Espectador Assustado

Jornal El Zonda, San Juan, 12/07/06. Clique para ampliar.

Por ejemplo en el norte, carnavalitos y bagualas se apoyan
en el suelo argilloso y el aire caliente de las provincias norteñas,
en la Región de Cuyo cambia el clima,
los frutos, la temperatura y escuchamos cuecas y valses,
que pueden decir
“ando extrañando el zonda, su viento y polvareda”
hablando de un viento que arriba a esa región con su aliento de fuego.

Susana Giraudo

Diariamente, nos intervalos de estudo, vou conversar com velhos amigos no mesmo cantinho de sempre, ou aproveito para tomar um curto. Hábitos que se enraízam. Meus companheiros tinham lido a respeito de uma espécie de ciclone ao sul do país com rajadas de até 80km por hora. Estavam a trocar ideias, pois houve destruição de casas, rede elétrica danificada e alguns feridos. Disse-lhes que não é nada agradável assistir a um espetáculo desses, pois eu mesmo presenciara na Argentina ventos de até 130km, severo na opinião de especialistas. Notei que houve certa desconfiança e prometi desde logo escrever um post a respeito do acontecido.
O fato ocorreu no inverno de 2006. Deslocara-me até San Juan, a fim de participar, juntamente com os excelentes pianistas e professores Miguel Ángel Scebba (www.miguelangelscebba.com.ar) e Dante Medina, do III Encuentro Internacional de Piano promovido pela Universidad de San Juan, que se realizou entre 10 de 15 de Julho.
Durante a master class que dei no magnífico auditório da universidade, na tarde do dia 11, por volta das cinco e meia, ouvi barulhos estranhos e breves interrupções da iluminação. Continuei, mas as portas começaram a ranger, como se pessoas quisessem entrar. No momento em que fui abrir uma delas, forte corrente de ar irrompeu, a haver de imediato corte da luz. Algo estranho acontecia. Fomos todos ao saguão e deparamo-nos com espetáculo de impressionar. Pelos vidros espessos do amplo saguão víamos galhos imensos voando, baldes, papéis, árvore a cair, uma nuvem de poeira e de terra deixando a visão do entorno totalmente prejudicada, cenário dantesco acrescido pelo ruído absoluto do El Zonda, o temível vento.
Toda a população dessa região oeste da Argentina, fronteiriça à pré-cordilheira andina, teme o El Zonda. Nasce no Oceano Pacífico e na origem está carregado de umidade. Sobe as encostas dos Andes no Chile onde, em forma de neve, despeja umidade, atingindo a essa altura temperaturas bem abaixo de zero. Ao ultrapassar a cadeia montanhosa, desce pelos vales e planícies, encontra maior ou menor frente quente e, a depender dessas intensidades, infiltra-se e ganha velocidade, aquecendo vertiginosamente a temperatura, que em pleno inverno pode passar do negativo aos 30 graus acima de zero. Uma das causas do El Zonda é a grande diferença de pressão atmosférica entre os dois lados da Cordilheira dos Andes. Geralmente tem sua maior força no fim da tarde, quando as temperaturas são mais elevadas. Segundo os meteorologistas do país vizinho, El Zonda é moderado quando sopra até 50km hora, intenso entre 50 e 100 e severo acima dessa marca.
No dia 11 já sentia um vento estranho no meio da manhã, quando fui a pé ao auditório, distante umas dez quadras do hotel, a fim de realizar a mencionada sessão de master class. O ar estava seco e a poeira, característica nessa época do ano, parecia-me intensa. As altas árvores dos parques tinham em seus topos movimentos inusitados nos galhos mais frágeis. Disseram-me, sem ênfase, que era El Zonda, que sopra todos os anos de Maio a Novembro.
À tarde, durante a master class, El Zonda já havia provocado estragos consideráveis, a causar em sua longa passagem: rompimento dos cabos de alta tensão; incêndios em várias partes de San Juan e em outras localidades, mormente Mendoza; destruição de muitos veículos atingidos pela queda de árvores ou mesmo capotados; redução da visibilidade a quase nada devido à poeira e à terra em suspensão. Colapso total. Dentro do auditório, estávamos alheios ao que se passava no exterior. Depois, ilhados no saguão da Universidade, sem luz alguma, por lá permanecemos até às 2 da manhã. Na lanchonete, à luz de velas, ficamos a dialogar, alunos e professores, sobre música, amenidades e El Zonda. Funcionários mais velhos disseram que raramente viram tão grande intensidade. Durante essa nossa conversa amistosa, soprava violentamente El Zonda pela região. Quando de lá saímos, a velocidade amainara e dirigimo-nos ao hotel. A cidade sem luz parecia ter sofrido um bombardeio, pois apresentava-se caótica. Árvores, entulho, galhos e veículos destruídos, casas destelhadas, muros caídos davam a imagem da catástrofe. Sem luz, subi com uma vela para o meu quarto. Impressionou-me o quadro à minha frente. A poeira tinha alguns milímetros, era uma secura só. A sala de banho plena dessa camada espessa. Nada a fazer, a não ser dormir e aguardar.
No dia seguinte, verifiquei que não havia iluminação. Ao descer munido da vela, um único tema no saguão do hotel e no café às escuras, o temível vento. Na saída, comprei o jornal El Zonda e constatei o resultado da catástrofe. Vento na categoria severo ao atingir de 120 a 130km por hora. O Serviço de Meteorologia da Argentina detectou velocidade de 160 nos contrafortes da Cordilheira dos Andes. Moradores acreditavam que tamanha intensidade não se registrava há décadas.

