Evidências Reveladoras da Sinceridade

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Os sonhos dividem-se em duas categorias.
Na primeira, aquele que cria o sonho torna-se mestre dos acontecimentos
que se desenvolvem em seu devaneio,
no qual ele é como um mágico, um demiurgo.
Na segunda, o sonhador não consegue controlar as coisas,
ele é passivo, impotente e incapaz
para se defender contra a sua visão.
Aquilo que lhe acontece é exatamente o que ele receia,
o que ocasiona terror e tortura.

Andreï Tarkovski

A trajetória do ser humano é marcada por impactos os mais variados. É possível que ela se mantenha serena durante o percurso completo, ou sofra maiores ou menores turbulências que afetarão a conduta, o vislumbre do caminho a ser percorrido, a relação com o próximo, as regras relativas à boa manutenção físico-psíquica, o entendimento espiritual. A qualidade do impacto poderá determinar as flexibilizações da existência, ou a ruptura absoluta com os padrões seguidos anteriormente. Seria possível compreender as palavras de Jiddu Krishnamurti, que asseverava que somos peregrinos sobre a Terra e que não nos devemos deter, mas sim continuar a senda trilhada. Fatos geradores de grandes transformações seriam, creio eu, passagens que podem afetar profundamente a nossa conduta. Seria o equilíbrio interpretativo que realizamos a nossa maior salvaguarda, a fim de que haja razão nesse permanente caminhar, e que o olhar, a partir da filtração que fazemos do fato que causa impacto, torne-se diferenciado.
Trocara idéias com uma vizinha no episódio Metrô – felizmente, decidiram-se pela Estação Águas Espraiadas, juntamente com o Terminal de Ônibus – quando Penha falou-me a respeito de seu filho, morador em Curitiba, que tivera um linfoma do tipo Hodkins, já extinto. Como aquele que me atingiu era mais agressivo, Tipo T de células pequenas, quis conhecê-lo. Sob aspecto outro, mudanças ocorridas em sua vida, mercê da doença, fizeram-no mudar sua visão de mundo. Uma guinada absoluta se daria e Vitor Caruso Jr. tornar-se-ia um outro homem. Tive o prazer de manter com ele longa e prazerosa conversa e realmente apreendi muito deste jovem voltado a empreendimentos ligados à Ciência Meditativa (www.cienciameditativa.com) e a ações voluntárias junto à APACN – Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia (www.apacn.org.br).
Vitor é hoje budista, praticante de Yoga e emana contagiante alegria. O nosso diálogo abordou desde a luta individual contra o câncer, como aspectos ligados à existência. Apesar do distanciamento etário, creio que enfrentamos o mal com ferramentas bem parecidas. Vitor Caruso teve a coragem de expor em livro todo o processo do mal que o afligiu, em seus mínimos pormenores, assim como os mecanismos que o levaram a enfrentar com determinação o mal de Hodkins. Jamais se submeteu aos diagnósticos plúmbeos. Toda essa epopéia está relatada em Com Qualquer Um de Nós (São Paulo, Rinacy, 2003, 66 págs.). A doença, que eu não quis revelar em seus pormenores, vejo através da pena do autor narrada de maneira direta e sincera, sem preocupações estilísticas, tampouco visando a agradar segmentos corporativos. Trata-se de um desabafo necessário, a servir de alento a todos os que lutam, vencem e não se submetem ao infortúnio. Mesmo àqueles que estão a sucumbir, há a palavra reconfortante de Vitor Caruso Jr. Um ponto chamou-nos a atenção. Em plena químio, contrariando os médicos, Vitor, hoje com 38 anos, disse ao oncologista que iria correr a São Silvestre, tradicional prova de 15 km que se realiza em São Paulo aos 31 de Dezembro. Este, pasmo pela notícia, desaconselhou vivamente o “irresponsável”. Vitor não apenas correu como bateu o seu recorde pessoal. Isso em pleno tratamento. Como não lembrar exemplo que vivi bem posteriormente (vide Sobreviver com Qualidade de Vida, 07/06/08)? Contei ao agora jovem amigo que eu também, desaconselhado pelos médicos, internado no Hospital Nove de Julho, com agulha a importunar minha mão esquerda – o que levou a um grande edema que durou 48 horas para ser absorvido -, estudei durante dez dias em um teclado mudo, pois havia um desafio a vencer: o recital comemorativo ao tri-centenário de nascimento do notável compositor português Carlos Seixas (1704-1742), conimbricense. O recital deu-se na Biblioteca Joanina – uma das Jóias da Humanidade – em Coimbra, na extraordinária Universidade do mesmo nome. Com uma bengala, pois as pernas fraquejavam, adentrei o mágico recinto e encarei o recital inteiramente dedicado ao compositor, retornando dois dias depois a São Paulo, a fim de continuar o tratamento. Durante a apresentação, passei por momentos dramáticos, pois nas peças mais rápidas por várias vezes tive cãimbras nas mãos, o que me obrigou a encontrar solução alternativa imediata – sem prejuízo ao todo – à execução. Um sufoco ! Conseqüências quimioterápicas.

