Saúde “Sub Judice”

 J.E.M. na largada da Maratona 2008. Corrida dos 5 km.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
mora um Pai Amado.

Friedrich von Schiller (Ode à Alegria – An die Freude)

Lembrar 2004 é recordar extremos. A morte de meu querido genro José Rinaldo, um linfoma que instalou-se em meu interior, químios prolongadas e debilitantes, mas também o lançamento de quatro CDs, recitais nos lugares que amo na Europa e a família, esta proteção extraordinária que nos dá forças inacreditáveis. Se, por um lado, o vaticínio médico inicial foi plúmbeo, com prazo de sobrevivência limitado, sob aspecto outro jamais me alarmei, a entender, àquela altura que vivera bem, conseguira objetivos que na juventude pareciam-me nebulosos e constituíra uma bela descendência ao lado de minha mulher Regina. Em nenhum instante pensei em batalha perdida, mas sim na luta cotidiana a visar suplantar o mal instaurado.
Segui criteriosamente todos os conselhos de médicos competentes aos quais devo permanente gratidão. Rui Yamanishi, meu clínico geral desde 1978, Sílvio Donatangelo, Belmiro José Matos e Ana Rita Burgos, hematóloga e oncologista que me recebe todos os meses em consultas longas e minuciosas, a interpretar com competência os exames obrigatórios.
Durante os primeiros meses recebi o mesmo conselho de todos os dedicados profissionais: evite aborrecimentos, alimente-se bem, curta sua Música e prepare-se fisicamente através de exercícios sistemáticos. Tenho sido um discípulo aplicado, pois abandonei, a partir de meados de 2004, todas as Comissões da Universidade de São Paulo, pois tantas eram as reuniões que se mostravam estéreis, dedicando-me doravante à sala de aula, à edição da Revista Música e à revisão de manuscritos de Henrique Oswald. Liguei-me ainda mais aos recitais e gravações no Exterior. Baixou a adrenalina, senti-me bem e passei a praticar outros exercícios, ter mais tempo para a Música e para as leituras, cuidando também da alimentação mais selecionada. Como sempre, família e amigos leais enriqueceram o período pós-químio. A conselho de meu saudoso pai, desde os anos 60 realizo pela manhã, durante 15 minutos, os movimentos da chamada ginástica sueca.
A partir de Janeiro de 2006 corro – o melhor seria dizer troto – pelas ruas de minha cidade-bairro, o Brooklin. Três vezes por semana cinco quilômetros são percorridos com alegria e disposição. A vontade de superar o mal não é consciente, mas faz parte de um todo que aponta para a esperança. Esse lento correr tornou-se um hábito salutar. Aumentou minha disposição e prazerosamente passo por pontos que me são familiares, mas a obedecer roteiros diferentes. Aos domingos chego a percorrer seis quilômetros, devido ao silêncio das ruas. À medida que o condicionamento físico se aprimora, mais o prazer de correr, de estar vivo é real. Os entendidos falam nas endorfinas. Diria, contudo, uma concessão Superior sentir o prolongamento da existência. Nessas trajetórias vêm-me à mente muitas das idéias de posts futuros. Cruzo com muitos cidadãos que fazem o mesmo, corridas ou caminhadas. Tornamo-nos hábeis em reconhecer as calçadas em péssimo estado – quando existem – e as ruas plenas de irregularidades. Quase nada a fazer, pois o descaso faz parte da cultura de todas as nossas administrações. A situação ajuda-nos, porém, a ter aguçado um outro sentido, aquele voltado à “acrobacia”.
Passadas e respiração mesuradas desenvolvem a rara qualidade da paciência. Na minha faixa etária, o correr obedece a pulsações que não devem suplantar determinado índice, mesmo que o físico clame por uma maior velocidade. Aprende-se a ter cautela, a esperar o tempo, a controlar o limite das batidas cardíacas. Uma lição para a mente e para o físico.
