Sobreviver, eis a Questão

São José pensativo. Figura de presépio. Arte popular, terracota, sul de Minas Gerais, década de 70, 14 cm.

Não tiveste na vida um dia escasso
de paz e de alegria ! Escurecida
te foi sempre a existência, desvalida,
e cortada de abismos, passo a passo.

Camilo Castelo Branco

Encontrei uma ex-aluna. Não a via há muitos anos. Estudos na Europa, regresso ao Brasil e hoje dá aulas particulares em Conservatório privado. Perguntada, não apresentou objetivos claros, pois não tem particularmente nenhum projeto musical de interesse. Mantem-se dando aulas, como poderia estar a trabalhar em qualquer outra atividade que a sustentasse, pois indagada sobre se amava a música, disse-me que conseguia ganhar o necessário para “ir levando a vida”, segundo suas palavras. Bonita, contudo ao sorrir transmite no presente disfarçada amargura.
Convidei-a para um rápido café e trocamos algumas frases. Interessava-me saber qual o seu real comprometimento com a música e qual a razão de continuar. Asseverou-me que era a única “coisa” que sabia fazer razoavelmente, ou seja, dar aulas. A uma outra pergunta, relacionada ao tipo de transmissão que passava aos alunos, ponderou que comunicava a eles o que aprendera e procurava, preferencialmente, não criar casos. Tinha sobre o piano um relógio e jamais ultrapassava um minuto sequer do tempo de aula, pois eram muitos os que a aguardavam. Insisti, a procurar saber se, ao menos, estudava um pouco, pois quando minha aluna na década de 80 na Universidade chegou a tocar com certa destreza, sem comprometimento, é certo, mas ao menos executava, nem digo interpretava, o que estava escrito. Rapidamente, disse-me que lia presentemente um movimento de Sonata de Beethoven e mais Noturno e Improviso de Chopin. Você não busca conhecer outras obras? Retrucou, sem entusiasmo, que precisaria ouvir CDs de outros autores, mas que não tem a mínima vontade de fazê-lo, preferindo assistir a filmes na TV a cabo ou ir a um shopping center com o namorado. As leituras se concentravam em revistas semanais. Quando muito, interessou-se por um dos tantos Harry Porter, mas desistiu, porque o livro era muito espesso. Despedimo-nos, pois a ex-aluna teria de tomar o ônibus, a fim de dar as aulas da sobrevivência. O sorriso de adeus refletia ainda mais o enigma do conformismo.
Creio como uma tragédia, existente em enorme quantidade de profissões, a continuação em tarefa que não é amada. Legiões de pessoas descontentes estão a trabalhar em atividades com as quais não têm a mínima ligação. Lembro-me que em 1962, quando em Moscou, disseram-me que apenas era permitido o estudo da música, da dança ou a prática do atletismo àqueles que realmente se mostrassem aptos para o desenvolvimento qualitativo. Cheguei a conhecer miúdos extraordinários, tanto a tocar, como na arte da dança. Logicamente, a União Soviética tinha um regime a privilegiar somente os melhores. Havia sub-repticiamente a necessidade da total exaltação do Regime através dos mais aptos. Propaganda que se tornou motivo de tantas suspeitas fundadas. Apesar de sucessos reais, quantos não foram aqueles que na U.R.S.S. desistiram pelo fato único da pressão intensa a causar diferente categoria de desânimo ou até de desespero. Outros Sistemas totalitários privilegiam igualmente determinadas atividades através de disciplina férrea. E insistem.
Se destacamos situações que podem ser o opposite do exemplo tipificado da ex-aluna, todavia nas atividades ligadas à Música, excluindo-se a dança, pode o “sobrevivente” camuflar durante toda a vida o não compromisso e a não atualização. Geralmente não há cobranças e o infortunado jovem, que inicia os estudos sob orientações desinteressadas, mornas e não competentes, corre o sério risco de trilhar caminhos duvidosos, desestimulantes e entristecedores. Sob aspecto outro, pereniza-se, numa situação como a da mencionada ex-discípula, o precário conhecimento transmitido ao aprendiz, o repertório absolutamente repetitivo, desinteressante, mal tocado e sem a menor possibilidade de ventilação voltada a obras outras. Aliás, neste país do “consagrado”, a simples constatação de intérpretes solo, estes na acepção da palavra, nacionais ou internacionais, está a evidenciar sempre a repetição de um repertório petrificado. Para isso, é só o leitor consultar as programações estampadas nos veículos de comunicação, onde até os próprios executantes são, quase sempre, igualmente repetitivos.
Ficaram-me os nomes dos extraordinários compositores ditos pela ex-aluna sem entusiasmo. Ela estaria a representar o infortúnio exemplar de destinos mal traçados pelas mais diferentes razões. Beethoven e Chopin significariam Débitos e Créditos para um bancário sem afeto pelo trabalho. A origem do vazio que se instala pode ter sido a mesma. Na música, em acréscimo, a expansão do desalento estaria a propiciar, a outras gerações mal formadas e sem a possibilidade do conhecimento, a perenização deturpada apenas de algumas consagradas obras de Beethoven, Chopin e também J.S.Bach, Mozart, Liszt, Schumann, Debussy… , sem o mínimo “tempero”. E em nível de excelência interpretativa, no outro pólo, o músico conhecido por suas notáveis performances técnico-instrumentais continuará o caminho da repetição sem fim, sem oxigenação repertorial, sem igualmente vislumbrar outros horizontes. O público, elo final, espalhará como um pólen amargo a rotina da escuta. E para os casos semelhantes aos da ex-aluna, encontráveis em Conservatórios particulares, ou públicos, e não raramente nas Universidades privadas, ou do governo, sobram as pétalas mirradas de pouquíssimas obras que chegam até a ser cantaroladas e, por extensão, divulgadas por falta de interesse em se conhecer outros caminhos sonoros. Quando essas músicas caem em mãos sem o cérebro amoroso, fenecem como as folhas de inverno. E as sombras chegam.