Os peregrinos, pormenor do tímpano Cristo Ressuscitado. Catedral de Autun, França, Séc. XII. Clique para ampliar.

Com Qualquer Um de Nós é uma ode à vida. Seguir a tribulação de Vitor, preso anteriormente a uma multinacional, como tantas e tantas extraindo até a alma de seus funcionários; ser atingido pelo tumor de Hodkins e vencê-lo; entender a vida posterior como uma graça que o fez desligar-se de um tipo de morte à qualidade de vida, preocupação derradeira dessas empresas tentaculares; encarar tantos desafios; contrariar metodologias médicas ortodoxas após leituras insistentes sobre o mal; todos esses aspectos tornam a leitura da narrativa de Vitor Caruso Jr. uma extraordinária lição de vida. Os médicos acertam o diagnóstico, mas falham por não entender o ser humano em sua individualidade. Recomenda o autor a urgência da psicologia àqueles que “uniformizam” o paciente, não o vendo como uma pessoa, única e fragilizada em seu extremo limite físico-psíquico. Conversar com o doente, transmitir-lhe a verdade sem a frieza tão comum, eis o que muitos médicos deveriam aprender. Vitor passou por momentos estressantes frente aos doutores. Em acréscimo, considera as dificuldades que determinados Planos de Saúde impõem aos segurados portadores de câncer, doença muito dispendiosa. De maneira coloquial, os curtos capítulos servem de guia para cancerosos e para todos aqueles que queiram evitar a doença. Regime alimentar, exercícios, meditação são vários os temas abordados pelo autor na busca do encontro de uma vida saudável.
Outros livros mais foram escritos por Vitor, já sob a aura de visão espiritualista que o budismo lhe proporcionou. Conheceu Sua Santidade o Dalai Lama, freqüenta monastério ao norte da India e desempenha um humanitário trabalho junto às comunidades e às crianças em Curitiba. Curado fisicamente, e espiritualmente um outro homem, Vitor Caruso Jr. terá muito a transmitir neste nosso país tão carente de valores voluntários e desinteressados.
Saí substanciado após nosso diálogo e li com interesse seu livro. Continuarei com meus exames periódicos, mas a esperança que foi dele, e é minha também, leva-me sempre a acreditar. Nós temos forças que na realidade mal conhecemos. Caminho a ser percorrido, olhar confiante e a crença na ajuda de um Poder Maior. Nossa vida transforma-se. Quantas não são as coisas que entendíamos fundamentais que perdem completamente o significado. E quão importante são os laços de sangue, os entes solidários. Vitor tem a bela família e o aprofundamento espiritual; eu, igualmente a preciosa família, a música, que é meu descortino diário, e o convívio que tanto amo na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Somos peregrinos a entender que o tempo que nos é dado caminhar nada mais é do que uma grande dádiva.

My chance meeting with Vitor Caruso who, after a Hodgkin’s lymphoma, left the constant strain of a job in a multinational corporation, becoming a Buddhist and a yogi with a high level of spiritual insight. He is the author of a number of books on philosophical and spiritual subjects, among them “Com Qualquer Um de Nós” (To Anyone of Us), a story of his successful struggle against the lymphoma. The book involved me completely because I have a non-Hodgkin’s lymphoma myself and drew a parallel between his experience and mine. Like Vitor Caruso, I believe that determination and faith are the weapons to carry us through this battle.