Soube da Maratona de São Paulo, impossível, no meu caso, de ser percorrida em seu trajeto integral. Generosamente, a organização Yescom cuidou de dois outros percursos, que saem basicamente do mesmo ponto, com cinco e dez quilômetros. Alegra a todos os que se amoldam a essas distâncias. Com inicial temor, e logo após movido por pleno entusiasmo, inscrevi-me no percurso menor. Ao pagar em um banco a taxa de inscrição, senti-me como um jovem, não acreditando que isso fosse realmente possível após vicissitudes de anos anteriores. O Barão Pierre de Coubertin (1863-1937), fundador do Comitê Olímpico Internacional, dizia que o importante não era ganhar, mas competir. Acrescentaria que competir pressupõe, talvez, a vontade silenciosa de ganhar, mas no meu caso se traduz na simplicidade de apenas participar. Já é uma dádiva poder correr com milhares de participantes, a esmagadora maioria somente pelo prazer. Festa para todos, alegria indizível para poucos.
Ao buscar o meu kit, uma sensação inusitada. Deparei-me com uma legião com o mesmo propósito. A terceira idade tem suas compensações e logo fui atendido. Recebido o material, dele a constar camiseta, chip para tênis, folhetim com as instruções e mais o número a ser fixado no peito, fiquei deveras receoso por ter decidido voluntariamente participar, num misto de alegria e ansiedade. Fui contemplado com o número 20.544.
Confesso que dormi bem na noite que antecedeu a corrida e acordei pleno de euforia. Tinha a impressão de um primeiro recital de piano. Outra era a vestimenta daquela das apresentações pianísticas. Com orgulho coloquei o uniforme do Vitória de Guimarães – terceiro no campeonato português de 2008 – que me foi oferecido este ano em Lisboa pelo dileto amigo José Maria Pedrosa Cardoso, mas o chapéu era de minha Portuguesa de Desportos, lusa de tantas glórias e tradições igualmente. Uma multidão aglomerava-se, pois foram 12.000 participantes para as quatro modalidades: Maratona, 10 e 5 mil metros e também caminhada dessa última distância. A largada foi inesquecível. Os mais jovens e os melhores atropelaram e passaram-me com extrema facilidade na primeira subida da nova e belíssima Ponte Estaiada. Segui o conselho de meu bom amigo Jorge, presente ao evento como assistente. Asseverou-me que nos primeiros minutos deveria correr com os cotovelos apontados para fora, a fim de evitar ultrapassagens perigosas daqueles mais rápidos ou vigorosos. Na marginal de Pinheiros consegui acompanhar as passadas da maioria e já na outra subida, na Ponte do Morumbi, muitos foram ficando para trás. Novamente na marginal, sentido contrário, em direção à Avenida Águas Espraiadas, houve equilíbrio, mas na alça da Ponte Estaiada uma longa subida fez com que dezenas continuassem apenas a andar. Nesse trecho consegui ultrapassar, sem mudar meu ritmo de corrida, muitos outros inscritos. Já na Águas Espraiadas, mais uns 1.500 metros separavam-nos do término dos 5 mil metros. Cheguei no pelotão intermediário, absolutamente feliz com o meu tempo de 40’43”; diria, vivendo a alegria da maturidade da idade adulta. Com muito orgulho, fui o primeiro colocado na minha faixa etária, que incluía outros dois corredores. Todos entregaram os chips amarrados aos cadarços dos tênis e receberam as medalhas de participação, água, chocolates e frutas. Uma festa. Minha netinha Emanuela, de quatro anos, ao ver-me com a medalha pendurada no peito, abraçou-me com o sorriso puro da idade: “Vovô, eu sabia que você ia ganhar”. Sim, ela tinha razão. Ganhamos todos os participantes.

