Três Jóias Portuguesas

J.E.M. em Recital no Convento dos Remédios, Évora. Foto:António Gavela

Nesta semana os recitais de piano deram-se nessas cidades, que mantêm viva parte expressiva da história de Portugal. Em posts anteriores, já mencionara parcelas das trajetórias distintas das três urbes (vide Coimbra, Évora e Braga, posts publicados aos 12, 22 e 31 de Maio de 2007, respectivamente, categoria “Impressões de Viagem”).
Évora é mistério e magia. O muito bem conservado centro histórico, cercado por altas muralhas, contém ruelas estreitas, abrigando igrejas, conventos, ermidas, casario típico do Alentejo e peculiaridades só encontráveis nessa bela cidade. O recital, como em anos anteriores, deu-se no Convento dos Remédios. O altar-mor, com a expressiva imagem de Nossa Senhora dos Remédios ao centro, é de fina talha e revela a maestria dos artistas barrocos.
Promovido pelo Eborae Musica, tão bem dirigido pela Professora Helena Zuber, o recital fez parte da intensa programação da exemplar Instituição de Ensino. Viajamos com a querida amiga e professora Idalete Giga, gregorianista e Diretora do Centro Ward de Lisboa. Durante o percurso pela planície alentejana, recitou-me alguns versos de sua autoria. Mercê de ser nascida no Alentejo, creio que as linhas que seguem transmitem esse amor a Évora e à sua magia, pois ao longo de milênios tantos povos passaram pelas terras da cidade:

Évora
É a brancura
de tua veste
que me ilumina
o coração
És neve pura
que o sol aquece
Moura encantada
dormes no seio
da solidão

A cidade do Porto é meu epicentro quando os recitais são ao norte de Lisboa. Fico sempre em casa de minha dileta amiga, Professora Maria de Lurdes Álvares Ribeiro, a Kiki (vide Kiki, 2 de Junho de 2007, categoria “Impressões de Viagem”). A viagem de comboio até Coimbra é rápida. Em sendo este o quinto ano consecutivo que retorno à cidade para recitais, nem sempre os meses são coincidentes. A visualização de Coimbra em estações diferentes é esplêndida. Quando o comboio atravessou a ponte, ao percorrermos o trajeto Lisboa-Porto, as tonalidades da luz refletida nas águas do velho Mondego eram únicas. Em uma das colinas, a Universidade se apresentava como um cartão postal indelével. Para minha filha Maria Fernanda foi um deslumbramento, pois era a primeira vez que visitava a cidade, por séculos tão profundamente influente na cultura brasileira. Rever o público coimbrão e professores ilustres de tantas áreas é sempre motivo de felicidade. Meu colega e notável pesquisador musical José Maria Pedrosa Cardoso fez uma competente introdução do repertório apresentado: Rameau (1683-1764), Beethoven (1770-1827), Gabriel Fauré (1845-1924) e os extraordinários compositores portugueses Carlos Seixas (1704-1742) e Francisco de Lacerda (1869-1934). Seixas nasceu em Coimbra. Pela manhã retornamos ao Porto. Luz outra ao atravessarmos a ponte. Coimbra e suas surpresas.
Braga tem algo de espiritual para este intérprete. Não sem razão, Jamlig Tenzig Norgay, filho do sherpa Tenzig Norgay, que em 1953 foi o primeiro a atingir o topo do Everest, juntamente com Edmund Hillary, ao atingir o cume em 1996 relatou todos os preparativos, a emoção conseqüente e os resultados finais em livro denominado Em Busca da Alma de Meu Pai. Há toda uma reverência em torno do seu progenitor. Mutatis mutandis, Braga tem para mim uma conotação mística. Retornar à cidade é reencontrar essa aura de meu pai. Cada pedra das velhas calçadas faz-me dele lembrar. Sinto-o em minha apresentação, verdadeiro estímulo espiritual. O recital foi patrocinado pelo Departamento de Música da Universidade do Minho, dirigido pela dedicada Professora Elisa Lessa. Em Maria Fernanda, que pela primeira vez esteve em Braga, a emoção era visível.
Algo extraordinário se passou. O recital deu-se no Salão Nobre dos Congregados da Universidade do Minho, na Avenida Central. Entre 1918-28, meu pai trabalhou em uma firma comercial bem próxima ao local, nessa mesma Avenida. Comentei peças do recital e uma alegria muito intensa povoou o meu pensar e a minha interpretação. A alma de meu pai presente? São tantas as hipóteses que se apresentam. Competentes professores ouviram minhas reflexões faladas e sonoras. Foi bom conviver um pouco mais com os amigos Luís Pipa, excelente pianista, Helena Vieira, aplicada pedagoga, Rui Feio, administrador atento e sensível. Em sendo a derradeira apresentação nesta longa tournée pela Bélgica e Portugal, fica registrado esse feliz encontro com algo precioso para mim: as origens que nos acompanham durante nossas trajetórias.

