Portugal e seu compositor maior, Fernando Lopes-Graça

Car le bonheur se sent en soi
ainsi qu’un fruit qui est plein de sa saveur.
Antoine de Saint-Exupéry

Como não tinha possibilidade de acesso a alguns arquivos em São Paulo, fiquei comprometido na transmissão e arquivamento de fotos, principalmente. Que o leitor compreenda, pois acima de tudo paira minha quase que absoluta ignorância em relação às novidades tecnológicas que surgem a cada dia. Impede-me de segui-las. Nada a fazer. Pela primeira vez, nestes mais de nove anos de blogs ininterruptos, insiro uma série de fotos. Foram tiradas pela dedicada Manuela, esposa do prof. Pedrosa Cardoso.

Já em São Paulo, selecionei imagens que dizem muito do que aconteceu nessa viagem musical. A digressão foi antecedida pela entrevista, bem divulgada, que o prof. José Maria Pedrosa Cardoso e eu concedemos ao experiente Paulo Guerra para o programa Antena 2, da RDP. A longa conversa, entremeada por gravações que realizei ao longo dos anos com obras de Lopes-Graça, corroborou para sensibilizar muitos ouvintes que seguem o aclamado programa.

Entusiasmou-me a acolhida calorosa às obras de Fernando Lopes-Graça, o nome maior da música portuguesa do século XX, e a recepção aos 12 Cantos Sefardins, pela primeira vez interpretados na íntegra em Portugal. Cascais, Évora, Tomar e Almada (Convento dos Capuchos) entenderam a nossa proposta e a mezzo-soprano Rita Morão Tavares, o musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso e eu peregrinamos pelas terras a divulgar a coletânea sefardita  para canto e piano, Canto de Amor e de Morte e Viagens na Minha Terra para piano solo. Instrutivas as palestras de Pedrosa Cardoso sobre os Cantos Sefardins e documental a apresentação do data show para Viagens na Minha Terra.

Os Cantos Sefardins provocaram emoções. A competente gregorianista Idalete Giga, sob o impacto da audição da obra, dedicou-lhes um poema:

Cantos Sefardins

Toadas dolentes
Cantos de amor
Vivendo cativos
Ocultos
No seio da dor

O Rei Nimrod
Canta e dança
Que viu no céu?
Que sonho foi o seu?
Rei Nimrod
Porque choro eu?

Ai, Israel, Israel
Terra Prometida
Abandonada
Partida
Em mil pedaços

Avraham avinu
Pai Bendito
Pai Querido
Luz de Israel
Onde estás?
Onde vives?

Vivo na alma magoada
Do povo eleito
Disperso
Por toda a Terra

O canto dolente
Jamais esquecido
Ficou suspenso
No fio antiquíssimo
Do Tempo
E abraça docemente

O doloroso Amor
Na noite adormecido
O Rei Nimrod
Canta e dança
Que viu no céu?
Que sonho foi o seu?
Rei Nimrod
Porque choro eu ?

Évora, 9 de Maio/2016

Deixávamos para o final das apresentações a música extraprograma, apesar de os Cantos Sefardins precederem sempre as Viagens na Minha Terra, obra com que encerrava o programa. Explicava para público rigorosamente seleto, ao fim do concerto, que tocaria a música fúnebre dedicada ao grande poeta e amigo de Lopes-Graça, Morto, José Gomes Ferreira, vais ao nosso lado, peça em que o compositor insere várias vezes o tema de Jornada, sobre poema de Gomes Ferreira. Solicitava após a presença de Rita Morão Tavares – impecável em todas as apresentações -, que cantava Jornada, de Lopes-Graça, canção que integra o conjunto das Marchas, Danças e Canções do compositor. À medida que apresentávamos os concertos nas cidades mencionadas, mais vozes integravam o refrão, e qual não foi nossa alegria na última récita, quando parte significativa de público numeroso que compareceu ao Convento dos Capuchos, na Almada, cantava a plenos pulmões o refrão: “Vozes ao alto! / Vozes ao alto! / Unidos como os dedos da mão, / havemos de chegar ao fim da estrada, / ao sol desta canção”.

Na cidade de Tomar, Pedrosa Cardoso ofereceu palestra à tarde na Sinagoga da cidade, edifício que remonta a meados do século XV, mas que teve através dos tempos, vários períodos a serviço de outras funções. Somente em 1921 passou a ser considerada Monumento Nacional.

Deu-se o recital na Escola Canto Firme, hoje sob a direção do competente prof. Simão Francisco. Como acontece quase todas as vezes em que me apresento em Tomar, houve reunião festiva após o concerto e o ex-diretor, regente coral António Sousa, profundo conhecedor da obra coral do compositor nascido na cidade, dirigiu o coro da Escola, que cantou exemplarmente várias canções harmonizadas por Lopes-Graça. Um regalo acompanhado por generoso vinho e iguarias. O coral fará apresentações em Julho na cidade de Praga.