Ter recebido essa medalha foi para mim algo especial, emoção superior àquelas conseguidas nos difíceis concursos pianísticos no Brasil e no Exterior durante a juventude. As musicais apontavam para a trajetória sonora, minha companhia existencial e amorosa, a da corrida indicava o maravilhamento que é a vida. Quão bem o grande Beethovem soube entender no final da Nona Sinfonia a Ode à Alegria de Schiller (1759-1805). Humildemente entendo como dádiva o estar a participar intensamente de emoções tão fortes. Que o entusiasmo permaneça, a indicar outras aspirações.
Não posso contudo deixar de voltar à realidade. Nas próximas semanas novas tomografias computadorizadas, novos exames de sangue. Lá estará Dra. Ana Rita a interpretar os insondáveis mistérios de nossas transformações. Mas as esperanças continuam em alta. Bem haja!

São Paulo City Marathon:
In 2004, after a diagnosis of lymphoma, sessions of chemotherapy and somewhat gloomy prognosis from the doctors, I was advised to avoid stress, sedentary life, junk food and to take exercises. So, in addition to my usual daily Swedish gymnastics, I began to jog in the streets of my neighborhood, running 6 km three times a week. I heard of the annual São Paulo Marathon, held last June 1st. The race organizers also sponsored a 5km-10km fun run and a 5 km walk in conjunction with the main event for those who, not qualified for the marathon, wanted to participate for the accomplishment of having run the race at all. I registered for the 5 km fun run. This post is an account of the emotions of my first run: the start with a mixture of amateur and professional runners, the course through the city and the climbing of the new bridge (Ponte Estaiada) – for me the most difficult point of the run, where lesser trained runners were forced to walk – people lining the sides of the course to cheer the participants, the arrival at the finish line, the medal. Not bad for a cancer patient like me, a way to prove to those in the same conditions that it is possible to overcome our deficiencies and have the same life experiences others are so lucky to have.

Yasmina Reza (1959- )

Nicette Bruno e Paulo Goulart em 'O Homem Inesperado' de Yasmina Reza. Foto Beti Niemeyer.

Voilà la méchanceté du temps. Ce qu’est le temps.
Le temps: le seul sujet.

Yasmina Reza (Hammerklavier)

