Origem do Fascínio

Página de O Mundo Pitoresco

Domar a mente
é a tarefa mais importante
da vida de uma pessoa.

XIVº dalaï-lama Tenzin Gyatso (1935 – )

Meu pai e eu aniversariávamos no mesmo dia. Pediu-me que eu o presenteasse com a Valsa op. 64 nº 2 de Chopin, popularmente conhecida como 7ª Valsa. No dia da comemoração, durante o café da manhã toquei para ele o que prometera. O seu presente, jamais esqueceria: O Mundo Pitoresco, a belíssima coleção encadernada em IX tomos ( Rio de Janeiro, W.M.Jackson, 1946, 2.331 págs.). Completava meus 12 anos e a obra seria minha cúmplice geográfica. O mundo lá estava: regiões, povos, tradições, abundantes ilustrações, textos assimiláveis. O adolescente que eu fui leu devotadamente a coleção, sonhou e viajou pelas terras desconhecidas, a pensar em como seria extraordinário conhecer o planeta, na época ainda a apresentar regiões misteriosas e a ter uma integridade física que a incúria humana não fez mais do que deteriorar ao longo das últimas décadas.
Já no início do primeiro volume deixei-me fascinar pelo texto Através das Terras Proibidas, no qual Tibete, Nepal e Butão eram apresentados como regiões localizadas no topo do mundo e praticamente ignotas pelo homem. O autor do relato já advertia que aqueles territórios permaneciam fechados. O jovem cresceu e o interesse por essa região também, não apenas no aspecto geográfico e das populações que lá existem, mas igualmente na maneira como elas entendem a vida através da tradição de milênios a resultar na prática religiosa diária, costumes simples e rudes, respeito absoluto à natureza e deslocamentos constantes de determinadas povoações nômades naquelas alturas gélidas. Vôo para a imaginação. Na adolescência sonhei até em ser alpinista, atividade incompatível para um jovem que se dedicava seriamente ao piano. Todavia, o interesse pela extensa cadeia representada por quantidade imensa de picos acima dos 7.000 metros persistiu, e quando viajo levo comigo escritos sobre o Himalaia.
Tantas foram as obras lidas: aventuras visando à conquista de alguns dos altos cumes, narrativas de viajantes ou daqueles que buscaram refúgio místico, coletâneas de textos enriquecidas por fotos de perfeição mágica, pensamentos filosófico-religiosos; todos ainda despertando no hoje quase septuagenário o prazer inconfessável dos sonhos secretos.
Duas narrativas chamaram-me a atenção neste ano: a de Alexandra David-Néel (Au coeur des Himalayas, Paris, Payot, 2004, 193 págs.) e a de Paul Brunton (Un ermite dans l’Himalaya, France, du Rocher, 2006, 431 págs. trad. do inglês). Ambas pertencem à primeira metade do século XX, quando as regiões mencionadas eram pouco freqüentadas, e abordam aspectos distintos, porém concordantes em tantos ângulos.

Au coeur des Himalayas - Alexandra David-Néel (1868-1969)

