Quando Repertório Tem Gosto do Desvelamento

O público pede sempre a canção “célebre” repetida por determinado cantor,
aquela que ele ouviu tantas vezes pela rádio ou através do disco.
Deploremos sua preguiça.
Não é o compositor contemporâneo que fala:
é o músico que a defender seus ascendentes, como seus pares e aprendizes,
lamenta a estreiteza do gosto.
Beethoven é o deus dos melômanos: que seja.
Isso não significa que toda sua obra tenha a mesma acolhida.
Entre suas sinfonias…
Arthur Honegger

Após o recital do dia 11 de Abril na Sociedade Brasileira de Eubiose conversei com várias pessoas que prestigiaram o evento. A pergunta formulada por um jovem músico intrigou-me. Retornarei ao tema. Seria interessante frisar que a Sociedade privilegia essencialmente o aperfeiçoamento dos jovens em direção à reflexão sobre o homem, suas aspirações, seu caminhar pela humanidade nessa partícula mínima do espaço universal. Por total coincidência, acaso, diria –  palavra esta contestada pelo dileto amigo Carlos Augusto Souza Lima, um dos organizadores da temporada musical da SBE, que acredita não haver acaso – a maior parte do programa estava relacionada com o espírito da Sociedade: “Missa sem Palavras”, de Eurico Carrapatoso, “Et Iterum Venturus”, de Gheorghi Arnaoudov”, “Études Cosmiques”, de François Servenière” e “Vers la Flamme”, de Alexandre Scriabine, integram esse Universo incomensurável, que estamos a buscar entender desde a Antiguidade.

O jovem questionou-me a respeito de minha insistência em tocar obras inusitadas, apesar de ter declarado sua estupefação diante da qualidade dos “Estudos Contemporâneos” apresentados. Disse-lhe que a resposta estaria no blog da semana. Infelizmente não retive seu nome. Contudo recebi e-mail, num direcionamento bem próximo, de Patrícia Luciane de Carvalho, que se inquieta com programações paulistanas e com o público ainda menor quando repertório não sacralizado é apresentado.

A inserção semanal dos blogs, ininterruptamente desde Março de 2007, faz-me por vezes não quantificar determinados regressos a conceitos ou temas. É normal e humano. Em repetidas oportunidades observei que não me sentiria à vontade se tivesse de atravessar o Atlântico tendo de executar com insistência as mesmas obras do repertório sacralizado. Essa posição rigorosamente pessoal desvia-me de um desconforto espiritual, de vida e, consequentemente, musical. Ficar sentado longas horas em um avião, sendo durante decênios o repetidor de segmento do repertório constituído pelas grandes criações de excelsos compositores, não me entusiasma particularmente desde os anos 1970. Não que não as admire e que não as tenha tocado. Considerando-se que sempre há público diferenciado, constituído pelas gerações que se sucedem ou mesmo por visitantes de passagem por determinada cidade, parte considerável dos que vão aos concertos estruturada no tradicionalismo, aprecia ouvir o mesmo intérprete a executar as mesmas obras. Isso é fato evidente e que parece se perenizar. Insisto que o público habitual, afeito ao Sistema, aprecia a comparação e “teme” o novo, seja ele paradoxalmente do passado ou da contemporaneidade.

A temática Cósmica, tão presente no recital apresentado no último dia 11 de Abril, inclina-nos a entender que, nesse grão de areia que é a Terra, não desvendar o micro mais micro do Universo existente no repertório amplo e ignoto é preocupante. Se consideramos uma das teorias cósmicas que entende o Universo em Expansão nessa “célula” que é o nosso Planeta, há a mente criativa, partícula da partícula em escala infinitesimal. Como não admirar a ideia, a criação e a concretude de uma obra recém produzida por um compositor, desde que as musas sobrevoem sua mente? Revelá-la é dar-lhe a possibilidade da perenização, se qualitativa. Não havendo essa prerrogativa, o olvido será o destino implacável. Sob outra égide, a obra extraordinária do passado e ignorada poderia ser compreendida como um astro perdido no Universo e que uma lente de telescópio poderosíssimo descobre.