Há muito tempo não ia ao teatro. Minha filha Maria Beatriz assistira à peça O Homem Inesperado, de Yasmina Reza, encantando-se com o texto e também com a atuação de Nicette Bruno e Paulo Goulart. Ofereceu-nos os ingressos, como presente aos pais pela passagem dos 45 de casamento, a dizer-nos que ficaríamos fascinados igualmente. Confesso ter relutado inicialmente, por evitar sair à noite em São Paulo, mas fui com Regina ao Teatro Renaissance.
Conhecia a importância de Yasmina Reza, nascida em Paris, filha de uma violinista húngara e de um engenheiro e músico amador russo-iraniano de origem judaica. É autora de récits relevantes e peças de teatro. Algumas são montadas com freqüência nos países em que o teatro é tradição enraizada. Lera Hammerklavier (Paris, Albin Michel, 1997, 120 págs.), “Art” e L’Homme du Hasard ora em questão (Théatre: L’Homme du hasard, Conversations après un enterrement, La Traversée de l’hiver, “Art”. Paris, Albin Michel, 1998, 251 págs.). Confesso preferir ler textos teatrais a assisti-los ao vivo. Talvez essa prática tenha origem nos retornos que realizo quando de frases entendidas essenciais e nas encenações criadas em meu imaginário.
Quando da visita a Hammerklavier, a curiosidade maior veio do título homônimo da Sonata para piano op. 106 de Beethoven, obra monumental. A ascendência musical de Yasmina Reza poderia parecer pouco importante, não fosse a ligação afetiva que manteve com seus progenitores, a receber toda uma herança sonora que perpassa por seus textos, não na superficialidade facilmente detectável, mas num conhecimento de escutas atávicas. Hammerklavier é um conjunto de curtas narrativas basicamente autobiográficas, constância da autora, a revisitar desde o passado longínquo, enriquecido por lembranças afetivas nas quais seu pai sobressai. Escrito dois anos após L’Homme du Hasard, não deixa a autora de colocar os problemas do cotidiano, existenciais em sua essência, de maneira a revelar, sem barreiras, o seu pensar do instante, pois nada parece ficar nebuloso, antes mostra-se despojado, sem censura. Nessa narrativa, parte de um repertório da música sacralizada, motivo de recordações, é projetado nas intenções de Yasmina Reza. Beethoven, Schubert, Haëndel, Mozart, Stockhausen são ouvidos em concerto e a lembrança de seu pai emerge. A referência a Hammerklavier faz-se necessária para o melhor entendimento de O Homem Inesperado, pelas reiteradas menções à música e a compositores e pelas reflexões sobre a existência.
Quanto a L’Homme du Hasard, O Homem Inesperado na tradução de Flávio Marinho para o Português, tem-se um texto de humor aparente. Contudo, é bem mais perspicaz. Poder-se-ia entender como um acúmulo de situações humanas não resolvidas, mas a atingir com o desenrolar da peça o final feliz. Um primeiro impacto já é salutar. Sabe-se que a concentração estará voltada ao texto e à interpretação de dois atores. É uma salvaguarda para a não dispersão das idéias, a depender da qualidade dos intérpretes. O tema aparentemente é banal: Paul Brodsky e Marta, ele um escritor famoso, ela uma mulher de classe média com aspirações absolutamente rotineiras, leitora anônima das obras do autor à sua frente, não se conhecem e estão sentados em poltronas vizinhas num comboio que os levará de Paris a Frankfurt. Durante o decorrer da peça, até quase o seu fim, tem-se solilóquios alternando preocupações do homem de nossos dias, solidão, carência afetiva, hesitação, neurastenias, não aceitação da velhice, frustrações existenciais, mas a contrapor momentos de fina dose de humor. O Homem Inesperado revela a morna angústia do homem urbano, sua indiferença diante dos outros, seu egocentrismo de contágio.
A evidenciar a familiaridade com a música, Yasmina Reza menciona compositores e seus atributos na fala de Paul Brodsky: Debussy em duas peças sacralizadas que ele dedilha, a impossibilidade de poder tocar L’isle Joyeuse ou obras de Scriabine, ou ainda Scarbo, de Ravel, sua dificuldade no uso dos pedais, sentindo-se bem em não usá-los em um Impromptu de Schubert. Menciona Cenas da Floresta, de Schumann, também uma melhora de sua mão esquerda graças a Bach e o melhor desempenho de seu amigo Youry Kogloff ao tocar. Pensa: “Fácil ouvir os outros, ouvir-se a si mesmo, eis a dificuldade”. Nesse monólogo interior, a comparação com Youry é musical; no início da peça, refere-se a uma relação amorosa do amigo com uma japonesa. Desvantagens a ferirem Paul Brodsky.
Todo texto teatral depende fundamentalmente de fatores que interferem na apreensão de conteúdos. Mais focalizado o aspecto extratexto, menor a captação de mensagens. A globalização fomentou egos exagerados, que privilegiam encenações de impacto, deixando o essencial em segundo plano. Meritórias pois a direção de Emílio de Mello e a cenografia e concepção de imagens de Marcos Flaksman para a edificação de O Homem Inesperado. Chegou-se ao multum in minimo, a proporcionar a plena valorização do texto de Yasmina Reza.
Admiro há décadas o talento e a vocação para o teatro de Nicette Bruno e Paulo Goulart. Conservando a essência do DNA cênico, apesar de atuarem freqüentemente em novelas televisivas, não se deixaram contaminar, quando na ação teatral ao vivo, pelos vícios daquele meio, amálgama de joio e trigo, onde o talento de alguns grandes atores e a mediocridade plena de outros convivem num universo repetitivo. Versáteis, íntegros e competentes, Nicette Bruno e Paulo Goulart estiveram extraordinários em suas representações. Domínio da cena, dicções perfeitas a nada se perder, carisma insofismável do casal ficam evidentes. O texto inicial de Paulo Goulart e o brilhante final de Nicette Bruno testemunham maestria absoluta. É um privilégio poder assisti-los em peça teatral que poderia tornar-se verdadeira armadilha, não fossem suas qualidades maiúsculas. Comovente performance.