A escritora, budista e exploradora francesa Alexandra David-Néel (1868-1969) teve uma vida plena. Escreveu mais de 40 livros sobre viagens, espiritualismo, posicionamentos políticos. Percorreu a região do Himalaia por cerca de quinze anos. Em 1949, é publicado Au coeur des Himalayas, reeditado recentemente. Nele a escritora, que foi a primeira mulher ocidental a se tornar Jétsunema, ou seja, lama, relata uma extraordinária peregrinação durante o inverno de 1912-1913 ao coração das regiões montanhosas, a fim de visitar os lugares onde viveu Buda. Mencionávamos o desconhecido relacionado ao Himalaia. Naquele início de século, a andança de uma mulher voltada à cultura e religião orientais era algo quase inimaginável. Madame David-Néel aprofunda-se no conhecimento das tradições da região. Misticismo, hábitos atávicos, pureza, simplicidade, fatalismo e crueldade são naturalmente expostos enquanto a escritora espiritualista visita lugarejos, paisagens. Nepal e Tibete surgem, sob a pena de David-Néel, como alumbramentos: Ó! Tibete! Como este país tão diferente do meu conseguiu me conquistar de maneira tão profunda, possuindo-me inteiramente corpo e espírito, pensamentos e sensações? A autora observa diferenças entre as arquiteturas dos monastérios da India meridional e aquelas do Tibete e do Nepal; mantém algumas tradições ocidentais, mas incorpora-se, em parte, ao modus vivendi dos monges budistas, respeitando-o; encanta-se com as paisagens fantásticas da cadeia de montanhas entre esses dois últimos países. Compartimenta o termo paisagem. Ela afirmaria ter tido como fim essencial a curiosidade que leva ao conhecimento, no amplo sentido do conhecer “paisagens”. Se altas montanhas, vales, florestas, rios, flores e pedras têm muito a revelar, pois vivem intensidades e para isso é só necessário ter ouvidos e olhos atentos, paisagens são também a vida dos homens e aquilo que eles estão a traduzir através da conduta. Esta evidencia-se por meio das idéias, desejos, crenças, amores, rancores, esperanças, conteúdos sempre em movimento naquilo que a autora nomeia como a própria alma. O livro relata a experiência da viajante frente a um tigre. Imóvel, libertou-se de pensamentos, fitou o animal sem medo, pois estava em meditação, e o felino, após algum tempo, afastou-se. As narrativas de Alexandra David-Néel cativam pela sagacidade das observações.

Un ermite dans l’Himalaya - Paul Brunton (1898-1981)

Paul Brunton (1898-1981), pensador, jornalista, viajante, místico e guru inglês, teve uma vida igualmente intensa. Seus livros refletem o interesse do pensador em busca de explicações que levem o homem à paz interior. Em Un ermite dans l’Himalaya, Paul Brunton em 1936 retira-se do convívio com a turbulenta sociedade londrina e encontra, durante meses, um local perdido entre o Nepal e o Tibete. Instala-se em um bangalô e diariamente passa horas a meditar em local próximo, mas ainda mais alto, de onde descortina segmento da cadeia montanhosa do Himalaia. Um velho deodar – cedro do Himalaia – à frente de um abismo torna-se seu