A Pianista Zhu Xiao-Mei e os Segredos Desvelados

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Meus relacionamento com as pessoas eram puramente
animais, automáticos, maquinais…
Sim, eram de alguma maneira histórias de animais !
Que me compreendam hoje,
pois não me é mais possível contar todo o meu passado filosoficamente,
olhando do alto, com serenidade,
os bons velhos tempos de horror e de absurdos.
Agradeço ao céu ter-me tirado do inferno,
como se fosse o desenho indecifrável da Providência.

György Cziffra

Trabalha-se a argila para se fazer vasos,
mas é do vazio de seu interior
que depende o seu uso.

Lao-Tzé

Quantos não foram os artistas, escritores, intelectuais que viveram as situações as mais dramáticas em campos de concentração ou de “reeducação”. Os regimes dirigidos por títeres não têm clemência, e no intuito de sedimentar ideias totalitárias, tantas vezes proclamadas democráticas, impõem aos cidadãos as maiores agruras. Alexander Soljenítsin (1918-2008) denunciaria as repressões em campos de prisioneiros soviéticos, e o conjunto de sua obra, incluindo-se o Arquipélago Gulag, render-lhe-ia o Prêmio Nobel. Wladyslaw Spilman (1911-2000) escreveria a narrativa Morte de uma Cidade, décadas após reeditada com o título O Pianista. Conta a sua história nos guetos de Varsóvia durante a Segunda Grande Guerra e o seu instinto de sobrevivência. Roman Polansky dirigiria o premiado filme O Pianista a partir do dramático relato. György Cziffra (1921-1994), telúrico e extraordinário pianista húngaro conheceria durante longo período as maiores adversidades e o contato permanente com a morte em campos de prisioneiros nazistas e comunistas, relatando-os em livro (Des Canons et des Fleurs. Paris, Robert Laffont, 1977, 291 págs.). Lilly Krauss, notável pianista austríaca sofreria em campo de concentração nazista. O bailarino Li Cunxin narra também sua história plena de tribulações em Adeus, China – O Último Bailarino de Mao (Brasil, Fundamento, 2007, 400 págs.). Há uma tendência mórbida dos senhores da guerra nessa perseguição às artes, à liberdade de expressão, ao livre pensamento, às comunicações independentes, às ciências ou, paradoxalmente, ao incentivo ao desempenho excepcional de alguns como forma de propaganda política. Assim aconteceu no Terceiro Reich, na União Soviética, na China e em Cuba não apenas para intérpretes e bailarinos de exceção, como para atletas fantásticos. Entretanto nem todos tiveram a mesma sorte e sucumbiram aos horrores, como os músicos levados pelos nazistas ao campo de Terezin, ou os milhões deportados para a Sibéria, ou ainda aqueles destinados ao terrível paredón. Ditadores e seus acólitos estão sempre à espreita. Aguardam apenas a oportunidade. E, hélas, periodicamente ela reaparece. Todo um rancor que parecia extinto ressurge e cidadãos aparentemente normais tornam-se ferozes, a serviço dos títeres. Vítimas da Revolução Cultural na China de Mao Tsé-Tung pouco a pouco vão tendo a coragem de expor sofrimentos incomensuráveis.
Zhu Xiao-Mei é pianista chinesa. Há excepcionalidades em vários aspectos. Escreveu sua saga que vem somar às precedentes mencionadas (La Rivière et son secret. Paris, Robert Laffont, 2007, 330 págs.). Nascida em 1949, pertencia à família considerada de “má origem”, pois burguesa letrada. Já na infância, devido aos infortúnios provocados pelo regime comunista de Mao Tsé-Tung, sua família sofreria dificuldades. Pianista precoce, tem lá seus sucessos quando a estudar no Conservatório de Pequin. Aos 14 anos, já possui base sólida, mas uma brincadeira juvenil leva-a a júri coletivo. Vivia-se