Recital de J.E.M. San Juan, Argentina, 12/07/06. Clique para ampliar.

Fui novamente a pé até ao auditório e pude observar o estado de calamidade pública, um dia após uma caminhada serena. O caos. Ao chegar, sempre sem luz, dirigi-me à sala de Miguel Ángel Scebba, que gentilmente cedeu seu espaço para que estudasse para o recital que deveria dar à noite no auditório. Durante todo o dia não tínhamos a certeza da apresentação. Ao final da tarde, com o retorno da energia elétrica, ficou definido que o recital seria dado, mercê da agenda apertada do Festival. Certamente a população estava traumatizada e os quinze corajosos ouvintes, que foram à apresentação naquele extraordinário auditório para cerca de 900 pessoas e possuidor de acústica impecável, eram na verdade os dois pianistas professores e os intérpretes inscritos para o curso. Após o recital, um jantar descontraído com todo o “público”, regado pelo generoso vinho tinto de San Juan, selava entendimentos. Nos dias posteriores, dois recitais maiúsculos foram dados por Scebba, em magnífica versão dos Quadros de uma Exposição de Moussorgsky, e por Medina, em ótimas leituras de D. Scarlatti e Mozart.

Entrevista publicada em El Zonda, San Juan, 13/07/09. Clique para ampliar.

Ter estado em San Juan, participado do Encuentro, conhecido intérpretes argentinos de raro valor e, ao mesmo tempo, ter degustado o excelente vinho da região, assim como presenciado o fenômeno mais expressivo da província, El Zonda, resultaria num avivamento da memória tão logo qualquer dos fatores acionado.
Ao regressar à minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, conversei com minha talentosa ex-aluna Beatriz Alessio que posteriormente à minha orientação, estudou por quatro anos com Miguel Ángel Scebba em San Juan. Disse-me que conhecia El Zonda, mas jamais com essa intensidade, e que eu fora premiado com essa possibilidade de observação da força da natureza. Realmente, uma experiência inusitada. Pouco sabemos desses fenômenos que acontecem periodicamente no Chile e na Argentina. Impressionam.