Compete ao intérprete optar. Trata-se de ato voluntário e intransferível. A grande maioria tem preferenciado essa permanência no status quo que tranquiliza mentes, “robotiza” inúmeras execuções, mas também revela aperfeiçoamento para eleitos no melhor dos sentidos. Através do YouTube é possível constatar obras interpretadas por músicos, décadas após uma primeira gravação. Existiria mesmo determinada evolução para conceitos menos exuberantes e bem mais introspectivos. As gravações de extraordinários pianistas do passado,  como Vladimir Horowitz, Wilhem Kempff, Sviatoslav Richter e Claudio Arrau, como exemplos, testemunham, no estertor de suas existências, a síntese conceitual da trajetória esplendorosa de décadas anteriores. Dá-se o mesmo na composição, e a história da música está repleta de compositores que se interiorizam em suas mensagens, caso específico de Franz Liszt que, em suas últimas obras, testemunha a mais absoluta síntese, a não concessão, mas paradoxalmente a abertura de caminhos para os pósteros. Situação similar encontramos em Claude Debussy. “Noël des Enfants qui n’ont plus de Maison” e “`Elegie” são exemplos claros, impensáveis em períodos anteriores da existência.

A apresentação na SBE primou pela mostra em primeira audição no Brasil de duas obras significativas, a “Missa sem Palavras” (cinco Estudos Litúrgicos), de Eurico Carrapatoso, e os “Études Cosmiques”, de François Servenière, estes em primeira mundial. O que entusiasma o velho pianista é saber que, das cerca de 170 obras apresentadas em primeira audição ao longo, muitas correm o mundo através de pianistas de tantas latitudes e longitudes. Estou a me lembrar do notável compositor Aurelio de la Vega (nascido em Cuba em 1925 e cidadão norte americano desde 1966), que, ao ter sua magnífica “Homenagem a Villa-Lobos” de 1987 (CD Music of Tribute, Labor USA) apresentada por mim em primeira audição no mesmo ano, gentilmente enviava-me programas dos Estados Unidos, Extremo Oriente e Europa nos quais a obra era executada e tendo nas notas do programa o nome deste dedicatário. Redigia a mão que aquele que motiva uma criação é partícipe e que, sem essa “cláusula”, o tributo a Villa-Lobos jamais teria deslizado para o papel pautado.

O tempo que se afunila é “infalível e insubornável”, na pena do ilustre escritor e poeta português Guerra Junqueiro. Todo o longo caminho trilhado nessa busca interminável pela qualidade do passado submerso e do presente em constante ebulição é motivo de uma surda sensação de estar a participar desse descobrir tesouros. São tantos que continuam a aguardar o encontro criador-intérprete!!! Enquanto houver sopro, a mente estará atenta a essas preciosidades. Assim espero.

The recital last April 11 led me to reflect upon transoceanic crossings and my imperative need for repertoire renewal.

 

 

Uma Apreciação que Merece Leitura

Para o público,
a arte musical se resume na execução das obras clássicas ou românticas.
O compositor contemporâneo
é pois uma espécie de intruso que quer absolutamente se impor
em uma mesa à qual não foi convidado.
Arthur Honegger (1951)

Reiteradas vezes servi-me de frase antológica de Igor Stravinsky, a supor duas espécies de músicos: o criador e o intérprete. A posição de um dos mais importantes compositores do século XX estabelece um entendimento, quiçá amálgama, que deve existir entre a obra feita e aquela a ser vivificada ou perenizada através da execução.

Tema insistente em tantos blogs anteriores, friso sempre a necessidade de o intérprete estar aberto à cultura como um todo, especialmente às artes e à literatura, não desprezando o cotidiano e todas as suas implicações.