o período da terrível Revolução Cultural. As denúncias, estimuladas pelo regime, não perdoavam aqueles que se desviassem do Livro Vermelho de Mao, única leitura possível. Lavagem cerebral provoca uma sua carta em que se arrepende de ser indigna frente a Mao, traidora da Revolução, a entender serem seus pais de “má origem”. Zhu tinha apenas 14 anos! Incorpora a ideologia maoísta e torna-se, sempre temerosa, uma jovem revolucionária. Tem crises não reveladas publicamente, pois entendia que tudo teria de ser feito a seguir preceitos para que a Revolução Cultural vingasse, mas dúvidas quanto aos procedimentos a deixavam perturbada. Assiste a seus mestres – alguns deles idosos – serem humilhados e surrados no pátio do Conservatório pelos jovens da Guarda Vermelha. Entende, nesse turbilhão de incertezas e confusões interiores, que excessos estavam a ser perpetrados. Acusados de terem propagado a música ocidental, de J.S. Bach aos mais modernos, professores perderiam tudo e seriam desterrados para campos de reeducação. Outros suicidaram-se nesse período de desvario absoluto. Todas as partituras do Conservatório foram queimadas, pois traduziam a cultura ocidental decadente e, portanto, distante da classe proletária. Lembrar-se-ia “das execuções sumárias, dos cadáveres sobrepostos no anexo do Conservatório”. Com coragem, Zhu Xiao-Mei observa que houve longo tempo em que acreditou na Revolução, tão grande a pressão exercida. Encaminhada para campos de reeducação, permanece cerca de dez anos longe da família – dispersa em outros campos -, da prática da música e a passar as maiores agruras e humilhações, ainda a acreditar na Revolução. Colegas e outros estudantes partilharam momentos difíceis, onde não faltavam a denúncia coletiva diária e a leitura do Livro Vermelho de Mao, atividades realizadas após dura labuta nos campos agrícolas, quando imundos e fragilizados. Só após essas terríveis sessões o infortunado tinha direito à parca alimentação e à mínima higiene pessoal. E, numa declaração de amor à música, escreve “A Revolução Cultural estava a fim de nos tirar todo o sentido de humanidade e isso não foi possível. No fundo de nós mesmos existia um lampejo de humanidade, esse que os regimes totalitários que subestimam as potencialidades do homem, esquecem sempre, infelizmente para eles. É esse lampejo que a música trouxe de volta”. Comentaria: “Mao percebeu o poder da arte e principalmente da música sobre o povo. Ele sabia que os artistas eram perigosos, questionando sempre o real, querendo sempre mais liberdades. Esse o motivo para os atacar, a razão pela qual deixava sua esposa se apropriar da arte através de seus Yanbangxi. Na verdade, Mao considerava o saber em geral como perigoso: seu obscurantismo organizado, sistemático, extremista é testemunho.”
As vicissitudes sofridas pela pianista levaram-na a vários traumas que a acompanham. No último período em campo de reeducação conseguiu “burlar” incultos guardas e recebeu de sua mãe o seu velho piano da infância. Cordas quebradas eram substituídas por arames e J.S.Bach, Beethoven e outros, no dizer de Xiao-Mei, eram ouvidos pelas autoridades como se fossem música chinesa revolucionária. A ignorância deles, para resignado prazer da pianista, resultaria na possibilidade de estudar. Reiteradas vezes menciona a indecisão e a dúvida como integrantes de seu pensar. Ao sair da China para os Estados Unidos, depois de enormes tribulações, certezas em relação à música antagonizavam-se às dúvidas quanto à sobrevivência. Nesse país trabalhou como doméstica, faxineira em restaurante e mais outras atividades, a habitar em tantas casas de imigrantes que a acolhiam. A fim de obter o green card, casa-se por conveniência. Estuda em Boston, mas seu instinto leva-a a Paris. Obteria mais tarde, após difíceis tramitações, o passaporte francês. Hoje é reconhecida internacionalmente como pianista e professora do Conservatório Superior de Música e Dança de Paris. Seus pais e suas irmãs estão sempre em sua mente, nesses constantes deslocamentos. Retornaria à China mais de uma vez, mas com as salvaguardas da diplomacia internacional.