The Zonda wind blows from the Pacific ocean, over the Andes Mountains and into the northwest of Argentina. Sometimes reaching 130 km per hour, it is feared by the population of Mendoza and San Juan, where its effects are more impressive. In July 2006 I was in San Juan for a Meeting of Pianists and had a chance to witness in loco the ruthlessness of the Zonda wind, the destruction in its wake and its impact on the community.

Amigo e Afinador

Giovanne Aronne na busca incessante do som exato. Clique para ampliar.

O amigo no templo, aquele que,
graças a Deus, eu reencontro,
é o que devolve meu olhar
com a mesma expressão,
iluminada pelo mesmo Deus,
pois desde logo a unidade se fez,
mesmo sendo ele comerciante e eu capitão,
ou ele jardineiro e eu marujo sobre o mar.
Acima de nossos pontos de vista,
eu o encontrei e sou seu amigo.

Antoine de Saint-Exupéry

O desaparecimento recente de amigos diletos faz-me tecer reflexões sobre a perda de entes importantes que apreendi a amar através de exemplos que deixavam diuturnamente. Álvaro Guimarães (vide Álvaro Guimarães (1956-2009) – In Memoriam, 04-07-09) e Giovanni Aronne permaneciam presentes em meus pensamentos, fosse a partir de menções em conversas com outros amigos ou pelo contato direto, quando sentíamos realmente prazer no convívio.
Giovanni nasceu na Itália, em Orsomarso, província de Cosenza, e desde tenra idade teve inclinação para a música. O canto foi-lhe sempre familiar, desde a participação em coral da igreja da cidade. Aportou no Brasil em 1953, a iniciar aos 16 anos vida laboriosa na Pianofatura Paulista. Giovanni, pouco a pouco, foi granjeando respeitabilidade na área da afinação e reparo de pianos, tanto nas incontáveis residências da cidade e do interior, como mestre afinador das principais salas de concerto de nossa cidade: Teatro Municipal, Sala São Luís, Fundação Oscar Americano e tantas outras. Mente privilegiada, soube incutir em seus três filhos – Marcelo, Ângela e Armando – o amor pela profissão, seguindo antiga tradição bem européia de transmissão desse ensino de pai para filhos, e que fundamenta decisivamente competências na área. Assim foi na construção das igrejas medievais, assim também o trabalho artesanal em todas as áreas prolongou-se, por vezes durante séculos. Poderia ser apenas um afinador, mas foi o mais importante da cidade e sua grande oficina de reformas de piano na zona leste, assim como as duas lojas da Vila Mariana e Higienópolis, atestam a abrangência profissional de Giovanni, que soube delegar responsabilidades aos filhos com o passar do tempo (www.aronepianos.com.br ). Amante do bel canto, apresentava-se com amigos em locais apropriados e divertia-se muito com essa atividade, tanto nas apresentações como tenor nas récitas promovidas pelo professor Domingos Viola Neto no Círculo Militar, como também nas orientadas pelo professor Dante Perini na Unione Italiana.
A morte de Giovanni Aronne no dia seis de Agosto pegou-me de surpresa. Poucos dias antes conversáramos ao telefone e o amigo já mencionava um declínio das funções coronárias, que se acentuaram a partir do começo deste ano. Mas continuava a trabalhar, cuidar de suas casas de piano e a afinar. Atencioso, tinha sempre segredos no trato dos instrumentos. Apesar de o Brasil não ter quantidade de pianos das melhores marcas do mundo em bom estado e de inexistir a assistência técnica imediata das fábricas internacionais, Giovanni, aqui nos trópicos, fazia por vezes milagres, quase sempre a acertar em seus engenhos. Uma peça da intrincada mecânica do piano enguiçada, som que estava a se deteriorar, afinações que não se mantinham em instrumentos mais antigos, pedais com problemas, cordas rompidas e lá estava Giovanni a estudar a melhor maneira de reparar o estrago do tempo, do uso ou até… dos terríveis cupins.
Conheci Giovanni nos anos 50, mas tivemos uma ligação ininterrupta a partir da década de 60. Jovem como eu, demonstrava rara aptidão para a profissão. Naqueles tempos em casa de meus pais tínhamos sete pianos, três de cauda inteira, e Giovanni já se salientava nessa disposição permanente quanto à verificação das avarias ou à afinação cuidadosa. João Carlos e eu mantínhamos com ele longas conversas, pois Giovanni durante toda a vida mostrar-se-ia um interessado contador de casos.
Foi Giovanni que anos depois, até a sua morte, cuidou dos pianos de nossa casa. Atento, poderia atrasar uma visita, mas não deixava de realizá-la. Por tradição e gosto, apreciávamos sempre durante o almoço, no intervalo das afinações, o vinho generoso – português, de nossa preferência -, pois Giovanni sabia que, quando cá vinha, a visita prolongava-se nos reparos dos instrumentos desgastados ao longo do tempo, graças à nossa prática diária durante várias horas, a resultar em constantes desajustes. Ultimamente, quando não podia vir, era um de seus filhos que realizava os consertos a contento.
Seu sogro era português, torcedor da lusa e colecionador de aves canoras. Faleceu há tempos, mas quando eu ia ao Tatuapé visitar Giovanni não faltavam boas conversas sobre pássaros, a excepcionalidade de alguns, e sobre a nossa sempre Portuguesa, nau permanentemente à deriva. Glória, a dedicada esposa de Giovanni, preparava o café e o “papo” se prolongava. Esse convívio com o sogro deu ao dileto amigo afinador o gosto pela cozinha portuguesa, que Giovanni conservaria até o final de seus dias. Almoçamos uma vezes no Restaurante Cereja, no entorno de seu bairro, onde o bacalhau é especialidade. Um requinte para o afinador e para o pianista.