confidente. No livro há relatos dos caminhos percorridos, mas diferentemente de David-Néel, Brunton está na região para esse encontro místico com o almejado esvaziamento do pensar. Compara as múltiplas idéias a ocorrerem na mente de um citadino ocidental com a evaporação dos pensamentos simultâneos, num desiderato único de, em meditação, conseguir a quase impossível meta de, longamente, ter apenas uma fixação. Seria a idéia única que, almejada, deve tornar-se imanente. Em seu exílio voluntário, recebe visitas esporádicas de grandes mestres yogas, como Pranavananda, assim como a de um Príncipe Sábio. Registra tudo em sua máquina de escrever. Pranavananda conta a Brunton que seu mestre, Swami Jnanananda teria permanecido longo período em meditação durante o inverno acima dos 3600 metros, sem roupas e sem fogo para aquecê-lo, apenas com a força do pensamento. Chegara ao estágio de alcançar apenas uma fixação e conservá-la. Parece-nos fantasioso, mas relatos testemunham essa façanha de um verdadeiro yoga despojado de quaisquer outros pensamentos que pudessem distraí-lo ou perturbá-lo. Paul Brunton vive a sua experiência, relata-a e sua narrativa jamais perde o encanto nesse solilóquio previsto. O Príncipe do Nepal que o visitou, Mussooree Shum Shere, escreve na apresentação do livro que Brunton considerava Un ermite dans l’Himalaya horrivelmente egocêntrico, no que o apresentador discordou. A obra tem interesse, a ensinar, através da experiência vivida, que o homem deve buscar, mesmo nas grandes cidades ocidentais, refúgios para a mente, despojando-a de pensamentos dispersos, provocadores e inúteis. Um parágrafo do livro sintetiza o esforço nessa intenção, certo niilismo, mas a certeza de ser a luta constante o caminho a ser seguido: Eis-me presentemente letárgico, inútil à sociedade e sem ocupação lucrativa, um desocupado que se contenta em permanecer sentado sem se mexer e esforçando-se em expulsar vagas de pensamentos invasores que tentam subjugá-lo. Em resumo, eu não tenho nem status oficial nem lugar reconhecido no mundo. Eu não mais sou respeitado. Isso não tem importância!. Como curiosidade, Brunton mantinha em seu bangalô uma foto de Charles Chaplin, dedicando longas reflexões ao ator: porque ele fala a língua universal que brancos, mestiços, amarelos e negros compreendem bem – a língua do humor e do patético. Divaga sobre o esplendor das estrelas em noites imaculadas naquelas altitudes, a comentar não apenas constelações e astros, mas os reflexos noturnos nas paredes nevadas do Himalaia. Assim como Alexandra David-Néel, Brunton encontra na solidão o seu felino, uma pantera. Fixaram-se, o animal demonstrou sua raiva, mas não atacou, devido à “aparente” tranqüilidade do autor. Os livros de Paul Brunton tiveram enorme sucesso. Entrara em contacto com grandes figuras do pensamento místico da India, e o acervo de experiências e captações tornaram Brunton um mestre para seus seguidores. Embora enfoquem período determinado, tornam-se atemporais, despertando interesse de todos que almejam a paz interior.