Problemática e Possíveis Soluções

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Quando teço reflexões a respeito
de meus sucessos e meus fracassos,
constato uma ligação estreita entre a vida que eu levava
durante os dias a precederem o resultado final.
O repouso, o estado de saúde,
o equilíbrio do corpo e do espírito são condições da realização
.
Henrich Neuhaus (pianista e pedagogo)

Em post bem anterior abordei um mal físico que pode afetar os intérpretes de maneira temporária ou definitiva (vide L.E.R. – Lesão por Esforço Repetitivo, 16/11/07). Muitos são aqueles que, diante de empecilho a afetar dedos, mãos e braços, desiludem-se, frustram-se e buscam caminhos incertos.
Há contudo um mal comum à quase totalidade dos músicos, atores, bailarinos, atletas e acrobatas, possível de ser bem administrado durante toda a trajetória, mas a provocar, em pessoas mais sensíveis, danos irreparáveis na seqüência de seus desempenhos. Refiro-me ao medo do palco, le trac, em francês.
Dois livros exemplares, abordando essa presença que pode levar à insegurança total, esclarecem pontos até obscuros da problemática, e expõem várias categorias de tratamento (André-François Arcier. Le Trac: le comprendre pour mieux l’apprivoisier e Le Trac: stratégies pour le maîtriser. France, Alexitère – Collection Médicine des Arts, 1998, 288 págs. e 2004, 271 págs., respectivamente). Se no primeiro Arcier fixa com clareza fatores prováveis a favorecerem a inibição e aponta meios de administrar e até dominar a terrível, mas majoritária, presença do medo, no segundo, escrito alguns anos após, alarga as possibilidades de tratamentos, que se estendem desde medicamentos alopáticos, entre os quais as benzodiazepinas e os beta-bloqueadores, àqueles alternativos, como a homeopatia, a fitoterapia e a acupuntura. Aborda estratégias corporais que podem efetivamente levar à diminuição das tensões, como os métodos Feldenkrais e Jacobson ou a técnica Alexander, ou ainda o Yoga e outras práticas orientais. Pormenoriza as técnicas relaxantes, a sofrologia e penetra na seara da programação neurolingüística e do desenvolvimento da auto estima. “A estima de si mesmo se aprende e se cultiva” como afirma o autor, finalizando pelas estratégias comportamentais e cognitivas.
O domínio da angústia que antecede a apresentação pública é uma das preocupações de médicos, psicólogos, psicanalistas e especialistas nas muitas vertentes que levam ao relaxamento físico e mental, no desiderato de, através de estudos cada vez mais aprofundados, ao menos atenuar a real ansiedade que existe entre músicos, atores, atletas e outros, que têm de se defrontar com um público, seja este leigo ou especializado, entre os quais uma Comissão Julgadora quando de concursos tipificados. Arcier focaliza preferencialmente os músicos solistas ou de orquestra e atores, daí o palco ser o epicentro a causar a euforia, a plena realização ou o desequilíbrio físico-emocional que prejudica a performance. Os trabalhos de André-François Arcier poderiam ser entendidos como simplesmente acadêmicos, não fosse a quantidade apreciável de depoimentos fulcrais, de músicos e atores da maior respeitabilidade, que aprenderam a conviver com a aflição, entendendo-a, administrando-a da maneira a mais razoável possível e, em muitos casos, buscando auxílio médico, psicológico ou relaxante. Que le trac existe, existe. Ao apresentar estatísticas entre músicos de orquestra, é considerável o número daqueles que sofrem de ansiedade pré-apresentação.
Diferentes tipos de angústia exigem tratamentos variados, pois jamais o medo tem característica padrão, apresentando infinidade de nuances, conforme os perfis estudados por Arcier. Gráficos estão sempre a apontar, numa simplificação para o leitor, as modalidades, resultados, estatísticas. Quando segmentos do corpo humano são apresentados, locais onde nasce e age le trac são pedagogicamente explicados.
Há aqueles para os quais o palco tornou-se um terror. Muitas carreiras tiveram de ser interrompidas pela não adaptação à realidade necessária à performance, pois em cena a tensão pode traduzir-se em obstáculo insuperável. Determinados medicamentos alopáticos, como exemplo, podem ter eficácia para o executante de um instrumento e não para um cantor, outros podem agir atenuando transpirações pré-apresentação, batimentos cardíacos acentuados, problemas no aparelho digestivo, todos ocorrendo nos momentos que precedem a representação.