Quantos não são os momentos em que sente insegurança frente à vida prática? Num outro contexto, em muitas oportunidades comenta com ênfase que apenas a música livrou-a do naufrágio absoluto. O livro tem como epicentro repertorial as Variações Goldberg de J.S. Bach. A grande revelação. No entender de Zhu Xiao-Mei, trata-se da maior criação para teclado. Percorre o mundo a interpretá-la, entre tantas obras do repertório consagrado. Tão grande a empatia da artista frente à monumental composição, que se torna dignificante lê-la descrever emocionalmente da Ária às variações. Pormenoriza-se na última, Quodlibet e na reprise da Ária, quando Bach finaliza a obra. Dir-se-ia que Xiao-Mei percorre seu próprio caminho ideal, sem máculas ao descrever as Goldberg-Variationen. No Youtube-vídeos pode-se ouvir a grande criação do Kantor interpretada pela pianista chinesa. A partir da Ária, apresentada de maneira singular, pois imbuída da maior reflexão, capta-se parcela da profunda identidade de Zhu Xiao-Mei com as Goldberg… e com a vida. O gestual da pianista é econômico. Observa, a partir de conto chinês a respeito de um pintor e sua obra, a fim de exemplificar a inocuidade do gesto exagerado ao interpretar uma composição: “…ele pintou sobre o solo uma serpente de um realismo tal que o réptil parecia vivo. Uma pessoa ao passar pela rua, pisou na pintura e começou a gritar: ‘fui picado pela cobra!’ Os transeuntes se aproximaram para ver o que acontecera. Todos também pisaram exclamando: ‘Jamais vimos uma serpente tão bem pintada’! Logo, o povo conheceu a criação do artista. A fim de torná-la mais bela, o pintor colocou patas na cobra, mas ao perceberem a serpente assim configurada, os cidadãos disseram: ‘Que animal ridículo’! E o pintor caiu no esquecimento”. Em outra imagem significativa, a sugerir a introspecção frente à composição: “Para se ver o fundo de um lago, é necessário que a superfície da água esteja lisa e calma. Mais ela é tranquila, mais transparente é o fundo”.
A leitura de La Rivière et ses Secrets, ao revelar a perene insatistação da artista frente à perfeição e ao gestual inócuo refletido pelos holofotes, vem apresentar a essência essencial do que deveria ser entendido por interpretação sincera. Escreve: “Sinto-me incapaz de atingir a perfeição que eu sonho. Como tantos outros intérpretes, estou impregnada por essa impotência. Como Richter, que no final da vida diria ‘Eu não me amo’. A sabedoria seria certamente reconhecer que a perfeição não existe. Os chineses entendem bem esse axioma, quando introduzem um defeito num bordado ou na caligrafia, considerando que o defeito tornará a obra mais bela ainda. Os iranianos fazem o mesmo em seus tapetes para testemunharem que apenas Deus é perfeito”.
Zhu Xiao-Mei lega-nos um testemunho de fidelidade à música, sem jamais traí-la. Seu livro merece ser lido. O conteúdo de La Rivière et son Secret faz melhor compreender a força criativa da artista, a lutar no desespero, mas na confiança, contra a bestialidade humana. A obra foi traduzida para o português: O Rio e o seu Segredo (Guerra & Paz).