A tour in Portugal with performances in Évora, Coimbra and Braga, three cities with which I have strong links of affection.

Lenda Viva

Comparada às instituições de ensino de música na Europa, a Academia dos Amadores de Música é pequena e instalada em local até acanhado, no segundo andar de velho prédio situado à Rua Nova da Trindade, em Lisboa (vide Academia de Amadores de Música, categoria “Impressões de Viagem”, 26/05/07). Contudo, o que fez com que se tornasse verdadeira referência foi o fervor a impulsioná-la em períodos distintos.
Sua criação data de 1884. A partir da ação determinante de figuras ilustres de Portugal, nasceria a Real Academia de Amadores de Música, hoje designada Academia de Amadores de Música. Assistiu a instituição a inúmeros empreendimentos, que se tornaram exemplos na cultura musical portuguesa.
Logo após as guerras de 1914/18 e 1939/45, sofreria a Academia sensíveis declínios, que soube atenuar com o tempo. Frisem-se duas direções extraordinárias, integração absoluta na condução da instituição. Primeiramente, o Padre Tomás Borba e, mais tarde, o grande compositor e pensador português Fernando Lopes-Graça (1906-1994). O ilustre músico entrou para o corpo docente da Academia em 1941, participando da direção juntamente com o Padre Tomás Borba até a morte deste.
A Academia está a complementar o ensino de Música em Portugal de maneira competente, corroborando a ação do Conservatório Nacional, situado bem próximo, do qual o Padre Tomás Borba foi igualmente um dos mais ilustres professores.
Em 1949, Lopes-Graça seria mentor da criação do coro misto. Durante o longo período em que essa figura maior da música portuguesa do século XX esteve à frente da Instituição, foram criados movimentos como a Sonata, realização de concertos históricos, guardiões da cultura musical de vanguarda em Portugal. José Gomes Ferreira relata, em livro já mencionado no post de Maio passado, debates acalorados, nos quais personagens ilustres nas áreas de música, artes plásticas e literatura confrontavam idéias.
Reduto de resistência ao regime ditatorial de Salazar, a Academia teria sempre de enfrentar sérias dificuldades. Instalada há décadas no mesmo endereço, segue seu caminho honesto, dedicado, e o fervor impregnado em suas paredes, que tanto viram e ouviram, testemunha o compromisso.
A convite de Lopes-Graça, dei meu primeiro recital de piano em Portugal em Julho de 1959, na velha Academia. Personalidades convidadas pelo generoso músico lá estiveram e, para o jovem que eu era, foi um maravilhamento. Dias após, Lopes-Graça generosamente convidou-me para o convescote anual do coro da Academia de Amadores de Música, por ele dirigido. Fomos de comboio a cantar até Sintra. Plena felicidade.
Tantas vezes cá me apresentei… Nas décadas de 80 e 90, visitava, sempre que possível, o extraordinário músico Lopes-Graça, personalidade de fortes posições, contrárias à ditadura imposta por Salazar, o que lhe valeria sérios dissabores. Jamais cedeu em suas convicções. Um íntegro.

