O Espírito de Síntese

Gravura japonesa - Metamorfose da Lua, tocador de biwa. Autor: Hônen. 1891

Le progrès en art
ne consiste pas à
l’étendre ses limites,
mais à les mieux connaître.

Georges Braque

O tema é sempre instigante. Haveria período de regresso às estruturas e formas clássicas por criadores e intérpretes, após a chegada à plena maturidade? Mencionara texto de Elliot Jaques (vide Leituras sobre o Himalaia (III), categoria Leituras e Personalidades, 01/02/08), no qual fases distintas em torno da maturidade fazem-se atuantes.
Seria possível entender que o ser humano, ao atingir a plenitude da atividade, tenha reflexões em torno de um ocaso que, apesar de mais ou menos distante, antolha-se real, iniciando, mesmo em pleno desenvolvimento criativo, o caminho em direção à síntese. Pareceria normal esse trilhar, nem sempre aceito por muitos ao “não” sentirem realidades que se aproximam.
A revisita a padrões mais tradicionais, é seguida por quantidade apreciável daqueles que se dedicam às artes, criando ou reproduzindo – há sempre outra categoria de criação destinada ao intérprete. Não temos na língua portuguesa uma palavra equivalente à francesa classicisation, a definir essa “evolução” natural ao passado. Temos classicismo, que não tem o mesmo alcance. Contudo, a classicisation seria o debruçar de um criador sobre técnicas que já foram utilizadas. O novo approach traria, sob outra égide, “economia” de todo o material antes empregado, a depender das individualidades. O regresso estabelece o chamado espírito de síntese. Menos propenso a novas aventuras no campo da arte, todo o acervo apreendido ao longo da trajetória estaria como salvaguarda do que virá a ser criado.
A uma pergunta minha sobre dissertações e teses, o ilustre jurista e professor Guido Soares disse-me, no início dos anos 90, que a última das teses universitárias deve versar sobre aquilo que o docente mais conhece. Trata-se de um olhar, como se estivesse sobrevoando a sua especificidade. Contempla o conhecimento, sem tergiversar, pois a competência jamais assim deve proceder, e nesse sobrevôo vêm à pena o acúmulo da trajetória, os conceitos definitivos. Teríamos, pois, a síntese dimensionada.
Inúmeros foram os compositores que nos últimos anos de vida tiveram essa permanência na síntese. O caso de Franz Liszt (1811-1886) é flagrante. Dos anos de absoluto arrojo piano-virtuosístico, em que nenhum desafio deixava de ser transposto, à Sainte-Elisabeth e Christus, evidencia o autor o desinteresse pelo efeito até superficial e a concentração volta-se a interesses espirituais a agirem sobre a composição. Quando escreve Nuage Gris, pequena peça de apenas 48 compassos, dir-se-ia que a sínteses da síntese lá está contida. Escrita aos 24 de Agosto de 1881, a pequena peça revela algumas das mais marcantes características estruturais do compositor.
Do romantismo exacerbado, Alexander Scriabine (1872-1915) encaminha-se progressivamente ao entendimento da música como integrante de outras artes, num amálgama absoluto. Nos últimos anos de existência, a aspiração místico-reflexiva tornar-se-ia decisiva. Contudo, ingredientes do técnico pianístico, paradoxalmente, permaneceriam íntegros. Claude Debussy (1862-1918) realiza com os Études para piano, de 1915, síntese absoluta de seus procedimentos. Portador de um câncer que o levaria à morte, reconheceria, no período da composição da obra, que ela estava no cimo da criação. Meses após finalizar os 12 Études, escreve uma pequena peça de 21 compassos, Élégie, rigorosamente de síntese, onde nenhuma concessão existe, a evidenciar profunda austeridade.
