ana Guiomar Rêgo Souza e Magda de Miranda Clímaco (Universidade Federal de Goiás). Registremos as colaborações efetivas de Gyovana Carneiro, Consuelo Quireze Rosa, Othaniel Alcântara Jr. e Robervaldo Linhares Rosa, igualmente professores da mesma Academia. Frise-se, o quadro docente da EMAC corroborou o excelente nível do Simpósio. A sexta edição ratifica a presença já consagrada da UFG no cenário musical e cultural do país. Ilustres professores portugueses abrilhantaram o Simpósio. Mencionemos os nomes de Ana Maria Liberal (ESMAE/CESEM, FCSH-Universidade Nova de Lisboa), Eduardo Lopes (IA/DM Universidade de Évora/ PPG Música UFG), Luisa Cymbron (CESEM/FHCS/UNL) e Paulo Ferreira de Castro (CESEM/FHCS/UNL).

A conferência de abertura foi realizada pelo notável professor Paulo Ferreira de Castro (CESEM/FHCS/Universidade Nova de Lisboa) no dia 13: “Compor a várias vozes: aspectos da transtextualidade em Wagner e depois de Wagner”. Seguiu-se debate profícuo. Durante a semana houve a apresentação de temas significativos em cada mesa redonda: Compositores românticos brasileiros; Música popular urbana; Sons da cidade; Mulheres na música: sons e silêncio; Educação musical e musicologia; Conversas de musicólogos. Seguindo a tradição de edições anteriores, a temática da música religiosa até as primeiras décadas do século XIX esteve em pauta. Registremos que houve a atuação efetiva de professores e pós-graduandos nos debates enriquecedores de todos os temas propostos.

Quanto às minhas participações, diria que a mesa redonda “Trio romântico brasileiro – Nepomuceno, Oswald e Miguez” (14/5), com a presença dos professores doutores Luiz Guilherme Goldberg (UFPel), Mônica Vermes UFES) e sob a mediação de Othaniel Alcântara Junior (UFG), buscou não apenas evidenciar identidades entre esses compositores, como realçar o precioso contributo à música brasileira nos vários gêneros preferenciais a cada autor. Na minha intervenção salientei que as obras dos nossos mais significativos românticos estariam rigorosamente equiparadas ao que se escrevia na Europa, nesse caudaloso movimento romântico que se estenderia até as primeiras décadas do século XX. Ficaria claro que nossos músicos praticaram a linguagem vigente por tantos compositores de mérito e estavam distantes das tendências decorrentes do esgotamento da tonalidade, que resultariam numa revolução escritural no século XX. Realcei na minha intervenção que a viagem ao Exterior foi fundamental para a equiparação com as escritas musicais sacralizadas na Europa. Se há imensa dificuldade de inserir no repertório internacional nossa criação musical anterior ao romantismo, não pela qualidade, mas sim por uma defasagem escritural, o mesmo não tem ocorrido com a produção musical romântica brasileira. Creio que essa apreensão poderá, através da divulgação repertorial e interesse dos intérpretes, colocar definitivamente obras do período nos programas internacionais de concerto. Paulatinamente, esse fenômeno está a se produzir. Saliente-se contudo que parte considerável de nossa criação anterior ao romantismo tem sido estudada com afinco por especialistas de mérito. Isso é salutar.

Na noite do dia 14 dei recital inteiramente dedicado à obra para piano de Fernando Lopes-Graça. Propus esse programa, pois acredito que a irmanação das produções criadas em Portugal e no Brasil tem que ser a cada ano mais acentuada. Não basta o discurso e o texto. Há que se ouvir música de mérito. E ela existe nos dois países. A escolha das obras também teve como origem a presença dos distintos professores de universidades portuguesas no importante Simpósio.

Todas as noites, recitais de excelente nível foram apresentados por intérpretes da UFG e por músicos pertencentes aos quadros de várias universidades brasileiras. A agenda ativa impediu-me de assistir a todas as récitas. Não obstante, tive prazer imenso ao ouvir apresentações de mérito: o recital de piano de Diones Correntino que ofertou improvisações e arranjos de músicas populares, evidenciando uma singular habilidade técnico-pianística e sensível apreensão da dinâmica. Igualmente de mérito, o recital de cravo, flauta doce e canto proporcionado pelos músicos: Mário Trilha (cravo – Universidade Estadual da Amazônia), David Figueiredo Castelo (flauta doce – UFG) e Alberto José Vieira Pacheco (canto – UFRJ/CESEM). Belo repertório elástico a se estender de François Couperin (1668-1733) a Edino Krieger (1928- ) e Villani-Côrtes (1930- ). Estiveram em excelente noite. Encerrando o Simpósio houve a apresentação da Banda Pequi em Cena tendo como regente Jarbas Cavendish (UFG). Entusiástica performance.

Dos dias 15 ao 17 realizei curso a abordar a obra para piano de nosso romântico Henrique Oswald (1852-1931). Forma, gênero, interpretação, modelos aceitos, influências. Destas, preponderam três: francesa, italiana e alemã. Evidenciei o tratamento pianístico dado à música de câmara, ao piano intimista e às peças mais virtuosísticas. Apresentei várias dessas criações, inclusive a coletânea Bluettes (1888), constituída de pequenas peças com nomes de flores. Gravei-a na Bélgica, juntamente com outras obras do compositor, para CD a ser editado em 2018. Foi a primeira audição absoluta da obra.

Finalizando, diria que o VI Simpósio atingiu plenamente seus objetivos. Toda a comissão organizadora merece os mais efusivos parabéns. Goiânia, que teve na figura da grande pianista, professora e saudosa amiga Belkiss Carneiro de Mendonça (1928-2005), co-fundadora do Conservatório Goiano de Música, hoje Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, a incentivadora mor da música em Goiânia, junto com sua discípula, a também competente pianista e professora Glacy Antunes de Oliveira, ambas professoras titulares da UFG, tem que se ufanar de seu passado e dessa continuação gloriosa, sempre a pensar no melhor para a música de nosso país.