In this post I give my view of the book “La Rivière et Son Secret”, the amazing and true story of the Chinese pianist Zhu Xiao-Mei. We follow her as a young girl in China, her efforts to go on with her piano practice during the Cultural Revolution, the years in a working camp. In 1979 she managed to leave China for the US and today lives in Paris. Now internationally acclaimed, she is an example of a strong female character who never gave up her dream.

Lembranças e Interpretações

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Foi uma alegria nostálgica, mas intensa, ter recebido inúmeros e-mails de leitores que ou estiveram a se lembrar de leituras das enciclopédias da adolescência-juventude ou teceram observações consistentes (vide O “Thesouro da Juventude, 17/10/09). Torna-se difícil, no espaço proposto, contemplar todas as mensagens recebidas, daí ter selecionado algumas que estabelecem a ligação com uma coletânea que marcou gerações. Com os frequentadores de meu blog semanal, partilho algumas dessas opiniões.

“Maravilhamento foi também a leitura do seu último texto ‘O Thesouro da Juventude’ ! O breve poema do nosso saudoso Eugénio de Andrade, que preludia o texto, diz-nos tudo sobre a preciosidade dos livros. Feliz todo o ser humano que tem acesso a eles sobretudo, a começar na infância, porque eles são, na realidade, os nossos mais fiéis companheiros. Mas há livros e livros. Há os belíssimos, transparentes, sábios, cheios de Harmonia, sempre prontos para nos transmitir a beleza, as coisas práticas da vida, mas também os seus mistérios. Claro que são estes que nos ajudam a crescer de forma equilibrada. Foi assim ‘O Thesouro da Juventude’ (18 volumes !) que iluminou a sua adolescência e o ajudou a formar um tão forte carácter! Hoje há milhares de enciclopédias disto e daquilo para crianças e jovens. Mas há sempre uma lacuna que os livros da nossa adolescência não tinham – a questão da formação humanística, a formação moral dos jovens era uma preocupação constante que estava presente na literatura que nos era dirigida. Hoje confunde-se moral com religião. Ao mesmo tempo que se foi perdendo o sentido do sagrado, as sociedades contemporâneas também se esvaziaram de valores morais imprescindíveis para nos respeitarmos e amarmos uns aos outros. No meio desta selva, continua a haver, felizmente, muitos pais que sabem educar os filhos….”
(Idalete Giga – Portugal)

“Também tive o meu Tesouro da Juventude, ainda que certamente o tenha lido de um modo diferente do seu. Outros tempos, é verdade, as fontes já eram mais variadas também”.
(Mônica Sette Lopes)

Tomo IX, pág. 2837. Clique para ampliar.

“Não tive o privilégio de ganhar, como você, uma coleção de O Tesouro da Juventude. A dádiva veio de outra forma: a meninice e a puberdade passei-as nas plagas então recolhidas do seminário de São Roque, desimpedido de preocupações outras que não a da prece, diversão e estudo. A prece extinguiu-se, a diversão desvaneceu-se, o estudo arrefeceu, mas entre as poucas lembranças desse período restou justamente a dos volumes do Tesouro, carregados de histórias, poemas e ilustrações. Foi neles que fiz as primeiras descobertas do mundo da fantasia e onde se abriu a aventura que ainda hoje me dá alento: a leitura… Há alguns anos eles me foram de extrema solicitude. Queria reencontrar um poema que naquele feliz período me encantara, mas não havia meio de lembrar o nome do autor; as pessoas consultadas, embora conhecedoras do poema, também não se recordavam de quem o compusera. Veio-me à lembrança o Tesouro, fui a ele no acervo da biblioteca da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes (hoje em Campinas), e lá estava o poema:

História de um cão

Luiz Guimarães Junior

‘Eu tive um cão. Chamava-se Veludo.
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
para dizer numa palavra tudo,
foi o mais feio cão que houve no mundo.

Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo,
não me queria acompanhar por nada.
Enfim – mau grado seu – o vim trazendo’.
[…]

Pena seja longo demais reproduzi-lo agora. Mas fica o registro e a menção de que Guerra Junqueiro também rimou essa mesma história, que intitulou Fiel e que em seus versos começa assim:

Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,
havia o que quer que fosse
d’intimo desgosto:
era um cão ordinário, um pobre cão vadio,
que tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
percorria de noite os bairros da miséria
à busca d’um jantar.
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
o velho cão uivava uma canção funérea,
triste como a tristeza ossiânica do mar.”

(Cláudio Giordano)

Tomo XIII, pág. 4009. Clique para ampliar.