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Como gostava de cantar as belas canções italianas, gravou um CD em que despretensiosamente, mas com grande expressividade, lembra perenemente de sua Italia mia.
Granjeou amizades em todos os cantos. Cuidou dos pianos de grande parte dos músicos que operam na cidade, assim como daqueles amadores que têm o instrumento como companhia e entretenimento. Sua índole voltada à vida simples e o seu espírito empreendedor, responsável pela competente empresa que construiu, são evidências de sua permanência na memória. Giovanni não será esquecido. Nem poderia sê-lo. Figura sensível e generosa, que estará a ser lembrado em cada afinação que seus filhos continuarão a fazer. A dinastia permanece através dos belos exemplos deixados pelo profissional dedicado e amigo, para bem de nós, músicos. Grande Giovanni.

Clique nos links abaixo para ouvir Giovanni Aronne cantando duas canções italianas:
Italia Mia
Parlami d’amore

Giovanni Aronne, who passed away last August 6, was the most skilled piano tuner in São Paulo, working for the best concert halls in town. We have been close friends for more than 50 years, since the days we both were young and he was responsible for tuning the seven pianos of my father’s house. His death was a shock to me and this post is a tribute to his memory. An expert in piano care and maintenance, he had three piano repair shops that will now be handled by his two sons and daughter, to whom he handed down a legacy of professional excellence and ethical conduct.

Partilhando Emoções

Senhor ! Que amor de filha tu me deste !
Dá-lhe um caminho brando e sem abrolhos,
Dá-lhe a Virtude por amparo e guia
:
Eugênio de Castro

J.E.M., Lásaro Pituba, filho do santeiro Dito Pituba (1848-1923) e Maria Beatriz. Santa Isabel, 1981. Clique para ampliar.