When I was a boy I was given the encyclopedia O Mundo Pitoresco (The Picturesque World). I read bewitched the stories of far-off countries, with their rich and unique cultural heritage and uncommonly diverse landscape. This was the beginning of my lifelong interest for the Himalayas, home to the world’s highest peaks. This post is about two books I have recently read on this subject: Alexandra David-Néel’s Au Coeur des Himalayas (In the Heart of the Himalayas) and Paul Brunton’s A Hermit in the Himalayas. Two narratives written in the first half of the XXth century, approaching the matter from different but equally fascinating perspectives.

É Possível Julgar?

Tocando Debussy - Carlos Oswald, água forte, 1914

There’s a fine line between genius and insanity.
I have erased this line.

Oscar Levant

Uma aluna fez-me uma pergunta bem mediática: qual o maior pianista do mundo? Sorri, a dizer-lhe que essa é uma longa história, plena de debates e preferências sem fim.
Através dos tempos, o homem tem como uma de suas seguranças a comparação. A reação é rigorosamente humana. Quanto aos escritores, filósofos, músicos, pintores, escultores, cientistas, santos ou sábios, sempre há as predileções. Maior a radicalização, menor o bom senso. Haveria em cada categoria aquele que pudesse ser considerado o melhor? Seria absolutamente impossível catalogar. Sabemos que um atleta tem sua performance aferida pelo cronômetro e será considerado o maior entre todos pelos tempos e recordes quebrados. Aí sim, há algo objetivo que pode ser avaliado.
Em todas as áreas de atuação, mais acentuadamente nestas últimas décadas, elege-se o “maior”. Premiações seriam apenas o corolário de pré-decisões tomadas pelos aficionados, leigos, entendidos, críticos e todas as outras possíveis categorias. Quantas não são as vezes, de Nobel a Oscar, passando-se por milhares de premiações gradativamente menos ventiladas, em que o agraciado desaparece logo após, por falta de bases seguras? Num aspecto menos nobre, muitos prêmios ou homenagens são atribuídos após entendimentos dúbios em bastidores surdos.
Na área pianística, aproximadamente dois séculos viram legiões de maiores pianistas. Críticos e público fizeram as suas escolhas. Havia quem considerasse Carl Tausig (1841-1871) melhor pianista do que Franz Liszt (1811-1886), outros indicariam Ignacy Paderewski (1860-1941), Ferrucio Busoni (1866-1924), Joseph Hofmann (1876-1957), Leopold Godowsky (1870-1938), Wilhelm Kempff (1895-1991), Wilhelm Backhaus (1884-1969), Alfred Cortot (1877-1962), Sergei Rachmaninoff (1873-1943), Vladimir Horowitz (1903-1989), Walter Gieseking (1895-1956). Arthur Rubinstein (1886-1982), Clara Haskil (1895-1960), Claudio Arrau (1903-1991), Vladimir Sofronitsky (1901-1961), Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995), Emil Guilels (1916-1985), Sviatoslav Richter (1915-1997), Gleen Gould (1932-1982) e tantos outros ilustres, a ostentarem o galardão individual outorgado pelos aficionados do “maior pianista”. A lista é realmente extensa. Essas preferências recrudescem sempre, na medida em que, em determinadas gerações, grandes pianistas coexistem dividindo platéias pelo mundo. Quando a morte é precoce, cresce o carisma do pianista desaparecido e ele pode tornar-se uma lenda. Foram os casos de Dinu Lipatti (1917-1950) e William Kapell (1922-1953). Entre os pianistas vivos, escolhas mostram-se claras e por vezes plenas de radicalismo. É motivo a mais para a ebulição que leva à divulgação de nomes que se consagram perante platéias entusiasmadas.
Sob outra égide, é difícil dizer quem foi ou é o “maior”. Primeiramente, aquele que, considerado o melhor, restringe seu repertório a período preciso, mesmo incensado tem suas limitações, pois não teria abrangência. Extraordinário na interpretação de obras de uma época, ser-lhe-ia imputada a dúvida quanto à compreensão de outros períodos da criação musical. Contudo, esse debate passa à margem do grande público. Quando uma expressiva parcela da crítica, do público e de seus pares pianistas detectou em Vladimir Horowitz a primazia como o maior, ateve-se não apenas às qualidades técnico-sonorísticas do intérprete, mas ao seu repertório que se estendia, na perfeição possível, de D. Scarlatti a Prokofieff, Kabalewsky e Barber, seus contemporâneos. Teríamos, pois, na excepcionalidade e na extensão repertorial, critérios de aferição. Todavia não há, nem poderia haver unanimidade em área tão subjetiva como a da interpretação. Horowitz, inclusive, serviu de modelo, e como toda imitação tem suas características detectáveis, tentaram espelhar-se em sua exuberância técnico-pianística, sem contudo alcançarem a abrangência, buscaram a musicalidade e o “toque”, mas o resultado mostrar-se-ia arbitrário. Chegaram até a escrever transcrições à la Horowitz.
É notório, entre os intérpretes mais conhecidos em todas as áreas instrumentais, o auto-incensar, a necessidade de passar, quando competência existe, a aura do insuperável. Este fato é mais palpável entre cantores, violinistas, pianistas e regentes, num sentido geral. Toda uma estrutura é edificada e empresários, mídia e público recebem o ídolo e o cultuam. E este será comparado a outro pelas correntes contrárias. Faz parte da existência o espírito dialético.

Antonieta Rudge (1885-1974)

Em termos brasileiros, um trio de mulheres notáveis evidenciaria divisões de opiniões. Antonieta Rudge (1885-1974), Magdalena Tagliaferro (1893-1986) e Guiomar Novaes (1896-1979) teriam atingido níveis raros de qualidade. Nem por isso, crítica e público deixaram de ter as suas preferências. Se a carreira de Guiomar Novaes foi direcionada unicamente à performance, se em Magdalena Tagliaferro a intérprete estaria amalgamada à grande mestra, nem por isso Antonieta Rudge, que teve uma trajetória mais curta, deixou de evidenciar qualidades absolutamente extraordinárias. As três foram indubitavelmente paradigmáticas.