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André-François Arcier penetra fundo em todos os possíveis traumas causadores do trac, passível de múltiplos tratamentos. Não obstante o “medo” do inesperado existir para todos os que enfrentam o palco, o autor preocupa-se com aqueles para os quais a ansiedade ultrapassa a razoabilidade. Considera também que a ausência absoluta do medo pode caracterizar até um outro tipo de anomalia.
Traumas oriundos da infância, quando de apresentações não satisfatórias; pressão dos pais nessa antevisão do menino prodígio a provocar no futuro a idiossincrasia absoluta pelo palco por parte do jovem, já não mais uma revelação; a insegurança frente a um repertório musical ou teatral; a presença de um público competente; a banca examinadora de concursos; episódios múltiplos de ordem absolutamente individual, mas com antecedentes preocupantes; a necessidade – para muitos – de ser o melhor, o que os torna sensíveis à recepção que o público fará de suas apresentações; o terror das falhas técnicas ou do chamado “branco” em relação à memória, todos são fatores que levam intérpretes e atores ao stress, à instabilidade emocional frente ao público e, quando o limite é sentido, a algum acompanhamento médico, terapêutico, fisiológico, relaxante ou psicanalítico.
Quando o pianista canadense Glenn Gould asseverava não sentir le trac antes da apresentação, evidenciava contudo um problema em torno do medo, o pavor de verificar o seu batimento cardíaco aumentar – uma variante da ansiedade, causa provável que o levou a abandonar a apresentação pública, dedicando-se a certa altura da brilhante carreira unicamente às gravações. Teria sido esse sofrimento cênico que conduziria ilustres intérpretes, em períodos determinados, ao afastamento temporário ou definitivo do palco. Vladimir Horowitz teve traumas provocados pela ansiedade pré-apresentação. Martha Argerich confessa, segundo o exposto na obra de Arcier (2004): “Hoje, eu poderia muito bem deixar de dar concertos. É um ato contra a natureza. O prazer é tão raro. No palco não temos a naturalidade de quando em nossa casa, pois não realizamos os mesmos gestos com as mãos frias, há os joelhos que tremem, o nariz que escorre. A interpretação se modifica. E mais, o peso dos olhares sobre você… O efeito da multidão que te observa… julga. Eu não suporto mais ser prisioneira de uma programação, eu que hesito, tateio permanentemente… Hoje, quando te apreciam, fixam um novo encontro dentro de três anos. Eu tenho pesadelos ao pensar”. A grande pianista refere-se às temporadas musicais acima do equador, sempre agendadas com enorme antecedência. Por sua vez, o extraordinário pianista Georges Cziffra afirmou que “adentrar um palco é um ato de coragem. É nesse instante que reside a fragilidade do intérprete. Leva-se uma mensagem que tem de ser passada em hora precisa, por vezes fixada anos antes, sendo um paradoxo que oscila entre a ação de graça e o suplício de Tântalo”. A uma pergunta a respeito do prazer de tocar em público, o pianista Murray Perahia afirmaria: “Não, não é um trauma, se bem que sinto le trac que não é tão indolor como eu desejaria, mas a música é comunicação e é comunicando-se que aprendemos, daí serem necessários os concertos”. E a convivência com essa angústia indesejada, mas sempre presente, seria um fato. Talvez possamos entender as considerações do pianista francês Jean-Philippe Collard citadas por Arcier como uma síntese existente do medo do palco. Considera Collard le trac um companheiro que o pianista conhece bem, entendendo-o necessário, impedindo-o, por vezes, de exprimir-se como gostaria. E afirma: “um companheiro que torna algumas apresentações dolorosas comparadas à fugacidade dos instantes de embriaguês impalpável que existem apenas na geografia de uma sala”.
Entre músicos e atores, a ansiedade pode advir no instante a preceder a apresentação, ou horas, dias ou meses antes de um evento. Dependerá das estruturas mentais de cada artista. Haveria, como afirma André-François Arcier, a necessidade não de suprimir le trac, mas de domesticá-lo. Saber entender que a existência do medo a preceder a apresentação faz parte dessa íntima relação intérprete-público é compreender não apenas a responsabilidade do artista frente àqueles que estão ávidos por receber a mensagem, como também entender a fragilidade humana perante o desafio.