Em aspecto outro, Henrique Oswald (1852-1931) recolhe-se no último decênio de vida à composição de obra sacra, movido por vários fatores. Sua obra camerística do período carrega elementos despojados, plenos de processos reutilizados, mas surpreendentes quanto ao emprego. Gilberto Mendes (vide Gilberto Mendes, Categoria Música, Personalidades, 13/10/07), ao escrever Étude de Synthèse a nosso pedido, buscou os acordes que mais tiveram guarida em seu pensar musical. Com fluidez, esses povoaram uma pequena peça em visitação amorosa ao passado.
Se os poucos exemplos citados estariam a revelar um retorno a padrões mais tradicionais por parte de tantos criadores, não se descarte a presença da síntese em compositores do nível de Franz Schubert (1797-1828) ou Wolfang Amadeus Mozart (1956-1991), a atestar que o caminho da classicisation pode acontecer na denominada “juventude da idade madura”, segundo a conceituação de Elliot Jaques.
Se a música depende prioritariamente do intérprete para sua execução, não se pode excluir o espírito de síntese que ocorreria na plena idade madura. A leitura de uma partitura é sempre desveladora de segredos. Aspectos ligados ao mistério da criação, contudo, pareceriam insondáveis. Se, sob certa égide, o intérprete deveria apreender a trajetória de um compositor em direção à síntese, sob aspecto outro é a sua própria que está em questão em período preciso da existência. A classicisation pode ocorrer, a depender do mundo interior de cada intérprete. A composição lá está para a leitura que dará vida sonora à partitura. O entendimento na idade madura pode revelar segredos que passaram despercebidos décadas antes. Ao tocar em 1955 uma obra de Robert Schumann (1810-1856) para a extraordinária Guiomar Novaes (1894-1979), disse-me ela que ingredientes só são revelados com o transcorrer da vida e que apenas naquela época compreendera conteúdos de alguns quadros do Carnaval op. 9 do grande compositor alemão, antes não desvelados em seu entendimento. Frise-se, a interpretação dessa obra sempre esteve em nível elevado na execução de Guiomar Novaes.
Observando-se gravações de pianistas que viveram muito e tiveram registros fonográficos das mesmas obras em épocas distintas, pode-se compreender esse espírito de síntese. Poissons d’or, de Claude Debussy, tem duas interpretações distintas por parte de Arthur Rubinstein (1887-1982), sendo que a gravação derradeira mantém, mais serena, uma primazia quanto às intenções.
Cláudio Arrau (1903-1991), nas entrevistas a Joseph Horowitz em 1980-1981, revelaria: “Quando nos meus vinte anos, as pessoas achavam que tocava muito rápido. Isso durou anos. E eu assim procedia pelo amor físico relacionado ao piano e aos meus dedos. Talvez buscasse a ovação. Conscientemente há muito tempo, muito tempo mesmo, eu assim não procedo. Num certo sentido, é para mim igual agradar ou desagradar. Preocupar-se com a reação do público é algo que pode realmente assassinar a interpretação”. Continua o grande pianista; “Você sabe, todos aqueles que questionam sobre minha idade falam imediatamente em serenidade e transfiguração. É um absurdo. A intensidade expressiva, na minha opinião, é muito mais forte, mais concentrada em comparação aos anos de minha juventude. Há, atrás dessas conceituações uma ilusão rotineira. As pessoas acreditam que, com a idade, tornamo-nos serenos. Ocorre exatamente o contrário. Amamos muito mais a vida e sentimos muito mais fortemente. Imaginam que ficamos indiferentes e até mais relaxados. Eu acredito que isso ocorra com a maioria, que se enfraquece ao chegar à velhice. Todavia, se durante toda a vida você foi intenso, será ainda mais ao chegar a idade avançada”.
Seria possível imaginar a síntese como pertencente a um patamar preciso, mas a ter como salvaguarda o momento desconhecido que leva à depuração. Seria igualmente oportuno ter-se em mente que, basicamente, não há antagonismos entre as distintas fases. A própria caminhada faz com que a idade madura, que leva à síntese, acumule imagens e as selecione. Essa escolha do já visto e daquilo que está para acontecer faria a diferença na criação e no interpretar a obra conclusa.