Guiomar Novaes (1896-1979)

A proliferação de pianistas da média e da nova geração, entre 15 e 40 anos, diluiu de maneira acentuada a idéia do “maior”. Contam-se às muitas centenas pianistas de mérito percorrendo o mundo ou, muitas vezes, apenas o seu próprio país. Quantas não foram as vezes que se ouviu ou se leu: tal figura é o maior pianista de seu país? Para aqueles que viajam, há sempre quantidade de surpresas qualitativas, algumas de altíssimo nível. Essa assertiva tornaria até insensata a possibilidade de se nomear o melhor, pela diversidade do avaliar. Quais os critérios? Baseados em repertório ou repertórios? Estruturados na performance ao vivo ou nas gravações? Num aspecto mais pragmático, não haveria por parte do público essa predileção pelo repetititivo ad nauseam, a provocar no intérprete a necessidade imperiosa de se repetir para continuar sua sobrevivência? E, em sua limitação repertorial absoluta, esse público não compararia apenas poucas obras interpretadas, ilusão de conhecimento, mas verniz social? Saint-Exupéry, em seu isolamento sobre as nuvens, já ponderava que a vaidade é uma doença. Sob outro aspecto, a internet inunda aqueles que a ela têm acesso de profusão de fantásticos pianistas, assim como de legião de pouco ou nada capazes. Está tudo registrado. Se, de um lado, análise elementar faz separar o joio do trigo, nem sempre a aferição é perceptível pelo leigo. Daí joio e trigo convivendo na tela do computador. Democracia dos opostos. Em Tempo de Concerto da USP-FM, 97.3, no programa Idéia, Criação e Interpretação que vai ao ar às terças-feiras (22,00 horas), estarei a apresentar quatro pianistas paradigmáticos do passado: Wilhelm Kempff, Vladimir Horowitz, Emil Guilels e Clara Haskil.
Se tantos foram considerados o Maior do Mundo, se outros tantos se autoproclamam os melhores do planeta, ou de seus territórios, a única certeza foi expressa pelo bom pianista, compositor e ator norte americano Oscar Levant (1906-1972), autor da epígrafe deste post. Atribui-se a ele a resposta a uma pergunta a respeito de qual seria o maior pianista do mundo. Teria respondido que, como todos almejam ser ou se consideram os melhores, ele estava absolutamente tranqüilo, pois tinha a convicção de ser o segundo maior pianista do Terra, posição jamais reivindicada por qualquer colega.

The World’s Greatest Pianist:
The media and the public take great pleasure in electing the best in every category. It is not different with pianists. But would it be possible to choose “the greatest pianist in the world”? I guess not, with so many serious contenders. Many hundreds of excellent pianists are scattered all over the globe. On which criteria should the evaluation be based: the flawless technique, the exuberance of the touch, the extension of the repertoire, live or recorded performance?. Maybe the best answer to this question was given by the American pianist, composer and actor Oscar Levant (1906-1972), who is quoted to have said that since all are hailed as “the best” – or proclaim themselves as such – he was happy to be the second best pianist in the world, a position never claimed by any of his fellow musicians.

Fidelidade Eterna

Camisa de Jair Marinho, década de 60.

O futebol é a coisa mais importante
entre as coisas menos importantes.