A relação entre compositor e intérprete, aquele, do passado ou do presente, é focalizada de maneira arguta por François Servenière na última mensagem que me enviou. Qual a atitude do executante frente à música de nossos dias? O comprometimento com o exaustivo repetitivo  repertorial não poderia ser decorrência do voluntário desconhecimento da música contemporânea? Compositores do passado não encontraram obstáculos para à divulgação de suas obras por intérpretes coetâneos? Essa atitude não teria sido uma das causas de tantos compositores dos séculos anteriores dedicarem-se à função interpretativa? O distanciamento da maioria dos intérpretes da música contemporânea não estaria relacionado ao foco muitíssimo menos intenso dos holofotes? O rigor do debruçar sobre o repertório da modernidade, que tem de ser idêntico ao dedicado ao tradicional, não afugentaria intérpretes? Temos, ainda, o cerceamento criativo do compositor de música para filmes na atualidade e tantas outras possibilidades que Servenière, como músico e pensador, explana de maneira clara e objetiva.

A apresentação aos 11 de Abril em primeira audição mundial dos “Études Cosmiques” para piano  (7+1) de Servenière  justifica, sob outra égide, a inserção no presente post das oito telas do excepcional artista plástico e designer, o saudoso Luca Vitali.

“Apreciei o comentário de Daniel Barenboim apresentado como epígrafe de seu último blog. Ele coloca em evidência o problema da interpretação contemporânea e o principal desgosto dos compositores relacionado aos intérpretes, ou seja, a não consideração, em nível de igualdade, do trabalho sobre as obras do passado e as do presente. Você sabe perfeitamente que todos os compositores de qualquer época, desde os períodos clássico e romântico, tiveram de sofrer as tempestivas atitudes de seus intérpretes coevos. Seria essa, possivelmente, a razão principal a levá-los ao esgotamento físico, por vezes mortal, por serem eles os intérpretes de suas próprias obras… e para que, enfim, pudessem ouvir suas obras interpretadas da melhor maneira, segundo o que ditava o coração e a aspiração artística. Hoje é praticamente impossível o desempenho das duas carreiras simultaneamente, mercê das exigências precípuas concernentes às duas atividades, composição e interpretação. Aqueles que porventura tentam nem sempre conduzem satisfatoriamente as duas categorias musicais. Em período não muito distante, compositores chegaram a ter suas criações menosprezadas por intérpretes, que as consideravam ‘menores’ frente ao caudaloso repertório tradicional.


O compositor deve fazer face permanente à predisposição deplorável de muitos intérpretes diante de obra nova a ele apresentada. O executante célebre colocará toda sua energia na interpretação de uma obra referencial, porque sua reputação estará em jogo nessa trama que consiste na comparação entre intérpretes quando da execução de uma mesma obra, pois esses outros também tocaram e gravaram obras consagradas. Luta sobre o mesmo terreno concorrencial, pois. A energia colocada nas obras atuais e desconhecidas do grande público é tão mais diminuída ou ‘desonrada’,  graças ao fato de não serem prioridade na carreira dos intérpretes, a menos que a obra se torne referencial e célebre, independentemente de seu nível técnico ou artístico. Assistimos a intérpretes, reconhecidos executantes de obras pianísticas pertencentes à cumeeira qualitativa, apresentarem-se tocando amenidades descartáveis hollywoodianas… É fato corrente como atitude, preconizado pelos agentes com a finalidade de quebrar a barreira ‘público de música clássica/grande público’. Curiosamente, somente nesses momento o virtuose em geral coloca energia ‘transcendental’ nessas superficialidades ‘contemporâneas’ tão intensamente como naquelas obras primas do passado. Uma lástima!

Como você bem explica em tantos de seus blogs anteriores sobre interpretação do virtuose e que serve de parâmetro às atitudes de tantos outros virtuoses: carreirismo, conformismo, modismo. Em geral, enquanto muitos intérpretes adquirem sucesso e brilham em cena, a grande maioria dos compositores sobrevive com dificuldade. Única exceção aos raros ‘vanguardistas’ que vivem exclusivamente de sua arte, o compositor de música para filme, no qual o compositor emerge e, mercê de seu sucesso, domina social e profissionalmente os intérpretes. Todavia, a música de filme é raramente de avant-garde, ela retoma as banalidades que alimentam realizadores raramente afeitos à cultura musical. Adaptam-se esses compositores à cultura nivelada por baixo. É fato notório na profissão. Outro fato digno de registro na composição destinada ao filme é a ausência, tantas vezes, de preocupações criativas.