On how a synthesizing tendency seems sometimes to prevail in the later works of those who create art or demonstrate it. It is the artist’s revision of his own earlier periods, leading to the full expansion of the techniques previously employed. This revisitation of artistic standards of the past and their combination into a new and coherent whole, more restrained in style, is what I call “spirit of synthesis”.

Origens e Trajetória

Silêncio! Guitarra minha,
Deixa ouvir, deixa cantar,
À branda luz do luar
A virgem que adoro e sigo.
Rumores que ides passando
Pelos roseirais em flor,
Vinde ouvir o meu amor.
Sonhando amores comigo.

Simões Dias

O Fado, como expressão significativa da alma portuguesa, tem sido objeto de estudos os mais diversos quanto à qualidade de aprofundamento. É menos provável a penetração, por musicólogos ligados à universidade em Portugal, na temática que tanto revela conteúdos da raça. Explica o fato a abundante ocorrência, em terras lusitanas, da manifestação da música denominada culta ou erudita, a levar quantidade apreciável de estudiosos a se debruçar sobre uma rica informação que se estende basicamente da Idade Média aos nossos dias.
Quando um musicólogo da dimensão de Rui Vieira Nery detém-se na temática do Fado, está-se diante da avaliação competente, do levantamento histórico-musical pormenorizado e do olhar crítico insofismável. Vieira Nery tem oferecido preciosos contributos à comunidade internacional, revelando e divulgando compositores eruditos conhecidos ou não, e até mesmo anônimos que produziram em Portugal criações à altura do que se conhece em outros países da Europa, assim como observando conteúdos sociais pertinentes à Música como um todo. Escreveu mais recentemente um livro da maior importância para as culturas de nossos dias (Vieira Nery, Rui. Para uma História do Fado. Portugal, Público-Corda Seca, 2004, 301 págs.) A precedê-lo, cuidou da elaboração de 19 textos da preciosa coletânea de 20 CDs publicada pelo diário o Público, penetrando no âmago da imagem sonora do universo do fado desde as origens gravadas (“O Fado do Público”. Lisboa, Público e Corda Seca, 20 CDs, 2004). Essa enciclopédia fadista, que teve publicação hebdomadária, levaria Vieira Nery à precisa sistematização que o tempo estreito exigia. O amálgama foi absoluto. A audição de fados registrados fonograficamente e textos lúcidos do musicólogo estabeleceram a ponte necessária a ser transposta, a fim de que a obra literário-musical a seguir adquirisse o sentido de abrangência, a atender às expectativas do leigo e daqueles que captam de maneira mais contundente a linguagem musical e literária do Fado. A revisão dos textos que acompanham os CDs levou à ampliação da pesquisa sob todos os fundamentos, a tornar Para uma História do Fado em seu formato livro, um marco nesse aprofundamento que se faz necessário em torno do Fado. Este – apesar de mutações naturais – traduz expressões da alma de um povo, genuinamente autênticas, resultando em salvaguarda para o estabelecimento de critérios alentadores.

O caminho escolhido por Vieira Nery tem o olhar acadêmico, sem contudo apresentar as armadilhas de um texto da Academia, invariavelmente freqüentado por aqueles que a ela pertencem. Sem as regras que regem artigos e teses universitárias, dificilmente um candidato encontra o norte representado pela aceitação. Estar na Universidade de Évora e dela ser um expoente, mas entender a amplitude de um tema que, aceito na Instituição, tem, no caso de Para uma História do Fado, destinação mais ampla, é tarefa árdua, a transparecer, paradoxalmente, leveza, conteúdo e esclarecimentos, muitos deles definitivos.
O livro está dividido em sete capítulos. Neles, o autor, a partir daquilo que afirma no prefácio, como o estar ciente da “consciência tranqüila no plano do rigor de fundamentação bibliográfica e documental”, estabelece das origens à contemporaneidade a trajetória do fado. Curiosamente, data de 1822 a primeira menção à palavra Fado com conotação musical, escrita por um geógrafo italiano, Adriano Balbi, que a ele se refere como uma das danças populares “mais comuns e notáveis do Brasil”. Alguns anos após, um capitão francês faria menção à dança em terras brasileiras. Poder-se-ia dizer que os capítulos da obra não sofrem descontinuidade e os aspectos fulcrais referentes ao Fado lá estão inseridos, estrategicamente articulados num sentido harmonioso. Lê-se a importância das danças afro-brasileiras, a penetração do Fado na capital portuguesa, todas as muitas transformações que sofreria o gênero, tanto sob o aspecto da própria estrutura como das ingerências políticas. Vieira Nery percorre o roteiro do Fado, suas “mutações” através da história, dos meios menos cultos ao Teatro de Revista, assim como a prática futura nas casas típicas onde pode ser ouvido. O autor acompanha a recepção pelos meios de divulgação, desde os primórdios. Quanto ao Teatro de Revista, aponta os direcionamentos, a eclosão do Fado em palco com rica coreografia, onde não faltam bailarinos, guitarristas e outros músicos. Pormenoriza também o Fado no cinema e sua aceitação.
Ao longo desse entrelaçamento nos capítulos, ressalte-se a intrigante associação, ou contágio, poder-se-ia acrescentar, das manifestações ideológicas, do olhar atento do Estado frente ao conteúdo das letras. Frise-se que Salazar teria confidenciado ser o Fado deprimente. Após o 25 de Abril de 1974, ideologias diferenciadas e efervescentes têm atuação no gênero como um todo, até o denominado “Novo Fado”. Em sendo o Fado uma categoria musical em que a letra é absolutamente entrelaçada à música, mesmo nos textos mais prosaicos, a possibilidade de mensagem que possa ferir susceptibilidades do establishment é enorme e tem seu preço a depender dos regimes.
Para uma História do Fado é farta e pertinentemente ilustrada. Poder-se-ia dizer que nenhuma das inúmeras ilustrações deixa de ter a sua importância. O olhar corrobora a absorção do discurso de Vieira Nery. O amálgama texto-iconografia encaminha o leitor a uma viagem ao universo do Fado. Frise-se a quantidade extraordinária de músicos e artistas outros que, na pena do autor, adquirem vida e estão a permear essa saga fadista, permanente libelo da alma portuguesa, tão rica em tantos outros gêneros musicais espalhados pelo território lusitano. A vasta bibliografia enriquece o conteúdo da obra, a indicar rumos aos interessados.
É significativa a dedicatória de Rui ao seu pai, Raul, “com carinho e admiração infinitos”. Grande guitarrista que é, transmitiu ao filho ilustre a relação amorosa com o Fado.