A reflection on the disillusionment that sets in with people that are frustrated with a work that is not aligned with their interests, but stick to it for sheer economic necessity. In music, this is a tragedy not only for the professional, who will approach music in a repetitive, unmotivated way, but also for the students who may eventually work under such passionless guidance. Unfortunately, it is not always that job and vocation are the same thing.

Domingos Rebelo (1891-1975)

Um ‘não sei’,
nunca se escreve.

Adágio Açoriano da Ilha de São Miguel

Emigrantes. Óleo s/tela (1926). A.2355 x L.2905 mm. Domingos Rebelo. Museu Carlos Machado.

Tomava café com meu amigo Luís Gonzaga e este, após ter lido o post O Homem Inesperado, perguntou-me sobre “Art”, a peça teatral da mesma autora, Yasmina Reza, mencionada no texto (O Homem Inesperado, categoria Literatura e Cotidiano, 31/05/08). Disse-lhe que o motivo central da peça, a determinar questionamentos amadorísticos sobre a Arte e o cotidiano existencial, baseava-se na aquisição, por um dos três personagens, de um quadro contemporâneo, tela toda branca, com determinada faixa basicamente da mesma coloração. O trio de personagens discute o preço, absurdo para um deles, pago pelo adquirente. Determinadas questões mercadológicas são colocadas em causa pela autora, como aquela de que uma tela, pintada em um período por um artista plástico, perderia o seu valor intrínseco se realizada, obedecendo ao mesmo estilo, muitos anos após. Nuances de um mercado ávido pelo lucro e dependente do impulso de compradores que seguem os ritos dos modismos e da globalização.
Voltei para casa intrigado com o teor da pergunta e também com o enredo da peça. Já de regresso, recolocava livros em uma estante quando tomei às mãos um catálogo comemorativo do centenário de nascimento do pintor açoriano Domingos Rebelo. Tratava-se da exposição realizada no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, capital da Ilha de São Miguel, umas das nove ilhas do arquipélago dos Açores. O Museu mantém um acervo extraordinário de peças e utensílios utilizados durante séculos pela brava gente açoriana e considerável quantidade das pinturas de Rebelo, algumas de grande dimensão. Visitei-o durante uma tournée para recitais e conferências em três das ilhas, no ano de 1992, e causou-me forte impacto a força viva daquelas telas.