Não podemos dizer que o compositor de música de filmes escreve uma obra integralmente. Muitas vezes essa obra ‘integral’ fora do filme, salvo raras exceções, é decepcionante, pois levada à sala de concertos mostra-se desprovida de sentido. Trata-se de música de complemento, decorativa, de sustentação narrativa e de ilustração do estado de espírito dos personagens. Muitas vezes impregnada de talento, a partitura destinada ao filme se diferencia substancialmente da obra musical completa, pois, no caso da ‘indústria cinematográfica’, o compositor tem de adaptar-se ao realizador, ao visual, ao público. Os maus hábitos de montagem e de realização em Hollywood e na França incluem em acréscimo músicas pré-existentes, pré-montadas e perfeitamente sincronizadas sobre as imagens. O compositor passa a ser não um criativo, mas um imitador, pois lhe é pedido recopiar de maneira ‘original’ uma música já inserida sobre o filme. Muitos compositores se insurgem contra essa prática nefasta ao gênio musical. Foi-se o tempo da florada durante a idade de ouro do cinema, da rádio e da televisão”. Lembraria um post que publiquei sobre a série Bonanza (vide “Bonanza – um Seriado que Marcou”, 10/12/2010). Encantava-me a música que David Rose (1910-1990) escreveu para a série e sua maestria no trato dos leitmotivs (motivo ou tema que faz lembrar personagens, sentimentos e que retorna idêntico ou modificado). Por vezes David Rose desenvolvia verdadeiros temas com variações extremamente sofisticadas, a depender da índole do capítulo da série.

Prossegue Servenière “Através da mídia mais popular, o compositor que escreve para filmes e para o teatro de variedades terá mais sucesso durante sua vida do que o compositor de música clássica moderna. Friso, aprioristicamente não tenho restrições a estilos e gêneros, pois um compositor bem formado pode abordar todos eles. Leonardo Da Vinci e Michelangelo Buonarroti não são exemplos? Aliás, toda a Renascença estava aberta para a expressão dos gênios pluritalentosos. A atualidade restringe, anatematiza e limita criatividades, tutelando-as sob as égides das tendências ‘progressistas’.

Raros são os intérpretes como você ou outros, como o ilustre Barenboim, que colocam tanta energia na interpretação de uma obra atual ou do passado e que consideram a obra unicamente pelo seu aspecto artístico ou criativo, cegamente, sem se importar com a notoriedade do autor e sim com a simples beleza da arte, sendo este o único critério. Hoje, todo o meio artístico se extasia diante da obra de Van Gogh em nome de critérios soi-disant artísticos (bem retumbantes). Sou mais realista. Todas as celebridades atuais que o elegeram um demiurgo da arte teriam tido certamente desprezo para com sua personalidade de perdedor, fossem eles seus contemporâneos. O mundo não mudou. Despreza-se sempre o perdedor e admira-se tão somente o vencedor, não importando o talento ou a obra envolvida.

Visto de uma perspectiva profissional, daí decorre o desinteresse de intérpretes virtuoses contemporâneos pelas obras de seu tempo. Raros os que apreendem essa perspectiva social e profissional e consideram igualmente a obra antiga e a atual, tornando verdadeiro desafio o conceito de Stravinsky, como você observou em um de seus blogs anteriores, a particularidade única da arte musical separada entre o tempo da criação e aquele da interpretação. Há a necessidade da abertura da mente quanto ao repertório. O primeiro reflexo do intérprete virtuose, antes da leitura de uma partitura, será SEMPRE o de conhecer o nome que se esconde atrás do papel pautado. Desse conhecimento exclusivo decorrerá, salvo exceção, seu interesse pela obra. O intérprete poderá passar um tempo enorme para dominar as dificuldades incríveis de uma partitura referendada pelo público. Porém, não aceitará JAMAIS o mesmo desafio artístico e técnico diante de uma partitura de criador seu contemporâneo e cujo nome não brilhe no panteão da música. É minha experiência, partilhada por muitos colegas compositores. Como dizia um de meus colegas recentemente ou eu mesmo, já não o sei: ‘um bom compositor é um compositor morto’ “. Essa frase traduz bem a visão de muitos intérpretes e do público frente ao compositor “vivo” e seria atribuída ao compositor  francês Arthur Honegger  (1892-1955): ” A primeira qualidade de um compositor é estar morto” (Arthur Honegger. Je suis compositeur. Paris, Conquistador, 1951, p. 16).