The fado is an essential part of the Portuguese soul. This music genre has been minutely and clearly explored in the book “Para uma História do Fado”, written by the musicologist Rui Vieira Nery: its origins, development, modern-day expressions, repertoire, performers, performance setting, influence of political ideologies. An indispensable reading for anyone with a true interest in the Portuguese Fado and its history.

O Reaparecimento
Pedro. Desenho a lápis - Maria Fernanda Martins Rosella

Si j’étais Dieu, j’aurais pitié du coeur des hommes…
Maurice Maeterlinck
(Pelléas et Mélisande)

Conheci Pedro no início da década de 70. Chamou-me a atenção aquele rapaz de traços finos, barba e cabelos desalinhados, vestes surradas, que permanecia sempre na mesma confluência de vias importantes de minha cidade-bairro, Brooklin. Ficava sentado, olhar distante, sem nada pedir. Havia, contudo, qualquer semelhança com aqueles personagens saídos da pena de Dostoievsky. Se algo lhe era oferecido, agradecia e voltava a sentar de maneira curiosa, como se estivesse numa concha. Um dia perguntei seu nome e comecei a estabelecer um breve diálogo com ele. Como nada pedia, levava-lhe periodicamente algum mantimento ou vestuário. Simplesmente agradecia.
O Brooklin ainda não tinha sido invadido pela quantidade desmesurada de edifícios em processo predatório do espaço, a causar, no futuro, problemas irrecuperáveis, pois a insaciabilidade imobiliária está a planejar sempre prédios mais altos. Da Rua Jesuíno Maciel com a Av. Santo Amaro avistavam-se as colinas do Morumbi. Dessa confluência, indaguei a Pedro o que ele buscava. Sua resposta deixou-me perplexo. Disse-me que estava a procura da cadência e que sem ela perde-se o sentido das coisas. Quis saber mais e ele, em poucas palavras, comentou que a cadência estava bem longe, a apontar as colinas visíveis do Morumbi. Ao questionar sobre sua vida, permaneceu silencioso.
Certa vez dei-lhe um par de sapatos. Ficou feliz, mas em noite chuvosa pisou em uma madeira com prego, que destruiu a sola e perpassou-lhe o pé, levando-o a algum pronto-socorro. Durante muito tempo andou a mancar, primeiramente com faixas que ficaram escurecidas em pouco tempo. Dificilmente conseguia extrair de Pedro uma frase. Naquele tempo, escrevi um texto sobre o personagem intrigante, em caderno de anotações do cotidiano. O tempo passou e continuei a encontrar o andarilho, que jamais me contou onde se abrigava à noite. Naquele morador de rua havia alguma história diferenciada que se mantinha secreta. Não insistia, mas levava ao Pedro coisas básicas de que precisava. Parado, naquela posição quase fetal, via-o apenas no cruzamento. Deste, como epicentro, Pedro caminhava com rapidez em um diâmetro de cerca de três a quatro quilômetros, sempre a olhar para a frente e sem nada solicitar aos transeuntes. É provável que àquela época mantivesse a esperança de um dia encontrar a cadência.
Comentei em casa o desaparecimento de Pedro. Já fazia parte da minha rotina do olhar e das muitas indagações que elucubrava a seu respeito. Muitos anos após, reagrupando papéis espalhados, encontrei o texto que escrevera sobre ele em 1979, hoje perdido para sempre ao ter organizado outros escritos. Fiquei a pensar em Pedro. Certamente já teria morrido, pois a existência de um morador de rua está sujeita às mais difíceis agruras: alimentação, doenças, inverno, chuvas, violência. Quando passo pela esquina, outros moradores lá estão, na mendicância absoluta, ou outros personagens, como vendedores e acrobatas do infortúnio, alguns com raras habilidades. Pedro faz falta, pois representava a angústia interior a nada mais reivindicar da sociedade.