Ouça por J.E.M.:
- A. Scriabine – Estudo op.8 no.12 (Pathétique)
- R. Schumann – Humoresque op.20 – Einfach
- Claude Debussy – Pour les tierces

I am not a theatergoer – for me plays work better on the page than on the stage. But I was given tickets for Yasmina Reza’s “The Unexpected Man”, as a wedding anniversary gift from my daughter. So I went to see the play with my wife – reluctantly, I must confess. I was already familiar with the works of the French playwright and novelist Yasmina Reza, having read two of her books: the play “Art” and “Hammerklavier”, a collection of autobiographical sketches showing the affectionate relationship with her father and their love of music. The title refers to one of the most challenging of Beethoven’s piano sonatas. As to “The Unexpected Man”, my initial reluctance turned into bliss. The plot is simple: an understated woman (Martha) sits opposite a famous writer (Paul Brodsky) that she admires while traveling on a train. As they observe each other silently, the audience listens to their thoughts in a series of alternating interior monologues about man’s solitude, doubts, emotional disorders, frustrations, the barriers one erects against each other, all tempered with a subtle sense of humour. Only at the very end the couple will exchange a few words. Reza’s familiarity with music is stated in Paul Brodsky’s mentioning of a series of pieces by great classical composers. The work of the production crew is praiseworthy, but what makes the play outstanding is the superb performance of two great actors – Paulo Goulart and Nicette Bruno – displaying talents shaped during lives on the stage. It was a privilege to watch actors of this caliber in a play that in less competent hands could turn into a trap. Their standard of acting is sheer delight.

Reflexões sobre a Essência

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)

Mais l’amour de la danse
n’est point amour de toi qui danses.