Servenière finaliza: “Posso dizer que nos sentimos imensa e eternamente gratos pelo seu empenho em tornar conhecidas nossas obras contemporâneas com o mesmo trato que é dado às obras dos mestres do passado de nossa área musical. Você terá necessidade de carburante psicológico para as apresentações programadas em São Paulo e para a gravação desses ‘Estudos Contemporâneos’ no fim do mês na Bélgica e em primeira audição. Estou, estamos a pensar com energia positiva, como sua família de coração, quase de sangue, artística e musical, naturalmente. (tradução: J.E.M.)

Resuming the subject of last week’s post, I transcribe passages of message from the French composer François Servenière, explaining why, in his view, interpreters, concert goers and sponsors find modern classical music unattractive and idolize composers of bygone days. He also considers the differences between contemporary classical music composers and those who pursue a career as film composers.

 


O Final de um Projeto de Longa Duração

O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência,
mas somente a falta de curiosidade.
Agostinho da Silva

Como intérprete de quatro séculos de música
busco sempre nas partituras as respostas que os compositores defuntos não me podem mais transmitir.
Paradoxalmente, quando trabalho a obra de um compositor ainda vivo,
recorro ao mesmo método de análise
e instauro com a composição o mesmo diálogo interior.
A diferença entre o trabalho sobre uma obra-prima célebre de compositor morto
e aquele sobre obra de um músico contemporâneo
consiste na dificuldade de se adquirir o grau de familiaridade
necessário com a obra nova, enquanto que,
para a aproximação que mantemos com a obra-prima que conhecemos na ponta dos dedos,
torna-se essencial manter o frescor do primeiro contato.
Daniel Barenboim

Ao ser questionado pela dileta amiga, professora Jenny Aisenberg, sobre a sensação que se pode sentir ao verificar que projeto acalentado durante três décadas chega a termo, lembrei-lhe que, no blog anterior, deixei de mencionar o motivo de maior gosto nesse final já anunciado nos primórdios da coletânea de Estudos, em 1985. Que o leitor não me interprete despojado de surdo orgulho. Contudo, o prazer maior deriva da motivação. Convencer um compositor a escrever Estudo, Homenagem ou Peça outra para piano adquire transcendência na medida em que “prenuncia” gestação. A metáfora é pertinente, pois a semente, essa essência essencial que desperta no compositor a ideia, a criação e a obra finda, assim que inserida revolve o limbo, tornando realidade precisa e particularizada parte do acúmulo depositado na mente de um criador. Que maior satisfação pode ter um intérprete ao verificar que, das bem mais de uma centena de composições provocadas – Estudos e outras mais criações -, muitas delas já percorrem o planeta através da interpretação de tantos pianistas do Exterior, tendo, em acréscimo, gravações, algumas referenciais? Ter ajudado a emergir do interior do compositor uma obra, que por vezes nem no seu de profundis constava, essa é a realização primordial do projeto. Provocar. Provoquei. De minha parte, ao executar essas obras, apenas cumpri e cumpro minha função de intérprete, diga-se, aquele que transmite mensagens a outros. Não poucas vezes fiz a comparação – como corredor de rua que sou – do compositor e do intérprete, este preparado para corridas de revezamento, aquele, maratonista, treinado para corridas sem fim, quando sua obra tiver a aura da perenidade.