A few comments on two books written by the French doctor André-François Arcier, a research on the causes and effects of stage fright – “trac” in French, the performance anxiety to some extent affecting all performers, from beginners to professionals, when they step on-stage – and a variety of strategies to control it.

Entendimento Através das Entranhas

Casa de caboclo, periferia de Santa Isabel, 1979. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Quem procura boa árvore,
boa sombra colhe.

Adágio Açoriano

No post anterior, o tema central abordou as Paulistinhas, pequenas peças em terracota da imaginária do Vale do Paraíba e que prosperaram entre fins do século XVIII às primeiras décadas do século XX. A dissertação defendida por Ailton Alcântara levou-me a várias reflexões.
Fiquei a pensar a respeito da pesquisa de campo na área de nossa arte sacra. Eduardo Etzel (1906-2003), meu mestre, amigo e analista durante longo período, dizia sempre que nessa área em particular a pesquisa de campo é a única a levar à captação abrangente dos conteúdos essenciais da imaginária. Na realidade, o conhecimento pleno da origem da criação, seu destino primeiro nas mãos dos humildes habitantes de nossa roça ou das cidades pequenas , a visualização dos interiores das casas simples contendo oratórios e imagens para devoção, o conversar com esse povo absorvido nos pobres afazeres, na rotina, mas também nas festividades em homenagem a santos do dia, tudo faz com que melhor entendamos o cerne criativo e o porquê dessa imaginária tão peculiar entre tantas outras espalhadas por Portugal e pelo Brasil. Ao comentar com o amigo e vizinho Jorge, perguntou-me ele sobre fatos ocorridos durante minhas andanças pelo Vale do Paraíba. Lembranças surgiram, algumas pitorescas.
Durante 10 anos, todos os sábados percorria a região do Vale, sendo que mais intensamente fixei minha atenção na criação do extraordinário Benedito Amaro de Oliveira, o Dito Pituba (1848-1923), santeiro de Santa Isabel que proficuamente produziu imagens em madeira e terracota, assim como oratórios a partir de madeira de lei, inicialmente, e após, mercê da demanda, de madeira de caixas importadas contendo bacalhau, vinhos, ou latas de óleo. Parte da extensa região abrangendo Parateí, Santa Isabel, Igaratá, Nazaré Paulista, Itaquaquecetuba e outras localidades, assim como morros e campos foram percorridos juntamente com meu saudoso amigo Carlindo Pavan. Saíamos quase ao amanhecer de São Paulo e retornávamos felizes, empoeirados e cansados. Narrar fatos inesperados causa-me alegria.

Casa de caboclo no entorno de Nazaré Paulista, 1982. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Carlindo e eu adentramos um sem número de casas de campesinos. Éramos sempre bem recebidos. Chão de terra, muitas vezes casas de madeira e barro, telhados de muitos materiais diferentes, a simplicidade no seu limite, mas sempre presentes lá estavam oratório e algumas imagens, geralmente Paulistinhas. Muitas das peças totalmente enegrecidas pelo picumã, decorrente da fumaça do forno para a refeição escassa dentro da moradia. Quantas não foram as vezes que tomamos café fervido em água pouco confiável. Recusar, impossível, pois quebra de sinceridade. Para as quase sempre mesmas perguntas formuladas, recebia respostas bem semelhantes. A origem da imaginária tinham-na até duas gerações anteriores, não sabendo precisar períodos ou circunstâncias, pois a tendência era a passagem sem emoções das sucessivas gerações.