“Você falando do Thesouro da Juventude! Ainda não li seu blog, mas só de mencionar o nome daquele tesouro voltei atrás e ainda estou vendo os volumes encadernados em azul claro, lembro-me de mamãe lendo uma história antes de eu dormir e de chorar longamente por que achei a história triste e de mamãe dizer que se era para eu chorar com as histórias, ela não leria mais para mim. Era qualquer coisa com a história de um pinheirinho. Enfim, nós adorávamos essa coleção. Obrigada por me fazer lembrar de um tempo tão feliz, pois estou revendo aquelas páginas grossas, brilhantes, as ilustrações. Enfim, uma parte de mim que se foi, mas que continua presente”.
(Maria Helena Etzel)

“Também nós tivemos em casa a coleção toda do Thesouro da Juventude, realmente um tesouro e me marcou muito. Lembro-me de que a nossa ainda era com a ortografia antiga, do tempo de PH e do Brazil com Z. Por falar nisso, por quantas reformas ortográficas passamos, não? Pensar que a ortografia de língua francesa data do século XVI…”
(Maria Cecília Naclério Homem)

“Minha relação com os volumes sempre foi muito respeitosa, porque nos anos 50 e 60 não tínhamos acesso à estante de livros, como as crianças têm atualmente, mesmo sendo esta em casa. Essa forma de agir deixava em nós um vínculo de respeito pelo livro, principalmente o encadernado, de capa dura e de coleção. Todas as vezes que manipulávamos o livro era com grande cuidado e por uma boa causa: a nossa educação formal. Essa pequena biblioteca que tínhamos nos proporcionou (a mim e mais três irmãos) momentos agradáveis com amigos se agrupando, em nossa casa, para fazermos as pesquisas de trabalhos escolares.
Essas foram as formas que permearam a minha relação com o Tesouro da Juventude, que juntamente com a Barsa, coleções de arte, de prêmios Nobel de Literatura, e muitos outros livros encantaram minha infância, minha juventude e agora a minha saudade.”
(Eliana Bento)

“Li seu blog sobre o ‘Thesouro da Juventude’. Esplêndido.
Em nossa meninice, em que não havia televisão ou internet, era a bíblia dos jovens. Li-o quase por inteiro.
Alegra-me que você tenha relembrado aqueles tempos, em que todos criávamos o próprio mundo a partir da leitura e não o recebíamos ‘enlatado’ nos programas montados pelos novos técnicos de comunicação. E o mundo de nossa imaginação era muito mais ambicioso do que aquele que a atualidade cria.”
(Ives Gandra Martins)

Interpretação de uma Charge

A Justiça. Charge de Luca Vitali. Setembro 2009. Clique para ampliar.

Se o acaso te fizer conhecer três homens das ruas,
certamente eles terão algo a te ensinar.