Viático. Óleo s/tela (1919). A.2520 x L.3050 mm. Domingos Rebelo. Museu Carlos Machado.

Faz-se necessário tecer algumas considerações, advindas da premissa do post, a respeito da Arte como permanência. Sob um aspecto, as tendências das artes plásticas tiveram, desde o início do século XX, aceleração que se tornou multifacetada, a apresentar criações inimagináveis nos séculos anteriores, o que propiciou a tantos artistas inovadores a plena guarida de marchands, da mídia e do público observador, ou daqueles voltados, como conseqüência, às coleções. Sob égide outra, uma categoria de pintura que remonta à antiguidade mais remota permanece a contar a história do homem, seu cotidiano, sua relação com a divindade ou com a natureza. A depender de tipicidades, encontram-se entre esses artistas aqueles que retrataram o seu rincão, o gestual rotineiro onde se alternam manifestações que não passam desapercebidas ao olhar atento que finaliza a conexão no pincel sensível. Usos, costumes, a presença do povo podem ser apreendidos quando do pormenorizar etnográfico e social de pintores que se mantém fiéis à fixação do acontecido popular, voltando-se, quando talento e competência existem, à inteligibilidade da imagem, aos conteúdos imbuídos do sensível e das nuances emotivas.
Domingos Rebelo nasceu em 1891 em Ponta Delgada, capital da Ilha de São Miguel, a maior do arquipélago açoriano. Apesar de estudos em Paris, onde trabalhou com Jean Paul Laurens, Albert Laurens e Naudin, e dos contactos que manteve com os movimentos modernistas, Rebelo preocupar-se-ia com a pintura voltada ao povo, ao retrato de amigos, à caricatura. Mesmo o longo período passado em terras portuguesas continentais não desviou o seu arguto debruçar insular, que visava à captação das manifestações populares, das mais intimistas às coletivas. Essa característica de entendimento fê-lo um pintor universal, pois mais de cem anos após seu nascimento Domingos Rebelo está presente. Seu grande mérito foi o de ter, a partir da observação atenta, guardado a imagem, retida para sempre em suas telas, das circunstâncias do homem açoriano: sofrimento, tristeza, recolhimento, assim como o peristilo da morte, a festa natalina, a peregrinação atávica, o recanto do lar, a fé perene.

Ceia do Romeiro. Óleo s/tela (1925). A.950 x L.1150 mm. Domingos Rebelo. Casa Armando Côrtes-Rodrigues.

Se Domingos Rebelo não se constitui num artista modernista, tampouco num chefe de Escola, soube pormenorizar na excelência a atitude de seus conterrâneos coetâneos. Telas grandes, como Camponeses Micaelenses, Viático, Tenda do Mestre Amâncio, Cozinha da Arquinha, Romeiros, Emigrantes - em seus destinos plenos de incertezas em direção à América do Norte – e o tríptico Natal estariam a revelar a imanência contida nessas pinturas. Rebelo entenderia, conscientemente ou não, que o passar da história poderia perder para sempre cenas que o “progresso” realmente sepultou, como aquela da abertura deste post, que reproduz o quadro Emigrantes. Mesmo suas caricaturas de personagens insulares em situações divertidas, ou suas miniaturas em madeira, como a do Cortejo do Espírito Santo, traduzem o enraizado sentido do pintor fixado em sua terra com o olhar e o pensar atentos.
A universalidade de Domingos Rebelo deriva-se dessa particularização do modus vivendi do povo dos Açores. Pintor etnocêntrico a revelar, na abrangência, a própria raça como epicentro de suas aspirações. Sem o artista, perder-se-iam as imagens do açoriano em sua tradição especial. Curiosamente, a Ilha de São Miguel viu nascer em espaço tão curto dois outros notáveis homens das artes: o grande escultor Canto da Maya (1890-1981) e o poeta, etnógrafo e dramaturgo Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971). Este, na dedicatória de soneto ao amigo, escreve: “A Domingos Rebelo – o Pintor: a ti, que vives o sonho da tua Arte, inútil para a maioria dos homens, a sinceridade destes versos. Janeiro de 1931”.