Prelúdio

O post da semana anterior versou sobre os jovens laboriosos da cidade, exemplificados através daqueles que trabalham em uma das filiais do hortifrúti Natural da Terra. Acabara de redigir e deparava-me com o Dia dos Pais, onde carinho da família não faltou. Maria Beatriz ofereceu-me livro com o título Aprendi com meu Pai – 54 pessoas bem-sucedidas contam a maior lição que receberam dos pais (Luís Colombini, São Paulo, Versar, 2006). Ao final, a editora convida o leitor a redigir aquilo que entende como Minha História “com o mesmo padrão deste livro, para escrever a sua lição, aquela que você aprendeu com seu pai. Uma vez escrita, é só imprimir, recortar e anexar ao livro para criar uma edição especial em homenagem a seu pai”. Tutti riuniti, Maria Beatriz leu o texto que nos comoveu muito. Conhecedores dessa singela e expressiva homenagem, amigos sugeriram que fizesse um post. Fi-lo sucinto e com certa relutância, incluindo-o após a exposição de “Grand Sourire”, pois há carga emotiva compreensiva em Dia dos Pais que me foi tão amoroso. Duas fotos ilustram o texto, tiradas em locais mencionados por Maria Beatriz e guardados entre as minhas recordações. Confesso ao leitor que publico o presente blog sem consultá-la. Conheço-a. Saberá perdoar-me.

“Grand Sourire”

Notei durante minha adolescência. Meu pai interessara-se pela imaginária paulista. Eram imagens feitas em madeira ou terracota, de santos os mais diversos ou de Nossa Senhora, a grande maioria do século XIX ou início do século XX, encontradas na região do Vale do Paraíba, sobretudo em Sta. Isabel e Nazaré Paulista.
Os contatos frequentes com Dr. Eduardo Etzel influenciaram consideravelmente o gosto requintado de papai por esta arte tanto erudita quanto popular e o aprender a restaurar com perfeição cada imagem, muitas vezes cobertas por algumas pinturas posteriores à original, até se chegar à concepção primeira do artista.
Aquele final da década de 70 e início dos anos 80 era ainda época propícia para encontrar essas pequenas esculturas religiosas em seus primeiros nichos, fora do âmbito comercial da grande cidade, pois muita gente simples da roça deixara de ser católica e aquelas preciosidades artísticas não se podiam perder. Agora evangélicos, desprendiam-se das imagens, ou melhor, desfaziam-se delas quando não lhes tinham mais significado – às vezes seu destino era o lixo – e aceitavam a troca por qualquer coisa de que realmente necessitavam: não só dinheiro, mas remédios ou qualquer objeto que sonhavam ter e que papai podia lhes levar da capital na viagem seguinte. Os que mantinham a fé católica aceitavam a troca por imagens “mais bonitas e coloridas” em gesso e aquelas outras necessidades.
Essa pesquisa de campo papai, preparado por Dr. Eduardo, chegou a fazer tão bem quanto o mestre, como este chegou a confessar-lhe, com a seriedade e a competência que são peculiares a seu caráter, aliás, como em qualquer trabalho que até hoje se propõe fazer, seja na área da música ou não. E as viagens papai não fazia sozinho. Gostava de companhia. Geralmente era eu ou meu primo Roberto que o acompanhava. Minha irmã também aproveitou essa experiência. Sempre foi um privilégio viajar com papai, fosse para essas aventuras na região de Sta. Isabel, fosse para além-mar acompanhá-lo para os recitais em Portugal ou na Bélgica, pois seu bom humor, sua disposição, sua inteligência e sua boa conversa com as pessoas, sejam simples, sejam intelectuais, que surgem no caminho são um deleite para quem o acompanha.
Para a pesquisa de campo era preciso adotar um método e ir com frequência àquela região para, primeiro, encontrar um olheiro, que era o elo de aproximação com aquela gente simples da roça. Esse homem tinha seu trabalho extra a cada sábado ou a cada quinzena e, além de necessário, pois fazia uma busca prévia sobre quem concordava em se desfazer das imagens, era importante para a realização do intento. Mas meu pai tinha seu jeito próprio de conquistar e convencer aquela gente, a começar por sua autoconfiança, pela postura de “doutor da capital”, com seus óculos que lhe emprestavam a seriedade na intenção e, óbvio, por seu “grand sourire”.
Assim, não raro voltava em outras viagens às mesmas casas onde já tinha alcançado seu objetivo para levar aquele determinado relógio com que o caboclo sonhara ou aqueles mantimentos ”x” ou remédios “y” de que precisava ou mesmo aquelas palavras animadoras, aconselhadoras ou reconfortantes. E o entrar em cada casa, depois que tinha sido derrubada qualquer barreira com a gente de São Paulo, era muito bom. O sinal do acolhimento era o “chafé” passado na hora.
Aquelas palavras animadoras e reconfortantes sobre a vida pessoal ou de um ente familiar, sobre sua trajetória, precedidas e seguidas do “grand sourire”, são o gesto de que tanta gente do campo ou da cidade, do Natural da Terra, da padaria, do mercado, da farmácia ou da rua, precisa ou que valoriza. Sei que esses gestos podem fazer a diferença no dia dessa gente boa e batalhadora que muitas vezes não teve a oportunidade de traçar o rumo que almejou, que lhe desse mais satisfação pessoal ou maior tranquilidade.
Esses gestos, tão naturais e característicos no viver não só de papai, mas de minha mãe, meu sogro e minha sogra, são marcantes, próprios de quem é magnânimo.