Não poucas vezes escrevi que raramente me apresento no Brasil. São vários os motivos, entre os quais destaco o fato de jamais ter tido empresário, de me dedicar preferencialmente ao repertório pouco frequentado ou inédito e também pela natural aversão à tendência, bem humana, de estar próximo dos holofotes. Não tenho o menor constrangimento de assim pensar, pois é a realidade, essa tendência existe e traz a paz interior aos seus cultores, mormente na atualidade, onde a busca incessante do brilho pode turvar anseios mais dignificantes. Reinterpretada tantas vezes, a máxima de Buffon (1753), “Le style c’est l’homme même”, não apenas fixaria na origem a obra literária bem escrita, mas também escolhas que  definem o estilo de entender a vida. O mundo continua seu curso sem se importar com preferências individuais. E isso é bom. A escolha pessoal tem seus motivos.

A guarida que encontro em alguns países europeus dá-me a certeza de estar sempre atualizado no que concerne aos meus propósitos e, anualmente, apresentações, cursos e gravações acontecem. Faz-me bem e sempre retorno oxigenado pelo que vi, ouvi e respirei.

O final de um de meus projetos de vida musical, a visão panorâmica do técnico-escritural-pianístico, chega ao fim, após trinta anos de longa gestação. Coloquei no post anterior que o nascimento do projeto, em 1985, teve como desiderato “edificar” uma coletânea a abranger a criação de Estudos, esse gênero abstrato ou não, mas multidirecionado, com o propósito de duração de trinta anos, justamente nas fronteiras dos milênios.

O recital de Estudos, que será oferecido no próximo dia 11 de Abril no auditório da Sociedade Brasileira de Eubiose, expõe com muita nitidez tendências rigorosamente distintas sob o aspecto composicional e da técnica pianística. No final do mês estarei a gravá-los na minha tebaida, a capela Sint-Hilarius em Mullem, perdida na planura da Bélgica flamenga. É lá que meu de profundis se amalgama com as pedras que sustentam o Templo datado do século XI. É lá que minha alma encontra a tranquilidade para o registro fonográfico sob a tutela de um dos mais experientes engenheiros de som do planeta, Johan Kennivé.

Não poucas vezes o compositor contemporâneo agrega à composição sua visão sobre a obra recém-criada. Há inclusive exceções, quando esses comentários excedem, e muito, a dimensão da obra e se tornam verdadeiros ensaios. A percepção inovadora de uma composição, a técnica empregada, aspectos sócio-musicais podem, inclusive, estimular o autor nessa direção literária, estimulando e orientando o intérprete. O convívio com um compositor e o auscultar  “seu pensar” é uma das mais raras oportunidades que o intérprete pode ter.

O blog desta semana segue o roteiro do programa a ser apresentado.

Ao convidar o notável compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ) a escrever um Estudo para a coletânea, fui surpreendido pela “Missa sem Palavras – Cinco Estudos Litúrgicos”. Carrapatoso, nessa obra dividida em cinco partes que constituem a Missa, lega-nos uma obra de profunda meditação, a expor um domínio absoluto da trama polifônica. O texto em latim da Missa lá está na partitura, a corroborar, inclusive, a justeza da acentuação prosódia-música. Extraio segmento do texto de Eurico Carrapatoso que antecede a partitura: “Nesta peça, o conceito de Estudo está longe da asserção convencional do termo, tantas vezes associada à extroversão do elemento virtuosístico ou à exploração de determinados domínios técnicos de um dado instrumento. Trata-se, antes, de uma viagem pelo mundo interior, introspectiva, ao sabor das inflexões produzidas pela leitura de um texto expresso na partitura. Este texto sacro refulge no fragor bronzino do latim. Escrito na partitura, faz dela parte intrínseca. Mas não será verbalizado, no sopro da voz. Está lá para dele ser feita uma leitura íntima, secreta. O intérprete cantará os mistérios do texto canônico através dos seus dedos e não da sua voz. Os dedos serão como os de Pepino, o Breve, rei dos franceses: taumatúrgicos, operando prodígios pelo toque. Penso, por isso, que estão reunidas as condições para se lhe poder chamar Estudos, não tanto pelo desafio técnico, que sempre esteve, aliás, muito longe de ser minha intenção, mas pelo desafio místico, dado todo o universo metalinguístico que lhe subjaz” (Lisboa, 22 de Fevereiro de 2012).