Se em Cascais e Évora a recepção ao repertório apresentado foi acolhedora, frise-se que o concerto promovido pela Associação Lopes-Graça reservara ao final do evento a entrega de algumas honrarias. O ilustre musicólogo Mário Vieira de Carvalho e eu recebemos o título de Sócios Honorários da entidade. O meu, das mãos da ex-presidente, a dedicada Maria Celestina Gomes Leão. A Associação tem lutado com afinco pela divulgação e publicação das obras de Lopes-Graça e o coral apresenta-se regularmente, a preservar o riquíssimo manancial composto para vozes pelo compositor.

Durante a digressão estive com diletos amigos, que prestigiaram as apresentações. O notável compositor Eurico Carrapatoso e eu ouvimos a gravação, a ser lançada em 2017 na França, de sua Missa sem Palavras (cinco Estudos Litúrgicos para piano). Gravei-a na Bélgica no ano passado. Comunhão absoluta compositor-intérprete. Momentos inefáveis vivemos também na escuta dos magníficos Études Cosmiques, de François Servenière, do Et Iterum Venturus, de Gheorghi Arnaoudov, e do telúrico Étude V – Die Reihe Courante, de Jorge Peixinho. O CD encerra um ciclo de cinco que gravei, unicamente dedicado aos Estudos para piano. Soneto magistral de Camões, a inspirar o dileto amigo Carrapatoso, será tema de próximo blog. Com Romeu Pinto da Silva conversamos longamente sobre obras de Lopes-Graça a serem estudadas. Estimado amigo.

Em encontro agendado com a Drª Conceição Correia, responsável pelo Museu da Música Portuguesa e coordenadora do CDI, não apenas obtive fotocópias de obras que deverão povoar minha mente, meu coração e meus dedos, como emocionei-me ao manusear o manuscrito único de Canto de Amor e de Morte para piano solo, obra que, corroborando a opinião de ilustres músicos que me precederam na avaliação, Jorge Peixinho (1940-1995) e Mário Vieira de Carvalho, é  cumeeira da criação musical portuguesa. Acrescento, uma das maiores da segunda metade do século XX em termos mundiais.

Projetos já estão a ser elaborados para 2017. Retornar às terras lusíadas e reencontrar público fiel e amigos músicos que pertencem ao meu restrito universo de afetos é sempre grande dádiva.

My recent tour in Portugal had great reception, in special thanks to the premiere in the Portuguese territory of “12 Cantos Sefardins” and the presentation of “Canto de Amor e de Morte” and “Viagens na Minha Terra”, all works by Lopes-Graça (1906-1994), the outstanding Portuguese composer. Taking part in the event, the mezzo- soprano Rita Morão Tavares shined on stage, while the musicologist José Maria Pedrosa Cardoso gave a talk on Cantos Sefardins and prepared image projections for Viagens na Minha Terra. Selected photos illustrate this week’s post.

 

Évora, Tomar e outras considerações


Prossegue a viagem. O recital em Évora, na igreja do belo Convento Nossa Senhora dos Remédios, teve recepção calorosa. Abrigado pelo Eborae Musica e patrocinado pelo Centro Ward de Lisboa, o concerto fez parte das apresentações de obras basilares de Fernando Lopes-Graça, inclusive dos 12 Cantos Sefardins. Ao regressar a Oeiras (próximo a Lisboa), o consagrado compositor Eurico Carrapatoso, o competente musicólogo Pedrosa Cardoso e eu almoçamos e apreendi algo inusitado, que terá apresentação marcada para Dezembro próximo. Se no ano passado, na Bélgica, gravei Estudos Contemporâneos de François Servenière, Carrapatoso, Arnaoudov e Peixinho para selo francês (lançamento 2017), considere-se que do CD constará a Missa sem Palavras (cinco “Estudos Litúrgicos”), de Carrapatoso, verdadeiramente multum in minimo. Eurico presentemente parte para uma empreitada hercúlea, inédita em termos musicais, pois o multum em sua amplidão será revelado ao final do ano. Trata-se da criação majestosa “Dece do Ceo”, sobre soneto natalício de Luiz Vaz de Camões. Encomenda da Academia de Música Santa Cecília, a composição está sendo escrita para soprano solo, coro de câmara, coro misto grande (300 vozes!!!), coro infantil (100 vozes) e para os seis órgãos históricos do Convento de Mafra: órgãos da Epístola, do Evangelho, de São Pedro de Alcântara, de Santa Bárbara, do Sacramento e da Conceição. Esses instrumentos, todos das fronteiras dos séculos XVIII-XIX, estão integrados na majestosa Basílica de Mafra. Deverá ser espetáculo a não ser esquecido, mormente graças à maestria do compositor Eurico Carrapatoso.

Estive em Sintra, na bela e ampla morada de Romeu Pinto da Silva. Estamos a estudar as obras de Lopes-Graça que deverão frequentar minha mente e meus dedos proximamente. Repertório dos afetos, diria, pois Lopes-Graça é largamente um de meus eleitos. Durante a semana tivemos outro encontro, a fim de desenvolver projetos. Romeu Pinto da Silva colheu durante décadas observações do compositor e é autor do catálogo mais abrangente das criações de Lopes-Graça, ao meu ver. Trata-se da “Tábua Póstuma da Obra Musical de Fernando Lopes-Graça”.