Confúcio

Luca Vitali é ouvinte paciente. Quando entendo determinado tema do interesse do amigo, comunicamo-nos e vamos ao Natural da Terra tomar um curto. Leio pausadamente o post da semana. Luca, atento, pensa por vezes em imagens e a criação vem, sem eu nada pedir, via e-mail. É uma alegria ter seus desenhos a ilustrar meus textos.
Desta vez, deu-se o contrário. Instigado por outro apelo, sugestão de uma nossa amiga virtual para possível ilustração de um livro, realizou um desenho daquilo que ele entende por Justiça. Vi seus traços firmes e disse-lhe apenas que se tratava de forte e irreverente interpretação. Poderia pensar num futuro post? Achou graça e concordou, pois generosidade faz parte de seu cotidiano. São tantos os deficientes físicos que se realizaram a partir de seus ensinamentos artísticos ! Tema futuro, sem dúvida.
Várias corridas pelas ruas levaram-me a pensar. O desenho não saía de minha mente. Escrevia posts após reflexões, mas a charge de Luca continuava acesa em meus pensamentos. Traduzia aquilo que também passei a aceitar como integrante de surdo clamor existente no cidadão comum, longe das pesquisas, tantas vezes comprovadamente falhas. Sob aspecto outro, refletiria o desenho uma quimera, pois o acesso à Justiça mostra-se para o homem do povo, aquele dos transportes coletivos abarrotados, das longas jornadas de trabalho, da ausência de assistência médica, da absoluta impossibilidade de ter segurança, uma lâmpada apagada num túnel sem fim. Comprovadamente sabe esse cidadão que transita pela cidade que, se cometer algum delito, ou buscar reivindicar direitos, terá não apenas imensas dificuldades para inteirar-se das tramitações pertinentes, como estará à mercê de advogados, nem sempre com méritos, e sem o prestígio de alguns luminares que conseguem, através de argumentações mais embasadas ou da aura imbatível, defesas sustentáveis para casos complexos.
Nos dias que se seguiram ao curto com Luca, indaguei a várias pessoas se acreditavam na Justiça brasileira. Diria que, de vinte e tantos questionamentos para uma classe média a obedecer nuances, a resposta veio sempre instantânea, o não sem titubeio. Apenas uma exceção, um a se dizer advogado que se limitou a sorrir ironicamente. O mais contundente entre os negativistas, rosto entre milhões d’outros, disse que o santo caíra do altar. Quis saber o que queria dizer. Respondeu-me que meses atrás assistira pela televisão a uma sessão do Supremo Tribunal Federal. Houve discussão de tão baixo nível entre ilustres Ministros da Suprema Corte que sentiu vergonha. Um filho seu que se preparava para vestibular de Direito, ao ver a cena disse ao pai que estava a desistir naquele instante e que buscaria outra opção. Perguntei-lhe se realmente desistira. Com sorriso que transparecia resignação, retrucou “Ele e eu. Fará Economia e eu desisti de acreditar na Justiça que chega a esse nível em nosso país”. Emudeci. Mais do que o lamentável episódio ocorrido entre dois respeitados representantes de nossa Corte Suprema, calou-me o fato de que possível vocação de um jovem lhano – a tudo indicar pela atitude – tenha sucumbido ao vislumbre de um destempero. Decisão sem retorno, pois a partir de exemplo extremo. Mais ainda apreendi a mensagem de meu dileto amigo desenhista e pintor.
Luca teria captado algo patétito. Compreendeu, como artista, a realidade que parece ser sedimentada, sem condições de melhora. Creio que a mídia, a denunciar tantos escândalos quase que todos os dias, sem a menor possibilidade de resultados que incriminem culpados, tenha propiciado àqueles com o mínimo de esclarecimento o descrédito pelo nosso Poder Judiciário. Escândalos do Congresso Nacional e crimes de toda ordem, amplamente divulgados, repercutem em todo o país, sem punições para as figuras conhecidas envolvidas. Se elas acontecem, são quase sempre tênues, ou a paliativa prisão domiciliar. Ratificam para o homem que transita pelas ruas a desconfiança e o desalento. A impunidade proclamada pelos meios de comunicação mostra-se acentuada para aqueles que têm recursos para pagar honorários a causídicos renomados e convincentes. Fiquei entristecido com o resultado da minha simples pergunta. E nossas doutas cortes, em todas as instâncias, têm muitos dos mais brilhantes cérebros jurídicos do país, que lá chegaram através de méritos, seja por difíceis concursos, ou indicações políticas a partir de serviços prestados ao país.