Conheci Gheorghi Arnaoudov (1957- ) após meu recital em Sófia, na Bulgária, em 1996. Encontros posteriores fizeram-me compreender que estava diante de um músico da maior competência. Compositor, interessa-se por todos os caminhos da música, da Grécia Antiga ao presente. Tínhamos temas fulcrais em comum, como Rameau, Debussy e Scriabine, que compunham o programa de meu recital e, coincidentemente, de seu universo interior. Ao longo do tempo conheci suas preciosas contribuições literárias em torno da estética moderna e pós-moderna, da semiótica e da música contemporânea. Na capital búlgara, em casa de nossa amiga comum, a pianista Angela Tosheva, conheci suas composições. Convidei-o a participar do projeto, e “Et Iterum Venturus”, de 1997, é um exemplo magnífico de sua produção. Curiosamente, “Et Iterum Venturus” (e de novo há de vir) pertence ao Credo da Missa em latim e “silenciosamente” está expresso no Credo da “Missa sem Palavras” de Carrapatoso. Em torno de poucos acordes, Arnaoudov cria um universo timbrístico extraordinário e notas som, rítmica exuberante, emprego de quintas e quartas, contrastes violentíssimos de acentuações e utilização “científica” da pedalização dimensionam essa obra singular, que enriqueceu sobremaneira a coletânea de Estudos.

Em blogs bem anteriores abordei a intensa amizade compartilhada por três amigos: o saudoso artista plástico e designer Luca Vitali (1940-2013), o compositor e pensador francês François Servenière e eu. Poucos meses antes da morte de Luca, as sete telas que compõem a magnífica “Série Cósmica” – acrílico sobre tela – causariam impacto definitivo em Servenière, daí terem germinado os “Sept Études Cosmiques”. A morte repentina do amigo pintor, dois dias após a criação do “Automne Cosmique”, estabeleceria para a série de Estudos, 7 + 1. Servenière e eu ficamos profundamente abalados. Luca Vitali dedicou sua oitava tela ao compositor. O Estudo “Automne Cosmique” in memoriam Luca Vitali foi escrito sob forte emoção logo a seguir.

Servenière comenta, como introdução à magnífica coleção de Estudos: “Em Julho de 2012, José Eduardo, maravilhado diante da fabulosa série de pinturas cósmicas de Luca Vitali, escreve-me: ‘Conversei com Magnus e este repentinamente me questiona sobre a possibilidade de Servenière incursionar nessa série cósmica extraordinária, espaço do universo onde a corrupção inexiste. O piano, o piano, meus dedos sempre à busca de novos horizontes, no caso, o mistério do Universo. Provocação? Talvez. A genialidade do amigo também não pode ser mensurável e compreenderá minha mensagem. Grande François!!! O Universo é infinito e o tempo não conta!!! As ideias, como as vinhas, amadurecem na lentidão…’ “. Servenière prossegue, a abordar a técnica de escritura e simbolismo: “A utilização da escritura ternária sobre a cifras 3,6,9,12 será o principal vetor para evocar a teoria dos ciclos, fenômeno central de rotação nos sistemas celestes. O ambiente e a cor sonora dos Études Cosmiques apreendidos nessa acústica ou dimensão espacial – ou aquática -, como se os sons fossem lançados sem retorno no Universo…”. Os Sete “Études Cosmiques + Automne Cosmique” terão primeira apresentação mundial neste 11 de Abril. Data a não ser esquecida em futuros catálogos.