Milton Neves

Meu padrinho, de nome Paes, era um português falante. Dono de lojas de sapatos no Rio de Janeiro, estava sempre a visitar São Paulo. Em uma oportunidade, tinha eu oito anos, presenteou-me com uma bola de borracha com cores e emblema da Portuguesa de Desportos. Nascia o torcedor. Gostava tanto daquela bola que, antes de dormir, deixava-a ao lado de minha cama. Curiosamente, meu pai, português, era são-paulino e convenceu dois de meus irmãos a aderirem à sua preferência. João Carlos e eu, que dormíamos no mesmo quarto, preservamos nossas origens. Torcer para a Portuguesa era um duplo orgulho, estruturado na paternidade e na cruz de Avis estampada na bola de borracha.
A Portuguesa, nas fronteiras dos anos 40-50, treinava no Parque do Ibirapuera. João Carlos e eu íamos a pé assistir encantados aos treinos. Certa vez, Nininho cobrou um pênalti – o goleiro era Caxambu – e a bola foi para fora, atingindo em cheio o rosto de meu irmão, que estava perto da trave. João deu uma pirueta e caiu desmaiado. Foi um susto!
A adolescência foi um desfilar de alegrias. Em meados dos anos 50, a Portuguesa tinha o melhor time do Brasil. Seis de seus jogadores foram convocados para a seleção brasileira e nove para a paulista. Um timaço que, não obstante a qualidade, não conseguia ganhar o campeonato estadual. Sempre faltou força da Associação Portuguesa de Desportos junto às Federações e aos Conselhos Arbitrais. O time era tão inconteste em sua qualidade que, apesar da desventura de não ter grande torcida e influência política, por duas vezes foi campeão do Torneio Gomes Pedrosa, que reunia os grandes clubes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Lembro-me até hoje de um dos esquadrões extraordinários da Portuguesa: Muca, Nena e Noronha, Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci, Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Realmente, o timaço. Recebeu a Lusa, por três vezes, a Fita Azul, pois foi o time que, em três excursões à Europa, não perdeu nenhum dos 41 jogos disputados. Ou eram vitórias, ou empates. Sim, numa delas perdeu, contra o poderoso Arsenal, pois chegara pouco antes à Inglaterra, que passava por rigoroso inverno. Nenhum outro, na América Latina, superou esse recorde. O tempo passou, a Portuguesa formaria jogadores extraordinários, mas quase todos acabavam sendo comprados por agremiações mais poderosas financeiramente. Incontáveis os craques que vestiram sua camisa: Ipojucã – Pelé afirmaria, em depoimento, que quando jovem sonhava jogar como ele -, Ivair, Enéas, Dener, Leivinha, Ranulfo, Henrique, Dida, Neivaldo, Reinaldo, Zé Maria, Ditão, Jair Marinho, Jair da Costa, Servílio, Marinho Peres, Pontoni (argentino), Nair, Basílio, Daniel González e Taborda (uruguaios), Cabinho, Pampolini, Wilson Carrasco, os pontas velozes Wilsinho e Ratinho, Dicá, Edu Marangon, Rodrigo Fabri, Leandro Amaral, Ricardo Oliveira e goleiros como Caxambu, Lindolfo, Cabeção, Orlando, Félix – guardião da seleção brasileira campeã em 1970 -, Zecão, Miguel, Aguillera (paraguaio), Clemer… Alguns, como Badeco, maestro do meio campo, Djalma Santos – jamais vi puxetas tão precisas, inacreditáveis -, Capitão – o prenome verdadeiro é Oliude -, Zé Maria, o outro ótimo zagueiro, hoje na Itália, o grande Zé Roberto, jogador de carreira internacional consolidada na Alemanha e artista de nossas últimas seleções, são até hoje torcedores e ídolos da pequena, mas calorosa, torcida lusa. Quando a Portuguesa vai bem, esses torcedores, como em passe de mágica, multiplicam-se. É bom destacar que 8% de todos os jogadores que passaram pela seleção brasileira jogaram determinado período na Portuguesa, sendo que, 4% formaram-se nas escolinhas da lusa. A lista de bons jogadores é enorme e os citados vieram-me no momento da redação do post.
Em 1973, disputávamos o campeonato paulista e tivemos de dividir a taça com o Santos por erros do árbitro Armando Marques. Durante a partida, cometeria uma falha imperdoável ao anular um gol legítimo do ótimo centro-avante luso Cabinho. Na decisão por pênaltis, a Portuguesa desperdiçara três e o Santos acertara dois quando Marques, equivocadamente, encerrou a partida. Errou na matemática, mas nosso Presidente, Osvaldo Teixeira Duarte, entendeu lindamente que houve um êrro de Direito e pediu ao time que se retirasse do campo. Apesar do imbroglio, foi uma alegria. Em 1975, disputamos a final com o São Paulo e perdemos por falhas da arbitragem que, aliás, sempre pendem contra a Lusa. É uma injustiça histórica. Quando a Portuguesa disputou a final do Campeonato Brasileiro em 1996 com o Grêmio, em Porto Alegre, poderíamos até perder por um tento de diferença, mas o gol do time gaúcho ao final levou-nos a esperança de sermos campeões.