Numa outra visão, aquela de um pobre sentenciado que conheci em Prados, Minas Gerais, está a apontar a absoluta diferença quanto aos julgamentos. Participei, entre os anos 80-90, de alguns Festivais de Música nessa pequena e bonita cidade, perto de Tiradentes. Ao lado da casa onde fiquei hospedado há a prisão e um só preso ocupava a cela. Conheci-o, pois durante o dia deixavam-no lavar um ou outro carro, e o sentenciado angariava alguns trocados. Moradores diziam que o rapaz, realmente bem simples, tinha boa índole, daí esse afrouxamento durante algumas horas. Quando em um bar bem típico, onde fui tomar café requentado, perguntei a um pradense qual a causa da punição e qual a pena a ele infringida, recebi como respostas: “roubou um saco de batatas e foi condenado a cinco anos de reclusão”.
A ilustração de Luca Vitali alusiva à Justiça, uma charge a considerar diversos aspectos por ele interpretados em traços que fazem parte de seu idiomático, traduz muito do que se ouve nas ruas a respeito do Poder Judiciário. Luca auscultou-se. Esse ouvir interior não seriam seus acúmulos silenciosos frente ao que todo cidadão também ouve, lê e vê diariamente?
A Justiça é representada com venda nos olhos em estátua grega. Essa venda teria origem no século XVI e representaria a isenção necessária nos julgamentos. Simboliza a Justiça “cega”, sem mácula, imparcial. Contudo, venda nos olhos pode pressupor sua retirada, o que tornaria injusto qualquer juízo, pois doravante a pender para uma das partes. A interpretação da charge de Luca mostra-se transparente. Ele idealizou a Justiça realmente cega e a sua balança só teria um prato para aferição e a suportar um Código, daí ter utilizado velho medidor tão comum nas feiras de antigamente. Sequer pensou na balança de dois pratos, equilibrada, isenta. Cego tem geralmente a guiá-lo cão fiel, mas Luca preferiu pensar numa raposa também sem a visão como guia e um gato como “observador”. A cegueira conduzida pelo estranho instinto da raposa. A espada a simbolizar o poder da Justiça, que sem bainha pressupõe a presteza decisória na tradicional representação, estaria substituída pelo guia, a manter junto a si a raposa. Notório entender que o preceito latino suum cuique tribuere (dar a cada um o que é seu) estaria a sofrer tendências tergiversantes.
Os Poderes Executivo e Legislativo têm dado exemplos não dignificantes, mercê em parte da enorme diversidade de formação de seus integrantes eleitos pelo povo. Alguns bons governantes existem, assim como bons legisladores. Há quantidade deles que servem aos Municípios, Estados, União. Porém, quantos não são aqueles que, a exemplo das ervas daninhas, têm permanentemente escândalos divulgados? Tendem a macular nossas Instituições e, entre elas, o Poder Judiciário. Salvaguarda fundamental deste país, graças, inclusive às biografias de seus membros, o Poder Judiciário deveria, sine qua non, ser o baluarte da credibilidade para o cidadão. É o descrédito pela Justiça, assinalado nesse minúsculo questionamento que realizei, motivo de preocupação? É-o, na necessidade absoluta e imprescindível do respeito que todos nós deveríamos ter pelo Poder Judiciário em sua abrangência, a reforçar, inclusive, a auto-estima do brasileiro. Não podemos, sob qualquer pretexto, perder a confiança na Justiça, mas ela tem de apresentar resultados que levem o cidadão a acreditar.
Certamente, o polêmico desenho de Luca Vitali tenderá a suscitar as mais variadas interpretações em todas as direções. A charge do amigo tem a força expressiva e criativa do artista e seus mistérios insondáveis. Por mais que haja objetividade na ilustração, um conteúdo oculto está por trás. Não seria a forte diminuição da credibilidade de nossa Justiça junto ao cidadão comum fato para a mídia dimensionar, o povo criticar, o artista idealizar, e eu abordar neste post? Houvesse a total imparcialidade a considerar o preceito constitucional de que todos deveriam ser iguais perante a lei, existisse a presteza nos julgamentos, e certamente a charge poderia ser outra e o presente post não teria razão de ser escrito. Arte, Luca a tem nas veias e acredito eu, não fosse o seu desalento, que é o de parcela majoritária esclarecida da população do país frente à Justiça, haveria tantos outros caminhos criativos para a sua pena percorrer.

Looking at an illustration made by my friend and graphic designer Luca Vitali, portraying the symbol of Justice as he sees it, I was led to reflect on the issue of dispensation of justice in Brazil and on the reasons why the common man has always had a distrust of our judiciary, tending to regard it as an exclusive reserve of the elites.