Postlúdio

Maria Beatriz e Maria Fernanda, em momentos distintos, acompanharam-me em viagens que me foram inesquecíveis. Companhias adoráveis. Ainda miúda, Maria Beatriz mostrava-se responsável. Era ela que, compenetrada, levava até o camarim minha pasta de mão quando das apresentações pianísticas em São Paulo, a dizer-se minha secretária. Necessário frisar que jorrou generosidade em seu sensível texto. Amor filial. Naquele domingo, 9 de Agosto, Dia dos Pais, fiquei a pensar longamente ao retornar à casa. Seria coincidência, acaso, ou a detectação de pensamentos que pairam no ar? Maria Beatriz desconhecia o texto publicado na semana que passou e há proximidade em aspectos fulcrais. Creio que a herança que recebemos e buscamos transmitir fica anexada ao DNA subjetivo e tão mais significativa será se o descendente souber decifrar o segredo a conduzir ao aperfeiçoamento das cepas das parreiras. Quando esse milagre acontece, terá valido a existência.
Em 2004, logo após prolongadas sessões de quimioterapia, dei recital no Salão Árabe da Bolsa do Porto em Portugal, primeiro depois de vários meses. Minha mulher carinhosamente me acompanhou, pois estava fragilizado e precisava utilizar-me, inclusive, de uma bengala. Chegamos dia 10 de Novembro, um dia antes do recital, e já no dia 13 partiria para apresentação em Bruxelas. Estava a ensaiar pela manhã para a récita da noite, quando avisaram que havia alguém que gostaria de me ver. Concentrado, desliguei-me das buscas sonoras, e qual não foi minha estupefação quando vi entrar na sala Maria Beatriz. Abracei-a a chorar copiosamente e indaguei-lhe o porquê. Disse-me, também profundamente emocionada, que obtivera licença na Procuradoria e viera ao recital, pois não poderia perder o meu retorno às apresentações. Dizer que toquei pleno de inspiração naquela sala de encantamentos é pouco. Três dias após ela regressava ao Brasil. Essa é Maria Beatriz, filha, dádiva.

Maria Beatriz e J.E.M. Gent, Maio 2005. Clique para ampliar.

On Father’s Day, my daughter Maria Beatriz gave me a book in which 54 successful men and women describe the most important lesson learned from their fathers. At the end the reader is invited to give an account of his own experience. And so my daughter wrote the passage that follows, “Grand Sourire”, about our trips together to collect Brazilian religious images when she was in her teens and, later on, accompanying me on my concert tours in Portugal and Belgium I was deeply touched by her account and decided to share it with my readers.