Antoine de Saint-Exupéry

Já abordei o fascínio inicial que me conduziu à leitura de Citadelle, de Antoine de Saint-Exupéry, e o fato marcante que me levou a eleger naturalmente o livro como preferencial após o acúmulo de tantas outras leituras no peristilo dos setenta anos (vide Antoine de Saint-Exupéry, categoria Literatura, 09/11/07). A complexidade da obra, a atentar para todas as possibilidades do homem, destino, almejos, condições, aspectos envolvidos in conditio sine qua non sob o manto da responsabilidade, merece apreciações. Tenho-a sempre em meu quarto, ao lado do livro percorrido no momento. Sendo uma enciclopédia da essência humana em suas manifestações mais amplas, livro eleito pois, visito excertos com constância. Trazem-me a paz interior necessária para outro percurso, a obrigatoriedade do sono. Ao longo, como já observara, transcreverei trechos, transmitindo ao leitor conceitos fundamentais desse extraordinário pensador que foi Saint-Exupéry.
Estava a trotar pelas ruas de minha cidade-bairro, como faço três vezes por semana, quando o olhar encontrou algo que me ligou a olhares anteriores de Citadelle e a analogia se fez. Um pedinte, aparentando a minha idade, tocava um pequeno tambor e angariava alguns trocados. Passei por ele no meu lento correr, deixei umas moedas e continuei. Veio-me imediatamente uma passagem de Citadelle inserida no capítulo CIV. Saint-Exupéry escreve: O selvagem acredita que o som é somente emitido pelo seu tambor. E ele adora o tambor. Um outro acredita que o som está nas baquetas e ele adora as baquetas. Um último acredita que o som é devido à pujança de seu braço e o verá orgulhoso com o braço erguido. Você reconhece, sim, você, que o som não está nem no tambor, nem nas baquetas nem nos braços, e denominará verdade o toque de tambor (leia-se interpretação) do tamborileiro.
Tantas décadas acumuladas e mais me dou conta de que caminhamos para a “glorificação” do estereótipo, de tudo aquilo que possa causar impacto. Mídia, holofotes potentes, a necessidade absoluta do emergir sem atender à ética. O homem tem que ser visto, bajulado, incensado, e os valores intrínsecos ficam à deriva. Compactuando com setores privados, o meio político distorcido, a acalentar a corrupção endêmica, antítese de captações morais e éticas. Perdemos o norte pela instauração da mentira como prática e norma. Tambor, baquetas e braços fortes continuam em escala geométrica a prevalecer sobre o verdadeiro toque do tambor, a essência essencial a motivar a transmissão. O pensamento metafórico de Saint-Exupéry serve para todas as áreas.
Na Música, por exemplo, quando o enfoque é menos voltado à real qualidade da interpretação e mais à promoção. Esses traços mais e mais se tornam dominantes a mostrar que dificilmente haverá retorno.
Tambor, baquetas e braços, nessa alegoria, sintetizariam o próprio Sistema, não interessado nos aprofundamentos que possam levar à elevação cultural de um povo, mas ao que é aparente, que brilha, que anestesia. Os governos em nosso país, sejam eles quais forem, voltam-se impreterivelmente à manutenção de um status quo para populações que não reivindicam com firmeza, por absoluta letargia, os atributos ou direitos a formarem a noção de cidadania sob todas as égides. Jornais e revistas estão sempre a buscar anunciantes que deságuam publicidade voltada à coletividade, entendida esta como desprovida de quaisquer julgamentos críticos. As propagandas estarão a compor o todo, povoado por tantos artigos visando ao sensacionalismo ou ao vazio das idéias; os canais abertos, salvo raríssimas exceções, exibem programas endereçados preferencialmente àqueles incapazes de apreciação mais ajuizada. A grade televisiva volta-se ao dirigismo do não pensar. Exterminaram-se princípios voltados à cultura como meio de elevação de um povo. Como exemplo, os grandes shows de “música” popular reúnem milhares de pessoas, que movimentam seus braços atendendo aos apelos previamente ensaiados no culto a ídolos descartáveis. Lembram as multidões “eufóricas” em seus gestos nos tempos de Hitler. Em ambos os casos, a presença da distorção. E as televisões insistem em pormenorizar gestuais. O gesto coletivo que inibe a reflexão.
Saint-Exupéry, nesse mesmo capítulo, continua: aquele que lê uma carta de amor sente-se lisonjeado independentemente da tinta e do papel, pois ele não buscava o amor nem no papel nem na tinta. Perde-se o conteúdo, quando esse princípio do essencial desaparece. Mais e mais volta-se o homem à tinta e ao papel. A mensagem contida teria pouca importância.
O piloto, escritor e pensador, personagem de um império imaginário e atemporal que é Cidadela, entende que seu reino não poderia ser jamais entregue ao geômetra que venera o triângulo usado para projetar a construção do templo. Há essencialidades na maneira de comandar um povo, e estas perdem o sentido na medida em que se desviam da compreensão intrínseca das reações humanas. Não estaríamos, mais acentuadamente em nossos dias, afastando-nos da própria natureza do homem? Não teria perdido ele, nessa globalização sem retorno previsível, a percepção da individualidade, integrando-se à massa informe de um rebanho sem nome? Não necessitaria o homem repensar, se ainda há tempo, todos os valores que o norteiam? Perguntas que surgem enquanto continuo minha lenta corrida pelas ruas de minha cidade-bairro, o Brooklin.

As I was jogging in my neighbourhood, I passed by a beggar playing a drum. In a flash a passage of Saint-Exupéry’s book Citadelle (The Wisdom of the Sands) came to my mind. The main character wonders from where the sound of a drum comes. Is it from the drum itself? From the sticks? From the player’s arms? Just to conclude it comes from the drummer’s interpretation.This was the starting point of this post, a consideration on the modern society tendency to promote the false and shallow to the detriment of the genuine and substantial. Shouldn’t we rethink our values, searching for the hidden essence behind the superficial appearance?