This post is about the Azorean painter Domingos Rebelo (1891-1975), born in Ponta Delgada, the capital of São Miguel Island in the Atlantic Ocean. I was deeply impressed by the vitality of his paintings when I visited the Azores in 1992. Despite his studies in Paris and links with Modernism, Rebelo’s interest was in the depiction of scenes of his homeland: ordinary people engaged in common activities, domestic settings, folk culture, rituals of village life. By depicting life around him, his insular painting became universal, providing us with a window into the everyday life of bygone days.

Programa da Rádio Cultura FM

Paris, 1960. Momento do caminhar

Este breve Interlúdio é um convite para o programa Tema e Variações, tão bem conduzido pelo excelente músico Júlio Medaglia, transmitido pela Rádio Cultura FM – 103.3 MHz. Os visitantes do Blog poderão ouvir a entrevista on line neste próximo Sábado, 5 de Julho, às 11 horas da manhã, clicando aqui.

Causou-me alegria receber telefonema da Rádio Cultura FM, a fim de gravar um programa a convite do eclético e competente Maestro Júlio Medaglia, amigo dileto desde os anos 50. Septuagenário ele também, lembrou-se da efeméride do colega, e prazerosamente com ele gravei entrevista a abordar panoramicamente a minha trajetória. Perguntas sempre inteligentes de Medaglia foram respondidas como se estivesse a sobrevoar o meu passado. Escolhi peças curtas, mas representativas, entre aquelas existentes nos 18 CDs gravados no Exterior. Não inseri o seu Estudo-Choro, pleno de humor, para evitar, mercê da modéstia do ilustre colega, uma negação.

Júlio Medaglia (direita) e J.E.M.

Abre o programa um segmento do Concerto em lá menor de Grieg para piano e orquestra, sob a regência de Armando Belardi, gravado no longínquo 1957 e transmitido ao vivo pela Rádio Gazeta, (vide Impressões Digitais Sonoras, 10/04/07, categoria Música). Após um outro registro ao vivo em Moscou, em 1962, tem-se obras gravadas nestes últimos 13 anos para CDs internacionais. A uma arguta pergunta de Júlio a respeito de qual a minha maior emoção como pianista, frente a públicos os mais diversos em toda a carreira, disse-lhe, extraído de meu de profundis, que foi interpretar Jesus Alegria dos Homens, de J.S.Bach, na milenar capela de Sint-Hilarius, em Mullem, no silêncio e no isolamento, em memória de meu saudoso genro José Rinaldo. Eram cinco horas da manhã de um Fevereiro gélido na planície flamenga no ano de 2004, poucos dias após sua morte e ao final do último dia de gravações de um CD para o selo De Rode Pomp. Solicitei ao querido amigo e engenheiro de som Johan Kennivé que deixasse acesa apenas uma pequena lâmpada incidir tênue claridade. O extraordinário coral de Bach em transcrição de Myra Hess, que poderá ser ouvido novamente, não faz parte de nenhum CD programado, pois insight de emoções vividas, mas ecoou pelos espaços do templo como um apelo singelo (vide José Rinaldo, 25/01/08, categoria Cotidiano).
Trajetórias são como impressões digitais. Nós podemos interferir escolhendo o caminho resultante do que somos na realidade. Todas as trajetórias têm intensidades meritórias ou não. Compete-nos dar sentido à senda traçada.

This is an invitation to my readers to listen to the program “Tema e Variações”, presented by the composer, arranger and conductor Júlio Medaglia on Cultura radio, via FM, 103.3 MHz, to be broadcast on Saturday, 5 July , at 11 AM (Brazil time), celebrating my 70th anniversary.