Gilberto Mendes (1922-  ) escreve a respeito do Estudo a ser apresentado: “Considero ‘Um Estudo? Eisler e Webern Caminham nos Mares do Sul’ uma de minhas peças mais originais destes últimos tempos, dentro da tentativa de uma nova textura, de uma nova linguagem musical pianística. Em ‘Um Estudo?…’, Eisler e Webern deixam um rastro harmônico na areia de uma praia nos mares do Sul, suas pegadas em notas iguais que se sucedem, desenhando uma melodia sempre em frente, algumas vezes transpondo pequenos acordes/obstáculos, num desfilar de muitas, muitas e diferentes frases musicais; ‘equalizadas’ como se fossem todas uma só, sem conexões, sem pontos perceptíveis de ligação, ‘road to Singapura, Manakoora, Burma’, as imagens de Bing Crosby, Dorothy Lamour e Bob Hope evocadas na ressonância de toda uma caminhada… Ressonância em que encontramos os sons de Eisler e Webern reconciliados numa identificação dos universos tonal e atonal, de que os dois compositores foram os porta-vozes mais representativos na música germânica de nosso século. Na verdade, a peça é uma sínteses de minha própria tentativa de reconciliação desses dois universos sonoros” (Gilberto Mendes. “Uma Odisséia Musical”. São Paulo, Giordanus/EDUSP, 1992, págs. 211-212).

Para o “Étude V Die Reihe Courante”, o compositor português Jorge Peixinho escreveu, a meu pedido, um magnífico ensaio, no qual afirma: ” OEstudo V Die Reihe-Courante’ herda qualquer coisa de obras minhas anteriores e deixa traços em obras posteriores. Como qualquer Estudo que se preze, e tomando como referência histórica os exemplos magistrais de Chopin, Liszt ou Debussy, uma peça com este título deve conter dois vectores fundamentais, a saber: ser um ‘estudo’, simultaneamente de execução para o instrumento respectivo (neste e naqueles casos, o piano) e, para o compositor, igualmente, como laboratório de novas experiências e dilatação dos seus limites técnico-expressivos… Trata-se de um estudo sobre uma visão da série como objeto e sujeito, uma perspectiva abrangente, que compreende tanto a concepção schönberguiana da série-tema como a concepção weberniana da série, enquanto princípio estrutural e estruturante, ordenador e motor da organização da obra”. Ao leitor não familiarizado com o termo Die Reihe (a série), diria que o serialismo é uma técnica de composição baseada numa sucessão pré-estabelecida de sons denominada série. Foi Arnold Schönberg (1874-1951) que sistematizou o processo através do emprego de doze sons, dodecafonismo. O Estudo de Jorge Peixinho amplia o conceito “a série dodecafônica é exposta logo de início, num segmento que compreende, para além dos doze sons, uma sequência de outros vinte”. Após análise pormenorizada do processo e indicações precisas quanto à interpretação, conclui o compositor: “O Étude Die Reihe-Courante fecha e abre simultaneamente velhas e novas etapas, criando uma ponte entre duas margens de um rio; um rio sempre vivo e em movimento, uma corrente ininterrupta em direcção a um novo infinito, metáfora da impossível utopia da perfeição e da liberdade criadora” (Jorge Peixinho. Introdução a um estudo sobre o Estudo V. Die Reihe-Courante – para piano. In: Jorge Peixinho in Memoriam, organização de José Machado. Lisboa, Caminho, 2002, pgs. 203-222).

Finalizando o programa, apresentarei “Vers la Flamme”, de Alexander Scriabine (1872-1915). Um dos meus compositores eleitos, o compositor russo nessa obra maiúscula de 1912, estabelece a ponte em direção à atemporalidade. Hoje, “Vers la Flamme” é atualíssima e serve como exemplo antecipado da criação contemporânea. Estaremos a prestar justa homenagem a Alexandre Scriabine no ano do centenário de sua morte.

This week’s post addresses the programme of my recital to be held on 11 April in São Paulo with works by  Eurico Carrapatoso, Gheorghi Arnaoudov, François Servenière, Gilberto Mendes, Jorge Peixinho and Alexandre Scriabine. It includes precious comments written by the composers themselves – with the exception of Scriabine – on their newly created etudes, useful to inspire and guide interpreters.