Tivemos recital em Tomar e o calor receptivo foi intenso. Gosto imenso de tocar nessa encantadora cidade por razões claras. No início da década de 1980 lá me apresentei em três recitais promovidos pelo Conservatório, então dirigido pela sempre lembrada professora Manuela Tamagnini. A partir dos anos 2000 já foram inúmeras as vezes em que toquei sob o patrocínio do Canto Firme. Tomar, a cidade dos templários e do Convento de Cristo (patrimônio da humanidade), é aquela que viu nascer o compositor homenageado, Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Pela primeira vez a cidade ouviu os 12 Cantos Sefardins para canto e piano na bela voz da mezzo-soprano Rita Morão Tavares. O recital foi apresentado à noite e no período da tarde, Pedrosa Cardoso realizou magnífica palestra sobre os “Cantos…” na vetusta Sinagoga de Tomar sobre o tema “A alma da portugalidade em Viagens na Minha Terra e em 12 Cantos Sefardins”. Completei o programa com Canto de Amor e de Morte e Viagens na Minha Terra. A acolhida tomarense caracteriza-se pela empatia e confraternização. António Sousa, professor e regente coral do Canto Firme, ao longo dos anos tem desenvolvido trabalho imprescindível para a preservação e divulgação do rico repertório coral de Lopes-Graça.

Neste 14 de Maio teremos a última apresentação do programa Lopes-Graça. Dar-se-á no Convento dos Capuchos, na Almada, em recital promovido pela Associação Lopes-Graça e pela Câmara Municipal de Almada. No próximo blog deverei inserir algumas fotos da digressão. Tive problemas, mercê de minha “idiossincrasia” com a parafernália tecnológica. Perco-me, eis a verdade. Em São Paulo saberei selecionar imagens. Narrarei um crescendo que esteve a acontecer em torno da música oferecida extra-programa.

 

 

Os 12 Cantos Sefardins como revelação

Deu-se a travessia. Anualmente o destino é a Europa, centrada em três países fulcrais: Portugal, França e Bélgica. Minha faixa etária permite-me a concentração em países de afeto, e estes três me são particularmente caros. Diria que de tantas outras geografias visitadas para recitais ou mais atividades musicais, são eles os que permanecem vivos em meus anseios. Nesta viagem, apenas Portugal, que está a aguardar a primeira apresentação em seu solo de obra-prima do grande compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994), os 12 Cantos Sefardins para canto e piano. Apresentados em primeira mundial em São Paulo, em Outubro último. Na série de quatro concertos em cidades portuguesas, o ciclo tem a mezzo-soprano Rita Morão Tavares na difícil interpretação em ladino,  acompanhada por mim numa escritura singular para piano. O idioma ladino, também nomeado sefaradi, teve suas origens ao final do século XV, período em que os judeus foram expulsos da Espanha. Era falado na península ibérica pelo povo judeu. Em Portugal aguardam a obra com ansiedade. Sob aspecto outro, a apresentação de duas outras criações para piano solo, Canto de Amor e de Morte e Viagens na Minha Terra, pela segunda vez interpretadas por este pianista em solo português, desperta interesse. Longamente gestado, o datashow sobre Viagens…, preparado pelo professor e musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso, penetra no afeto mais profundo de Lopes-Graça, o povo mais simples das aldeias, freguesias e vilas do país. À medida que as 19 peças que compõem a coletânea forem interpretadas, uma imagem a situar a localidade, geralmente distante das cidades, será apresentada com mínima, mas pertinente, referência. Canto de Amor e de Morte, reiteradas vezes por mim citado em blogs, é ao meu ver uma das mais importantes criações para piano da segunda metade do século XX em termos mundiais. Só de pensar que o original para piano, que daria motivo para duas versões posteriores realizadas por Lopes-Graça, estava depositado no acervo do compositor, localizado no Museu da Música Portuguesa, com a palavra “inutilizar” assinalada pelo compositor – tardiamente a meu ver -, dá o que pensar. A obra-prima que não pode ficar oculta. Graças ao estudioso Romeu Pinto da Silva, autor da magnífica Tábua póstuma musical de Fernando Lopes-Graça, que me envio o original para piano e as duas versões posteriores (camerística e orquestral) Canto… veio à luz, já apresentada e gravada para o selo PortugalSom/Numérica. Realmente comove-me sempre executá-la, tal a intensidade emotiva que depreende da criação austera, de difícil percepção inicial para o grande público. Diria que em 1961 Lopes-Graça descia à mais profunda introspecção, causada por tantos fatores…

Este blog, como sempre, está à disposição do leitor a partir dos cinco minutos de sábado. Pretendo inserir um adendo já no dia sete, a comentar a entrevista que o professor Pedrosa Cardoso e eu concedemos ao respeitado programa Antena 2 da RDP e o recital em que a primeira audição em Portugal dos 12 Cantos Sefardins se deu.