Dias difíceis vieram. Nesta década, fomos não apenas para a segunda divisão do campeonato brasileiro, como para a segundona do paulista , categoria que dá “cãibra na vista”, na opinião do célebre Dadá Maravilha. Amargamos e, neste 2007, retornamos às divisões principais dos dois campeonatos.
No dia seis de maio, ganhamos a série B do certame estadual. Um feito. Acabara de dar um recital de piano em Paris e fui ao computador mais próximo, acompanhado da amiga e excelente pianista Sônia Rubinsky. Fiquei eufórico ao saber do título conquistado. Minha mulher, Sônia e eu fomos, a seguir, jantar no apartamento dos amigos Roberts, onde todos aguardavam o instante em que a televisão apresentaria a foto do Presidente eleito da França, pois era o dia do segundo turno. Quando, às oito horas em ponto – tradição no país gaulês –, foi mostrado o retrato de Nicolas Sarkosy, houve alegrias e tristezas. Um amigo, adepto de Segolène Royal, perguntou sobre minha preferência. Disse-lhe apenas que estava um tanto quanto decepcionado. De fato gostaria de ver na tela o emblema da Lusa. Enfim, serviu para boas risadas.
Meu irmão João Carlos, torcedor-símbolo da Portuguesa, convida-me sempre para acompanhá-lo ao estádio quando o jogo é em São Paulo, no Canindé. Não vou. Meu amor pela Lusa é íntimo. Nem pela TV assisto aos jogos, conhecendo os resultados ao final das contendas. Sofro menos. Voltado ao passado, reverencio o trabalho de um grande torcedor, Eduardo Campos Rosmarinho, fundador do Museu Histórico, hoje dirigido pelo competente Vital Vieira Curto. Quantas glórias contidas!
Por outro lado, meu afeto pela Portuguesa data de período romântico, em que jogadores permaneciam nos clubes e amavam a camisa. Hoje tudo mudou. Diria que a massificação do futebol – o esporte mais ventilado em todo o mundo – cresceu de maneira desmesurada e os tempos da moralidade esportiva desapareceram. São os grandes clubes, sempre os mesmos, que estão a ser beneficiados perenemente no Brasil e no Exterior. Nenhum time de nosso país pode manter jogadores, que bem jovens, quando talento existe, vão para todos os continentes. Esses atletas, no estágio brasileiro em clube celeiro, grande ou pequeno, só pensam, não sem razão, no sonho d’além-mar. Só esse fato já não evidenciaria um desequilíbrio abissal entre os melhores times do Brasil e os referenciais de Espanha, Itália, Inglaterra? Se, em disputas de, na realidade, um jogo, times sul-americanos levantam taça em Tóquio quando da Copa Toyota, “aparência” da verdade, nenhum, mas nenhum time latino-americano resistiria minimamente a torneios de longa duração disputados na Europa, justamente pela falta de jogadores extraordinários, pois os melhores de todo o mundo estão a jogar no Velho Continente. É fato.
Sob outra égide, mormente em nossas terras, dirigentes são com freqüência personagens de colunas policiais, a arbitragem é seguidamente contestada, torcidas uniformizadas tornaram-se gangues violentas, bilhetes são adulterados ou ficam em mãos de cambistas, lavagem de dinheiro com a compra e venda de jogadores envolve muita gente e é notíciário constante. Haveria prazer para um torcedor nefelibata, que se afeiçoou um dia a uma bola de borracha com o emblema da terra de seu pai, em freqüentar estádios? Difícil, todavia a fidelidade ao meu time é real, solitária e sem quaisquer possibilidades de abalo.
E a saga da Portuguesa continuará. Prejudicada sempre pelas arbitragens, ela resiste. A esperança está representada por sua pequena, mas fidelíssima torcida, constituída por adultos e jovens. A velha nau encontrou uma vez mais seu rumo, apesar das intempéries, retornando à Série A do Campeonato Brasileiro. Louros ao nosso ex-jogador e hoje técnico Vagner Bennazzi, que conseguiu fazer ressurgir a gloriosa Portuguesa de Desportos. Bem haja, lusa de meu universo lúdico.