Nesta semana, dou pela primeira vez um curso na Academia. O ótimo professor Antônio Ferreirinho, violonista e músico sensível, organizou com cuidado, junto à Direção da Academia, a programação intensa: seis conferências e seis master classes. É comovente a participação de alunos tão interessados nas conferências, apresentando-se com imenso amor à música. Ouço talentos autênticos, muito bem preparados por mestres competentes.
Revisitar a velha Academia e subir as escadas de madeira, gastas pelas passadas de tanta história, fazem-me refletir e perceber que valeu à pena trilhar um caminho amoroso, em comunhão total com a música. Lopes-Graça está lá a assistir. Não é difícil entender seus eflúvios. Basta liberar o pensamento.


Academia de Amadores de Música – A Living Legend
Once again in Lisbon, for the first time I gave a course at the Academia de Amadores de Música: six conferences followed by six master classes. Revisiting the Academia, climbing its old stairs full of the memories of remarkable moments of the past, feeling the impalpable emanations of the great Portuguese composer Lopes-Graça all over the place, everything stirs up pleasant sensations, making me think my lifetime commitment to music was well worth the effort.

Meu Desiderato Sonoro

Detalhe da torre da Capela de Sint-Hilarius, séc. XI, Mullem - Bélgica

O retorno à Capela de Sint-Hilarius, em Mullem, é sempre precedido de expectativa (vide Mullem, 01/05/07 e A Comunhão das Pedras, 03/05/07, Categoria Impressões de Viagem). Se a comunhão se dá entre o templo e o intérprete nesses quase dez anos, considere-se que a permanência deste é tão ínfima comparada aos dez séculos da construção da Capela. Sob outra égide, durante um ano preparo-me para viver os três dias de magia, nos quais as pedras milenares, o piano absoluto, a apurada técnica do engenheiro de som Johan Kennivé e eu nos integramos. Nós dois estamos sempre a buscar os limites de nossas possibilidades.
Nestes três dias frios na planície flamenga, só existe um compromisso, expressado em nossa serenidade e comunhão com o ambiente. Questiono sempre a respeito da noção de felicidade. Ela existe no sentido de sabermos o patamar para a colocação de nossos almejos. Creio que, nesses dez anos, Mullem tem sido o meu norte sonoro, o lugar em que o resultado da decantação da idade desvela a intensidade da frase de meu amigo André Posman da Rode Pomp, que antes da primeira gravação na planície disse-me afetuosamente que chegara o momento em que deveria deixar a minha herança musical. Esta, adquirida através das décadas, assim entendo hoje, tem o seu momento de encontro com o registro. Muito está em texto anterior (vide Interpretação IV, Categoria Música, 29 de Fevereiro), quando abordo a síntese. Ampliaria o conceito. Haveria, em acréscimo, a síntese da identificação. Sint-Hilarius ali está em sua religiosidade milenar a acolher o nosso de profundis. Como reza o Eclesiastes, há “O” tempo para tudo. Importa entender a sua passagem e viver a realidade de sua transitoriedade. Os três dias de gravações fixaram aquilo em que acredito, a leitura do autor escolhido e acalentado durante o ano. Essa interação, muito menos do que estipular juízo de valor, serve para externar o limite pessoal, a fim de que a herança não permita o mínimo sentido do simulacro. Gabriel Fauré (1845-1924) foi o compositor escolhido. Música do inefável. As modulações constantes que convidam às diferenciações dos timbres, aos diversos relevos mercê da polifonia de extrema elegância e à pedalização plena de flexibilizações, ecoaram pelas paredes acolhedoras do templo.
Após os dias mágicos, a volta a Gent, nesta gélida manhã, faz-me considerar Sint-Hilarius. A Capela tem-me acolhido generosamente nestes dez anos. Ela permanecerá a acalentar tantos sonhos de outros músicos, como os meus, nas próximas décadas ou séculos.

During three nights, in the millenary chapel of Sint-Hilarius, in Mullem, I recorded a CD with the ineffable music of the French composer Gabriel Fauré (1845 – 1924). Now, on my way back to Gent, I think of the past, on how generously this chapel has received me for the last ten years and on how it will go on fulfilling the dreams of other musicians, as it did with mine, for the next decades, or centuries.