Lázaro Pituba e Lazinho Lima. Santa Isabel, 1979. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Em fins da década de 70, conheci em Santa Isabel Lázaro Pituba, filho de Benedito Amaro de Oliveira. Cego, já com mais de 90 anos, mas absolutamente lúcido, tinha sempre histórias a contar. Em uma de minhas últimas visitas à cidade nos anos 80, Lázaro retirou de cordão que mantinha no pescoço diminuta imagem (3 cm.) confeccionada por Dito Pituba a partir de um chifre de veado e recebida pelo filho quando ainda miúdo. Ofereceu-ma com inusitada emoção. Um pequeno orifício na parte posterior servia para a passagem do cordão. Não distante de Santa Isabel, num percurso em terra batida que vai ao encontro da rodovia D. Pedro, encontrei em casa de campesino, no fundo de seu oratório – sempre havia o risco de se topar com uma aranha ou um escorpião – o corpo sem cabeça de um outro Santo Antônio, igualmente trabalhado em chifre (8 cm.). O morador ofereceu-me a peça, a dizer que sem a cabeça o Santo não mais protegia sua família. Levei a pequena imagem acéfala. No ano seguinte, ao passar pela mesma casa, visitei os moradores. Novamente percorrendo com os dedos a mesma parte do oratório, encontrei a cabeça perdida. Curiosidades.

Santo Antônio. Miniaturas em chifre de veado. Santa Isabel, 1980. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Mais contundente foi ter encontrado uma minúscula capela em pequena estrada de terra em Parateí. Servia como santa cruz, local demarcado após algum assassinato e onde moradores costumam colocar imagens quebradas. Observei que havia no interior um pequeno oratório de viagem. À porta da capelinha, uma colméia do chamado marimbondo caboclo ou de fogo, de coloração grená. Grandes e inamistosos, pareciam guardiães do espaço abandonado. Meu amigo Lazinho Lima, caipira da região, aconselhou-me a não entrar. Teimosamente curvei-me e bem devagar penetrei no diminuto recanto, retirando o oratório. Felizmente nada aconteceu, mas Lazinho afirmou-me que a picada de um desses marimbondos provoca dor e febre durante dias. Ao sair, o amigo mostrou-me uma jararaca que, lamentavelmente, acabara de matar, pois o réptil estava com o bote preparado. No interior do pequeno oratório de viagem – 22 cm de altura -, em lata e totalmente enferrujado, uma pequena imagem de São Lázaro em madeira confeccionada por Dito Pituba revelou mais essa criação do artista na feitura da mínima “casa” doméstica para os santos padroeiros.

Oratório de viagem feito por Dito Pituba. Santa Isabel. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Episódios individuais durante pesquisa de campo apenas dimensionam a inter-relação com o foco de estudo. A captação do todo, seja em qual circunstância se der, favorece o entendimento. Martin Heidegger (1889-1976), já escrevia que uma obra de arte deslocada de seu ambiente original, ao ser instalada em museu, perde sua aura. É bem possível que isso ocorra. Contudo, para aquele que realiza a pesquisa de campo, ficará sempre marcado o amálgama da obra de arte com o ambiente originário. Ainda mais considerando-se o contexto “provisório” e tênue da arte sacra popular de São Paulo, dificilmente ela permanece perenemente em seu ambiente primeiro. Fatores vários corroborariam esse ocaso. Entre estes, a pobreza dessa brava gente que mora nos campos; as intempéries; os vorazes cupins a tudo destruírem; a mudança de crença com a investida de um sem número de seitas anatematizando o culto aos santos, o que implica a destruição das imagens e oratórios; a presença de larápios a furtarem o pouco que resta. Felizmente, alguns museus e colecionadores preservam a extraordinária criação popular do Vale do Paraíba. As exposições, contudo, deveriam não somente mostrar as peças sacro-populares, como também exibir o que resta ainda do mobiliário simples do povo da região. A visão etnográfica enriquece. O freqüentador teria possibilidade de sentir o ambiente da criação, o destinatário final que diuturnamente orava a partir das singelas peças de nossa imaginária popular. Quiçá um resgate ainda possa ser feito

My adventures as a field researcher some decades ago, when I was collecting and studying religious images known as “Paulistinhas” and the importance of the field work to establish a link between the object of study and the person who uses it – in my case, the poor peasants along the Paraíba do Sul river in Brazil. I believe that capturing the whole makes easier the understanding of the parts that compose it.