Há um mês tive uma sensação muito forte. Encontrei Pedro em um sábado, próximo à feira que freqüento, no Campo Belo. Não acreditei ser possível ter ele passado mais de três décadas e sobrevivido a tudo. Parei meu carro no meio-fio e chameio-o pelo nome. Naquela mesma posição fetal, ergueu a cabeça e olhou-me, sem nada dizer. O tempo é ainda mais implacável para os infortunados. Perdera um olho, o rosto marcado pelo total abandono, cabelos e barba desgrenhados, mas havia naquele homem uma dignidade na atitude. Levantou-se. Lentamente lembrei-lhe o passado, os nossos mínimos diálogos, o par de sapatos, as agruras. Algo veio-lhe à memória, pois me olhou fixamente. Falei-lhe da cadência e a recordação vinda das profundezas insondáveis afluiu. Sim, a cadência. Ainda a buscava. Nessa angústia, entendi vagamente que a cadência era seu pai, após cuja morte, confessou-me, saíra pelo mundo sem qualquer rumo, a buscar a cadência hipotética. Ainda não a encontrara, contudo ela existe, afirmou-me. A postura fetal, o caminhar sempre e a busca da cadência faziam sentido.
Tenho-me encontrado aos sábados com Pedro. O ciclo continua. Alquebrado pelo esquecimento de todos, ele um dia deverá encontrar a cadência que tanto almeja.
Escrevera anteriormente sobre Sisuphos (vide Sisuphos, 22 de Março de 2007, categoria Cotidiano). A sua saga persiste. Vejo-o passar diariamente pela rua. Pedro e Sisuphos são naturezas diferentes. Sisuphos, bem mais velho, leva seu carrinho de mão contendo os mesmos objetos de sempre. É mais irascível, pois quando descontente esbraveja e grita. Houve momentos em que, ao encontrá-lo nesse estado, tentei acalmá-lo. Conto sempre com seu sorriso apagado que vem do cerne da história, pois atemporal. Pedro e Sisuphos, moradores da intempérie, sobrevivem, a apontar o dilema absoluto das sociedades. Sem contar a incúria governamental que, preocupada com o assistencialismo que gera votos, coloca no mesmo patamar do esquecimento voluntário obras de saneamento do subsolo e infortunados moradores de rua. Estes, arautos do desespero, impossíveis eleitores. Incapazes de se defender, respiram o verdadeiro ar rarefeito da intolerância humana. Não morrem, porém. Suas chagas interiores, sem despertar a menor caridade, expõem nossas próprias chagas,uma delas a indiferença.

Pedro is a street dweller who since the seventies used to wander up and down the streets in my neighborhood. Silent and lonely, he never asked for anything. I used to give him food and clothes and on one occasion he told me vaguely he was searching for what he called “the cadence”. He then vanished and for the last ten years I thought him dead, given the difficult conditions affecting the homeless. Sometime ago he reappeared unexpectedly, looking old and worn out. I reminded him of our past encounters and for the first time he stammered something regarding the death of his father. Still searching for the cadence, which I understood as the balance he lost after his father died, leaving him alone and adrift, without means of survival. Just one more victim of our callous unconcern for anyone but ourselves and of the government’s lack of interest in addressing the systemic problems that prevent multitudes from living decent lives. After all, Pedro is not a voter.